{"id":13947,"date":"2020-08-26T19:28:41","date_gmt":"2020-08-26T22:28:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13947"},"modified":"2020-08-25T19:31:41","modified_gmt":"2020-08-25T22:31:41","slug":"dinheiro-por-que-perder-o-medo-de-cria-lo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/08\/26\/dinheiro-por-que-perder-o-medo-de-cria-lo\/","title":{"rendered":"Dinheiro: por que perder o medo de cri\u00e1-lo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Blair Fix <\/strong>&#8211;\u00a0Agora, todos debatem a Teoria Monet\u00e1ria Moderna. Suas bases rompem a cren\u00e7a il\u00f3gica segundo a qual a moeda \u00e9 um bem escasso. Emiti-la \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Se a compreenderem, as sociedades podem libertar-se da ditadura financeira.<\/p>\n<p>Sempre me espantei pelo fato de a Teoria Monet\u00e1ria Moderna (TMM) ser chamada de \u201cteoria\u201d. N\u00e3o fa\u00e7o a afirma\u00e7\u00e3o de forma depreciativa. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias sobre o dinheiro, estou convencida de que a TMM \u00e9 a correta. Mas ter uma teoria adequada sobre o dinheiro \u00e9 como ter uma teoria correta sobre sem\u00e1foros<\/p>\n<p>Os sem\u00e1foros s\u00e3o (como o dinheiro) uma conven\u00e7\u00e3o social. Concordamos que o vermelho significa\u00a0<em>pare\u00a0<\/em>e o verde,\u00a0<em>siga.\u00a0<\/em>A raz\u00e3o pela qual escolhemos estas cores particulares \u00e9 um tema interessante, assim com o \u00e9 a escolha dos lugares onde situamos os sem\u00e1foros. Mas o fato de o vermelho significar\u00a0<em>pare\u00a0<\/em>e o verde\u00a0<em>siga\u00a0<\/em>foi estabelecido. \u00c9 algo que n\u00f3s definimos. Algo similar se passa com o dinheiro. Claro, a moeda \u00e9 mais complexa que os sem\u00e1foros \u2013 mas apenas no que se refere a sua aplica\u00e7\u00e3o. Em termos conceituais, o dinheiro \u00e9 igualmente simples. \u00c9 uma conven\u00e7\u00e3o social cuja exist\u00eancia definimos.<\/p>\n<p>Para organizar nossa discuss\u00e3o sobre dinheiro, vamos come\u00e7ar com o que ele\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9.\u00a0<\/em>O dinheiro n\u00e3o \u00e9 uma\u00a0<em>coisa.\u00a0<\/em>Claro, ele pode assumir formas concretas, como c\u00e9dulas e moedas. Mas n\u00e3o precisa. Pode ser t\u00e3o abstrato como d\u00edgitos numa conta banc\u00e1ria, ou marcas num bast\u00e3o. O dinheiro \u00e9 uma\u00a0<em>ideia.\u00a0<\/em>E um acordo para ligar nossas rela\u00e7\u00f5es sociais a uma unidade de conta. Para entender a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro, basta observar os princ\u00edpios da contabilidade de duplo registro. O d\u00e9bito entra de um lado; o cr\u00e9dito, de outro. Os dois lados g\u00eameos t\u00eam sinais opostos, e portanto cancelam-se mutuamente. Isso nos permite criar dinheiro ao mesmo tempo em que mantemos nossas contas equilibradas.<\/p>\n<p>Eis um exemplo simples. Suponha que um amigo me fa\u00e7a um favor; e que eu queira retribuir, mas n\u00e3o tenha tempo de faz\u00ea-lo de imediato. Suponha ainda que d\u00ea a meu amigo um bilhete dizendo: \u201cBlair te deve um favor\u201d. Este bilhete \u00e9 o<em>\u00a0dinheiro.<\/em>\u00a0\u00c9 criado do nada, usando os princ\u00edpios de contabilidade. De um lado, h\u00e1 um\u00a0<em>d\u00e9bito:<\/em>\u00a0devo a meu amigo um favor. Do outro, um cr\u00e9dito<em>:<\/em>meu amigo pode agora trocar o documento de d\u00edvida que lhe dei com outras pessoas. Temos agora\u00a0<em>dinheiro em circula\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 trivial compreender este ato de cria\u00e7\u00e3o de dinheiro \u2013 tanto quanto compreender a cria\u00e7\u00e3o de um sem\u00e1foro. Assim como definimos as regras de tr\u00e2nsito, fixamos as normas de contabilidade de dupla entrada. E ent\u00e3o, usamos estas regras para regular nosso comportamento, criando dinheiro \u00e0 nossa vontade.