{"id":14064,"date":"2020-10-03T17:08:26","date_gmt":"2020-10-03T20:08:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14064"},"modified":"2020-10-01T17:10:47","modified_gmt":"2020-10-01T20:10:47","slug":"celso-furtado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/10\/03\/celso-furtado\/","title":{"rendered":"Celso Furtado"},"content":{"rendered":"<p>RICARDO BIELSCHOWSKY &#8211; A\u00a0atualidade da obra do economista no centen\u00e1rio de seu nascimento<\/p>\n<p><strong>Vida e obra<\/strong><\/p>\n<p>Celso Furtado encarnou, talvez melhor do que ningu\u00e9m, o desejo do desenvolvimento econ\u00f4mico e social da Am\u00e9rica Latina. Com aud\u00e1cia e criatividade, simbolizou por mais de meio s\u00e9culo os esfor\u00e7os de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es para pensar o desenvolvimento de forma aut\u00f4noma, desde a perspectiva do \u201cSul\u201d, ou seja, a dos pa\u00edses em desenvolvimento, da Am\u00e9rica Latina e, em particular, do Brasil. A biografia de Celso Furtado descreve a vida de um homem de a\u00e7\u00e3o e pensamento a servi\u00e7o do desenvolvimento, em todas as dimens\u00f5es da palavra. Com trinta livros publicados e mais 60 tradu\u00e7\u00f5es em uma d\u00fazia de idiomas, exerceu, no Brasil e no exterior, uma grande influ\u00eancia na teoria e na pr\u00e1tica do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Celso Furtado nasceu em 26 de julho de 1920, em Pombal, no cora\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o semi\u00e1rido da Para\u00edba e do nordeste. Essa regi\u00e3o de seca e pobreza extrema gerou um tipo de cultura popular e de ser humano que Furtado expressa claramente em sua autodefini\u00e7\u00e3o: \u201cEu sou como o cacto\u201d. A\u00a0express\u00e3o encerra os elementos que caracterizam a vida e obra de Furtado: austeridade e estoicismo, car\u00e1ter e valentia, s\u00edntese condensada e densa, profundidade sem falso brilho. A\u00a0essas caracter\u00edsticas originais de sua terra natal se somaria a influ\u00eancia de sua vida no exterior.<\/p>\n<p>A in\u00edcios de 1945, logo ap\u00f3s formar-se em direito, embarca para a It\u00e1lia, para lutar na Segunda Guerra mundial. Em\u00a01947 se instala em Paris, onde em 1948 obt\u00e9m um doutorado em economia na Sorbonne com uma tese sobre a economia colonial brasileira.<\/p>\n<p>Em 1949 se une \u00e0 equipe da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina (Cepal), que acabava de ser criada. O\u00a0Secretario Executivo, Ra\u00fal Prebisch, nomeia-o diretor da Divis\u00e3o de Desenvolvimento.<\/p>\n<p>Nesse cargo, contribui em forma decisiva \u00e0 formula\u00e7\u00e3o do enfoque estruturalista da realidade socioecon\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina, que analisa a especificidade de suas estruturas produtivas, sociais e institucionais e os problemas que apresentam para o processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>O enfoque estruturalista recebeu v\u00e1rias contribui\u00e7\u00f5es de Furtado, entre as quais destacam-se: a perspectiva hist\u00f3rica, consagrada em seus livros sobre a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica brasileira e latino-americana; a an\u00e1lise da tend\u00eancia ao subemprego; em forma muito associada, a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es entre crescimento e distribui\u00e7\u00e3o da renda no contexto latino-americano; e, por \u00faltimo, a incorpora\u00e7\u00e3o de fatores socioculturais e ambientais \u00e0 an\u00e1lise econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Em 1954, coordena um estudo sobre a economia brasileira, que d\u00e1 suporte \u00e0s t\u00e9cnicas de planejamento e que ajudaria na elabora\u00e7\u00e3o do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, refer\u00eancia na hist\u00f3ria da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Convidado por Nicholas Kaldor, passa os anos de 1957 e 1958 em Cambridge, Inglaterra, onde escreve\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil<\/em>\u00a0(Furtado, 1959a), cl\u00e1ssico da historia econ\u00f4mica traduzida a nove idiomas. Essa obra capital do enfoque hist\u00f3rico-estrutural exerceu uma influ\u00eancia inestim\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia nacional sobre a identidade hist\u00f3rica brasileira e, em consequ\u00eancia, sobre a necessidade de mobiliza\u00e7\u00e3o em favor de transforma\u00e7\u00f5es profundas nos planos econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social.<\/p>\n<p>Durante esses anos, escreveu tamb\u00e9m os ensaios que depois seriam reunidos em suas duas obras te\u00f3rico-hist\u00f3ricas mais importantes, a saber:\u00a0Desenvolvimento e subdesenvolvimento\u00a0e\u00a0Teoria e pol\u00edtica do desenvolvimento econ\u00f4mico\u00a0(Furtado, 1961 e 1967). Nelas expressa conceitos fundamentais, entre eles o de que o subdesenvolvimento \u00e9 um \u201cprocesso hist\u00f3rico aut\u00f4nomo\u201d, e que n\u00e3o pode considerar-se simplesmente como uma etapa do desenvolvimento econ\u00f4mico por que passam todos os pa\u00edses. E o\u00a0de que, no contexto da periferia latino-americana, o crescimento tende a preservar o subemprego e a heterogeneidade tecnol\u00f3gica, a concentra\u00e7\u00e3o da renda e um grau de injusti\u00e7a social cada vez maior.<\/p>\n<p>A mensagem era prof\u00e9tica: sem uma profunda mobiliza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, corre-se o risco de perpetuar o subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>A fins dos anos 1950, quando Furtado regressa ao Brasil depois de quase dez anos na Cepal, o nordeste sofria uma das secas mais dram\u00e1ticas de sua hist\u00f3ria. O\u00a0presidente Kubitschek lhe pede que prepare um plano para fazer frente \u00e0 trag\u00e9dia nordestina (Furtado, 1959b). Esse plano dar\u00e1 origem \u00e0\u00a0Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste\u00a0(Sudene), ag\u00eancia federal criada para promover o desenvolvimento na regi\u00e3o mais pobre do Brasil. Os\u00a0seis anos em que Furtado dirigiu a Sudene foram considerados o per\u00edodo do maior esfor\u00e7o institucional de todos os tempos em favor do desenvolvimento do Nordeste, buscando a revers\u00e3o do atraso secular em que vivia a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a esse desempenho se transforma no primeiro titular do Minist\u00e9rio do Planejamento e, a pedido do presidente Jo\u00e3o Goulart, em 1962 elabora o Plano Trienal de Desenvolvimento.