{"id":1384,"date":"2016-07-28T17:00:34","date_gmt":"2016-07-28T20:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1384"},"modified":"2016-07-25T10:04:37","modified_gmt":"2016-07-25T13:04:37","slug":"casa-e-onde-nao-tem-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/28\/casa-e-onde-nao-tem-fome\/","title":{"rendered":"Casa \u00e9 onde n\u00e3o tem fome"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; A hist\u00f3ria da fam\u00edlia de ribeirinhos que, depois de expulsa por Belo Monte, nunca consegue chega<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas, o pescador sem rio e sem letras, n\u00e3o consegue chegar em casa. Desde que ele e sua fam\u00edlia foram expulsos de sua ilha pela hidrel\u00e9trica deBelo Monte, Ot\u00e1vio j\u00e1 est\u00e1 na terceira casa. Mas n\u00e3o consegue chegar. Porque para ele aquela terceira ainda n\u00e3o \u00e9 uma casa. Como n\u00e3o era a primeira nem era a segunda. Sem casa, Ot\u00e1vio n\u00e3o tem mundo. Sem mundo, um homem n\u00e3o tem onde pisar. Os conhecidos avisam: voc\u00ea j\u00e1 viu, seu Ot\u00e1vio est\u00e1 encolhendo. E ele est\u00e1, porque \u00e9 isso o que acontece com os homens sem mundo.<\/p>\n<p>O que \u00e9 uma casa \u00e9 a pergunta que atravessa a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Xingu, no Estado do Par\u00e1. A pergunta que n\u00e3o foi feita no cadastro nem em momento algum. \u00c9 a pergunta que diz quem aquela pessoa \u00e9. E onde ela precisa viver para ser o que \u00e9. Quando \u00e9 o empreendedor, o novo nome do colonizador na Amaz\u00f4nia, que determina o que \u00e9 uma casa, com base no seu mundo e nas suas refer\u00eancias, em geral forjadas na realidade bem diversa do centro-sul do Brasil, a viol\u00eancia se instala. E vidas s\u00e3o aniquiladas.<\/p>\n<p>Acompanho Ot\u00e1vio das Chagas desde 2014. Naquele momento, ele, sua mulher Maria e os nove filhos estavam na primeira casa que n\u00e3o podia ser casa. Uma casa de madeira alugada numa periferia violenta de Altamira. Em 2015, mudaram-se para uma \u201cunidade\u201d de Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), nome dos conjuntos habitacionais padronizados que a Norte Energia construiu para abrigar as v\u00edtimas de \u201cremo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria\u201d. Em 2016, dividiram-se: os dois filhos mais velhos permaneceram na casa padronizada, um deles j\u00e1 com sua pr\u00f3pria fam\u00edlia; Ot\u00e1vio, Maria e os filhos mais jovens transferiram-se para uma casa doada por um grupo de austr\u00edacos que se comoveu com as tribula\u00e7\u00f5es do pescador sem rio e sem letras.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Todas as vezes em que bati em cada uma das tr\u00eas portas, eles passavam fome \u2013 mas a fome n\u00e3o se deixa escrever<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Todas as vezes em que bati em cada uma das tr\u00eas portas, eles passavam fome. Tinham teto, mas passavam fome. Era oficialmente uma casa, mas passavam fome. Em todas as vezes, s\u00f3 havia \u00e1gua na geladeira. Na semana passada, havia tamb\u00e9m uma cebola pequena. Fome \u00e9 algo que fracasso em descrever. A fome n\u00e3o se escreve. Carolina Maria de Jesus (1914-1977), a escritora brasileira que conhecia a fome, escreveu: \u201cA fome \u00e9 amarela\u201d.