{"id":14016,"date":"2020-09-17T09:44:28","date_gmt":"2020-09-17T12:44:28","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=14016"},"modified":"2020-09-15T09:46:52","modified_gmt":"2020-09-15T12:46:52","slug":"como-as-financas-moldarao-o-mundo-pos-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/09\/17\/como-as-financas-moldarao-o-mundo-pos-pandemia\/","title":{"rendered":"Como as finan\u00e7as moldar\u00e3o o mundo p\u00f3s-pandemia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ann Pettifor &#8211; In<\/strong><strong>trodu\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cHoje\u201d, enquanto o mundo enfrenta a crise de uma pandemia global, \u201cassim como nos anos 1790, uma velha ordem est\u00e1 terminando em convuls\u00f5es\u201d. Assim escreve Rebecca Spang, historiadora da revolu\u00e7\u00e3o francesa, na revista The Atlantic. (Spang, 2020). Na d\u00e9cada de 1790, o dinheiro, as d\u00edvidas e o n\u00e3o pagamento de impostos pelos rentistas da Fran\u00e7a, desempenharam um papel cr\u00edtico na revolu\u00e7\u00e3o francesa. Hoje, os supridores de dinheiro e cr\u00e9dito \u2013 credores, investidores e especuladores \u2013 tanto evitam impostos quanto subjugam uma economia global radicalmente enfraquecida pela Grande Crise Financeira e pela resposta pol\u00edtica dada aos eventos de 2007-9. Como resultado, o que n\u00e3o constitui surpresa, o sistema econ\u00f4mico internacional est\u00e1 igualmente despreparado e propenso a \u201cconvuls\u00f5es\u201d cada vez mais frequentes. A Covid-19 \u00e9 s\u00f3 a mais recente, e seus danos econ\u00f4micos ser\u00e3o duradouros. Acima de tudo, e de acordo com Case e Deaton, prev\u00ea-se que a Covid-19 amplie as \u201cj\u00e1 imensas desigualdades na sa\u00fade e na renda\u201d dos EUA. (2)<\/p>\n<p>Os \u201cpilares\u201d do sistema econ\u00f4mico global est\u00e3o apoiados em funda\u00e7\u00f5es \u201cliberais\u201d inst\u00e1veis (ver Pettifor, 2006, 2017a). \u00c9 um sistema internacional especificamente projetado para expandir mercados para credores e investidores; e proteger, acima de tudo, os interesses dos credores privados. Os fundamentos mais importantes do sistema s\u00e3o a mobilidade de capital, a instaura\u00e7\u00e3o de mercados livres de taxas de juros e taxas de c\u00e2mbio. O sistema \u00e9, em grande parte, mantido pela na\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do mundo \u2013 os Estados Unidos \u2013 que usa seu papel como emissor da moeda aceita como reserva mundial para proteger os interesses das finan\u00e7as privadas, em particular de Wall Street. O poder monet\u00e1rio dos EUA \u00e9 apoiado, por sua vez, pelo poder militar, usado para manter o controle sobre o acesso, ou a nega\u00e7\u00e3o de acesso aos mercados por todo o mundo.<\/p>\n<p>Um princ\u00edpio central do sistema \u00e9 que, sempre que poss\u00edvel, a autonomia pol\u00edtica dos governos (sejam democr\u00e1ticos ou n\u00e3o) deve ser constrangida e subordinada \u00e0 governan\u00e7a daqueles detentores de ativos nos mercados de capitais, de bens e de trabalho. O sistema global \u2013 sua regulamenta\u00e7\u00e3o e leis \u2013 s\u00e3o, portanto, em grande parte governados por autoridades privadas.<\/p>\n<p>N\u00edveis obscenos de desigualdade s\u00e3o apenas um dos resultados da atual ordem ou arquitetura econ\u00f4mica global. A abordagem da desigualdade n\u00e3o se trata, portanto, apenas de foco pol\u00edtico individual, mas de mudan\u00e7a do sistema internacional.