{"id":13841,"date":"2020-07-31T12:19:41","date_gmt":"2020-07-31T15:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13841"},"modified":"2020-07-30T22:22:32","modified_gmt":"2020-07-31T01:22:32","slug":"caminhos-para-enterrar-um-sistema-moribundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/07\/31\/caminhos-para-enterrar-um-sistema-moribundo\/","title":{"rendered":"Caminhos para enterrar um sistema moribundo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Walden Bello<\/strong> &#8211;\u00a0A autofagia dos neoliberais produziu duas grandes crises em menos de 20 anos e abriu caminho ao fascismo. Mas, para criar novas rebeldias e sonhos coletivos, a raz\u00e3o e boas ideias n\u00e3o bastar\u00e3o \u2014 ser\u00e1 preciso tamb\u00e9m mobilizar emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Walden Bello: uma vida vivida em nome dos direitos humanos. Desde o combate \u00e0 ditadura nas Filipinas at\u00e9 o desenvolvimento de propostas para um mundo p\u00f3s-pandemia mais igualit\u00e1rio: se s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es que determinam a grandeza de um ser humano, ent\u00e3o ele \u00e9, em todos os aspectos, um gigante.<\/p>\n<p>Nascido em Manila, em 1945, Bello desempenhou um importante papel na hist\u00f3ria da esquerda progressista mundial. Soci\u00f3logo, acad\u00eamico, ambientalista e ativista, previu mudan\u00e7as hist\u00f3ricas gra\u00e7as uma intui\u00e7\u00e3o afiada. Quando ainda era um estudante universit\u00e1rio no Chile, viu a extrema-direita derrubar o presidente Salvador Allende. Nos EUA, onde atualmente \u00e9 professor, Bello descobriu provas de que o Banco Mundial e o FMI tinham apoiado o regime autorit\u00e1rio de Ferdinand Marcos nas Filipinas (1965-1986) e seu livro inspirou o movimento popular que o derrubou.<\/p>\n<p>Bello foi o primeiro a apontar os terr\u00edveis resultados do \u201cmilagre econ\u00f4mico asi\u00e1tico\u201d, come\u00e7ando pela crise financeira de 1997 \u2013 precursora de outros colapsos do mercado de a\u00e7\u00f5es. Em 1999, foi gravemente espancado pela pol\u00edcia em Seattle, quando protestava pela reforma da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC); tamb\u00e9m arriscou sua vida durante a repress\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es no F\u00f3rum Social de G\u00eanova, em 2001. Mas nunca desistiu. Em 2003, recebeu o\u00a0<em>Pr\u00eamio Right Livelihood<\/em>\u00a0\u2014 tamb\u00e9m conhecido como \u201cPr\u00eamio Nobel Alternativo\u201d \u2014 e atuou no congresso de seu pa\u00eds entre 2009 e 2016.\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/naomiklein\/\">Naomi Klein<\/a>\u00a0j\u00e1 se referiu a ele como fonte de inspira\u00e7\u00e3o. \u201cNessas horas, em que nossos valores progressistas s\u00e3o atacados ou ridicularizados, \u00e9 que somos testados. E \u00e9 quando temos de reafirma-los\u201d, nos conta nesta entrevista.<\/p>\n<p>Bello falou conosco a partir de Bangkok, onde dirige um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0chamado Focus on the Global South (\u201cFoco no Sul Global\u201d). \u201cAqui pude observar como a coopera\u00e7\u00e3o entre a sociedade civil e as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica produziram uma resposta s\u00f3lida \u00e0 crise\u201d. Ele compartilhou sua vis\u00e3o do mundo durante e depois da pandemia de coronav\u00edrus \u2014 a crise mais recente que nos for\u00e7ou a aprender com o passado e a repensar o futuro.