{"id":1434,"date":"2016-08-07T12:38:44","date_gmt":"2016-08-07T15:38:44","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1434"},"modified":"2016-07-28T12:44:39","modified_gmt":"2016-07-28T15:44:39","slug":"ler-marx-hoje-faz-todo-o-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/07\/ler-marx-hoje-faz-todo-o-sentido\/","title":{"rendered":"\u201cLer Marx hoje faz todo o sentido\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alexandra Prado Coelho &#8211;\u00a0<\/strong>Na crise do mercado imobili\u00e1rio de 2007-2008 nos <strong>EUA<\/strong>, a melhor solu\u00e7\u00e3o teria sido dar o dinheiro \u00e0s pessoas para elas pagarem as suas d\u00edvidas aos bancos e ficarem com as casas, em vez de o dar aos bancos, que \u201cs\u00f3 se salvaram a eles pr\u00f3prios\u201d, defende o ge\u00f3grafo marxista David Harvey.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 necess\u00e1rio apresentar David Harvey em duas palavras, geralmente usa-se a express\u00e3o \u201cge\u00f3grafo marxista\u201d. Que \u00e9, obviamente, redutora para descrever este brit\u00e2nico de 81 anos h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas a viver nos Estados Unidos, onde \u00e9 professor de Antropologia e Geografia na Universidade da Cidade de Nova Iorque (CUNY).<\/p>\n<p>Autor de mais de duas dezenas de livros, \u00e9 profundamente cr\u00edtico do sistema capitalista, que analisa \u00e0 luz das teorias marxistas, e \u00e9 um defensor da ideia do \u201cdireito \u00e0 cidade\u201d \u2013 que passa pelas reivindica\u00e7\u00f5es atuais relativas \u00e0 qualidade de vida nas cidades. No seu site (davidharvey.org) disponibiliza um curso completo, em v\u00eddeo, para ajudar a uma leitura contempor\u00e2nea do Capital, de Karl Marx.<\/p>\n<p>Harvey foi o orador convidado para a confer\u00eancia de abertura do IX Congresso Portugu\u00eas de Sociologia, que decorreu entre 6 e 8 de Julho na Universidade do Algarve. Come\u00e7ou a sua interven\u00e7\u00e3o de duas horas falando da quantidade de cimento que a China consumiu nos \u00faltimos tr\u00eas anos \u2013 \u201cmais do que os EUA no \u00faltimo s\u00e9culo\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com Harvey, foi a China que \u201csalvou o capitalismo da grande depress\u00e3o que podia ter acontecido\u201d na sequ\u00eancia da crise surgida em 2007-2008 nos EUA, quando a bolha do mercado imobili\u00e1rio rebentou. Uma das consequ\u00eancias dessa crise foi um enorme aumento do desemprego na China, que era um dos grandes fornecedores de mat\u00e9rias-primas para a constru\u00e7\u00e3o nos EUA.<\/p>\n<p>Para absorver essa massa de desempregados e evitar agita\u00e7\u00e3o social, a pr\u00f3pria China lan\u00e7ou-se num boom de constru\u00e7\u00e3o (ter\u00e1, segundo n\u00fameros citados por <strong>Harvey<\/strong>, absorvido 27 milh\u00f5es de trabalhadores), criando novas cidades, algumas ainda sem habitantes.<\/p>\n<p>A corrida \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, argumenta o ge\u00f3grafo, \u00e9 uma sa\u00edda cl\u00e1ssica das crises: foi o que fez a Am\u00e9rica quando teve de absorver os soldados que regressavam da II Guerra ou o que Louis Bonaparte fez na Fran\u00e7a do Segundo Imp\u00e9rio, a partir de 1848. Em todos estes casos \u201cfoi a urbaniza\u00e7\u00e3o que salvou a economia capitalista do colapso econ\u00f4mico\u201d. Mas, lembra Harvey, isto \u00e9 feito \u00e0 custa de um enorme aumento da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>O grande problema, sublinha, \u00e9 que \u201ch\u00e1 uma insanidade nas novas formas de urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o s\u00f3 pela escala como pelo fato de as cidades ficarem cheias de casas vazias que s\u00e3o compradas sobretudo para fins de especula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para habita\u00e7\u00e3o. \u201cHoje, grande parte do capital est\u00e1 a concentrar-se no imobili\u00e1rio e nas rendas.