<\/p>\n<p>A desigualdade n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico resultado do sistema. Outros resultados mundiais incluem: o imenso, e inexplic\u00e1vel poder corporativo; os altos e onerosos n\u00edveis de endividamento privado e p\u00fablico; alto n\u00edvel de extra\u00e7\u00e3o de \u201crenda\u201d (riqueza) pelos propriet\u00e1rios de ativos financeiros e f\u00edsicos [o termo \u201c<em>rent<\/em>\u201d, costumeiramente traduzido como renda ou aluguel, designa aqui ganhos por aplica\u00e7\u00e3o financeira e posse de terras, bem como, ganhos extraordin\u00e1rios como aqueles derivados de poder de mercado para determinar pre\u00e7os]; infraestrutura d\u00e9bil ou inexistente de sa\u00fade p\u00fablica; baixos n\u00edveis de investimento; altos n\u00edveis de fraudes, de analfabetismo, de pessoas sem teto. A mobilidade do capital facilita o tr\u00e1fico de drogas que, por sua vez, leva a um escalada dos n\u00edveis de v\u00edcio e doen\u00e7as mentais. Os sistemas de transporte globalizados \u2013 avi\u00f5es e viagens internacionais \u2013 atuam como passaportes e vetores de doen\u00e7as e pandemias. Que por sua vez, exp\u00f5em os problemas sist\u00eamicos de\u00a0 muitos que t\u00eam funcionado como reservas globais de baixa remunera\u00e7\u00e3o, trabalhadores expostos a rela\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis, n\u00e3o sindicalizados e n\u00e3o qualificados.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, esses resultados s\u00e3o agravados por um sistema de sa\u00fade privado caro e exclusivo, n\u00edveis extravagantes de gastos p\u00fablicos com os militares; e um complexo prisional-industrial privatizado, acompanhado de profundos sistemas de vigil\u00e2ncia e policiamento. Com a constitui\u00e7\u00e3o e democracia corrompidas pelo poder corporativo, as elites imitam seus antecessores franceses. Como os nobres normandos, elas parecem, em larga medida, n\u00e3o perceber a tens\u00e3o social e pol\u00edtica liberada pela ordem econ\u00f4mica privatizada. Enquanto a classe rentista tem tido ganhos de capital extraordin\u00e1rios, muitos trabalhadores empregados dos EUA s\u00f3 conseguem se manter em atividade convivendo com n\u00edveis elevados de endividamento. Na metade inferior da distribui\u00e7\u00e3o de renda dos EUA, os norte-americanos essencialmente n\u00e3o obtiveram crescimento da renda desde os anos 1970s, considerada ap\u00f3s os impostos, a infla\u00e7\u00e3o, e benef\u00edcios em dinheiro fornecidos pelo governo. (3) Aqueles que est\u00e3o desempregados e sem planos de sa\u00fade, sofrem o que Case e Deaton qualificam de \u201cmortes por desespero\u201d (Case e Deaton, 2020). O trabalho deles revela que:<\/p>\n<p>\u201cNas duas d\u00e9cadas passadas, as mortes por desespero, por suic\u00eddio, overdose de drogas, e alcoolismo subiram dramaticamente, e ceifam, agora, centenas dos milhares de vidas norte-americanas todos os anos \u2013 e continuam a subir.\u201d<\/p>\n<p>No curto per\u00edodo entre 18 de mar\u00e7o e 10 de abril de 2020, mais de 22 milh\u00f5es de pessoas perderam os seus empregos nos Estados Unidos enquanto a taxa de desemprego disparou para 15%. Nas mesmas tr\u00eas semanas, a riqueza dos bilion\u00e1rios norte-americanos cresceu em 282 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Equivalente a um ganho de quase 10 por cento, de acordo com um relat\u00f3rio sobre a bonan\u00e7a bilion\u00e1ria, elaborador pelo Instituto de Estudos de Pol\u00edticas (IPS) dos EUA (Collins e outros, 2020). (4) A capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado pode