{"id":13878,"date":"2020-08-10T12:44:41","date_gmt":"2020-08-10T15:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13878"},"modified":"2020-08-09T12:45:57","modified_gmt":"2020-08-09T15:45:57","slug":"financeirizacao-nova-ordem-economica-e-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/08\/10\/financeirizacao-nova-ordem-economica-e-social\/","title":{"rendered":"Financeiriza\u00e7\u00e3o: Nova Ordem Econ\u00f4mica e Social"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor &#8211;\u00a0<\/strong>O mundo est\u00e1 mudando rapidamente, tendo como eixos principais de transforma\u00e7\u00e3o o aprofundamento das desigualdades, a cat\u00e1strofe ambiental, o caos financeiro e a desarticula\u00e7\u00e3o dos sistemas democr\u00e1ticos. No meio disso, as pessoas, as comunidades, as cidades e as na\u00e7\u00f5es buscam formas de resgatar as r\u00e9deas do processo, tentando sobreviver e se organizar num contexto cuja din\u00e2mica lhes escapa. \u201c<em>No sabemos lo que pasa<\/em>\u201d, escreveu Ortega y Gasset, \u201c<em>y es exactamente eso lo que pasa<\/em>\u201d, caracteriza\u00e7\u00e3o feliz da nossa realidade.<\/p>\n<p>O dinheiro, at\u00e9 h\u00e1 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s, era essencialmente constitu\u00eddo por notas e moedas impressas e cunhadas pelos governos, fazia parte de um privil\u00e9gio essencial do poder p\u00fablico e permitia interven\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o social, com profundas deforma\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m garantindo certo equil\u00edbrio e, por vezes, sucessos impressionantes. Hoje o dinheiro \u00e9 essencialmente emitido por bancos, sob forma de cr\u00e9dito e outros instrumentos financeiros, levando a uma profunda eros\u00e3o do poder racionalizador das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. O resultado \u00e9 um aprofundamento da desigualdade em geral.<\/p>\n<p>O aprofundamento da desigualdade nas \u00faltimas d\u00e9cadas, no plano internacional, no interior dos pa\u00edses e nos espa\u00e7os urbanos, est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o. Nesta era em que mais de 90% do dinheiro circula sob forma de sinais magn\u00e9ticos, simples registros nos computadores, portanto dinheiro imaterial, controlado por in\u00fameros intermedi\u00e1rios financeiros, generalizaram-se pr\u00e1ticas especulativas. Sempre existiram, sem d\u00favida, mas adquiriram hoje dimens\u00f5es radicalmente mais amplas. Hoje o 1% dos mais ricos tem mais riqueza acumulada do que os 99% seguintes. Essa desigualdade aberrante impactou todas as nossas atividades, e os filmes que aqui comentamos mostram diversas facetas e diversos setores, exerc\u00edcio que pode ser mais instrutivo do que teorias gerais sobre o capitalismo moderno.<\/p>\n<p>Em boa parte, as fortunas dos mais ricos s\u00e3o investidas em especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Esse \u00e9 precisamente o tema do filme\u00a0<em>Push: Ordem de Despejo<\/em>, que mostra os mecanismos especulativos, a desarticula\u00e7\u00e3o ou apropria\u00e7\u00e3o dos sistemas p\u00fablicos, bem como a crescente dificuldade, para a massa da popula\u00e7\u00e3o, de acesso a um direito humano b\u00e1sico: o direito \u00e0 moradia. O solo urbano n\u00e3o foi criado pelas empresas que com ele especulam. E a sua valoriza\u00e7\u00e3o resulta dominantemente da pr\u00f3pria aglomera\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os restritos: controlar o acesso permite gerar imensas fortunas, sem precisar contribuir significativamente com investimentos. Empresas produtivas, caracter\u00edsticas do capitalismo tradicional, produzem bens ou servi\u00e7os, gerando lucros, mas tamb\u00e9m empregos e impostos. Exploram os trabalhadores pelo sal\u00e1rio, mas s\u00e3o produtivas. O controle sobre o solo urbano gera renta* sem o correspondente aporte produtivo, ganhos especulativos, que temos caracterizado tamb\u00e9m como economia de ped\u00e1gio.