&#8221; E, avisa Harvey, a agita\u00e7\u00e3o social come\u00e7a a surgir cada vez mais ligada \u00e0s quest\u00f5es da vida quotidiana nas cidades \u2013 como aconteceu no Brasil com os protestos que rebentaram em 2014, em parte por causa dos transportes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>No final da confer\u00eancia, o ge\u00f3grafo conversou com o P\u00fablico sobre o &#8220;Brexit&#8221;, o futuro do trabalho, as crises e as eventuais alternativas ao capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>V\u00ea o &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/557135-brexit-um-reves-civilizatorio\" target=\"_blank\">Brexit<\/a>&#8221; como a democracia a funcionar, uma distor\u00e7\u00e3o da democracia em que as pessoas foram de alguma forma manipuladas ou uma forma de protesto contra as desigualdades?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, h\u00e1 uma quest\u00e3o relativamente ao que constitui a democracia. Temos democracias parlamentares, mas a maioria das decis\u00f5es \u00e9 tomada noutros s\u00edtios, h\u00e1 um d\u00e9ficit democr\u00e1tico nos EUA e na Europa. N\u00e3o compreendo porque \u00e9 que o [o primeiro-ministro brit\u00e2nico agora demission\u00e1rio, David] Cameron convocou o referendo, foi uma loucura. Julgo que nunca acreditou que iria perder. O resultado deve ser interpretado como um grande voto de protesto. \u00c9 o equivalente a dizer &#8220;n\u00e3o&#8221;, e as pessoas teriam dito &#8220;n\u00e3o&#8221; a praticamente tudo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um enorme descontentamento que foi canalizado para esse voto. Algum dele n\u00e3o tem nada que ver com a UE, mas \u00e9 contra a forma como as elites tomaram decis\u00f5es, disseram \u00e0s popula\u00e7\u00f5es que estas decis\u00f5es beneficiariam todos, e a maioria n\u00e3o viu nenhum benef\u00edcio no seu n\u00edvel de vida ou rendimentos. Na verdade, muita gente perdeu nos \u00faltimos sete ou oito anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas boas raz\u00f5es para as pessoas se interrogarem sobre para que querem esta UE quando ela faz coisas como fez \u00e0 Gr\u00e9cia e est\u00e1 neste momento a amea\u00e7ar fazer a Portugal. Era suposto ser uma uni\u00e3o de ajuda m\u00fatua e parece ser uma uni\u00e3o cada vez mais com os grandes a porem os pequenos em sentido. Por isso, h\u00e1 algumas boas raz\u00f5es para o voto para l\u00e1 das que s\u00e3o habitualmente referidas como a xenofobia. H\u00e1 um lado de xenofobia, mas seria errado interpretar o voto como apenas o resultado disso.<\/p>\n<p><strong>Defende que o descontentamento das popula\u00e7\u00f5es tem que ver com as condi\u00e7\u00f5es de vida nas cidades mais do que com quest\u00f5es de desemprego. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre defendi que o descontentamento que surge no espa\u00e7o em que vivemos \u00e9 t\u00e3o significativo como o que tem que ver com o desemprego. A esquerda tende a enfatizar a quest\u00e3o do emprego e a desvalorizar os protestos quanto \u00e0 qualidade de vida. Mas muitos dos grandes protestos globais que surgiram nos \u00faltimos 15 anos t\u00eam que ver com a qualidade de vida nas cidades. A pol\u00edtica da vida quotidiana \u00e9 uma \u00e1rea a que devemos estar muito atentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita explora\u00e7\u00e3o que acontece a\u00ed. Pergunte \u00e0s pessoas se est\u00e3o satisfeitas com a forma como os cart\u00f5es de cr\u00e9dito funcionam e com as empresas de comunica\u00e7\u00f5es a cobrar-lhe taxas extras&#8230; h\u00e1 uma grande quantidade de riqueza que nos \u00e9 extra\u00edda na vida quotidiana.