{"id":13901,"date":"2020-08-16T12:44:18","date_gmt":"2020-08-16T15:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13901"},"modified":"2020-08-15T12:46:24","modified_gmt":"2020-08-15T15:46:24","slug":"preparados-para-o-mundo-pos-petroleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/08\/16\/preparados-para-o-mundo-pos-petroleo\/","title":{"rendered":"Preparados para o mundo p\u00f3s-petr\u00f3leo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nafeez Ahmed<\/strong> &#8211;\u00a0Cada vez menos eficiente, ind\u00fastria petroleira sustenta-se gra\u00e7as a simbiose com os cassinos financeiros. Alternativas enfrentar\u00e3o resist\u00eancia feroz: estar\u00e1 em xeque a mesma l\u00f3gica de infinitude que sustenta o capitalismo.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria, os pre\u00e7os do petr\u00f3leo foram para abaixo de zero, h\u00e1 algumas semanas. A crise \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia direta da queda s\u00fabita da demanda econ\u00f4mica, dado que o mundo parou com a pandemia de Covid-19. Mas, considerando que nossos problemas econ\u00f4micos ir\u00e3o se estender por muitos anos, este pode muito bem ser o come\u00e7o do fim da era do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A crise mundial do petr\u00f3leo est\u00e1 escancarando as vulnerabilidades estruturais do sistema de energia de hidrocarbonetos \u2014 e da civiliza\u00e7\u00e3o industrial \u2014 que as petrol\u00edferas internacionais esconderam por d\u00e9cadas. H\u00e1 sete anos,\u00a0<a href=\"https:\/\/mondediplo.com\/2013\/03\/09Gaz\">descrevi com detalhes<\/a>\u00a0algumas dessas vulnerabilidades estruturais. Avisei: \u201cA revolu\u00e7\u00e3o do g\u00e1s de xisto tinha como objetivo trazer uma prosperidade duradoura. Mas o resultado dessa abund\u00e2ncia de g\u00e1s pode n\u00e3o passar de uma bolha, produzindo apenas uma recupera\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria que mascara uma profunda instabilidade estrutural\u201d.<\/p>\n<p>A pandemia desmascarou a insustent\u00e1vel economia de bolha por tr\u00e1s do boom do xisto, revelando um setor sem resili\u00eancia e inflado a partir de n\u00edveis de d\u00edvida irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>O conceito cient\u00edfico mais importante para compreendermos tudo isso \u00e9 o do Retorno Sobre o Investimento em Energia (ou EROI \u2013\u00a0<em>Energy Return on Investment\u00a0<\/em>\u2013 na sigla em ingl\u00eas). A m\u00e9trica, pioneira, desenvolvida por um ecologista de sistemas, orofessor Charles Hall da Faculdade de Ci\u00eancias Ambientais e Florestais da Universidade Estadual de Nova York, \u00e9 a base da emergente disciplina de \u201ceconomia biof\u00edsica\u201d.<\/p>\n<p>O EROI mede quanta energia \u00e9 necess\u00e1ria para extrair energia de uma fonte espec\u00edfica. O que resta \u00e9 conhecido como um excedente de \u201d\u2019energia l\u00edquida\u201d, que podemos usar em bens e servi\u00e7os da economia fora do sistema energ\u00e9tico. Quanto maior a propor\u00e7\u00e3o, mais energia excedente resta para a economia. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, esse excedente ficou cada vez menor.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o EROI de combust\u00edveis f\u00f3sseis chegava, \u00e0s vezes, a 100:1. Isso significa que uma \u00fanica unidade de energia era suficiente para extrair cem vezes essa quantidade. Mas, desde ent\u00e3o, o EROI de combust\u00edveis f\u00f3sseis tem se\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0921800915303815\">reduzido drasticamente<\/a>. Entre 1960 e 1980, o valor m\u00e9dio mundial de EROI para combust\u00edveis f\u00f3sseis\u00a0<a href=\"https:\/\/booksandjournals.brillonline.com\/content\/journals\/10.1163\/15691497-12341389\">diminuiu mais da metade<\/a>, de cerca de 35:1 para 15:1. E\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedaily.com\/releases\/2019\/07\/190711114846.htm\">segue em decl\u00ednio<\/a>, com as estimativas mais recentes colocando o valor entre 6:1 e 3:1.