<\/p>\n<p>O exemplo da Blackstone, cujo funcionamento na \u00e1rea da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria \u00e9 amplamente detalhado no filme, ajuda muito na compreens\u00e3o de como urbaniza\u00e7\u00e3o, desigualdade e financeiriza\u00e7\u00e3o geraram novas din\u00e2micas econ\u00f4micas e sociais nas nossas cidades. Fundada por dois ex-diretores do Lehman Brothers, um gigante banc\u00e1rio que faliu em 2008, a Blackstone se especializa em compra e venda de empresas e diversas atividades especulativas e criou uma diretoria de \u2018real estate\u2019, centrada em atividades imobili\u00e1rias. Basicamente, trata-se de adquirir solo urbano, habita\u00e7\u00f5es, terras de periferias, e ganhar com a sua valoriza\u00e7\u00e3o. Trabalham em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>O impressionante \u00e9 a escala das atividades. O universo imobili\u00e1rio sobre o qual a Blackstone e empresas semelhantes atuam representa um valor da ordem de 163 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, o dobro do PIB mundial, que se situa em torno de 80 trilh\u00f5es. Tipicamente adquirem uma empresa que gere um condom\u00ednio imobili\u00e1rio, suspendem toda atividade de manuten\u00e7\u00e3o, geram ativamente problemas aos residentes, em particular por meio de aumento radical dos alugu\u00e9is, at\u00e9 que boa parte dos residentes se mude, permitindo a requalifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o para residentes de alta renda. Vizinhan\u00e7a rica j\u00e1 por si aumenta o valor do metro quadrado. O controle de pol\u00edticos locais \u00e9 essencial, gerando um clima de corrup\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Tal como\u00a0<em>Push: Ordem de Despejo<\/em>\u00a0mostra o poder dos mecanismos especulativos modernos sobre um bem comum que \u00e9 o solo urbano, outro filme,\u00a0<em>Os Senhores da \u00c1gua<\/em>, acompanha as mesmas deforma\u00e7\u00f5es por outro prisma, o do acesso ao bem comum que constitui a \u00e1gua. J\u00e1 foi um bem de livre acesso, mas hoje, com 7,8 bilh\u00f5es de habitantes, uso descontrolado na agricultura e na ind\u00fastria e polui\u00e7\u00e3o generalizada por uso irrespons\u00e1vel de produtos qu\u00edmicos, al\u00e9m dos esgotos que correm soltos, a \u00e1gua doce e limpa est\u00e1 se tornando escassa, e j\u00e1 \u00e9 chamada de \u201couro azul\u201d, em paralelo com o \u201couro negro\u201d, que \u00e9 o petr\u00f3leo. A escassez, em termos de mercado capitalista, \u00e9 um achado: quanto mais escasso o bem, mais valor adquire. Isso levou a uma onda de privatiza\u00e7\u00f5es e aos processos especulativos correspondentes, amplamente detalhados no document\u00e1rio.<\/p>\n<p>A \u00e1gua virou\u00a0<em>commodity<\/em>. Os \u2018megalitros\u2019, correspondentes a um milh\u00e3o de litros na terminologia das bolsas, s\u00e3o, por exemplo, cotados a 700 d\u00f3lares e vendidos e revendidos nos mercados de futuro: esperto o banco ou fundo financeiro que previu uma seca e comprou op\u00e7\u00f5es sobre um monte de megalitros, prevendo que a \u00e1gua se tornar\u00e1 mais cara. N\u00e3o precisa entender nada de \u00e1gua, nem a que serve, e sim entender de varia\u00e7\u00f5es na bolsa. \u00c9 o que o filme descreve como \u201c<em>financial takeover<\/em>\u201d, literalmente tomada de controle dos mercados financeiros sobre o que consider\u00e1vamos tamb\u00e9m, ao igual da moradia, um direito humano. Tal como a escassez de solo urbano permite o rentismo sobre a valoriza\u00e7\u00e3o da moradia, para gigantes mundiais como Veolia ou Lyonnaise des Eaux a \u00e1gua se torna um produto de valor crescente. O objetivo n\u00e3o \u00e9 necessariamente a facilidade de acesso dos usu\u00e1rios, e sim a maximiza\u00e7\u00e3o dos dividendos, e, portanto, da renta dos donos de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O caso