{"id":13857,"date":"2020-08-06T14:25:51","date_gmt":"2020-08-06T17:25:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13857"},"modified":"2020-08-03T14:36:47","modified_gmt":"2020-08-03T17:36:47","slug":"o-mais-erudito-dos-cientistas-sociais-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/08\/06\/o-mais-erudito-dos-cientistas-sociais-brasileiros\/","title":{"rendered":"\u201cO mais erudito dos cientistas sociais brasileiros\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Claudia Costa<\/strong> &#8211; Em Florestan Fernandes, sociologia \u00e9 a &#8220;autoconsci\u00eancia cient\u00edfica da sociedade&#8221;, afirma Jos\u00e9 de Souza Martins.<\/p>\n<p>Acesse o texto 1: <a href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/08\/05\/florestan-fernandes-deixou-licoes-que-ficaram-na-historia-da-democracia-brasileira\/\">clique<\/a><\/p>\n<p>Considerado expoente da sociologia no Brasil, Florestan Fernandes (1920-1995) foi um intelectual de primeira grandeza que transformou o pensamento social no Pa\u00eds e estabeleceu um novo estilo de investiga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Mas a informa\u00e7\u00e3o de que seria o fundador da sociologia cr\u00edtica no Brasil \u00e9 incorreta, e quem esclarece a quest\u00e3o \u00e9 o soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins, Professor Em\u00e9rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP. \u201cFlorestan n\u00e3o \u00e9 considerado fundador da sociologia cr\u00edtica no Brasil sen\u00e3o na perspectiva de uma informa\u00e7\u00e3o viesada que vem de setores que definem sua obra, sem conhec\u00ea-la, de um ponto de vista partid\u00e1rio e ideol\u00f3gico. Florestan era um cientista rigoroso, o mais erudito dos cientistas sociais brasileiros. Grande conhecedor dos cl\u00e1ssicos da sociologia, v\u00e1rios de seus trabalhos devem ser interpretados como elaboradas express\u00f5es do pensamento cr\u00edtico\u201d, afirma Martins. No pr\u00f3ximo dia 22 de julho, completa-se o centen\u00e1rio de nascimento de Florestan \u2013 data que o\u00a0<strong>Jornal da USP\u00a0<\/strong>est\u00e1 celebrando com uma s\u00e9rie de reportagens.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil difundiu-se a equivocada concep\u00e7\u00e3o de que a sociologia cr\u00edtica \u00e9 a sociologia do contra, a sociologia da contesta\u00e7\u00e3o, a \u2018sociologia militante\u2019, uma sociologia \u2018de esquerda\u2019\u201d, explica Martins. \u201cE atribui-se a Florestan a suposta virtude de ter feito isso com a sociologia, justamente o que a sociologia n\u00e3o \u00e9. Ele era um cientista, n\u00e3o um panflet\u00e1rio\u201d, observa. No entanto, como diz o professor, h\u00e1 correntes na teoria sociol\u00f3gica, difundidas em diferentes sociedades, conhecidas como sociologia cr\u00edtica. \u201cAinda que por diferentes caminhos, h\u00e1 diferentes orienta\u00e7\u00f5es de sociologia cr\u00edtica, que, no meu modo de ver, s\u00e3o variantes da sociologia do conhecimento. Uma sociologia que nos remete, no caso de Florestan, \u00e0 obra de Karl Mannheim, que ele conhecia bem\u201d, exemplifica.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_332847\" class=\"wp-caption alignnone\" aria-describedby=\"caption-attachment-332847\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-332847\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Florestan_As-Trocinjas-do-Bom-Reitiro-203x300.jpg?resize=200%2C295&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" srcset=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Florestan_As-Trocinjas-do-Bom-Reitiro-203x300.jpg 203w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Florestan_As-Trocinjas-do-Bom-Reitiro.jpg 542w\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"295\" data-id=\"332847\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-332847\" class=\"wp-caption-text\"><em>As Trocinhas do Bom Retiro, estudo de Florestan Fernandes sobre os grupos infantis do bairro do Bom Retiro, em S\u00e3o Paulo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Martins, as originais e criativas incurs\u00f5es de Florestan Fernandes nessa dire\u00e7\u00e3o foram estimuladas por seu professor Roger Bastide, sucessor de Claude L\u00e9vi-Strauss na cadeira de Sociologia da ent\u00e3o Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL) da USP. \u201cDe certo modo, j\u00e1 aparecem no seu estudo sobre os grupos infantis do bairro do Bom Retiro, em S\u00e3o