{"id":1423,"date":"2016-07-27T15:45:08","date_gmt":"2016-07-27T18:45:08","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1423"},"modified":"2016-07-27T15:48:46","modified_gmt":"2016-07-27T18:48:46","slug":"projeto-curdo-todos-devem-ter-acesso-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/27\/projeto-curdo-todos-devem-ter-acesso-a-democracia\/","title":{"rendered":"Projeto curdo: \u201cTodos devem ter acesso \u00e0 democracia\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>RAPHAEL SANZ, ANELISE CSAPO E GUILHERME LAND<\/strong> &#8211;\u00a0Diante de um contexto global de turbul\u00eancia, o Oriente M\u00e9dio assiste a ascens\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico (EI) na S\u00edria e no Iraque, que somada \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o desses Estados contribui para que milh\u00f5es de pessoas fujam da regi\u00e3o e gerem o que o Ocidente chama de \u201ccrise de refugiados\u201d. Paralelamente, dois fortes aliados dos EUA e Uni\u00e3o Europeia (UE) na regi\u00e3o, Israel e Ar\u00e1bia Saudita, promovem guerras, mandos e desmandos em suas respectivas \u00e1reas de influ\u00eancia, assim como a Turquia, que na \u00faltima sexta-feira sofreu uma tentativa de golpe militar contra o governo do presidente Erdogan. Este, \u00e9 visto por muitos como principal algoz da causa curda que, por sua vez, est\u00e1 implantando um projeto democr\u00e1tico nas \u00e1reas que controla. Tamb\u00e9m no Ir\u00e3 h\u00e1 tens\u00f5es e setores curdos vivendo dentro das fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>Enquanto nosso imagin\u00e1rio sobre o Oriente M\u00e9dio vem sendo constru\u00eddo a partir de not\u00edcias de guerras, opress\u00f5es, fundamentalismos e tiranias, h\u00e1 tamb\u00e9m um horizonte de luta por democracia e autodetermina\u00e7\u00e3o. Na regi\u00e3o aut\u00f4noma de Rojava, no Curdist\u00e3o S\u00edrio, fronteira com a Turquia, existe um projeto de autonomia popular sendo posto em pr\u00e1tica pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o), contrapondo-se a conjuntura aterrorizante da regi\u00e3o. Para falar sobre essa alternativa curda, bem como fazer uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio, entrevistamos Yilmaz Orkan, representante do Comit\u00ea de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do Congresso Nacional do Curdist\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante a conversa, Orkan se orgulha e descreve em detalhes o projeto pol\u00edtico intitulado Confederalismo Democr\u00e1tico, constru\u00eddo a partir de uma reciclagem de velhas ideias do PKK promovida pelo l\u00edder encarcerado Abdullah Ocalan e pelo qual setores autorit\u00e1rios do Oriente M\u00e9dio e da Turquia nutrem temor. \u201cPor termos o projeto mais progressista, alguns pa\u00edses apoiam o EI, de forma velada ou aberta, por terem em comum uma tradi\u00e7\u00e3o conservadora e tamb\u00e9m para atacar o projeto de autonomia democr\u00e1tica de Rojava. Este projeto \u00e9 um perigo para a monarquia, para o fundamentalismo religioso, para o autointitulado Estado Isl\u00e2mico e para todos os ditadores que vivem no Oriente M\u00e9dio\u201d, declara.<\/p>\n<p>Exilado de seu pa\u00eds e ap\u00f3s r\u00e1pida deten\u00e7\u00e3o na Espanha, acusado de participar de um aparato de extors\u00e3o do PKK, Orkan prefere falar sobre as ideias que d\u00e3o combust\u00edvel ao projeto pol\u00edtico de seu povo, al\u00e9m de entrar em mais detalhes relativos \u00e0 hist\u00f3ria dos curdos, sua resist\u00eancia e defesa da cultura e do territ\u00f3rio, convidando-nos a voltar a caminhar na dire\u00e7\u00e3o da utopia.<\/p>\n<p>\u201cHoje em um dos cant\u00f5es temos dois presidentes: um \u00e1rabe e uma curda. Se em um comit\u00ea chamam-se dois ou tr\u00eas s\u00edrios, tem de ser chamado o mesmo n\u00famero de \u00e1rabes e curdos. Valorizamos a diferen\u00e7a. Todos devem representar suas opini\u00f5es na administra\u00e7\u00e3o da sociedade. E sempre ponderando que vivemos com a utopia de um dia acabar com esse Estado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Confira abaixo a entrevista na \u00edntegra.