{"id":14072,"date":"2020-10-06T18:12:03","date_gmt":"2020-10-06T21:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14072"},"modified":"2020-10-04T18:14:22","modified_gmt":"2020-10-04T21:14:22","slug":"as-incertezas-sobre-a-imunidade-coletiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/10\/06\/as-incertezas-sobre-a-imunidade-coletiva\/","title":{"rendered":"As incertezas sobre a imunidade coletiva"},"content":{"rendered":"<p><strong>Frances Jones<\/strong> &#8211; Uma quest\u00e3o ronda a comunidade cient\u00edfica desde que a pandemia de Covid-19 se alastrou com for\u00e7a pelo globo: qual porcentagem da popula\u00e7\u00e3o precisa estar imune ao v\u00edrus Sars-CoV-2 para que o ritmo de transmiss\u00e3o comece a perder for\u00e7a e eventualmente cesse? N\u00e3o h\u00e1 ainda uma resposta definitiva para essa quest\u00e3o, assim como para v\u00e1rias outras envolvendo o novo coronav\u00edrus. \u201cAinda h\u00e1 muito a ser discutido entre os cientistas, mas o que podemos dizer com certeza \u00e9 que, como planeta, como popula\u00e7\u00e3o global, estamos longe dos n\u00edveis de imunidade necess\u00e1rios para fazer parar a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a\u201d, declarou o epidemiologista irland\u00eas Mike Ryan, diretor-executivo do Programa de Emerg\u00eancias da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), em entrevista coletiva no dia 18 de agosto. \u201cPrecisamos focar no que de fato podemos fazer agora para suprimir a transmiss\u00e3o. E n\u00e3o contar com a imunidade de rebanho para a nossa salva\u00e7\u00e3o\u201d, continuou.<\/p>\n<p>Formulado nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado e mais difundido nos anos 1970 com o aumento do uso de vacinas e das campanhas de vacina\u00e7\u00e3o, o termo imunidade coletiva, tamb\u00e9m conhecido como imunidade de rebanho ou de grupo, vem sendo objeto de acalorados debates dentro e fora da academia. O conceito abrange duas ideias. A primeira \u00e9 de que a probabilidade de cont\u00e1gio em uma popula\u00e7\u00e3o diminui quando aumenta, nessa popula\u00e7\u00e3o, a propor\u00e7\u00e3o entre imunes e suscet\u00edveis. A segunda, nada \u00f3bvia e que foi descoberta por meio da constru\u00e7\u00e3o de modelos matem\u00e1ticos, \u00e9 de que, mesmo ainda havendo suscet\u00edveis, h\u00e1 um percentual de imunes \u2013 que varia conforme a infectividade do pat\u00f3geno na popula\u00e7\u00e3o e a din\u00e2mica das intera\u00e7\u00f5es no interior da popula\u00e7\u00e3o \u2013 que j\u00e1 \u00e9 suficiente para determinar uma taxa de cont\u00e1gio desprez\u00edvel, ou seja, para determinar a erradica\u00e7\u00e3o do pat\u00f3geno. Por isso, n\u00e3o \u00e9 preciso vacinar toda uma popula\u00e7\u00e3o para erradicar o pat\u00f3geno. A descoberta dessa segunda ideia foi importante para a defini\u00e7\u00e3o do conceito.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental no planejamento de imuniza\u00e7\u00f5es contra doen\u00e7as como sarampo ou poliomielite, que foram praticamente erradicadas ap\u00f3s campanhas bem-sucedidas e tiveram reca\u00eddas recentes com falhas na cobertura vacinal da popula\u00e7\u00e3o e o recrudescimento de movimentos antivacina.<\/p>\n<p>O epidemiologista Paulo Lotufo, professor de cl\u00ednica m\u00e9dica da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FM-USP), defende que o termo imunidade de rebanho s\u00f3 deve ser usado em sa\u00fade coletiva para definir um alvo a ser atingido no contexto de vacina\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o como forma de \u201cadministrar\u201d uma epidemia. \u201cDo modo como est\u00e1 sendo colocado, parece que virou um objetivo [de pol\u00edtica p\u00fablica] e esse \u00e9 o problema. Isso se torna um grande