{"id":14028,"date":"2020-09-21T14:43:44","date_gmt":"2020-09-21T17:43:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14028"},"modified":"2020-09-20T14:45:22","modified_gmt":"2020-09-20T17:45:22","slug":"a-governanca-macroeconomica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/09\/21\/a-governanca-macroeconomica\/","title":{"rendered":"A governan\u00e7a macroecon\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELEUT\u00c9RIO PRADO &#8211;\u00a0<\/strong>Os profundos problemas da economia capitalista n\u00e3o poder\u00e3o ser resolvidos sem uma reforma estrutural.<\/p>\n<p>A macroeconomia dominante n\u00e3o quer ser mais do que uma caixa de ferramentas para serem usadas na governan\u00e7a do capitalismo. E esse car\u00e1ter est\u00e1 presente na maneira que tem sido apresentada. \u00c9 isto o que mostra, por exemplo, um artigo recente em\u00a0<em>The Economist<\/em>\u00a0intitulado\u00a0<em>A pandemia da convid-19 est\u00e1 for\u00e7ando um repensar da macroeconomia<\/em>.<\/p>\n<p>Como se sabe, o saber sobre o funcionamento do sistema econ\u00f4mico adotou esse nome depois que John Maynard Keynes publicou a sua\u00a0<em>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/em>, em 1936. Se esse autor n\u00e3o desprezou o car\u00e1ter performativo da linguagem te\u00f3rica criada, n\u00e3o se pode acus\u00e1-lo de falta de realismo cient\u00edfico, de despreocupa\u00e7\u00e3o com a compreens\u00e3o do capitalismo. Dada a urg\u00eancia do momento hist\u00f3rico, julgou que era preciso apreender os processos econ\u00f4micos reais. Aqui se quer mostrar, entretanto, que a macroeconomia contempor\u00e2nea, p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, adquiriu um car\u00e1ter centralmente manipulat\u00f3rio: por um lado, pretendeu fornecer instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f4mica para a governan\u00e7a do sistema, por outro, quis conformar as mentes dos economistas para faz\u00ea-los pensar de um modo autom\u00e1tico, adequado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de objetivos que lhes s\u00e3o prescritos. Alguns, poucos, resistem!<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/eleuterio-1.png?resize=640%2C228&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"228\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/eleuterio-2.png?resize=640%2C280&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/eleuterio-3.png?resize=640%2C235&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"235\" \/><\/p>\n<p>Mas, afinal, o que \u00e9 governan\u00e7a? \u201cGovernan\u00e7a \u00e9 a automa\u00e7\u00e3o do pensamento, a automa\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia social. Governan\u00e7a \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o sem significado, o dom\u00ednio do inescap\u00e1vel\u201d (Franco Beraldi, em\u00a0<em>Asfixia \u2013 Capitalismo financeiro e a insurrei\u00e7\u00e3o da linguagem<\/em>).<\/p>\n<p>Para compreender a natureza da macroeconomia e como ela, na forma de um saber t\u00e9cnico e manipulat\u00f3rio, foi mudando ao longo do per\u00edodo que vai de 1950 at\u00e9 o presente, os tr\u00eas gr\u00e1ficos acima s\u00e3o fundamentais: o primeiro mostra a evolu\u00e7\u00e3o de uma medida da taxa de infla\u00e7\u00e3o, o seguinte apresenta o evolver da taxa de lucro e o terceiro indica as taxas de crescimento anuais do PIB. A vari\u00e1vel taxa de lucro \u2013 note-se \u2013 n\u00e3o costuma aparecer na an\u00e1lise macroecon\u00f4mica dominante ou ortodoxa, mas ela \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>O foco dessa nota recair\u00e1 apenas na economia norte-americana j\u00e1 que ela continua sendo, por enquanto, a economia capitalista mais importante. Como se sabe tamb\u00e9m, os Estados Unidos s\u00e3o a principal oficina na qual se criam as ferramentas da macroeconomia, as quais se espalham, ent\u00e3o, para os cursos de Economia do resto do mundo.