<\/p>\n<p><strong>Portanto, o desemprego n\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o dominante?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sem d\u00favida uma preocupa\u00e7\u00e3o, mas se perguntar \u00e0s pessoas que est\u00e3o empregadas se sentem que est\u00e3o a fazer um trabalho que as preenche, h\u00e1 muita gente que dir\u00e1 que \u00e9 um trabalho sem grande sentido. N\u00e3o s\u00f3 muita gente n\u00e3o tem um rendimento proveniente do trabalho mas muita da que tem vive uma exist\u00eancia sem grande sentido no que diz respeito ao trabalho que faz.<\/p>\n<p>Houve sondagens recentes nos EUA, em que se perguntava \u00e0s pessoas se estavam contentes com o seu trabalho e 70% diziam que ou o odiavam ou que lhes era indiferente. H\u00e1 um problema mais vasto que n\u00e3o \u00e9 apenas o desemprego, e os pol\u00edticos colocam muita \u00eanfase na ideia de emprego, emprego, emprego, em vez de se perguntarem, que tipo de emprego? S\u00e3o precisos empregos em que as pessoas sintam que est\u00e3o a contribuir para a sociedade e nos quais tenham orgulho.<\/p>\n<p><strong>Fala-se hoje muito no empreendedorismo, nas pessoas criarem os seus pr\u00f3prios empregos, h\u00e1 <em>startups<\/em> por todo o lado. Como v\u00ea isso?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 hist\u00f3rias maravilhosas sobre pessoas que se tornaram empres\u00e1rios brilhantes, mas h\u00e1 muitas que tentaram isso e n\u00e3o resultou. Mesmo quando resulta, envolve imensa auto-explora\u00e7\u00e3o. H\u00e1 c\u00e1lculos sobre a quantidade de trabalho que \u00e9 feita coletivamente na Internet e a remunera\u00e7\u00e3o por ele \u00e9 de menos de dois d\u00f3lares por hora. H\u00e1 muita auto-explora\u00e7\u00e3o a acontecer nessa \u00e1rea e s\u00f3 nos apercebemos das hist\u00f3rias de sucesso que aparecem nos jornais. Quantas pessoas falham? Ou quantas fazem trabalho do qual outras se apropriam? Organiza\u00e7\u00f5es como a Google ou aAmazon s\u00e3o \u00f3timas a apropriar-se do trabalho dos outros.<\/p>\n<p><strong>Que valor tem hoje o trabalho, comparado com outros per\u00edodos hist\u00f3ricos?<\/strong><\/p>\n<p>Costumava ensinar Marx h\u00e1 40 anos, quando havia um mundo social-democrata \u00e0 nossa volta, e n\u00e3o fazia muito sentido. Mas experimente ler agora o volume 1 do Capital e ver\u00e1 que \u00e9 exatamente o que est\u00e1 a acontecer. Ler Marx\u00a0hoje faz todo o sentido. De certa forma, estamos a voltar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho do s\u00e9culo XIX, que \u00e9 o que o projeto neoliberal pretendia: reduzir o poder do trabalho e p\u00f4-lo numa posi\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o tem capacidade para resistir a processos maci\u00e7os de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 o desenvolvimento de tecnologias que tornam o trabalho cada vez mais redundante. Em Baltimore, em 1969, havia 37 mil pessoas a trabalhar na ind\u00fastria do a\u00e7o. Em 1990, a ind\u00fastria produzia a mesma quantidade de a\u00e7o com 5000 pessoas. Isto tem sido uma caracter\u00edstica dos \u00faltimos 30, 40 anos. Muito trabalho tornou-se redundante, primeiro na ind\u00fastria de manufatura e agora tamb\u00e9m no setor dos servi\u00e7os. Cada vez mais, como consumidor, eu \u00e9 que fa\u00e7o o trabalho. Sou explorado no consumo. Acabamos com uma massa de popula\u00e7\u00e3o dispens\u00e1vel que n\u00e3o tem meios de emprego e que se vai safando com pequenos trabalhos aqui e ali.