ter-se tornado err\u00e1tica, talvez haja perdas para alguns, mas os ricos enfrentam um mundo diferente dos demais. Como o relat\u00f3rio do IPS relata:<\/p>\n<p>A \u201criqueza bilion\u00e1ria\u2026 tende a retornar ap\u00f3s os crashes mercado. No momento seguinte \u00e0 crise econ\u00f4mica global de 2008, o Forbes 400 [rela\u00e7\u00e3o dos 400 norte-americanos mais ricos] verificou um decl\u00ednio combinado de sua riqueza de 300 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, que caiu de 1,57 trilh\u00f5es em 2008 para 1,27 trilh\u00f5es em 2009. Em 30 meses ap\u00f3s a grande queda de setembro 2008, a maior parte destas fortunas tinha sido recuperada. Por volta de 2012, a riqueza dos bilion\u00e1rios tinha alcan\u00e7ado 1,7 trilh\u00f5es, ultrapassando os n\u00edveis pre-2008. Entre 2010 e 2020, a riqueza combinada da classe de bilion\u00e1rios disparou surpreendentes 80,6 pontos percentuais, de 1,631 trilh\u00f5es a 2,947 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2020\u201d (Collins e outros 2020: 10).<\/p>\n<p>Se quisermos tratar das \u201cbonan\u00e7as bilion\u00e1rias\u201d e reverter a desigualdade e outros resultados m\u00f3rbidos do atual sistema, ent\u00e3o temos que come\u00e7ar pela transforma\u00e7\u00e3o do sistema internacional que gera tal desigualdade. Fundamental para tal transforma\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a remo\u00e7\u00e3o da autoridade privada sobre a arquitetura financeira globalizada e a restaura\u00e7\u00e3o da autoridade p\u00fablica sobre a regula\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as e a pol\u00edtica financeira (Pettifor, 2017a). (5)<\/p>\n<p><strong>Desigualdade e o Sul Global<\/strong><\/p>\n<p>O crescimento dos n\u00edveis extremos de desigualdade dentro das economias dom\u00e9sticas assemelha-se \u00e0 desigualdade que existe entre as economias mais ricas e mais pobres do mundo. A injusti\u00e7a da desigualdade de poder \u2013 n\u00e3o apenas na economia internacional, mas tamb\u00e9m nas economias dom\u00e9sticas \u2013 foi marcadamente exposta pela crise do Coronav\u00edrus. Uma escassez de d\u00f3lares norte-americanos por todo o mundo, levou o Federal Reserve e o FMI a emprestarem d\u00f3lares para certos governos, mas essa generosidade foi negada para outros. As \u201clinhas de swap\u201d do Fed cobriram quatorze bancos centrais, mas exclu\u00edram a Turquia, \u00c1frica do Sul, Nig\u00e9ria e Indon\u00e9sia, apesar da necessidade de d\u00f3lares desses pa\u00edses para conseguir pagar por importa\u00e7\u00f5es vitais, incluindo petr\u00f3leo; e apesar dos desafios colocados aos seus sistemas de sa\u00fade pela pandemia global.<\/p>\n<p>O fracasso do sistema financeiro internacional, em fornecer quantidades da reserva mundial de moeda para pa\u00edses de baixa renda em um per\u00edodo cr\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 um bom press\u00e1gio para esses pa\u00edses mais sujeitos a choques futuros, como o colapso clim\u00e1tico (para quest\u00f5es e alternativas ver Pettifor, 2019).<\/p>\n<p>Para aumentar as tens\u00f5es impostas pelo coronav\u00edrus, os mercados emergentes e fronteiri\u00e7os experimentaram a mais acentuada revers\u00e3o j\u00e1 registrada no fluxo de aplica\u00e7\u00f5es de carteira, de acordo com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional em recente relat\u00f3rio de Estabilidade Financeira Global (FMI, 2020). Pa\u00edses de baixa renda enfrentaram uma \u201ctempestade perfeita\u201d e \u201cgrandes revers\u00f5es\u201d, por exemplo, nos fluxos de portf\u00f3lio, veja a figura abaixo [com o t\u00edtulo Fluxos de Carteira para os Mercados Emergentes: uma grande revers\u00e3o] (FMI, 2020: 13):<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.imgur.com\/BSPmwYi.