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica orientou-se pelo keynesianismo aproximadamente entre 1940 e 1978, mas n\u00e3o com base em sua formula\u00e7\u00e3o original, mas se apoiando de modo importante num rearranjo te\u00f3rico que foi denominado de \u201cs\u00edntese neocl\u00e1ssica\u201d. Eis que as teses desse marcante economista foram reescritas na forma de um modelo de equil\u00edbrio geral simplificado, com dois mercados \u2013 de bens e de moeda \u2013, que ficou conhecido como modelo IS-LM. De qualquer modo, o objetivo da pol\u00edtica econ\u00f4mica nesse per\u00edodo foi manter alto o n\u00edvel de emprego por meio principalmente de pol\u00edticas fiscais expansivas. Confiando no papel contrac\u00edclico da atua\u00e7\u00e3o do Estado, n\u00e3o se temia fazer d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios porque se acreditava na pr\u00f3pria capacidade dessa pol\u00edtica de criar as condi\u00e7\u00f5es para o crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Entretanto, a pol\u00edtica econ\u00f4mica keynesiana come\u00e7ou a sofrer ataques dos economistas neoliberais, j\u00e1 a partir do final dos anos 1960. Eles ser\u00e3o vitoriosos apenas no final da d\u00e9cada dos anos 1970. Como se pode ver no gr\u00e1fico acima, a partir do final da d\u00e9cada dos anos 1960, a taxa de lucro come\u00e7ou a cair ao mesmo tempo em que a taxa de infla\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a subir. Ora, esse resultado n\u00e3o era esperado pela macroeconomia vigente que raciocinava com a chamada Curva de Phillips. Baseada em observa\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, essa curva mostrava existir uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre a taxa de desemprego e a taxa de infla\u00e7\u00e3o. Assim, a infla\u00e7\u00e3o seria mais alta nas conjunturas com baixo desemprego e mais baixa quando se observavam altas taxas de desemprego.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno \u2013 denominado de estagfla\u00e7\u00e3o \u2013 mostrou que as taxas de desemprego e infla\u00e7\u00e3o cresciam juntas, contrariando assim uma f\u00f3rmula da governan\u00e7a macroecon\u00f4mica ent\u00e3o empregada. Esse campo, ap\u00f3s as an\u00e1lises pertinentes de Keynes, passara a se orientar apenas pelo instrumentalismo te\u00f3rico e, assim, ultrapassara mesmo os c\u00e2nones da economia vulgar. Transformara-se, na verdade, em um \u201csaber\u201d matematizado, t\u00e9cnico e manipulat\u00f3rio que pouco se preocupava em se constituir como uma boa representa\u00e7\u00e3o do mundo real. A estrutura \u201cte\u00f3rica\u201d desse m\u00e9todo fora constru\u00edda, como se sabe, por Le\u00f3n Walras na abertura do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX: para ele, \u201ca economia pol\u00edtica pura \u00e9 uma ci\u00eancia em tudo semelhante \u00e0s ci\u00eancias f\u00edsico-matem\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p>A macroeconomia herdada se tornou assim inconveniente como instrumento de pol\u00edtica econ\u00f4mica: a infla\u00e7\u00e3o renitente denunciava que havia uma forte disputa entre capitalistas e trabalhadores pela apropria\u00e7\u00e3o da renda. Ora, essa catraca que puxava pre\u00e7os para cima foi vista como resultado da a\u00e7\u00e3o do governo que insistia em elevar o n\u00edvel da atividade econ\u00f4mica. Paul Vocker, havendo assumido a presid\u00eancia do banco central norte-americano, em 1979, ressuscitou ent\u00e3o o monetarismo de Milton Friedman, que, como se sabe, est\u00e1 baseado na ideia de que a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 causada por excesso de emiss\u00e3o monet\u00e1ria. A macroeconomia, assim, deixou de usar a governan\u00e7a keynesiana, passando a empregar uma nova, mais adequada para abafar o conflito distributivo entre trabalhadores e capitalistas, em detrimento especialmente dos interesses dos primeiros.