<\/p>\n<p>Maria, a m\u00e3e, tenta fazer caber nas palavras o que sente quando chega a passar at\u00e9 dois dias sem comer: \u201cD\u00e1 uma dor no est\u00f4mago, uma tontice\u201d. \u00c9 uma pista, mas ainda n\u00e3o \u00e9 a fome por escrito. \u201cEu n\u00e3o sei o que fazer quando as crian\u00e7as ficam pedindo por comida\u201d, ela continua. \u00c9 outra pista, mas ainda n\u00e3o \u00e9 a fome por escrito. Jamais ser\u00e1. A fome \u00e9 algo t\u00e3o avassalador que irredut\u00edvel \u00e0s palavras. Encaro os olhos fundos de Adriano, o menino de sete anos, e entendo sem letras. Entendo, mas sigo sem alcan\u00e7ar. Meu olhar n\u00e3o afunda nos olhos de po\u00e7o, me falta a experi\u00eancia. Adriano \u00e9 mais uma doce crian\u00e7a com olhos de velho deste mundo. Quando o encontrei na segunda casa, a do RUC, em 2015, era o dia do seu anivers\u00e1rio. E n\u00e3o havia sequer um peda\u00e7o de p\u00e3o para Adriano comer.<\/p>\n<p>Casa \u00e9 onde n\u00e3o tem fome, eles me ensinam. Se tem fome, \u00e9 s\u00f3 teto.<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas e sua fam\u00edlia viviam h\u00e1 mais de 30 anos na Ilha de Maria, uma das centenas de ilhas do Xingu. Viver talvez n\u00e3o seja a palavra exata. Eles pertenciam \u00e0 ilha de Maria. \u00c9 inversa essa quest\u00e3o da posse. E n\u00e3o apenas por quest\u00f5es da lei. Mas porque \u00e9 a ilha que se apossa das pessoas, que lhes conforma o corpo e a exist\u00eancia, que lhes desenha a arquitetura do tempo. Na ilha, Ot\u00e1vio, Maria e seus filhos sabiam. Quando expulsos para a \u201crua\u201d, nome que os ribeirinhos agroextrativistas de v\u00e1rias regi\u00f5es amaz\u00f4nicas d\u00e3o \u00e0 \u201ccidade\u201d, s\u00e3o esvaziados de saber. Assim, essas casas, na \u201crua\u201d, ser\u00e3o de certo modo sempre \u201crua\u201d \u2013 e n\u00e3o casa.<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas explica: \u201cPra ro\u00e7ar uma juquira, pra trabalhar de ro\u00e7a, pra toda coisa de mato, eu sou profissional. Peixe, eu sou profissional tamb\u00e9m. Mas pras coisas da rua, a gente n\u00e3o sabe. Meus menino ainda sabe ler, mas \u00e9 s\u00f3 uma coisinha. N\u00e3o tem vida pra n\u00f3s aqui\u201d. Maria completa: \u201cAqui na rua \u00e9 tudo no dinheiro. Se n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e3o come. At\u00e9 a \u00e1gua \u00e9 paga, todo m\u00eas 120 real\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Para quem teve sua ilha afogada, viu sua mem\u00f3ria virar \u00e1gua, restou apenas o territ\u00f3rio do pr\u00f3prio corpo, onde perseguem cicatrizes para provar que existem<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Quando s\u00e3o expulsos da ilha a qual pertencem, Ot\u00e1vio, Maria e seus filhos j\u00e1 n\u00e3o reconhecem nem se reconhecem, porque a ilha era tamb\u00e9m espelho. Se algu\u00e9m \u00e9 obrigado a deixar sua terra por conta de uma guerra, de um terremoto ou da fome, haver\u00e1 sempre a terra que ficou, haver\u00e1 ru\u00ednas, haver\u00e1 os mortos ali enterrados para dar conta do que foram, mesmo que nunca possam voltar. Ot\u00e1vio, Maria e seus filhos perderam a materialidade do que viveram, a mem\u00f3ria f\u00edsica do que eram, do que s\u00e3o. Tudo o que dizia deles virou \u00e1gua pela for\u00e7a de Belo Monte. Da ilha afogada n\u00e3o h\u00e1 sequer um retrato. Restou a eles apontar as cicatrizes que documentam uma vida no \u00fanico territ\u00f3rio que lhes restou: o do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, eles pisam \u201cna rua\u201d, mas n\u00e3o encontram o ch\u00e3o. Essa experi\u00eancia desestruturante \u00e9 de dif\u00edcil compreens\u00e3o para aqueles que sempre t\u00eam para onde voltar. \u00c9 penosa de entender mesmo quando se quer entender. Mas quando os colonizadores sequer percebem que \u00e9 necess\u00e1rio compreender, caso dos protagonistas da hidrel\u00e9trica, seja como governo, seja como empresa, resta s\u00f3 a viol\u00eancia. E ela vai matando aos poucos.