{"id":13835,"date":"2020-07-30T18:13:04","date_gmt":"2020-07-30T21:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13835"},"modified":"2020-07-28T18:20:23","modified_gmt":"2020-07-28T21:20:23","slug":"requiem-por-uma-utopia-defunta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/07\/30\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/","title":{"rendered":"R\u00e9quiem por uma utopia defunta"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Trinta anos depois de se tornarem pot\u00eancia imperial, EUA v\u00e3o \u00e0s urnas. Seu poder j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ilimitado; a \u201cnova ordem\u201d que quiseram impor dissolve-se; e at\u00e9 a tentativa, liderada por Trump, de negar tudo o que fora dito, j\u00e1 parece naufragar.<\/span><\/p>\n<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<blockquote><p>I\u2019m not even here to persuade you<br \/>\nthat the liberal international order<br \/>\nis necessarily all bad.<br \/>\nI\u00b4m just here to persuade you that it\u00b4s over<\/p>\n<p><strong>Niall Ferguson.\u00a0<\/strong><strong>The end of the liberal order<\/strong><br \/>\nLondon: Oneworld Book, 2017, p. 6<\/p><\/blockquote>\n<p>Tudo come\u00e7ou na madrugada do dia 10 de novembro de 1989, quando se abriram os port\u00f5es que dividiam a cidade de Berlim. Depois, como se fosse um castelo de cartas, ca\u00edram os regimes comunistas da Europa Central, dissolveu-se o Pacto de Vars\u00f3via, reunificou-se a Alemanha, e desintegrou-se a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E o fim da Guerra Fria foi comemorado com se fosse a vit\u00f3ria definitiva da \u201cdemocracia\u201d, do \u201clivre mercado\u201d, e de uma nova \u201cordem \u00e9tica internacional\u201d, orientada pela t\u00e1bua dos \u201cdireitos humanos\u201d.<\/p>\n<p>Trinta anos depois, entretanto, o panorama mundial mudou radicalmente. A velha \u201cgeopol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es\u201d voltou a ser a b\u00fassola do sistema mundial; o nacionalismo econ\u00f4mico voltou a ser praticado pelas grandes pot\u00eancias; e os grandes \u201cobjetivos humanit\u00e1rios\u201d dos anos 1990 foram relegados a um segundo plano da agenda internacional. Nesses 30 anos, o mundo assistiu \u00e0 vertiginosa ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China, \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do poder militar da R\u00fassia e ao decl\u00ednio do poder global da Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n<p>Mas o mais surpreendente de tudo aconteceu no final deste per\u00edodo, quando os Estados Unidos se afastaram de seus antigos aliados europeus e voltaram-se contra os valores e as institui\u00e7\u00f5es da ordem \u201cliberal e humanit\u00e1ria\u201d que eles mesmos haviam criado, depois do fim da Guerra Fria. E todos se perguntam como foi que o mundo deu uma cambalhota t\u00e3o grande, para frente e para tr\u00e1s, em t\u00e3o pouco tempo ? E o que passar\u00e1 sgora com o mundo, depois das elei\u00e7\u00f5es presidenciais norte-americanas, de novembro de 2020?<\/p>\n<p>J\u00e1 se falou muito do papel que teve a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e seus efeitos perversos, no desencanto com a \u201cordem liberal\u201d dos 90: por que provocou um aumento geom\u00e9trico da desigualdade entre os pa\u00edses, as classes e os indiv\u00edduos; e por que ficou associada a uma sucess\u00e3o de crises econ\u00f4micas localizadas que culminaram na grande crise financeira de 2008, que contagiou a economia mundial \u2013 a partir dos Estados Unidos \u2013 pelas veias abertas pela desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados globalizados. Mas existe um outro lado deste processo de autodestrui\u00e7\u00e3o que em geral \u00e9 menos mencionado, porque envolve um aspecto essencial da forma em que foi exercida a lideran\u00e7a mundial dos Estados Unidos, durante esses 30 anos.