Paulo\u201d, relata, citando\u00a0<em>As Trocinhas do Bom Retiro,\u00a0<\/em>que foi premiado em concurso do gr\u00eamio da faculdade. O professor conta que nessa pioneira pesquisa com crian\u00e7as, \u201cem uma cidade e em um bairro de imigrantes\u201d, Florestan descobriu que as crian\u00e7as socializavam como brasileiras seus pais e av\u00f3s estrangeiros. \u201cUma cr\u00edtica sociol\u00f3gica da concep\u00e7\u00e3o dominante de socializa\u00e7\u00e3o, em que a crian\u00e7a \u00e9 apenas personagem passiva da socializa\u00e7\u00e3o, cujo agente seria o adulto. Caso em que o mundo real est\u00e1 invertido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade pressuposta na teoria\u201d, comenta Martins.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, diz o professor, foi tamb\u00e9m Roger Bastide quem atraiu Florestan Fernandes para a pesquisa sobre o negro em S\u00e3o Paulo, um projeto robusto que inovou nos estudos sobre o negro e a escravid\u00e3o no Brasil, sobretudo os desdobramentos da escravid\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o do negro da sociedade p\u00f3s-escravista. Martins conta que Bastide insistiu com ele para que participassem juntos de um projeto proposto pela Unesco, e acabou por convenc\u00ea-lo. \u201cA pesquisa teve inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que nunca foram reconhecidas. A principal delas, a de ter sido um trabalho precursor da pesquisa participante, ou pesquisa\u00e7\u00e3o. Nela o entrevistado entrevista-se. N\u00e3o \u00e9 agente passivo de conhecimento, mas autor de conhecimento. Nesse sentido, os estudos sobre o negro, tanto de Bastide quanto de Florestan, dela resultantes, s\u00e3o deriva\u00e7\u00f5es na \u00e1rea da sociologia do conhecimento de senso comum\u201d, compara Martins. E acrescenta que essa modalidade de pesquisa, com os nomes de \u201cpesquisa participante\u201d ou de \u201cpesquisa\u00e7\u00e3o\u201d, se difundiria com muita originalidade te\u00f3rica nas obras do soci\u00f3logo colombiano Orlando Fals-Borda e, no Brasil, na de Carlos Rodrigues Brand\u00e3o, que fez doutorado na Faculdade de Filosofia da USP.<\/p>\n<figure id=\"attachment_162604\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-162604\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-162604 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20180424_01_Florestan-Fernandes1987.jpg?resize=640%2C336&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20180424_01_Florestan-Fernandes1987.jpg 800w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20180424_01_Florestan-Fernandes1987-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20180424_01_Florestan-Fernandes1987-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20180424_01_Florestan-Fernandes1987-364x191.jpg 364w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"336\" data-id=\"162604\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-162604\" class=\"wp-caption-text\"><em>Assembleia de alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP, em 1986, com a presen\u00e7a de Florestan Fernandes<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Martins, foi a Miss\u00e3o Francesa \u2013 como ficou conhecido o grupo de professores franceses integrantes dos primeiros quadros docentes da USP, nos anos 30 \u2013 que introduziu a sociologia cient\u00edfica. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, os estudos pr\u00e9-sociol\u00f3gicos que aqui se fazia eram ensaios sociais. Muitos de excelente n\u00edvel e teoricamente bem informados.\u00a0<em>Os Sert\u00f5es<\/em>, de Euclides da Cunha, constitui uma obra modelar do ensa\u00edsmo social brasileiro pr\u00e9-sociol\u00f3gico. Mas h\u00e1 nesses estudos, mesmo com refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas a obras cient\u00edficas, uma tend\u00eancia \u00e0 an\u00e1lise e interpreta\u00e7\u00e3o impressionistas. Os franceses da USP ensinaram a seus alunos, especialmente de sociologia e de antropologia, que ci\u00eancia depende de m\u00e9todo cient\u00edfico\u201d, afirma o professor. E acrescenta: \u201cFlorestan esmerou-se nesse cuidado. Distinguiu os m\u00e9todos explicativos, expostos em\u00a0<em>Fundamentos Emp\u00edricos da Explica\u00e7\u00e3o Sociol\u00f3gica<\/em>, dos m\u00e9todos t\u00e9cnicos. S\u00e3o instrumentos de momentos diferentes do trabalho sociol\u00f3gico, uma distin\u00e7\u00e3o fundamental para fazer ci\u00eancia. E, sobretudo, enfatizou a import\u00e2ncia da sociologia como ci\u00eancia emp\u00edrico-indutiva, bem diversa do que \u00e9 pr\u00f3prio do dedutivismo dos ensaios sociais\u201d. Al\u00e9m disso, lembra Martins, na USP a Sociologia j\u00e1 estava na segunda e na terceira gera\u00e7\u00e3o de soci\u00f3logos quando come\u00e7aram a ser formados soci\u00f3logos na It\u00e1lia, Inglaterra, Espanha e Portugal.