<\/p>\n<p><strong>Onde voc\u00ea passou a quarentena? Como tem sido essa experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei isolado em Bangkok, Tail\u00e2ndia. Mas foi uma coisa boa porque pude observar como a coopera\u00e7\u00e3o entre a sociedade civil e as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica, com base na confian\u00e7a desenvolvida ao longo de cinco d\u00e9cadas de campanhas bem-sucedidas, produziu uma resposta s\u00f3lida \u00e0 crise. A Tail\u00e2ndia conteve a covid-19, com pouco mais de 3.200 infec\u00e7\u00f5es e \u201capenas\u201d 58 mortes. Em contraste com as centenas de milhares de infec\u00e7\u00f5es e mortes nos EUA e na Europa, isso \u00e9 simplesmente incr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o s\u00f3 a Tail\u00e2ndia\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Taiwan registrou pouqu\u00edssimas mortes e o Vietn\u00e3, nenhuma. Em nenhum dos tr\u00eas casos se tratou de l\u00edderes autorit\u00e1rios dando ordens desde cima que se mostraram decisivas. Inclusive, a lideran\u00e7a militar na Tail\u00e2ndia cometeu erros graves no in\u00edcio. O que fez a diferen\u00e7a n\u00e3o foi apenas o uso de m\u00e1scaras, que na Tail\u00e2ndia chegava a 95% (contra 15% no Reino Unido e 48% nos EUA). Foram as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica, trabalhando em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a sociedade civil, que estabilizaram a situa\u00e7\u00e3o e contiveram a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Higiene, em conjunto com um sistema de sa\u00fade p\u00fablica com apoio popular, foi fundamental. A lideran\u00e7a pol\u00edtica e seu decreto de emerg\u00eancia foram, na verdade, sup\u00e9rfluos.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea diz que essa pandemia, essa segunda crise em uma d\u00e9cada, nos mostra mais uma vez que \u201co neoliberalismo est\u00e1 morrendo\u201d. Como podemos convencer as pessoas disso?<\/p>\n<p>A pandemia devastou um mundo que ainda n\u00e3o tinha se recuperado da crise financeira global de 2008 e suas consequ\u00eancias. Antes da pandemia, j\u00e1 havia uma forte desilus\u00e3o nos EUA, pelo fato do governo ter preferido resgatar os grandes bancos em vez dos pequenos propriet\u00e1rios falidos, e pelo desemprego ter permanecido muito alto, mesmo depois de 2008, devido \u00e0 resist\u00eancia neoliberal aos gastos do governo. O sul e o leste da Europa estavam envolvidos em programas de austeridade destinados a enxugar a popula\u00e7\u00e3o e os fundos necess\u00e1rios para pagar as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas europeias e o FMI, que resgataram bancos alem\u00e3es e franceses. A \u00faltima d\u00e9cada viu a economia mundial num estado de \u201cestagna\u00e7\u00e3o secular\u201d, como o pr\u00f3prio Fundo Monet\u00e1rio Internacional admitiu. Ent\u00e3o, veio a pandemia e os sistemas econ\u00f4micos, que j\u00e1 tinham problemas, congelaram. O PIB caiu entre 4% e 7% nas principais economias mundiais, no primeiro trimestre deste ano \u2014 o maior decl\u00ednio em d\u00e9cadas \u2014 e as estimativas mais otimistas veem um decl\u00ednio de pelo menos 6% no PIB global em 2020. Milh\u00f5es foram jogados nas estat\u00edsticas de desemprego \u2014 cerca de 30% da for\u00e7a de trabalho dos EUA, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Como os governos est\u00e3o reagindo a essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os governos foram for\u00e7ados a ir al\u00e9m das suas t\u00edpicas respostas \u00e0 crise financeira, tendo de intervir em grande escala com programas de est\u00edmulo \u2013 para evitar uma cat\u00e1strofe econ\u00f4mica, seguida de apocalipse pol\u00edtico. A diferen\u00e7a entre uma fraca resposta \u00e0 crise financeira e outra relativamente vigorosa \u00e0 pandemia \u2014 embora ainda limitada \u2014 tem sido uma grande surpresa para as pessoas. Mostrou o que \u00e9 poss\u00edvel, quando os governos desconsideram as solu\u00e7\u00f5es de mercado e optam por a\u00e7\u00f5es decisivas. Em suma, a credibilidade do pensamento neoliberal e da sua formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, j\u00e1 abaladas pela crise financeira e suas consequ\u00eancias, foram prejudicadas mais ainda pela pandemia. A \u00fanica quest\u00e3o que resta \u00e9 se a morte do neoliberalismo ser\u00e1 r\u00e1pida ou \u201clenta\u201d, como afirma o economista Dani Rodrik.