<\/p>\n<p>A intensa atividade pol\u00edtica e executiva \u00e0 frente da Sudene e do Minist\u00e9rio do Planejamento n\u00e3o diminuiu sua vitalidade intelectual: s\u00e3o desse per\u00edodo os livros\u00a0A pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o brasileira\u00a0e\u00a0Dial\u00e9tica do desenvolvimento\u00a0(Furtado, 1962 e 1964).<\/p>\n<p>O restante da d\u00e9cada de 1960 \u00e9 de ex\u00edlio e fecundidade intelectual. O governo que surgiu do golpe militar de 1964 anula os direitos pol\u00edticos de Celso Furtado. A vida no ex\u00edlio se inicia na Universidade de Yale, e logo ap\u00f3s Furtado se estabelece na Fran\u00e7a, onde por vinte anos ser\u00e1 professor de Desenvolvimento Econ\u00f4mico da Universidade de Paris I-Sorbonne. Foi tamb\u00e9m professor em outras universidades, entre elas Columbia e Cambridge, onde foi o primeiro titular da c\u00e1tedra Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Integrou o Conselho Acad\u00eamico da Universidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas e foi membro do Comit\u00e9 de Planejamento do Desenvolvimento da ECOSOC\/ONU.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia de oito livros publicados \u2014 todos de ampla circula\u00e7\u00e3o \u2014 reflete a impressionante fecundidade intelectual de Furtado nesse per\u00edodo. Um\u00a0dos elementos anal\u00edticos comuns a v\u00e1rias dessas obras \u00e9 o conceito de que a industrializa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o conseguia eliminar a heterogeneidade estrutural e a depend\u00eancia. Corresponde tamb\u00e9m a essa \u00e9poca sua an\u00e1lise pioneira sobre os v\u00ednculos entre o processo de crescimento e o da distribui\u00e7\u00e3o de renda, na qual Furtado argumenta que as caracter\u00edsticas da oferta e da demanda nos pa\u00edses latino-americanos conduzem a processos que tendem a concentrar a renda e a confirmar a heterogeneidade social.<\/p>\n<p>O conjunto de obras do per\u00edodo inspirou toda uma tradi\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise e reflex\u00f5es na Am\u00e9rica Latina e no Brasil sobre a necessidade de transformar os estilos ou modelos de desenvolvimento econ\u00f4mico, de grande import\u00e2ncia intelectual e pol\u00edtica em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos anos 1980 Celso furtado regressa ao Brasil. A\u00a0crise da \u201cd\u00e9cada perdida\u201d desses anos na Am\u00e9rica Latina levou-o a uma firme oposi\u00e7\u00e3o ao tipo de ajuste exigido pelos credores internacionais, postura que articulou em tr\u00eas livros (Furtado, 1981, 1982 e 1983). Neles, insiste que a forma correta de realizar ajustes \u00e9 pela via do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, do progresso t\u00e9cnico, do investimento e do crescimento.<\/p>\n<p>Em um desses livros, em 1982, o autor formula perguntas que lamentavelmente continuam vigentes tanto na Am\u00e9rica Latina em geral como no Brasil em particular.<\/p>\n<blockquote><p>Devemos aceitar a internacionaliza\u00e7\u00e3o cada vez maior dos circuitos monet\u00e1rios e financeiros, com a consequente perda da autonomia das decis\u00f5es, numa fase em que o protecionismo dos pa\u00edses centrais se reafirma? Devemos renunciar a uma pol\u00edtica de desenvolvimento? Que consequ\u00eancias sociais devemos esperar de uma prolongada redu\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o do emprego?<\/p>\n<p>(Furtado, 1982, p.\u00a064)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao longo dessa d\u00e9cada, Furtado tamb\u00e9m se dedicou a escrever sua biografia, uma saborosa trilogia em que, a come\u00e7ar pelo poder de fixa\u00e7\u00e3o e evoca\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos, tem seu lado po\u00e9tico de mem\u00f3rias sempre unido \u00e0 elegante concis\u00e3o da escrita e \u00e0 densidade do pensamento rigoroso;\u00a0A\u00a0fantasia organizada,\u00a0A\u00a0fantasia desfeita, e\u00a0Os\u00a0ares do mundo\u00a0(Furtado,\u00a02014). Estas mem\u00f3rias s\u00e3o paralelas a seus estudos sobre a dimens\u00e3o cultural do subdesenvolvimento, que originaram os livros\u00a0Criatividade e depend\u00eancia\u00a0e\u00a0Cultura e desenvolvimento em \u00e9poca de crise\u00a0(Furtado, 1978\u00a0e\u00a01984).<\/p>\n<p>Reinserindo-se na vida pol\u00edtica do pa\u00eds, que ent\u00e3o retornava \u00e0 democracia, Furtado foi embaixador do Brasil na Comunidade Econ\u00f4mica Europeia e, em 1986, ministro da Cultura do governo Sarney.<\/p>\n<p>Nos anos 1990 e 2000 verifica-se amplo reconhecimento do aporte de Furtado no exterior. Integrou a South Commission e foi membro da Comiss\u00e3o Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da Unesco. Em\u00a01996, a Academia de Ci\u00eancias do Terceiro Mundo cria o Pr\u00eamio Internacional Celso Furtado, para o melhor trabalho acad\u00eamico no campo da economia pol\u00edtica nos pa\u00edses n\u00e3o desenvolvidos.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o de seus 80 anos, em 2000, a Academia Brasileira de Letras, da qual era membro, organizou a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0Celso Furtado \u2014 Voca\u00e7\u00e3o Brasil, que tamb\u00e9m foi exibida na sede da Cepal, em Santiago.<\/p>\n<p>O texto acima transcrito emocionou a todos que estavam presentes na cerim\u00f4nia da UNCTAD em 2004. Celso Furtado faleceu naquele mesmo ano. Um maravilhoso trabalho de divulga\u00e7\u00e3o de sua obra vem sendo feito por sua vi\u00fava, a jornalista Rosa Freyre d\u2019Aguiar. Ela emprega sua escrita refinada, sua erudi\u00e7\u00e3o e fidelidade \u00e0s ideias do mestre na organiza\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o de suas obras. Recentemente, organizou e publicou um precioso livro de di\u00e1rios de Celso Furtado (2019) e acaba de organizar outro sobre suas correspond\u00eancias, que est\u00e1 no prelo, e que tamb\u00e9m promete ser um belo livro. \u00c9 uma beleza essa \u201cparceria intelectual\u201d entre a Rosa Freyre d\u2019Aguiar e Celso Furtado.<\/p>\n<p><strong>Contribui\u00e7\u00f5es ao estruturalismo e sua atualidade<\/strong><\/p>\n<p>A lideran\u00e7a intelectual exercida pelo pensamento econ\u00f4mico de Furtado no campo do desenvolvimentismo progressista e nacionalista no Brasil deve-se \u00e0 riqueza e abrang\u00eancia da teoriza\u00e7\u00e3o estruturalista que formulava para entender a realidade brasileira.