{"id":14102,"date":"2020-10-16T19:28:32","date_gmt":"2020-10-16T22:28:32","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14102"},"modified":"2020-10-13T19:30:45","modified_gmt":"2020-10-13T22:30:45","slug":"retrato-do-imperio-em-etapa-decrepita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/10\/16\/retrato-do-imperio-em-etapa-decrepita\/","title":{"rendered":"Retrato do Imp\u00e9rio, em etapa decr\u00e9pita"},"content":{"rendered":"<p><strong>Wade Davis<\/strong> &#8211; <em>Donald Trump, enfim, adoeceu de covid \u2014 depois de sua neglig\u00eancia e a de\u00a0governantes como ele e Jair Bolsonaro provocarem a morte desncess\u00e3ria de centenas de milhares. Mas os Trump, os Bolsonaro e os Duterte s\u00e3o a causa de nossos males ou a consequ\u00eancia de um decl\u00ednio anterior, que precisa ser enxergado, se quisermos revert\u00ea-lo?<\/em><\/p>\n<p><em>As reflex\u00f5es do texto a seguir, do antrop\u00f3logo colombiano-canadense Wade Davis, s\u00e3o uma provoca\u00e7\u00e3o para norte-americanos, brasileiros e para todo o Ocidente. \u201cQuando todas as suas antigas certezas revelam-se mentiras, quando a promessa de uma vida boa para uma fam\u00edlia trabalhadora \u00e9 quebrada com o fechamento de f\u00e1bricas ou com l\u00edderes corporativos enriquecendo a cada dia, criando empregos no exterior, o contrato social \u00e9 irrevogavelmente quebrado\u201d, diz ele em certo trecho \u2014 de extrema utilidade para explicar tamb\u00e9m a emerg\u00eancia do bolsonarismo, cujas causas a maior parte da esquerda brasileira ainda partece n\u00e3o ter compreendido.<\/em><\/p>\n<p><em>A an\u00e1lise rasgante do texto levou \u201cOutras Palavras\u201d a traduzi-lo \u2014 apesar de nossas reservas aos preconceitos euroc\u00eantircos do autor diante da China, com os quais n\u00e3o nos associamos. A leitura, ainda assim, \u00e9 instigante, provocadora e indispens\u00e1vel\u00a0<\/em><strong><em>(A.M.)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nunca vivemos antes a experi\u00eancia de um fen\u00f4meno t\u00e3o global. Pela primeira vez na hist\u00f3ria mundial, toda a humanidade, informada gra\u00e7as ao alcance\u00a0 \u2014 at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito \u2014 da tecnologia digital, viu-se unida e focada na mesma amea\u00e7a existencial, consumida pelos mesmos medos e incertezas \u2014 e antecipando-os ansiosamente junto com as promessas ainda n\u00e3o alcan\u00e7adas pela ci\u00eancia m\u00e9dica<\/p>\n<p>Ao longo de poucos meses, a civiliza\u00e7\u00e3o foi derrubada por um parasita microsc\u00f3pico 10 mil vezes menor do que um gr\u00e3o de sal. O\u00a0<a href=\"https:\/\/robertosavio.us13.list-manage.com\/track\/click?u=5b850c9bb3c53bd7438537d68&amp;id=b50394679f&amp;e=bde7cd3ca7\">Covid-19<\/a>\u00a0ataca nossos corpos f\u00edsicos, mas tamb\u00e9m os alicerces culturais de nossas vidas, a caixa de ferramentas de comunidade e conectividade, que para os seres humanos equivalem ao que garras e dentes representam para os tigres.<\/p>\n<p>Nossas interven\u00e7\u00f5es, at\u00e9 agora, concentraram-se principalmente em mitigar a taxa de dissemina\u00e7\u00e3o, para achatar a curva de mortalidade. N\u00e3o h\u00e1 tratamento dispon\u00edvel, nem a certeza de uma vacina no horizonte pr\u00f3ximo. A vacina mais r\u00e1pida j\u00e1 desenvolvida na hist\u00f3ria foi a da caxumba. Demorou quatro anos. O Covid-19 matou 100 mil estadunidenses em quatro meses. H\u00e1 algumas evid\u00eancias de que a infec\u00e7\u00e3o natural pode n\u00e3o implicar imunidade, o que faz alguns questionarem a efic\u00e1cia de uma vacina, supondo que ela seja desenvolvida. Al\u00e9m do mais, ela deve ser segura. Se a popula\u00e7\u00e3o global for imunizada, complica\u00e7\u00f5es letais na propor\u00e7\u00e3o de apenas uma pessoa para cada mil significam a morte de milh\u00f5es<\/p>\n<p>Pandemias e pestes costumam mudar o curso da hist\u00f3ria, e nem sempre de uma maneira imediatamente evidente para os que sobrevivem. No s\u00e9culo XIV, a Peste Negra dizimou quase metade da popula\u00e7\u00e3o da Europa. A escassez de m\u00e3o de obra levou ao aumento dos sal\u00e1rios. As expectativas crescentes culminaram na revolta camponesa de 1381, um ponto de inflex\u00e3o que marcou o in\u00edcio do fim da ordem feudal que dominou a Europa medieval por mil anos.