n\u00e3o \u00e9 simples, e nem o filme simplifica. A gratuidade da \u00e1gua leva a um desperd\u00edcio generalizado, e colocar um pre\u00e7o constitui um modo de levar os usu\u00e1rios a pensarem duas vezes antes de abrir a torneira. Em compensa\u00e7\u00e3o, as empresas rurais ou industriais preferem jogar os res\u00edduos nos rios e nos lagos, sai mais barato do que instalar filtros ou reutilizar. Um fazendeiro que extrai \u00e1gua dos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos acha que a \u00e1gua \u00e9 sua, mas uma regi\u00e3o inteira da Calif\u00f3rnia entra em colapso quando gigantes do agro extraem sem limites e desconsideram o impacto dos agrot\u00f3xicos. Na realidade, aqui, como em outros setores de atividade, n\u00e3o h\u00e1 como escapar \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o de pactos e de controles para o uso e descarte racional de um bem que \u00e9 necess\u00e1rio para todos. Mas, nas din\u00e2micas dominantes, n\u00e3o s\u00e3o os usu\u00e1rios que se articulam, e sim os mercados financeiros. A remunicipaliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua em Paris, Berlim e in\u00fameras outras cidades do mundo faz parte da batalha pelo controle de um bem que, por ser ao mesmo tempo vital e escasso, \u00e9 imensamente atraente para os sistemas financeiros de especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio\u00a0<em>O Custo do Transporte Global<\/em>, de Denis Delestrac, traz outra faceta das transforma\u00e7\u00f5es em curso, nesse caso o transporte mar\u00edtimo. Pouco pensamos nisso, e \u00e9 at\u00e9 po\u00e9tico ver um navio se perder no horizonte. Mas \u00e9 uma m\u00e1quina poderosa que est\u00e1 mudando o mundo. Trata-se de cerca de 60 mil navios, que conectam cerca de 4500 portos, transportando cerca de 500 milh\u00f5es de cont\u00eaineres por ano, ao custo rid\u00edculo de, por exemplo, 300 d\u00f3lares por um cont\u00eainer de 20 toneladas trazido da China para os Estados Unidos. Em termos econ\u00f4micos, isso significa que se tornou natural um casaco vendido em Nova Iorque ter algod\u00e3o brasileiro, bot\u00f5es produzidos no Vietn\u00e3 a partir de lixo pl\u00e1stico europeu reciclado na China, com complementos de outros pa\u00edses, sendo que na etiqueta aparecer\u00e1 apenas\u00a0<em>Made in Bangladesh<\/em>, que \u00e9 onde se acoplaram os componentes. O transporte barato mudou a economia.<\/p>\n<p>O transporte mar\u00edtimo aparece assim na sua poderosa dimens\u00e3o de articulador da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, permitindo, por exemplo, que gigantes corporativos de qualquer parte do mundo inundem mercados e desarticulem economias mais fr\u00e1geis. Mas os pr\u00f3prios gigantes do transporte mar\u00edtimo, como a Maersk Line, constituem um universo desregulado. Para evitar pagar impostos ou prestar contas da polui\u00e7\u00e3o que geram, ou inclusive do tr\u00e1fico de drogas, armas e res\u00edduos t\u00f3xicos, os navios, em sua quase totalidade, navegam com bandeiras da Lib\u00e9ria, do Panam\u00e1, das Ilhas Marshall e semelhantes para\u00edsos fiscais. A frota \u00e9 respons\u00e1vel por 4% das emiss\u00f5es mundiais de gases de efeito estufa, e tamb\u00e9m contaminam os mares com os cerca de 100 naufr\u00e1gios por ano, com petr\u00f3leo e outros produtos qu\u00edmicos. O filme nos descortina um universo de transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 do pr\u00f3prio transporte mar\u00edtimo, mas de como muda a l\u00f3gica da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do planeta.