<\/p>\n<p><strong>A teoria da destrui\u00e7\u00e3o criativa [que parte, ali\u00e1s, do pensamento de Marx] diz que a cada grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico se destroem muitos empregos e tipos de trabalho mas que surgem outros novos. N\u00e3o vai acontecer o mesmo agora?<\/strong><\/p>\n<p>Mas rapidamente um trabalho passa de ser uma tarefa que exige alguma qualifica\u00e7\u00e3o para ser uma coisa que qualquer um pode fazer. H\u00e1 20 anos, os programadores inform\u00e1ticos eram muito qualificados, agora toda a gente sabe criar um site. Surge a necessidade de trabalho qualificado que quase instantaneamente \u00e9 desqualificado.<\/p>\n<p>O capital n\u00e3o gosta que o trabalho tenha qualquer poder de monop\u00f3lio no mercado, por isso garante que a massa das pessoas desenvolve esses conhecimentos rapidamente. Os programadores inform\u00e1ticos j\u00e1 n\u00e3o recebem hoje sal\u00e1rios ao n\u00edvel do que recebiam h\u00e1 vinte anos. E isto acontece em todas as \u00e1reas.<\/p>\n<p><strong>E est\u00e1-se a dar mais um passo importante com os desenvolvimentos na intelig\u00eancia artificial.<\/strong><\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial vai conduzir a uma transforma\u00e7\u00e3o radical do setor dos servi\u00e7os. Da mesma forma que assistimos \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o pelas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas nos anos 70 e 80, vamos ver o equivalente a isso no setor dos servi\u00e7os nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 a falar de elevados n\u00edveis de desemprego.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. E isso levanta a quest\u00e3o, que est\u00e1 a ser colocada por algumas pessoas em <strong>Silicon Valley<\/strong>: se isso acontecer, como \u00e9 que se vai alimentar o mercado do consumo? Da\u00ed que nesse sctor, assim como na esquerda, se tenha come\u00e7ado a discutir a quest\u00e3o de um rendimento b\u00e1sico. Porque se n\u00e3o h\u00e1 essa estrat\u00e9gia para um rendimento&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230; n\u00e3o podemos ser consumidores<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Tem de se dar \u00e0s pessoas meios para que possam continuar a consumir e para que o sistema se mantenha.<\/p>\n<p><strong>Acredita num cen\u00e1rio em que n\u00e3o precisamos de trabalhar, precisamos apenas de consumir?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, j\u00e1 temos algumas experi\u00eancias nesse sentido, como a Bolsa Fam\u00edlia no Brasil, que d\u00e1 \u00e0s pessoas um rendimento m\u00ednimo. \u00c9 uma redistribui\u00e7\u00e3o de rendimento que permite que o mercado continue a funcionar e que \u00e9 condicionada a coisas como p\u00f4r os filhos na escola.<\/p>\n<p><strong>Mandar os filhos para a escola para que possam ter um trabalho quando poder\u00e1 n\u00e3o haver trabalho&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Mas temos de pensar que a educa\u00e7\u00e3o vai ter de se centrar mais em as pessoas adquirirem conhecimentos para desenvolver atividades diferentes que as preencham. H\u00e1 um crescimento consider\u00e1vel no mundo da cultura, com pessoas a fazer atividades culturais com as quais n\u00e3o ganham muito dinheiro mas que as divertem.<\/p>\n<p><strong>E h\u00e1 trabalho volunt\u00e1rio a fazer, porque essas necessidades existem, mesmo sendo tarefas n\u00e3o remuneradas.<\/strong><\/p>\n<p>Na ind\u00fastria dos cuidados, por exemplo. As fam\u00edlias deixaram de tomar conta dos mais velhos, a menos que passe a haver um rendimento para quem fa\u00e7a isso. H\u00e1 mecanismos desse g\u00eanero, alguns que funcionam bem, mas isso n\u00e3o resolve o problema macro, que \u00e9 as din\u00e2micas da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica basearem-se no fato de tornar cada vez mais redundante a for\u00e7a de trabalho, numa altura em que h\u00e1 cada vez mais for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Antes dos anos 80, a China n\u00e3o fazia parte dessa for\u00e7a de trabalho, tal como todo o antigo bloco sovi\u00e9tico. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o crescimento da popula\u00e7\u00e3o \u2013 h\u00e1 muito mais gente dispon\u00edvel para trabalhar em troca de um ordenado e ao mesmo tempo as din\u00e2micas da transforma\u00e7\u00e3o capitalista v\u00e3o no sentido de poupar no trabalho.<\/p>\n<p><strong>Como poderemos pagar por esse rendimento m\u00ednimo para toda a popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Veja o que se passou com a crise financeira de 2007\/2008. As autoridades disseram basicamente isto: \u00e9 preciso salvar o sistema banc\u00e1rio e a finan\u00e7a. Os bancos centrais avan\u00e7aram, aumentaram as disponibilidades de dinheiro \u2013 a flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa \u2013, e esse dinheiro foi para o mercado de a\u00e7\u00f5es, puxou-o para cima, deu bons rendimentos \u00e0s classes mais altas. Ora, podia-se ter feito o mesmo beneficiando as classes mais baixas. Apoiava-se o direito das pessoas a ter uma casa. E todas essas propriedades que foram parar \u00e0s m\u00e3os dos bancos podiam ficar com as pessoas que precisavam delas. Com a crise, as classes mais altas nos EUA aumentaram o seu rendimento em 12%. Esses 12% deveriam ter ido para as classes mais baixas.<\/p>\n<p>Havia uma escolha clara, podia-se salvar os bancos e fazer com que as pessoas perdessem as suas casas ou ir ter com elas e dar-lhes dinheiro \u2013 e assim evitar-se-ia a crise banc\u00e1ria, porque as pessoas pagariam os empr\u00e9stimos. Mas se na altura diss\u00e9ssemos isso, teriam dito &#8220;isso \u00e9 rid\u00edculo&#8221; e n\u00e3o o veriam como uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Essa \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o deveriam os pol\u00edticos estar preocupados com a grande massa dos eleitores?<\/strong><\/p>\n<p>Depende do pa\u00eds. Nos EUA temos corrup\u00e7\u00e3o generalizada do processo eleitoral. N\u00e3o h\u00e1 controle nenhum sobre a capacidade dos ricos comprarem as elei\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio da campanha republicana deste ano, 136 fam\u00edlias foram as grandes contribuintes para os candidatos. Veio uma fotografia no The New York Times em que se viam as casas de seis dessas fam\u00edlias numa mesma \u00e1rea. \u00c9 preciso retirar o dinheiro do processo eleitoral, garantir acesso gratuito \u00e0 televis\u00e3o. A imprensa \u00e9 outro problema: temos uma comunica\u00e7\u00e3o social capitalista, por isso muitas decis\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o-nos apresentadas de forma distorcida.<\/p>\n<p><strong>E o poder que temos como consumidores, n\u00e3o \u00e9 enorme?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns grupos que est\u00e3o a us\u00e1-lo. H\u00e1 alguns exemplos na Internet, vimos isso na campanha de Bernie Sanders\u00a0nos EUA, por exemplo. O grande problema \u00e9 como transformar isso num movimento social que se mantenha unido.<\/p>\n<p><strong>Quando se trata de salvar bancos, o argumento \u00e9 que s\u00e3o essenciais para o funcionamento da economia.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o estou a dizer para deixarem cair os bancos, mas se tiv\u00e9ssemos lidado com a crise do mercado imobili\u00e1rio de outra maneira, os bancos tamb\u00e9m n\u00e3o iriam \u00e0 fal\u00eancia. Salvaram-se a eles pr\u00f3prios, n\u00e3o salvaram mais ningu\u00e9m. Estou s\u00f3 a dizer que h\u00e1 outras op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Houve altera\u00e7\u00f5es significativas no que diz respeito ao controlo do sistema financeiro depois do deflagrar da crise?