desejo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o anti\u00e9tica. Ao falar que existe essa possibilidade, estimula-se que n\u00e3o se fa\u00e7a nada e que as pessoas morram\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da epidemia, as autoridades do Reino Unido deram uma guinada em seus planos de combate ao Sars-CoV-2 depois que especialistas apresentaram as estimativas de mortes decorrentes de Covid-19 se nada fosse feito at\u00e9 que se atingisse a imunidade coletiva. O n\u00famero foi calculado em torno de 250 mil \u00f3bitos no pa\u00eds, que tem cerca de 68 milh\u00f5es de habitantes. Lotufo fez as contas para o Brasil, no in\u00edcio da pandemia: a ina\u00e7\u00e3o poderia custar 1,5 milh\u00e3o de vidas.<\/p>\n<p>Passados cinco meses da declara\u00e7\u00e3o da OMS sobre a exist\u00eancia da pandemia e da ampla dissemina\u00e7\u00e3o do Sars-CoV-2 de forma desigual pelos pa\u00edses, n\u00e3o h\u00e1 um consenso sobre o limiar necess\u00e1rio para que se atinja a imunidade coletiva e n\u00e3o se sabe se alguma regi\u00e3o do mundo j\u00e1 chegou a esse patamar.<\/p>\n<p>\u201cTodos os artigos sobre esse assunto s\u00e3o preliminares\u201d, afirma o bioqu\u00edmico Hernan Chaimovich, professor aposentado do Instituto de Qu\u00edmica da USP e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq). \u201cA Covid-19 \u00e9 uma doen\u00e7a muito nova que exige o uso dos melhores modelos, mas eles podem estar equivocados. N\u00e3o porque sejam pouco precisos, mas porque n\u00e3o se tem conhecimento suficiente sobre o v\u00edrus. Dependendo das suposi\u00e7\u00f5es feitas, pode-se chegar a qualquer n\u00famero.\u201d<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula cl\u00e1ssica para calcular o limiar parte do conceito do n\u00famero b\u00e1sico de reprodu\u00e7\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o, conhecido como R\u2080 (erre zero), indicador que mede a infectividade de um pat\u00f3geno em um ambiente no qual ningu\u00e9m adquiriu imunidade a ele. Cada doen\u00e7a apresenta um R\u2080 diferente. Ao sarampo, por exemplo, atribui-se normalmente um n\u00famero b\u00e1sico de reprodu\u00e7\u00e3o entre 12 e 18. Ou seja, uma pessoa transmite a doen\u00e7a em m\u00e9dia para pelo menos outras 12 pessoas. Na Covid-19, esse n\u00famero foi calculado entre 2,5 e 3. Isso quer dizer que uma pessoa infectada passa o v\u00edrus, em m\u00e9dia, para entre dois e tr\u00eas indiv\u00edduos. Quanto mais alto o R\u2080, maior a porcentagem necess\u00e1ria de pessoas imunes para conferir prote\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Por esse c\u00e1lculo, o limiar da imunidade coletiva no caso do Sars-CoV-2 seria de 0,60. Ou seja, pelo menos 60% da popula\u00e7\u00e3o teria de ser imune ao pat\u00f3geno para atingir essa condi\u00e7\u00e3o. Estaria, portanto, muito longe dos n\u00fameros apontados por estudos epidemiol\u00f3gicos que verificam a presen\u00e7a de anticorpos contra o novo coronav\u00edrus em popula\u00e7\u00f5es de diversas regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>Na Espanha, um dos pa\u00edses mais afetados pela pandemia, por exemplo, um estudo publicado em julho na revista\u00a0<i>The Lancet<\/i>\u00a0indicava que apenas cerca de 5% da popula\u00e7\u00e3o havia testado positivo. Para a cidade de Nova York, divulgou-se o n\u00famero de 21%. Um artigo divulgado em agosto liderado pelo Imperial College de Londres com testes de anticorpos em toda a Inglaterra encontrou uma preval\u00eancia de menos de 6% na popula\u00e7\u00e3o. Londres foi a cidade que apresentou os n\u00fameros mais altos: 13%.