{"id":14115,"date":"2020-10-19T16:30:54","date_gmt":"2020-10-19T19:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14115"},"modified":"2020-10-16T16:38:43","modified_gmt":"2020-10-16T19:38:43","slug":"para-compreender-o-declinio-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/10\/19\/para-compreender-o-declinio-da-economia\/","title":{"rendered":"Para compreender o decl\u00ednio da Economia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211; <\/strong>A ci\u00eancia da economia nasceu com o nome de Economia Pol\u00edtica; foi assim denominada pelos economistas cl\u00e1ssicos. Por\u00e9m, no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX, os economistas neocl\u00e1ssicos mudaram o seu nome para Economia simplesmente com o intuito de assinalar que ela teria leis que a pol\u00edtica tinha de respeitar. Se os economistas cl\u00e1ssicos compreendiam desassombradamente essa ci\u00eancia como uma ci\u00eancia social, hist\u00f3rica e pol\u00edtica, os inovadores novecentistas, agora assombrados pelas lutas de classes que se desenvolviam na sociedade, passaram a encar\u00e1-la como ci\u00eancia positiva ou como ci\u00eancia matem\u00e1tica, transist\u00f3rica, semelhante \u00e0 mec\u00e2nica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Recentemente Franco Beraldi, mostrando falta de apre\u00e7o pelo discurso dos economistas, afirmou categoricamente que a ci\u00eancia econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia \u2013 mas uma religi\u00e3o, um culto de um deus terreno, mas ainda assim bem metaf\u00edsico. Adiantou, nesse sentido, que os economistas n\u00e3o deveriam ser considerados cientistas, mas apenas sacerdotes de uma seita que reza pelo fetiche \u201cmercado\u201d e que abandonou faz tempo as suas origens iluministas para enveredar pelo caminho de uma cientificidade apenas aparente, largamente mistificadora.<\/p>\n<p>O que ocorreu, ent\u00e3o, com essa \u201cci\u00eancia\u201d no curso dos \u00faltimos s\u00e9culos? Para tentar compreender a sua desventura, retoma-se aqui, em largos tra\u00e7os, a sua hist\u00f3ria a partir do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 o presente. Eis que ela, pouco a pouco, saiu de um solo seguro para subir nas asas das fantasias, as quais s\u00e3o m\u00e1quinas que visam transformar o gozo insatisfeito com o estado calamitoso do mundo no prazer proporcionado pelas idealiza\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Adam Smith preocupou-se em explicar a riqueza das na\u00e7\u00f5es; para ele, a sua fonte era o trabalho, a divis\u00e3o do trabalho, o aumento da produtividade do trabalho provido por aperfei\u00e7oamentos nos modos de trabalhar e por novas tecnologias de produ\u00e7\u00e3o. E ele d\u00e1 mostra de que gostaria de ver essa crescente riqueza chegar tamb\u00e9m aos trabalhadores em geral: \u201c\u00e9 a grande multiplica\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es de todos os diversos of\u00edcios \u2013 multiplica\u00e7\u00e3o essa decorrente da divis\u00e3o do trabalho \u2013 que gera, em uma sociedade bem dirigida, aquela riqueza universal que se estende at\u00e9 \u00e0s camadas mais baixas do povo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 David Ricardo, que escreveu no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o parece ter se preocupado com a pobreza abundante na sociedade. Como bem se sabe, ele procurou determinar as leis que regulam a reparti\u00e7\u00e3o da renda entre as classes sociais \u2013 entre trabalhadores, capitalistas e propriet\u00e1rios de terra, mas a sua afli\u00e7\u00e3o concernia aos ganhos dos capitalistas no longo prazo. Pois, ele achava que \u201ca tend\u00eancia dos lucros\u2026 era de diminuir\u201d. Temia, por isso, que a vinda do estado estacion\u00e1rio eliminasse toda a motiva\u00e7\u00e3o para o investimento: \u201cningu\u00e9m acumula a n\u00e3o ser com o objetivo de tornar produtiva a acumula\u00e7\u00e3o\u201d. O lucro, como disse Marx depois sem nada acrescentar nesse ponto, \u00e9 o aguilh\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>John Stuart Mill, em meados do s\u00e9culo XIX, saudou a vinda poss\u00edvel do estado estacion\u00e1rio como advento de civiliza\u00e7\u00e3o, de supera\u00e7\u00e3o de um est\u00e1gio primitivo em que ainda rodava a carruagem da sociedade inglesa de seu tempo. Tal como os ecologistas atuais, ele j\u00e1 condenava a insaciabilidade do homem econ\u00f4mico racional que \u00e9, como se sabe, uma figura\u00e7\u00e3o do suporte da rela\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>\u201cConfesso\u201d \u2013 disse ele \u2013 \u201cque n\u00e3o me encanta o ideal de vida defendido por aqueles que pensam que o estado normal dos seres humanos \u00e9 aquele de sempre lutar para progredir do ponto de vista econ\u00f4mico, que pensam que o atropelar e pisar nos outros, que o dar cotoveladas\u2026 s\u00e3o o destino mais desej\u00e1vel da esp\u00e9cie humana\u201d.