{"id":14217,"date":"2020-11-03T18:36:55","date_gmt":"2020-11-03T21:36:55","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14217"},"modified":"2020-11-01T18:39:15","modified_gmt":"2020-11-01T21:39:15","slug":"por-uma-esquerda-que-nao-odeie-o-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/11\/03\/por-uma-esquerda-que-nao-odeie-o-dinheiro\/","title":{"rendered":"Por uma esquerda que n\u00e3o odeie o dinheiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Ingo Lenz Dunker<\/strong> &#8211; Enquanto n\u00e3o inventarmos uma nova maneira de fazer circular o dinheiro sem que ele seja um pecado laico entre n\u00f3s, ser\u00e1 dif\u00edcil ganhar elei\u00e7\u00f5es, se apresentar publicamente sem ser percebido como hip\u00f3crita ou arrogante, e recuperar a nossa capacidade coletiva de sonhar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo venho observando certos coment\u00e1rios cr\u00edticos no que diz respeito \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de dinheiro no contexto do campo progressista. Revistas de cultura s\u00e3o criticadas por ambicionarem ganhar dinheiro com o conte\u00fado que produzem, em vez de simplesmente disponibiliz\u00e1-lo gratuitamente. Ciclos de confer\u00eancias, envolvendo palestrantes internacionais e custos elevados de produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o criticados por cobrarem valores, ainda que m\u00f3dicos, de entrada. Mesmo na universidade p\u00fablica onde leciono, a USP, os alunos acham uma afronta ter que comprar livros em vez de poder usufruir de c\u00f3pias ou PDF livre. \u00c9 o jeito b\u00e1sico e cotidiano de protestar contra o capitalismo, ali onde ele parece estar mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s, nas trocas comerciais, especialmente no espa\u00e7o dos campi universit\u00e1rios onde queremos fazer valer o ensino p\u00fablico e gratuito.<\/p>\n<p>Mas a coisa come\u00e7ou a soar mal quando vi tr\u00eas pessoas que vendiam caf\u00e9 e pequenas refei\u00e7\u00f5es serem convidados a se retirarem da USP, sob aplausos, porque estavam praticando com\u00e9rcio irregular, em local fora das normas t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o e que ademais n\u00e3o resistiam \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. Sim, deviam passar por editais, fazer frente \u00e0s exig\u00eancias e adequa\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias\u2026 Mas n\u00e3o conseguia deixar de ver tr\u00eas pessoas negras, perif\u00e9ricas, duas delas mulheres, desempregadas, que faziam parte de nossa comunidade h\u00e1 anos, sendo expulsas por \u201cexcesso de capitalismo\u201d. O gosto amargo na boca aumentou quando vi meus alunos mais favorecidos pegarem seus carros para comer fora do campus, enquanto os alunos mais pobres se viam privados de seu \u201crango\u201d mais barato e acess\u00edvel. Ali onde antes todos com\u00edamos juntos, mesmo que irregularmente, restava agora um lugar limpo e vazio: a desertifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>O problema assumiu outra propor\u00e7\u00e3o para mim quando participei, recentemente, de um semin\u00e1rio sobre urbaniza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, no qual discutia-se um paradoxo que atravessa a cidade de S\u00e3o Paulo. H\u00e1 uma zona central, que vive na legalidade, com alvar\u00e1s e arquitetos, com regras de zoneamento, mas tamb\u00e9m com pr\u00e1ticas t\u00e1citas de ilicitude e corrup\u00e7\u00e3o, com grupos privados associados a interesses p\u00fablicos, que dominam bairros inteiros negociando e empreitando oportunidades construtivas. Do outro lado, h\u00e1 uma S\u00e3o Paulo informal, que \u00e9 a que mais cresce. S\u00e3o os puxadinhos, as lajes, as ocupa\u00e7\u00f5es, as constru\u00e7\u00f5es irregulares e os arremedos construtivos. Nela o dinheiro circula sem recibo, as inspe\u00e7\u00f5es s\u00e3o raras e via de regra seu contato com o Estado sofre do mesmo efeito punitivo que testemunhei em primeira m\u00e3o na pequena lanchonete da faculdade de psicologia.