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 1, superior \u00e0 esquerda, mostra a evas\u00e3o de capitais em cinco eventos que agitaram os mercados. A escala est\u00e1 em porcentagem do PIB, desde a data inicial do evento (t) at\u00e9 90 dias ap\u00f3s o evento inicial (t 90). A linha vermelha representa as sa\u00eddas de capital na atual pandemia, enquanto que a amarela representa a evas\u00e3o de capital na Grande Crise Financeira de 2008.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 2, superior \u00e0 direita, mostra o montante acumulado de sa\u00eddas, em porcentagem do PIB, indo da curva menos para a mais acentuada, temos a China (vermelho pontilhado), EMEA, Europa, Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica (preto), Am\u00e9rica Latina (azul) e \u00c1sia sem a China (vermelho). No gr\u00e1fico 2, superior mais \u00e0 direita, s\u00e3o separadas as sa\u00eddas oriundas do mercado acion\u00e1rio (verde) e do mercados de t\u00edtulos (amarelo).<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 3, inferior \u00e0 esquerda, mostra, em bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o fluxos de varejo (azul) e os fluxos institucionais (vermelho) de 2013 at\u00e9 2020.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico 4, inferior \u00e0 direita, mostra os fluxos relativos a t\u00edtulos denominados em moeda local (verde) e aqueles denominados em moeda forte (amarelo).<\/p>\n<p>Cem bilh\u00f5es de d\u00f3lares de capital sa\u00edram em debandada dos dos mercados emergentes nas \u00faltimas semanas de mar\u00e7o e in\u00edcio de abril de 2020. Essas sa\u00eddas, desencadeadas por investidores e credores inst\u00e1veis e vol\u00e1teis, esmagaram as moedas de pa\u00edses de baixa renda, ao mesmo tempo inflando o valor do d\u00f3lar. Como s\u00f3 o d\u00f3lar norte-americano \u00e9 reconhecido pelos mercados internacionais para o pagamento de importa\u00e7\u00f5es vitais, incluindo petr\u00f3leo, o custo das importa\u00e7\u00f5es denominadas em d\u00f3lar aumentou. Isto levaria, por sua vez, a desequil\u00edbrios nas contas de com\u00e9rcio e de capital, que, em seguida, colocaria em a\u00e7\u00e3o os dem\u00f4nios da economia global \u2013 as ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de riscos baseadas no ocidente \u2013 para rebaixar pa\u00edses v\u00edtimas da fuga de capital. Os rebaixamentos, por sua vez, elevaram os custos de empr\u00e9stimos e apertaram a disponibilidade de cr\u00e9dito em um tempo em que os mercados globais para as exporta\u00e7\u00f5es de commodities de pa\u00edses pobres j\u00e1 estavam fracos, com pre\u00e7os em queda, cortando sua renda. Simultaneamente, moedas enfraquecidas elevaram o custo de compra de equipamentos vitais e produtos farmac\u00eauticos do exterior.<\/p>\n<p>No momento em que enfrentavam os desafios de uma pandemia, os pa\u00edses empobrecidos foram efetivamente sacrificados na cruz do d\u00f3lar norte-americano e da ordem internacional.