<\/strong><\/p>\n<p>Correio da Cidadania: \u00c9 not\u00e1vel a diferen\u00e7a na filosofia adotada pelo PKK e pelo projeto curdo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 boa parte dos projetos populares ao longo do planeta, especialmente na regi\u00e3o. Como voc\u00ea explica e avalia tal diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Muitos curdos n\u00e3o querem um Estado-Na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o querem independ\u00eancia, nem separatismo, mas conviv\u00eancia e autonomia democr\u00e1tica. N\u00e3o s\u00f3 pelo povo curdo, mas em todo o Oriente M\u00e9dio. Chamamos \u201cconfederalismo democr\u00e1tico sem fronteiras\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 cinco povos que s\u00e3o fundamentais atores no Oriente M\u00e9dio: \u00e1rabes, persas, turcos, hebreus e curdos. Por isso acreditamos no Confederalismo Democr\u00e1tico. Observamos que os outros quatros povos t\u00eam um Estado-Na\u00e7\u00e3o e sua independ\u00eancia. N\u00f3s, curdos, n\u00e3o temos um Estado-Na\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m n\u00e3o fazemos quest\u00e3o de ter, porque pensamos que a forma\u00e7\u00e3o de um n\u00e3o necessariamente nos trar\u00e1 a autodetermina\u00e7\u00e3o e a sonhada independ\u00eancia, vide o que se v\u00ea nos vizinhos. Em aproximadamente um s\u00e9culo, os outros povos da nossa regi\u00e3o conquistaram seus Estados-Na\u00e7\u00e3o; j\u00e1 a autodetermina\u00e7\u00e3o pode demorar sei l\u00e1 quantos s\u00e9culos para vir.<\/p>\n<p>Isso contradiz a f\u00f3rmula oficial de que um Estado-Na\u00e7\u00e3o pode trazer autodetermina\u00e7\u00e3o, o que ainda confunde muitas cabe\u00e7as em todo o mundo, especialmente no Ocidente. Hoje, o Estado-Na\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema n\u00e3o s\u00f3 para o Oriente M\u00e9dio, mas todo o mundo, pois separa os povos e as culturas como um todo. Separa irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Quando acabou o Imp\u00e9rio Otomano, houve um tratado firmado ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial que aceitou a forma\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de Estados-Na\u00e7\u00e3o, como S\u00edria, Ir\u00e3, L\u00edbano, Jord\u00e2nia, Ar\u00e1bia Saudita, Kuwait, depois Israel, assim como todos os pa\u00edses do Golfo. E o Curdist\u00e3o est\u00e1 no meio de tudo. Um curdo na Turquia pode ter dois irm\u00e3os e um viver na S\u00edria, enquanto o outro vive no Iraque. No nosso caso, literalmente separa irm\u00e3os. Levando isso em conta, a nossa autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pensa s\u00f3 na divis\u00e3o da terra, mas na cultura, na fam\u00edlia, na rela\u00e7\u00e3o com a terra, com o meio ambiente&#8230; Tentamos pensar em tudo.<\/p>\n<p>Ademais, Estados-Na\u00e7\u00e3o competem entre si e devem usar como argumento o nacionalismo. Por exemplo, se queremos criar um Estado-Na\u00e7\u00e3o chamado Curdist\u00e3o, devemos nos utilizar do nacionalismo curdo. \u201cSomos curdos, somos fortes, somos \u00fanicos, somos os melhores\u201d, o que n\u00e3o cria amizade nem conviv\u00eancia. Queremos a conviv\u00eancia pac\u00edfica e a autonomia democr\u00e1tica para todo o Oriente M\u00e9dio. Este ideal requer, antes de mais nada, um projeto de mentalidade, novos homens e mulheres que tragam paz para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos dois grandes conflitos hoje. Um \u00e9 o conflito curdo, com Iraque, Turquia e S\u00edria. Outro \u00e9 a quest\u00e3o palestina. \u00c9 a mesma coisa em diferentes lugares. Ignor\u00e2ncia e desinforma\u00e7\u00e3o ainda agravam a situa\u00e7\u00e3o, tanto dentro quanto fora. O projeto que apoiamos est\u00e1 sendo praticado em Rojava (Curdist\u00e3o S\u00edrio ou Curdist\u00e3o do Oeste \u2013 Rojava significa \u201coeste\u201d em curdo). Uma luta pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que pode ser vista pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais toda vez que barramos os avan\u00e7os do Daesh (uma das denomina\u00e7\u00f5es do Estado Isl\u00e2mico).<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Pode explicar um pouco melhor como funciona o sistema de Confederalismo Democr\u00e1tico nos cant\u00f5es de Rojava?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: H\u00e1 a autonomia democr\u00e1tica de Rojava nos tr\u00eas cant\u00f5es que comp\u00f5em a regi\u00e3o, Kobane, Cizire e Afrim, que s\u00e3o regi\u00f5es criadas pelo projeto do Confederalismo Democr\u00e1tico para descentralizar o poder e dar mais autonomia \u00e0s pequenas localidades.