{"id":14048,"date":"2020-09-28T15:50:12","date_gmt":"2020-09-28T18:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14048"},"modified":"2020-09-25T15:52:00","modified_gmt":"2020-09-25T18:52:00","slug":"lugar-de-fala-e-romantizacao-da-experiencia-empirica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/09\/28\/lugar-de-fala-e-romantizacao-da-experiencia-empirica\/","title":{"rendered":"Lugar de fala e romantiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia emp\u00edrica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luis Felipe Miguel<\/strong> &#8211; Ponderar a perspectiva social de cada participante num debate \u00e9 \u00f3timo. Mas o que cresce na esquerda \u00e9 a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de guetos, \u00e0 intoler\u00e2ncia e \u00e0 nega\u00e7\u00e3o de um projeto emancipat\u00f3rio comum. No exato instante em que ele \u00e9 mais urgente\u2026.<\/p>\n<p>Este texto nasce em rea\u00e7\u00e3o a duas pol\u00eamicas que surgiram nas esquerdas nas \u00faltimas semanas \u2013 ou, antes, que <em>ressurgiram<\/em>, pois s\u00e3o c\u00edclicas. Uma \u00e9 sobre o chamado \u201clugar de fala\u201d. A outra, sobre como caracterizar o comportamento de pessoas que apoiam ativamente l\u00edderes e pol\u00edticas que, na pr\u00e1tica, as condenam \u00e0 morte; em particular, ao veto ao substantivo \u201cburrice\u201d, t\u00e3o chocante. Embora tenham sido debates separados, eu os aproximo aqui porque julgo que remetem a um denominador comum: a sobrevaloriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia crua dos agentes sociais, express\u00e3o do anti-intelectualismo hoje dominante, e a consequente inibi\u00e7\u00e3o de qualquer engajamento cr\u00edtico com a autoexpress\u00e3o dos pr\u00f3prios agentes.<\/p>\n<p>A cada vez que ressurge, o debate mostra permanecer exatamente no mesmo lugar em que estava antes. Essa aus\u00eancia de ac\u00famulo na discuss\u00e3o, t\u00e3o exasperante, \u00e9 uma caracter\u00edstica das m\u00eddias sociais, que recompensam predominantemente a lacra\u00e7\u00e3o que, para ser lacradora, tem que permanecer insens\u00edvel \u00e0s nuan\u00e7as do real. \u00c9 consequ\u00eancia tamb\u00e9m do anti-intelectualismo que rotula como \u201cacad\u00eamico\u201d, portanto irrelevante, qualquer contribui\u00e7\u00e3o que v\u00e1 al\u00e9m da experi\u00eancia imediata. E, por fim, espelha o paradoxo de que quem critica, relativiza ou complexifica a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala n\u00e3o tem, por defini\u00e7\u00e3o, lugar de fala para tocar no assunto, logo deve ser ignorado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, em primeiro lugar, enfatizar a import\u00e2ncia que a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala e outras assemelhadas tiveram e t\u00eam no combate a certo idealismo racionalista, que sonha com uma Raz\u00e3o descarnada que interpreta o mundo permanecendo fora dela. Toda fala \u00e9 socialmente situada e isso \u00e9 relevante para a compreens\u00e3o de seu sentido. O reconhecimento de que diferentes falantes v\u00e3o ver o mundo a partir de diferentes posi\u00e7\u00f5es sociais, por\u00e9m, aponta para a necessidade de pluraliza\u00e7\u00e3o do debate, n\u00e3o para altern\u00e2ncia de silenciamentos ou constru\u00e7\u00e3o de guetos.