<\/p>\n<p>A pandemia da covid ser\u00e1 lembrada como um desses momentos da hist\u00f3ria, um evento seminal cujo significado s\u00f3 se revelar\u00e1 na esteira da crise. A pandemia vai marcar nossa era tanto quanto o assassinato do arquiduque Ferdinando em 1914, a Grande Depress\u00e3o de 1929 e a ascens\u00e3o de Adolf Hitler em 1933 tornaram-se refer\u00eancias fundamentais do s\u00e9culo passado. Todos mensageiros de resultados e consequ\u00eancias maiores.<\/p>\n<p>O significado hist\u00f3rico da covid n\u00e3o reside no quanto ela interfere em nossas vidas cotidianas. Afinal, a mudan\u00e7a \u00e9 uma constante quando de cultura se trata. Todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os momentos, est\u00e3o sempre lidando com novas possibilidades de vida. Conforme as empresas eliminam ou reduzem o tamanho dos escrit\u00f3rios centrais, os funcion\u00e1rios trabalham em casa, os restaurantes e os shoppings fecham, o\u00a0<em>streaming<\/em>\u00a0traz entretenimento e eventos esportivos para casa e as viagens a\u00e9reas se tornam cada vez mais problem\u00e1ticas e miser\u00e1veis, as pessoas adaptam-se, como sempre fizeram. A fluidez da mem\u00f3ria e a capacidade de esquecer s\u00e3o, talvez, os tra\u00e7os mais assustadores de nossa esp\u00e9cie. Como a hist\u00f3ria confirma, eles nos permitem enfrentar qualquer grau de degrada\u00e7\u00e3o social, moral ou ambiental.<\/p>\n<p>\u00c9 um fato que a incerteza financeira ir\u00e1 projetar uma grande sombra. Por algum tempo, vai pairar sobre a economia global a humilde compreens\u00e3o de que nem mesmo todo o dinheiro de todas as na\u00e7\u00f5es da Terra ser\u00e1 suficiente para compensar as perdas sofridas quando o mundo inteiro deixa de funcionar, com trabalhadores e empresas de todos os lugares enfrentando uma escolha entre a sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica e a biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por mais perturbadoras que essas transi\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias sejam, com exce\u00e7\u00e3o de um colapso econ\u00f4mico completo, nenhuma delas se destaca como um momento decisivo na hist\u00f3ria. Mas se h\u00e1 uma coisa que se destaca. Foi o impacto absolutamente devastador que a pandemia teve sobre a reputa\u00e7\u00e3o e a posi\u00e7\u00e3o internacional dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em uma sombria temporada de pandemia, o Covid reduziu a frangalhos a ilus\u00e3o do excepcionalismo americano. No auge da crise, com mais de 2 mil pessoas morrendo por dia, os norte-americanos viram-se no interior de um Estado falido, comandado por um governo disfuncional e incompetente, em grande parte respons\u00e1vel pelas taxas de mortalidade, o que acrescentou um tr\u00e1gico fim \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o, pelos EUA, de supremacia no mundo.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, a comunidade internacional viu-se coagida a enviar ajuda humanit\u00e1ria a Washington. O\u00a0<em>Irish Times<\/em>\u00a0escreveu que, por mais de dois s\u00e9culos, \u201cos Estados Unidos despertaram uma ampla gama de sentimentos no resto do mundo: amor e \u00f3dio, medo e esperan\u00e7a, inveja e desprezo, admira\u00e7\u00e3o e raiva. Mas h\u00e1 uma emo\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 ent\u00e3o, nunca tinha sido dirigida aos EUA: pena\u201d. Enquanto m\u00e9dicos e enfermeiras norte-americanos aguardavam ansiosamente o transporte a\u00e9reo de emerg\u00eancia com suprimentos b\u00e1sicos vindo da China, a porta da hist\u00f3ria abria-se para o s\u00e9culo asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Nenhum imp\u00e9rio perdura por muito tempo, mesmo que poucos antecipem seu fim. Todo reino nasce para morrer. O s\u00e9culo XV pertenceu aos portugueses, o XVI \u00e0 Espanha, o XVII aos holandeses. A Fran\u00e7a dominou o s\u00e9culo XVIII; e a Gr\u00e3-Bretanha, o XIX. Enfraquecidos e falidos pela Grande Guerra, os brit\u00e2nicos mantiveram uma pretens\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o at\u00e9 1935, quando seu imp\u00e9rio atingiu a maior extens\u00e3o geogr\u00e1fica. \u00c0quela altura, \u00e9 claro, a tocha j\u00e1 havia passado fazia tempo para as m\u00e3os dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em 1940, j\u00e1 com a Europa em chamas, os EUA detinham um ex\u00e9rcito menor que o de Portugal ou da Bulg\u00e1ria. Ao longo de quatro anos, 18 milh\u00f5es de homens e mulheres passaram a vestir uniformes, e muitos outros milh\u00f5es passaram a trabalhar em jornadas duplas nas minas e f\u00e1bricas que fizeram os Estados Unidos tornarem-se o arsenal da democracia, como prometido pelo presidente Roosevelt.