<\/p>\n<p>Quando foi expulso, em 2012, Ot\u00e1vio assinou com o dedo pap\u00e9is que n\u00e3o era capaz de ler. Seus filhos assinaram por ele pap\u00e9is que n\u00e3o eram capazes de ler. Receberam 12.994,02 reais como indeniza\u00e7\u00e3o. Sua casa n\u00e3o foi considerada uma casa. N\u00e3o cabia no conceito de casa do empreendedor. Quando a \u201cremo\u00e7\u00e3o\u201d dos habitantes das ilhas, das beiras e dos baix\u00f5es, assim como das terras rurais, foi determinada, n\u00e3o havia defensoria p\u00fablica na regi\u00e3o. O Governo de Dilma Rousseff abandonou a popula\u00e7\u00e3o do Xingu sem qualquer prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica na maior obra do setor el\u00e9trico do pa\u00eds, \u00e0 merc\u00ea dos advogados da Norte Energia, uma viola\u00e7\u00e3o de direitos que manchar\u00e1 para sempre a biografia da presidente hoje afastada. Ot\u00e1vio e sua fam\u00edlia foram jogados num dos bairros mais violentos da periferia de Altamira, onde pagavam um aluguel que, junto com a doen\u00e7a de uma das filhas, comeu o dinheiro em meses. A casa alugada foi a primeira <em>n\u00e3o-casa<\/em>.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"A primeira n\u00e3o-casa: a fam\u00edlia de Ot\u00e1vio das Chagas na casa alugada na periferia de Altamira, em novembro de 2014.\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468851942_sumario_normal.jpg?resize=640%2C406\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468851942_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468851942_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468851942_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A primeira n\u00e3o-casa: a fam\u00edlia de Ot\u00e1vio das Chagas na casa alugada na periferia de Altamira, em novembro de 2014.\" width=\"640\" height=\"406\" \/><\/p>\n<p><em>A primeira n\u00e3o-casa: a fam\u00edlia de Ot\u00e1vio das Chagas na casa alugada na periferia de Altamira, em novembro de 2014<\/em><\/p>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas n\u00e3o entende uma casa que ele mesmo n\u00e3o bota em p\u00e9: \u201cEu n\u00e3o sei trabalhar de pedreiro. Mas eu sei fazer uma casa nossa. A senhora sabe o que \u00e9 uma casa coberta de cavaco? Aquelas eu sei fazer\u201d. E descreve em detalhes como se constr\u00f3i \u201cuma casa boa e bem-feita\u201d, como a que tinha na ilha e que n\u00e3o foi reconhecida como casa pelo empreendedor. Esta casa, que a cada cheia do rio ele precisava reconstruir, assim foi descrita em despacho da Norte Energia: \u201cestrutura rudimentar de madeira com cobertura de palha\u201d. Para compreender o que \u00e9 uma casa, em toda a sua inteireza, \u00e9 necess\u00e1rio escutar os ribeirinhos com mais aten\u00e7\u00e3o: a casa n\u00e3o \u00e9 uma \u201cestrutura\u201d, apenas, mas algo mais extenso no qual \u00e9 abarcado todo o seu entorno, as \u00e1rvores, a ro\u00e7a, a mata, o rio. A casa \u00e9 fora e dentro \u2013 \u00e9 um amplo e um tudo.