<\/p>\n<p>Moral das hist\u00f3rias. H\u00e1 algo profundamente equivocado quando tratamos pequenos comerciantes, que empreendem seu neg\u00f3cio tentando sobreviver ao caos do capitalismo neoliberal (e particularmente quando ele possui alguma rela\u00e7\u00e3o com educa\u00e7\u00e3o, cultura ou sa\u00fade), de forma disciplinar e discursiva semelhante ao que tratar\u00edamos uma grande ind\u00fastria ou corpora\u00e7\u00e3o, cujo representante nunca estar\u00e1 na nossa frente, nem com ele conseguiremos falar em vida. O efeito que quero descrever \u00e9 mais o menos o seguinte: como o capitalismo n\u00e3o \u00e9 tang\u00edvel, no seu n\u00facleo, ele nos for\u00e7a a atacar sua pr\u00f3pria periferia, porque \u00e9 com ela que conseguimos contato. Com isso ele cria um colch\u00e3o adicional de seguran\u00e7a para si, com divis\u00f5es infinitamente pequenas no interior da periferia. Isso substitui a consci\u00eancia de classe por sentimento de grupo e dissemina a moral do ressentimento contra ricos, privilegiados e elites. Logo, aquele que prospera e avan\u00e7a, acumulando dinheiro, torna-se imediatamente um inimigo traidor. Essa ila\u00e7\u00e3o fez a festa da narrativa evang\u00e9lica da teologia da prosperidade, simplesmente com a fagulha moral de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada errado com o desejo de enriquecer\u201d.<\/p>\n<p>A chegada da linguagem digital e o imenso repert\u00f3rio de conte\u00fado que ela disponibilizou gratuitamente, mudou a representa\u00e7\u00e3o social do capitalismo, ou seja a ideologia. O enfraquecimento das formas hist\u00f3ricas de luta, baseadas em sindicatos e organiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores, bem como a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 pessoas com muito mais dinheiro do que o razo\u00e1vel nos trouxe a esta posi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia que, por falta de nomea\u00e7\u00e3o mais rigorosa, chamo de \u201cuma esquerda que odeia o dinheiro\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA psican\u00e1lise nos ensinou que a culpa \u00e9 um sentimento de baix\u00edssima pot\u00eancia transformativa. Infelizmente, \u00e9 justamente nesse tipo de ret\u00f3rica que vejo o melhor desta nova gera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica investir suas for\u00e7as e recursos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A desagrad\u00e1vel not\u00edcia aqui \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que esteja fora do capitalismo, portanto, que possa se colocar legitimamente do alto da montanha a condenar a mis\u00e9ria do mundo, tal qual a bela alma de Hegel. Isso come\u00e7a a acumular curtos-circuitos quando a narrativa liberal-conservadora traduz essa atitude em hipocrisia, mentira e dali a pouco mau-caratismo. Ocluindo a discuss\u00e3o sobre suas formas e sua hist\u00f3ria, sobre sua incid\u00eancia diferencial entre identidades (inclusive a identidade de privilegiados e perif\u00e9ricos), a esquerda tem como tarefa propor uma outra maneira de fazer circular o dinheiro, em vez do projeto de ocupar o Estado para ser seu s\u00f3cio no tipo de capitalismo que ele prop\u00f5e e no tipo de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico que ele legisla.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dessa esquerda que odeia o dinheiro n\u00e3o encontramos Marx nem Adorno, tampouco Losurdo ou \u017di\u017eek, mas uma esp\u00e9cie de cr\u00edtica moral do capitalismo. Tudo se passa como se o problema da forma mercadoria pudesse ser reduzido \u00e0s atitudes de pessoas ruins, gananciosas demais, hedonistas que sofrem com ambi\u00e7\u00e3o descontrolada, o que as leva a querer ter desenfreadamente mais do que podem gastar. Isso coloca a esquerda no lugar discursivo de quem quer limitar o gozo, reduzir o excesso, conter a liberdade e restringir experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o: tudo isso ligado ao dinheiro.