<\/p>\n<p>Quando os japoneses, seis semanas depois de Pearl Harbor, assumiram o controle de 90% do suprimento mundial de borracha, os EUA baixaram o limite de velocidade para 60 km\/h para preserver os pneus e, em tr\u00eas anos, inventaram do nada uma ind\u00fastria de borracha sint\u00e9tica que permitiu aos ex\u00e9rcitos aliados derrubar os nazistas. No auge, a f\u00e1brica Willow Run, de Henry Ford, produzia um ca\u00e7a B-24 Liberator a cada duas horas, 24 horas por dia. Os estaleiros em Long Beach e Sausalito fabricavam navios Liberty a uma taxa de dois por dia, durante quatro anos; o recorde foi um navio constru\u00eddo em 4 dias, 15 horas e 29 minutos. Uma \u00fanica f\u00e1brica americana, o Arsenal de Detroit, da Chrysler, construiu mais tanques do que todo o Terceiro Reich.<\/p>\n<p>Na imediato p\u00f3s-guerra, com a Europa e o Jap\u00e3o em cinzas, os Estados Unidos, com apenas 6% da popula\u00e7\u00e3o mundial, respondiam por metade da economia global, incluindo a produ\u00e7\u00e3o de 93% de todos os autom\u00f3veis. Tal dom\u00ednio econ\u00f4mico deu origem a uma classe m\u00e9dia vibrante, um movimento sindical que permitia a um homem com educa\u00e7\u00e3o limitada ter casa e carro, sustentar uma fam\u00edlia e enviar seus filhos para boas escolas. N\u00e3o era de forma alguma um mundo perfeito, mas a riqueza permitia uma tr\u00e9gua entre capital e trabalho, uma reciprocidade de oportunidades em uma \u00e9poca de r\u00e1pido crescimento e decl\u00ednio da desigualdade de renda, marcada por altas taxas de impostos para os ricos \u2014 que j\u00e1 n\u00e3o eram os \u00fanicos benefici\u00e1rios da era de ouro do capitalismo americano.<\/p>\n<p>Mas a liberdade e a riqueza t\u00eam um pre\u00e7o. Os Estados Unidos, uma na\u00e7\u00e3o praticamente desmilitarizada \u00e0s v\u00e9speras da Segunda Guerra Mundial, nunca mais recuaram, mesmo ap\u00f3s a vit\u00f3ria. At\u00e9 hoje, tropas norte-americanas est\u00e3o estacionadas em 150 pa\u00edses. Desde os anos 1970, a China n\u00e3o entrou em guerra nenhuma vez; e os EUA n\u00e3o passaram um dia em paz. Recentemente, o ex-presidente Jimmy Carter observou que os EUA, em seus 242 anos de hist\u00f3ria, desfrutaram de apenas 16 anos de paz, tornando-se assim, como ele escreveu, \u201ca na\u00e7\u00e3o mais b\u00e9lica da hist\u00f3ria mundial\u201d. Desde 2001, os EUA gastaram mais de 6 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em opera\u00e7\u00f5es militares e guerra, dinheiro que poderia ter sido investido na infraestrutura dom\u00e9stica. Enquanto isso, a China construiu sua na\u00e7\u00e3o, assentando mais cimento a cada tr\u00eas anos do que os Estados Unidos fizeram em todo o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Enquanto os EUA policiavam o mundo, a viol\u00eancia voltou para casa. Em 6 de junho de 1944, no famoso \u201cDia D\u201d, o n\u00famero de Aliados mortos foi de 4.414; em 2019, a viol\u00eancia dom\u00e9stica com armas de fogo matou aproximadamente a mesma quantidade de homens e mulheres norte-americanos somente no primeiro quadrimestre. Em junho daquele ano, as armas nas m\u00e3os dos estadunidenses comuns causaram mais baixas do que as que os aliados sofreram na Normandia no primeiro m\u00eas de uma campanha que consumiu as for\u00e7as militares de cinco na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mais do que qualquer outro pa\u00eds, os Estados Unidos, na era do p\u00f3s-guerra, enalteciam o indiv\u00edduo \u00e0s custas da comunidade e da fam\u00edlia. Era o equivalente sociol\u00f3gico de dividir um \u00e1tomo. O que foi ganho em termos de mobilidade e liberdade pessoal veio \u00e0s custas da devasta\u00e7\u00e3o de um prop\u00f3sito comum. Em grandes regi\u00f5es dos EUA, a fam\u00edlia como institui\u00e7\u00e3o perdeu seu fundamento. Na d\u00e9cada de 1960, 40% dos casamentos terminavam em div\u00f3rcio. Apenas 6% dos lares americanos tinham av\u00f3s morando sob o mesmo teto que os netos: os mais velhos passaram a ser abandonados em asilos de idosos.