<\/p>\n<p><strong>Depois de dois meses de uma r\u00edgida quarentena, prev\u00ea-se uma enorme crise econ\u00f4mica na It\u00e1lia. Como o sistema pode ser t\u00e3o fr\u00e1gil? At\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, f\u00e1bricas, lojas e servi\u00e7os fechavam por pelo menos um ou dois meses durante o ver\u00e3o, e isso acontecia todos os anos.<\/strong><\/p>\n<p>As economias do Norte e do Sul globais s\u00e3o muito mais fr\u00e1geis hoje do que nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, devido a tr\u00eas fatores. Primeiro, porque a globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o levou \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o de muitas economias do Norte, \u00e0 medida em que processos intensivos em m\u00e3o-de-obra foram deslocados para o Sul, onde os sal\u00e1rios eram muito mais baixos. As cadeias de suprimento globais substitu\u00edram a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, tanto na ind\u00fastria quanto na agricultura: elas parecem eficientes, mas na verdade s\u00e3o muito fr\u00e1geis, suscet\u00edveis a rupturas por guerras, desastres e pandemias. Quando a covid-19 chegou, as linhas de produ\u00e7\u00e3o da China pararam, gerando uma grande escassez de bens essenciais em muitos pa\u00edses, incluindo m\u00e1scaras e outros equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual. E agora vem a ruptura das cadeias globais de fornecimento de alimentos no mundo todo, levando \u00e0 possibilidade de escassez de comida \u2013 e, portanto, fome \u2014 em determinadas regi\u00f5es nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p><strong>E as outras duas raz\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Segundo: as pol\u00edticas neoliberais acabaram com o consumo, e todos sabemos que o consumo \u00e9 o motor da demanda. No norte global, os sal\u00e1rios ficaram estagnados por duas d\u00e9cadas e as pessoas tiveram de recorrer a empr\u00e9stimos em massa. Quando a crise financeira de 2008 chegou, os empr\u00e9stimos n\u00e3o eram mais uma op\u00e7\u00e3o, for\u00e7ando um grande n\u00famero de pessoas a perder suas casas e cair na pobreza. Ao mesmo tempo, pol\u00edticas projetadas para aumentar a taxa de lucro levaram a uma desigualdade cada vez maior.<\/p>\n<p>Terceiro, com a ind\u00fastria estagnada, o dinheiro que iria para investimentos foi para o mercado financeiro, onde poderia gerar lucros maiores gra\u00e7as \u00e0 especula\u00e7\u00e3o. Embora contribuindo com apenas cerca de 5 a 10% do PIB, o setor financeiro nos EUA detinha cerca de 40% de todos os lucros das empresas. Investir em finan\u00e7as, no entanto, n\u00e3o cria novo valor. O lucro \u00e9 obtido por meio da especula\u00e7\u00e3o ou das apostas no aumento do pre\u00e7o dos ativos em compara\u00e7\u00e3o com o seu valor real. Isso significa que esses pre\u00e7os podem vir a colapsar, vem a crise financeira e, logo em seguida, uma forte retra\u00e7\u00e3o na economia real e produtiva.<\/p>\n<p><strong>Como podemos nos recuperar?