<\/p>\n<p><em>Os Despossu\u00eddos<\/em>, de Mathieu Roy, mostra, por sua vez, como essa globaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o transformam a agricultura familiar. Estamos falando de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial, que vive essencialmente de produzir alimentos em pequena escala. Uma cal\u00e7a jeans vendida 80 d\u00f3lares em Nova Iorque, por exemplo, rende menos de um d\u00f3lar para quem produziu o algod\u00e3o na \u00cdndia. Em volta do tradicional agricultor que cuida da sua terra e dos seus animais, foram-se tecendo teias de depend\u00eancia, pois enquanto ele teoricamente \u00e9 dono da sua terra e livre de cultivar como quer, a comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9 controlada por atravessadores, a semente pela Monsanto, o pesticida pela Bayer (ambas, ali\u00e1s, hoje coligadas), outros insumos pela Syngenta, o mercado mais amplo pela Cargill e assim por diante. \u00c9 um universo profundamente transformado, pois os gigantes que controlam os insumos e a comercializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o, por sua vez, empresas controladas por acionistas que de agricultura n\u00e3o precisam entender nada. Entendem sim do rendimento das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De certa forma, se v\u00ea que o conceito de mercado livre n\u00e3o tem nenhum sentido quando os atores s\u00e3o t\u00e3o desiguais. Como se comenta no filme, \u201cprecisamos de regula\u00e7\u00e3o comercial, pois a liberdade entre agentes desiguais leva \u00e0 lei da selva\u201d. Estamos no limite (\u2018<em>au bout<\/em>\u2019), comentam os agricultores entrevistados. As novas gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o abandonando a agricultura, din\u00e2mica mal compensada pelo movimento de agricultura sustent\u00e1vel e de produtos org\u00e2nicos que surgem em diversas partes do mundo. As grandes corpora\u00e7\u00f5es da monocultura em \u00e1reas gigantescas agradecem. Trazem muita m\u00e1quina, muita qu\u00edmica, muita esteriliza\u00e7\u00e3o do solo. \u00c9 um novo colonialismo, comenta um dos agricultores.<\/p>\n<p>Enquanto\u00a0<em>Os Despossu\u00eddos<\/em>\u00a0trata de exemplos em grande parte do Canad\u00e1 e da Su\u00ed\u00e7a, o filme\u00a0<em>Tomates, Molho e Wagner<\/em>\u00a0mostra a agricultura familiar na Gr\u00e9cia, em tom po\u00e9tico e encantador, pois entre outros os agricultores tentam descobrir como a m\u00fasica cl\u00e1ssica ou os cantos tradicionais gregos impactam o amadurecimento dos tomates. O tom \u00e9 po\u00e9tico, mas o cotidiano dos pequenos ou m\u00e9dios agricultores \u00e9 mostrado de maneira muito articulada. S\u00e3o bons produtores, geram boas safras, mas para valorizar o produto precisam transform\u00e1-lo em conservas de diversos tipos, viajar para Bruxelas e outras cidades para entender \u2018os mercados\u2019, colocar fotos \u2018t\u00edpicas\u2019 de camponeses nas etiquetas dos produtos, buscando satisfazer o misterioso \u2018cliente\u2019 moderno. N\u00e3o basta ser bom agricultor, \u00e9 preciso saber \u2018se vender\u2019.<\/p>\n<p>O filme traz imagens muito belas do cotidiano dos grupos que trabalham no campo, nas cozinhas, no acondicionamento dos produtos, com as intermin\u00e1veis conversas, fofocas comentadas no meio de gargalhadas, que nos lembram que trabalhar n\u00e3o \u00e9 apenas ser produtivo, \u00e9 conviver, \u00e9 rir uns dos outros, \u00e9 brincar. A agricultura tradicional \u00e9 um modo de vida. A modernidade pode facilitar essas vidas e torn\u00e1-las mais produtivas, sem destruir a sua dimens\u00e3o humana. A tecnologia pode ser muito \u00fatil, mas n\u00e3o quando \u00e9 apenas uma arma de extra\u00e7\u00e3o de renta por corpora\u00e7\u00f5es distantes.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Golpe Corporativo<\/em>\u00a0de certa forma aborda o pano de fundo de todas essas transforma\u00e7\u00f5es, ao mostrar como a financeiriza\u00e7\u00e3o e o gigantismo corporativo mundializado, que j\u00e1 deformam os rumos dos v\u00e1rios setores de atividades econ\u00f4micas, d\u00e3o o golpe final ao se apropriarem dos pr\u00f3prios mecanismos pol\u00edticos que deveriam regul\u00e1-los, assegurar que respeitem as regras do jogo. Em 1999 as corpora\u00e7\u00f5es conseguiram que se liquidasse a regula\u00e7\u00e3o dos bancos, base jur\u00eddica que prevalecia desde os anos 1930. Em 2010 foi aprovada a lei que permite, nos Estados Unidos, o financiamento corporativo das campanhas eleitorais. \u201cTemos os melhores congressistas que o dinheiro pode comprar\u201d, comenta Hazel Henderson. Geraram um sistema jur\u00eddico paralelo que permite que crimes corporativos sejam objeto de acordos extra-judiciais: ningu\u00e9m vai preso, apenas geram multas sem reconhecimento de culpa.