<\/p>\n<p>Nessa chave de compreens\u00e3o, tudo se passa como se o problema da aliena\u00e7\u00e3o fosse apenas a falta de educa\u00e7\u00e3o formal, como se o problema da mais-valia se resumisse apenas a um ajuste na distribui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, como se a divis\u00e3o social do trabalho fosse um assunto de recursos humanos. N\u00e3o sou especialista em Marx, mas acho que Sabrina Fernandes e Jones Manoel poderiam nos ajudar com este problema: o dinheiro \u00e9 mercadoria, e mercadoria como equivalente de valor, cuja refer\u00eancia \u00e9 originalmente o ouro. Coisas aparentadas ao dinheiro como notas de cr\u00e9dito, promiss\u00f3rias e outros papeis n\u00e3o lastreados s\u00e3o tamb\u00e9m igualmente dinheiro? Neste caso a circula\u00e7\u00e3o do dinheiro, ele mesmo, em pequenas quantidades, de pequenos negociantes, seria algo bem diferente de empresas que vivem de seu valor de marca, de suas aplica\u00e7\u00f5es imateriais na bolsa ou no sistema financeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 um contrassenso que menos de quinhentas pessoas no mundo possuam mais dinheiro do que seria necess\u00e1rio para sanar o problema na forme na \u00c1frica. No entanto, n\u00e3o me parece que o incentivo \u00e0 generosidade das pessoas resolva o problema. Ali\u00e1s, doa\u00e7\u00f5es massivas e funda\u00e7\u00f5es t\u00eam investido fortemente nessa mat\u00e9ria sem os resultados esperados.<\/p>\n<p>No Brasil \u2013 campe\u00e3o moral em termos de desigualdade social e m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, mas tamb\u00e9m quando o assunto \u00e9 capital social e cultural \u2013, \u00e9 muito compreens\u00edvel que a culpa seja o afeto social que se espera dos ricos. Nossa elite \u00e9 poder, sabemos disso. Mas tamb\u00e9m sabemos disso a tempo bastante para isso n\u00e3o ter gerado nenhuma mudan\u00e7a substantiva. A psican\u00e1lise nos ensinou que a culpa \u00e9 um sentimento de baix\u00edssima pot\u00eancia transformativa. Contudo, \u00e9 justamente nesse tipo de ret\u00f3rica que vejo o melhor desta nova gera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica investir suas for\u00e7as e recursos. \u00d3dio aos homens ricos brancos e privilegiados. \u00d3dio contra as elites que n\u00e3o souberam partilhar seus bens simb\u00f3licos, nem investir na educa\u00e7\u00e3o distributiva, nem cultivar pol\u00edticas de justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o. \u00d3dio contra as almas impuras.<\/p>\n<p><strong>Entre o p\u00fablico e o privado<\/strong><br \/>\nPor tempo demais escutei que aquilo que \u00e9 do interesse p\u00fablico deve ser da al\u00e7ada do Estado, e que pelo fato de pretender incluir e se destinar a todos, deve ser gratuito. Ao passo que aquilo que n\u00e3o pertence ao espa\u00e7o e ao interesse p\u00fablicos, pertence ao privado, como se a soma entre p\u00fablico e privado representasse a totalidade do que existe. Segundo essa l\u00f3gica, aquilo que \u00e9 privado tem ou vir\u00e1 a ter a estrutura e a l\u00f3gica da empresa, e consequentemente est\u00e1 impuro e comprometido com o capitalismo. Isso significa que n\u00e3o aprendemos nada com as experi\u00eancias hist\u00f3ricas do socialismo ocidental, particularmente no leste europeu, nos quais o Estado, ao se encarregar de todas as \u00e1reas da economia e da vida social, acabou tornando-se ele mesmo o \u00fanico e maior capitalista. Uma pol\u00edtica baseada na ocupa\u00e7\u00e3o do Estado para que a partir disso possamos garantir a sua interveni\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o para o que chamamos de \u201csocial\u201d como expans\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e inclus\u00e3o de mais pessoas na condi\u00e7\u00e3o de cidadania: essa me parece a plataforma que melhor define o que significa ser de esquerda depois de 1989 no Brasil. Embora isso esteja muito longe do (e n\u00e3o deve ser confundido com) comunismo, arrisco dizer que \u00e9 suficiente para definir