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Casa \u00e9 fora e dentro, \u00e9 um amplo e um tudo, \u00e9 onde se faz la\u00e7os que garantam a sobreviv\u00eancia e tamb\u00e9m a alegria<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Maria explica: \u201cL\u00e1 na ilha a gente tinha tudo, a gente tinha fruteira, a gente tinha peixe, a gente tinha ca\u00e7a, a gente tinha ro\u00e7a, a gente tinha rem\u00e9dio do mato, a gente tinha \u00e1gua, a gente tinha vizinho, a gente tinha sombra, a gente brincava, no s\u00e1bado vinha gente de todo lado, os homem jogava futebol, as mulher tratava o peixe, assava e brincava. L\u00e1 na ilha a gente tinha fartura. Aqui, n\u00f3s compra banana e qualquer pouquinho \u00e9 um pre\u00e7o doido. L\u00e1 n\u00f3s tinha tanta banana que jogava pros bicho\u201d. A casa n\u00e3o \u00e9 apenas uma \u201cestrutura rudimentar de madeira com cobertura de palha\u201d, como descrita pelo etnocentrismo do empreendedor. O conceito de casa \u00e9 estendido. Casa \u00e9 onde n\u00e3o se passa fome, \u00e9 onde se faz la\u00e7os que garantam a sobreviv\u00eancia e tamb\u00e9m a alegria.<\/p>\n<p>Com a chegada bem tardia da Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o \u00e0 cidade de Altamira, no in\u00edcio de 2015, Ot\u00e1vio das Chagas recebeu uma das casas padronizadas, constru\u00eddas pelo empreendedor sem qualquer respeito ao conceito de casa daquela popula\u00e7\u00e3o. As unidades padronizadas poderiam estar em qualquer lugar, na Amaz\u00f4nia ou na serra ga\u00facha. S\u00e3o gen\u00e9ricas. As v\u00edtimas de \u201cremo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria\u201d foram l\u00e1 jogadas sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em manter as rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a e os la\u00e7os comunit\u00e1rios, essenciais para a sobreviv\u00eancia e para a preserva\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria comum. Esse cuidado que n\u00e3o houve poderia ter desempenhado um papel essencial ao reconhecimento m\u00fatuo num momento t\u00e3o desestabilizador para as fam\u00edlias atingidas.<\/p>\n<p>Nesta casa gen\u00e9rica, onde a fam\u00edlia n\u00e3o cabia inteira, apenas se amontoava, nesta casa \u201cabafada\u201d, Ot\u00e1vio das Chagas me pediu um dia para desenhar um mapa do Brasil, para mostrar de onde eu vinha. Onde era a minha ilha, meu pertencimento. Desenhei um mapa mal desenhado. E percebi que ele continuava perdido. Mesmo que eu desenhasse mil mapas perfeitos, ele seguiria perdido, porque sua ilha j\u00e1 n\u00e3o estava nele. Sua ilha afogada j\u00e1 n\u00e3o existia no Brasil.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"A segunda n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas e a mulher Maria numa unidade de Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), na periferia de Altamira, em setembro de 2015, com as plantas que restaram\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852024_sumario_normal.jpg?resize=640%2C400\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852024_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852024_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852024_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A segunda n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas e a mulher Maria numa unidade de Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), na periferia de Altamira, em setembro de 2015, com as plantas que restaram\" width=\"640\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p><em>A segunda n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas e a mulher Maria numa unidade de Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), na periferia de