{"id":13983,"date":"2020-09-07T16:59:41","date_gmt":"2020-09-07T19:59:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13983"},"modified":"2020-09-05T17:02:06","modified_gmt":"2020-09-05T20:02:06","slug":"o-mercado-financeiro-e-o-principal-criador-de-trabalhos-de-merda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/09\/07\/o-mercado-financeiro-e-o-principal-criador-de-trabalhos-de-merda\/","title":{"rendered":"\u201cO mercado financeiro \u00e9 o principal criador de trabalhos de merda\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Quino Petit<\/strong> &#8211; David Graeber, nova-iorquino de 57 anos, \u00e9 um anarquista que d\u00e1 aulas na London School of Economics. Um antrop\u00f3logo <em>outsider<\/em>\u00a0que compartilha conhecimentos no templo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/12\/06\/deportes\/1575659190_636564.html\" data-link-track-dtm=\"\">estudos do capitalismo global<\/a>. Um professor exilado \u00e0 for\u00e7a em Londres, desde que mais de 20 universidades de seu pa\u00eds rejeitaram seu curr\u00edculo ap\u00f3s uma partida abrupta de Yale, depois de sair em defesa de um aluno que tentava organizar um sindicato de estudantes. Um acad\u00eamico provocador que tem escrito em seus momentos livres obras t\u00e3o peculiares como\u00a0<em>D\u00edvida &#8211; Os Primeiros 5.000 Anos<\/em>\u00a0<em>e The Utopia of Rules<\/em>\u00a0(\u201c<em>a utopia das normas<\/em>\u201d). Um homem, em suma, que define a si mesmo como um\u00a0<em>workaholic<\/em>\u00a0e agora tem um dos livros mais estimulantes da temporada,\u00a0<em>Bullshit Jobs: A Theory\u00a0<\/em>(<em>\u201ctrabalhos de merda: uma teoria\u201d<\/em>), lan\u00e7ado em espanhol pela editora Ariel com o t\u00edtulo de\u00a0<em>Trabajos de Mierda<\/em>.<\/p>\n<p>A g\u00eanese do novo livro de Graeber parte de um artigo que ele publicou em uma revista alternativa em 2013. O artigo viralizou rapidamente nas redes sociais, foi traduzido para 13 l\u00ednguas em duas semanas e catapultou sua popularidade entre as elites do pensamento radical. Aquela aproxima\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno dos trabalhos de merda \u2212 que povoam, segundo sua vers\u00e3o, distintas latitudes do planeta \u2212 acabou se transformando em um divertido livro de mais de 400 p\u00e1ginas onde seu autor afirma, entre outras provoca\u00e7\u00f5es, que cerca de metade dos empregos atuais poderiam ser eliminados sem que ningu\u00e9m notasse. O motivo? S\u00e3o absolutamente desnecess\u00e1rios por sua tend\u00eancia \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o e\u00a0<em>manageriza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0das organiza\u00e7\u00f5es: \u201cDepois de perguntar a pessoas de diversas \u00e1reas o que fazem realmente em sua jornada de trabalho, voc\u00ea percebe a grande quantidade de tempo que perdem em tarefas que n\u00e3o servem para nada. Keynes tinha raz\u00e3o: a jornada de 15 horas semanais \u00e9 e j\u00e1 deveria ser vi\u00e1vel \u2212 e, \u00e9 claro, sustent\u00e1vel. Todos ter\u00edamos uma vida melhor\u201d.<\/p>\n<p>Filiado a correntes anticapitalistas de milit\u00e2ncia como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/occupy_wall_street\" data-link-track-dtm=\"\">Occupy Wall Street<\/a>, da qual foi um dos l\u00edderes intelectuais, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que Graeber tenha vindo recentemente a Liverpool, no norte de Reino Unido, para participar dos debates em torno do futuro da esquerda organizados pelo Momentum, um movimento decisivo no impulso do l\u00edder trabalhista brit\u00e2nico Jeremy Corbyn. Esses encontros, nos quais Graeber deixou sua marca anarquista com est\u00e9tica de roqueiro\u00a0<em>indie<\/em>, coincidiram no espa\u00e7o e no tempo com o congresso anual do Partido Trabalhista, onde foi not\u00edcia a insist\u00eancia de Corbyn em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de um segundo referendo sobre o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/referendum_permanencia_reino_unido_ue\" data-link-track-dtm=\"\">Brexit<\/a>\u00a0e seu pedido de elei\u00e7\u00f5es antecipadas se o plano da primeira-ministra brit\u00e2nica, Theresa May, fracassar nas tensas negocia\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n<p>Indo al\u00e9m da especula\u00e7\u00e3o em torno de se o Brexit se materializar\u00e1 finalmente em sua<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/20\/internacional\/1537445005_999903.html\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0forma