<\/p>\n<p>Com slogans como o \u201c24\/7\u201d celebrando a dedica\u00e7\u00e3o total ao local de trabalho, homens e mulheres exaurem-se em empregos que s\u00f3 refor\u00e7am seu isolamento de suas fam\u00edlias. O pai norte-americano m\u00e9dio passa menos de 20 minutos por dia em comunica\u00e7\u00e3o direta com seu filho. Quando um jovem chega aos 18 anos, ele ou ela ter\u00e1 passado dois anos inteiros assistindo televis\u00e3o ou olhando para a tela de um laptop, contribuindo para uma epidemia de obesidade que o Estado-Maior Conjunto classificou como crise de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Somente metade dos estadunidenses afirmam ter rela\u00e7\u00f5es sociais significativas, do tipo \u201ccara-a-cara\u201d, diariamente. A na\u00e7\u00e3o consome dois ter\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o mundial de medicamentos antidepressivos. O colapso da fam\u00edlia da classe trabalhadora foi respons\u00e1vel, em parte, pela crise de opi\u00f3ides que fez com que os acidentes de carro se tornassem a principal causa de morte de cidad\u00e3os com menos de 50 anos.<\/p>\n<p>Na base dessa transforma\u00e7\u00e3o e decl\u00ednio encontramos um abismo cada vez maior entre aqueles americanos que t\u00eam e os que t\u00eam pouco ou nada. Existem disparidades econ\u00f4micas em todas as na\u00e7\u00f5es, criando uma tens\u00e3o que pode ser muito perturbadora quando as desigualdades s\u00e3o injustas. No entanto, em qualquer cen\u00e1rio, as for\u00e7as negativas que destroem uma sociedade s\u00e3o atenuadas ou mesmo silenciadas quando h\u00e1 outros elementos que refor\u00e7am a solidariedade social \u2014 seja a f\u00e9 religiosa, a for\u00e7a e conforto da fam\u00edlia, o orgulho da tradi\u00e7\u00e3o, a fidelidade \u00e0 terra, um esp\u00edrito de lugar.<\/p>\n<p>Mas quando todas as suas antigas certezas revelam-se mentiras, quando a promessa de uma vida boa para uma fam\u00edlia trabalhadora \u00e9 quebrada com o fechamento de f\u00e1bricas ou com l\u00edderes corporativos enriquecendo a cada dia, criando empregos no exterior, o contrato social \u00e9 irrevogavelmente quebrado. Por duas gera\u00e7\u00f5es, os EUA celebraram a globaliza\u00e7\u00e3o com uma intensidade emblem\u00e1tica, apesar de ela n\u00e3o ser mais do que apenas capital \u00e0 espreita, na busca de fontes de trabalho cada vez mais baratas \u2014 como qualquer trabalhador pode perceber.<\/p>\n<p>Por muitos anos, a direita conservadora dos Estados Unidos invocou uma nostalgia pela d\u00e9cada de 1950 e por uma\u00a0<em>Am\u00e9rica<\/em>\u00a0que nunca foi, mas deve-se presumir que existiu para racionalizar seu sentimento de perda e abandono, seu medo de mudan\u00e7a, seus amargos ressentimentos e persistente desprezo pelos movimentos sociais da d\u00e9cada de 1960, uma \u00e9poca de novas aspira\u00e7\u00f5es para mulheres, gays e negros. Na verdade, pelo menos em termos econ\u00f4micos, o pa\u00eds dos anos 1950 lembrava muito mais a Dinamarca do que os EUA de hoje. As taxas marginais de impostos para os ricos eram de 90%. Os sal\u00e1rios dos CEOs eram, em m\u00e9dia, apenas 20 vezes maiores que os de seus funcion\u00e1rios de m\u00e9dia ger\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje, o sal\u00e1rio-base dos que est\u00e3o no topo \u00e9 normalmente 400 vezes maior do que o de seus demais assalariados \u2014 e muitos deles ganham ainda mais, com participa\u00e7\u00f5es em a\u00e7\u00f5es e outros benef\u00edcios. A elite que comp\u00f5e o 1% dos norte-americanos controla 30 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em ativos, enquanto a metade inferior tem mais d\u00edvidas do que ativos. Os tr\u00eas americanos mais ricos t\u00eam mais dinheiro do que os 160 milh\u00f5es mais pobres de seus compatriotas. Quase um quinto dos lares americanos tem patrim\u00f4nio l\u00edquido zero ou negativo, um n\u00famero que sobe para 37% entre as fam\u00edlias negras. A riqueza m\u00e9dia das fam\u00edlias negras \u00e9 um d\u00e9cimo da dos brancos. A grande maioria dos norte-americanos \u2014 brancos, negros e pardos \u2014 est\u00e3o a apenas dois sal\u00e1rios da fal\u00eancia. Apesar de viver em uma na\u00e7\u00e3o que se gaba como a mais rica da hist\u00f3ria, a maioria dos americanos vive na corda bamba, sem rede de seguran\u00e7a para evitar uma queda.