<\/p>\n<p>Fuga de capitais levada a cabo pelo capricho dos investidores, juntamente com o fortalecimento subsequente do d\u00f3lar norte-americano, n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias acidentais nem inevit\u00e1veis da pandemia. O v\u00edrus, afinal, prenuncia fracasso econ\u00f4mico maior nos Estados Unidos do que em muitos mercados emergentes. O fracasso econ\u00f4mico tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser explicado diretamente por mudan\u00e7as repentinas nas circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas dos pa\u00edses pisoteados pela corrida dos investidores para fora deles. Em vez disso, \u00e9 uma consequ\u00eancia do desenho do sistema internacional \u2013 uma arquitetura com o prop\u00f3sito de acomodar os caprichos, n\u00e3o importa qu\u00e3o irracionais, dos investidores, e para proteger os interesses dos credores.<\/p>\n<p><strong>O que tem de ser feito?<\/strong><\/p>\n<p>Tomar medidas para transformar o sistema altamente desequilibrado atual requer, em primeiro lugar, um compreens\u00e3o mais completa de como e por que a arquitetura financeira internacional foi constru\u00edda.<\/p>\n<p>Ken-Hou Lin e Donald Tomaskovic-Devey discutem, em seu importante artigo \u201cFinancializa\u00e7\u00e3o e desigualdade de renda dos EUA, 1970-2008\u201d (Lin e Tomaskovic-Devey, 2013), que o aumento desigualdade \u00e9, sem d\u00favida, a consequ\u00eancia do financializa\u00e7\u00e3o deliberada da economia global no final dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos 1970.<\/p>\n<p>A financializa\u00e7\u00e3o permitiu auferir, quase sem esfor\u00e7o, ganhos de capital extraordin\u00e1rios por aqueles que extraem renda da posse de ativos financeiros que geram juros, ou de ativos escassos ou artificialmente transformados em escassos (como patentes e propriedade intelectual). Renda da terra, propriedades, minerais ou aplica\u00e7\u00f5es financeiras, s\u00e3o as mais conhecidas formas de capitalismo rentista. E como Guy Standing argumentou:<\/p>\n<p>\u201cElas incluem a renda que os credores obt\u00e9m com\u2026 ganhos de capital em investimentos; lucros \u2018acima do normal\u2019 da empresa (quando uma empresa tem uma posi\u00e7\u00e3o dominante no mercado); rendimentos de subs\u00eddios; e renda de intermedi\u00e1rios financeiros derivados de transa\u00e7\u00f5es de terceiros\u201d (Standing, 2017).<\/p>\n<p>Enfrentar o rentismo e suas consequ\u00eancias, restaurando o poder p\u00fablico sobre o sistema no n\u00edvel da economia dom\u00e9stica, \u00e9 a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coordenada internacionalmente necess\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Como expliquei em um artigo de 2017 para a Real-World Economics Review, sobre as causas e consequ\u00eancias do presidente Donald Trump, o colapso do sistema Bretton Woods em 1971 representa um epis\u00f3dio decisivo no processo de globaliza\u00e7\u00e3o financeira, e com ele o enfraquecimento correspondente da democracia reguladora. A OCDE reconhece que:<\/p>\n<p>\u201cA flexibiliza\u00e7\u00e3o dos controles de capital, e a ramifica\u00e7\u00e3o internacional de empresas de neg\u00f3cios ou o estabelecimento de suas empresas financeiras, tornou as regulamenta\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas mais f\u00e1ceis de serem contornadas por transa\u00e7\u00f5es financeiras fora dos limites nacionais\u201d (Pettifor, 2017b).