o que veio a significar esquerda entre n\u00f3s. \u00c9 neste sentido que Antonio Candido dizia que o socialismo \u00e9 triunfante:<\/p>\n<p>\u201cAli\u00e1s, eu acho que o socialismo \u00e9 uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E n\u00e3o \u00e9 paradoxo. O que \u00e9 o socialismo? \u00c9 o irm\u00e3o-g\u00eameo do capitalismo, nasceram juntos, na revolu\u00e7\u00e3o industrial. \u00c9 indescrit\u00edvel o que era a ind\u00fastria no come\u00e7o. Os oper\u00e1rios ingleses dormiam debaixo da m\u00e1quina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a ind\u00fastria. A\u00ed come\u00e7ou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tend\u00eancias que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele \u00e9 o criador de riquezas e n\u00e3o pode ser explorado. Comunismo, socialismo democr\u00e1tico, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo\u2026 tudo isso. Esse pessoal come\u00e7ou a lutar, para o oper\u00e1rio n\u00e3o ser mais chicoteado, depois para n\u00e3o trabalhar mais que doze horas, depois para n\u00e3o trabalhar mais que dez, oito; para a mulher gr\u00e1vida n\u00e3o ter que trabalhar, para os trabalhadores terem f\u00e9rias, para ter escola para as crian\u00e7as. Coisas que hoje s\u00e3o banais. Conversando com um antigo aluno meu, que \u00e9 um rapaz rico, industrial, ele disse: \u201co senhor n\u00e3o pode negar que o capitalismo tem uma face humana\u201d. O capitalismo n\u00e3o tem face humana nenhuma. O capitalismo \u00e9 baseado na mais-valia e no ex\u00e9rcito de reserva, como Marx definiu. \u00c9 preciso ter sempre miser\u00e1veis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia n\u00e3o tem limite. Marx diz na Ideologia alem\u00e3: as necessidades humanas s\u00e3o cumulativas e irrevers\u00edveis. Quando voc\u00ea anda descal\u00e7o, voc\u00ea anda descal\u00e7o. Quando voc\u00ea descobre a sand\u00e1lia, n\u00e3o quer mais andar descal\u00e7o. Quando descobre o sapato, n\u00e3o quer mais a sand\u00e1lia. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por a\u00ed n\u00e3o tem mais fim. E o capitalismo est\u00e1 baseado nisso. O que se pensa que \u00e9 face humana do capitalismo \u00e9 o que o socialismo arrancou dele com suor, l\u00e1grimas e sangue. Hoje \u00e9 normal o oper\u00e1rio trabalhar oito horas, ter f\u00e9rias\u2026 tudo \u00e9 conquista do socialismo. O socialismo s\u00f3 n\u00e3o deu certo na R\u00fassia.\u201d<\/p>\n<p>Antonio Candido, \u201cO socialismo \u00e9 uma doutrina triunfante\u201d, entrevista a Joana Tavares, Brasil de Fato n. 435.<\/p>\n<p>Ou seja, o homem \u00e9 criador de riqueza e o socialismo luta contra a explora\u00e7\u00e3o que ocorre ao longo do processo de produ\u00e7\u00e3o dessa riqueza, e n\u00e3o contra a riqueza ela mesma. O maior erro da representa\u00e7\u00e3o social da esquerda \u00e9 consentir que sua defesa dos explorados se confunda com o elogio do empobrecimento. Com a dissolu\u00e7\u00e3o da luta coletiva em torno de direitos trabalhistas e com o decl\u00ednio da plataforma de prote\u00e7\u00e3o do trabalhador a esquerda se viu diante de uma nova etapa do capitalismo, na qual cada um aparece como \u201cempres\u00e1rio de si mesmo\u201d, o que significa dizer que cada um \u00e9 tamb\u00e9m explorador de si mesmo, ou que dentro de cada um de n\u00f3s mora um capitalista. A distin\u00e7\u00e3o rapidamente evoluiu ent\u00e3o para uma dicotomia entre, por um lado, aqueles que se encontram cronicamente fora do sistema (os estrangeiros, os desamparados, os miser\u00e1veis, os \u201cinimpreg\u00e1veis\u201d), e de outro os privilegiados.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUma esquerda que n\u00e3o odeie o dinheiro tem por tarefa primeira desativar essa equa\u00e7\u00e3o que, por um lado, identifica o Estado como guardi\u00e3o do interesse p\u00fablico, e por outro, assimila tudo o que tem que ver com a circula\u00e7\u00e3o do dinheiro com a forma empresa e a propriedade privada.