<\/p>\n<p>Com a crise do Covid, 40 milh\u00f5es de norte-americanos perderam seus empregos e 3,3 milh\u00f5es de empresas fecharam, incluindo 41% de todas as empresas de propriedade de negros. Os estadunidenses negros, que superam significativamente os brancos nas pris\u00f5es federais, apesar de serem apenas 13% da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o sofrendo taxas chocantemente altas de morbidez e mortalidade, morrendo quase tr\u00eas vezes mais do que os brancos. A regra fundamental da pol\u00edtica social norte-americana \u2014 n\u00e3o deixar nenhum grupo \u00e9tnico ficar abaixo dos negros, ou permitir que ningu\u00e9m sofra mais indignidades \u2014 tornou-se verdadeira mesmo em meio a uma pandemia, como se o v\u00edrus estivesse seguindo as pegadas da pr\u00f3pria hist\u00f3ria americana.<\/p>\n<p>O coronav\u00edrus n\u00e3o derrubou os EUA: ele simplesmente revelou aquilo que havia sido abandonado h\u00e1 muito tempo. \u00c0 medida em que a crise se desenrolava, com mais um norte-americano morrendo por minuto todo dia, um pa\u00eds que antes produzia avi\u00f5es de ca\u00e7a por hora n\u00e3o conseguia sequer produzir as m\u00e1scaras de papel ou os cotonetes essenciais para o rastreamento da doen\u00e7a. A na\u00e7\u00e3o que derrotou a var\u00edola e a poliomielite, e liderou o mundo em inova\u00e7\u00f5es e descobertas m\u00e9dicas por gera\u00e7\u00f5es, foi reduzida ao rid\u00edculo quando o palha\u00e7o-presidente defendeu o uso de desinfetantes dom\u00e9sticos como tratamento para uma doen\u00e7a que ele n\u00e3o tinha nem como come\u00e7ar a compreender, intelectualmente.<\/p>\n<p>Enquanto v\u00e1rios pa\u00edses agiam rapidamente para conter o v\u00edrus, os Estados Unidos trope\u00e7avam na nega\u00e7\u00e3o, como se estivessem cegos. Com menos de 4% da popula\u00e7\u00e3o global, rapidamente os EUA tornaram-se respons\u00e1veis por mais de um quinto das mortes por Covid. A porcentagem de v\u00edtimas mortais norte-americanas foi seis vezes maior do que a m\u00e9dia global. Alcan\u00e7ar a maior taxa de morbidade e mortalidade do mundo n\u00e3o provocou vergonha, mas apenas mais mentiras, bodes expiat\u00f3rios e o orgulhar-se de curas milagrosas t\u00e3o duvidosas quanto as reivindica\u00e7\u00f5es de um vigarista em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto os Estados Unidos respondiam \u00e0 crise feito uma ditadura corrupta, os verdadeiros ditadores do mundo aproveitaram a oportunidade para tomar conta do terreno, saboreando um raro senso de superioridade moral, especialmente ap\u00f3s a morte de George Floyd em Minneapolis. O l\u00edder autocr\u00e1tico da Chech\u00eania, Ramzan Kadyrov, fustigou os EUA por \u201cviolar maliciosamente os direitos dos cidad\u00e3os comuns\u201d. Os jornais norte-coreanos tamb\u00e9m se opuseram \u00e0 \u201cbrutalidade policial\u201d estadunidense. Citado na imprensa iraniana, o aiatol\u00e1 Khomeini se regozijou: \u201cOs Estados Unidos come\u00e7aram o seu pr\u00f3prio processo de autodestrui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O desempenho de Trump e a crise dos Estados Unidos conseguiram at\u00e9 desviar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00e1 gest\u00e3o da China no surto inicial em Wuhan, isso sem mencionar seu movimento para esmagar a democracia em Hong Kong. Quando um funcion\u00e1rio americano levantou a quest\u00e3o dos direitos humanos no Twitter, o porta-voz do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da China, invocando o assassinato de George Floyd, respondeu com uma frase curta: \u201cN\u00e3o consigo respirar\u201d.<\/p>\n<p>Essas observa\u00e7\u00f5es politicamente motivadas podem ser f\u00e1ceis de esquivar. Mas os norte americanos n\u00e3o colaboram com eles mesmos. Seu processo pol\u00edtico tornou poss\u00edvel a ascens\u00e3o de um demagogo, t\u00e3o moral e eticamente comprometido quanto algu\u00e9m poderia ser, ao mais alto cargo do pa\u00eds, numa desgra\u00e7a nacional. Como cunhou certo escritor brit\u00e2nico, \u201csempre houve pessoas burras no mundo, e muitas pessoas desagrad\u00e1veis tamb\u00e9m. Mas raramente a burrice foi t\u00e3o desagrad\u00e1vel, ou a maldade t\u00e3o burra\u201d.