<\/p>\n<p>Ele se descrevia como um militante intelectual a servi\u00e7o da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: \u201cN\u00e3o fui outra coisa na vida que um intelectual, mas sempre consciente de que os maiores problemas da sociedade exigem um compromisso com a a\u00e7\u00e3o (\u2026)\u201d (depoimento em Gaud\u00eancio e Formiga, 1995, p.\u00a039).<\/p>\n<p>De fato, com o estruturalismo, transmitiu como ningu\u00e9m o entendimento sobre a natureza do subdesenvolvimento brasileiro e o imenso desafio contido na realidade brasileira para um projeto de a\u00e7\u00e3o transformadora da sociedade.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es de Furtado \u00e0 teoria estruturalista ser\u00e3o descritas na presente se\u00e7\u00e3o. Antes de faz\u00ea-lo, \u00e9 necess\u00e1rio um breve registro dos elementos centrais \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o estruturalista cepalina.<\/p>\n<p>Como descrito acima, Furtado chegou na Cepal em 1949, depois de ter defendido uma tese na Sorbonne sobre hist\u00f3ria colonial brasileira. Trabalhou naqueles anos inaugurais da agencia da\u00a0ONU\u00a0com Ra\u00fal Prebisch, o grande economista argentino fundador do pensamento estruturalista latino-americano. Desse encontro surgiu o m\u00e9todo hist\u00f3rico estrutural, que Furtado usou em toda sua vida. \u00c9 um m\u00e9todo que faz a intera\u00e7\u00e3o entre o enfoque \u201chist\u00f3rico-indutivo\u201d, e o marco te\u00f3rico estruturalista (\u201cdedutivo\u201d): a an\u00e1lise das estruturas subdesenvolvidas aparece como refer\u00eancia te\u00f3rica gen\u00e9rica para o exame das tend\u00eancias hist\u00f3ricas, dando lugar a uma an\u00e1lise que toma em conta os comportamentos dos agentes sociais e a trajet\u00f3ria das institui\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>O que \u00e9 a teoria estruturalista difundida e enriquecida por Furtado, por que foi t\u00e3o influente e por que \u00e9 t\u00e3o atual? Por que o estruturalismo e consequentemente toda a obra de Furtado s\u00e3o t\u00e3o atuais?<\/p>\n<p>A pergunta que cabe fazer antes de entrar nas contribui\u00e7\u00f5es do mestre \u00e9: O que \u00e9 a teoria estruturalista difundida e enriquecida por Furtado, por que foi t\u00e3o influente e por que \u00e9 t\u00e3o atual? Por que o estruturalismo e consequentemente toda a obra de Furtado s\u00e3o t\u00e3o atuais? A resposta \u00e9 simples e triste: porque apesar de alguns avan\u00e7os socioecon\u00f4micos, o subdesenvolvimento na Am\u00e9rica Latina e no Brasil ainda n\u00e3o se desfez.<\/p>\n<p>A teoria estruturalista cl\u00e1ssica analisou o subdesenvolvimento latino-americano \u201cperif\u00e9rico\u201d, por contraste \u00e0s economias \u201ccentrais\u201d, em tr\u00eas aspectos b\u00e1sicos do subdesenvolvimento em nossa regi\u00e3o, que se mant\u00eam atuais.<\/p>\n<p>Primeiro, o estruturalismo dizia nas origens que aqui na periferia h\u00e1 uma baixa diversidade da estrutura produtiva e exportadora, determinando uma press\u00e3o de demanda, em simult\u00e2neo em v\u00e1rios setores, dif\u00edcil de administrar, ao tornar o processo de crescimento e industrializa\u00e7\u00e3o muito exigente em mat\u00e9ria de investimento e de divisas estrangeiras. Hoje o \u201cneo-estruturalismo\u201d da Cepal n\u00e3o mais diz que h\u00e1 baixa diversidade, e sim decrescente e inadequada diversidade (decrescente, devido \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o, e inadequada porque nos falta a ponta tecnol\u00f3gica).<\/p>\n<p>Segundo, o estruturalismo inaugural argumentava que existia em nossos pa\u00edses forte heterogeneidade estrutural, vale dizer, o fato de que alguns setores trabalhavam com produtividade elevada mas a grande maioria dos ocupados trabalhava com produtividades reduzidas. Isto infelizmente at\u00e9 hoje n\u00e3o mudou. O\u00a0neo-estruturalismo atual reafirma que h\u00e1 enorme contingente de pessoas ocupadas com baixos n\u00edveis de produtividade, em rela\u00e7\u00f5es de trabalho informais e prec\u00e1rias. Isso tanto era parte central de nosso subdesenvolvimento nos anos 1950 como continua sendo atualmente. Os\u00a0reflexos s\u00e3o a enorme pobreza e a p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o de renda, apontando para uma demanda social insatisfeita por programas de prote\u00e7\u00e3o social, por reforma tribut\u00e1ria redistributiva da renda, por eleva\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do sal\u00e1rio m\u00ednimo, por fortalecimento dos sindicatos para aumentar o poder de barganha dos trabalhadores, etc.<\/p>\n<p>Terceiro, os estruturalistas, nas origens, diziam tamb\u00e9m, de um modo geral, que havia atraso institucional e consequentemente desperd\u00edcio de parte do excedente econ\u00f4mico, devido a investimentos improdutivos e a consumo sup\u00e9rfluo, com empresariado e Estados nacionais pouco vocacionados ao investimento e ao progresso t\u00e9cnico. Com\u00a0algumas adapta\u00e7\u00f5es, a teoriza\u00e7\u00e3o dos anos 1950 tem sua atualidade no que se refere a atraso institucional, ou a inadequa\u00e7\u00e3o institucional para as tarefas do desenvolvimento:<\/p>\n<p>&#x2666;\u00a0a institucionalidade deixa muito a desejar em termos de prote\u00e7\u00e3o social;<\/p>\n<p>&#x2666; o sistema educacional tem muitas insufici\u00eancias; e os sistema de C&amp;T melhoraram no que diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas s\u00e3o muito falhos no que diz respeito \u00e0 inova\u00e7\u00e3o por empresas produtivas \u2014 por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 empresas nacionais na ind\u00fastria que sejam de grande porte, portanto capazes de aumentar o valor adicionado, porque lhes falta poder de mercado em escala internacional e capacidade de inova\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#x2666;\u00a0apesar do fato de que nossas economias s\u00e3o profundamente financeirizada, nossa institucionalidade financeira \u00e9 prec\u00e1ria em mat\u00e9ria de profundidade do sistema financeiro para acolher exig\u00eancias de longo prazo, inclusive na esfera da habita\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#x2666;\u00a0n\u00e3o temos um bom sistema de prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, nos falta principalmente fiscaliza\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o das transgress\u00f5es, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que foi com base nesse contraste entre pa\u00edses desenvolvidos e pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que surgiram todas as teses mais conhecidas da Cepal: an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es \u201ccentro\u2013periferia\u201d (de inser\u00e7\u00e3o internacional desfavor\u00e1vel), deteriora\u00e7\u00e3o de termos de troca, desequil\u00edbrio estrutural na balan\u00e7a de pagamentos, a tese estruturalista da infla\u00e7\u00e3o, a tese da resili\u00eancia do subemprego, etc.