<\/p>\n<p>Usamos cada vez mais energia s\u00f3 para extrair energia de nossa base de recursos. Assim, ficamos com menos \u201cenergia l\u00edquida\u201d para fornecer aos bens e servi\u00e7os p\u00fablicos. Isso tem atuado como um\u00a0<a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/pdf\/10.1098\/rsta.2013.0126\">\u201cfreio\u201d de fundo<\/a>\u00a0para a taxa de crescimento das economias mundiais industriais avan\u00e7adas, que<a href=\"https:\/\/www.vice.com\/en_us\/article\/bmva9m\/trump-energy-plans-no-economic-growth\">\u00a0tamb\u00e9m diminui<\/a>\u00a0desde a d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>De acordo com o professor Mauro Bonaiuti, economista da Universidade de Turim, na It\u00e1lia, a economia do mainstream\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vice.com\/en_us\/article\/gvykjb\/endless-growth-part-1\">fracassou na explica\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0desses fundamentos \u201cbiof\u00edsicos\u201d da economia: os fluxos de materiais dependem da energia. Ele argumenta que desde a d\u00e9cada de 1970, as sociedades industriais est\u00e3o numa \u201cfase de retornos decrescentes\u201d \u2014 o que \u00e9 sinalizado pelas queda das taxas de crescimento do PIB, do EROI, da produtividade do trabalho e da ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Bonaiuti argumenta que, para compensar o d\u00e9ficit, as economias passaram a crescer com base em n\u00edveis de d\u00edvida cada vez maiores. Ap\u00f3s o colapso financeiro de 2008, um enorme programa de flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa (QE) elevou a d\u00edvida global para n\u00edveis maiores do que aqueles anteriores ao colapso \u2014 sustentando, apesar disso, um n\u00edvel de crescimento do PIB muito mais lento.<\/p>\n<p>Mas a escala da d\u00edvida que mant\u00e9m a m\u00e1quina industrial em movimento supera em muito nossa base de recursos energ\u00e9ticos. Em algum momento, ele alertou, este auge insustent\u00e1vel estava fadado a ser interrompido.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica tornou a economia do petr\u00f3leo particularmente insustent\u00e1vel. Em 2005, a produ\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo convencional entrou\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s11708-016-0416-8\">em um longo plat\u00f4<\/a>. Para atender \u00e0 crescente demanda econ\u00f4mica, a ind\u00fastria mudou para formas n\u00e3o convencionais do combust\u00edvel, mais caras. Desde ent\u00e3o, o xisto dos EUA foi respons\u00e1vel por cerca de 71,4% do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iea.org\/news\/united-states-to-lead-global-oil-supply-growth-while-no-peak-in-oil-demand-in-sight\">crescimento da oferta global de petr\u00f3leo<\/a>.