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u00a0Florestan era um cientista rigoroso, um grande conhecedor dos cl\u00e1ssicos da sociologia.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A ci\u00eancia que Florestan Fernandes praticava era socialmente comprometida, engajada e militante. Nos anos 50, tornou-se conhecido pela participa\u00e7\u00e3o na Campanha Nacional em Defesa da Escola P\u00fablica, que, segundo Martins, teve um n\u00facleo importante na USP e envolveu professores e alunos. \u201cN\u00e3o tinha cor ideol\u00f3gica e era fortemente apoiada por J\u00falio de Mesquita Filho e seu jornal,\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>\u201d, conta o professor, explicando que a campanha era uma rea\u00e7\u00e3o contra o substitutivo do projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o, que estava em discuss\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados e favorecia as escolas privadas, cat\u00f3licas e laicas e minimizava a escola p\u00fablica.<\/p>\n<p>Martins lembra que o envolvimento de J\u00falio de Mesquita Filho naquela campanha tem pleno sentido: \u201cFoi na reda\u00e7\u00e3o de seu jornal que se formou um pequeno n\u00facleo de intelectuais que discutiram a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o da USP. Mesquita foi o \u2018pai\u2019 da nossa Universidade, a alma do que esta Universidade veio a ser. Ele a concebeu na cadeia, quando foi preso por conta de seu envolvimento na Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932. Na cadeia, pediu que a esposa lhe levasse dois livros: o de \u00c9mile Durkheim,\u00a0<em>\u00c9ducation et Sociologie<\/em>, e o de seu disc\u00edpulo C\u00e9lestin Bougl\u00e9,\u00a0<em>Les Id\u00e9es \u00c9galitaires \u2013 \u00c9tude sociologique<\/em>. Saiu da cadeia com o projeto da USP na cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_332807\" class=\"wp-caption alignnone\" aria-describedby=\"caption-attachment-332807\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-332807 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_florestan_fernandes_manifestacao2.jpg?resize=640%2C336&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_florestan_fernandes_manifestacao2.jpg 800w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_florestan_fernandes_manifestacao2-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_florestan_fernandes_manifestacao2-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_florestan_fernandes_manifestacao2-364x191.jpg 364w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"336\" data-id=\"332807\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-332807\" class=\"wp-caption-text\"><em>Florestan Fernandes numa manifesta\u00e7\u00e3o em favor do ensino p\u00fablico<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Martins conta como se deu o processo. \u201cA USP de J\u00falio de Mesquita Filho seria p\u00fablica, laica e gratuita. Era um projeto de, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, transformar esta sociedade numa sociedade democr\u00e1tica. Era tal sua preocupa\u00e7\u00e3o republicana com a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o nessa perspectiva que, decidida a cria\u00e7\u00e3o da USP, foi enviado \u00e0 Fran\u00e7a o professor Teodoro Ramos, da Escola Polit\u00e9cnica, para recrutar os docentes para a Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, que formaria o n\u00facleo central da Universidade. Na Fran\u00e7a, Ramos foi orientado por Georges Dumas, amigo de Mesquita, que conhecia o Brasil e estivera em S\u00e3o Paulo nos anos 1920. Dumas era protestante e Ramos levava uma recomenda\u00e7\u00e3o de Mesquita: nada de clericais. A inten\u00e7\u00e3o do grupo fundador da USP era a de evitar que a USP se tornasse uma universidade p\u00fablica aparelhada pela Igreja Cat\u00f3lica. Pensava no pluralismo das ideias, essencial ao desenvolvimento de uma verdadeira universidade.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_200203\" class=\"wp-caption alignnone\" aria-describedby=\"caption-attachment-200203\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-200203 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins-300x300.png?