<\/p>\n<p>O interessante, contudo, \u00e9 que poucas pessoas n\u00e3o compreendem os sem\u00e1foros. Todos sabemos que podemos coloc\u00e1-los em qualquer lugar que desejemos, e que eles baseiam-se numa conven\u00e7\u00e3o social arbitr\u00e1ria. Contudo, isso n\u00e3o se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro. A grande maioria das pessoas n\u00e3o o compreende. Para elas, n\u00e3o se trata de uma conven\u00e7\u00e3o social arbitr\u00e1ria, que pode ser criada ou destru\u00edda \u00e0 vontade. Em vez disso, enxergam o dinheiro como uma mercadoria escassa \u2013 algo que, como \u00e1gua num deserto, precisa ser guardado e conservado.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o precisamos tanto de uma teoria do dinheiro \u2013 mas de uma teoria sobre por que as pessoas n\u00e3o compreendem o dinheiro.<\/p>\n<p><strong>A obriga\u00e7\u00e3o quantificada<\/strong><\/p>\n<p>Para pensar sobre este assunto, vamos manter em nossa mente a defini\u00e7\u00e3o de dinheiro. O antrop\u00f3logo David Graeber \u00e9 que melhor o define. O dinheiro, ele argumenta, \u00e9 uma\u00a0<em>obriga\u00e7\u00e3o quantificada.\u00a0<\/em>O possuidor de dinheiro est\u00e1 qualificado a receber coisas de outras pessoas (Leia\u00a0<em>D\u00edvida, os primeiros 5000 anos\u00a0<\/em>[em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/david-graeber\/divida-os-primeiros-5-000-anos\/2719376416\">papel<\/a>\u00a0| em\u00a0<a href=\"https:\/\/libcom.org\/files\/__Debt__The_First_5_000_Years.pdf\">pdf<\/a>\u00a0(ingl\u00eas)]<em>,\u00a0<\/em>de sua autoria, para uma explica\u00e7\u00e3o detalhada)<\/p>\n<p>Podemos ver, a partir desta defini\u00e7\u00e3o, que o dinheiro \u00e9 uma ferramenta poderosa. Na verdade, \u00e9 uma ferramenta pra o poder. Se tenho muito dinheiro, posso levar outras pessoas a obedecer meus comandos. \u00c9 um fato sem controv\u00e9rsias. Todos conhecemos o ad\u00e1gio: \u201cdinheiro \u00e9 poder\u201d. Mas por algum motivo nos esquecemos dele, quando pensamos na cria\u00e7\u00e3o do dinheiro. Ele n\u00e3o \u00e9 nada mais que uma obriga\u00e7\u00e3o quantificada. Por isso, em princ\u00edpio, todos podemos cri\u00e1-lo. Mas na pr\u00e1tica, poucas pessoas t\u00eam este poder. O problema \u00e9 que, para o dinheiro circular, as pessoas precisam acreditar que podem us\u00e1-lo para receber uma obriga\u00e7\u00e3o. Eu poderia\u00a0<em>tentar\u00a0<\/em>fazer com que circulasse uma c\u00e9dula dizendo: \u201cBlair te deve um abra\u00e7o\u201d. Mas, al\u00e9m da minha esposa e filha, poucas pessoas querem este documento de d\u00edvida. Por isso, ele nunca circular\u00e1 como dinheiro.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro \u00e9 feita quase exclusivamente pelos poderosos. Livros de Economia sobre o dinheiro usar\u00e3o a palavra \u201cconfian\u00e7a\u201d. Eles dir\u00e3o que o dinheiro pode circular enquanto\u00a0<em>confi<\/em><em>e<\/em><em>mos\u00a0<\/em>no emissor. Isso \u00e9 verdade, mas esconde o lado obscuro da rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a. Quando soldados confiam em seu comandante, \u00e9 prov\u00e1vel que obede\u00e7am ordens. Isso d\u00e1 poder ao comandante. A confian\u00e7a \u00e9, de muitas maneiras, a base do poder. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter rela\u00e7\u00f5es de poder est\u00e1veis sem ela.