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica implantada consistiu em conter a expans\u00e3o do dinheiro, provocando, assim, uma recess\u00e3o e, em consequ\u00eancia, eleva\u00e7\u00e3o do desemprego e das quebras das empresas mais fracas, pouco competitivas. Os economistas monetaristas, militando j\u00e1 no campo do neoliberalismo, argumentaram no per\u00edodo que se tornara necess\u00e1rio substituir a preocupa\u00e7\u00e3o com a equidade distributiva por outra voltada para efici\u00eancia econ\u00f4mica, ou seja, para os interesses restritos dos capitalistas. Na verdade, o rompimento com o keynesianismo envolvia tanto um combate ao sindicalismo quanto um esfor\u00e7o persistente para rebaixar os sal\u00e1rios reais. O objetivo n\u00e3o declarado consistia em elevar as taxas de lucro obtidas pelas empresas. Como o gr\u00e1fico acima mostra, essa meta impl\u00edcita foi bem sucedida. Eis que a atividade econ\u00f4mica do capital pode prosperar por cerca de uma d\u00e9cada e meia.<\/p>\n<p>Ora, o que explica a estagfla\u00e7\u00e3o \u00e9 a forte queda da taxa de lucro ocorrida no per\u00edodo sob o regime de dinheiro puramente fiduci\u00e1rio. Quando a rentabilidade cai muito, as empresas capitalistas, ao inv\u00e9s de responder aos impulsos da demanda produzidos pelo Estado, com mais produ\u00e7\u00e3o, elevavam os pre\u00e7os para tentar restaurar a taxa de lucro precedente. Como os sindicatos tinham se fortalecidos no per\u00edodo keynesiano, eles demandavam e obtinham aumento dos sal\u00e1rios nominais. Tentavam, assim, impedir a queda do poder de compra de seus ganhos em dinheiro. A resultante desse processo foi que as taxas de infla\u00e7\u00e3o atingiram o n\u00edvel de dois d\u00edgitos nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A governan\u00e7a estritamente monetarista, entretanto, mostrou-se inconveniente depois que fez o trabalho sujo de derrotar os trabalhadores. Tornou-se necess\u00e1rio substitu\u00ed-la por uma nova, mais adequada ao momento hist\u00f3rico. De meados dos anos 1980 at\u00e9 aproximadamente 1997, com a conserva\u00e7\u00e3o da taxa de lucro m\u00e9dia em n\u00edveis mais altos, a economia capitalista norte-americana prosperou por meio da chamada \u201cgrande modera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Durante um per\u00edodo de cerca de vinte anos ou pouco menos, as principais vari\u00e1veis econ\u00f4micas, como a taxa de eleva\u00e7\u00e3o do PIB, a taxa de infla\u00e7\u00e3o, a taxa de desemprego etc. perderam volatilidade. Ora, essa situa\u00e7\u00e3o permitiu o uso de uma combina\u00e7\u00e3o ecl\u00e9tica das governan\u00e7as keynesiana e monetarista com o objetivo de manter a taxa de infla\u00e7\u00e3o ao redor de 2% ao ano. Eis que os realinhamentos de pre\u00e7os e sal\u00e1rios se tornam mais f\u00e1ceis quando o n\u00edvel dos pre\u00e7os est\u00e1 crescendo moderadamente. Por exemplo, \u00e9 assim que os eventuais ganhos nominais de sal\u00e1rios s\u00e3o corro\u00eddos sistematicamente pelo crescimento dos pre\u00e7os das mercadorias que entram no consumo da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O monetarismo continuou tendo alguma influ\u00eancia na pol\u00edtica econ\u00f4mica. Ele deu for\u00e7a, por exemplo, \u00e0 tese de que os bancos centrais deveriam se tornar independentes. Mas o keynesianismo manteve tamb\u00e9m certa influ\u00eancia j\u00e1 que