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria no capitalismo. Estamos sempre a pensar que um capitalismo justo e razo\u00e1vel \u00e9 poss\u00edvel, mas temos de ver a quantidade de ilegalidades e de roubos que acontecem. Deviam ser controlados, e \u00e9 a\u00ed que o Estado entra, mas \u00e9 muito dif\u00edcil controlar muitas destas coisas como vimos com os Panama Papers. O que \u00e9 extraordin\u00e1rio \u00e9 que estamos a falar de pessoas imensamente ricas que poderiam pagar impostos, mas que se d\u00e3o a um imenso trabalho para n\u00e3o pagar nada. P\u00f5em o dinheiro no Panam\u00e1 ou nas ilhas Caim\u00e3o para n\u00e3o pagar impostos. A ideia de que o capitalismo pode ser desenvolvido de forma honesta&#8230; a certa altura interrogamo-nos se isso \u00e9 mesmo poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Isso acontece em grande parte porque a globaliza\u00e7\u00e3o tornou poss\u00edvel levar as coisas para um outro n\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Qual \u00e9 a forma de capital que mais facilmente pode ser deslocada? Pode deslocar-se uma unidade de produ\u00e7\u00e3o, mas toda a gente ver\u00e1, enquanto mudar dinheiro de um s\u00edtio para o outro \u00e9 f\u00e1cil. Faz-se muito dinheiro com estas manipula\u00e7\u00f5es financeiras. Era preciso resolver o problema dos para\u00edsos fiscais, mas esconder dinheiro \u00e9 uma arte que existia na classe capitalista j\u00e1 no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o v\u00ea, ent\u00e3o, nenhuma hip\u00f3tese de um capitalismo mais \u00e9tico?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 hoje muita literatura sobre um capitalismo \u00e9tico e com consci\u00eancia. N\u00e3o digo que todos os capitalistas sejam piratas, h\u00e1, naturalmente, pessoas que se preocupam e que querem criar um capitalismo com \u00e9tica. O que posso dizer-lhes \u00e9: &#8220;Boa sorte, espero que tenham sucesso, avisem-me quando l\u00e1 chegarem.&#8221; Tenho muitas d\u00favidas, mas fico contente por haver pessoas que queiram tentar.<\/p>\n<p><strong>As regras para controlar o sistema teriam de ser globais e aplicadas por todos, o que \u00e9 dif\u00edcil.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. A maioria das d\u00edvidas \u00e9 em d\u00f3lares, e, como vimos, o caso da bancarrota argentina e das negocia\u00e7\u00f5es acabou nos tribunais de Nova Iorque, porque o contrato estava em d\u00f3lares. Nos anos 90, quando se defendia que se devia tra\u00e7ar o circuito do dinheiro, diziam-nos que era imposs\u00edvel. Depois do 11 de Setembro, os EUA\u00a0come\u00e7aram a investig\u00e1-lo e est\u00e1 provado que se consegue fazer. A quest\u00e3o \u00e9 como v\u00e3o usar essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Se n\u00e3o acredita num capitalismo \u201cde rosto humano\u201d, que sistema alternativo defende?<\/strong><\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias n\u00e3o acontecem do dia para a noite, mas h\u00e1 muita gente que acredita que melhor \u00e9 poss\u00edvel. Se for \u00e0 China, vai ver que aconteceu uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e todos est\u00e3o otimistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de que \u00e9 poss\u00edvel mudar o mundo e de o fazer muito rapidamente. Por outro lado, sou suficientemente velho para me lembrar do mundo antes de o neoliberalismo se ter afirmado, e era um mundo muito diferente, as rela\u00e7\u00f5es sociais que existiam, as institui\u00e7\u00f5es em que as pessoas confiavam ou n\u00e3o. Muito disso acabou. Houve uma revolu\u00e7\u00e3o, ou melhor, uma contra-revolu\u00e7\u00e3o, que nos afastou da social-democracia para esta pol\u00edtica de austeridade de direita.