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma perspectiva muito dif\u00edcil. S \u00fanica\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lifegate.com\/green-recovery-sustainability-after-covid\">recupera\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel<\/a>\u00a0poss\u00edvel \u00e9 uma que se afaste radicalmente dos princ\u00edpios do neoliberalismo e envolva um grande grau de interven\u00e7\u00e3o do Estado. A quest\u00e3o \u00e9: ser\u00e1 que a interven\u00e7\u00e3o estatal vai ser progressiva, inclinada a uma dire\u00e7\u00e3o socialista, ou repressiva, inclinando-se numa dire\u00e7\u00e3o fascista?<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia explicar seu \u201ccaminho alternativo\u201d para substituir um sistema neoliberal moribundo? O que voc\u00ea quer dizer com \u201cdesglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Vejo tr\u00eas caminhos poss\u00edveis sendo oferecidos \u00e0s pessoas para sair da crise atual. Uma \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais, o que ser\u00e1 muito dif\u00edcil, pois elas simplesmente n\u00e3o produzir\u00e3o nada al\u00e9m de uma maior desigualdade, que as pessoas n\u00e3o aceitar\u00e3o mais. Uma segunda via \u00e9 a progressista, pela qual h\u00e1 uma maior interven\u00e7\u00e3o do Estado no contexto da democratiza\u00e7\u00e3o das tomadas de decis\u00e3o econ\u00f4micas, do empoderamento popular, de maior igualdade e da ado\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lifegate.com\/climate-change-risks-opportunities-businesses\">pol\u00edticas econ\u00f4micas ecologicamente sustent\u00e1veis<\/a>.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, t\u00eam surgido muitas pol\u00edticas e paradigmas empolgantes, propostos com esses fins, como o decrescimento, soberania alimentar e desglobaliza\u00e7\u00e3o. Eu gosto muito da desglobaliza\u00e7\u00e3o, que busca tornar a demanda dom\u00e9stica \u2014 criada por meio de medidas igualit\u00e1rias \u2014 a pe\u00e7a central da economia. Outro objetivo \u00e9 proteger a ind\u00fastria, a agricultura e o emprego de deslocamentos criados por importa\u00e7\u00f5es industriais e agr\u00edcolas n\u00e3o controladas.<\/p>\n<p>A terceira via, e a mais preocupante, \u00e9 a via fascista. Aqui, a interven\u00e7\u00e3o estatal na economia ocorre no contexto de uma pol\u00edtica que sequestra de forma oportunista as medidas de bem-estar social associadas \u00e0 esquerda. No entanto \u2014 e isso \u00e9 crucial \u2014 afirma que apenas aqueles com a cor de pele \u201ccerta\u201d, que prov\u00eam do grupo \u00e9tnico \u201ccerto\u201d ou que pertencem \u00e0 cultura \u201ccerta\u201d merecem desfrutar dessas medidas. Minorias e imigrantes passam a ser bodes expiat\u00f3rios, apontados como a fonte dos problemas e da desordem sociais. A corrida para substituir um neoliberalismo moribundo est\u00e1 entre a op\u00e7\u00e3o progressista e a via fascista.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea foca na psicologia das massas para entender os fen\u00f4menos sociais. O que acha que est\u00e1 acontecendo hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2008, as pessoas ficaram chocadas quando veio a crise financeira, ap\u00f3s quase duas d\u00e9cadas de relativa tranquilidade. Embora a desigualdade estivesse crescendo por baixo da superf\u00edcie, o p\u00fablico n\u00e3o estava t\u00e3o alienado assim do sistema capitalista neoliberal. Hoje as coisas s\u00e3o diferentes. No Norte global, as pessoas est\u00e3o ficando cansadas. E no Sul, \u00e9 claro, os programas cont\u00ednuos de ajuste estrutural neoliberal do FMI e do Banco Mundial, que v\u00eam sendo aplicados desde o final da d\u00e9cada de 1970, fizeram com que muito poucas pessoas tenham qualquer esperan\u00e7a de desenvolvimento sob o neoliberalismo. O otimismo popular e din\u00e2mico que existia na era da descoloniza\u00e7\u00e3o, entre os anos 50 e 70, se extinguiu.