<\/p>\n<p>Em fevereiro, quando grande parte do planeta mergulhava na pandemia de Covid-19, o Geological Survey of Finland \u2014 uma ag\u00eancia governamental finlandesa que supervisiona a modelagem de recursos minerais da UE \u2014<a href=\"https:\/\/www.vice.com\/en_ca\/article\/8848g5\/government-agency-warns-global-oil-industry-is-on-the-brink-of-a-meltdown\">\u00a0publicou<\/a>\u00a0um estudo abrangente. Ele confirmava meu aviso de que essa t\u00e3o elogiada expans\u00e3o era, na realidade, uma \u201cbolha\u201d impulsionada por d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Embora exista \u201cbastante petr\u00f3leo\u201d, \u00e9 \u201ccada vez mais caro acess\u00e1-lo\u201d, alertou o relat\u00f3rio. A produ\u00e7\u00e3o recorde de \u00f3leo de xisto teve custos elevados e quedas na produtividade dos po\u00e7os. A maioria das empresas de petr\u00f3leo de xisto enfrentava um fluxo de caixa negativo, compensado pelo saque de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em d\u00edvidas impag\u00e1veis.<\/p>\n<p>A pandemia foi a agulha que estourou essa bolha do petr\u00f3leo. E pode ser um caminho sem volta.<\/p>\n<p>Umas das raz\u00f5es \u00e9 que a queda na demanda provavelmente durar\u00e1 mais do que um ano. Os mais otimistas antecipam que uma vacina possa ser desenvolvida dentro de 18 meses, mas essa estimativa n\u00e3o leva em conta os obst\u00e1culos regulat\u00f3rios que geralmente envolvem o desenvolvimento de uma vacina: um processo complexo que pode durar de 10 a 15 anos. Portanto,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.businessinsider.com\/coronavirus-vaccine-probably-wont-ready-before-end-2021-roche-2020-4?r=US&amp;IR=T\">\u00e9 prov\u00e1vel<\/a>\u00a0que a vacina esteja a v\u00e1rios anos de dist\u00e2ncia \u2014 se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel. De acordo com o professor David States, bi\u00f3logo de sistemas, existem muitas raz\u00f5es para que\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/statesdj\/status\/1252698777296797698\">isso n\u00e3o ocorra<\/a>.<\/p>\n<p>Significa que o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel ser\u00e1 o de uma contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica prolongada, com demanda muito baixa para a ind\u00fastria global de petr\u00f3leo sobreviver. Antes da pandemia, v\u00e1rios analistas suspeitavam que os n\u00edveis de d\u00edvida da ind\u00fastria de xisto dos EUA eram praticamente insustent\u00e1veis. Agora parece plaus\u00edvel que a d\u00edvida nunca possa ser paga.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o mais usual \u00e9 que estamos nos afogando em petr\u00f3leo barato. Temos tanto petr\u00f3leo, que n\u00e3o temos nem onde guard\u00e1-lo. Embora marginalmente verdadeira, essa vis\u00e3o falha em reconhecer que a din\u00e2mica da crise est\u00e1 enraizada nas profundas restri\u00e7\u00f5es \u201cbiof\u00edsicas\u201d que surgiram na transi\u00e7\u00e3o para formas de extrair energia de combust\u00edveis f\u00f3sseis que s\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, muito mais caras e dif\u00edceis que antes. E \u00e9 por isso que muitos especialistas n\u00e3o percebem que o \u201cexcesso de petr\u00f3leo\u201d atual \u00e9 a ante-sala de uma crise de fornecimento sem precedentes. Agora, as companhias de petr\u00f3leo est\u00e3o numa sinuca de bico.<\/p>\n<p>Se continuarem bombeando, o pre\u00e7o cair\u00e1 ainda mais, \u00e0 medida em que a demanda continue fraca e a ind\u00fastria seja for\u00e7ada a ter de pagar mais do que o pre\u00e7o de mercado, s\u00f3 para armazenar o petr\u00f3leo. Esta din\u00e2mica pode desencadear uma s\u00e9rie de inadimpl\u00eancias e fal\u00eancias em todo o setor.<\/p>\n<p>E n\u00e3o podem parar de bombear, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ligar e desligar os po\u00e7os de petr\u00f3leo como se fosse uma torneira. Como esses po\u00e7os s\u00e3o dep\u00f3sitos org\u00e2nicos, que precisam de press\u00e3o para a extra\u00e7\u00e3o, um desligamento prolongado traz o risco de gerar danos enormes \u2014 e de car\u00edssima repara\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e0s reservas.