{"id":14257,"date":"2020-11-14T18:02:52","date_gmt":"2020-11-14T21:02:52","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14257"},"modified":"2020-11-10T18:05:48","modified_gmt":"2020-11-10T21:05:48","slug":"para-pensar-a-desalienacao-do-trabalho-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/11\/14\/para-pensar-a-desalienacao-do-trabalho-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Para pensar a desaliena\u00e7\u00e3o do trabalho no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ignacio Mauro<\/strong> &#8211; J\u00e1 n\u00e3o basta redefinir o \u201ccontrato de trabalho\u201d nos novos ambientes. \u00c9 necess\u00e1rio redefinir o pr\u00f3prio conceito de trabalho incorporando todos os tipos de atividades. Implica colocar em primeiro plano a democratiza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de um futuro alternativo precisa de um di\u00e1logo permanente sobre os principais vetores e tend\u00eancias que constroem o progresso: o impacto da tecnologia digital, a quest\u00e3o ambiental e clim\u00e1tica\u00a0e as diferen\u00e7as de g\u00eanero. Esse di\u00e1logo n\u00e3o pode ser abstrato, nem elitista, mas deve atrair a aten\u00e7\u00e3o dos sujeitos sociais que ancoram as energias da mudan\u00e7a, come\u00e7ando pelo mundo do trabalho e a atividade sindical.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos 10 anos, concentra-se um conjunto de transi\u00e7\u00f5es que precisamos abordar simultaneamente porque afetam a vida como a conhecemos. Tudo est\u00e1 sujeito a muta\u00e7\u00f5es. E, claro, o que entendemos por trabalho: n\u00e3o s\u00f3 a l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas, mas tudo aquilo que o identifica como o espa\u00e7o priorit\u00e1rio de realiza\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento do ser humano.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 agora essa utopia esteve voltada, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a superar a aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador em \u201cseu trabalho\u201d, hoje, as cadeias globais de valor, as profundas e cont\u00ednuas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e as limita\u00e7\u00f5es objetivas dos recursos naturais e a incorpora\u00e7\u00e3o do trabalho \u201cn\u00e3o-produtivo\u201d associado aos cuidados ampliam e universalizam os desafios de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho se socializa mediante mudan\u00e7as que introduzem novas contradi\u00e7\u00f5es que afetam a pr\u00e1tica sindical, na medida em que ampliam o foco do bem comum desejado at\u00e9 torn\u00e1-lo menos acess\u00edvel e mais complexo para administrar.<\/p>\n<p>Podemos nos servir da Pir\u00e2mide de Maslow e seu significado para mostrar a contradi\u00e7\u00e3o do momento. Esta tese sustenta que na medida em que o progresso econ\u00f4mico satisfaz as necessidades b\u00e1sicas associadas \u00e0 subsist\u00eancia e \u00e0 seguran\u00e7a, v\u00e3o surgindo novas necessidades humanas relacionadas a valores superiores (\u00e9tica, criatividade, equil\u00edbrio), situados no espa\u00e7o do reconhecimento e da autorrealiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acontece que aquele paradigma nascido em 1943, no alvorecer do Estado de Bem-Estar, confiava na utopia de um desenvolvimento cont\u00ednuo que acabaria se ampliando e colocando o bem-estar ao alcance de todos, suposi\u00e7\u00e3o que foi pelos ares nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O que aconteceu e est\u00e1 acontecendo \u00e9 que boa parte do g\u00eanero humano, e em particular do mundo do trabalho dos pa\u00edses desenvolvidos, est\u00e1 percorrendo o caminho inverso, retornando a preocupa\u00e7\u00f5es muito mais b\u00e1sicas que giram em torno da