<\/p>\n<p>\u2013 A extrema direita vem se aproveitando do descontentamento mundial em diversos continentes e voc\u00ea v\u00ea semelhan\u00e7as com a d\u00e9cada de 1930. Pode nos dizer quais s\u00e3o? Como podemos inibir um ressurgimento repressivo desses?<\/p>\n<p>Infelizmente, na atualidade, a extrema-direita \u00e9 a que est\u00e1 melhor posicionada para tirar proveito do descontentamento global. Isso ocorre porque, mesmo antes da pandemia, os partidos de extrema direita j\u00e1 vinham selecionando de forma oportunista certos elementos anti-neoliberais e de programas da esquerda independente, mas colocando-os dentro de uma gestalt de direita (num \u201ctodo organizado\u201d). Exemplos dessa tend\u00eancia incluem a cr\u00edtica \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, expans\u00e3o do estado de bem-estar e maior interven\u00e7\u00e3o estatal na economia. Ent\u00e3o, na Europa, voc\u00ea v\u00ea partidos radicais de direita \u2014 entre eles, o Rally Nacional de Marine Le Pen (anteriormente Frente Nacional) na Fran\u00e7a, o Partido do Povo Dinamarqu\u00eas, o Partido da Liberdade da \u00c1ustria, o Partido Fidesz de Viktor Orban na Hungria \u2013 que se livram apenas da parte antiga dos programas neoliberais que defendiam a liberaliza\u00e7\u00e3o e uma menor tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, passaram a proclamar que s\u00e3o a favor do estado de bem-estar e de maior prote\u00e7\u00e3o da economia contra compromissos internacionais, mas exclusivamente para o benef\u00edcio das pessoas com \u201ccor de pele certa\u201d, \u201ccultura certa\u201d, \u201cetnia certa\u201d, \u201creligi\u00e3o certa\u201d. Essencialmente, \u00e9 a antiga f\u00f3rmula nacional-socialista de inclus\u00e3o de classes, mas racial e culturalmente exclusivista, cujo expoente absoluto, hoje em dia, \u00e9 Donald Trump. Infelizmente, isso funciona em nossos tempos conturbados, como mostra a inesperada s\u00e9rie de sucessos eleitorais da extrema direita que piratearam grandes setores de base da classe trabalhadora da social-democracia.<\/p>\n<p>E a extrema-direita na \u00c1sia?<\/p>\n<p>Surgiram dois l\u00edderes no Sul global que ilustram facetas da din\u00e2mica de extrema-direita de forma muito mais evidente do que no Norte. O Presidente Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e o Primeiro Ministro da \u00cdndia, Narendra Modi, pertencem \u00e0 extrema-direita. Eles s\u00e3o muito populares; em parte, porque souberam se aproveitar do descontentamento das pessoas com as falhas da democracia liberal, especialmente na lacuna entre suas promessas de igualdade e a realidade de profunda desigualdade e pobreza. S\u00e3o indiv\u00edduos carism\u00e1ticos que convenceram grande parte da popula\u00e7\u00e3o de que seus programas antiliberais seriam a solu\u00e7\u00e3o para os males da sociedade. Estamos testemunhando um paradoxo no qual elei\u00e7\u00f5es livres confirmam enfaticamente o seu poder e levam o poder a estar cada vez mais concentrado em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Como a esquerda poderia se reconectar com o povo?<\/p>\n<p>Antes de tudo, acho que devemos admitir que, apesar do nosso lado ter muitas boas ideias para transformar o mundo, na pr\u00e1tica, essas ideias n\u00e3o foram traduzidas para as massas cr\u00edticas. Assim como a direita aprendeu com a esquerda, talvez dev\u00eassemos ver se tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 li\u00e7\u00f5es que o sucesso da direita ofere\u00e7a \u00e0 esquerda. A Hist\u00f3ria \u00e9 um movimento dial\u00e9tico complexo e, muitas vezes, h\u00e1 desenvolvimentos inesperados. Estes podem gerar oportunidades para que pessoas corajosas o suficiente saibam aproveit\u00e1-las, para pensar fora da caixa; e tamb\u00e9m para aqueles dispostos a entrar no navio da imprevis\u00edvel navega\u00e7\u00e3o rumo ao poder. Existem muitas pessoas assim na esquerda, especialmente entre as gera\u00e7\u00f5es mais jovens.