{"id":13807,"date":"2020-07-22T13:09:40","date_gmt":"2020-07-22T16:09:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13807"},"modified":"2020-07-21T13:12:33","modified_gmt":"2020-07-21T16:12:33","slug":"99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/07\/22\/99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista\/","title":{"rendered":"99 Teses para uma economia p\u00f3s-capitalista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Brian Massumi<\/strong> &#8211; Este texto \u00e9 o pref\u00e1cio de <em>99 teses para uma revalora\u00e7\u00e3o do valor: um manifesto p\u00f3s-capitalista.<\/em><\/p>\n<p><em>99 Teses para uma Revalora\u00e7\u00e3o do Valor<\/em>\u00a0n\u00e3o foi escrito para ter a \u00faltima palavra. Foi escrito como um apelo. Este livro nasceu de um processo coletivo de explora\u00e7\u00e3o alterecon\u00f4mica, e seu mais forte desejo \u00e9 servir de trampolim para que este processo se amplie numa curva cada vez maior. Suas teses pausam em uma inst\u00e1vel nonag\u00e9sima nona, cambaleando na borda de uma cent\u00e9sima, ausente, que arredondaria a s\u00e9rie \u2013 n\u00e3o para lhe dar cabo, mas sim para zerar e reiniciar uma nova rodada. O apelo \u00e9 para que outros se juntem a este projeto, complementando-o, num revezamento. \u00c9 com enorme prazer que sa\u00fado a publica\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>99 Teses<\/em>\u00a0no Brasil, onde a pr\u00e1tica e o pensamento alternativos h\u00e1 muito floresce, e onde estes, agora, sob a mortalha das atuais condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, s\u00e3o n\u00e3o apenas desej\u00e1veis, mas outra vez urgentemente necess\u00e1rios para que se possa construir um futuro \u00e0 altura do enorme potencial criativo deste pa\u00eds. Que flores\u00e7am muitas teses brasileiras!<\/p>\n<p>O \u00edmpeto para este livro veio de um desafio lan\u00e7ado ao coletivo de \u201ccria\u00e7\u00e3o- pesquisa\u201d junto ao qual tenho trabalhado h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas. O\u00a0<em>SenseLab\u00a0<\/em>\u2013 um \u201claborat\u00f3rio para o pensamento em movimento\u201d que opera nos cruzamentos entre arte, filosofia e ativismo \u2013 tornava-se cada vez mais preocupado com a quest\u00e3o do valor e com o peso normativo dos modos de avalia\u00e7\u00e3o que padronizam ju\u00edzos de valor em detrimento de modos de vida e atividade emergentes e marginalizados. O contexto imediato era a universidade, porto seguro do\u00a0<em>SenseLab<\/em>\u00a0durante a maior parte de sua exist\u00eancia, onde mant\u00e9m uma postura \u2013 meio-dentro\/meio-fora \u2013 de tensa simbiose.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0A imagem da universidade como uma \u201ctorre de marfim\u201d, divorciada do \u201cmundo real\u201d, nunca foi t\u00e3o pouco verdadeira. Em nosso contexto, assim como em muitas partes do mundo, a universidade foi anexada \u00e0 economia neoliberal e transformada em uma \u201cincubadora\u201d (para usar um termo caro ao neoliberalismo) voltada \u00e0 \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d, alimentando a insaci\u00e1vel fome de valor dessa economia (na forma-mestra capitalista do lucro); al\u00e9m de um n\u00f3dulo central para a produ\u00e7\u00e3o de \u201ccapital humano\u201d. Essa posi\u00e7\u00e3o nodal da universidade dentro da economia neoliberal faz dela necessariamente um lugar de luta: pela inclus\u00e3o daqueles que foram tradicionalmente exclu\u00eddos; mas tamb\u00e9m por espa\u00e7os de autonomia internos, ou adjacentes \u2013 e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, por espa\u00e7os que escapem inteiramente \u00e0 sua \u00f3rbita \u2013, onde modos de resist\u00eancia \u00e0 subsun\u00e7\u00e3o de todas as formas de conhecimento e das esferas