<\/p>\n<p>No Brasil, o segundo pa\u00eds com o maior n\u00famero de casos e mortes no mundo, com mais de 120 mil \u00f3bitos registrados no fim de agosto, o mais amplo estudo populacional sobre o novo coronav\u00edrus \u00e9 o Epicovid19-BR, coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul. Na terceira e mais recente fase de testes (<i>at\u00e9 o fechamento desta reportagem<\/i>), realizada entre 21 e 24 de junho, verificou-se uma preval\u00eancia da presen\u00e7a de anticorpos de 3,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros diferem bastante conforme a regi\u00e3o do pa\u00eds e o munic\u00edpio pesquisado. A cidade com a maior preval\u00eancia de anticorpos detectados at\u00e9 agora entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira foi Sobral, no Cear\u00e1, com 26,4% das pessoas testando positivo. Na primeira fase, eram apenas 2%, na segunda, 22,1%. Os resultados surpreenderam os pesquisadores, principalmente na regi\u00e3o Norte, onde o sistema de sa\u00fade local entrou em colapso em v\u00e1rias cidades. Em Breves, no Par\u00e1, embora a preval\u00eancia tenha sido de 25% na primeira fase do Epicovid, na segunda e na terceira fase os n\u00fameros ca\u00edram para 12,2% e 9,4%, respectivamente. Em Manaus, a porcentagem subiu entre a primeira e a segunda fase do estudo (de 12,7% passou para 14,6%). Na terceira fase, por\u00e9m, o n\u00famero de pessoas que tiveram detectados anticorpos contra o Sars-CoV-2 diminuiu para 8%. Em S\u00e3o Paulo, capital, as preval\u00eancias foram de 3,3%, 2,3% e 1,4% nas fases 1, 2 e 3, respectivamente.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio do nosso estudo, esper\u00e1vamos que a preval\u00eancia de anticorpos s\u00f3 aumentaria a cada fase, pois o pressuposto era de que os anticorpos durariam pelo menos alguns meses\u201d, conta o epidemiologista Alu\u00edsio Barros, professor da UFPel e integrante da equipe cient\u00edfica do Epicovid19-BR. \u201cMas a hist\u00f3ria dessa epidemia tem sido um grande aprendizado para todo mundo e um enorme desafio. O conhecimento existente sobre imunidade em geral e acerca da ideia de imunidade coletiva est\u00e1 sendo colocado \u00e0 prova\u201d, diz.<\/p>\n<p>Uma das hip\u00f3teses levantadas pelos pesquisadores para os achados contr\u00e1rios ao esperado, com cidades apresentando queda na preval\u00eancia, \u00e9 a de que a quantidade de anticorpos cai relativamente r\u00e1pido ap\u00f3s a pessoa se recuperar da doen\u00e7a para n\u00edveis indetect\u00e1veis ao teste usado no estudo, que tem sensibilidade de 85%. \u201cSe essas pessoas que tiveram contato com o v\u00edrus est\u00e3o imunes ou n\u00e3o, apesar dessa queda nos anticorpos, ningu\u00e9m sabe\u201d, diz Barros. Os cientistas tamb\u00e9m investigam a possibilidade de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o contar apenas com a prote\u00e7\u00e3o dos linf\u00f3citos T, um outro tipo de defesa do corpo (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/o-quebra-cabeca-da-imunidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i>ver<\/i>\u00a0Pesquisa FAPESP\u00a0<i>n\u00ba 294<\/i><\/a>), e nem sequer produzir anticorpos.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m ajudaria a explicar por que em certos lugares, como Manaus, a epidemia tenha arrefecido mesmo com as preval\u00eancias de anticorpos muito abaixo dos 60% ou 70% inicialmente previstos para conferir uma imunidade coletiva. \u201cAparentemente, v\u00e1rias coisas acontecem em paralelo e nada est\u00e1 comprovado. Tudo \u00e9 meio especulativo\u201d, afirma o cientista da UFPel.<\/p>\n<p>Ele acredita que a imunidade coletiva tenha sua parcela de responsabilidade pelo que ocorre nessas cidades. \u201cProvavelmente houve uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de pessoas suscet\u00edveis na popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz. \u201cS\u00f3 que essa coisa \u00e9 mais complicada do que foi colocado no in\u00edcio. H\u00e1 evid\u00eancias de que, embora o v\u00edrus seja novo, nem todo mundo \u00e9 suscet\u00edvel igualmente, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, seja por essa imunidade celular ser eventualmente desenvolvida em fun\u00e7\u00e3o de diferentes infec\u00e7\u00f5es, seja por um componente gen\u00e9tico ou outros motivos.