n\u00e3o se desprezava o objetivo de manter o emprego em n\u00edvel elevado, o que sempre interessa aos capitalistas quando a taxa de lucro est\u00e1 elevada. A busca de uma meta flex\u00edvel de infla\u00e7\u00e3o era feita pelo manejo da taxa de juros de curto prazo, considerada agora como a vari\u00e1vel chave no controle do investimento e do consumo. O impulso da demanda agregada e, assim, o n\u00edvel do desemprego, podia assim ser controlado: ao elevar, por exemplo, a taxa de juros apertava-se as margens de lucro das empresas; tornava-se mais caro o cr\u00e9dito tanto para as empresas quando para os consumidores. A coisa se invertia quando se tratava n\u00e3o de desaquecer, mas de aquecer o funcionamento do sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>No per\u00edodo da \u201cgrande modera\u00e7\u00e3o\u201d, como era de se esperar, prosperou de novo a velha cren\u00e7a na capacidade do mercado de manter um alto n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica como menor interven\u00e7\u00e3o do governo. Na verdade, a cren\u00e7a \u2013 impl\u00edcita ou explicita \u2013 na Lei de Say, segundo a qual a oferta cria a sua pr\u00f3pria demanda, saiu de novo do arm\u00e1rio. Essa vulgaridade \u00e9 conveniente em certos momentos hist\u00f3ricos; ela j\u00e1 reaparecera nos anos 1970 com o advento da \u201cestagfla\u00e7\u00e3o\u201d. Consiste num dogma conveniente para negar que governo possa influir no n\u00edvel de emprego sempre que isso seja do interesse dos capitalistas: afirma peremptoriamente que os mercados produzem o pleno-emprego, de modo espont\u00e2neo e com mais efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi nessa d\u00e9cada que nasceu a macroeconomia das expectativas racionais baseada em sofisticados modelos de equil\u00edbrio. Esse aparato matem\u00e1tico, ao mesmo tempo em que esconde a anarquia inerente ao sistema capitalista, permite a sua manipula\u00e7\u00e3o. Se Keynes admitira que uma incerteza radical afetava o comportamento dos investidores, os macroeconomistas da escola novo cl\u00e1ssica passaram a admitir que eles agiam com base num risco plenamente calcul\u00e1vel. Para tanto, introduziram em seus modelos a hip\u00f3tese de que esses agentes eram capazes de fazer c\u00e1lculos de expectativas extremamente complexos, t\u00e3o improv\u00e1veis como os pr\u00f3prios modelos, modelos estes cujos resultados os pr\u00f3prios capitalistas j\u00e1 sempre conheciam.<\/p>\n<p>O renascimento da plena confian\u00e7a no funcionamento do sistema originou, tamb\u00e9m, a escola dos ciclos econ\u00f4micos reais. Ao inv\u00e9s de explicar as flutua\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mediante choques de demanda ou monet\u00e1rios, o novo instrumento figurava que a l\u00f3gica dos ciclos era end\u00f3gena; em suas fases de ascens\u00e3o ou de queda, a economia continuava sempre em equil\u00edbrio. Dessa perspectiva, eventuais a\u00e7\u00f5es corretivas do governo, tornavam-se em princ\u00edpio inadequadas e, mesmo, prejudiciais.<\/p>\n<p>A partir de 1997, aproximadamente, a taxa de lucro come\u00e7ou a cair, vindo a se estabilizar num n\u00edvel bem mais baixo da\u00ed em diante. Observou-se, ent\u00e3o, uma tend\u00eancia \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da taxa de crescimento da produ\u00e7\u00e3o e, em consequ\u00eancia, passou-se a duvidar mais uma vez do desempenho futuro da economia norte-americana. A demanda agregada passara a crescer menos porque as empresas n\u00e3o encontraram grande est\u00edmulos para investir j\u00e1 que as expectativas de rentabilidade estavam deprimidas. O cr\u00e9dito ao consumo, que compensou por um tempo a queda dos sal\u00e1rios reais, tamb\u00e9m encontrou limites no pr\u00f3prio aumento do endividamento das fam\u00edlias. Como consequ\u00eancia das pol\u00edticas neoliberais implementadas a partir de 1980, houve um forte aumento de concentra\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza nos pa\u00edses desenvolvidos, em particular, nos Estados Unidos. E isto, como se sabe, n\u00e3o favorece o consumo.