da vida \u00e0 economia neoliberal possam ser prototipadas e praticadas, no sentido de possibilitar um futuro p\u00f3s-capitalista. Para n\u00f3s, a tarefa destes \u201ccomuns subterr\u00e2neos\u201d, como denominam Stefano Harney e Fred Moten,<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0inclui repensar em qu\u00ea constitui o valor, para al\u00e9m da norma e das forma\u00e7\u00f5es de poder por tr\u00e1s dela. O re-pensar ser\u00e1 est\u00e9ril se n\u00e3o implicar imediatamente em um re-fazer: ele precisa estar ativamente corporalizado em novas t\u00e9cnicas coletivas e, sem d\u00favidas, em novas ferramentas t\u00e9cnicas que possam piratear os pr\u00f3prios instrumentos daquela economia \u00e0 qual resistimos, desviando-os para novos fins. Foi nesse sentido que o\u00a0<em>SenseLab<\/em>\u00a0decidiu lan\u00e7ar em v\u00f3rtice [<em>to spin off<\/em>] um rebento extrauniversit\u00e1rio de si mesmo, o qual chamamos\u00a0<em>3 Ecologies Institute<\/em>\u00a0[Instituto 3 Ecologias],<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>\u00a0para que as experimenta\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>SenseLab<\/em> com coletividades emergentes, orientadas a novos universos de valor, possam ser encaminhadas numa dire\u00e7\u00e3o explicitamente alterecon\u00f4mica, inspirada no modelo de abund\u00e2ncia da economia da d\u00e1diva e em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o incessante e \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o desigual da escassez operadas pelo capitalismo.<\/p>\n<p>O mencionado desafio, que semeou o germe para este livro, veio da\u00a0<em>Economic Space Agency<\/em>\u00a0[Ag\u00eancia de Espa\u00e7o Econ\u00f4mico (ECSA)],<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>\u00a0um grupo p\u00f3s-autonomista de desajustados que havia se lan\u00e7ado em um projeto para sequestrar o ent\u00e3o emergente dom\u00ednio da criptomoeda e de sua tecnologia base (o\u00a0<em>blockchain<\/em>) para fins de uma altereconomia colaborativa e fundamentada no comum. De maneira nada d\u00f3cil, nossos amigos da ECSA nos informaram que est\u00e1vamos dormindo no ponto. E que corr\u00edamos o risco, diziam eles, de deixarmos passar uma oportunidade hist\u00f3rica. N\u00f3s t\u00ednhamos interesse em novos modos de valor, mas n\u00e3o t\u00ednhamos qualquer an\u00e1lise efetiva do setor que comandava a economia, cuja predomin\u00e2ncia basicamente definia o neoliberalismo: os mercados financeiros. Tamb\u00e9m n\u00e3o acompanh\u00e1vamos de perto as implica\u00e7\u00f5es para a organiza\u00e7\u00e3o futura do capital, e para o pr\u00f3prio significado do dinheiro, das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas que ocorriam na infraestrutura digital da economia.<\/p>\n<p>N\u00f3s compreendemos o que eles diziam. A esquerda tradicional havia se tornado cega em seu apego \u00e0 ultrapassada oposi\u00e7\u00e3o entre a economia produtiva \u201creal\u201d e o dom\u00ednio do capital \u201cfict\u00edcio\u201d dos mercados financeiros. A rigor, o assim chamado capital fict\u00edcio \u00e9 t\u00e3o divorciado do mundo \u201creal\u201d quanto a universidade \u00e9 mantida numa torre de marfim. O valor deste capital fict\u00edcio excede em muito o valor da economia produtiva, a qual ele ativamente conduz, em dire\u00e7\u00f5es consoantes a sua pr\u00f3pria hipertrofia, tendo inclusive anexado o aparato do estado em benef\u00edcio pr\u00f3prio.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a>\u00a0O capital financeiro se abstrai da economia produtiva para melhor \u201cterraformar\u201d<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a>\u00a0o campo relacional da vida ao seu bel prazer. Ele n\u00e3o \u00e9 um fr\u00edvolo coadjuvante. \u00c9, sim, um motor econ\u00f4mico e uma m\u00e1quina de engenharia social que constitui a si mesma como uma formid\u00e1vel forma\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa sen\u00e3o enfrentar o capital financeiro. E sim, n\u00f3s \u00e9ramos ing\u00eanuos. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos sen\u00e3o uma vaga no\u00e7\u00e3o do que seria o capital financeiro, ou de como ele funcionaria. Para piorar, n\u00e3o t\u00ednhamos ainda conceitos cr\u00edticos para o que quer que pudesse ser aprendido e apropriado, em prol da luta anticapitalista e em favor do\u00a0<em>design<\/em>\u00a0econ\u00f4mico p\u00f3s-capitalista, a partir dos modos de operar do capital financeiro. Embarcamos ent\u00e3o em uma intensa jornada de explora\u00e7\u00e3o e aprendizado coletivo. Frequentemente sent\u00edamos nossos poderes de compreens\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o chegarem ao limite, e ansi\u00e1vamos por mais companheiros-viajantes que somassem for\u00e7a conosco.<\/p>\n<p>Este livro representa meu posicionamento particular sobre o que come\u00e7ou a surgir desse processo. No final do volume, eu enumero um conjunto de orienta\u00e7\u00f5es alterecon\u00f4micas que destilei ao longo da viagem, rematando com um apelo por revezamento. Este grupo de proposi\u00e7\u00f5es \u00e9 apresentado como uma \u201cfabula\u00e7\u00e3o\u201d. Isso porque, embora tenhamos tomado uma s\u00e9rie de passos concretos e apresentado diversas t\u00e9cnicas,<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote7sym\"><sup>7<\/sup><\/a>\u00a0o projeto de uma economia p\u00f3s-capitalista, por defini\u00e7\u00e3o algo que nenhum de n\u00f3s viveu e cuja inven\u00e7\u00e3o requer a combina\u00e7\u00e3o de recursos de m\u00faltiplos projetos afins, bem como as sinergias entre muitas mentes criativas e corpos explorat\u00f3rios \u2013 para n\u00e3o falar da combina\u00e7\u00e3o de linhas de resist\u00eancia necess\u00e1rias para cavar buracos no tecido neoliberal existente, para que ele comece a respirar e esticar \u2013, permanece provocadoramente no horizonte. Independente do sucesso ou n\u00e3o de nosso modesto projeto em criar algo como uma economia efetiva, ou mesmo um prot\u00f3tipo prefigurativo em pequena escala; e independente da realiza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do potencial afian\u00e7ado pela ECSA e por outros projetos p\u00f3s-capitalistas e p\u00f3s-blockchain com os quais colaboramos, n\u00f3s ainda assim teremos vivido uma aventura juntos \u2013 uma aventura cuja intensidade e cujo fermento o ofegante ritmo destas noventa e nove teses talvez possa fazer chegar ao leitor. \u00c9 nossa esperan\u00e7a que esta pequena aventura possa contribuir com uma ou outra ondula\u00e7\u00e3o nesta crescente agita\u00e7\u00e3o que um dia h\u00e1 de virar uma onda gigante.<\/p>\n<p>A fabula\u00e7\u00e3o p\u00f3s-capitalista que remata o livro flui de uma longa e autocomplicadora s\u00e9rie de teses sobre o\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0do capitalismo neoliberal, sobre o que ele torna vis\u00edvel a respeito da natureza do valor e sobre quais direcionamentos podem da\u00ed derivar. Em um movimento possivelmente t\u00e3o perturbador para o pensamento econ\u00f4mico marxista ortodoxo quanto a rejei\u00e7\u00e3o de atitudes para com o capital fict\u00edcio muito arraigadas, a posi\u00e7\u00e3o que eu assumo no livro envolve a afirma\u00e7\u00e3o de um certo conceito de mais-valor.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote8sym\"><sup>8<\/sup><\/a>\u00a0Eu defendo que o mais-valor, longe de poder ser reduzido \u00e0 medida de explora\u00e7\u00e3o do trabalho entendido como \u00fanico produtor de valor, constitui um operador processual de enormes implica\u00e7\u00f5es, do qual o mais-valor capitalista \u00e9 um eco p\u00e1lido e uma captura redutora.