Altamira, em setembro de 2015, com as plantas que restaram<\/em><\/p>\n<p>Naquele momento, as crian\u00e7as menores n\u00e3o frequentavam a escola, porque tinham medo de \u00f4nibus. Elas s\u00f3 conheciam canoa. Quando viviam na ilha, um barco passava para entreg\u00e1-las \u00e0 professora. Enquanto sofriam de fome naquela casa gen\u00e9rica, um carro de som passava anunciando aos berros que Belo Monte \u201c\u00e9 energia limpa e sustent\u00e1vel\u201d. H\u00e1 uma pervers\u00e3o no uso das palavras. Para muitos, as hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia ainda s\u00e3o \u201cenergia limpa e sustent\u00e1vel\u201d. Para estes, as vidas que o processo engole n\u00e3o contam. Nunca contaram. \u00c9 sempre f\u00e1cil pedir o sacrif\u00edcio dos outros.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Assaltados na terceira casa, Ot\u00e1vio das Chagas e sua fam\u00edlia vivem agora trancados e com medo<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Na terceira casa, Ot\u00e1vio das Chagas, Maria e seus filhos quase perderam a vida. Os sentidos do viver, o reconhecimento de um saber sobre a floresta, a valoriza\u00e7\u00e3o de um conhecimento do rio, a possibilidade de sobreviver pelas pr\u00f3prias m\u00e3os j\u00e1 tinham sido destru\u00eddos pela viol\u00eancia do processo de Belo Monte. Mas, em 2 de julho, eles se sentavam \u00e0 porta da casa, um h\u00e1bito da ilha que ainda mantinham, quando homens armados a invadiram.<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio conta: \u201cEra seis hora da tarde. Porque n\u00f3s moremo toda vida assim no mato e \u00e9 a morada que eu me acostumo. Eu n\u00e3o me acostumo com a morada num lugar desse. A\u00ed, quando \u00e9 seis hora da tarde n\u00f3s senta ali na frente da casa na morada no mato. N\u00e3o tem perigo nenhum. Mas aqui, num lugar desse&#8230;\u201d. Botaram um rev\u00f3lver na cabe\u00e7a de Edilardo, o filho de 24 anos. Marisa, de 10, correu e foi pega por outro. O assaltante colocou um fac\u00e3o nas costas da menina. Naquele dia, Marisa estava doente, com febre. E de repente tinha tamb\u00e9m um fac\u00e3o amea\u00e7ando cort\u00e1-la.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"A terceira n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas, Maria e os filhos menores na casa doada por uma fam\u00edlia austr\u00edaca que se comoveu com a hist\u00f3ria do pescador sem rio e sem letras, em julho de 2016\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852082_sumario_normal.jpg?resize=640%2C455\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852082_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852082_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852082_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A terceira n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas, Maria e os filhos menores na casa doada por uma fam\u00edlia austr\u00edaca que se comoveu com a hist\u00f3ria do pescador sem rio e sem letras, em julho de 2016\" width=\"640\" height=\"455\" \/><\/p>\n<p><em>A terceira n\u00e3o-casa: Ot\u00e1vio das Chagas, Maria e os filhos menores na casa doada por uma fam\u00edlia austr\u00edaca que se comoveu com a hist\u00f3ria do pescador sem rio e sem letras, em julho de 2016<\/em><\/p>\n<p>Havia pouco para roubar na casa quase nua. Levaram celulares muito simples e um \u201cdevedezinho\u201d que Ot\u00e1vio tinha comprado a presta\u00e7\u00f5es no Armaz\u00e9m Para\u00edba, no per\u00edodo em que os filhos mais velhos tiveram um emprego tempor\u00e1rio. Era a \u00fanica divers\u00e3o das crian\u00e7as na cidade, que nele assistiam a filmes piratas. Marisa tinha um da <em>Barbie<\/em>, Adriano, das <em>Tartarugas Ninjas<\/em> e do<em>Menino Lobo<\/em>. Levaram tamb\u00e9m o pagamento do m\u00eas de trabalho de Maria como dom\u00e9stica na casa de outra mulher.