<\/p>\n<p>Por isso, embora eu pudesse\u00a0<em>tentar\u00a0<\/em>criar dinheiro, poucas pessoas estariam interessadas. Falta-me a confian\u00e7a do p\u00fablico, o que \u00e9 outra maneira de dizer que tenho pouco poder. Mas se o\u00a0<em>Estado\u00a0<\/em>quiser criar dinheiro, muitas pessoas estar\u00e3o interessadas. Muitas pessoas creem no Estado, e \u00e9 por isso que eles t\u00eam poder.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia leg\u00edtima<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 famosa a defini\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Max Weber, segundo a qual o Estado tem o \u201cmonop\u00f3lio do uso leg\u00edtimo da viol\u00eancia\u201d. Penso que poder\u00edamos igualmente definir o Estado como controlador do monop\u00f3lio da cria\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de dinheiro<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/dinheiro-por-que-e-preciso-perder-medo-de-cria-lo\/#sdendnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>. H\u00e1 paralelos muito interessantes, ali\u00e1s, entre a viol\u00eancia e o dinheiro.<\/p>\n<p>Assim como qualquer um pode criar dinheiro, qualquer um pode praticar viol\u00eancia. Voc\u00ea pode sair \u00e0 rua neste exato momento e atirar em algu\u00e9m. Mas a maior parte de n\u00f3s n\u00e3o o faz. Por que? Primeiro, por acharmos que \u00e9 errado. Segundo, porque o Estado pune os assassinos. Em outras palavras, a viol\u00eancia, nas sociedades modernas, \u00e9 altamente regulada. O mesmo \u00e9 verdade em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro. Tecnicamente, qualquer um pode cri\u00e1-lo. Mas poucos de n\u00f3s o fazemos. Seu documento de d\u00edvida pessoal nunca circular\u00e1 amplamente. E se voc\u00ea tentar criar o dinheiro garantido pelo Estado, este ir\u00e1 puni-lo. Assim como a viol\u00eancia, a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro \u00e9 estritamente controlada. Para constatar este fato, basta examinar a linguagem. Temos um nome para o tabu da viol\u00eancia (<em>assassinato)\u00a0<\/em>e um para o tabu da cria\u00e7\u00e3o de dinheiro (<em>falsifica\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n<p>Os que crescemos em sociedades est\u00e1veis acreditamos que tanto a regula\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia quanto a do dinheiro est\u00e3o asseguradas. Esta regula\u00e7\u00e3o passa a ser sentida como uma \u201cordem natural\u201d. Mas se voc\u00ea tivesse nascido num pa\u00eds em guerra, suspeito que pensasse diferente. Voc\u00ea compreenderia que qualquer um pode praticar viol\u00eancia \u2013 com resultados devastadores. E se voc\u00ea vivesse num per\u00edodo de hiperinfla\u00e7\u00e3o, provavelmente compreenderia melhor que qualquer um pode criar dinheiro. (As pessoas tendem a definir sua pr\u00f3pria moeda, quando o dinheiro estatal perde a confian\u00e7a).<\/p>\n<p><strong>Limites ao poder do Estado<\/strong><\/p>\n<p>Uma dos maiores avan\u00e7os da Teoria Monet\u00e1ria Moderna \u00e9 sublinhar que os gastos do Estado n\u00e3o t\u00eam limites. Se os governos controlam sua pr\u00f3pria moeda, eles podem gastar tanto dinheiro quanto queiram, criando moeda do nada. A quest\u00e3o importante n\u00e3o \u00e9 se isso \u00e9 verdade. Trata-se de uma\u00a0<em>verdade trivial,\u00a0<\/em>tanto quando \u00e9 trivialmente verdadeiro que uma luz verde, num sem\u00e1foro, significa\u00a0<em>siga.\u00a0<\/em>Qualquer emissor de dinheiro (o Estado ou outro) pode criar tanto dinheiro quanto queira. A quest\u00e3o importante \u00e9 por que os Estados\u00a0<em>n\u00e3o\u00a0<\/em>gastam volumes ilimitados de dinheiro.