<\/p>\n<p>Isso porque o lugar da fala n\u00e3o implica qualquer privil\u00e9gio epist\u00eamico (isto \u00e9, a ideia de que o dominado, s\u00f3 por ser dominado, j\u00e1 entende a domina\u00e7\u00e3o melhor do que qualquer outro). A express\u00e3o dos dominados \u00e9 importante porque traduz \u2013 em parte e com ru\u00eddos, como qualquer express\u00e3o \u2013 sua experi\u00eancia, mas conv\u00e9m lembrar que essa experi\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 conformada pela domina\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia bruta, assim, tem que ser ressignificada por meio de processos que, \u00e0 falta de palavra melhor, podem ser chamados de \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o\u201d. Era o papel dos grupos de mulheres do movimento feminista dos anos 1960 e 1970, que foram cruciais para a difus\u00e3o dessa discuss\u00e3o \u2013 espa\u00e7os que permitissem \u00e0s mulheres construir uma compreens\u00e3o de suas pr\u00f3prias vidas a contrapelo das representa\u00e7\u00f5es patriarcais que as estruturam.<\/p>\n<p>Se tais espa\u00e7os s\u00e3o necess\u00e1rios, eles n\u00e3o levam, de maneira nenhuma, \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de vetos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no debate p\u00fablico. Levam, isso sim, \u00e0 exig\u00eancia por amplia\u00e7\u00e3o da pluralidade de perspectivas que t\u00eam lugar neles.<\/p>\n<p>Da mesma forma como o lugar de fala X n\u00e3o d\u00e1 a quem o ocupa um privil\u00e9gio epist\u00eamico, ocupar o lugar n\u00e3o-X n\u00e3o torna a fala, s\u00f3 por causa disso, irrelevante ou nociva. \u00c9 um local externo e continuar\u00e1 a s\u00ea-lo, n\u00e3o importa de quanta empatia se revista \u2013 e ter consci\u00eancia dessa exterioridade importa para compreend\u00ea-lo. Mas pode contribuir. Ou n\u00e3o. S\u00f3 deixando que se manifeste no debate que isso pode ser aquilatado. Lembrando, tamb\u00e9m, que o n\u00e3o-compartilhamento de caracter\u00edsticas pessoais, de experi\u00eancias de vida, at\u00e9 mesmo de cren\u00e7as e de valores, em suma, tudo o que indica a exterioridade em rela\u00e7\u00e3o a uma determinada posi\u00e7\u00e3o social,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0implica necessariamente preconceito. A equival\u00eancia autom\u00e1tica entre exterioridade e preconceito, que est\u00e1 impl\u00edcita em algumas manifesta\u00e7\u00f5es (e at\u00e9 expl\u00edcita em outras), \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o abusiva que serve apenas ao prop\u00f3sito de silenciar o debate.<\/p>\n<p>Falei acima em perspectivas. Na verdade, em vez de \u201clugar de fala\u201d, prefiro operar com a categoria \u201cperspectivas sociais\u201d. Embora eu mesmo tenha feito cr\u00edtica a alguns de seus usos<sup>1<\/sup>, ela tem a vantagem de marcar desde o in\u00edcio o car\u00e1ter\u00a0<em>social<\/em>\u00a0das posi\u00e7\u00f5es de elocu\u00e7\u00e3o e, portanto, o car\u00e1ter\u00a0<em>socialmente produzido<\/em>\u00a0das diversas experi\u00eancias, sem o apelo a no\u00e7\u00f5es essencializantes ou m\u00edsticas, como \u201cancestralidade\u201d, que se tornaram t\u00e3o correntes em alguns discursos.<\/p>\n<p>O uso limitante do \u201clugar de fala\u201d est\u00e1 vinculado \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias de grupos subalternos (voltadas contra padr\u00f5es sociais de domina\u00e7\u00e3o e de viol\u00eancia) em reclamos identit\u00e1rios. A identidade deixa de ser um instrumento para a constru\u00e7\u00e3o de um sujeito pol\u00edtico coletivo para aparecer como um fim em si mesma.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o h\u00e1 luta pol\u00edtica que n\u00e3o seja, em alguma medida, identit\u00e1ria. N\u00e3o desejo retomar a distin\u00e7\u00e3o algo mec\u00e2nica entre\u00a0<em>classe em si<\/em>\u00a0e\u00a0<em>classe para si<\/em>, que o pr\u00f3prio Marx faz na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/miseria-da-filosofia-685\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Mis\u00e9ria da filosofia<\/em><\/a>\u00a0e em outros escritos, mas o fato \u00e9 que a constitui\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria como sujeito pol\u00edtico depende da constru\u00e7\u00e3o de uma identidade pol\u00edtica comum. Se esse passo \u00e9 indispens\u00e1vel para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de qualquer grupo, \u00e9 mais ainda para os dominados, cujas viv\u00eancias s\u00e3o desvalorizadas e que encontram objetivamente, na estrutura social, est\u00edmulos para uma identifica\u00e7\u00e3o com os dominadores.