<\/p>\n<p>Maria lava e limpa dia ap\u00f3s dia para ganhar 400 reais no final do m\u00eas. \u00c9 a primeira vez em 62 anos de vida que ela trabalha na casa de uma outra. N\u00e3o \u00e9 simples para Maria, uma mulher do rio, que costumava passar os dias cuidando da pr\u00f3pria casa expandida. Mas \u00e9 o sal\u00e1rio de Maria que tem botado na mesa a pouca comida que os mant\u00e9m vivos. Os assaltantes levaram tudo. Quando encontrei a fam\u00edlia, alguns dias depois, Maria tinha conseguido com a patroa um adiantamento de apenas 10 reais. Seguidas vezes ela faz a limpeza toda sem ter comido nada desde o dia anterior.<\/p>\n<p>Aos 63 anos de vida ribeirinha, Ot\u00e1vio das Chagas n\u00e3o compreende a l\u00f3gica da viol\u00eancia urbana a qual \u00e9 agora submetido: \u201c\u00c9 porque eu sou uma pessoa que, gra\u00e7as a Deus, sempre fiz meus neg\u00f3cio direito. Eu n\u00e3o ando mexendo com ningu\u00e9m. Eu achei que o cara n\u00e3o tinha coragem de entrar dentro de uma casa minha pra fazer uma coisa dessa. Eu n\u00e3o dou aten\u00e7\u00e3o pra certas coisa. Se uma pessoa chega na minha porta, e eu n\u00e3o conhe\u00e7o ela nem nada, eu trato ela bem. Eu ouvia falar, assim, mas eu mesmo n\u00e3o conhecia essas coisa, n\u00e3o. No mato eu ando s\u00f3 em qualquer lugar\u201d. E Maria acrescenta: \u201cA gente s\u00f3 via essas coisa na televis\u00e3o\u201d. E Ot\u00e1vio retoma: \u201cToda vida eu falo isso e todos que conhecem n\u00f3s pode dizer: o que n\u00f3s n\u00e3o temo coragem de fazer \u00e9 pegar as coisa de ningu\u00e9m. Gra\u00e7as a Deus que para isso todo mundo tem confian\u00e7a em n\u00f3s. Por que \u00e9 que eu n\u00e3o tinha medo de ser assaltado? Porque eu n\u00e3o pego nada de ningu\u00e9m. Eu pensei que faziam o mesmo comigo. Mas n\u00e3o \u00e9 desse jeito\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Depois de ter sido arrancado da sua ilha, Edilardo foi contratado para fazer o mesmo com macacos e pregui\u00e7as. De v\u00edtima virou algoz<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Edilardo, que passou o assalto com um rev\u00f3lver na cabe\u00e7a, tem pesadelos recorrentes em que a arma \u00e9 disparada pelo assaltante e ele morre. Parece ter menos do que os seus 24 anos no corpo, parece ter mais na tristeza dos olhos. \u201cAqui na rua eu n\u00e3o me sinto muita coisa, n\u00e3o\u201d, diz. \u201cSem estudo eu sou pouco.\u201d O \u00faltimo emprego que teve o lan\u00e7ou numa fronteira cruel. Para conseguir trabalhar, Edilardo cravou na alma os arames farpados da contradi\u00e7\u00e3o. Assim como os irm\u00e3os, ele foi contratado por uma terceirizada da Norte Energia para fazer a \u201cremo\u00e7\u00e3o\u201d dos animais nas ilhas. No dia em que teve que expulsar os bichos da Ilha de Maria, a sua, ele chorou. Edilardo havia sido convertido de expulso em expulsador. De v\u00edtima em algoz. Na perversidade pragm\u00e1tica do trabalho, a vida violada viola. E os olhos de Edilardo ganharam uma dor nova:<\/p>\n<p>\u201cTudo o que n\u00f3s tinha feito a \u00e1gua tinha acabado. Planta acabou tudo. Tudo queimado. N\u00f3s passava l\u00e1 e via tudo destru\u00eddo. Era muito muito