<\/p>\n<p>Em qualquer cen\u00e1rio, no momento em que o mundo estiver se recuperando da crise do Covid-19, a ind\u00fastria do petr\u00f3leo ser\u00e1 dizimada como nunca antes. Entre os perdedores imediatos estar\u00e1 o setor de xisto dos EUA. Mas grandes produtores, como Ar\u00e1bia Saudita e R\u00fassia, tamb\u00e9m permanecer\u00e3o na linha de fogo, enfrentando a perspectiva de hemorragias nas receitas do Estado em poucos meses.<\/p>\n<p>Em um mundo p\u00f3s-Covid-19, o ressurgimento da demanda econ\u00f4mica, tendo uma ind\u00fastria petrol\u00edfera permanentemente dizimada, provavelmente vai levar a novos aumentos de pre\u00e7os. O excesso de petr\u00f3leo est\u00e1 abrindo caminho para uma longa era de escassez do mesmo, da qual pode n\u00e3o haver recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Abhi Rajendran, do Centro de Pol\u00edtica Global de Energia da Universidade de Columbia,\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ARaj_Energy\/status\/1236294746198413312\">apontou<\/a>: um \u201cresgate\u201d financeiro n\u00e3o consegue resolver os problemas do setor. Qualquer apoio \u00e0 ind\u00fastria deve ser aperfei\u00e7oado para proteger as cadeias de suprimentos imediatas, e reabilitado para fornecer produtos petroqu\u00edmicos e outros servi\u00e7os industriais importantes na era p\u00f3s-carbono.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas uma quest\u00e3o de tempo para o terremoto que atingiu a ind\u00fastria petrol\u00edfera reverberar no sistema global. Nos pr\u00f3ximos meses e anos, o colapso da ind\u00fastria petrol\u00edfera internacional representar\u00e1 um risco crescente para as cadeias cr\u00edticas de suprimentos, subjacentes aos fluxos de energia, transporte, manufatura e atividades de produ\u00e7\u00e3o de alimentos de todas as sociedades. Os postos de gasolina j\u00e1 est\u00e3o se vendo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thisismoney.co.uk\/money\/cars\/article-8174153\/Petrol-stations-close-impact-Covid-19.html\">for\u00e7ados a fechar<\/a>, \u00e0 medida que as vendas de combust\u00edveis diminuem. Assim, colocam em risco as redes de transporte e as cadeias cr\u00edticas de suprimentos. O sistema global de alimentos industriais, que \u00e9 fundamentalmente dependente dos insumos de petr\u00f3leo em todos os pontos \u2014 fertilizantes, pesticidas, m\u00e1quinas agr\u00edcolas, processamento, embalagem, transporte e distribui\u00e7\u00e3o \u2014 enfrentaria uma tens\u00e3o sem precedentes. Os principais processos de minera\u00e7\u00e3o e fabrica\u00e7\u00e3o, que sustentam a ind\u00fastria tal como a conhecemos, podem acabar batendo no muro.<\/p>\n<p>Os governos de cada pa\u00eds e as institui\u00e7\u00f5es internacionais, atualmente, n\u00e3o est\u00e3o preparados para os poss\u00edveis impactos, porque n\u00e3o s\u00e3o projetados para antecipar ou responder a riscos complexos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que precisamos urgentemente de duas respostas: uma abordagem de \u201ceconomia de salva-vidas\u201d, arquitetada para mitigar riscos imediatos; e uma transi\u00e7\u00e3o de longo prazo para bases econ\u00f4micas sustent\u00e1veis e resistentes, com base num paradigma energ\u00e9tico fundamentalmente diferente.<\/p>\n<p>No meio desta crise in\u00e9dita, enfrentamos uma oportunidade \u00fanica de fazer a transi\u00e7\u00e3o para um paradigma civilizacional regenerativo, que pare de violar as fronteiras ambientais \u2014 pelo menos da forma como vinha fazendo, em que era inevit\u00e1vel o surgimento de pandemias como essa.