seguran\u00e7a em seus ingressos e do medo da precariedade e a perda de retribui\u00e7\u00f5es est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Isso interrompe a linha de progresso e gera uma contradi\u00e7\u00e3o que afeta de cheio as possibilidades de \u00eaxito das op\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<h4><strong>Direitos trabalhistas versus direitos cidad\u00e3os<\/strong><\/h4>\n<p>Comecemos pela conex\u00e3o entre trabalho e tecnol\u00f3gicas digitais. Se o trabalho pode ser repartido em microtarefas, se o trabalhador pode depender simultaneamente de v\u00e1rios empregadores, se a atividade desenvolvida se desconecta de sua condi\u00e7\u00e3o in situ para poder ser realizada a qualquer momento e de qualquer lugar, at\u00e9 desfazer a linha que separa o tempo de trabalho e n\u00e3o-trabalho, ent\u00e3o acaba desaparecendo a fronteira entre a vida pessoal e a vida profissional e entre a regula\u00e7\u00e3o dos tempos produtivos e os reprodutivos.<\/p>\n<p>Nesse contexto, os direitos trabalhistas se tornam algo indissoci\u00e1vel dos direitos cidad\u00e3os. E as normas sobre concilia\u00e7\u00e3o, rendas m\u00ednimas garantidas, acesso \u00e0 moradia, mobilidade urbana, sustentabilidade das atividades produtivas, desconex\u00e3o digital, forma\u00e7\u00e3o permanente, acesso flex\u00edvel \u00e0 aposentadoria\u2026 come\u00e7am a fazer parte de uma nova bateria de demandas e direitos sociais que se conectam intimamente com o puramente laboral.<\/p>\n<p>Sendo assim, n\u00e3o basta redefinir o \u201ccontrato de trabalho\u201d nos novos ambientes, mas \u00e9 necess\u00e1rio redefinir o pr\u00f3prio conceito de trabalho incorporando todos os tipos de atividade. Hoje, mais do que nunca \u00e9 indispens\u00e1vel a inclus\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o aos cuidados \u201cimprodutivos\u201d, integrando-os em um novo per\u00edmetro conceitual mais amplo e complexo.<\/p>\n<p>Objetivamente, isso estimula a enfrentar os m\u00faltiplos aspectos da democratiza\u00e7\u00e3o da economia e, em particular, as consequ\u00eancias do direito de propriedade em sua dimens\u00e3o mais ampla, aquela que determina o que se produz, como se produz e o modo como se organiza a vida em torno da produ\u00e7\u00e3o e o consumo.<\/p>\n<h4><strong>Como converter essa necessidade em consci\u00eancia geral<\/strong><\/h4>\n<p>No entanto, n\u00e3o podemos esperar que a urg\u00eancia hist\u00f3rica desse desafio seja compreendida por todos. De fato, a polariza\u00e7\u00e3o do trabalho e o esvaziamento das classes m\u00e9dias distorce e extirpa o quadro de necessidades humanas previsto por Maslow.<\/p>\n<p>Para boa parte dos trabalhadores e inclusive para os coletivos crescentes de classes m\u00e9dias que percebem a precariedade como risco certo, o fato de que as f\u00e1bricas poluam, que suas empresas vendam armas e alimentem guerras distantes ou que descumpram os objetivos de desenvolvimento sustent\u00e1vel tem import\u00e2ncia secund\u00e1ria, sempre vem depois de sua estabilidade no emprego, da qual depende sua pr\u00f3pria subsist\u00eancia e a dos seus.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio ocorre com as camadas de profissionais localizadas em megacidades favorecidas pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico, cujo trabalho \u00e9 desenvolvido em condi\u00e7\u00f5es objetivas para compreender e assimilar como urgentes esses valores superiores do equil\u00edbrio, a m\u00e9dio e longo prazo, associados \u00e0 sustentabilidade ou \u00e0 cultura de paz como princ\u00edpio da rela\u00e7\u00e3o entre na\u00e7\u00f5es, ou a incorpora\u00e7\u00e3o do cuidado \u201cimprodutivo\u201d como parte do trabalho, como tamb\u00e9m os limites f\u00edsicos ao crescimento.