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins-300x300.png 300w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins-150x150.png 150w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins-45x45.png 45w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins-65x65.png 65w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/20181004_Jose-de-souza-martins.png 420w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" data-id=\"200203\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-200203\" class=\"wp-caption-text\"><em>Jos\u00e9 de Souza Martins, Professor Em\u00e9rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A Campanha em Defesa da Escola P\u00fablica, de 1959, retomava as inspira\u00e7\u00f5es do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932, e a proposta de cria\u00e7\u00e3o da USP, como assegura Martins. \u201cO deputado Carlos Lacerda, do Rio de Janeiro, apresentara um substitutivo ao projeto da Lei de Diretrizes e Bases que equiparava escola p\u00fablica e particular nas obriga\u00e7\u00f5es do Estado. Havia um claro prop\u00f3sito de favorecer as escolas cat\u00f3licas\u201d, diz, reiterando que a campanha foi uma rea\u00e7\u00e3o dos educadores contra a tentativa de quebrar o princ\u00edpio da laicidade da educa\u00e7\u00e3o. \u201cUm grande n\u00famero de educadores da USP, especialmente dos cursos de Ci\u00eancias Sociais e de Pedagogia, empenhou-se numa cruzada de esclarecimentos. Al\u00e9m da capital, percorreram escolas e cidades do interior e de outros Estados, fazendo confer\u00eancias e pondo em quest\u00e3o o substitutivo da Lei de Diretrizes e Bases.\u201d<\/p>\n<p>Aos poucos, Florestan foi ganhando destaque na Campanha Nacional em Defesa da Escola P\u00fablica, contabilizando mais de 50 confer\u00eancias em escolas, sindicatos, lojas ma\u00e7\u00f4nicas e igrejas. \u201cEm 1959 e 1960, eu estava fazendo o Curso Normal numa escola p\u00fablica, o Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Dr. Am\u00e9rico Brasiliense, em Santo Andr\u00e9. L\u00e1 esteve, para falar da campanha, o professor Fernando Henrique Cardoso, assistente de Florestan. No ano em que a campanha terminou, 1961, eu estava ingressando na USP\u201d, relembra Martins, que algumas semanas antes da morte de Florestan, em 1995, conversou com ele sobre aquele movimento. \u201cAl\u00e9m da import\u00e2ncia do apoio do jornal\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>, os ma\u00e7ons foram os maiores apoiadores da campanha. Evang\u00e9licos e esp\u00edritas tamb\u00e9m a acolheram e apoiaram. O substitutivo Lacerda acabou sendo aprovado. Mas o movimento mobilizou os educadores e mesmo os estudantes acima de partidos, classes sociais, religi\u00f5es. Foi um grande movimento democr\u00e1tico em favor da educa\u00e7\u00e3o e da escola p\u00fablica, que n\u00e3o voltaria a se repetir.\u201d<\/p>\n<blockquote><p><strong>Boa parte da obra de Florestan \u00e9 dedicada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e na Faculdade de Filosofia ele sempre se bateu pela import\u00e2ncia da sociologia da educa\u00e7\u00e3o no curriculum de Ci\u00eancias Sociais.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Florestan Fernandes deixou uma extensa obra com mais de 50 t\u00edtulos, que segundo Martins cobre um vasto campo de temas e de problemas sociol\u00f3gicos. O professor destaca algumas, que recomenda como imprescind\u00edveis:\u00a0<em>Mudan\u00e7as Sociais no Brasil, A Sociologia numa Era de Revolu\u00e7\u00e3o Social, Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento, Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, A Integra\u00e7\u00e3o do Negro na Sociedade de Classes<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Fundamentos Emp\u00edricos da Explica\u00e7\u00e3o Sociol\u00f3gica.\u00a0<\/em>\u201cS\u00e3o livros em que Florestan exp\u00f5e o fundamental de sua sociologia diversificada e desafiadora. S\u00e3o livros que ensinam o que essa sociologia \u00e9, como \u2018autoconsci\u00eancia cient\u00edfica da sociedade\u2019, uma defini\u00e7\u00e3o de Hans Freyer que Florestan adotava\u201d, afirma Martins.