<\/p>\n<p>O presidente norte americano vive para cultivar ressentimentos, demonizar seus oponentes, validar o \u00f3dio. Sua principal ferramenta de governo \u00e9 a mentira; em 9 de julho de 2020, a contagem documentada de suas distor\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es falsas chegava a 20.055. Se o primeiro presidente dos EUA, George Washington, ficou famoso por n\u00e3o saber mentir, o atual n\u00e3o consegue reconhecer a verdade. Invertendo as palavras e os sentimentos de Abraham Lincoln, este troll sombrio celebra a crueldade para todos e a bondade para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Por mais detest\u00e1vel que seja, Trump \u00e9 muito menos causa do decl\u00ednio dos Estados Unidos do que uma consequ\u00eancia direta deste. Enquanto os estadunidenses olham-se no espelho e se d\u00e3o conta somente do mito de seu excepcionalismo, eles permanecem quase que bizarramente incapazes de ver o que realmente aconteceu com seu pa\u00eds. A rep\u00fablica que definiu o livre fluxo de informa\u00e7\u00f5es como o sangue vital da democracia, hoje ocupa a 45\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es quando se trata de liberdade de imprensa. Em uma terra que antes acolhia as massas aglomeradas do mundo, hoje mais pessoas preferem construir um muro ao longo da fronteira sul do que apoiar os cuidados de sa\u00fade e prote\u00e7\u00e3o para as m\u00e3es e crian\u00e7as indocumentadas que chegam em desespero \u00e0s suas portas. Em um abandono completo do bem coletivo, as leis dos EUA definem a liberdade como o direito inalien\u00e1vel de um indiv\u00edduo de possuir um arsenal pessoal de armas, um direito natural que supera at\u00e9 mesmo a seguran\u00e7a das crian\u00e7as; somente na \u00faltima d\u00e9cada, 346 alunos e professores americanos foram baleados em \u00e1reas escolares.<\/p>\n<p>O culto americano ao indiv\u00edduo nega n\u00e3o apenas a comunidade, como a pr\u00f3pria ideia de sociedade. Ningu\u00e9m deve nada a ningu\u00e9m. Todos devem estar preparados para lutar por tudo: educa\u00e7\u00e3o, abrigo, alimenta\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia m\u00e9dica. O que toda democracia pr\u00f3spera e bem-sucedida considera ser direitos fundamentais \u2014 sa\u00fade universal, acesso igualit\u00e1rio a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade, rede de seguran\u00e7a social para menos favorecidos, idosos e doentes \u2014 os Estados Unidos consideram indulg\u00eancias socialistas, como se fossem sinais de fraqueza.<\/p>\n<p>Como pode o resto do mundo esperar que os Estados Unidos lidem com as amea\u00e7as globais \u2014 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, crise de extin\u00e7\u00e3o, pandemias \u2014 se o pa\u00eds n\u00e3o tem mais nenhum senso de prop\u00f3sito benigno ou de bem-estar coletivo, nem dentro de sua pr\u00f3pria comunidade nacional? O patriotismo embrulhado em bandeiras n\u00e3o substitui a compaix\u00e3o; e raiva e hostilidade n\u00e3o s\u00e3o p\u00e1reos para o amor. Aqueles que se aglomeram em praias, bares e com\u00edcios pol\u00edticos, colocando em risco seus concidad\u00e3os, n\u00e3o est\u00e3o exercendo a liberdade \u2014 est\u00e3o exibindo, como observou um comentarista, a fraqueza de um povo que n\u00e3o tem o estoicismo para suportar uma pandemia, nem a coragem para derrot\u00e1-la. Na lideran\u00e7a, temos\u00a0<a href=\"https:\/\/robertosavio.us13.list-manage.com\/track\/click?u=5b850c9bb3c53bd7438537d68&amp;id=c82667eef4&amp;e=bde7cd3ca7\">Donald Trump<\/a>, um guerreiro sem preparo f\u00edsico, um mentiroso e uma fraude, a caricatura grotesca de um homem forte, com a espinha dorsal de um brigalh\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, circulou na internet uma piada sugerindo que morar no Canad\u00e1 hoje \u00e9 como ter um apartamento em cima de um laborat\u00f3rio de metanfetamina. O Canad\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um lugar perfeito, mas lidou bem com a crise do Covid, principalmente na Col\u00fambia Brit\u00e2nica, onde moro. Vancouver fica a apenas tr\u00eas horas de estrada ao norte de Seattle, onde o surto nos EUA come\u00e7ou. Metade da