<\/p>\n<p>Em sua concep\u00e7\u00e3o mais ampla, o mais-valor \u00e9 qualitativo. Eu a denomino \u201cmais-valor de vida\u201d. Com isso, pretendo caracterizar um excesso de vivacidade espalhado no mundo, selvagemente solto, carregando potencial criativo. Cristalizando-se no calor da hora em novos e qualitativamente diferentes movimentos de express\u00e3o, o mais-valor anuncia modos de exist\u00eancia emergentes cujo \u201cvalor\u201d singular \u00e9 diretamente afirmado na (e como a) diferen\u00e7a que eles fazem. Mais-valor \u00e9 um valor de rela\u00e7\u00e3o, que emerge da combina\u00e7\u00e3o de fatores em assembleia, coletivamente, excedendo tanto a individualidade de cada um quanto a soma agregada de suas partes. A economia capitalista traduz mais-valor de vida como mais-valor monet\u00e1rio. Ela aprisiona a diferen\u00e7a qualitativa pr\u00f3pria ao viver da vida na medida padronizada do dinheiro. Disto resulta uma privatiza\u00e7\u00e3o das qualidades da exist\u00eancia e uma individualiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as relacionais, na eterna \u201ctrag\u00e9dia dos comuns\u201d. O mais-valor capitalista \u00e9 a convers\u00e3o da \u201cvida gerando mais vida\u201d em \u201cdinheiro gerando mais dinheiro\u201d. \u00c9 a marca da economiza\u00e7\u00e3o do potencial de vida.<\/p>\n<p>Sondar o interior deste processo de economiza\u00e7\u00e3o do potencial de vida \u00e9 o trabalho ao qual a maior parte destas noventa e nove teses se dedica. Elas come\u00e7am pelo come\u00e7o,<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote9sym\"><sup>9<\/sup><\/a>\u00a0com uma reconsidera\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o de dinheiro, enfatizando a evolu\u00e7\u00e3o daquilo que certos economistas radicais chamaram de \u201cmetacapital\u201d. Este \u00e9 o capital cuja fun\u00e7\u00e3o nos mercados financeiros \u00e9 gerar mais-valor capitalista simplesmente como um efeito de circula\u00e7\u00e3o: como um efeito de volatilidade ao mesmo tempo extirpado da economia produtiva e controlando-a cada vez mais, dirigindo-a para uma acumula\u00e7\u00e3o mais desproporcional e uma maior desigualdade. A\u00ed surge o ponto crucial do problema: como podemos conceber, com o devido rigor filos\u00f3fico, as no\u00e7\u00f5es chave de \u201cqualidade\u201d, \u201crela\u00e7\u00e3o\u201d e o seu excesso criativo, que \u00e9 o mais-valor de vida, ao largo (antes e depois) de suas capturas pelo capital? De que maneira pode o mais-valor de vida ser compreendido como uma forma auto-organizada de resist\u00eancia prim\u00e1ria ao capitalismo? Como pode essa for\u00e7a emergente de resist\u00eancia prim\u00e1ria ser reacessada e contracapturada para um futuro p\u00f3s-capitalista?<\/p>\n<p>Este trabalho conceitual orbita em torno do conceito de afeto. Mas para que n\u00e3o haja engano: afeto n\u00e3o \u00e9 por natureza um conceito individualizante, apesar do neoliberalismo canaliz\u00e1-lo na dire\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, supostamente atomizado, caracterizado pelo interesse pr\u00f3prio. Entretanto, compreendido na perspectiva espinosista, em um n\u00edvel muito mais fundamental, o afeto \u00e9 parte do dinamismo do campo relacional. \u00c9 um modo de falar sobre as \u201ccapacidades de afetar e ser afetado\u201d que s\u00e3o diferencialmente distribu\u00eddas em\u00a0<em>encontros<\/em>\u00a0din\u00e2micos por todo o campo relacional. O afeto diz respeito ao\u00a0<em>potencial-de-evento<\/em>\u00a0relacional e seu registro intensivo como uma \u201cexternalidade\u201d (um fator que afeta integralmente a economia sem ser, por defini\u00e7\u00e3o, econ\u00f4mico). Afeto \u00e9 ligado a evento. Ele \u00e9 transindividual. O afeto levanta quest\u00f5es fundamentais