\u201d<\/p>\n<p>Dois artigos cient\u00edficos divulgados recentemente enfatizaram a import\u00e2ncia da heterogeneidade das popula\u00e7\u00f5es para modelar e predizer o limiar da imunidade de rebanho. Um deles, publicado na\u00a0<i>Science<\/i>\u00a0em meados de agosto por dois pesquisadores do Departamento de Matem\u00e1tica da Universidade de Estocolmo, na Su\u00e9cia, e um terceiro cientista da Escola de Ci\u00eancias Matem\u00e1ticas da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, aponta que a imunidade coletiva pode ser alcan\u00e7ada com uma taxa de infec\u00e7\u00e3o de cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o. Isso ocorreria porque a transmiss\u00e3o e a imunidade est\u00e3o concentradas entre os membros mais ativos da popula\u00e7\u00e3o, que em geral s\u00e3o pessoas mais jovens e menos vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>O segundo artigo, ainda n\u00e3o revisado pelos pares, foi postado no reposit\u00f3rio de\u00a0<i>preprints\u00a0<\/i>medRxiv no fim de julho por um grupo coordenado pela matem\u00e1tica portuguesa Gabriela Gomes, professora da Universidade de Strathclyde, na Esc\u00f3cia. O modelo sugerido por eles, calculado a partir de dados de quatro pa\u00edses (B\u00e9lgica, Espanha, Inglaterra e Portugal), tem como resultado limiares de imunidade coletiva menores ainda, entre 10% e 20%.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico brasileiro Marcelo Urbano Ferreira, professor do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da USP e coautor do estudo, explica que as diferen\u00e7as de risco de infec\u00e7\u00e3o numa popula\u00e7\u00e3o podem se dever tanto \u00e0 varia\u00e7\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s distin\u00e7\u00f5es na susceptibilidade \u00e0 infec\u00e7\u00e3o. \u201cAs infec\u00e7\u00f5es naturais agem como um processo seletivo, fazendo com que os indiv\u00edduos de maior risco sejam os primeiros a contrair o v\u00edrus. Assim, acabam por reduzir o risco m\u00e9dio de infec\u00e7\u00e3o entre os suscet\u00edveis que restam na popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz. O modelo tamb\u00e9m leva em conta as medidas de prote\u00e7\u00e3o e distanciamento social tomadas pelos diferentes governos e sua ader\u00eancia pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsse fen\u00f4meno din\u00e2mico poderia explicar por que, mesmo com o retorno \u00e0s atividades normais em diversos pa\u00edses europeus, as propor\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos infectados mant\u00eam-se abaixo das previs\u00f5es iniciais\u201d, aponta o m\u00e9dico do ICB. Ferreira coordena um projeto, financiado pela FAPESP, que investiga a magnitude e a dura\u00e7\u00e3o da imunidade protetora e a propor\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00f5es que escapam \u00e0 notifica\u00e7\u00e3o em comunidades do interior da Amaz\u00f4nia. Os dados colhidos em campo permitir\u00e3o testar alguns pressupostos dos modelos matem\u00e1ticos e refinar sua capacidade preditiva.<\/p>\n<p>Por serem contraintuitivas, as predi\u00e7\u00f5es sobre o limiar da imunidade coletiva causam espanto entre o p\u00fablico leigo e n\u00e3o s\u00e3o referendadas por todos os especialistas. \u201cEsses n\u00fameros devem ser vistos com ressalvas\u201d, pondera o m\u00e9dico Claudio Struchiner, professor da Escola de Matem\u00e1tica Aplicada da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro e pesquisador aposentado da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz). \u201c\u00c9 um trabalho importante, que traz um novo racioc\u00ednio, mas ainda precisa ser confirmado.