popula\u00e7\u00e3o de Vancouver \u00e9 asi\u00e1tica, e normalmente dezenas de voos chegam da China e do Leste Asi\u00e1tico diariamente. Por l\u00f3gica, o pa\u00eds deveria ter sido atingido com muita for\u00e7a, mas o sistema de sa\u00fade funcionou extremamente bem. Durante a crise, as taxas de teste em todo o Canad\u00e1 t\u00eam sido consistentemente cinco vezes maiores que as dos EUA. Em uma base per capita, o Canad\u00e1 sofreu metade da morbidade e mortalidade. Para cada pessoa que morreu na Col\u00fambia Brit\u00e2nica, 44 morreram em Massachusetts, um estado com uma popula\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel que relatou mais casos de Covid do que todo o Canad\u00e1. Em 30 de julho, mesmo com as taxas de infec\u00e7\u00e3o e morte pelo v\u00edrus disparadas em grande parte dos Estados Unidos, com 59.629 novos casos relatados apenas naquele dia, os hospitais na Col\u00fambia Brit\u00e2nica registraram um total de apenas cinco pacientes infectados.<\/p>\n<p>Quando meus amigos americanos me pedem uma explica\u00e7\u00e3o, incentivo-os a refletir sobre a \u00faltima vez que compraram mantimentos no Safeway de seu bairro. Nos EUA, quase sempre existe um abismo racial, econ\u00f4mico, cultural e educacional entre o consumidor e a equipe do caixa \u2014 abismo este que \u00e9 dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, superar. No Canad\u00e1, a experi\u00eancia \u00e9 bem diferente. A pessoa interage, sen\u00e3o como colega, certamente como membro de uma comunidade mais ampla. A raz\u00e3o para isso \u00e9 muito simples. O caixa pode n\u00e3o compartilhar do seu mesmo n\u00edvel de riqueza, mas ele sabe que voc\u00ea sabe que ele ganha um sal\u00e1rio digno gra\u00e7as aos sindicatos. E ele sabe que voc\u00ea sabe que os filhos deles e os seus, provavelmente, v\u00e3o para a mesma escola p\u00fablica do bairro. Terceiro, e mais importante, ele sabe que voc\u00ea sabe que se os filhos deles adoecerem, eles receber\u00e3o exatamente o mesmo n\u00edvel de assist\u00eancia m\u00e9dica, n\u00e3o apenas de seus filhos, mas dos do primeiro-ministro. Esses tr\u00eas fios entrela\u00e7ados tornam-se o tecido da social-democracia canadense.<\/p>\n<p>Questionado sobre o que pensava da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, Mahatma Gandhi deu a sua famosa resposta: \u201cAcho que seria uma boa ideia.\u201d Tal observa\u00e7\u00e3o pode parecer cruel, mas reflete com precis\u00e3o a vis\u00e3o dos EUA hoje sobre a perspectiva de qualquer social-democracia moderna. O Canad\u00e1 teve um bom desempenho durante a crise do Covid devido ao seu contrato social, aos la\u00e7os da comunidade, \u00e0 confian\u00e7a m\u00fatua e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es, seu sistema de sa\u00fade em particular, com hospitais que atendem \u00e0s necessidades m\u00e9dicas do coletivo, n\u00e3o do indiv\u00edduo \u2014 e muito menos ao investidor privado, que enxerga cada cama de hospital como um im\u00f3vel alugado. A medida da riqueza em uma na\u00e7\u00e3o civilizada n\u00e3o \u00e9 a moeda acumulada por poucos afortunados, mas sim a for\u00e7a e resson\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es sociais e os la\u00e7os de reciprocidade que conectam todas as pessoas em um prop\u00f3sito comum.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o tem nada a ver com ideologia pol\u00edtica, mas tem tudo a ver com qualidade de vida. Os finlandeses vivem mais e t\u00eam menor probabilidade de morrer na inf\u00e2ncia ou no parto se comparados com os norte americanos. Os dinamarqueses ganham aproximadamente a mesma receita l\u00edquida que os norte americanos, trabalhando 20% menos. Eles pagam em impostos 19 centavos a mais para cada d\u00f3lar ganho. Mas, em troca, recebem assist\u00eancia m\u00e9dica gratuita, educa\u00e7\u00e3o gratuita da pr\u00e9-escola \u00e0 universidade e a oportunidade de prosperar em uma economia de mercado livre e pr\u00f3spera com n\u00edveis drasticamente mais baixos de pobreza, falta de moradia, crime e desigualdade. O trabalhador m\u00e9dio \u00e9 melhor remunerado, tratado com mais respeito e recompensado com seguro de vida, planos de aposentadoria, licen\u00e7a maternidade e seis semanas de f\u00e9rias remuneradas por ano. Todos esses benef\u00edcios apenas