sobre o que queremos dizer com indiv\u00edduo, na medida em que este age economicamente, bem como sobre o que queremos dizer com coletivo, na medida em que este age politicamente. Simplesmente evocar o afeto n\u00e3o \u00e9 suficiente (muito menos evocar o \u201ctrabalho afetivo\u201d). \u00c9 necess\u00e1rio forjar conceitos precisos e operativos para o\u00a0<em>jogo<\/em>\u00a0do afeto [<em>play of affect<\/em>] como for\u00e7a formativa e for\u00e7a de resist\u00eancia prim\u00e1ria. V\u00e1rias das teses que seguem se dedicam a compreender o jogo do afeto, sua captura pela economiza\u00e7\u00e3o e, especialmente, sua teimosa tend\u00eancia em exceder essa captura apesar de tudo, capacitando linhas de fuga voltadas a mundos em estado de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afeto, como sin\u00f4nimo de mais-valor de vida, \u00e9 o \u201cfora imanente\u201d do sistema capitalista. Sob o neoliberalismo, o capital est\u00e1 t\u00e3o imbricado ao tecido mesmo da vida que se torna imposs\u00edvel posicionar-se fora dele. O capital tornou-se nosso pr\u00f3prio devir. Mais do que um \u201cbiopoder\u201d, ele \u00e9 um \u201contopoder\u201d (um poder de fazer vir a ser). Ele transforma nossas vidas em\u00a0<em>quanta<\/em>\u00a0de \u201ccapital humano\u201d. De forma pr\u00e1tica e estrat\u00e9gica, o que o \u201cfora imanente\u201d do afeto e do mais-valor de vida representa \u00e9 isto: o fato de que, embora seja imposs\u00edvel pretendermos ficar fora do capitalismo, tamb\u00e9m jamais estamos \u201ctotalmente dentro\u201d. Existe uma dimens\u00e3o intensiva da vida que \u00e9 anterior e em excesso \u00e0 economiza\u00e7\u00e3o capitalista. A resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil. N\u00f3s podemos reingressar no jogo do afeto. N\u00f3s podemos \u201credevir\u201d por meio dele. N\u00f3s podemos viver o mundo juntos, intensamente.<\/p>\n<p>Tudo isto pode parecer terrivelmente abstrato em face das esmagadoras realidades cotidianas da vida sob o regime de Bolsonaro. Mas est\u00e1 claro que novos conceitos e novas ferramentas s\u00e3o necess\u00e1rios. A m\u00e1quina de abstra\u00e7\u00e3o mutante do neoliberalismo, que atinge seu auge nos mercados financeiros, torna antiquados os antigos conceitos. As antigas ferramentas ficaram embotadas pelo impasse do lulismo e pelo fracasso do desenvolvimentismo que o precedeu, cuja exaust\u00e3o criou espa\u00e7o para aquele. O lulismo n\u00e3o foi uma sa\u00edda do neoliberalismo. Foi sim o neoliberalismo com uma face humana. Acontece que a espessura da face humana do neoliberalismo n\u00e3o chega sequer \u00e0 espessura da pele: ela se dissolve com a chuva.<\/p>\n<p>Como analisou Lena Lavinas, o lulismo foi dependente da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote10sym\"><sup>10<\/sup><\/a>\u00a0Ele procurou criar um c\u00edrculo virtuoso envolvendo as ind\u00fastrias extrativistas e o agroneg\u00f3cio, sua manuten\u00e7\u00e3o dos mercados de exporta\u00e7\u00e3o, e uma lubrifica\u00e7\u00e3o geral da economia pelos fluxos internacionais de capital financeiro desregulado, tudo isso desencadeado por taxas de juros historicamente altas, que asseguraram margens de lucro sem precedentes para a classe rentista \u2013 de fato, agravando a desigualdade.