dura ou branda<\/a>, David Graeber manifesta d\u00favidas sobre se, de fato, a sa\u00edda brit\u00e2nica da UE chegar\u00e1 a ocorrer: \u201cElei\u00e7\u00f5es poderiam p\u00f4r Jeremy Corbyn \u00e0 mesa de conversa\u00e7\u00f5es com a Europa. E ele poderia dizer: eu represento o contr\u00e1rio do que voc\u00eas n\u00e3o gostavam dos trabalhistas nesta negocia\u00e7\u00e3o. Comecemos de novo\u201d. Interpretando \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o papel de professor distra\u00eddo que acabou de se levantar no meio da amanh\u00e3 e ainda n\u00e3o tomou caf\u00e9, elegantemente despenteado, usando\u00a0<em>blazer<\/em>\u00a0escuro, colete verde, camisa branca com v\u00e1rios bot\u00f5es desabotoados, cal\u00e7a marrom e sapatos combinando, tudo de segunda m\u00e3o e com um acentuado toque brit\u00e2nico \u2212 \u201cmoro de aluguel muito perto de Portobello Road e compro toda minha roupa l\u00e1\u201d \u2212, Graeber se senta no movimentado\u00a0<em>lobby<\/em>\u00a0do hotel de Liverpool onde passou a noite antes de participar das conversas sobre o futuro da esquerda.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;37% dos trabalhadores afirmam que seu trabalho n\u00e3o contribui para absolutamente nada e apenas 15% ou 20% dizem ser felizes\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Pergunta.\u00a0<\/strong>Quer dizer que 50% dos trabalhos que temos s\u00e3o uma merda?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0N\u00e3o sei de maneira exata, mas o que sugiro com essa cifra \u00e9 a quantidade de empregados que pensam que o que fazem n\u00e3o serve para nada. Para escrever sobre esse assunto, falei com diversos tipos de trabalhadores. Apenas 15% ou 20% diziam ser felizes com seu trabalho. E\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/10\/ciencia\/1533911822_785860.html\" data-link-track-dtm=\"\">37% afirmavam que o que faziam n\u00e3o contribui para absolutamente a nada<\/a>. \u00c9 algo que acontece em muitas organiza\u00e7\u00f5es do mundo. Se uma enfermeira passa a maior parte de seu tempo preenchendo formul\u00e1rios em vez de atender os pacientes, sua ess\u00eancia est\u00e1 se desnaturalizando. E quando essa pessoa tem consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que eu aplico a defini\u00e7\u00e3o de trabalho de merda.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Voc\u00ea classifica os empregos como \u201cn\u00e3o muito\u201d, \u201caltamente\u201d e \u201ctotalmente\u201d de merda. Ningu\u00e9m est\u00e1 a salvo.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Exato. Eu tamb\u00e9m sofro disso. H\u00e1 dezenas de obriga\u00e7\u00f5es e papelada que tenho de fazer e que h\u00e1 cinco anos ningu\u00e9m precisava. Quanto mais pessoal administrativo h\u00e1 em uma universidade e mais postos de supervis\u00e3o s\u00e3o criados em diferentes n\u00edveis, maior \u00e9 a quantidade de burocracia exigida entre departamentos e menor \u00e9 o tempo para pesquisar, dar aulas e ensinar.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Quanta merda voc\u00ea tem de aguentar em seu cargo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 dif\u00edcil medir. No meu caso, acho que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/18\/cultura\/1524081690_126076.html\" data-link-track-dtm=\"\">meu trabalho n\u00e3o \u00e9 ruim<\/a>. Mas sou um\u00a0<em>workaholic<\/em>. Trabalho o tempo todo. E em meus momentos livres escrevo livros.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA melhor analogia do Brexit \u00e9 com a Primeira Guerra Mundial. As consequ\u00eancias ser\u00e3o catastr\u00f3ficas: novas leis, tratados que ningu\u00e9m entende&#8230;\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Tem fam\u00edlia?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o. Meus pais e meu irm\u00e3o, minha fam\u00edlia nos Estados Unidos, morreram. Eu gostaria de formar uma algum dia.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>E o que faz um anarquista na London School of Economics?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 preciso trabalhar. Depois que n\u00e3o renovaram meu contrato em Yale, enviei meu curr\u00edculo a mais de 20 universidades dos Estados Unidos. Mas n\u00e3o me quiseram. Por isso, vim para o Reino Unido. A London School of Economics \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o peculiar. H\u00e1 departamentos que n\u00e3o t\u00eam nada a ver entre si.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Havia algu\u00e9m relacionado ao pensamento anarquista em sua fam\u00edlia?