<\/p>\n<p>Isto posto, passemos \u00e0s principais contribui\u00e7\u00f5es de Celso Furtado ao estruturalismo. S\u00e3o\u00a0tr\u00eas as mais marcantes:<\/p>\n<p>1 \u2013 Furtado incluiu uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica de longo prazo \u00e0 abordagem estruturalista, em Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Brasil(feb) e Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina (Furtado, 1959 e 1969);<\/p>\n<p>2 \u2013 fez a an\u00e1lise da tend\u00eancia \u00e0 continuidade do subemprego, em Desenvolvimento e subdesenvolvimento(Furtado, 1961); e<\/p>\n<p>3 \u2013 fez a integra\u00e7\u00e3o anal\u00edtica entre estruturas produtivas e distributivas, em Subdesenvolvimento e Estagna\u00e7\u00e3o na ale Teoria e Pol\u00edtica do Desenvolvimento Econ\u00f4mico (Furtado, 1966 e 1967).<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de maior peso foi a inclus\u00e3o da dimens\u00e3o hist\u00f3rica de longo prazo, principalmente com o livro FEB. Nele, o autor visita a hist\u00f3ria econ\u00f4mica brasileira para conceder autonomia te\u00f3rica e legitimidade emp\u00edrica ao estruturalismo. De fato, feb \u00e9 mais do que uma contribui\u00e7\u00e3o sobre hist\u00f3ria. Representa uma contribui\u00e7\u00e3o anal\u00edtica de peso. Em meu livro sobre pensamento econ\u00f4mico brasileiro eu chamo o FEB de \u201ca obra-prima do estruturalismo brasileiro\u201d (Bielschowsky, 1995).<\/p>\n<p>Uma das chaves empregadas no\u00a0feb\u00a0para o entendimento da forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica brasileira \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o entre o Brasil, entendido como col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o mercantil para exporta\u00e7\u00e3o, e as col\u00f4nias da Am\u00e9rica do Norte. Trata-se de um \u201ckeynesianismo\u201d pela negativa: Furtado contrasta repetidamente as duas modalidades, argumentando que a norte-americana foi gradualmente diversificando seu aparelho produtivo, de forma concomitante a uma propriedade e uma renda mais desconcentradas do que aqui na col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o brasileira \u2014 ou seja, com maior homogeneidade produtiva e social. Aqui, o efeito multiplicador de renda e emprego vazava ao exterior, via importa\u00e7\u00f5es, impedindo a diversifica\u00e7\u00e3o produtiva, e mantendo boa parte da popula\u00e7\u00e3o em atividades de subsist\u00eancia, com rendimentos correspondentes \u00e0 baixa produtividade.<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o do argumento da forma\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento como fen\u00f4meno hist\u00f3rico, Furtado mostra como, no \u201cciclo do a\u00e7\u00facar\u201d, n\u00e3o se cria mercado interno capaz de gerar uma economia diversificada que se auto-impulsione; e, com a pecu\u00e1ria no \u201c<em>hinterland<\/em>\u201d, \u00e9 criada vasta economia de subsist\u00eancia, que vai se perpetuando ao longo dos s\u00e9culos da hist\u00f3ria nordestina, junto com a estagna\u00e7\u00e3o secular da pr\u00f3pria agricultura canavieira.<\/p>\n<p>O subdesenvolvimento vai se enraizando na estrutura produtiva nordestina e depois o mesmo vai ocorrer no centro-sul. \u00c9 o Brasil da baixa diversidade produtiva e exportadora e da profunda heterogeneidade estrutural. Espelhando esse processo, instala-se profunda desigualdade social, em cujas condi\u00e7\u00f5es estaria se processando a industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que come\u00e7a no nordeste se refor\u00e7a com o \u201cciclo da minera\u00e7\u00e3o\u201d: apesar de um maior fluxo de renda monet\u00e1ria, e mesmo estimulando toda uma ocupa\u00e7\u00e3o territorial baseada no gado, a involu\u00e7\u00e3o do ciclo do ouro vai dar lugar \u00e0 extens\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento, vale dizer, baixa diversidade produtiva e heterogeneidade estrutural, com uma popula\u00e7\u00e3o trabalhando no campo de forma subordinada a grandes propriet\u00e1rios com rela\u00e7\u00f5es de trabalho e remunera\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o se desfaz no \u201cciclo do caf\u00e9\u201d: o problema da m\u00e3o de obra e a transi\u00e7\u00e3o para o trabalho assalariado ocupam v\u00e1rios cap\u00edtulos do livro (justificando a solu\u00e7\u00e3o de imigra\u00e7\u00e3o europeia): o ciclo do caf\u00e9 representa a justaposi\u00e7\u00e3o da modernidade do caf\u00e9 sobre o subdesenvolvimento pr\u00e9vio. A\u00a0m\u00e3o de obra empregada no caf\u00e9 n\u00e3o ser\u00e1 nem o escravo liberto nem o vasto campesinato pobre distribu\u00eddo pelo Brasil afora, que subsistia em min\u00fasculas propriedades e em subordina\u00e7\u00e3o aos grandes latif\u00fandios.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de massa monet\u00e1ria com trabalho assalariado que comp\u00f5e o mercado interno, embora viesse a ser a base para o posterior \u201cdeslocamento do centro din\u00e2mico para a ind\u00fastria\u201d n\u00e3o seria capaz de desfazer a economia de subsist\u00eancia. Mais ainda, o ciclo do caf\u00e9 se fez com um fluxo de imigrantes europeus pobres, que ampliaria a disponibilidade de m\u00e3o de obra cujos rendimentos do trabalho eram baixos, n\u00e3o acompanhando a eleva\u00e7\u00e3o da produtividade do polo moderno, quando esse aumento eventualmente ocorria. Ou\u00a0seja, o fluxo migrat\u00f3rio ampliou a reserva de m\u00e3o de obra, permitindo que a economia cafeeira se expandisse por muito tempo sem que os sal\u00e1rios reais se elevassem.