<\/p>\n<p>A nova esquerda precisa enfrentar a realidade de que a raz\u00e3o \u2014 que sempre foi seu forte \u2014 \u00e9 de valor limitado hoje em dia, quando se trata de conquistar o poder pol\u00edtico necess\u00e1rio para reestruturar a sociedade. Al\u00e9m disso, deve reconsiderar o lugar das emo\u00e7\u00f5es na pol\u00edtica, algo de que sempre suspeitou; geralmente, com raz\u00e3o. A esquerda consegue comprometer-se com sua antiga cren\u00e7a no eleitor racional, ou no cidad\u00e3o racional, e manter-se fiel aos seus valores? Quando Antonio Gramsci diz \u201cpessimismo da raz\u00e3o, otimismo da vontade\u201d, acho que se refere a esse compromisso. Mas, talvez, a curto prazo, a li\u00e7\u00e3o que a esquerda deveria aprender \u00e9 que a hist\u00f3ria \u00e9 implac\u00e1vel e raramente tolera cometer o mesmo erro duas vezes. Se os progressistas permitirem novamente que social-democratas desacreditados na Europa, e democratas como Obama e Biden nos EUA, arrastarem a pol\u00edtica progressista de volta a um novo compromisso com um neoliberalismo moribundo, as consequ\u00eancias poder\u00e3o ser verdadeiramente fatais.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 travou muitas batalhas em nome dos direitos humanos. Como ainda encontra for\u00e7as e esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>Para ser sincero, hoje em dia, passo por s\u00e9rios momentos de d\u00favida quando vejo pessoas indo para a direita. Me pergunto: estou no caminho certo? \u00c9 muito natural experimentar momentos de d\u00favida. Mas \u00e9 nesses momentos, quando nossos valores progressistas s\u00e3o atacados ou ridicularizados, que somos testados e nos deparamos com a op\u00e7\u00e3o de nos afastar deles e ficar calados, ou afirm\u00e1-los. \u00c9 quando os valores progressistas n\u00e3o s\u00e3o populares que o teste real chega at\u00e9 n\u00f3s. Mas, tamb\u00e9m estou ciente das minhas limita\u00e7\u00f5es e de minha gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o de 1968, que dominou a esquerda global desde o final dos anos sessenta at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000. Sei que estamos trabalhando com paradigmas antigos e datados de an\u00e1lise e organiza\u00e7\u00e3o \u2013 ou ser\u00e1 que estamos presos neles? Precisaremos de l\u00edderes da gera\u00e7\u00e3o atual para nos levar adiante, pessoas mais jovens, capazes de fazer o que n\u00e3o conseguimos, e que podem surgir em circunst\u00e2ncias n\u00e3o-ortodoxas e imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"JnDUeU3XHY\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrapolitica\/caminhos-para-enterrar-um-sistema-moribundo\/\">Caminhos para enterrar um sistema moribundo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Caminhos para enterrar um sistema moribundo&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrapolitica\/caminhos-para-enterrar-um-sistema-moribundo\/embed\/#?secret=L5nMfmdkpr#?secret=JnDUeU3XHY\" data-secret=\"JnDUeU3XHY\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walden Bello &#8211;\u00a0A autofagia dos neoliberais produziu duas grandes crises em menos de 20 anos e abriu caminho ao fascismo. Mas, para criar novas rebeldias e sonhos coletivos, a raz\u00e3o e boas ideias n\u00e3o bastar\u00e3o \u2014 ser\u00e1 preciso tamb\u00e9m mobilizar emo\u00e7\u00f5es. Walden Bello: uma vida vivida em nome dos direitos humanos. 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