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma esquerda que n\u00e3o odeie o dinheiro tem por tarefa primeira desativar essa equa\u00e7\u00e3o que, por um lado, identifica o Estado como guardi\u00e3o do interesse p\u00fablico, e por outro, assimila tudo o que tem que ver com a circula\u00e7\u00e3o do dinheiro com a forma empresa e a propriedade privada. Entre o p\u00fablico e o privado existe o comum, do ponto de vista do coletivo, e o \u00edntimo, do ponto de vista dos indiv\u00edduos. Mas a esquerda que odeia o dinheiro parece incapaz de conceber que \u00e9 poss\u00edvel pensar um tipo de circula\u00e7\u00e3o e de troca envolvendo dinheiro que n\u00e3o seja nem estatal nem empresarial.<\/p>\n<p><strong>Um caso concreto<\/strong><br \/>\nFoi esta a primeira li\u00e7\u00e3o formativa que nosso projeto de atendimento aos refugiados da constru\u00e7\u00e3o da hidroel\u00e9trica de Belo Monte, em Altamira, no Par\u00e1 me deixou. Levar psicanalistas para uma regi\u00e3o remota do Brasil, coloc\u00e1-los em voadeiras para chegar em baix\u00f5es e ilhas afastadas, aliment\u00e1-los por semanas, fazer registros e sustentar uma base operacional custa uma coisa chamada dinheiro. Meu primeiro impulso, como professor da USP e pesquisador acostumado a solicitar verbas para projetos de pesquisa e extens\u00e3o, foi providenciar os pedidos de aux\u00edlio para o CNPq e para a Fapesp. Qual n\u00e3o foi minha surpresa quando recebemos dos movimentos sociais de l\u00e1, como o Xingu Vivo e o Movimento dos Atingidos por Barragens, que n\u00e3o era bem vindo o subs\u00eddio estatal para o projeto, ainda que a necessidade dele fosse urgente e ineg\u00e1vel. Logo percebi problema. O mesmo Estado que havia destru\u00eddo o modo de vida de 30 mil pessoas, deslocado elas de suas resid\u00eancias, criando situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, traum\u00e1ticas e pat\u00f3genas, se ofereceria agora para consertar a situa\u00e7\u00e3o, corrigindo o estrago feito, bancando a vinda de m\u00edseros vinte psicanalistas. Como se isso fosse deixar a situa\u00e7\u00f5es quites. Percebi ali, na hora e em carne viva, como eu mesmo estava acostumado com a equa\u00e7\u00e3o: se \u00e9 p\u00fablico, \u00e9 Estatal e gratuito.<\/p>\n<p>A falsa solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria foi inverter os sinais da equa\u00e7\u00e3o. Vamos procurar empresas que subsidiam iniciativas no terceiro setor e que podem se interessar pelo desastre humano e ambiental de Belo Monte. H\u00e1 v\u00e1rias delas e muitas desenvolvem trabalhos leg\u00edtimos em v\u00e1rias \u00e1reas h\u00e1 muitos anos no chamado terceiro setor. Contactamos algumas e recebemos um sinal positivo. Percebi que a \u201cgrife USP\u201d, como dizem alguns de meus colegas, \u00e9 bem-vinda em ambientes empresariais. Mas ent\u00e3o qual n\u00e3o foi minha surpresa ao ouvir das mesmas pessoas e entidades envolvidas no projeto, que n\u00e3o podiam aceitar um financiamento de empresas, pois o conceito de \u201cempresa\u201d, neste caso, estava indelevelmente associado com coisas como Odebrecht, Camargo Correa e Andrade Gutierrez, causas motrizes e raz\u00e3o maior do desastre que se abatera sobre aquela comunidade.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que decidimos por um crowdfunding bem-sucedido que tornou poss\u00edvel a opera\u00e7\u00e3o. Ou seja, dinheiro de pessoas comuns, doado e administrado de modo transparente com o objetivo de levar a cabo uma tarefa. Divulgamos o projeto por meio dessa empresa muito capitalista chamada YouTube, bra\u00e7o da corpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica transnacional Google, recebemos doa\u00e7\u00f5es por interm\u00e9dio de um banco, retribu\u00edmos a ajuda recebida por meio de pr\u00eamios como livros e fotos de nossa pr\u00f3pria lavra. Quando cito esse exemplo em debates, frequentemente recebo a cr\u00edtica de que o princ\u00edpio da \u201cvaquinha\u201d representaria a institucionaliza\u00e7\u00e3o da precariedade, o que livraria o