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Meu pai foi membro das Brigadas Internacionais. Lutou na Espanha durante a Guerra Civil e viveu em Barcelona. Aos 16 anos, deu-me de presente um exemplar de\u00a0<em>Homenagem \u00e0 Catalunha<\/em>, de Orwell. A maioria das pessoas n\u00e3o considera o anarquismo uma m\u00e1 ideia, e sim uma loucura. Mas uma das coisas que aprendi com ele foi que estas ideias n\u00e3o s\u00e3o um disparate, e que as pessoas podem conduzir a si mesmas.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Agora que vive no Reino Unido, quantos trabalhos de merda acredita que o Brexit vai deixar?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o sei, mas para os advogados ser\u00e1 a melhor coisa que j\u00e1 aconteceu. Ser\u00e1 necess\u00e1rio reescrever tudo, conceber novas leis aqui e na Uni\u00e3o Europeia para um novo cen\u00e1rio. Embora eu n\u00e3o saiba se o Brexit chegar\u00e1 a se materializar. N\u00e3o acredito que os trabalhistas tivessem uma ideia clara do que estavam fazendo quando o propuseram, embora tenham levado isso adiante. H\u00e1 muitos precedentes deste tipo de cat\u00e1strofe na hist\u00f3ria. Vejamos de novo a Primeira Guerra Mundial: nenhum dos atores tinha inten\u00e7\u00e3o de fazer o que anunciava, mas eles seguiram em frente e aconteceu o que aconteceu.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>O Brexit lhe parece compar\u00e1vel \u00e0 Primeira Guerra Mundial?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 a melhor analogia poss\u00edvel. Um cen\u00e1rio que tamb\u00e9m est\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/22\/internacional\/1534938840_936940.html\" data-link-track-dtm=\"\">cheio de tratados que ningu\u00e9m entende<\/a>, no qual ningu\u00e9m esperava que acontecesse o que est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o acredito que as pessoas cheguem a lutar como na Primeira Guerra, mas os resultados ser\u00e3o catastr\u00f3ficos. Surgir\u00e3o novas obriga\u00e7\u00f5es, legisla\u00e7\u00f5es complexas&#8230; Por isso, se houver um coletivo que sair\u00e1 ganhando com o Brexit, ser\u00e3o os advogados.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Como avalia o papel que institui\u00e7\u00f5es importantes como a London School of Economics desempenharam antes do referendo do Brexit?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 um problema: \u00e9 chato que apontem para n\u00f3s quando a maioria dos estudantes desta universidade \u00e9 de fora do Reino Unido. \u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o internacional. E uma das coisas que me assustaram com o an\u00fancio do Brexit \u00e9 que h\u00e1 uma parte de financiamento europeu. Talvez pudesse haver alguma complac\u00eancia antes do referendo, mas ningu\u00e9m acreditava que Donald Trump ganharia as elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos. A partir de um movimento como o Occupy Wall Street, contra a corrup\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, tentamos alertar que as pessoas j\u00e1 n\u00e3o aguentavam mais.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Talvez movimentos como o Occupy Wall Street tenham ajudado a impulsionar a raiva necess\u00e1ria para acabar elegendo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/28\/internacional\/1469671168_773031.html\" data-link-track-dtm=\"\">Trump<\/a>?<\/p>\n<p><strong>R.\u00a0<\/strong>N\u00e3o acredito que tenhamos esse poder. A ira daqueles eleitores j\u00e1 estava l\u00e1. N\u00f3s diz\u00edamos o que nenhum meio de comunica\u00e7\u00e3o nem membros da classe pol\u00edtica diriam, embora todos pensassem assim. Todo mundo est\u00e1 de acordo quanto ao fato de que os sistemas pol\u00edticos s\u00e3o corruptos. Se n\u00e3o foram apresentadas solu\u00e7\u00f5es construtivas, as pessoas apostar\u00e3o em medidas destrutivas. Da\u00ed o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/09\/05\/economia\/1536154753_064111.html\" data-link-track-dtm=\"\">avan\u00e7o de Governos populistas eleitos democraticamente<\/a>. E o aumento de suic\u00eddios, assassinatos e mortes por overdose em pa\u00edses como os Estados Unidos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPassamos tanto tempo trabalhando duro, ou fingindo, que n\u00e3o sabemos o que aconteceria deix\u00e1ssemos de fazer isso\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>At\u00e9 que ponto os economistas poderiam ter ajudado a entender o que estava ocorrendo antes da quebra do Lehman Brothers, h\u00e1 10 anos, e da eclos\u00e3o da Grande Recess\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c0s vezes as pessoas gostam de falar mal dos economistas com base na estupidez. N\u00e3o acredito que o problema seja a estupidez, e sim a corrup\u00e7\u00e3o. Praticamente todos os economistas que n\u00e3o faziam parte da estrutura institucional sabiam o que iria acontecer. Era \u00f3bvio. Mas o papel dos economistas era negar, porque para isso eles eram pagos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0E o mercado financeiro \u00e9, para voc\u00ea, o paradigma de cria\u00e7\u00e3o de trabalhos de merda.