inspiram os dinamarqueses a trabalhar mais, com 80% dos homens e mulheres entre 16 e 64 anos engajados na for\u00e7a de trabalho, um n\u00famero muito maior do que o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos americanos rejeitam o modelo escandinavo, enxergando-o como um socialismo rastejante, um comunismo leve, algo que nunca funcionaria nos Estados Unidos. Na verdade, as social-democracias s\u00e3o bem-sucedidas precisamente porque fomentam economias capitalistas din\u00e2micas que beneficiam todas as camadas da sociedade. Que a social-democracia nunca v\u00e1 se estabelecer nos EUA pode muito bem ser verdade, mas, se for assim, \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o impressionante, e exatamente o que Oscar Wilde tinha em mente quando brincou que os Estados Unidos foram o \u00fanico pa\u00eds a sair da barb\u00e1rie para chegar na decad\u00eancia, sem passar pela civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Prova dessa decad\u00eancia terminal \u00e9 a escolha que tantos americanos fizeram em 2016 de priorizar suas indigna\u00e7\u00f5es pessoais, colocando seus pr\u00f3prios ressentimentos acima de qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com o destino do pa\u00eds e do mundo, enquanto corriam para eleger um homem cuja \u00fanica ficha de apresenta\u00e7\u00e3o era sua disposi\u00e7\u00e3o de dar voz aos seus \u00f3dios, validar sua raiva e mirar em seus inimigos, reais ou imagin\u00e1rios. Estremecemos s\u00f3 de pensar no que significar\u00e1 para o mundo se os americanos em novembro, sabendo de tudo o que fazem, decidirem manter esse homem no poder pol\u00edtico. Mas mesmo que Trump seja derrotado de forma retumbante, n\u00e3o est\u00e1 claro se uma na\u00e7\u00e3o t\u00e3o profundamente polarizada ser\u00e1 capaz de encontrar um caminho a seguir. Para o bem ou para o mal, o tempo dos EUA j\u00e1 passou.<\/p>\n<p>O fim da era norte americana e a entrega da tocha para a \u00c1sia n\u00e3o \u00e9 motivo de comemora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 hora de se vangloriar. Em momentos de risco internacional, quando a humanidade poderia muito bem ter entrado em uma era das trevas para al\u00e9m de todos os horrores conceb\u00edveis, o poder industrial dos Estados Unidos, junto com o sangue de soldados russos comuns, literalmente, salvou o mundo. Os ideais americanos, conforme celebrados por Madison e Monroe, Lincoln, Roosevelt e Kennedy, ao mesmo tempo inspiraram e deram esperan\u00e7a a milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Se os chineses est\u00e3o em ascens\u00e3o, quando eles estiverem no topo, com seus campos de concentra\u00e7\u00e3o para os uigures e com o alcance implac\u00e1vel de seus militares, suas 200 milh\u00f5es de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia observando cada movimento e gesto de seu povo, certamente ansiaremos pelos melhores anos do s\u00e9culo americano. Por enquanto, temos apenas a cleptocracia de Donald Trump. Trump, entre elogios aos chineses pelo tratamento dado aos uigures, descrevendo sua pris\u00e3o e tortura como \u201ca coisa certa a se fazer\u201d, e seus conselhos m\u00e9dicos sobre o uso terap\u00eautico de desinfetantes qu\u00edmicos, alegremente comentou: \u201c\u00c9 como um milagre, um dia vai desaparecer. \u201d Ele tinha em mente, \u00e9 claro, o\u00a0<a href=\"https:\/\/robertosavio.us13.list-manage.com\/track\/click?u=5b850c9bb3c53bd7438537d68&amp;id=126a9d224e&amp;e=bde7cd3ca7\">coronav\u00edrus<\/a>.\u00a0Mas, como outros j\u00e1 disseram, ele poderia muito bem estar se referindo ao sonho americano.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/retrato-do-imperioem-etapa-decrepita\/?utm_source=newsletter&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=o_melhor_da_semana_a_lenta_construcao_de_um_estado_vassalo_dowbor_os_cinco_fatores_de_nossa_miseria_como_o_brasil_recusa_se_a_debater_alternativas_a_crise_retrato_do_imperio_em_etapa_decrepita&amp;utm_term=2020-10-06)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wade Davis &#8211; Donald Trump, enfim, adoeceu de covid \u2014 depois de sua neglig\u00eancia e a de\u00a0governantes como ele e Jair Bolsonaro provocarem a morte desncess\u00e3ria de centenas de milhares. 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