<\/p>\n<p>Assim, a ideia da liberdade, tanto econ\u00f4mica quanto social, pol\u00edtica e religiosa, \u00e9 acess\u00edvel a todos os grupos. Por exemplo, uma comunidade religiosa pode criar seu \u00f3rg\u00e3o representante e participar da vida pol\u00edtica do cant\u00e3o, assim como outras organiza\u00e7\u00f5es dos povos. Com esse sistema, \u00e9 poss\u00edvel chegar a um clima de respeito que evite cenas como as que vemos ao redor do planeta e foram desculpas para guerras civis e golpes de Estado em tantos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Tal projeto n\u00e3o pode ser rotulado como socialismo ou comunismo, tampouco capitalismo. A quest\u00e3o \u00e9 que a democracia tem de ser compartilhada com todos. N\u00e3o pode ter nenhum recorte pol\u00edtico, nem econ\u00f4mico. Maioria e minoria tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o importantes uma vez que todos devem ter acesso \u00e0 democracia. No Curdist\u00e3o, 80% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 curda, outros 20% v\u00eam de outras ra\u00edzes. Todos t\u00eam os mesmos direitos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, direitos sociais, de cidadania, de participa\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Hoje em um dos cant\u00f5es temos dois presidentes: um \u00e1rabe e uma curda. Se em um comit\u00ea chama-se dois ou tr\u00eas s\u00edrios, tem de ser chamado o mesmo n\u00famero de \u00e1rabes e curdos. Valorizamos a diferen\u00e7a. Todos devem representar suas opini\u00f5es na administra\u00e7\u00e3o da sociedade. E sempre ponderando que vivemos com a utopia de um dia acabar com esse Estado. Vemos que o poder emana do Estado, que chega a ser um deus. Queremos um dia n\u00e3o precisar desse deus, n\u00e3o queremos tal for\u00e7a, que pressiona a popula\u00e7\u00e3o para sempre. Por isso \u00e9 importante termos em mente a quest\u00e3o cultural e fortalecer a participa\u00e7\u00e3o em Conselhos Populares.<\/p>\n<p>Os Conselhos n\u00e3o possuem for\u00e7a militar ou administrativa. A for\u00e7a popular \u00e9 uma for\u00e7a pol\u00edtica que vem da base. E as decis\u00f5es feitas em assembleia s\u00e3o as decis\u00f5es que v\u00e3o vigorar para aquele grupo, seja ele uma categoria de trabalhadores, habitantes de um bairro ou comunidade religiosa. E \u00e9 preciso que o governo do cant\u00e3o garanta autonomia do conselho popular que, por sua vez, garanta a autonomia democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>As assembleias populares t\u00eam poder para denunciar e cassar mandatos dos administradores do cant\u00e3o. Por corrup\u00e7\u00e3o, desrespeito a direitos humanos e \u00e0s mulheres ou outros motivos. Ou seja, \u00e9 o contr\u00e1rio do Estado ocidental capitalista, onde as organiza\u00e7\u00f5es populares garantem a soberania do Estado; no Curdist\u00e3o \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio, o Estado \u00e9 obrigado a garantir que as demandas dos conselhos e assembleias sejam atendidas.<\/p>\n<p>O principal desafio para o Confederalismo Democr\u00e1tico incide na cultura pol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio. Muitos povos da regi\u00e3o ainda vivem em sistemas semifeudais, com monarcas absolutos. Por tal raz\u00e3o, agora queremos nos integrar ainda mais com os povos. E com a integra\u00e7\u00e3o mostrar que a vida n\u00e3o se resume somente \u00e0quilo. Temos grandes exemplos nas quest\u00f5es militar e de g\u00eanero especialmente, que mostram que n\u00e3o somos ditadores e queremos o mesmo que eles: paz.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Parece muito com a teoria do municipalismo libert\u00e1rio. Como foi constru\u00eddo todo o ide\u00e1rio aqui exposto? H\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o com os zapatistas, anarquistas ou mesmo marxistas de pr\u00e1ticas heterodoxas?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Em todo o mundo, o movimento anarquista apoia nosso projeto, pois valorizamos a emancipa\u00e7\u00e3o das municipalidades e isso \u00e9 muito importante, ou seja, a participa\u00e7\u00e3o direta. Pensamos em uma democracia real e direta, palavras que voc\u00eas podem ter tido contato pelos Ocuppy de Wall Street ou mesmo com jovens aqui no Brasil que fizeram as ocupa\u00e7\u00f5es das escolas e movimentos contra aumentos no transporte.<\/p>\n<p>Temos o apoio de muitos grupos diferentes em um momento em que muitos partidos tradicionais de esquerda sofrem uma crise de representatividade. Ao contr\u00e1rio deles, temos a simpatia dos anarquistas, o apoio de grupos de mulheres, de religiosos e temos tamb\u00e9m o apoio de movimentos sociais de esquerda, j\u00e1 que muitos nos consideram progressistas.<\/p>\n<p>Nesse momento, os partidos de esquerda tamb\u00e9m sofrem uma crise ideol\u00f3gica, de identidade. Alguns deles buscam entender melhor os fundamentos do nosso projeto, pr\u00f3ximos de suas ideias, a fim de rever seus conceitos. E para n\u00f3s \u00e9 excelente, pois mostra que n\u00e3o somos donos da ideia, mas a humanidade o \u00e9 como um todo.<\/p>\n<p>Por outro lado, como citei na resposta anterior, n\u00e3o \u00e9 simples mudar o paradigma de toda uma civiliza\u00e7\u00e3o. Ainda h\u00e1 muita desinforma\u00e7\u00e3o e muitos povos que vivem sob um grau extremo de opress\u00e3o e falta de liberdade. Todo cidad\u00e3o deve ter a consci\u00eancia e a mentalidade e, para isso, precisamos de mais tempo para completar o quadro desejado. Teoria e pr\u00e1tica devem caminhar juntas.