<\/p>\n<figure id=\"attachment_332787\" class=\"wp-caption alignnone\" aria-describedby=\"caption-attachment-332787\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-332787 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_livros_florestan.jpg?resize=500%2C424&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" srcset=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_livros_florestan.jpg 500w, https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/20202606_livros_florestan-300x254.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"424\" data-id=\"332787\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-332787\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capas de algumas das mais de 50 obras escritas por Florestan Fernandes<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cBoa parte da obra de Florestan \u00e9 dedicada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e na Faculdade de Filosofia ele sempre se bateu pela import\u00e2ncia da sociologia da educa\u00e7\u00e3o no curriculum de Ci\u00eancias Sociais. Dois de seus ex-alunos, que se tornaram seus assistentes, foram preparados para ministrar essa disciplina: Marialice Mencarini Foracchi e Luiz Pereira. Foi uma forma clara de reconhecimento de que cursos como o de Ci\u00eancias Sociais tinham como prop\u00f3sito fundamental a forma\u00e7\u00e3o de educadores\u201d, conclui.<\/p>\n<p><em>O texto acima, \u201cFlorestan Soci\u00f3logo\u201d, \u00e9 o segundo da s\u00e9rie de reportagens\u00a0<\/em>Florestan 100 Anos<em>, produzida pelo\u00a0<\/em><strong>Jornal da USP<\/strong>\u00a0<em>em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio de nascimento do soci\u00f3logo e professor da USP Florestan Fernandes (1920-1995), a ser completado no dia 22 de julho de 2020.<\/em><\/p>\n<p><em>O pr\u00f3ximo texto da s\u00e9rie, \u201cFlorestan Militante\u201d, ser\u00e1 publicado no dia 3 de julho, sexta-feira.<\/em><\/p>\n<div>\n<p><strong>O mestre de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de soci\u00f3logos<\/strong><\/p>\n<p>Leia a seguir uma carta do soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins enviada em 1994 ao professor Florestan Fernandes:<\/p>\n<p><em>\u201cCambridge, 21 de junho de 1994<\/em><\/p>\n<p><em>Estimado professor Florestan,<\/em><\/p>\n<p><em>Desde o meu concurso de livre-doc\u00eancia desejava fazer-lhe uma visita para agradecer-lhe a delicadeza de gesto do seu comparecimento \u00e0 argui\u00e7\u00e3o final. S\u00f3 n\u00e3o o fiz por temer roubar-lhe as horas de sua perman\u00eancia em S. Paulo e de sua conviv\u00eancia com filhos e netos. A afoba\u00e7\u00e3o dos preparos da minha vinda para Cambridge tamb\u00e9m prejudicou essa inten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Fa\u00e7o-o, por\u00e9m, agora e por carta. E para juntar-me \u00e0s homenagens que lhe est\u00e3o sendo prestadas, pelo t\u00e9rmino de seu honrado mandato parlamentar, \u00e0s quais minha esposa Heloisa comparece tamb\u00e9m em meu nome.<\/em><\/p>\n<p><em>Escrevo-lhe de Cambridge para dar a esta carta a dimens\u00e3o simb\u00f3lica que ela deve ter. Sou o terceiro brasileiro, em 25 anos de exist\u00eancia da c\u00e1tedra Sim\u00f3n Bolivar, a ser eleito seu titular, antecedido por Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso. Sou, tamb\u00e9m, o terceiro soci\u00f3logo, depois do pr\u00f3prio Fernando Henrique e de Pablo Gonz\u00e1lez Casanova. A elei\u00e7\u00e3o para esta c\u00e1tedra \u00e9 considerada na Am\u00e9rica Latina e, sobretudo, aqui, com raz\u00e3o, uma grande honraria, principalmente porque ningu\u00e9m a ela se candidata. \u00c9 a pr\u00f3pria Universidade de Cambridge que faz a escolha. Essa escolha \u00e9, antes de tudo, reconhecimento. Tenho dito aos colegas com quem convivo aqui que a elei\u00e7\u00e3o de dois titulares da c\u00e1tedra procedentes do mesmo grupo, o da antiga Faculdade de Filosofia da USP, deve-se aos m\u00e9ritos excepcionais de uma pessoa que eles tamb\u00e9m conhecem (e reconhecem): Florestan Fernandes. Trata-se de uma honraria que o tem como destinat\u00e1rio, pela qualidade do seu trabalho de soci\u00f3logo, mas tamb\u00e9m pela sua hist\u00f3ria pessoal exemplar, na coer\u00eancia, no compromisso e no empenho de transformar o nosso pa\u00eds num lugar digno para todos; libertado de todas as mis\u00e9rias e opress\u00f5es; lugar de um povo que possa viver a poesia e as promessas da vida livre do jugo de todas as car\u00eancias e do l\u00e1tego de todas as viol\u00eancias.