<\/p>\n<p>Toda essa an\u00e1lise era datada: FEB foi publicado num momento em que era necess\u00e1rio confirmar a condu\u00e7\u00e3o deliberada do processo problem\u00e1tico de industrializa\u00e7\u00e3o ent\u00e3o em curso. Ela vinha ocorrendo sobre estrutura produtiva e social atrasada, profundamente subdesenvolvida, e precisava de a\u00e7\u00e3o coordenada pela sociedade e pelo Estado para dar velocidade e efici\u00eancia ao crescimento com transforma\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>O livro tinha mesmo que ser um marco na historiografia econ\u00f4mica. \u00c9 um livro metodologicamente poderoso, que vai mostrando ao longo dos s\u00e9culos os processos hist\u00f3ricos de forma\u00e7\u00e3o da estrutura econ\u00f4mica e social subdesenvolvida no Brasil. No FEB, o autor ainda \u00e9 relativamente otimista, ou moderadamente c\u00e9tico. Dois anos mais tarde, em Desenvolvimento e subdesenvolvimento (Furtado, 1961), a grande novidade \u00e9 a an\u00e1lise da tend\u00eancia \u00e0 continuidade do subemprego, j\u00e1 numa linguagem mais pessimista. Foi sua segunda contribui\u00e7\u00e3o ao estruturalismo. Ao que tudo indica, foi o primeiro intelectual a assinalar a tend\u00eancia \u00e0 resili\u00eancia do subemprego na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Muito brevemente, seguem-se alguns dos elementos anal\u00edticos principais da obra:<\/p>\n<p>1 \u2013 o subdesenvolvimento \u00e9 uma das linhas hist\u00f3ricas de proje\u00e7\u00e3o do capitalismo industrial central a n\u00edvel global: a que se faz por meio de empresas capitalistas multinacionais modernas sobre estruturas arcaicas, formando \u201ceconomias h\u00edbridas\u201d (e profundamente \u201cheterog\u00eaneas\u201d) \u2014 uma teoriza\u00e7\u00e3o de 1961 que se pode considerar fundacional das teorias da depend\u00eancia logo depois formuladas;<\/p>\n<p>2 \u2013 o subdesenvolvimento \u00e9 um processo em \u201csi mesmo\u201d, que tende a se perpetuar, e n\u00e3o uma simples \u201cetapa de desenvolvimento\u201d pela qual passam todos os pa\u00edses; e<\/p>\n<p>3 \u2013 a estrutura ocupacional com oferta ilimitada de m\u00e3o de obra se altera nas economias subdesenvolvidas de forma lenta, porque o progresso t\u00e9cnico, capital-intensivo, \u00e9 inadequado \u00e0 absor\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ligados \u00e0 vasta economia de subsist\u00eancia. O sistema tende \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de renda, e a um grau de injusti\u00e7a social crescente.<\/p>\n<p>A terceira contribui\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de Furtado (1966) ao estruturalismo \u00e9 um desdobramento l\u00f3gico das duas anteriores. No\u00a0livro\u00a0Subdesenvolvimento e estagna\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina\u00a0nosso autor estava propondo um novo projeto para o Brasil, de crescimento com redistribui\u00e7\u00e3o de renda. Nesse esfor\u00e7o, fez a integra\u00e7\u00e3o entre estruturas distributivas (e perfis de demanda) e estruturas produtivas (ou seja, padr\u00f5es de oferta, que se realizam pela via da acumula\u00e7\u00e3o de capital e do progresso t\u00e9cnico).<\/p>\n<p>S\u00e3o os seguintes os elementos principais da constru\u00e7\u00e3o anal\u00edtica:<\/p>\n<p>1 \u2013 a composi\u00e7\u00e3o da demanda, que reflete as estruturas de propriedade e renda concentradas, predetermina a evolu\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o da oferta, ou seja, o padr\u00e3o de industrializa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>2 \u2013 o investimento, assim determinado, reproduz o padr\u00e3o tecnol\u00f3gico dos pa\u00edses centrais, intensivo em capital e em economias de escala; isso mant\u00e9m ilimitada a oferta de m\u00e3o de obra, ou seja, n\u00e3o desfaz o enorme contingente de trabalhadores dispon\u00edvel a baixos rendimentos, o que por sua vez impede que o aumento de produtividade se traduza em aumento de sal\u00e1rios; e<\/p>\n<p>3 \u2013 o modelo \u00e9 portanto de mudan\u00e7a estrutural voltada a uma elite consumidora.<\/p>\n<p>A\u00a0intera\u00e7\u00e3o entre \u201cestruturas\u201d de demanda e de oferta determina um certo \u201cmodelo\u201d ou \u201cestilo\u201d de crescimento. Isso foi analiticamente inovador, na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Furtado concluiu que o sistema tende \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o por rendimentos decrescentes de escala, queda na rentabilidade e, portanto, desincentivo ao investimento. Na\u00a0falta de uma urgente redistribui\u00e7\u00e3o da renda, todos perderiam, trabalhadores e empres\u00e1rios, porque a economia estaria fadada a lento ou nenhum crescimento.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o de que a economia tenderia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o foi criticada por raz\u00f5es te\u00f3ricas e, principalmente, porque se mostrou empiricamente equivocada. A\u00a0publica\u00e7\u00e3o, em 1967, sai na v\u00e9spera do crescimento mais acelerado por que o pa\u00eds j\u00e1 passou, o do per\u00edodo chamado de \u201cmilagre perverso\u201d \u2014 devido ao r\u00e1pido crescimento aliado a forte concentra\u00e7\u00e3o da renda.<\/p>\n<p>O \u201cestagnacionismo\u201d n\u00e3o pode, por\u00e9m, ofuscar o brilhantismo da an\u00e1lise, contido na in\u00e9dita integra\u00e7\u00e3o entre estruturas produtivas e estruturas distributivas para entender a din\u00e2mica econ\u00f4mica. A\u00a0constru\u00e7\u00e3o anal\u00edtica teve, ademais, na evolu\u00e7\u00e3o das ideias brasileiras, o m\u00e9rito de dar partida a uma hist\u00f3ria intelectual e de projeto pol\u00edtico para o Brasil que est\u00e1 viva at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>De fato, a obra abre toda uma temporada de debates e reflex\u00f5es sobre crescimento e redistribui\u00e7\u00e3o de renda, numa trajet\u00f3ria que iria desaguar, muitos anos mais tarde, na estrat\u00e9gia de desenvolvimento proposta em v\u00e1rios documentos importantes do Partido dos Trabalhadores (1994 e 2002), ou seja, a do crescimento com redistribui\u00e7\u00e3o de renda pelo mercado interno de consumo de massa.