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX aparece Alfred Marshall e, com ele e outros, surge a teoria neocl\u00e1ssica. A Economia (sic!) leva vantagem \u2013 diz \u2013 em rela\u00e7\u00e3o aos demais campos da ci\u00eancia social porque \u201cd\u00e1 oportunidade de aplica\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos mais precisos\u201d. Pois, nesse campo, os motivos humanos podem ser medidos e expressos em dinheiro e o ser humano pode ser compreendido como uma m\u00e1quina a qual se pode descrever com os multiplicadores de Lagrange.<\/p>\n<p>No entanto, ele se esmera tamb\u00e9m, fora dos ap\u00eandices em que despeja a matem\u00e1tica, em desfiar pieguices a respeito das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras em que vivem os trabalhadores: \u201caqueles chamados de esc\u00f3ria das nossas grandes cidades t\u00eam pouca oportunidade para a amizade; nada conhecem do decoro e do sossego; e muito pouco mesmo da uni\u00e3o da vida em fam\u00edlia; a religi\u00e3o n\u00e3o chega a alcan\u00e7\u00e1-los\u201d. De qualquer modo, esse autor ainda encontrava motivo para se lamentar sobre a \u201cpouca aten\u00e7\u00e3o dada pela Economia com o superior bem-estar do homem\u201d!<\/p>\n<p>O advento do socialismo na R\u00fassia, a grande crise de 1929 e a depress\u00e3o dos anos 1930ap\u00f3s a I Guerra Mundial, a ascens\u00e3o do fascismo na Europa, produziram um economista realista: John Maynard Keynes: \u201cos principais defeitos da sociedade econ\u00f4mica em que vivemos\u201d \u2013 disse em sua\u00a0<em>Teoria Geral<\/em>\u00a0\u2013 \u201cs\u00e3o a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitr\u00e1ria e desigual distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e das rendas\u201d.<\/p>\n<p>O seu diagn\u00f3stico da doen\u00e7a do sistema econ\u00f4mico era de que ele se apresentava moroso devido a uma tend\u00eancia para o excesso de poupan\u00e7a dos ricos. Assim, chegou \u00e0 conclus\u00e3o que \u201cas medidas para redistribuir a renda no sentido de aumentar a propens\u00e3o a consumir podem ser muito favor\u00e1veis ao crescimento do capital\u201d. Consolava-se diante de um mundo em crise supondo que a taxa de lucro cairia no longo prazo e que, ent\u00e3o, ocorreria a \u201ceutan\u00e1sia do poder cumulativo de opress\u00e3o capitalista em explorar o valor de escassez do capital\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a II Guerra Mundial, o esp\u00edrito cient\u00edfico \u2013 e mesmo moderadamente cr\u00edtico \u2013 que movera a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, e que j\u00e1 se desvanecera no \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX, morreu completamente. A teoria econ\u00f4mica adota, ent\u00e3o, o m\u00e9todo walrasiano como sua ferramenta e fundamento principal. Torna-se assim apenas um instrumento de governan\u00e7a do capitalismo, ou seja, uma automa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que visa reparar e manter os automatismos do sistema econ\u00f4mico, automatizando assim sempre que poss\u00edvel a pr\u00f3pria exist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Le\u00f3n Walras, ainda no final do s\u00e9culo XIX, promoveu uma ruptura radical com a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica: se esta pensara o sistema econ\u00f4mico como auto-organiza\u00e7\u00e3o, como processo que cont\u00e9m certa anarquia e leis de movimento turbulento, este economista franc\u00eas vai conceb\u00ea-la como um sistema de equil\u00edbrio geral. Desse modo, ele mergulha de cabe\u00e7a na metaf\u00edsica das ideias puras, inspira-se na \u201cfilosofia plat\u00f4nica\u201d e constr\u00f3i uma representa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da economia real existente. \u201c\u00c9 uma verdade h\u00e1 muito tempo esclarecida pela filosofia plat\u00f4nica\u201d \u2013 afirma \u2013 \u201cque a ci\u00eancia n\u00e3o estuda os corpos, mas sim os fatos [ideais] dos quais os corpos s\u00e3o o teatro\u201d.