<\/em><\/p>\n<p><em>Creio que este \u00e9 o lugar e o momento para expressar-lhe diretamente meus agradecimentos profundos pela honra de ter sido seu aluno e de ter aprendido consigo n\u00e3o s\u00f3 um modo de pensar, mas tamb\u00e9m um modo de viver. Venho da periferia, de uma fam\u00edlia de pobres colonos de caf\u00e9 convertidos em oper\u00e1rios de f\u00e1bricas do ABC. Eu mesmo cresci nas ruas e nas f\u00e1bricas, estudei \u00e0 noite desde menino, tendo que ajudar a sustentar uma fam\u00edlia pobre. Cheguei \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo e ao curso de Ci\u00eancias Sociais da Rua Maria Antonia na escurid\u00e3o da noite, no cansa\u00e7o de dias de fadiga, para estudar depois do trabalho e ainda voltar para o sub\u00farbio em horas tardias e despertar de madrugada para come\u00e7ar tudo de novo. Tive sorte, porque me foi dado o privil\u00e9gio do acesso a uma escola p\u00fablica e a um grupo de professores universit\u00e1rios competentes e comprometidos com a ideia de uma comunidade de destino dos homens que s\u00e3o livros e t\u00eam esperan\u00e7a, venham de onde vierem.<\/em><\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o-lhe, ainda, o privil\u00e9gio de ter sido seu auxiliar de ensino, no in\u00edcio de minha carreira. Aprendi muito com o professor exemplar, devotado \u00e0 miss\u00e3o de ensinar, como nos tempos antigos era pr\u00f3prio dos profetas, que semeavam saber e esperan\u00e7a, conhecimento e dever para com o destino de todos.<\/em><\/p>\n<p><em>Sou-lhe, tamb\u00e9m, agradecido pelas v\u00e1rias vezes em que sua interven\u00e7\u00e3o generosa impediu que minha carreira profissional fosse interrompida pelas tempestades de uma vida acad\u00eamica empobrecida pelo poder pessoal dos que n\u00e3o sabiam us\u00e1-lo com desprendimento. Pobreza, enfim, que nos privou a todos da possibilidade de reconstruir a escola de trabalho e pensamento de que o senhor foi e tem sido patrono, inspirador e alma.<\/em><\/p>\n<p><em>Na cerim\u00f4nia solene de minha admiss\u00e3o como professor da Universidade de Cambridge, no dia 12 de outubro do ano passado, na pequena capela, de 1350, de Trinity Hall, o meu College, diante dos\u00a0<\/em>fellows\u00a0<em>e\u00a0<\/em>scholars<em>, solenemente vestidos com as becas e ins\u00edgnias de suas distin\u00e7\u00f5es, como \u00e9 costume aqui, ao assinar o velho livro com a caneta de prata, como \u00e9 uso, diante do altar e do Master, tive consci\u00eancia, como tenho tido, que o meu nome naquele livro antigo era justo tributo a quem me ensinou uma boa parte das coisas que sei e que me trouxeram a este lugar: o filho de dona Maria, o menino das ruas do Bexiga, o mestre de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de soci\u00f3logos brasileiros que se chama Florestan Fernandes.<\/em><\/p>\n<p><em>Um abra\u00e7o forte do<\/em><\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 de Souza Martins\u201d<\/em><\/p>\n<p>A carta acima foi publicada como ap\u00eandice no livro\u00a0<em>A Sociologia como Aventura \u2013 Mem\u00f3rias<\/em>, de Jos\u00e9 de Souza Martins, lan\u00e7ado em 2013 pela Editora Contexto.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"XgDM9aL3uN\"><p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/cultura\/o-mais-erudito-dos-cientistas-sociais-brasileiros\/\">\u201cO mais erudito dos cientistas sociais brasileiros\u201d<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;\u201cO mais erudito dos cientistas sociais brasileiros\u201d&#8221; &#8212; Jornal da USP\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/cultura\/o-mais-erudito-dos-cientistas-sociais-brasileiros\/embed\/#?secret=nVtXhKKTj1#?secret=XgDM9aL3uN\" data-secret=\"XgDM9aL3uN\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudia Costa &#8211; Em Florestan Fernandes, sociologia \u00e9 a &#8220;autoconsci\u00eancia cient\u00edfica da sociedade&#8221;, afirma Jos\u00e9 de Souza Martins. Acesse o texto 1: clique Considerado expoente da sociologia no Brasil, Florestan Fernandes (1920-1995) foi um intelectual de primeira grandeza que transformou o pensamento social no Pa\u00eds e estabeleceu um novo estilo de investiga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. 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Acesse o texto 1: clique Considerado expoente da sociologia no Brasil, Florestan Fernandes (1920-1995) foi um intelectual de primeira grandeza que transformou o pensamento social no Pa\u00eds e estabeleceu um novo estilo de investiga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. 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