<\/p>\n<p>Potencialmente, \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma. Mas se trata simplesmente de saber se ser\u00e1 \u201ccerta\u201d, \u201c\u2019boa\u201d ou \u201cmelhor\u201d. Uma mudan\u00e7a de paradigma que reconhe\u00e7a como estamos realmente interconectados e incorporados nos fluxos de energia do meio-ambiente \u00e9 absolutamente cr\u00edtica para a sobreviv\u00eancia cont\u00ednua da civiliza\u00e7\u00e3o humana .<\/p>\n<p>Embora ainda exista certa resist\u00eancia a essa mudan\u00e7a de paradigma, vozes em todo o mundo est\u00e3o despertando, mesmo em lugares inesperados. \u201cIndependentemente de como vamos encarar, essa pandemia e crise exigem uma transforma\u00e7\u00e3o in\u00e9dita da economia\u201d, diz Vinod Sekhar, presidente e diretor executivo do\u00a0<em>The Petra Group<\/em>, um conglomerado de meio ambiente e biotecnologia. Sekhar, que aparece na lista de mais ricos da Forbes na \u00c1sia, criou recentemente o Good Capitalism Forum para promover \u201cneg\u00f3cios respons\u00e1veis\u201d. Ele me disse: \u201cPrecisamos de uma forma mais verdadeira de capitalismo, baseada n\u00e3o apenas no lucro privado, mas dedicada ao prop\u00f3sito social e ao bem p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p>Eu perguntei a ele se esse paradigma ainda poderia ser chamado de \u201ccapitalismo\u201d. A resposta de Sekhar foi que algumas das melhores inova\u00e7\u00f5es ainda est\u00e3o acontecendo no setor privado \u2014 o desafio \u00e9 garantir que os benef\u00edcios cheguem at\u00e9 a sociedade, em vez de serem dominados por uma rede cada vez mais estreita, entre as elites. \u201cPrecisamos de uma abordagem que proteja as fronteiras planet\u00e1rias, e n\u00e3o que as ignore para ganhar dinheiro. Hoje, essa \u00e9 a miss\u00e3o urgente dos nossos tempos\u201d, disse ele. \u201c\u00c9 preciso entender que, para criar riqueza, precisamos elevar a sociedade como um todo. Todos os l\u00edderes empresariais que queiram continuar relevantes \u2014 e sobreviver \u2014 devem estar atentos a isso. O mundo mudou permanentemente e a ordem econ\u00f4mica deve mudar com ele. \u00c9 um fato que devemos aceitar.\u201d<\/p>\n<p>De certa forma, os ingredientes dessa mudan\u00e7a de paradigma j\u00e1 est\u00e3o em andamento \u2014 at\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo neoliberal. Apesar dos n\u00edveis alarmantes de mentiras e incompet\u00eancia, vimos tamb\u00e9m esfor\u00e7os surpreendentes das autoridades norte-americanas e brit\u00e2nicas para proteger pessoas vulner\u00e1veis em v\u00e1rios aspectos. Mas \u00e9 importante lembrar que estamos apenas nos est\u00e1gios iniciais do que deve vir a ser um grande processo de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, profunda e abrangente.<\/p>\n<p>Pela primeira vez em d\u00e9cadas, esse pensamento radical est\u00e1 se tornando o sustent\u00e1culo de partidos pol\u00edticos s\u00e9rios. Conversei com o parlamentar do Partido Trabalhista, Sam Tarry \u2014 secret\u00e1rio parlamentar particular (PPS, na sigla em ingl\u00eas) do secret\u00e1rio-sombra de Estado para neg\u00f3cios, energia e estrat\u00e9gia industrial \u2014 a respeito de suas opini\u00f5es sobre a crise energ\u00e9tica global.