<\/p>\n<p>A Guerra Fria terminou sem nenhum tipo de \u201cacordo de paz\u201d, e depois da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, as pot\u00eancias vitoriosas n\u00e3o definiram entre si uma nova \u201cconstitui\u00e7\u00e3o\u201d para o mundo. Antes mesmo que se pudesse colocar em pauta esse problema, a vit\u00f3ria arrasadora dos Estados Unidos na Guerra do Golfo acabou impondo a vontade americana como princ\u00edpio ordenador do \u201cnovo mundo\u201d. Por isso pode-se dizer que o \u201cbombardeio teledirigido\u201d do Iraque, em 1991, cumpriu papel an\u00e1logo ao do bombardeio at\u00f4mico de Hiroshima e Nagasaki, em 1945: foi a hora em que se definiu \u2013 simultaneamente \u2013 uma nova \u201c\u00e9tica internacional\u201d e um novo \u201cpoder soberano\u201d, respons\u00e1vel \u2013 a partir daquele momento \u2013 pela arbitragem do \u201cbem\u201d e do \u201cmal\u201d, do \u201cjusto\u201d e do \u201cinjusto\u201d no sistema internacional. Com a grande diferen\u00e7a que, em 1991 \u2013 ao contr\u00e1rio de 1945 \u2013 n\u00e3o existia no sistema mundial nenhuma outra pot\u00eancia capaz de questionar os des\u00edgnios unilaterais dos EUA. Foram 42 dias de ataques a\u00e9reos cont\u00ednuos, seguidos de uma invas\u00e3o terrestre r\u00e1pida e contundente, com poucas centenas de baixas americanas e cerca de 150 mil mortos iraquianos. A mesma forma de guerra \u201c\u00e0 dist\u00e2ncia\u201d, que depois foi utilizada na Iugosl\u00e1via, em 1998, e tamb\u00e9m nas \u201cinterven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias\u201d da OTAN na B\u00f3snia em 1995, e no Kosovo em 1999.<\/p>\n<p>Muitos perceberam que a vit\u00f3ria americana na Guerra do Golfo havia consagrado uma nova \u201cordem \u00e9tica\u201d e um novo \u201cpoder soberano\u201d, com capacidade de impor e arbitrar o novo sistema de valores em todo o mundo. Mas nem todos perceberam que esta nova ordem trazia consigo contradi\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias pr\u00f3prias de um poder global quase absoluto, sem limites capazes de impedir seu desvio na dire\u00e7\u00e3o da arbitrariedade, da arrog\u00e2ncia e do fascismo<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>, encobertas pela euforia da vit\u00f3ria e pela ades\u00e3o entusi\u00e1stica \u00e0 nova ideologia da globaliza\u00e7\u00e3o liberal. Em particular durante a administra\u00e7\u00e3o de Bill Clinton, que passou para a hist\u00f3ria como o per\u00edodo em que os Estados Unidos teriam utilizado seu poder econ\u00f4mico e for\u00e7a militar em defesa da democracia, da paz, da liberdade dos mercados e dos direitos humanos. Na pr\u00e1tica, o governo de Bill Clinton seguiu os mesmos passos do governo de George Bush (pai), os dois igualmente convencidos de que o s\u00e9culo XXI seria um \u201cs\u00e9culo americano\u201d, e que o \u201cmundo necessitava dos Estados Unidos\u201d, como costumava repetir Magdeleine Albright, sua secret\u00e1ria de Estado. Tanto foi assim que, durante os oito anos de seus dois mandatos, a administra\u00e7\u00e3o Clinton manteve um ativismo militar permanente ao lado de sua ret\u00f3rica \u201cglobalista\u201d e \u201chumanitarista\u201d. Nesse per\u00edodo, segundo Andrew Bacevitch, \u201cos Estados Unidos se envolveram em 48 a\u00e7\u00f5es militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria\u201d,<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0incluindo suas \u201cinterven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias\u201d na Som\u00e1lia em 1992-1993; na Maced\u00f4nia em 1993; no Haiti em 1994; na B\u00f3snia-Herzegovina em 1995; no Sud\u00e3o em 1998; na Iugosl\u00e1via em 1999; no Kosovo em 1999; e no Timor Oriental, tamb\u00e9m em 1999. Como observou Chalmer Johnson, importante analista internacional norte-americano:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026] entre 1989 e 2002 ocorreu uma revolu\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica do Norte com o resto do mundo. No in\u00edcio desse per\u00edodo, a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa norte-americana era basicamente uma opera\u00e7\u00e3o civil. Por volta de 2002, tudo isto mudou e os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o tinham mais uma pol\u00edtica externa; eles tinham um imp\u00e9rio militar. Durante o per\u00edodo de pouco mais do que uma d\u00e9cada (anos 1990), nasceu um vasto complexo de interesses e projetos que eu chamo de \u201cimp\u00e9rio\u201d e que consiste em bases navais permanentes, guarni\u00e7\u00f5es, bases a\u00e9reas, postos de espionagem e enclaves estrat\u00e9gicos em todos os continentes do globo.