<\/p>\n<p>Com a falta de oportunidade de investimentos lucrativos na esfera da produ\u00e7\u00e3o, acentuou-se a cria\u00e7\u00e3o de capital fict\u00edcio na esfera financeira j\u00e1 na d\u00e9cada dos anos 1980. Em consequ\u00eancia, o tamanho do endividamento dos governos, empresas e fam\u00edlias quase n\u00e3o parou mais de crescer. Com a crise de superacumula\u00e7\u00e3o de 2007-09, uma tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o se manifestou outra vez na economia norte-americana. Os economistas ortodoxos, que ignoram a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o de capital por cegueira ideol\u00f3gica, passaram ent\u00e3o a afirmar que o desejo de poupar passou a superar o desejo de gastar, que a economia norte-americana entrara por isso numa fase de estagna\u00e7\u00e3o secular.<\/p>\n<p>A resposta da pol\u00edtica econ\u00f4mica consistiu em rebaixar ao m\u00e1ximo a taxa de juros e em expandir enormemente a massa de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o \u2013 com enorme redu\u00e7\u00e3o de sua velocidade. Configurou-se, assim, o que ficou sendo chamado de \u201crelaxamento monet\u00e1rio\u201d. Do ponto de vista da macroeconomia de equil\u00edbrio, que s\u00f3 costuma ver perturba\u00e7\u00e3o nesse equil\u00edbrio devido a \u201cchoques externos\u201d eventuais, uma nova anomalia tornou-se patente: a taxa de desemprego podia diminuir, mas a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o voltava a crescer.<\/p>\n<p>Na verdade, a raz\u00e3o da conjun\u00e7\u00e3o explicitada nesse \u201cparadoxo\u201d \u00e9 simples, ainda que n\u00e3o seja reconhecida pelas correntes ortodoxas: como a taxa de lucro manteve-se em n\u00edveis baixos no per\u00edodo, o est\u00edmulo para investimento mostrou-se fraco; diante da debilidade da demanda efetiva, os capitalistas se v\u00eaem for\u00e7ados a aumentar os n\u00edveis da produ\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de elevar os pre\u00e7os, mesmo que possam faz\u00ea-lo \u2013 mesmo se acham que as margens de lucros est\u00e3o deprimidas. Se o governo optasse por elevar fortemente a demanda efetiva, a estagna\u00e7\u00e3o se transformaria em estagfla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As tens\u00f5es n\u00e3o resolvidas da economia norte-americana levaram a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, no final de 2016, um extremista de direita que resolveu reverter em parte o processo de globaliza\u00e7\u00e3o, iniciado nos anos 1980. Procurou, assim, transformar as tens\u00f5es internas em externas e, para tanto, atritou com a Uni\u00e3o Europeia, M\u00e9xico e Canad\u00e1, deu partida no atual conflito sino-americano. E esse conflito, como j\u00e1 se sabe, vai marcar a geopol\u00edtica nos pr\u00f3ximos anos, criando assim mais dificuldades para a expans\u00e3o do capital. A luta de cada na\u00e7\u00e3o para ampliar as suas exporta\u00e7\u00f5es mediante restri\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras diminui o mercado internacional para todas elas.