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como foi a mudan\u00e7a de paradigma dentro do PKK?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: O PKK era um partido marxista leninista cl\u00e1ssico, de trabalhadores e independentistas, at\u00e9 o fim de 2002. Mas foi a partir de 1993 que se come\u00e7ou a rediscutir a f\u00f3rmula do partido, pois j\u00e1 havia uma insatisfa\u00e7\u00e3o e uma crise de identidade com o formato cl\u00e1ssico de partido comunista. Portanto, deveria mudar ou se reinventar, se n\u00e3o o pr\u00f3prio partido poderia se extinguir. E at\u00e9 2002 se discutiu muito, ao passo que iam sendo feitas algumas reformas.<\/p>\n<p>Em 2002, quando Abdullah \u00d6calan come\u00e7a a falar do Confederalismo Democr\u00e1tico com o in\u00edcio de seu contato com ideias de um grupo da Am\u00e9rica do Norte, ocorre uma divis\u00e3o no PKK e parte da milit\u00e2ncia, incluindo muitos setores de mulheres, se interessa. Alguns por n\u00e3o vislumbrarem outra perspectiva. Podemos dizer que o l\u00edder do grupo (\u00d6calan) trabalha as ideias que v\u00eam da Am\u00e9rica, interseccionado ao governo regional e \u00e0 realidade do Curdist\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2005, o partido foi ficando ideologicamente mais forte com a ader\u00eancia a tais ideias por parte de mais pessoas, principalmente mais mulheres. Dez anos depois, em 2015, come\u00e7a um novo vento de participa\u00e7\u00e3o com os jovens e estudantes a consolidar sua presen\u00e7a, o partido vai ficando maior e ganha novos militantes. Assim, vai surgindo uma nova gera\u00e7\u00e3o que apresenta diversas mentalidades e formas de ver o mundo, de modo que podemos observar uma primeira atualiza\u00e7\u00e3o do Confederalismo Democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Esse processo traz o partido mais para dentro do guarda-chuva do KCK (Uni\u00e3o das Comunidades do Curdist\u00e3o ou Koma Civak\u00ean Kurdista, em curdo), tendo hoje cerca de 150 mil guerrilheiros no total, dos quais 40 mil mulheres. Sem contar a rede pol\u00edtica formada com muitos partidos novos e movimentos sociais por liberdade religiosa.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como se d\u00e1 a diferen\u00e7a de rela\u00e7\u00e3o entre os curdos em cada um dos quatro pa\u00edses que os dividiram?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: De 1923, quando os Estados dos quatro pa\u00edses se formam, at\u00e9 2015 s\u00e3o 92 anos em que os curdos se encontram na separa\u00e7\u00e3o. Uma parte do povo curdo j\u00e1 tem outra cultura, seja a cultura turca, a iraniana, a s\u00edria ou a iraquiana. Por exemplo, na Turquia n\u00e3o temos o fumo \u00e1rabe (o narguil\u00e9). No Ir\u00e3 tamb\u00e9m n\u00e3o temos o h\u00e1bito, mas os curdos que est\u00e3o na S\u00edria e no Iraque o t\u00eam porque \u00e9 uma cultura hegem\u00f4nica de \u00e1rabes.<\/p>\n<p>No Ir\u00e3 tem outra coisa: uma perda cont\u00ednua no sentido cultural, como tamb\u00e9m na Turquia, onde s\u00e3o obrigados a falar simultaneamente duas l\u00ednguas, o curdo e o turco; o curdo iraniano tem de falar o persa e assim por diante. Temos cinco dialetos: kurm\u00e2nji, sor\u00e2ni, zazaki, gor\u00e2ni e quel\u00fari. Dos cinco, eu posso compreender 60% ou s\u00f3 40%, porque apesar de termos alguma literatura oficial escrita, a maioria das l\u00ednguas vem da tradi\u00e7\u00e3o oral. Agora, temos problemas no alfabeto. Na Turquia usamos o latim, na S\u00edria e no Iraque o latim e o \u00e1rabe. Isso \u00e9 um problema para a integra\u00e7\u00e3o de dialetos no idioma. Mas importa \u00e9 que, apesar disso, temos pensado juntos politicamente.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Conte um pouco mais da sua pris\u00e3o que depois o levou para o ex\u00edlio?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Estou exilado desde 2002. Eu estava dirigindo um partido popular que se chama Hadep. T\u00ednhamos criado o partido em 93, mas em 2003 foi fechado por ter sido considerado inconstitucional.<br \/>\nMinha pris\u00e3o s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 informa\u00e7\u00e3o facilitada pela pol\u00edcia espanhola, a mesma que em 12 de fevereiro de 2015 acabou prendendo 6 pessoas em diferentes pontos do pa\u00eds e declarou a desarticula\u00e7\u00e3o do \u201caparato de extors\u00e3o do PKK na Espanha\u201d. No marco dessa opera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foram presas outras 17 pessoas na Fran\u00e7a e uma na B\u00e9lgica.