<\/p>\n<p>Muitos economistas apontar\u00e3o a infla\u00e7\u00e3o como o vil\u00e3o. Crie muito dinheiro, eles dizem, e voc\u00ea ter\u00e1 hiperinfla\u00e7\u00e3o. Veja o que\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Hyperinflation_in_the_Weimar_Republic\">ocorreu<\/a>\u00a0com a Rep\u00fablica de Weimar. \u00c9 verdade que a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro pode levar \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Mas os proponentes da TMM frisam que h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o simples. Os governos podem\u00a0<em>destruir\u00a0<\/em>dinheiro t\u00e3o facilmente quanto criam. Os gastos governamentais criam dinheiro. A tributa\u00e7\u00e3o o destr\u00f3i. Tamb\u00e9m isso \u00e9 trivialmente verdadeiro. E, no entanto, poucos (se \u00e9 que h\u00e1 algum) governos aceitam este tru\u00edsmo. Na verdade, a maior parte dos governos agem como se o dinheiro, como a \u00e1gua, fosse uma mercadoria escassa. Por que?<\/p>\n<p>A resposta, eu creio, tem a ver com\u00a0<em>poder.\u00a0<\/em>A cria\u00e7\u00e3o de dinheiro \u00e9 insepar\u00e1vel da acumula\u00e7\u00e3o de poder. Eis um exemplo. Suponha que eu sou um rei e reivindico a autoridade exclusiva de criar dinheiro. E suponha que todos, em meu reino, aceitam este direito. Eu crio montanhas de dinheiro e o uso para comprar toda a terra dispon\u00edvel. Eu acabo com a aristocracia fundi\u00e1ria. E ao faz\u00ea-lo, coloco todos os cidad\u00e3os sob meu comando. Todos, na pr\u00e1tica, tornam-se empregados do Estado. \u00c9 o sonho totalit\u00e1rio \u2013 uma sociedade inteira unida sob uma \u00fanica hierarquia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9, claro, fantasia. O problema para um rei real \u00e9 que seus s\u00faditos n\u00e3o aceitar\u00e3o seu direito de criar somas ilimitadas de dinheiro. Haver\u00e1 rea\u00e7\u00f5es, em especial de pessoas poderosas. A aristocracia fundi\u00e1ria, por exemplo, n\u00e3o desejar\u00e1 renunciar a sua terra. Ela ir\u00e1 se opor ao direito do rei de criar dinheiro (ou de destru\u00ed-lo, por meio de impostos). A Hist\u00f3ria demonstra que, ao contr\u00e1rio de serem criadores de moeda soberana, os reis feudais viviam em permanente necessidade de financiamento. \u00c9 apenas outra maneira de dizer que os reis eram relativamente\u00a0<em>fracos.\u00a0<\/em>Faltava-lhes o poder para financiar a si mesmos.<\/p>\n<p>O mesmo \u00e9 v\u00e1lido para os governantes modernos. Como os reis eles podem,\u00a0<em>em princ\u00edpio,\u00a0<\/em>criar tanto dinheiro quanto queira. Mas\u00a0<em>na pr\u00e1tica\u00a0<\/em>eles n\u00e3o o fazem, porque seu poder tem limites. Quando os governos criam dinheiro, eles acumulam poder, o que significa, implicitamente, que tiram poder de outras pessoas, eventualmente poderosas. A aristocracia fundi\u00e1ria n\u00e3o queria ceder o controle de suas terras ao rei. As corpora\u00e7\u00f5es modernas n\u00e3o querem ceder poder ao Estado. \u00c9 exatamente por isso que se op\u00f5em continuamente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de dinheiro pelo governo.<\/p>\n<p>A arbitrariedade do poder<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o sou o primeiro a relacionar a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro com o poder. Por\u00e9m, muitas (provavelmente, a maioria) das pessoas n\u00e3o compreendem o dinheiro. Por que? Uma boa teoria do dinheiro deveria explicar esta incompreens\u00e3o. Por que \u2013 embora seja claramente verdade \u2013 as maiorias recuam diante da ideia de que qualquer um pode criar dinheiro, na quantidade que desejar?<\/p>\n<p>Minha suspeita \u00e9 que aceitar este fato \u00e9 dif\u00edcil porque significa aceitar que nossa ordem social \u00e9\u00a0<em>arbitr\u00e1ria.