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ao menos duas diferen\u00e7as, ambas com enormes consequ\u00eancias, entre a identidade da classe trabalhadora e a de outros grupos dominados. Em primeiro lugar, a classe trabalhadora se define por um atributo comum da humanidade, o trabalho, isto \u00e9, a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o do mundo material. Os outros grupos dominados apresentam a exig\u00eancia de serem inclu\u00eddos em p\u00e9 de igualdade na humanidade comum, mas n\u00e3o t\u00eam como atributo\u00a0<em>peculiar<\/em>\u00a0aquilo que, como atributo\u00a0<em>geral<\/em>, define a humanidade enquanto tal.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a classe trabalhadora tem por projeto, ao menos na vis\u00e3o de Marx, a extin\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria peculiaridade, com a emerg\u00eancia de uma sociedade sem classes. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 ao alcance dos outros grupos subalternos. Havia uma ambi\u00e7\u00e3o de apagamento da relev\u00e2ncia social da identidade, no feminismo que antecipava uma sociedade\u00a0<em>gender-free<\/em>\u00a0ou no antirracismo voltado a uma sociedade\u00a0<em>color blind<\/em>. Mas era, sempre, a supera\u00e7\u00e3o da valora\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica da diferen\u00e7a, n\u00e3o da diferen\u00e7a em si mesma. Hoje, a virada para uma pol\u00edtica da diferen\u00e7a, em que ela \u00e9 valorizada em si mesma, torna esta distin\u00e7\u00e3o ainda mais marcante.<\/p>\n<p>Com isso, \u00e9 perdido o acesso a uma vis\u00e3o alternativa, que l\u00ea as identidades tamb\u00e9m como\u00a0<em>pris\u00f5es<\/em>\u00a0a serem superadas, e \u00e0 utopia de uma sociedade p\u00f3s-identit\u00e1ria, em que caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas, como sexo ou cor da pele, ser\u00e3o plenamente irrelevantes para determinar comportamentos ou posi\u00e7\u00f5es, e atributos sociais, como g\u00eanero ou ra\u00e7a, deixar\u00e3o at\u00e9 mesmo de existir, dissolvendo-se na diversidade inclassific\u00e1vel de uma humanidade livre. \u00c9 poss\u00edvel discutir o quanto essa leitura \u00e9 desej\u00e1vel ou fact\u00edvel, mas \u00e9 dif\u00edcil negar que ela \u00e9, ao menos,\u00a0<em>digna de discuss\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>As duas diferen\u00e7as indicam que a classe trabalhadora tem uma porta aberta para a conex\u00e3o com a universalidade que falta a outros movimentos de car\u00e1ter emancipat\u00f3rio. Uma situa\u00e7\u00e3o que se agrava com a reivindica\u00e7\u00e3o cada vez mais particularista, presente nas compreens\u00f5es correntes, nas disputas pol\u00edticas, de \u201clugares de fala\u201d privilegiados e mesmo monopol\u00edsticos.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o \u00e9 complexa e tem m\u00faltiplas facetas, mas \u00e9 dif\u00edcil recusar pelo menos uma conclus\u00e3o: a pluraliza\u00e7\u00e3o das agendas emancipat\u00f3rias da esquerda \u00e9 rica e necess\u00e1ria, mas a deriva identit\u00e1ria, aliada \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o lacradora de uma no\u00e7\u00e3o reducionista de lugar de fala, funciona como um cavalo de Troia. Inibe a constru\u00e7\u00e3o de um projeto comum de sociedade, at\u00e9 mesmo de alian\u00e7as pontuais, e redireciona boa parte das energias pol\u00edticas para as batalhas f\u00e1ceis contra quem, errando ou n\u00e3o, deseja estar a seu lado \u2013 aqueles