<\/p>\n<p>\u201cO colapso do mercado de petr\u00f3leo \u00e9 talvez o maior sinal de que as empresas como s\u00e3o hoje simplesmente n\u00e3o poder\u00e3o permanecer\u201d, ele disse. \u201cIsso levanta a seguinte quest\u00e3o: e se tiv\u00e9ssemos nos livrado da depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis muito antes? E se nossas sociedades tivessem feito um progresso muito maior na transi\u00e7\u00e3o para uma nova infraestrutura de energia renov\u00e1vel, criando redes de transporte novas e limpas, em que fam\u00edlias e empresas produzem e compartilham energia? E se tiv\u00e9ssemos criado novos hubs de agricultura local e org\u00e2nica, reduzindo nossa depend\u00eancia nas redes de cadeias abastecimento tradicionais? Ter\u00edamos um pa\u00eds muito mais resistente a essa crise. Ao menos, ent\u00e3o, essa crise deveria nos estimular \u00e0 constru\u00e7\u00e3o o mais r\u00e1pido poss\u00edvel de uma sociedade muito mais resiliente.\u201d<\/p>\n<p>Tarry acertou no alvo. Simplesmente n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder. N\u00e3o precisamos apenas mudar rapidamente para uma novo sistema energ\u00e9tico respons\u00e1vel. Precisamos tamb\u00e9m reconhecer que faz\u00ea-lo significar\u00e1 o fim do paradigma de \u201ccrescimento infinito\u201d que nos quebrou as pernas nesta pandemia. Apesar de anos de aleras de cientistas, sobre como a expans\u00e3o industrial estava\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC4663196\/\">ampliando o risco<\/a>\u00a0de que doen\u00e7as ex\u00f3ticas saltassem para o ser humano, devido a nossa invas\u00e3o dos sistemas selvagens, prosseguimos em desleixo.<\/p>\n<p>Isso significa que pacotes de est\u00edmulo global lan\u00e7ados para sustentar trabalhadores, empresas, ind\u00fastrias, redes de fornecimento e afins precisam ir al\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Precisam facilitar uma reorganiza\u00e7\u00e3o de longo prazo de nossas economias, de forma que sua fun\u00e7\u00e3o seja apoiar a vida, e n\u00e3o simplesmente maximizar a produ\u00e7\u00e3o de materiais alimentados por combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Significa que temos que levar a s\u00e9rio a vis\u00e3o da resili\u00eancia adaptativa destacada por Tarry de imaginar uma transforma\u00e7\u00e3o abrangente de nossas estruturas sociais e econ\u00f4micas. A agricultura industrial precisar\u00e1 urgentemente tornar-se menos dependente de petr\u00f3leo para produ\u00e7\u00e3o, transporte e distribui\u00e7\u00e3o. Precisaremos de m\u00e9todos org\u00e2nicos agroecol\u00f3gicos, bem como nos reciclar segundo a \u201ceconomia circular\u201d \u2014 que prop\u00f5e que minerais e mat\u00e9rias primas fornecidos localmente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisamos considerar a necessidade de mais medidas mitigadoras imediatas. No momento em que a infraestrutura de fornecimento de petr\u00f3leo tradicional desaba, devido \u00e0 queda livre das vendas de combust\u00edvel, h\u00e1 combust\u00edveis alternativos para construir uma transi\u00e7\u00e3o urgente. Uma fonte em potencial de biocombust\u00edveis limpos para esse prop\u00f3sito est\u00e1 na Mal\u00e1sia, onde o governo criou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theparliamentmagazine.eu\/articles\/partner_article\/why-coronavirus-means-eu-must-suspend-its-palm-oil-ban\">regulamenta\u00e7\u00e3o nacional obrigat\u00f3ria<\/a>\u00a0para apoiar a produ\u00e7\u00e3o de \u00f3leo de palma 100% livre de desmatamento.<\/p>\n<p>Em novembro de 2018, o novo governo malasiano finalmente chegou ao poder e fez essa declara\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia \u2014 meses depois de a Uni\u00e3o Europeia escolher banir o \u00f3leo de palma para o biodiesel por motivos ambientais, em uma medida inovadora mas mal-concebida, que minou os esfor\u00e7os nascentes da Mal\u00e1sia.