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Para n\u00e3o falar da ocupa\u00e7\u00e3o americana quase instant\u00e2nea dos territ\u00f3rios que haviam estado sob influ\u00eancia sovi\u00e9tica at\u00e9 1991 \u2013 come\u00e7ando por Let\u00f4nia, Est\u00f4nia e Litu\u00e2nia, seguindo por Ucr\u00e2nia e Bielorr\u00fassia, os Balc\u00e3s, o C\u00e1ucaso e chegando at\u00e9 a \u00c1sia Central e o Paquist\u00e3o. A mesma l\u00f3gica expansiva e de ocupa\u00e7\u00e3o que explica a rapidez com que os EUA levaram \u00e0 frente seu projeto de amplia\u00e7\u00e3o da OTAN, mesmo contra o voto dos europeus, em alguns casos, construindo na d\u00e9cada de 90 um verdadeiro \u201ccord\u00e3o sanit\u00e1rio\u201d que separava a Alemanha da R\u00fassia, e a R\u00fassia da China, de tal maneira que no final dos anos 90, a nova \u201cordem pac\u00edfica, liberal, e humanit\u00e1ria\u201d j\u00e1 havia permitido que os Estados Unidos constru\u00edssem uma verdadeira infraestrutura de domina\u00e7\u00e3o militar global.<\/p>\n<p>Quando se l\u00ea desta forma a hist\u00f3ria, entende-se melhor como foi que o projeto de \u201chegemonia humanit\u00e1ria\u201d dos anos 90 transformou-se t\u00e3o rapidamente num projeto imperial expl\u00edcito durante o governo de George W. Bush, em particular depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Porque na pr\u00e1tica foram os \u201catentados\u201d e a imediata declara\u00e7\u00e3o da \u201cguerra universal ao terrorismo\u201d que permitiram a George W. Bush colocar sobre a mesa de maneira direta e franca o projeto de constru\u00e7\u00e3o do \u201cs\u00e9culo americano\u201d. A nova doutrina estrat\u00e9gica americana se propunha a combater um \u201cinimigo terrorista\u201d que podia ser qualquer pessoa ou grupo, dentro ou fora dos Estados Unidos. Tratava-se de um inimigo universal e ub\u00edquo, ou seja, quem quer que fosse considerado pelo governo americano como uma amea\u00e7a \u00e0 sua seguran\u00e7a nacional, podendo ser atacado e destru\u00eddo em qualquer lugar que estivesse, por cima do direito \u00e0 soberania nacional dos povos. Por isso, quem aceitasse participar dessa guerra ao lado dos Estados Unidos aceitava tamb\u00e9m transferir-lhe uma soberania que o tornava automaticamente um poder global de tipo imperial, numa guerra que n\u00e3o teria limite e que seria cada vez mais extensa e permanente. Na verdade, a mensagem era uma s\u00f3, e n\u00e3o estava destinada apenas aos grupos terroristas: os EUA estavam decididos a manter sua dianteira tecnol\u00f3gica e militar com rela\u00e7\u00e3o a todas as demais pot\u00eancias do sistema. Uma dist\u00e2ncia que desse aos americanos o poder de arbitrar isoladamente a hora e o lugar em que seus advers\u00e1rios reais, potenciais ou imagin\u00e1rios, devessem ser \u201ccontidos\u201d atrav\u00e9s de ataques militares diretos. \u00c9 desnecess\u00e1rio sublinhar, por \u00f3bvio, que nesse novo contexto as ideias de soberania e democracia, e de defesa dos direitos humanos, perderam relev\u00e2ncia ou foram praticamente esquecidas, sendo utilizadas apenas de forma ocasional e oportun\u00edstica para encobrir guerras e interven\u00e7\u00f5es feitas em nome dos interesses estrat\u00e9gicos dos EUA e de seus aliados mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Isto explica por que a resist\u00eancia ao poder americano acabou renascendo de dentro do pr\u00f3prio n\u00facleo das velhas grandes pot\u00eancias do sistema interestatal, e da R\u00fassia, em particular, no campo militar. Um momento decisivo dessa hist\u00f3ria aconteceu na Ge\u00f3rgia, em 2008, quando o poder imperial dos EUA e da OTAN \u2013 que se propunha a incorporar o pa\u00eds \u2013 encontrou seu primeiro limite depois do fim da Guerra Fria. A chamada \u201cGuerra da Ge\u00f3rgia\u201d foi muito r\u00e1pida e talvez at\u00e9 passasse despercebida na hist\u00f3ria do s\u00e9culo XXI, se n\u00e3o tivesse acontecido o inesperado: a interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas da R\u00fassia, que em poucas