<br \/>\nO Hadep n\u00e3o era um partido comunista, era um partido curdo. Tivemos muitos problemas s\u00e9rios. Havia um grupo paramilitar, cujo nome significa \u201csoldados de Deus\u201d, que matou 13 dos 67 pol\u00edticos curdos do Hadep na Turquia, e os corpos apareciam depois na rua.<\/p>\n<p>Na Turquia teve muito dirigente pol\u00edtico que foi se exilar na Europa. Por tal motivo tamb\u00e9m passei dois anos na It\u00e1lia, e desde 2002 tenho a documenta\u00e7\u00e3o de refugiado pol\u00edtico. Sempre trabalhei com as confedera\u00e7\u00f5es, as associa\u00e7\u00f5es curdas e tamb\u00e9m com o Congresso Nacional Curdo (KNK). Sou do Curdist\u00e3o turco, da prov\u00edncia de Rovan, ao norte da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como avalia o atual momento do projeto do Confederalismo Democr\u00e1tico na Turquia?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Muito mal, porque apenas em algumas cidades h\u00e1 o Confederalismo Democr\u00e1tico: Cizre, Diyarbakir-Sur, Silvan, Nusaybin, Dargecit, Silopi, Y\u00fcsekova, entre outras. Mas em Silvan o governo mata civis mesmo quando \u00e9 feito o aviso de cessar fogo. De julho at\u00e9 dezembro, mais de 260 civis foram mortos pela pol\u00edcia do governo turco. Hoje, temos um conflito pol\u00edtico e estrangeiros n\u00e3o entram porque o governo turco est\u00e1 matando os civis.<\/p>\n<p>O governo turco apoia o Estado Isl\u00e2mico, mas diz que \u00e9 contra eles e apoia o PKK, sendo que na verdade chamam o partido de terrorista. A YPG, a YPJ (Unidade de Prote\u00e7\u00e3o do Povo e Unidade de Prote\u00e7\u00e3o das Mulheres) e o PKK est\u00e3o nas montanhas curdas, logo, se o governo turco os ataca, acaba assim por ajudar o EI, que quer entrar na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O PKK hoje vai al\u00e9m de um partido pol\u00edtico; ele \u00e9 um partido pol\u00edtico ideol\u00f3gico sob o sistema guarda chuva do KCK \u2013 do qual \u00d6calan \u00e9 o presidente. Tr\u00eas anos ap\u00f3s a pris\u00e3o dele (em 1999) foram feitas negocia\u00e7\u00f5es com a Turquia para uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pac\u00edfica, mas quando a Turquia iniciou seu isolamento na ilha-pris\u00e3o de Imrali, em 5 de abril daquele ano, definiu que ele n\u00e3o poderia ver nem mesmo a pr\u00f3pria fam\u00edlia. A\u00ed vemos o n\u00edvel de negocia\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo com a Turquia.<\/p>\n<p>Recentemente, presenciamos a segunda elei\u00e7\u00e3o com repress\u00e3o ao povo curdo. Em 7 de junho de 2015, houve elei\u00e7\u00f5es gerais na Turquia. Tais elei\u00e7\u00f5es tinham pela primeira vez a proposta do projeto de autonomia democr\u00e1tica junto ao HDP, que superou a margem de 10% dos votos para poder entrar no parlamento \u2013 o que significa, s\u00f3 na Turquia, 5 milh\u00f5es de pessoas. O presidente Erdogan (do AKP, Partido da Justi\u00e7a e Desenvolvimento) tem uma for\u00e7a de lideran\u00e7a criada pelo seu pr\u00f3prio governo e ele n\u00e3o quer criar nenhuma coaliz\u00e3o. A elei\u00e7\u00e3o de 7 de junho era uma elei\u00e7\u00e3o normal, j\u00e1 a de novembro foi um golpe contra o povo curdo, contra o Estado laico e os movimentos sociais. Eles mataram muitas pessoas para trazer o medo psicol\u00f3gico e assim seu partido est\u00e1 sempre se superando. O HDP teve apenas 13% dos votos totais.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: No in\u00edcio da entrevista voc\u00ea comentou que os dois grandes conflitos de mais for\u00e7a atual no Oriente M\u00e9dio s\u00e3o os que envolvem os curdos e os palestinos. O que voc\u00ea pode falar a respeito do conflito entre Israel e Palestina? H\u00e1 algum paralelo com a quest\u00e3o curda?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: N\u00e3o podemos comparar porque o Curdist\u00e3o todo est\u00e1 dividido em quatro partes. Outra coisa \u00e9 a quest\u00e3o cultural e religiosa. O que quero dizer \u00e9 que a luta do povo da palestina \u00e9 pol\u00edtica e contra os judeus sionistas. J\u00e1 nosso caso, parte dos nossos opressores s\u00e3o mu\u00e7ulmanos assim como grandes setores do povo curdo. No Oriente M\u00e9dio temos tr\u00eas problemas: sionismo, jihadismo e nacionalismo.<\/p>\n<p>O nacionalismo \u00e1rabe \u00e9 um problema, igual ao nacionalismo turco e da mesma forma do persa. Por exemplo, no Ir\u00e3 temos tr\u00eas classes sociais. Se uma pessoa \u00e9 curda, n\u00e3o pode ser militar, n\u00e3o pode ser presidente de um tribunal, n\u00e3o pode ser presidente de uma regi\u00e3o, ministro do pa\u00eds, nada disso \u00e9 poss\u00edvel. Os cidad\u00e3os de primeira classe s\u00e3o os farsi persa. A segunda classe s\u00e3o os azerbaijanos, que s\u00e3o quase 25 milh\u00f5es. Todo o resto \u00e9 a terceira classe: curdos, baluchis e \u00e1rabes. O sistema de classes funciona no Ir\u00e3, mas tamb\u00e9m na Turquia, onde acontece algo similar.