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote11sym\"><sup>11<\/sup><\/a>\u00a0Isso, apesar do fato de uma por\u00e7\u00e3o do fluxo de capital ter sido desviada para programas de inclus\u00e3o social destinados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d, al\u00e7ando milh\u00f5es para fora da pobreza extrema (esta foi a parte \u201cvirtuosa\u201d). Mas n\u00e3o se tratava de fato de uma nova classe m\u00e9dia: ela \u00e9 sim uma nova classe de endividados, precariamente equilibrando-se entre a classe m\u00e9dia tradicional e a pobreza. Sua forma\u00e7\u00e3o foi conduzida por uma incurs\u00e3o do capital financeiro pelo dom\u00ednio do consumo cotidiano, por meio da universaliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o credor-devedor. O Estado tornou-se menos um provedor de bem-estar e de servi\u00e7os sociais do que uma engrenagem na m\u00e1quina do capital financeiro, enquanto este \u00faltimo subsumia indiv\u00edduos e fam\u00edlias \u00e0 sua l\u00f3gica operativa. A generaliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o credor-devedor \u00e9 a pedra angular do neoliberalismo.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote12sym\"><sup>12<\/sup><\/a>\u00a0\u00c9 uma poderosa for\u00e7a de subjetiva\u00e7\u00e3o aos moldes do capital humano. Ent\u00e3o quando a chuvarada veio \u2013 crise pol\u00edtica na esteira de uma crise econ\u00f4mica \u2013 um tal segmento virtuoso do c\u00edrculo neoliberal se mostrou dispens\u00e1vel. Bolsonaro fez trincheira nas ind\u00fastrias extrativistas e no agroneg\u00f3cio, bem como na manuten\u00e7\u00e3o dos mercados de exporta\u00e7\u00e3o por esses setores, na lubrifica\u00e7\u00e3o geral da economia pelos fluxos internacionais de capital financeiro desregulado e na financeiriza\u00e7\u00e3o generalizada da subjetividade. Foi-se o projeto de inclus\u00e3o social. Em seu lugar, foi implantada uma viol\u00eancia excludente daquele tipo que Maurizio Lazzarato ousadamente qualificou de \u201cguerra civil\u201d<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote13sym\"><sup>13<\/sup><\/a>: viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas cujo cuidado com a terra entra em conflito com o desmatamento desenfreado e com o desenvolvimento da minera\u00e7\u00e3o; viol\u00eancia contra os sem-terra e os pobres urbanos, especialmente negros, os quais demandam n\u00e3o apenas inclus\u00e3o, mas toda uma recomposi\u00e7\u00e3o do campo de poder; viol\u00eancia contra os corpos\u00a0<em>queer<\/em>, que n\u00e3o se conformam \u00e0s normas de g\u00eanero e sexualidade, e que demandam n\u00e3o toler\u00e2ncia, mas sim liberdade para inventar suas pr\u00f3prias subjetividades e modos coletivos de exist\u00eancia; viol\u00eancia contra o pensamento e o estudo, onde lampejos de um novo mundo podem ser vislumbrados; viol\u00eancia contra todas as revalora\u00e7\u00f5es do valor.<\/p>\n<p>Percebe-se uma estranha alian\u00e7a na guerra civil do bolsonarismo entre os aspectos mais avan\u00e7ados da economia neoliberal e as for\u00e7as reativas mais \u201carcaicas\u201d, incluindo aquelas do fundamentalismo religioso, inesperadamente dotadas de uma nova e agressiva contemporaneidade. Este am\u00e1lgama tamb\u00e9m pode ser percebido na \u201cAm\u00e9rica\u201d de Trump, em uma itera\u00e7\u00e3o espec\u00edfica ao hemisf\u00e9rio norte. Isto faz levantar quest\u00f5es importantes sobre como o \u201csistema capitalista\u201d define a si mesmo, face ao fato de que ele comp\u00f5e com for\u00e7as \u201carcaicas\u201d cujas l\u00f3gicas operativas n\u00e3o s\u00e3o coincidentes com as suas (como, por exemplo, as obsess\u00f5es escatol\u00f3gicas do Pentecostalismo ou os reflexos e refluxos feudais da classe latifundi\u00e1ria do interior). O que isso pode demonstrar sobre os poderes do capitalismo de captura e convers\u00e3o? O que esses poderes podem demonstrar sobre o dentro e o fora do capitalismo, e das recomposi\u00e7\u00f5es adaptativas de sua forma sempre-em-muta\u00e7\u00e3o? Em meio a isso tudo, e contra a mar\u00e9 destas recomposi\u00e7\u00f5es, onde est\u00e1 o potencial do fora imanente?