horas cercaram o territ\u00f3rio, numa demonstra\u00e7\u00e3o contundente de que a R\u00fassia havia decidido colocar um limite \u00e0 expans\u00e3o das tropas da OTAN para o Leste, vetando a incorpora\u00e7\u00e3o da Ge\u00f3rgia como novo Estado-membro da organiza\u00e7\u00e3o. Foi exatamente naquele momento que a R\u00fassia demonstrou, pela primeira vez, sua decis\u00e3o e capacidade militar de opor-se ou de vetar o arb\u00edtrio unilateral dos EUA, dentro da nova ordem mundial do s\u00e9culo XXI. Mais \u00e0 frente, em 2015, a R\u00fassia deu um novo passo nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, quando interveio na Guerra da S\u00edria, sem consultas pr\u00e9vias e sem subordina\u00e7\u00e3o a nenhum outro comando que n\u00e3o fosse o de suas pr\u00f3prias For\u00e7as Armadas. Com sua interven\u00e7\u00e3o militar na S\u00edria, a R\u00fassia j\u00e1 n\u00e3o estava se propondo apenas a vetar decis\u00f5es e inciativas estrat\u00e9gicas dos EUA e da OTAN; imp\u00f4s pelas armas seu direito de tamb\u00e9m arbitrar e intervir nos conflitos internacionais, mesmo que fosse contra os mesmos inimigos, e a partir dos mesmos valores defendidos por europeus e norte-americanos. E esta foi a grande novidade que mudou o rumo dos acontecimentos mundiais, ao questionar a \u201cPax americana\u201d\u2019 a partir dos mesmos princ\u00edpios, e atrav\u00e9s dos mesmos m\u00e9todos dos norte-americanos.<\/p>\n<p>Do nosso ponto de vista, foi a surpresa e a gravidade desse \u201cdesafio\u201d que levaram os Estados Unidos de Donald Trump a atacar com tamanha viol\u00eancia o seu pr\u00f3prio projeto \u201cliberal, pacifista e humanit\u00e1rio\u201d da d\u00e9cada de 1990,<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0abrindo m\u00e3o do seu \u201cmessianismo moral\u201d e trocando suas convic\u00e7\u00f5es liberais, e humanit\u00e1rias, pela defesa pura e simples do seu pr\u00f3prio \u201cinteresse nacional\u201d.<\/p>\n<p>Se Donald Trump for derrotado nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de novembro de 2020, e se os democratas elegerem Joe Biden como novo presidente norte-americano, \u00e9 muito prov\u00e1vel que se proponham a refazer as alian\u00e7as tradicionais e a imagem cosmopolita e multilateral da pol\u00edtica externa norte-americana. Mas os cristais j\u00e1 foram quebrados, e uma coisa \u00e9 absolutamente certa: a utopia liberal e humanit\u00e1ria dos anos 90 est\u00e1 morta<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0\u201cSe a Guerra do Golfo definiu o novo \u2018princ\u00edpio do limite\u2019 dentro do sistema mundial, ela n\u00e3o resolveu uma outra quest\u00e3o fundamental: ela n\u00e3o esclareceu qual ser\u00e1 o \u2018limite deste princ\u00edpio\u2019. E neste caso, n\u00e3o est\u00e1 errado pensar que esta nova \u2018Guerra P\u00e9rsica\u2019 n\u00e3o conduza a humanidade a um novo patamar civilizat\u00f3rio com a universaliza\u00e7\u00e3o da \u00e9tica cosmopolita criada pela Europa iluminista, sen\u00e3o que, pelo contr\u00e1rio, se transforme na antessala de uma nova era marcada pela for\u00e7a, o medo e o retrocesso pol\u00edtico-ideol\u00f3gico dentro da pr\u00f3pria coaliz\u00e3o que saiu vitoriosa desta guerra\u201d (Fiori, J. L. A \u201cGuerra P\u00e9rsica\u201d: uma guerra \u00e9tica.\u00a0<em>Cadernos de Conjuntura<\/em>, n. 8. Rio de Janeiro: Instituto de Economia Industrial\/UFRJ, 1991, p. 5).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0Bacevich, A.\u00a0<em>American Empire<\/em>. Massachusetts: Harvard University Press, 2002, p. 143 (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote3anc\">3<\/a>\u00a0Johnson, C.\u00a0<em>The Sorrows of Empire<\/em>. New York: Metropolitan Books, 2004, p. 22-23 (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/requiem-por-uma-utopia-defunta\/#sdfootnote4anc\">4<\/a>\u00a0Fiori, J. L. Babel Syndrome and the New Security Doctrine of the United States.\u00a0<em>Journal of Humanitarian Affairs<\/em>, v. 1, n. 1, p. 42-5, 2019.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori &#8211;\u00a0Trinta anos depois de se tornarem pot\u00eancia imperial, EUA v\u00e3o \u00e0s urnas. 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