que,\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/08\/o-cancelamento-da-antropologa-branca-e-a-pauta-identitaria.shtml\">como bem lembrou Wilson Gomes<\/a>, s\u00e3o os \u00fanicos vulner\u00e1veis a essa estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre o esclarecimento dos apoiadores de Bolsonaro tomou fei\u00e7\u00f5es diferentes, mas tinha em comum a ideia de que algu\u00e9m que n\u00e3o participa de uma determinada realidade deve ser impedido de expressar qualquer aprecia\u00e7\u00e3o sobre ela. \u00c0s vezes, ela deslizava para a exalta\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica do \u201cpovo\u201d como deposit\u00e1rio de todas as qualidades; com mais frequ\u00eancia, para a den\u00fancia dos \u201cacad\u00eamicos\u201d que, desconhecedores do mundo real e como sempre arrogantes, exigiam uma clarivid\u00eancia inalcan\u00e7\u00e1vel para os mais pobres. Muitas vezes, era feita uma confus\u00e3o entre a necessidade de\u00a0<em>entender<\/em>\u00a0as escolhas feitas, necessidade real e mesmo urgente, e a obriga\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>aceit\u00e1-las<\/em>\u00a0como esclarecidas ou razo\u00e1veis.<\/p>\n<p><em>Entender<\/em>\u00a0a produ\u00e7\u00e3o de leituras da realidade t\u00e3o desinformadas e cognitivamente deficientes, que levam a escolhas pol\u00edticas objetivamente desastrosas, \u00e9 importante exatamente porque elas n\u00e3o s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o natural, nem sequer o fruto autom\u00e1tico de determinada situa\u00e7\u00e3o. Vivemos um momento em que o trabalho ideol\u00f3gico da direita assume caracter\u00edsticas especiais, com um esfor\u00e7o concentrado de dissemina\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia, de nega\u00e7\u00e3o da possibilidade de aprendizado e, tamb\u00e9m, de refor\u00e7o dos valores mais ego\u00edstas e mesquinhos. \u00c9 preconceituoso, por\u00e9m, julgar que pessoas em situa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o s\u00e3o mat\u00e9ria passiva a ser moldada por essa ofensiva \u2013 at\u00e9 mesmo porque muitas delas mostram capacidade de resist\u00eancia. A quest\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 saber por que tantos \u00e0 esquerda se mostraram t\u00e3o desleixados, durante tanto tempo, na tarefa imprescind\u00edvel de promover a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 que, conv\u00e9m lembrar, n\u00e3o \u00e9 \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 desfazer o trabalho da ideologia e contribuir para que os despossu\u00eddos se construam como pessoas capazes de\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/03\/21\/quem-marielle-franco-representa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pensamento aut\u00f4nomo<\/a>.<\/p>\n<p>Em seu livro de mem\u00f3rias, falando de seus vizinhos no Bronx, no entreguerras, Vivian Gornick escreve: \u201cAs pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de m\u00e1quinas de costura haviam se percebido como pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista\u201d<sup>2<\/sup>. Acho melhor pensar que essa \u00e9 uma possibilidade a ser constru\u00edda do que permanecer no ref\u00fagio f\u00e1cil da condescend\u00eancia, que julga que \u201cn\u00e3o tem como\u201d ser diferente e, por isso, absolve\u00a0<em>a priori<\/em>\u00a0a tudo e todos.