<\/p>\n<p>Em 2020, como se sabe, sobreveio a pandemia do novo coronav\u00edrus que rebaixou ainda mais as expectativas de investimento, reduziu fortemente a demanda de consumo devido ao confinamento, desestruturou as cadeias produtivas nacionais e internacionais. Com taxas de juros pr\u00f3ximas de zero, acima ou abaixo desse patamar, a pol\u00edtica monet\u00e1ria perdeu a sua suposta capacidade de influenciar o n\u00edvel da atividade econ\u00f4mica. Sem que a teoria econ\u00f4mica tivesse tempo de mudar, a pol\u00edtica keynesiana de eleva\u00e7\u00e3o do gasto p\u00fablico entrou novamente em a\u00e7\u00e3o. Os programas de sustenta\u00e7\u00e3o da renda dos mais pobres n\u00e3o se preocupam, entretanto, nem com a sobreviv\u00eancia nem com o sofrimento deles. Trata-se, isto sim, de um modo indireto de impedir uma quebra muito significativa de empresas em face da queda extraordin\u00e1ria da demanda. Se o relaxamento monet\u00e1rio visava salvar o sistema financeiro do colapso, agora, a pol\u00edtica fiscal expansiva mostrou-se necess\u00e1ria para salvar as ind\u00fastrias produtoras de mercadorias.<\/p>\n<p>Diante da perspectiva de um grande desastre ou de uma longa depress\u00e3o, os macroeconomistas do sistema n\u00e3o sabem bem que fazer agora e n\u00f3s pr\u00f3ximos anos. Alguns acham que \u00e9 preciso continuar imprimindo dinheiro para estimular o crescimento e impulsionar a infla\u00e7\u00e3o. Mas como mostrou o caso do Jap\u00e3o, essa t\u00e1tica de governan\u00e7a n\u00e3o vai provavelmente funcionar; ela apenas manter\u00e1 as \u201cempresas zumbis\u201d \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Outros acham que os estados nacionais devem continuar gastando mesmo se as d\u00edvidas p\u00fablicas j\u00e1 ultrapassaram 120% do PIB, globalmente. Ora, isso vai obrigar a manuten\u00e7\u00e3o das taxas de juros pr\u00f3ximas de zero indefinidamente. Como isso \u00e9 improv\u00e1vel devido aos movimentos dos capitais em busca de remunera\u00e7\u00e3o, calotes ou monetiza\u00e7\u00f5es da d\u00edvida p\u00fablica podem aparecer no horizonte.<\/p>\n<p>Outros ainda acreditam que \u00e9 poss\u00edvel manter as taxas de juros negativas por longo tempo. H\u00e1 armadilhas tamb\u00e9m aqui: os bancos centrais ficar\u00e3o prisioneiros da alta liquidez, muitos poupadores v\u00e3o preferir manter o dinheiro sob o cobertor, os bancos n\u00e3o desejar\u00e3o emprestar etc.<\/p>\n<p>A incerteza \u00e9 grande: as d\u00edvidas p\u00fablicas est\u00e3o crescendo, as fissuras no sistema financeiro est\u00e3o aparecendo, a liquidez est\u00e1 aumentando desmedidamente, a quantidade de empresas zumbis \u2013 que mal conseguem pagar o servi\u00e7o de suas d\u00edvidas \u2013 continua a se elevar.\u00a0 Ora, a taxa de lucro n\u00e3o d\u00e1 sinais de que possa aumentar sem uma grande destrui\u00e7\u00e3o do capital fict\u00edcio e do capital industrial acumulados nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 modo intr\u00ednseco por meio da qual o sistema capitalista supera as suas crises de superacumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por causa disso que o artigo citado na introdu\u00e7\u00e3o deste escrito termina dizendo que um grande n\u00famero de economistas suspeita que os profundos problemas da economia capitalista n\u00e3o poder\u00e3o ser resolvidos sem uma reforma estrutural. Uma solu\u00e7\u00e3o que eles n\u00e3o desejam, mas que seria boa para grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 radicalizar a democracia, de tal modo que possa socializar progressivamente os meios de produ\u00e7\u00e3o, superando o capitalismo que j\u00e1 est\u00e1 no seu ocaso.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-governanca-macroeconomica\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELEUT\u00c9RIO PRADO &#8211;\u00a0Os profundos problemas da economia capitalista n\u00e3o poder\u00e3o ser resolvidos sem uma reforma estrutural. A macroeconomia dominante n\u00e3o quer ser mais do que uma caixa de ferramentas para serem usadas na governan\u00e7a do capitalismo. 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