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 a falar dos anos 50, 60?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, os anos 70 e 80 foram o ponto de viragem. Estas grandes mudan\u00e7as acontecem. Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o foi bem contada. A classe capitalista estava at\u00e9 ent\u00e3o bastante desorganizada e organizou-se nos anos 80, a n\u00edvel ideol\u00f3gico e de estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A esquerda falhou por v\u00e1rias raz\u00f5es, em parte pela repress\u00e3o de muitos dos movimentos, mas tamb\u00e9m por ter ideias muito m\u00e1s sobre como uma economia alternativa poderia funcionar. Infelizmente, o modelo sovi\u00e9tico n\u00e3o \u00e9 um bom modelo, o chin\u00eas tornou-se v\u00e1rias vezes um desastre, por isso a esquerda ficou muito confusa sobre que tipo de modelo alternativo poderia ser criado. Isso permitiu que os neoliberais ganhassem espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 experi\u00eancias a acontecer em torno de uma economia solid\u00e1ria, ou formas colectivas de propriedade, ou formas alternativas de governo e de sistemas monet\u00e1rios. N\u00e3o sabemos o que vai resultar da\u00ed, o que pode passar para uma escala maior, porque muitas destas experi\u00eancias s\u00e3o muito locais.<\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 uma maneira muito simples de come\u00e7ar a pensar nestas coisas. Na minha altura, o ensino superior era gratuito. Desde ent\u00e3o tornou-se cada vez mais uma commodity. Bernie Sanders veio defender um sistema de ensino superior gratuito. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para n\u00e3o o fazermos. Acabava-se com as enormes d\u00edvidas que os estudantes t\u00eam. E os mais novos pensam: &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1 ideia.&#8221; N\u00e3o parecem incomodados por ser socialismo, se fizer sentido para eles. Devia haver um sistema de sa\u00fade para todos e acabarmos com este disparate das companhias de seguros, que perdem o tempo delas e o nosso com um trabalho in\u00fatil que \u00e9 o de nos negar os nossos direitos.<\/p>\n<p><strong>Fala em socialismo e marxismo, mas para muita gente s\u00e3o palavras intimamente associadas a regimes repressivos e sem liberdade pol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas podem preferir ser livres sem acesso a cuidados de sa\u00fade. Marx sempre falou em liberdade: os trabalhadores s\u00e3o livres num duplo sentido, o de fazer um contrato com quem quiserem, mas tamb\u00e9m est\u00e3o libertos de qualquer acesso aos meios de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. T\u00eam de os comprar. Se n\u00e3o t\u00eam poder para os comprar, passam fome. Sim, h\u00e1 uma troca. N\u00e3o existe um sistema de total liberdade. Um sistema livre \u00e9 sempre baseado em alguma percentagem de falta de liberdade. A liberdade existe muitas vezes num contexto de certos tipos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/557836-ler-marx-hoje-faz-todo-o-sentido<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandra Prado Coelho &#8211;\u00a0Na crise do mercado imobili\u00e1rio de 2007-2008 nos EUA, a melhor solu\u00e7\u00e3o teria sido dar o dinheiro \u00e0s pessoas para elas pagarem as suas d\u00edvidas aos bancos e ficarem com as casas, em vez de o dar aos bancos, que \u201cs\u00f3 se salvaram a eles pr\u00f3prios\u201d, defende o ge\u00f3grafo marxista David Harvey. 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