<\/p>\n<p>Se for para entender como se constr\u00f3i essa recusa, que nega a debilidade cognitiva de compreens\u00f5es da realidade t\u00e3o objetivamente insatisfat\u00f3rias, \u00e9 poss\u00edvel v\u00ea-la partindo de duas vis\u00f5es alternativas. Uma \u00e9 a ades\u00e3o ao credo liberal-utilitarista de que \u201ccada um \u00e9 o melhor juiz de seus pr\u00f3prios interesses\u201d. Ele interdita qualquer escrut\u00ednio dos discursos alheios, nega validade \u00e0 quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o social das prefer\u00eancias e anula a exist\u00eancia de todos os mecanismos ideol\u00f3gicos. A esquerda se aproximou dessa posi\u00e7\u00e3o a partir da cr\u00edtica \u2013 necess\u00e1ria \u2013 ao subtexto autorit\u00e1rio muitas vezes presente no uso da no\u00e7\u00e3o de \u201cfalsa consci\u00eancia\u201d, que introduz a ideia de que haveria uma consci\u00eancia \u201cverdadeira\u201d, acess\u00edvel ao intelectual ou ao l\u00edder partid\u00e1rio, donos de instrumentos para avaliar o grau de corre\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia das \u201cmassas\u201d e despreza a compreens\u00e3o que elas mesmas produzem a partir de suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas, se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que h\u00e1 uma consci\u00eancia verdadeira predeterminada, que os \u201creais interesses\u201d dos indiv\u00edduos e dos grupos est\u00e3o definidos de antem\u00e3o, sem passar pelos agentes, tampouco \u00e9 poss\u00edvel apenas aceitar a consci\u00eancia que emerge da viv\u00eancia no mundo social. Isso significa abandonar o entendimento que as ideias das classes dominantes t\u00eam maior capacidade de serem universalizadas e a cr\u00edtica aos padr\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o aos quais estamos submetidos. Nossa tarefa \u2013 espinhosa, admito \u2013 \u00e9, como escreveu \u017di\u017eek, permanecer numa \u201cposi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel\u201d, que reconhece que n\u00e3o h\u00e1 \u201cnenhuma linha demarcat\u00f3ria clara que separe a ideologia e a realidade\u201d, mas que, ainda assim, sustenta a tens\u00e3o entre ideol\u00f3gico e real \u201cque mant\u00e9m viva a\u00a0<em>cr\u00edtica<\/em>\u00a0da ideologia\u201d<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p>A outra alternativa \u00e9 uma condescend\u00eancia arrogante, travestida de bom-mocismo, que julga que, prisioneiras de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es, aquelas pessoas est\u00e3o condenadas a abra\u00e7ar determinados comportamentos. \u00c9 uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito. O caminho que aponta \u00e9 a filantropia ou o paternalismo. Para quem julga que \u201ca emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora deve ser obra dos pr\u00f3prios trabalhadores\u201d, n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel. A empatia revolucion\u00e1ria com os desvalidos n\u00e3o romantiza suas consci\u00eancias, n\u00e3o abre m\u00e3o da cr\u00edtica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites.<\/p>\n<p><strong><sup>NOTAS<br \/>\n<\/sup><\/strong><sup>1<\/sup>\u00a0<sup>Ver o cap\u00edtulo \u201cPerspectivas sociais e domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica\u201d, em meu livro\u00a0<em>Democracia e representa\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2014.<br \/>\n2<\/sup>\u00a0<sup>Vivian Gornick,\u00a0<em>Afetos ferozes<\/em>. Trad. de Heloisa Jahn. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2019, p. 69.<br \/>\n3<\/sup>\u00a0<sup>Slavoj \u017di\u017eek, \u201cO espectro da ideologia\u201d, em Slavoj \u017di\u017eek (org.),\u00a0<em>Um mapa da ideologia<\/em>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 22.<\/sup><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-esquerda-que-abriu-mao-da-critica\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Felipe Miguel &#8211; Ponderar a perspectiva social de cada participante num debate \u00e9 \u00f3timo. Mas o que cresce na esquerda \u00e9 a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de guetos, \u00e0 intoler\u00e2ncia e \u00e0 nega\u00e7\u00e3o de um projeto emancipat\u00f3rio comum. No exato instante em que ele \u00e9 mais urgente\u2026. 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