<\/p>\n<p>Quando se assume que a constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia geral \u00e9 o prop\u00f3sito essencial, \u00e9 preciso se perguntar como amalgamar essas diferentes vis\u00f5es que surgem de realidades t\u00e3o distintas. Esse desafio, que exige recuperar a primazia da pol\u00edtica sobre a economia, afeta uns e outros|: as camadas mais preparadas e conscientes que constroem relatos de um futuro desejado a m\u00e9dio e longo prazo e as precarizadas que n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es a n\u00e3o ser de sobreviver dia a dia. Sintetizar as duas vis\u00f5es for\u00e7a a romper com uma din\u00e2mica na qual convivem e se retroalimentam posturas elitistas e populistas que se solidificam nas diferentes camadas sociais e impedem o esbo\u00e7o de um bem comum compartilhado.<\/p>\n<p>Como conectar as solu\u00e7\u00f5es aos problemas deste mundo \u00e0s necessidades concretas dos setores precarizados que mais sofrem a desigualdade\u00a0\u00e9 a grande tarefa do momento. Porque a pessoa que sofre, se sente s\u00f3, sem que ningu\u00e9m lhe ofere\u00e7a respostas, n\u00e3o tem motivos para olhar para esse futuro desejado. De tal modo que existe o risco certo de que as propostas simples (fechar fronteiras, introduzir tarifas, expulsar imigrantes), procedentes das for\u00e7as reacion\u00e1rias, tenham \u00eaxito como consequ\u00eancia da f\u00e9 em uma prote\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria que n\u00e3o encontra em nenhum outro discurso.<\/p>\n<h4><strong>Quais bens jur\u00eddicos devem ser protegidos?<\/strong><\/h4>\n<p>O tema central \u00e9 justamente dar resposta \u00e0 necessidade de prote\u00e7\u00e3o (do que estamos protegidos? Quem est\u00e1? Quando estamos e quando n\u00e3o?), o que significa que precisamos ser capazes de contar com um marco espec\u00edfico de direitos vi\u00e1veis, em que todos possam colocar sua expectativa de futuro em um horizonte de razo\u00e1vel certeza.<\/p>\n<p>Se no passado se lutou pelos direitos dos trabalhadores, pela estabilidade dos contratos, pela cria\u00e7\u00e3o de um sistema em que todos pudessem construir sua vida com relativa serenidade e tra\u00e7ar o futuro de seus filhos, hoje, somos for\u00e7ados \u00e0 dupla necessidade de universalizar e especificar, em detalhes, as novas demandas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de imaginar um novo pacto social, uma nova carta de direitos aplic\u00e1veis a todos os cidad\u00e3os em condi\u00e7\u00f5es de continuar oferecendo energias \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>Os direitos trabalhistas n\u00e3o podem estar vinculados a um tipo de contrato, nem tampouco se limitar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de assalariado, mas devem ser ampliados para outras atividades sociais n\u00e3o remuneradas e que hoje n\u00e3o cabem na ideia \u201ctrabalho\u201d, inclusive se estas se produzem fora dos tempos vitais \u201cativos\u201d (aposentados, gestantes).<\/p>\n<p>Essa linha for\u00e7a todo o ecossistema do direito trabalhista a mudar o marco ideol\u00f3gico em que se move atualmente e enfrentar sua desmercantiliza\u00e7\u00e3o. Na medida em que o direito ao trabalho se limita a estabelecer como contrapartida uma retribui\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, reconhece uma aus\u00eancia de ambi\u00e7\u00e3o e se incapacita para imaginar o direito de influenciar sobre a obra realizada, ou seja, sobre o produto de seu trabalho.<\/p>\n<p>Para os assalariados, trabalhar \u00e9 um meio a servi\u00e7o de um fim que \u00e9 a obten\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio. N\u00e3o o educa sobre o que produzir, nem sobre a raz\u00e3o para isto ou como produzir, mas se limita a um marco mercantil que se retroalimenta.