muito. \u00c9 muito triste ver uma coisa daquela acabada assim. No primeiro dia que n\u00f3s fomos pra l\u00e1 n\u00e3o vou mentir. Chorei mesmo. Chorei de verdade. Comecemo a pegar bichinho de l\u00e1, e os macaco come\u00e7aram a gritar demais. N\u00e3o vou mentir, teve uns que morreu. Morreu porque ia pegar e ca\u00eda na \u00e1gua. Cortava a \u00e1rvore de motosserra, com eles nos galho, tinha muito que morria afogado. Os paus ca\u00eda tudo em cima, afogava. Teve deles que a gente salvava, tinha muitos que morria. Era muita judia\u00e7\u00e3o. Pregui\u00e7a tamb\u00e9m, muitas morria. Paca, queixada, cotia&#8230; Tinha bicho que tentava atravessar a nado, mas tava fraco, tava com fome. N\u00e3o conseguia. Pra pegar, n\u00e3o vou mentir, a gente quase enforcava eles, porque com fome e medo, eles mordia. Se n\u00e3o pegasse assim, n\u00f3s n\u00e3o conseguia botar na caixa de madeira pra entregar pros bi\u00f3logo. Eles soltava os bicho l\u00e1 do outro lado, mas acho que l\u00e1, fraco do jeito que tava, os bicho morria tamb\u00e9m. Chorei no primeiro dia. Eu ainda n\u00e3o tinha visto como tinha ficado. Depois que vi, chorei. Ver um neg\u00f3cio daquele jeito e saber que n\u00e3o volta mais de jeito nenhum fica muito dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>Maria interrompe: \u201cN\u00f3s passa l\u00e1 na nossa ilha e s\u00f3 tem uns peda\u00e7o de pau no meio da \u00e1gua. D\u00e1 vontade de abra\u00e7ar um peda\u00e7o de pau e ficar agarrada ali a vida toda\u201d.<\/p>\n<p>Edilardo conclui: \u201cO que aconteceu com n\u00f3s \u00e9 tipo o mundo ter acabado. Assim, ter virado a p\u00e1gina\u201d.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo eu parto, no final da tarde, eles fecham a casa que n\u00e3o \u00e9 casa. Trancam-se num calor que ultrapassa os 30 graus \u00e0 noite. Logo depois, dois homens batem. Pedem um cigarro. Eles n\u00e3o fumam. Pedem \u00e1gua. Eles n\u00e3o d\u00e3o. Dentro de casa, eles temem ser alvejados. \u201cDo jeito que n\u00f3s \u00e9 unido, se mata um acaba a fam\u00edlia\u201d, diz Edilardo. A casa \u00e9 cada vez menos casa, cada vez mais toca. Assim como os bichos eram acuados para a \u00fanica parte da ilha ainda n\u00e3o devastada, com fome e com medo, para que se tornasse mais f\u00e1cil captur\u00e1-los, tamb\u00e9m eles est\u00e3o ali. Encurralados, s\u00f3 que \u201cna rua\u201d. Jogados num outro canto, onde fracos e com fome tamb\u00e9m n\u00e3o conseguem viver, assaltados pelos mais fortes e mais bem adaptados ao cotidiano de viol\u00eancia e precariedades de uma cidade em que o esgoto escorre a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Encurralado: Edilardo foi feito ref\u00e9m em um assalto \u00e0 casa, rev\u00f3lver na cabe\u00e7a, e agora tem pesadelos recorrentes de que \u00e9 assassinado\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852153_sumario_normal.jpg?resize=360%2C270\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852153_sumario_normal_recorte1.