Estado de suas obriga\u00e7\u00f5es e desenvolveria um neg\u00f3cio paralelo que desmobiliza a press\u00e3o pela efetiva\u00e7\u00e3o e de direitos e obriga\u00e7\u00f5es. \u00c9 dif\u00edcil entender que o exemplo n\u00e3o se restringe \u00e0 coleta de dinheiro das pessoas \u201cf\u00edsicas\u201d, mas que est\u00e1 em jogo um desafio que a esquerda n\u00e3o consegue se colocar: como gerir o dinheiro de outra maneira que n\u00e3o identifique o n\u00e3o-estatal com a forma empresa? Como dizer para as pessoas que \u00e9 poss\u00edvel que a boleira consiga ir adiante em seu neg\u00f3cio sem estar simplesmente fora da lei do pagamento de impostos, ou ent\u00e3o se transformando em uma \u201cmegastore\u201d de doces (que ali\u00e1s comprar\u00e1 o seu neg\u00f3cio impiedosamente assim que ele come\u00e7ar a dar certo). Como dizer que todo o universo de constru\u00e7\u00f5es informais, na periferia de S\u00e3o Paulo, pode ser feito de outra maneira que n\u00e3o trabalhador explorando trabalhador? Como dizer para as pessoas que a esquerda est\u00e1 interessada, sim, em fazer voc\u00ea ganhar dinheiro e progredir na vida, e que n\u00e3o h\u00e1 vergonha nenhuma em desejar isso? Como dizer que a esquerda quer caviar para todos? Como lembrar que comunismo, socialismo democr\u00e1tico, anarquismo, solidarismo, cristianismo social e cooperativismo, como dizia Antonio Candido, andam juntos com todas as tradi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas que simplesmente se definem pela conjectura de que \u00e9 poss\u00edvel sonhar com um mundo melhor. \u00c9 poss\u00edvel uma esquerda que n\u00e3o odeie o dinheiro, que o pense fora da gram\u00e1tica da viol\u00eancia e da extors\u00e3o, sem devasta\u00e7\u00e3o ambiental, sem anjos e dem\u00f4nios no seu caminho.<\/p>\n<p>Quem corre o risco de fazer \u201co elogio do empobrecimento\u201d certamente n\u00e3o \u00e9 o empobrecido, ao passo que h\u00e1 certas pessoas cujas condi\u00e7\u00f5es materiais imediatas sequer permitem se enredar nesse \u201c\u00f3dio ao dinheiro\u201d e que v\u00e3o interpretar tal narrativa como uma profunda arrog\u00e2ncia. Nesse sentido, percebemos como o \u00f3dio ao dinheiro se coloca como um impeditivo para uma ades\u00e3o mais massiva ao discurso de esquerda, principalmente entre as classes mais populares \u2013 uma dificuldade para o catolicismo e que o neopentecostalismo jamais teve. Se h\u00e1 uma maneira de pensar outra forma de operar trocas envolvendo dinheiro, \u00e9 o que Dardot e Laval desenvolveram em torno do conceito de comum. Nossa experi\u00eancia em Belo Monte n\u00e3o foi financiada nem pelo Estado nem pelas empresas, mas pelas pessoas \u201ccomuns\u201d. S\u00e3o pessoas comuns, agindo em comum, em espa\u00e7os comuns que constroem casas na periferia de S\u00e3o Paulo, que vendem comida nas universidades p\u00fablicas e privadas que precisam ter sua forma de fazer economia reconhecida de outra maneira. Os sonhos dessa nova economia n\u00e3o s\u00e3o nem p\u00fablicos nem privados, mas s\u00e3o sonhos comuns.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o inventarmos essa nova maneira de fazer circular o dinheiro sem que ele seja um pecado laico entre n\u00f3s, ser\u00e1 dif\u00edcil ganhar elei\u00e7\u00f5es, se apresentar publicamente sem ser percebido como hip\u00f3crita ou arrogante, e recuperar a nossa capacidade coletiva de sonhar.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que chamo de oniropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/08\/12\/por-uma-esquerda-que-nao-odeie-o-dinheiro\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christian Ingo Lenz Dunker &#8211; Enquanto n\u00e3o inventarmos uma nova maneira de fazer circular o dinheiro sem que ele seja um pecado laico entre n\u00f3s, ser\u00e1 dif\u00edcil ganhar elei\u00e7\u00f5es, se apresentar publicamente sem ser percebido como hip\u00f3crita ou arrogante, e recuperar a nossa capacidade coletiva de sonhar. 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