<\/p>\n<p>Na Turquia, quando uma fam\u00edlia tem um guerrilheiro do PKK j\u00e1 n\u00e3o pode participar de mais nada social e politicamente. Na S\u00edria, por exemplo, em Rojava, temos 500.000 pessoas sem cidadania, vivendo como n\u00f4mades. T\u00eam um cart\u00e3o vermelho, n\u00e3o podem trabalhar na esfera p\u00fablica, n\u00e3o podem comprar um carro ou uma casa, nem estudar, n\u00e3o podem fazer nada. Assim, quando come\u00e7ou a guerra civil na S\u00edria, Bashar Al-Assad disse que todos que vivem na S\u00edria s\u00e3o cidad\u00e3os da S\u00edria, para que os curdos n\u00e3o fa\u00e7am parte da oposi\u00e7\u00e3o contra seu governo.<\/p>\n<p>Outra coisa: o povo da Palestina tem alguns direitos, ainda que amea\u00e7ados constantemente. Em Gaza tem um governo, em Ramallah tem um governo, onde vivem alguma autonomia, por\u00e9m querem mais, querem independ\u00eancia. E eles t\u00eam sua raz\u00e3o. Mas questiono: como pode nascer um Estado como Gaza, isolado? Como sobreviveria, como cuidaria da economia e do social? A cria\u00e7\u00e3o de Estados como Gaza me parece ser de um separatismo bruto para o povo da Palestina tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00f3s, curdos na Turquia, n\u00e3o temos direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, muito menos o direito de estudar em nossa l\u00edngua m\u00e3e. Com a autonomia e o Confederalismo Democr\u00e1tico, queremos a gest\u00e3o de nossa regi\u00e3o, da l\u00edngua e da identidade pol\u00edtica; n\u00e3o queremos um Estado-Na\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio \u00e0 sombra da Turquia, a ditar nosso modo de viver.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: A Turquia \u00e9 muito violenta nesse sentido?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: A pr\u00f3pria pol\u00edcia turca picha nas paredes das casas em nossa terra que \u201csomos felizes por ser turcos\u201d. Em todas as montanhas dos curdos eles gritam isso. \u00c9 uma enorme falta de respeito. Sem contar abusos e viol\u00eancia f\u00edsica que praticam.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Para contextualizar o p\u00fablico brasileiro, pode explicar qual \u00e9 a origem do povo curdo?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Kurti (\u201cCurdo\u201d, no idioma original) significa \u201cfilho da montanha\u201d. A origem remonta \u00e0 Mesopot\u00e2mia, assim como os ass\u00edrios e outros povos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos curdos come\u00e7a com os sum\u00e9rios, por Gilgamesh, depois passa pelos hurritas, depois uma parte dos curdos comp\u00f5e o Imp\u00e9rio Persa e outra parte o Imp\u00e9rio Otomano. Muitos imp\u00e9rios passaram pela Mesopot\u00e2mia. J\u00e1 os turcos, por\u00e9m, s\u00e3o um povo do C\u00e1ucaso e de origem mongol. Em 1071, os turcos entram na Anat\u00f3lia, onde estava presente o Imp\u00e9rio Romano e depois o Imp\u00e9rio Bizantino. Nessa \u00e9poca, n\u00f3s est\u00e1vamos um pouco ao lado dos bizantinos e um pouco ao lado dos persas, ou seja, dos atuais iranianos. Quando os turcos entram naquela regi\u00e3o, em 1071, pela Batalha de Manziquerta contra os bizantinos, pouco a pouco chegam a Istambul, em 1453. Depois, todo o Curdist\u00e3o fica sob controle iraniano\/persa.<\/p>\n<p>Houve depois a guerra de Chaldiran entre os imp\u00e9rios iraniano e otomano sobre a regi\u00e3o curda, e a seguir o tratado chamado Qasr-e Shirin (tamb\u00e9m conhecido como Zuhab), em 1637, que divide o Curdist\u00e3o em dois, para finalmente, depois da primeira Guerra Mundial, nos dividirem em quatro.<\/p>\n<p>Somos praticamente os povos nativos da velha Mesopot\u00e2mia. Somos ao todo 45 milh\u00f5es de pessoas: na Turquia entre 20 e 22 milh\u00f5es, na S\u00edria 3 milh\u00f5es, no Ir\u00e3 13 milh\u00f5es e no Iraque 7 milh\u00f5es. Al\u00e9m de toda essa gente, ainda h\u00e1 mais cerca de 10 milh\u00f5es que migraram, uma parte para a Europa e outra parte a ex-pa\u00edses sovi\u00e9ticos \u2013 especialmente os curdos yazidi.<\/p>\n<p>Temos oito religi\u00f5es: sunita, xiita, alavita, iarsani, yazidi, zoroastrismo, cristianismo e juda\u00edsmo. E todas as religi\u00f5es existem por causa da Mesopot\u00e2mia. S\u00e3o 200 mil judeus curdos, por\u00e9m quase todos vivem em Israel, em Telavive e Jerusal\u00e9m. Outro povo bastante presente s\u00e3o os yazidi. Uma grande parte vive no Iraque, pr\u00f3ximo a cidade de Lali\u015f, onde eles entram uma vez por ano durante uma semana para realizar seu jubileu. S\u00e3o cerca de 1 milh\u00e3o no Iraque.