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim, \u00e9 a\u00ed que tudo come\u00e7a. Se voc\u00ea se dedica a extrair riqueza e a redistribu\u00ed-la, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma motiva\u00e7\u00e3o para ser eficiente; quanto mais ineficiente voc\u00ea \u00e9, mais voc\u00ea pode reter.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Por que voc\u00ea acha que parece imposs\u00edvel cumprir a profecia de Keynes sobre a jornada de 15 horas semanais?<\/p>\n<p><strong>R.\u00a0<\/strong>H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es. Por exemplo, politicamente sempre se disse que ter mais empregos \u00e9 algo bom. Ningu\u00e9m diz que temos muitos em nossa sociedade. Sempre se elogia o valor das fam\u00edlias que trabalham duro. E o que acontece com as fam\u00edlias que fazem isso com intensidade moderada? N\u00e3o merecem nada? Sempre existiu uma press\u00e3o pol\u00edtica para a cria\u00e7\u00e3o de empregos. Isso \u00e9 prosperidade? Depende do que cada um entende o que significa esse conceito, principalmente se valoriza o tempo livre.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Mas voc\u00ea precisamente se declara viciado em trabalho.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Dedico meu tempo livre a ler e escrever livros, mas a\u00ed n\u00e3o estou trabalhando para ningu\u00e9m a n\u00e3o ser eu. Tamb\u00e9m gosto do meu of\u00edcio. H\u00e1 algo perverso nisso, na verdade. Embora eu tamb\u00e9m acredite que meu trabalho crie um valor social. Recebi muitos telefonemas de estudantes anos depois de terem sido meus alunos para me agradecer pelo que aprenderam comigo. N\u00e3o sei se com os banqueiros isso ocorre muito.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Entre os componentes de um trabalho de merda voc\u00ea identifica as reuni\u00f5es desnecess\u00e1rias, as interrup\u00e7\u00f5es absurdas, o tempo dedicado ao correio eletr\u00f4nico&#8230;<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Talvez o foco devesse ser colocado ent\u00e3o na nefasta organiza\u00e7\u00e3o interna nas empresas. Sim. Muitas companhias s\u00e3o especialistas em criar merda interna. Qualquer organiza\u00e7\u00e3o faz isso. E diante da press\u00e3o de criar mais empregos, todas tendem a aumentar sua equipe com postos que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios e criam mais n\u00edveis intermedi\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Voc\u00ea concentra o fogo nos advogados comerciais, mas muitos deles n\u00e3o acham que exercem um trabalho de merda. E, \u00e9 claro, adoram o que ganham.<\/p>\n<p><strong>R.\u00a0<\/strong>Principalmente os que est\u00e3o no topo do\u00a0<em>ranking<\/em>.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Voc\u00ea acredita que a gan\u00e2ncia \u00e9 a \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o dos trabalhos de merda?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0No caso dos advogados comerciais, sim. E depois est\u00e1 a m\u00e1fia, que emprega diretamente o diabo. Mas temos de ser justos. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos criticar quem diz que n\u00e3o poderia desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o que gere benef\u00edcios sociais e ao mesmo tempo pagar o aluguel.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Fomos enganados na escola quando nos disseram que ser\u00edamos melhores se trabalh\u00e1ssemos duro?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Com certeza. Predomina essa ideia de que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma boa pessoa a menos que trabalhe mais do que realmente quer. H\u00e1 estudos sociol\u00f3gicos que concentram a maioria dos valores ocidentais no emprego, mas ao mesmo tempo a maioria das pessoas odeia o que faz.