<\/p>\n<p>Vale a pena recordar em breves palavras essa trajet\u00f3ria. Alguns anos depois da publica\u00e7\u00e3o da obra, em 1969, e j\u00e1 com ampla evid\u00eancia de dinamismo na economia brasileira, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares e Jos\u00e9 Serra escreveram o\u00a0Al\u00e9m da estagna\u00e7\u00e3o\u00a0(Tavares e Serra, 1973), argumentando que, infelizmente, o pa\u00eds pode, sim, ter uma economia muito din\u00e2mica mesmo concentrando a renda, e que a concentra\u00e7\u00e3o estaria sendo perversamente funcional ao modelo de acumula\u00e7\u00e3o de capital em curso, nos finais dos anos 1960 e in\u00edcios dos 1970. Em\u00a0An\u00e1lise do modelo brasileiro, Furtado (1972), argumenta que a forma de contornar a escassez de demanda resultante da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda teria sido a cria\u00e7\u00e3o do sistema de cr\u00e9dito ao consumidor e o incentivo governamental ao aumento da renda da classe m\u00e9dia. Esse tipo de recurso estaria substituindo de forma esp\u00faria a rela\u00e7\u00e3o virtuosa entre investimento, produtividade e sal\u00e1rios (\u201canel de feedback\u201d) que permitiria um r\u00e1pido crescimento econ\u00f4mico com melhoria da distribui\u00e7\u00e3o da renda.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed cria-se no imagin\u00e1rio coletivo das for\u00e7as progressistas do pa\u00eds nos anos 1970 a ideia de que a restaura\u00e7\u00e3o da democracia, al\u00e9m do valor superior da liberdade, teria a fun\u00e7\u00e3o de permitir que a popula\u00e7\u00e3o pressionasse os governos para mudar o modelo de desenvolvimento, de maneira a inclu\u00ed-la como benefici\u00e1ria do crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Ou\u00a0seja, pode-se aumentar sal\u00e1rios e redistribuir renda sem precisar alterar de forma substancial a estrutura produtiva que existe, bastam algumas adapta\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o de bens a perfis de rendimentos de fam\u00edlias das classes menos favorecidas.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, com base em pesquisas com amostras de domic\u00edlio sobre consumo, realizada por v\u00e1rios pesquisadores, Ant\u00f4nio Barros de Castro, outro grande intelectual brasileiro na linha estruturalista \u2014 tal como Concei\u00e7\u00e3o Tavares e Carlos Lessa \u2014, daria um novo salto de qualidade nessa evolu\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Segundo Castro (1990), as evid\u00eancias emp\u00edricas mostravam que, toda vez que se aumentam os rendimentos da popula\u00e7\u00e3o pobre do pa\u00eds, o que se verifica \u00e9 uma expans\u00e3o na demanda por bens e servi\u00e7os produzidos pelos segmentos \u201cmodernos\u201d (alimentos processados, vestimentas, televisores, geladeiras, transporte, energia el\u00e9trica, etc), e a correspondente expans\u00e3o da oferta. Ou\u00a0seja, pode-se aumentar sal\u00e1rios e redistribuir renda sem precisar alterar de forma substancial a estrutura produtiva que existe, bastam algumas adapta\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o de bens a perfis de rendimentos de fam\u00edlias das classes menos favorecidas. A\u00a0estrutura produtiva brasileira estaria portanto, segundo Castro, preparada para acolher um modelo de crescimento com redistribui\u00e7\u00e3o de renda pelo mercado interno de consumo de massa.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o iria figurar, por exemplo, em documentos de campanha do Partido dos Trabalhadores (1994 e 2002), e em planos plurianuais dos governos Lula e Dilma (Minist\u00e9rio do Planejamento, 2003 e 2007).<\/p>\n<p>Furtado deu outras contribui\u00e7\u00f5es anal\u00edticas importantes, al\u00e9m das tr\u00eas assinaladas acima. Sem\u00a0entrar em detalhes, cabe apenas assinalar algumas:<\/p>\n<p>1- exerceu grande influ\u00eancia na elabora\u00e7\u00e3o da teoria estruturalista da infla\u00e7\u00e3o por Noyola Vasquez (1957) e Osvaldo Sunkel (1958);<\/p>\n<p>2 \u2013 nos anos 1970, sob a influ\u00eancia do Clube de Roma, Furtado (1974) argumentou que a disponibilidade de recursos naturais e a sustenta\u00e7\u00e3o do meio ambiente colocavam limites \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de todos os pa\u00edses no rol de na\u00e7\u00f5es desenvolvidas \u2014 o planeta n\u00e3o aguentaria \u2014, de modo que o desenvolvimento universal n\u00e3o passa de um mito, do ponto de vista de sustentabilidade ambiental;<\/p>\n<p>3 \u2013 como mencionado, em diferentes momentos nosso autor faz tamb\u00e9m toda uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da depend\u00eancia na cultura, argumentando que a Am\u00e9rica Latina tinha uma cultura persistentemente travada pela depend\u00eancia a padr\u00f5es produtivos e de consumo dos pa\u00edses desenvolvidos (Furtado, 1978 e 1984).<\/p>\n<p><strong>A modo de conclus\u00e3o: breves especula\u00e7\u00f5es sobre a realidade brasileira de 2020, \u00e0 luz do pensamento de Furtado<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 assinalamos na se\u00e7\u00e3o anterior a atualidade do pensamento estruturalista de Furtado relativamente ao subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina e do Brasil. Arrisco, a t\u00edtulo de meras especula\u00e7\u00f5es finais, imaginar como Furtado estaria pensando o Brasil de hoje. As\u00a0considera\u00e7\u00f5es podem ser divididas em tr\u00eas partes: o ano an\u00f4malo e terr\u00edvel da pandemia (curto prazo); tend\u00eancias dos \u00faltimos anos e as prov\u00e1veis tend\u00eancias dos pr\u00f3ximos anos (m\u00e9dio prazo); e proposi\u00e7\u00f5es quanto a um projeto sobre o futuro (longo prazo).<\/p>\n<p>Furtado estaria, obviamente, triste e apreensivo, quanto \u00e0s perspectivas do Brasil de 2020 e dos pr\u00f3ximos anos. Na\u00a0perspectiva do longo prazo, como ele tendia a acreditar no futuro do Brasil mas desconfiava das elites, possivelmente manteria algum otimismo cauteloso, ressalvando que tudo depende da evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sobre o ano corrente, 2020, obviamente ningu\u00e9m imaginou uma crise como esta. Certamente, Furtado estaria angustiado com o que est\u00e1 ocorrendo no mundo em geral e, em particular, no Brasil. Estaria perplexo e chocado com a forma como a crise da sa\u00fade \u00e9 administrada por aqui, e entre triste e indignado com o fato de que o pa\u00eds tem estado sobressaltado com um carregado clima pol\u00edtico antidemocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>E estaria preocupado com a forma como o governo est\u00e1 administrando a crise econ\u00f4mica, gerando incertezas e atrasos na concess\u00e3o de apoios a pessoas, empresas e estados e munic\u00edpios, e com tremenda omiss\u00e3o no que se refere ao cr\u00e9dito