<\/p>\n<p>Todos s\u00e3o curdos: judeus, crist\u00e3os, yazides e tamb\u00e9m alavitas, escapam da tortura e da press\u00e3o de pa\u00edses como a Turquia, o Iraque, a S\u00edria e o Ir\u00e3. Yazidis, alavitas e iarsanis s\u00e3o vers\u00f5es do zoroastro. Por exemplo, um yazidi reza com flauta e com tambor. Os alavitas com guitarra curda. Esses instrumentos s\u00e3o proibidos no Isl\u00e3. Temos quase 10 milh\u00f5es de pessoas que v\u00eam da tradi\u00e7\u00e3o do zoroastrismo. Curdos xiitas estavam no Ir\u00e3 e no Iraque tamb\u00e9m, h\u00e1 muitos anos n\u00f3s somos aceitos no Ir\u00e3 devido ao fato de a religi\u00e3o do Estado Iraniano ser xiita.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como anda a resist\u00eancia contra o Estado Isl\u00e2mico e onde eles pretendem entrar?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Por termos o projeto mais progressista do Oriente M\u00e9dio, alguns pa\u00edses apoiam o Estado Isl\u00e2mico, por terem em comum uma tradi\u00e7\u00e3o conservadora e tamb\u00e9m para atacar o projeto de autonomia democr\u00e1tica de Rojava. Este projeto \u00e9 um perigo para a monarquia, para o fundamentalismo religioso, para o EI e para todos os ditadores que vivem no Oriente M\u00e9dio. Por tal motivo, os pa\u00edses mais conservadores apoiam o Daesh, ainda que de forma velada, para que se possa destruir a Autonomia Democr\u00e1tica de Rojava. At\u00e9 agora vamos bem, porque o povo cr\u00ea no nosso projeto, e assim o defende e combate como inimigos os ditadores que usam da religi\u00e3o para se autopromoverem.<\/p>\n<p>Agora temos tr\u00eas for\u00e7as externas no Curdist\u00e3o. Uma \u00e9 a for\u00e7a imperial: dos EUA, da Uni\u00e3o Europeia e da R\u00fassia. Eles querem organizar o Oriente M\u00e9dio e o Curdist\u00e3o de acordo com seus interesses. A segunda \u00e9 a for\u00e7a colonial como a da Turquia, do Ir\u00e3, da S\u00edria e do Iraque que j\u00e1 est\u00e3o no controle desta terra h\u00e1 anos. A terceira for\u00e7a \u00e9 a dos grupos jihadistas, como o Daesh.<\/p>\n<p>Temos uma luta contra todos eles, por\u00e9m, h\u00e1 alguns meses e de forma t\u00e1tica temos uma rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, uma vez que tamb\u00e9m querem eliminar o avan\u00e7o do EI. Mas s\u00f3 porque atacam a todos, como fizeram recentemente na Fran\u00e7a e em outros pa\u00edses do Ocidente, al\u00e9m do estrago regional. N\u00e3o podemos dizer para os imp\u00e9rios ocidentais que n\u00e3o bombardeiem o Estado Isl\u00e2mico, pois apenas n\u00f3s poder\u00edamos faz\u00ea-lo. N\u00e3o seria l\u00f3gico da nossa parte.<\/p>\n<p>Contra os colonialistas temos uma luta muito forte, porque no Curdist\u00e3o n\u00e3o temos apenas a luta f\u00edsica, mas duas lutas: uma f\u00edsica e outra pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. Na forma pol\u00edtica e ideol\u00f3gica estamos contra o neoliberalismo e contra o imperialismo capitalista porque n\u00e3o pensamos que um imperialista \u00e9 melhor do que o outro, que a R\u00fassia \u00e9 melhor que os EUA, que a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 melhor que a R\u00fassia e assim por diante. Cada um pode usar isso de uma maneira mais forte que o outro, mas a ideia ainda \u00e9 a mesma. Pois especialmente na S\u00edria estamos em uma luta na qual muitos povos e Estados nos apoiam, por\u00e9m, n\u00e3o nos interessamos nesse sentido.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: E ap\u00f3s uma eventual vit\u00f3ria sobre o Estado Isl\u00e2mico, o que acontecer\u00e1 com as for\u00e7as de defesa curdas (YPG\/YPJ)?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Na nossa terra s\u00e3o dois atores lutando, de um lado n\u00f3s curdos e do outro o EI, que quer estabelecer o califado e a sharia (lei isl\u00e2mica ancestral).<\/p>\n<p>Indiretamente, muitas for\u00e7as, como por exemplo a Turquia, apoiam o EI, assim como a Ar\u00e1bia Saudita, o Catar e algumas vezes at\u00e9 o Ir\u00e3, de forma velada. Muitos pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio n\u00e3o querem a mudan\u00e7a democr\u00e1tica que promovemos; para eles somos um problema.<\/p>\n<p>Nossa cr\u00edtica aos pa\u00edses ocidentais se d\u00e1 justamente no questionamento de por que n\u00e3o apoiarem abertamente a luta do povo curdo. Por que n\u00e3o est\u00e3o em solidariedade e apoio aos curdos \u2013 um dos poucos que podem combater o fascismo na regi\u00e3o? Por que algumas pessoas e alguns partidos de esquerda fazem a teoria dos compl\u00f4s do tipo \u201cforam os EUA que criaram tal e tal acontecimento\u201d? Quem criou e porque criou \u00e9 outro discurso, mas a vida real e o avan\u00e7o do EI est\u00e3o na nossa porta.