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Lacaios. Capangas. Capatazes. Essas s\u00e3o algumas das categorias que voc\u00ea usa para afirmar que nos pa\u00edses ocidentais, mais que no capitalismo, predomina uma esp\u00e9cie de feudalismo medieval com incont\u00e1veis hierarquias entre propriet\u00e1rios e servidores. Mas talvez estejamos em uma situa\u00e7\u00e3o um pouco melhor do que na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0H\u00e1 vantagens e desvantagens. Entre estas \u00faltimas se destacam os altos n\u00edveis de vigil\u00e2ncia e supervis\u00e3o: elogiam-se aqueles cargos que tomam decis\u00f5es por outros. Sempre se pensou que s\u00f3 as pessoas que fabricam copos deveriam orientar quem fabrica copos: isso gerava certa autonomia. Mas hoje se tende a acreditar no contr\u00e1rio: s\u00f3 os formados nas escolas de neg\u00f3cios podem dirigir qualquer um. Quanto \u00e0s vantagens do nosso tempo, h\u00e1 alguns elementos de democracia, avan\u00e7os cient\u00edficos&#8230;<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Para voc\u00ea, uma receita para mudar o que n\u00e3o funciona seria a renda b\u00e1sica universal, garantida vitaliciamente a todo mundo, de modo que quem quisesse poderia se dedicar \u00e0 poesia ou a ser cantor de rock. Independentemente da viabilidade da proposta e de que todo mundo tivesse talento para ser poeta, talvez nem assim muita gente chegasse a ser feliz.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O que est\u00e1 claro \u00e9 que uma alta porcentagem dos empregados consideram que o que fazem diariamente n\u00e3o serve para nada. Outra coisa s\u00e3o os trabalhos perigosos ou desagrad\u00e1veis, mas necess\u00e1rios, que deveriam ser mais bem pagos. Na grande maioria, aqueles que consideram seu trabalho desnecess\u00e1rio s\u00e3o infelizes. N\u00e3o s\u00f3 no Ocidente. Recebi testemunhos parecidos de muitos lugares do planeta. Talvez dev\u00eassemos ajudar a repensar o significado do dinheiro.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>E h\u00e1 aqueles que adoram o que fazem, mesmo que considerem seu trabalho uma porcaria.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Apenas 6%, segundo os estudos que tenho, est\u00e3o satisfeitos com seu posto, apesar de n\u00e3o encontrarem nenhum prop\u00f3sito naquilo que fazem.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Acredita que s\u00e3o manipulados pelo mercado? Ou pelo 1% que monopoliza a maior parte da riqueza?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o, provavelmente odeiam suas fam\u00edlias. Ou algo parecido. Falando s\u00e9rio: o capitalismo descarrilar\u00e1 mais cedo do que tarde. Acontecer\u00e1 em 30, 40 ou 50 anos. E isso n\u00e3o quer dizer que vir\u00e1 algo melhor. Pode ser algo at\u00e9 mesmo pior.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>Voc\u00ea acha que a vida \u00e9 uma merda?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A vida \u00e9 o contr\u00e1rio. Por isso \u00e9 t\u00e3o absurdo viv\u00ea-la fingindo estar ocupado. O funcion\u00e1rio de uma loja que fica a maior parte do tempo reorganizando prateleiras at\u00e9 que entre um cliente, simplesmente para que seu chefe acredite que ele est\u00e1 ocupado, est\u00e1 transformando seu trabalho em uma merda. \u00c9 um exemplo que vale para qualquer outro \u00e2mbito. Estamos presos em um c\u00edrculo vicioso.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/09\/ciencia\/1515530041_176143.html\" data-link-track-dtm=\"\">Passamos tanto tempo trabalhando duro<\/a>, ou fingindo que batalhamos duro, que n\u00e3o sabemos o que aconteceria se par\u00e1ssemos de fazer isso. Do ponto de vista liberal, sempre se disse que isso geraria mais crime e mais drogados, que as pessoas n\u00e3o saberiam administrar tanto tempo livre. Muito bem, coloquemos as pessoas na pris\u00e3o durante oito horas por dia. Afinal, \u00e9 o mesmo efeito causado pelos empregos desnecess\u00e1rios. Esse \u00e9 um dos motivos do aumento dos casos de depress\u00e3o: \u00e9 contra nossa natureza conviver com a moral que exige que passemos oito horas trabalhando continuamente, independentemente de haver ou n\u00e3o algo a fazer.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/10\/actualidad\/1539173321_857486.html)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quino Petit &#8211; David Graeber, nova-iorquino de 57 anos, \u00e9 um anarquista que d\u00e1 aulas na London School of Economics. Um antrop\u00f3logo outsider\u00a0que compartilha conhecimentos no templo de\u00a0estudos do capitalismo global. 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