<\/p>\n<p>A ang\u00fastia diante de um mundo que gera crises e\u00a0<em>booms<\/em>, lutas selvagens pela sobreviv\u00eancia, pobreza constrangedora e riqueza escandalosa, levou o engenheiro de profiss\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m socialista sonhador \u2013 ao recalque do real e \u00e0 fantasia te\u00f3rica. Funda, ent\u00e3o, a economia pol\u00edtica pura que, segundo ele, \u201c\u00e9 uma ci\u00eancia em tudo semelhante \u00e0s ci\u00eancias f\u00edsico-matem\u00e1ticas\u201d. Essa teoria \u00e9 bem semelhante \u00e0 mec\u00e2nica; ela emprega \u201co m\u00e9todo matem\u00e1tico [que] n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo experimental, mas o m\u00e9todo racional\u201d.<\/p>\n<p>Walras, entretanto, seguramente n\u00e3o imaginou que a sua tor\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica iria ser usada cerca de oitenta anos depois para embasar nada mais do que modelos pseudo-representativos, teoriza\u00e7\u00f5es que visam exclusivamente promover a governan\u00e7a do capitalismo. \u00c9 que o m\u00e9todo por ele adotado, ao mesmo tempo em que reprime a anarquia do sistema, permite que os economistas se transformem em engenheiros sociais \u201cmuito, muito competentes\u201d.<\/p>\n<p>Como esses modelos funcionam na pr\u00e1tica dos economistas? Eles criam a imagem de um sistema econ\u00f4mico ideal que funcionaria otimamente n\u00e3o fossem as imperfei\u00e7\u00f5es ainda existentes das institui\u00e7\u00f5es e dos indiv\u00edduos. Ademais, eles educam no sentido de que \u00e9 preciso pensar com no\u00e7\u00f5es como crescimento, competi\u00e7\u00e3o perfeita, otimiza\u00e7\u00e3o, efici\u00eancia etc. Em consequ\u00eancia da fantasia criada, como nota Berardi, costumam \u201cconsiderar que a realidade social est\u00e1 desajustada quando deixa de corresponder a tais crit\u00e9rios\u201d.<\/p>\n<p>Todas as suas a\u00e7\u00f5es voltam-se ent\u00e3o para reformar o sistema de um modo que seja mais favor\u00e1vel aos capitalistas e aos seus investimentos sob a mentira constante de que as reformas anteriores n\u00e3o foram suficientes. Ademais, como j\u00e1 se tornaram agora seres imbu\u00eddos da racionalidade neoliberal, tornam-se tamb\u00e9m defensores impenitentes de que as pessoas trabalhadoras devem se transformar em capital humano, em empresas de si mesmas.<\/p>\n<p>Ora, atualmente o capitalismo n\u00e3o \u00e9 mais sin\u00f4nimo de progresso e de um futuro melhor para muitos \u2013 ainda que n\u00e3o para todos: a queda secular da taxa de lucro n\u00e3o produziu um estado estacion\u00e1rio em que passou a prosperar a civiliza\u00e7\u00e3o, mas gerou um sistema em processo de estagna\u00e7\u00e3o que cresce por meio de pequenos solavancos e que difunde mais e mais o estado de barb\u00e1rie. Em consequ\u00eancia, os economistas se tornaram defensores de cont\u00ednuas reformas obscenas, sempre insuficientes, que visam implicitamente reduzir os sal\u00e1rios reais (diretos e indiretos), ou seja, piorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, na tentativa de recuperar a taxa de lucro.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Franco Berardi escreve: \u201cMas os economistas n\u00e3o s\u00e3o s\u00e1bios. Eles nem sequer deveriam ser considerados cientistas. Ao denunciar os maus comportamentos da sociedade, ao exigir que nos arrependamos de nossas d\u00edvidas, ao atribuir a amea\u00e7a de infla\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria aos nossos pecados, ao idolatrar os dogmas do crescimento e da competi\u00e7\u00e3o, os economistas se assemelham muito mais a sacerdotes\u201d. De um culto diab\u00f3lico, poder-se-ia acrescentar, de um culto que vai levar a humanidade \u00e0 asfixia, \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/para-compreender-o-declinio-da-economia\/)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211; A ci\u00eancia da economia nasceu com o nome de Economia Pol\u00edtica; foi assim denominada pelos economistas cl\u00e1ssicos. Por\u00e9m, no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX, os economistas neocl\u00e1ssicos mudaram o seu nome para Economia simplesmente com o intuito de assinalar que ela teria leis que a pol\u00edtica tinha de respeitar. 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