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522_1468852153_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Encurralado: Edilardo foi feito ref\u00e9m em um assalto \u00e0 casa, rev\u00f3lver na cabe\u00e7a, e agora tem pesadelos recorrentes de que \u00e9 assassinado\" width=\"360\" height=\"270\" \/><\/p>\n<section id=\"sumario_10|foto\" class=\"sumario_foto derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\"><em>Encurralado: Edilardo foi feito ref\u00e9m em um assalto \u00e0 casa, rev\u00f3lver na cabe\u00e7a, e agora tem pesadelos recorrentes de que \u00e9 assassinado<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas olha para as m\u00e3os e se envergonha: \u201cEst\u00e3o ficando fininhas\u201d. No mundo que ele conhece e que o reconhece, homem de m\u00e3os finas \u00e9 homem que n\u00e3o trabalha. Ot\u00e1vio se envergonha mais. Ele sofre porque \u201cna rua\u201d ningu\u00e9m precisa do que ele sabe fazer, ningu\u00e9m quer saber o que ele sabe. Est\u00e1 doente. Me mostra dois exames em que os indicadores revelam uma pr\u00f3stata bem alterada, mas n\u00e3o consegue m\u00e9dico para interpret\u00e1-los. Quando a dor \u00e9 muita, ele compra uma caixa de 10 comprimidos de Finasterida, \u201cpra ir passando\u201d.<\/p>\n<p>Quase todo dia ele caminha com suas dores e com sua fome por quase uma hora, debaixo do sol amaz\u00f4nico, para visitar Antonia Melo na organiza\u00e7\u00e3o Xingu Vivo Para Sempre. Antonia \u00e9 a maior lideran\u00e7a popular da regi\u00e3o. Para Ot\u00e1vio, ela \u00e9 o \u00fanico ponto de refer\u00eancia em territ\u00f3rio desconhecido e hostil. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/09\/14\/opinion\/1442235958_647873.html\">Antonia perdeu sua pr\u00f3pria casa, destru\u00edda por Belo Monte<\/a> numa sequ\u00eancia de cenas que lembram um terremoto. Mas, para Ot\u00e1vio das Chagas, Antonia <em>\u00e9<\/em> uma casa. Ele vai l\u00e1 para ser visto, para saber que existe. Ot\u00e1vio se reconhece nos olhos de Antonia e ent\u00e3o empreende o caminho de volta. Sempre que se afasta dela, parece ficar mais longe de si mesmo. Empreende sua viagem sem retorno com suas dores e com sua fome, mas um pouco menos partido.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Quem pode dizer quem \u00e9 aquele que \u00e9?<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas tentou, mas, como tem acontecido com tantos, n\u00e3o foi reconhecido como ribeirinho. Nem com direito a ser reassentado junto ao reservat\u00f3rio da usina. \u00c9 a Norte Energia quem diz quem ele \u00e9, quem tantos s\u00e3o. N\u00e3o a vida, n\u00e3o a hist\u00f3ria, n\u00e3o a mem\u00f3ria, n\u00e3o o conhecimento produzido sobre o tema nas melhores universidades do Brasil. Mas o empreendedor. Mas quem pode dizer quem \u00e9 aquele que \u00e9?<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio, o homem que parece encolher, resiste. Anuncia que voltar\u00e1 para o rio de qualquer modo porque viver \u00e9 preciso. E ele s\u00f3 sabe viver se navegar. Nas \u00e1guas do Xingu. \u201cEu n\u00e3o sei andar de carro, eu n\u00e3o sei andar de moto, eu n\u00e3o sei andar de bicicleta, n\u00e3o vou lhe mentir. Mas de canoa eu sou profissional, todo mundo me conhece como profissional do rio\u201d. Como a ilha morreu afogada, Ot\u00e1vio promete se plantar numa beira do rio e ficar. Desta vez, usar\u00e1 as unhas para fincar na terra se for preciso. \u201cAqui, tudo \u00e9 de acordo pra ir pro mato mais eu de novo\u201d.<\/p>\n<p>Ot\u00e1vio das Chagas est\u00e1 vivo porque ainda n\u00e3o desistiu de encontrar o caminho de casa.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/18\/opinion\/1468850872_994522.html?id_externo_rsoc=FB_CC<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; A hist\u00f3ria da fam\u00edlia de ribeirinhos que, depois de expulsa por Belo Monte, nunca consegue chega Ot\u00e1vio das Chagas, o pescador sem rio e sem letras, n\u00e3o consegue chegar em casa. 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