aos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios. Imagino que estaria temendo que, quando a pandemia for finalmente controlada, por efeito de vacina eficaz, a sa\u00edda da crise conter\u00e1, entre seus muitos problemas, o fato de que as pessoas e as empresas estar\u00e3o muito mais endividadas do que no passado: as empresas umas com as outras, as empresas e pessoas f\u00edsicas relativamente aos bancos (porque os juros parcialmente suspensos continuaram aumentando a d\u00edvida) e ao fisco (que adiou pagamentos) \u2014 resultando em fal\u00eancias e em concentra\u00e7\u00e3o de mercados nas m\u00e3os das empresas de maior tamanho. E\u00a0teria s\u00e9rias d\u00favidas sobre a velocidade com que se superar\u00e1 a crise, no mundo e no Brasil. Provavelmente diria que a principal forma de superar a crise e a recess\u00e3o \u00e9 a via do gasto p\u00fablico, somada a um socorro \u00e0 dificuldade de pagamentos das d\u00edvidas pelas pequenas e m\u00e9dias empresas e pelas pessoas f\u00edsicas em geral.<\/p>\n<p>Possivelmente, argumentaria tamb\u00e9m que antes da pandemia a economia brasileira estava patinando, e que faz tempo que as perspectivas andam desfavor\u00e1veis. O PIB brasileiro pr\u00e9-Covid, em 2019, ainda era menor do que em 2013, e com base nessa evid\u00eancia penso que diria que a formula adotada desde 2015 de cortar gastos para reduzir o d\u00e9ficit fiscal acentua a recess\u00e3o, e que maior recess\u00e3o implica em menor arrecada\u00e7\u00e3o e, portanto, em maior d\u00e9ficit fiscal, num circulo vicioso. E se oporia ao teto de gastos e \u00e0 chamada regra de ouro no plano fiscal, tanto pelos efeitos negativos sobre a economia como pelos cortes perversos em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>No plano das quest\u00f5es de longo prazo, que foi o campo por excel\u00eancia do pensamento de Furtado, ele certamente estaria instigando proposi\u00e7\u00f5es sobre um novo projeto de desenvolvimento, integral, que articule os planos macroecon\u00f4mico, produtivo, social, ambiental, democr\u00e1tico e de soberania nacional. Nisto, o pensamento cl\u00e1ssico dele \u00e9 abrangente e metodologicamente s\u00f3lido e iluminador.<\/p>\n<p>Dado o m\u00e9todo que ele usava, ao pensar o longo prazo, ele por certo come\u00e7aria contextualizando o Brasil no mundo, e pensaria a economia brasileira diante do gigantesco problema de nossa inser\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel nas novas rela\u00e7\u00f5es centro\u2013periferia \u2014 ou, como se diz hoje, na atual fase de globaliza\u00e7\u00e3o produtiva e financeira. Ele\u00a0provavelmente come\u00e7aria a reflex\u00e3o fazendo considera\u00e7\u00f5es sobre isto e sobre o imenso desafio para n\u00f3s da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica global e da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e estaria se perguntando como aproveitar-se da nova geopol\u00edtica bipolar entre Estados Unidos e China.<\/p>\n<p>Provavelmente acentuaria inicialmente tamb\u00e9m o fato de que o neoliberalismo, em conjunto com a crescente financeiriza\u00e7\u00e3o que o acompanhou nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tem determinado crescimento med\u00edocre, desindustrializa\u00e7\u00e3o, desemprego, baixo investimento, redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social, piora na distribui\u00e7\u00e3o da propriedade e da renda, persist\u00eancia de pobreza, e destrui\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>E atacaria o projeto socioecon\u00f4mico dos governos Temer e Bolsonaro, por agravar o subdesenvolvimento no Brasil. Estaria se opondo veementemente \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de deixar que as for\u00e7as espont\u00e2neas de mercado operem livremente para que se resolvam os graves problemas econ\u00f4micos e sociais que persistem no pa\u00eds. E\u00a0estaria opondo-se \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de direitos trabalhistas na reforma realizada durante o governo Temer, e \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores mais pobres e vulner\u00e1veis a uma aposentadoria aos 65 anos de idade, realizada na recente reforma no atual governo.<\/p>\n<p>No plano econ\u00f4mico, seu olhar desenvolvimentista e estruturalista estaria provavelmente apontando para a import\u00e2ncia de se realizar um projeto governamental de forte amplia\u00e7\u00e3o da infraestrutura econ\u00f4mica e social \u2014 criticando, por exemplo, o projeto de privatiza\u00e7\u00e3o do saneamento b\u00e1sico, por sua irresponsabilidade social \u2014 e, muito especialmente, um programa radical de recupera\u00e7\u00e3o, moderniza\u00e7\u00e3o e diversifica\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria brasileira. Penso que daria tr\u00eas motivos para a \u00eanfase no setor industrial: a necessidade de enfrentar o problema crescente do desemprego; o fato de que \u00e9 o setor de mais alta produtividade e o maior criador e difusor de inova\u00e7\u00f5es; e, n\u00e3o menos relevante, o fato de que sem ind\u00fastria (sem substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es e promo\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00f5es industriais) nos faltar\u00e3o os d\u00f3lares para pagar as contas externas \u2014 tornando-nos crescentemente dependentes de entradas de capitais de curto prazo para fechar nossa balan\u00e7a de pagamentos, e sendo levados para isto a elevar os juros internos e, assim, a travar o crescimento.<\/p>\n<p>Furtado estaria, possivelmente, sugerindo a elabora\u00e7\u00e3o de um novo projeto de longo prazo para o Brasil, e de acordo com a ideia de uma rela\u00e7\u00e3o virtuosa entre Estado, empresas e trabalhadores em torno de quatro espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o do Estado:<\/p>\n<p><em>1 \u2013 prote\u00e7\u00e3o social universal<\/em>(acesso amplo a bens e servi\u00e7os p\u00fablicos, financiados com impostos progressivos, cobertura universal, previd\u00eancia social p\u00fablica e solid\u00e1ria, direito \u00e0 assist\u00eancia social), e eleva\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do sal\u00e1rio m\u00ednimo;<\/p>\n<p><em>2 \u2013 macroeconomia de pleno emprego<\/em>(com harmonia entre pol\u00edticas de crescimento de pol\u00edticas anti-inflacion\u00e1rias, ou seja, pleno-emprego com estabilidade macroecon\u00f4mica, sal\u00e1rios acompanhando ganhos de produtividade, trabalho formalizado, sindicatos fortes), acompanhada dos devidos cuidados com a vulnerabilidade externa.