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com Struchiner, um problema do argumento defendido pelo artigo \u00e9 que se chega \u00e0 faixa de 10% a 20% em boa medida em raz\u00e3o da diminui\u00e7\u00e3o da mobilidade das pessoas e da ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas higi\u00eanicas, por pelo menos uma parcela da popula\u00e7\u00e3o. \u201cSe voc\u00ea diz \u2018chegamos ao limiar\u2019, as pessoas param de praticar esse comportamento seguro. Relaxam e deixam de usar m\u00e1scaras e lavar as m\u00e3os, come\u00e7am a ir a shoppings e restaurantes. Ao mudar o comportamento, podemos estar adicionando lenha na fogueira.\u201d Struchiner n\u00e3o considera que o limiar da imunidade coletiva em cidades como Manaus ou Rio de Janeiro tenha sido atingido. \u201cNa minha opini\u00e3o, n\u00e3o acho que possamos abandonar todas as medidas e pr\u00e1ticas de comportamento seguro.\u201d<\/p>\n<p>O epidemiologista Jos\u00e9 Eluf Neto, professor da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Funda\u00e7\u00e3o Oncocentro de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m recomenda cautela. \u201cEstamos conhecendo a Covid-19 agora. A realidade vai se transformando e os pressupostos usados pelos modelos matem\u00e1ticos v\u00e3o sendo mudados \u00e0 medida que conhecemos mais a doen\u00e7a\u201d, sustenta. \u201cUma quest\u00e3o muito s\u00e9ria, por exemplo, \u00e9 que pouco se sabe sobre a reinfec\u00e7\u00e3o. As limita\u00e7\u00f5es de modelos matem\u00e1ticos s\u00e3o bem conhecidas. Contudo, na atual pandemia, com in\u00fameras incertezas no tocante ao v\u00edrus e \u00e0 hist\u00f3ria natural da infec\u00e7\u00e3o, muitas predi\u00e7\u00f5es t\u00eam sido divulgadas sem alertar para suas limita\u00e7\u00f5es. Por isso, \u00e9 preciso ser prudente.\u201d<\/p>\n<p><strong>Projeto<\/strong><br \/>\nMapeando a dissemina\u00e7\u00e3o de Sars-CoV-2: Dimens\u00e3o do surto, din\u00e2mica de transmiss\u00e3o, desfechos cl\u00ednicos da infec\u00e7\u00e3o e dura\u00e7\u00e3o da resposta de anticorpos em uma pequena cidade amaz\u00f4nica (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/106153\/mapeando-a-disseminacao-de-sars-cov-2-dimensao-do-surto-dinamica-de-transmissao-desfechos-clinico\/?q=20\/04505-3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 20\/04505-3<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Marcelo Urbano Ferreira;\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 361.767,81.<\/p>\n<p><strong>Artigos cient\u00edficos<\/strong><br \/>\nBRITTON, T.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/369\/6505\/846.abstract\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A mathematical model reveals the influence of population heterogeneity on herd immunity to Sars-CoV-2<\/a>.\u00a0<strong>Science<\/strong>. 14 ago. 2020.<br \/>\nAGUAS, R.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2020.07.23.20160762v1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Herd immunity thresholds for Sars-CoV-2 estimated from unfolding epidemics (preprint)<\/a>.\u00a0<strong>medRxiv<\/strong>. 24 jul. 2020.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/as-incertezas-sobre-a-imunidade-coletiva\/)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frances Jones &#8211; Uma quest\u00e3o ronda a comunidade cient\u00edfica desde que a pandemia de Covid-19 se alastrou com for\u00e7a pelo globo: qual porcentagem da popula\u00e7\u00e3o precisa estar imune ao v\u00edrus Sars-CoV-2 para que o ritmo de transmiss\u00e3o comece a perder for\u00e7a e eventualmente cesse? 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