<\/p>\n<p>O autointitulado Estado Isl\u00e2mico \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o grosseira do fascismo na regi\u00e3o. Quando prendem um ocidental e matam, d\u00e3o a entender que o fazem em nome da religi\u00e3o, mas na verdade eles querem o dinheiro de quem mataram. Dois japoneses, que n\u00e3o tinham nada a ver com o EI, nem nada com o Isl\u00e3: por que os mataram? \u00d1orte-americanos, por raz\u00f5es distintas das nossas e tamb\u00e9m do nosso povo, est\u00e3o contra esse movimento fundamentalista, contra esse \u201cEstado Isl\u00e2mico\u201d, e se n\u00e3o podemos lutar juntos, vamos perder. Hoje \u00e9 o Curdist\u00e3o, ontem atacaram a Fran\u00e7a e amanh\u00e3 podem at\u00e9 atacar o Brasil. N\u00e3o pensem que por estarem mais distantes eles n\u00e3o possam chegar.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Lendo um relat\u00f3rio da situa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da regi\u00e3o, muitas pessoas n\u00e3o conseguem voltar para suas fazendas porque os campos est\u00e3o cheios de minas que o EI deixou. At\u00e9 que ponto os cant\u00f5es curdos conseguem ser aut\u00f4nomos tendo de lidar com um conflito desta propor\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Especialmente em Kobane (Rojava) quando o EI v\u00ea que n\u00e3o pode ocupar, escapa. Mas em muitas propriedades de camponeses escondem minas para poder matar os que voltam, por isso dizemos que \u00e9 uma mentalidade fascista, entende?<\/p>\n<p>Por exemplo, na luta contra guerrilheiras curdas usam minas, mas por que esconder minas na terra de um campon\u00eas, em uma casa ou no campo onde \u00e9 feito cultivo? Pelo puro prazer de matar e causar dor em gente trabalhadora?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s retomar a cidade, quando os cidad\u00e3os de Kobane voltavam, morreram quase 20 pessoas por causa das minas. Depois, a administra\u00e7\u00e3o de Kobane proibiu que entrassem em propriedades rurais por quase tr\u00eas meses, at\u00e9 o grupo especial realizar uma varredura de minas.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: E sobre a quest\u00e3o da mulher ouvimos relatos de que os soldados do Estado Isl\u00e2mico tem medo de serem mortos por mulheres, pois assim n\u00e3o iriam para o c\u00e9u. Procede a informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Yilmaz Orkan: Sim. Primeiro dizem que ao fazer guerra e morrerem v\u00e3o diretamente ao para\u00edso, por\u00e9m, quando s\u00e3o mortos por mulheres, n\u00e3o podem ir ao para\u00edso. Quando v\u00e3o ao para\u00edso, Deus os d\u00e1 tantas virgens, \u00e9 uma vida t\u00e3o melhor (em tom ir\u00f4nico). Assim, quando s\u00e3o mortos por mulheres n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o de fazer a festa no al\u00e9m (risos). Nossas guerrilheiras chegam ao campo de batalha cantando hinos a plenos pulm\u00f5es, deixando-os desesperados. Como pessoa tenho respeito a todas religi\u00f5es, mas religi\u00e3o \u00e9 uma coisa bruta a depender da interpreta\u00e7\u00e3o. Todas elas, nenhuma \u00e9 melhor que a outra.<\/p>\n<p>Uma outra coisa \u00e9 uma propaganda de que todo comandante do EI \u00e9 um pr\u00edncipe enviado por Deus e s\u00e3o imortais. Isso porque \u201cDeus os mandou para combater por Ele\u201d. Assim, os comandantes n\u00e3o podem ser mortos por outra pessoa. Isso dava uma moral pra eles \u2013 ainda que de forma estranha aos nossos olhos. Agora, eles j\u00e1 sabem que todos s\u00e3o mortais, porque o PKK come\u00e7ou a matar todos. O YPG e YPJ diariamente matam de 50 a 100 adeptos do EI. E eles o que fazem? Tomam muitas drogas e v\u00e3o em frente gritando \u201cAllah, Allah!\u201d e se n\u00e3o morrem ficam doentes pela droga, todos drogados.<\/p>\n<p>Alguns companheiros me contaram que podemos estar em somente cinco, a proteger uma pequena \u00e1rea. Da\u00ed cem deles nos atacam e n\u00f3s matamos todos com certa facilidade. Eles querem ir o mais r\u00e1pido para o para\u00edso com as virgens. E n\u00f3s queremos mais \u00e9 ajud\u00e1-los a se encontrarem com seu Deus.<\/p>\n<p>http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=11838:2016-07-19-22-23-24&#038;catid=34:manchete<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RAPHAEL SANZ, ANELISE CSAPO E GUILHERME LAND &#8211;\u00a0Diante de um contexto global de turbul\u00eancia, o Oriente M\u00e9dio assiste a ascens\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico (EI) na S\u00edria e no Iraque, que somada \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o desses Estados contribui para que milh\u00f5es de pessoas fujam da regi\u00e3o e gerem o que o Ocidente chama de \u201ccrise de refugiados\u201d. 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