<\/p>\n<p><em>3 \u2013 programas e pol\u00edticas industriais, tecnol\u00f3gicas e de infraestrutura\u00a0<\/em>com perspectivas de investimentos a m\u00e9dio e longo prazos, de modo a aumentar a diversidade produtiva, aumentar a produtividade e a competitividade da economia brasileira, e a dar espa\u00e7o ao pa\u00eds para crescer sem problemas de balan\u00e7o de pagamentos. E,\u00a0muito especialmente, todo um est\u00edmulo aos investimentos nas frentes de expans\u00e3o inscritas na l\u00f3gica de opera\u00e7\u00e3o da economia brasileira, como s\u00e3o os casos dos investimentos destinados ao mercado interno de consumo em massa, \u00e0 infraestrutura econ\u00f4mica e social, e ao bom aproveitamento dos nossos imensos recursos naturais;<\/p>\n<p><em>4 \u2013 harmonia entre crescimento e preserva\u00e7\u00e3o da natureza<\/em>, rigorosa fiscaliza\u00e7\u00e3o contra a destrui\u00e7\u00e3o das florestas brasileiras e da biodiversidade em geral e contra os demais fatores de emiss\u00e3o de g\u00e1s produtor de efeito estufa, etc, e exig\u00eancia de boa governan\u00e7a dos nossos recursos naturais, no que se refere a impactos sociais e ambientais e a controle nacional sobre os recursos.<\/p>\n<p>Estaria provavelmente sonhando com um Brasil solidamente republicano, democr\u00e1tico, soberano, absolutamente solid\u00e1rio com os direitos b\u00e1sicos da cidadania em todas as suas dimens\u00f5es. E\u00a0estaria provavelmente recomendando que a a\u00e7\u00e3o incipiente de crescimento com melhorias distributivas ensaiada nos anos 2000 e in\u00edcio dos anos 2010 tivesse continuidade e fosse aperfei\u00e7oada, superando-se suas falhas e envolvendo em forma permanente a na\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, num estilo de desenvolvimento com transforma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica beneficiadora da popula\u00e7\u00e3o como um todo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Bielschowsky, R. Pensamento Econ\u00f4mico Brasileiro (1930-1964) \u2014 o ciclo ideol\u00f3gico do desenvolvimentismo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1995.<\/p>\n<p>_________ \u201cVig\u00eancia de los aportes de Celso Furtado al estructuralismo\u201d, in: Revista Cepal, Santiago, Chile, n.88, p.7-15, abr. 2006.<\/p>\n<p>Brasil, Plano Plurianual 2004-2007, Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio do Planejamento, 2003.<\/p>\n<p>_________, Plano Plurianual 2008-2011, Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio do Planejamento, 2007.<\/p>\n<p>Castro, A. B. \u201cO Brasil a caminho do mercado de consumo de massa\u201d. In:\u00a0Reis Velloso, J.P. (coord.). As perspectivas do Brasil e o Novo Governo, S\u00e3o Paulo, Nobel, 1990.<\/p>\n<p>Furtado, C., Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Brasil, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1959\u00aa.<\/p>\n<p>_________, Uma pol\u00edtica de desenvolvimento econ\u00f4mico para o Nordeste, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1959b.<\/p>\n<p>_________, Desenvolvimento e subdesenvolvimento, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1961.<\/p>\n<p>_________, A pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o brasileira, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1962.<\/p>\n<p>_________, Dial\u00e9tica do desenvolvimento, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1964.<\/p>\n<p>_________, Subdesenvolvimento e estagna\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1966.<\/p>\n<p>_________, Teoria e pol\u00edtica do desenvolvimento econ\u00f4mico, S\u00e3o Paulo, Editora Nacional, 1967.<\/p>\n<p>_________, Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina, Rio de Janeiro, Lia Editora, 1969.<\/p>\n<p>_________, An\u00e1lise do \u201cmodelo\u201d brasileiro, Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1972.<\/p>\n<p>_________, O mito do desenvolvimento econ\u00f4mico, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974.<\/p>\n<p>_________, Criatividade e depend\u00eancia na civiliza\u00e7\u00e3o industrial, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.<\/p>\n<p>_________, O Brasil p\u00f3s-\u201cmilagre\u201d, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.<\/p>\n<p>_________, A nova depend\u00eancia, d\u00edvida externa e monetarismo, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.<\/p>\n<p>_________ N\u00e3o \u00e0 recess\u00e3o e ao desemprego, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.<\/p>\n<p>_________, Cultura e desenvolvimento em \u00e9poca de crise, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.<\/p>\n<p>_________, Obra autobiogr\u00e1fica, 3 vol.. S\u00e3o Paulo, Paz e Terra, 1997. Nova edi\u00e7\u00e3o: S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras. 2014.<\/p>\n<p>_________, Di\u00e1rios intermitentes: 1937-2002, S\u00e3o Paulo, Companhia da Letras, 2019.<\/p>\n<p>Gaud\u00eancio, F.S. e Formiga, M., Era da esperan\u00e7a, teoria e pol\u00edtica no pensamento de Celso Furtado, Rio de Janeiro, Paz e terra, 1995.<\/p>\n<p>Noyola-V\u00e1squez, J., \u201cInflaci\u00f3n y desarrollo econ\u00f3mico em M\u00e9xico y Chile\u201d, em\u00a0Panorama Econ\u00f3mico, n\u00ba 170,\u00a0Santiago de Chile, julho, 1957.<\/p>\n<p>Partido do Trabalhadores, Uma Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica no Brasil, 1994.<\/p>\n<p>_________, Um Brasil para todos, 2002.<\/p>\n<p>Sunkel, O., \u201cLa inflaci\u00f3n chilena, um enfoque heterodoxo\u201d, em El Trimestre Econ\u00f4mico, outubro-dezembro, 1958.<\/p>\n<p>Tavares, M. C. e Serra, J. \u201cAl\u00e9m da estagna\u00e7\u00e3o\u201d, em Da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es ao capitalismo financeiro, Rio de Janeiro, Zahar, 1973.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/aterraeredonda.com.br\/celso-furtado\/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=celso-furtado&amp;utm_term=2020-09-27)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RICARDO BIELSCHOWSKY &#8211; A\u00a0atualidade da obra do economista no centen\u00e1rio de seu nascimento Vida e obra Celso Furtado encarnou, talvez melhor do que ningu\u00e9m, o desejo do desenvolvimento econ\u00f4mico e social da Am\u00e9rica Latina. 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