<\/p>\n<p>Trata-se de se aprofundar na tese das mercadorias fict\u00edcias de Karl Polanyi e nas graves disfun\u00e7\u00f5es que acarreta tratar o trabalho junto com a natureza, o dinheiro e a sa\u00fade como uma mercadoria, uma fic\u00e7\u00e3o que interrompe a unidade entre sociedade e natureza e entre os pr\u00f3prios homens e mulheres.<\/p>\n<h4><strong>Redefinir e ampliar o foco sindical para a democracia econ\u00f4mica<\/strong><\/h4>\n<p>Conquistar o interesse do trabalhador pelo fruto de seu trabalho \u00e9 a ess\u00eancia da mudan\u00e7a para a democracia econ\u00f4mica. Nesse contexto, o reconhecimento do direito de alerta ecol\u00f3gica dos trabalhadores \u00e9 um sinal da emerg\u00eancia e alimentaria uma ideia avan\u00e7ada de democracia econ\u00f4mica, que reconhece a todos um direito de controle sobre os m\u00e9todos e as finalidades de seu trabalho em todos os n\u00edveis e at\u00e9 as suas \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Seria uma mudan\u00e7a conceitual importante, essencial na redefini\u00e7\u00e3o dos direitos sociais e de seus sujeitos, em especial dos sindicatos, que passariam a defender todas as formas de contribui\u00e7\u00e3o social e a representar todas as formas de trabalho, ampliando seu \u00e2mbito de a\u00e7\u00e3o e buscando respostas permanentes \u00e0s novas necessidades de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 algo alheio e nem desconhecido pelos sindicalistas. Mas \u00e9 um passo al\u00e9m na dif\u00edcil tarefa de universalizar os objetivos enquanto se luta em uma realidade multifragmentada.<\/p>\n<p>A complexidade das rela\u00e7\u00f5es produtivas e o desenvolvimento de cadeias globais h\u00e1 d\u00e9cadas socializa o conflito capital\/trabalho e despersonaliza o empres\u00e1rio explorador, sofrendo a externaliza\u00e7\u00e3o de parcelas produtivas fora do per\u00edmetro da empresa tradicional. O trabalho sindical precisa dar um salto: cabe agora despertar o interesse do trabalhador para o que produz e como produz.<\/p>\n<p>Encarar o que se produz sup\u00f5e, no n\u00edvel mais alto, abordar tamb\u00e9m a necessidade de se reconfigurar, substituir e\/ou reduzir o tamanho e o destino de muitos setores-chave (constru\u00e7\u00e3o, automa\u00e7\u00e3o, turismo, finan\u00e7as, consumo), que representa uma parte substancial do PIB de nossa economia.<\/p>\n<p>A dificuldade \u00e9 integrar os objetivos parciais ao alcance da vis\u00e3o humana em uma grande tarefa de dimens\u00e3o desconhecida. E aqui aparece esse apontamento otimista que Alain Supiot\u00a0re\u00fane em sua an\u00e1lise sobre o trabalho no s\u00e9culo XXI. Por que, pergunta-se Franz Kafka em A Muralha da China, foi necess\u00e1rio constru\u00ed-la por segmentos e n\u00e3o de forma linear? Porque s\u00f3 a sua constru\u00e7\u00e3o fragmentada podia dar sentido \u00e0 vida de quem se sentia animado pelo prazer do trabalho bem feito e pela ambi\u00e7\u00e3o de ver um dia sua obra acabada. Se tivessem trabalhado apenas por seu sal\u00e1rio, teriam sido incapazes de realizar a grande obra.<\/p>\n<p>Agora, nosso grande desafio \u00e9 tamb\u00e9m o de encontrar as partes que d\u00e3o sentido ao todo, sabendo que esse todo \u00e9 tamb\u00e9m do tamanho equivalente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da grande muralha chinesa.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/para-pensar-a-desalienacao-do-trabalho-no-seculo-xxi\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ignacio Mauro &#8211; J\u00e1 n\u00e3o basta redefinir o \u201ccontrato de trabalho\u201d nos novos ambientes. \u00c9 necess\u00e1rio redefinir o pr\u00f3prio conceito de trabalho incorporando todos os tipos de atividades. 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