<\/p>\n<p>Claro, a iniciativa ainda pode ser muito aperfei\u00e7oada, mas uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41893-020-0487-8\">nova pesquisa<\/a>\u00a0prova que apenas banir e boicotar desloca o problema do desmatamento e leva \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0que usam mais intensivivamente do solo, como a soja e a colza (que por acaso s\u00e3o produzidas pelo ocidente). Uma nova parceria, aqui, poderia oferecer uma transi\u00e7\u00e3o para uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scidev.net\/global\/climate-change\/opinion\/only-ecology-based-economies-can-avoid-future-catastrophe.html?__cf_chl_jschl_tk__=dd016320ec347205789049d2b5f838dbc85e85d5-1587559619-0-AXdPFd0jDaOAmqyz2NAXkywlrE8YMJIVjkzZ33JzRHOyQBEsJuEp1HeOH\">revolu\u00e7\u00e3o do transporte limpo<\/a>, precisamente no momento em que as redes tradicionais de distribui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo est\u00e3o em risco crescente.<\/p>\n<p>Esse tipo de nivelamento do campo de batalha entre o Oriente e o Ocidente pode pavimentar o caminho a uma parceria hist\u00f3rica mais ampla entre o Norte e o Sul, para finalmente romper as desigualdades globais estruturais que definem a maneira injusta com que o sistema global extrai riqueza do mundo \u201cem desenvolvimento\u201d. Esses s\u00e3o os pa\u00edses mais vulner\u00e1veis \u00e0 pandemia \u2014 que enfrentam uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.washingtonexaminer.com\/opinion\/op-eds\/unless-canceled-africas-debt-burden-will-cause-covid-19-to-kill-millions\">dura e terr\u00edvel escolha<\/a>\u00a0entre um v\u00edrus que poder\u00e1 matar milh\u00f5es com o descontrole da doen\u00e7a, e os isolamentos sociais que podem matar milh\u00f5es por impedir a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 empobrecida e sem seguran\u00e7a alimentar de ter acesso ao trabalho, alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e1gua.<\/p>\n<p>Isso requer desmantelar estruturas globais de d\u00edvida, dominadas por institui\u00e7\u00f5es financeiras, bancos e governos ocidentais. E isso tamb\u00e9m significa aplainar o campo de batalha de modo a abrir novas oportunidades para o Sul e o Norte trabalharem juntos para enfrentar a crise. Por exemplo, ao inv\u00e9s de permitir que milh\u00f5es de trabalhadores da ind\u00fastria indument\u00e1ria, de todas as partes da \u00c1sia, pere\u00e7am, enquanto redes de varejo cortam sua produ\u00e7\u00e3o, os governos ocidentais poderiam rapidamente resolver suas defici\u00eancias dom\u00e9sticas de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPIs) encomendando em massa daqueles fornecedores, e pagando a eles sal\u00e1rios justos.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as estruturais sugeridas aqui s\u00e3o apenas a ponta do iceberg. Muitas delas parecem apenas desejos. Mas a cat\u00e1strofe global dos mercados de petr\u00f3leo \u00e9 um sinal enorme de que alcan\u00e7amos um novo ponto de inflex\u00e3o civilizacional, com uma li\u00e7\u00e3o central: se n\u00e3o mudarmos o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para um novo sistema que tenha, como orienta\u00e7\u00e3o fundamental, a prote\u00e7\u00e3o e o florescimento da vida, as sociedades humanas correm riscos num n\u00edvel pouco conceb\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento de enfrentar o fato de que a pandemia de covid-19 nos obriga a deixar a era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/preparados-para-o-mundo-pos-petroleo\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nafeez Ahmed &#8211;\u00a0Cada vez menos eficiente, ind\u00fastria petroleira sustenta-se gra\u00e7as a simbiose com os cassinos financeiros. 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