\u00a0<\/em>Os que criam dinheiro n\u00e3o o fazem a partir de um direito natural, mas devido ao poder que lhes \u00e9 dado arbitrariamente. Nada faz a mente humana recuar tanto quanto descobrir que as coisas que mais prezamos \u2013 os padr\u00f5es e cren\u00e7as que dominam nossas vidas \u2013 s\u00e3o arbitr\u00e1rias.<\/p>\n<p>Isto conduz a uma verdade profunda sobre o comportamento humano. Nossas conven\u00e7\u00f5es s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, arbitr\u00e1rias. E, no entanto, a exist\u00eancia destas conven\u00e7\u00f5es sustenta-se em nossa cren\u00e7a de que\u00a0<em>n\u00e3o\u00a0<\/em>s\u00e3o arbitr\u00e1rias. Uma das piores coisas que \u00e9 poss\u00edvel dizer sobre uma lei \u00e9 que \u00e9 \u201carbitr\u00e1ria\u201d. Conven\u00e7a um n\u00famero suficiente de pessoas desse fato e a lei logo mudar\u00e1. De modo similar, uma das piores coisas que voc\u00ea pode dizer sobre a cria\u00e7\u00e3o de dinheiro \u00e9 que ela \u00e9 \u201carbitr\u00e1ria\u201d. Nossa ordem social depende de que esque\u00e7amos (ou nos recusemos a enxergar) este fato. O lado oculto \u00e9 que\u00a0<em>mudar\u00a0<\/em>a ordem social exige\u00a0<em>lembrar\u00a0<\/em>desta arbitrariedade.<\/p>\n<p><strong>Para aprofundar-se:<\/strong><\/p>\n<p>Galbraith, J. (1975).\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/john-kenneth-galbraith\/o-dinheiro-donde-veio-para-onde-foi\/3683861600\">O Dinheiro: De onde veio, para onde foi<\/a>,\u00a0<\/em>diversas edi\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Graeber, D. (2010).<em><a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/david-graeber\/divida-os-primeiros-5-000-anos\/2719376416\">D\u00ed<\/a><\/em><em><a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/david-graeber\/divida-os-primeiros-5-000-anos\/2719376416\">vida: Os primeiros 5000 anos<\/a>.\u00a0<\/em><em>S\u00e3o Paulo. Tr\u00eas Estrelas<\/em><\/p>\n<p>Robbins, R. H., &amp; Di Muzio, T. (2016).<em><a href=\"https:\/\/www.goodreads.com\/book\/show\/23245517-debt-as-power\">Debt as power<\/a><\/em>. Manchester University Press.<\/p>\n<p>Rowbotham, M. (1998).\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.goodreads.com\/book\/show\/1033699.The_Grip_of_Death\">The grip of death: A study of modern money, debt slavery and destructive economics<\/a><\/em>. Jon Carpenter Publishing.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/dinheiro-por-que-e-preciso-perder-medo-de-cria-lo\/#sdendnote1anc\">1<\/a> J\u00e1 sei das obje\u00e7\u00f5es. Os bancos privados criam dinheiro \u2013 ent\u00e3o, como os governos podem ter o monop\u00f3lio da cria\u00e7\u00e3o leg\u00edtima da moeda? Penso que os bancos s\u00e3o o equivalente \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es que contratam mercen\u00e1rios Elas s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es do setor privado a quem se transferiu o direito de praticar viol\u00eancia. O mesmo se d\u00e1 aos bancos, em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro. Os bancos s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es do setor privado a quem se deu o direito de criar dinheiro. T\u00e3o facilmente como concedeu, o Estado pode tir\u00e1-lo assim que quiser.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/dinheiro-por-que-e-preciso-perder-medo-de-cria-lo\/)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blair Fix &#8211;\u00a0Agora, todos debatem a Teoria Monet\u00e1ria Moderna. Suas bases rompem a cren\u00e7a il\u00f3gica segundo a qual a moeda \u00e9 um bem escasso. Emiti-la \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Se a compreenderem, as sociedades podem libertar-se da ditadura financeira. Sempre me espantei pelo fato de a Teoria Monet\u00e1ria Moderna (TMM) ser chamada de \u201cteoria\u201d. 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