<\/p>\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, os sistemas financeiros na maioria das economias ocidentais eram governados pela regula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de mercado, promulgada dentro dos limites de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas dos estados nacionais democr\u00e1ticos. Essas restri\u00e7\u00f5es inclu\u00edam: controles de taxa de juros; regula\u00e7\u00e3o do mercado de valores mobili\u00e1rios; restri\u00e7\u00f5es quantitativas de investimento nas institui\u00e7\u00f5es financeiras; regulamenta\u00e7\u00e3o das linhas de neg\u00f3cios e regulamenta\u00e7\u00e3o sobre as liga\u00e7\u00f5es de propriedade entre institui\u00e7\u00f5es financeiras; restri\u00e7\u00f5es na entrada de institui\u00e7\u00f5es financeira estrangeiras; e controles sobre movimentos de capital internacional e transa\u00e7\u00f5es de\u00a0 c\u00e2mbio. A raz\u00e3o da restri\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada no bom senso. A natureza da cria\u00e7\u00e3o de dinheiro como uma constru\u00e7\u00e3o ou uma tecnologia social, em grande parte sem esfor\u00e7o, requer uma regulamenta\u00e7\u00e3o, no n\u00edvel da sociedade como um todo, do bem p\u00fablico que \u00e9 o sistema monet\u00e1rio, a fim de evitar a captura deste bem p\u00fablico por uma pequena elite. Como John Maynard Keynes entendeu melhor do que muitos de seus pares:<\/p>\n<p>\u201cA taxa de juros atual n\u00e3o recompensa nenhum sacrif\u00edcio verdadeiro, do mesmo modo que n\u00e3o o faz a renda da terra. O detentor do capital pode conseguir juros porque o capital \u00e9 escasso, assim como o dono da terra pode obter uma renda porque a terra \u00e9 escassa. Mas, se por uma lado pode haver raz\u00f5es intr\u00ednsecas para a escassez de terras, por outro n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es intr\u00ednsecas para a escassez de capital\u2026\u201d (Keynes, 1936).<\/p>\n<p>Do ponto de vista de Keynes, as consequ\u00eancias dos mercados governados efetivamente por rentistas eram inteiramente previs\u00edveis: aumento e at\u00e9 mesmo a n\u00edveis obscenos de desigualdade, instabilidade pol\u00edtica e crises financeiras recorrentes. Tal desigualdade e tal instabilidade financeira s\u00e3o particularmente problem\u00e1ticas no momento em que as sociedades lutam para atender amea\u00e7as representadas pelo clima, no presente e no futuro, e choques de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Precisamos de um sistema financeiro internacional diferente, um sistema\u00a0 governado pelo poder p\u00fablico, se quisermos enfrentar a quest\u00e3o da da desigualdade e seus malef\u00edcios. Parafraseando Karl Marx: economistas pol\u00edticos s\u00f3 interpretaram o mundo, de v\u00e1rias maneiras. O ponto, no entanto, \u00e9 mudar a arquitetura financeira global corrente. Um entendimento das causas sist\u00eamicas e internacionais de desigualdade nos permite afirmar este momento de crise como uma revolu\u00e7\u00e3o. Faz\u00ea-lo, \u00e9 reivindicar a\u00e7\u00e3o humana, como Rebecca Spang argumenta.<\/p>\n<h4><strong>Notas:<\/strong><\/h4>\n<p>1 Ann Pettifor \u00e9 diretora de Pesquisa de Pol\u00edticas em Macroeconomia (PRIME), www.primeeconomics.org, @AnnPettifor<\/p>\n<p>2 Anne Case, Angus Deaton, 15 de junho de 2020, Project Syndicate.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.project-syndicate.org\/commentary\/deaths-of-despair-covid19-american-inequality-by-anne-case-and-angus-deaton-2020-06?barrier=accesspaylog\">Estados Unidos do Desespero<\/a>.<\/p>\n<p>3 Matthew C. Klein e Michael Pettis, 2020, p. 177.\u00a0<em>Trade Wars are Class Wars<\/em>.