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio chamam isso de golpe corporativo em c\u00e2mara lenta, mas durou poucas d\u00e9cadas e gerou um profundo desequil\u00edbrio no que era o cora\u00e7\u00e3o dos processos democr\u00e1ticos de tomada de decis\u00e3o: a harmonia entre o Estado, as empresas e a sociedade civil. Entende-se perfeitamente que Trump tenha aprovado uma gigantesca redu\u00e7\u00e3o de impostos sobre as corpora\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo que tentava travar o acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade. Trump \u00e9 apenas o sintoma, mas n\u00e3o a doen\u00e7a. A doen\u00e7a \u00e9 o deslocamento de poder, que aprofunda as desigualdades e generaliza o sentimento de inseguran\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o na massa da popula\u00e7\u00e3o, que termina por votar em qualquer candidato que canalize o seu \u00f3dio e aponte culpados, que podem ser mexicanos ou mu\u00e7ulmanos ou a China, ou qualquer culpado, desde que seja externo. Liberar o \u00f3dio funciona muito mais, em pol\u00edtica, do que discutir programas econ\u00f4micos e sociais. O document\u00e1rio trata dos Estados Unidos, mas \u00e9 s\u00f3 olhar como o golpe corporativo est\u00e1 funcionando em numerosos pa\u00edses. Como escreveu h\u00e1 alguns anos Oct\u00e1vio Ianni, a pol\u00edtica mudou de lugar.<\/p>\n<p>No conjunto, os seis filmes nos trazem dimens\u00f5es diferenciadas, mas complementares, de como a luta pela habita\u00e7\u00e3o, o acesso \u00e0 \u00e1gua, o transporte dos produtos, o acesso \u00e0s tecnologias e o universo do pequeno produtor rural se deslocam frente a din\u00e2micas que pertencem ao universo poderoso e distante das grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras, que pouco entendem dos setores espec\u00edficos, mas entendem tudo dos lucros que se pode extrair. O capitalismo est\u00e1 se deslocando: n\u00e3o s\u00e3o mais os produtores, os capitalistas rurais ou industriais tradicionais que mandam nos processos econ\u00f4micos, e sim \u2018os mercados\u2019, as bolsas, os bancos, os traders, o chamado capitalismo financeiro global. Esse, ningu\u00e9m controla: n\u00e3o h\u00e1 governo global.<\/p>\n<p>*<em>O conceito de \u2018renta\u2019 n\u00e3o aparece nos dicion\u00e1rios da l\u00edngua portuguesa. Mas \u00e9 essencial para entender as din\u00e2micas econ\u00f4micas modernas: em ingl\u00eas \u2018<\/em>rent<em>\u2019, ganho sem o aporte produtivo correspondente, \u00e9 claramente distinto de \u2018<\/em>income<em>\u2019 (renda); em franc\u00eas \u00e9 igualmente clara a distin\u00e7\u00e3o entre \u2018<\/em>rente<em>\u2019 e \u2018<\/em>revenu<em>\u2019. Personagens de Machado de Assis que \u201cvivem de rendas\u201d, portanto pr\u00f3speras e ociosas, caracterizam bem o rentismo, mas o conceito de \u2018renta\u2019 \u00e9 essencial para caracterizar esse tipo de ganhos.<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<br \/>\n(https:\/\/dowbor.org\/2020\/08\/l-dowbor-financeirizacao-nova-ordem-economica-e-social-mostra-ecofalante-2020-5p.html\/)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211;\u00a0O mundo est\u00e1 mudando rapidamente, tendo como eixos principais de transforma\u00e7\u00e3o o aprofundamento das desigualdades, a cat\u00e1strofe ambiental, o caos financeiro e a desarticula\u00e7\u00e3o dos sistemas democr\u00e1ticos. 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