<\/p>\n<p>4 Por exemplo, no caso de Jeff Bezos: \u201cA queda do mercado de a\u00e7\u00f5es inicialmente deixou o patrim\u00f4nio l\u00edquido de Bezos profundamente danificado, at\u00e9 m\u00edseros US$ 105 bilh\u00f5es na \u201cQuinta-feira Negra\u201d de 12 de mar\u00e7o, o ponto mais baixo do mercado de a\u00e7\u00f5es. A riqueza de Bezos est\u00e1 em tend\u00eancia de alta desde ent\u00e3o, sem nenhuma empresa melhor posicionada para lucrar com a pandemia do que a Amazon. O fechamento de centenas de milhares de pequenas empresas est\u00e1 dando \u00e0 Amazon a oportunidade de aumentar sua participa\u00e7\u00e3o no mercado, fortalecer seu lugar na cadeia de suprimentos e ganhar mais poder de pre\u00e7os sobre os consumidores. Apesar do dom\u00ednio do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico da Amazon, Bezos foi incapaz de proteger sua for\u00e7a de trabalho da Covid-19: trabalhadores em dez diferentes armaz\u00e9ns da Amazon deram positivo para a doen\u00e7a no final de mar\u00e7o. Em vez disso, no in\u00edcio de abril, Bezos anunciou uma doa\u00e7\u00e3o de US$ 100 milh\u00f5es de sua riqueza de US$ 140 bilh\u00f5es para a\u00a0<em>Feeding America<\/em>\u00a0(Collins et al., 2020: 11).<\/p>\n<p>5 Existem muitas outras quest\u00f5es e pol\u00edticas associadas, incluindo um\u00a0<em>Green New Deal\u00a0<\/em>(ver Pettifor, 2019).<\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n<p>Case,\u00a0 A.\u00a0 and\u00a0 Deaton,\u00a0 A.\u00a0 (2020)\u00a0\u00a0<em>Deaths\u00a0 of\u00a0 Despair\u00a0 and\u00a0 the\u00a0 Future\u00a0 of\u00a0 Capitalism<\/em>.\u00a0 Princeton:\u00a0 Princeton\u00a0 University Press.<\/p>\n<p>Collins,\u00a0 C.\u00a0 Ocampo,\u00a0 O.\u00a0 and\u00a0 Paslaski,\u00a0 S.\u00a0 (2020)\u00a0\u00a0<em>Billionaire\u00a0 Bonanza\u00a0 2020:\u00a0 Wealth,\u00a0 Windfalls,\u00a0 Tumbling\u00a0 Taxes, and Pandemic Profiteers.<\/em>\u00a0Washington DC: Institute for Policy Studies.<\/p>\n<p>FMI (2020)\u00a0<em>Global Financial Stability Repor<\/em>t. Washington DC: IMF<\/p>\n<p>Keynes, J.M. (1936)\u00a0<em>The General Theory of Employment, Interest and Money<\/em>. London: Macmillan<\/p>\n<p>Lin, K.H. and Tomaskovic-Devey, D. (2013)\u00a0<em>\u201cFinancialization and U.S. Income Inequality, 1970\u20132008.\u201d<\/em>\u00a0American Journal of Sociology 118(5): 1284-1329.<\/p>\n<p>Marx, K. (1842) \u201c<em>On the theft of woods.\u201d<\/em>\u00a0Article series in Reinische Zeitung, available: https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/download\/Marx_Rheinishe_Zeitung.pdf<\/p>\n<p>Pettifor, A. (2006)\u00a0<em>The Coming First World Debt Crisis<\/em>. Basingstoke: Palgrave Macmillan.<\/p>\n<p>Pettifor, A. (2017a)\u00a0<em>The Production of Money: How to break the power of bankers.<\/em>\u00a0London: Verso.<\/p>\n<p>Pettifor, A. (2017b)\u00a0<em>\u201cThe Causes and Consequences of Donald Trump.\u201d<\/em>\u00a0Real-World Economics Review78: 44-53.<\/p>\n<p>Pettifor, A. (2019)\u00a0<em>The Case for the Green New Deal.<\/em>\u00a0London: Verso.<\/p>\n<p>Spang, R. (2020)\u00a0<em>\u201cThe revolution is underway already.\u201d<\/em>\u00a0The Atlantic, April 5th.<\/p>\n<p>Standing, G. (2017)\u00a0<em>The Corruption of Capitalism: Why Rentiers Thrive and Work Does Not Pay<\/em>. London: Biteback Publishing.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/como-as-financas-moldarao-o-mundo-pos-pandemia\/)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ann Pettifor &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o. \u201cHoje\u201d, enquanto o mundo enfrenta a crise de uma pandemia global, \u201cassim como nos anos 1790, uma velha ordem est\u00e1 terminando em convuls\u00f5es\u201d. Assim escreve Rebecca Spang, historiadora da revolu\u00e7\u00e3o francesa, na revista The Atlantic. (Spang, 2020). 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