<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es das noventa e nove teses a respeito do capital financeiro e da l\u00f3gica \u201cn\u00e3o fora, mas n\u00e3o totalmente dentro\u201d do capitalismo, embora possam parecer enigm\u00e1ticas em alguns momentos, t\u00eam sim uma pertin\u00eancia para as lutas do presente. Espera-se que elas contribuam, ainda que modestamente, para o projeto coletivo que est\u00e1 \u00e0 nossa frente \u2013 o de dar forma a novos conceitos, ocasionando o advento de novas ferramentas. As an\u00e1lises que o livro realiza s\u00e3o influenciadas o mais profundamente pela leitura vision\u00e1ria do capitalismo por Deleuze e Guattari em\u00a0<em>O Anti-\u00c9dipo<\/em>\u00a0\u2013 escrito h\u00e1 quase cinquenta anos, quando o mundo estava na beira da curva neoliberal cuja matura\u00e7\u00e3o agora nos acomete. Em seu pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, Michel Foucault caracterizou\u00a0<em>O Anti-\u00c9dipo<\/em> como \u201cuma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida n\u00e3o-fascista\u201d. Que estas teses, e as pr\u00f3ximas que venham a se somar a elas, acrescentem uma ou duas frases proveitosas \u00e0quele pref\u00e1cio. Nunca \u00e9 cedo demais para plantar sementes de vida n\u00e3o-fascista e p\u00f3s-capitalista nos poros do presente, para uma germina\u00e7\u00e3o prefiguradora.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0Ver &lt;<a href=\"http:\/\/www.senselab.ca\/\">http:\/\/www.senselab.ca<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0Stefano HARNEY e Fred MOTEN,\u00a0<em>The Undercommons: Fugitive Planning and Black Study<\/em>\u00a0(New York, Autonomedia, 2013).<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote3anc\">3<\/a>\u00a0Ver &lt;<a href=\"http:\/\/senselab.ca\/wp2\/3-ecologies\/3-ecologies-institute\/\">http:\/\/senselab.ca\/wp2\/3-ecologies\/3-ecologies-institute\/<\/a>&gt; e &lt;<a href=\"http:\/\/www.patreon.com\/3EInstitute\">http:\/\/www.patreon.com\/3EInstitute<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote4anc\">4<\/a>\u00a0&lt;<a href=\"http:\/\/economicspace.agency\/\">http:\/\/economicspace.agency<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote5anc\">5<\/a>\u00a0Para uma leitura autonomista do papel do capital financeiro no neoliberalismo e sua anexa\u00e7\u00e3o do estado, ver Guiseppe COCCO e Bruno CAVA,\u00a0<em>New Neoliberalism and the Other: Biopower, Anthropophagy, and Living Money<\/em>\u00a0(London, Lexington Books, 2018).<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote6anc\">6<\/a>\u00a0N. da E.: No original,\u00a0<em>to terraform\u00a0<\/em>(sem aspas), significando, conforme o dicion\u00e1rio\u00a0<em>Oxford<\/em>, o processo (ficcional ou hipot\u00e9tico) de transformar as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e atmosf\u00e9ricas de um planeta qualquer de modo a torn\u00e1-lo habit\u00e1vel para a esp\u00e9cie humana, dotando-o de caracter\u00edsticas ambientais semelhantes \u00e0s da Terra. No texto de Massumi, fica expl\u00edcita a dimens\u00e3o colonizadora dessa fic\u00e7\u00e3o (omitida pela defini\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio). A palavra \u201cterraformar\u201d n\u00e3o \u00e9 dicionarizada em portugu\u00eas \u2013 o que explicita, por sua vez, a origem anglo-sax\u00e3 desse devaneio tecno-cientificista.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote7anc\">7<\/a>\u00a0Ver \u201cWorking Papers\u201d em: &lt;<a href=\"http:\/\/senselab.ca\/wp2\/3e-process-seed-bank\/\">http:\/\/senselab.ca\/wp2\/3e-process-seed-bank\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote8anc\">8<\/a>\u00a0N. da T.:\u00a0<em>Surplus-value<\/em>\u00a0(no ingl\u00eas) \/\u00a0<em>Mehrwert\u00a0<\/em>(no alem\u00e3o), at\u00e9 pouco tempo traduzido como \u201cmais-valia\u201d, vem sendo traduzido como \u201cmais-valor\u201d em portugu\u00eas desde a mais recente publica\u00e7\u00e3o das obras de Karl Marx pela Editora Boitempo. Uma nota mais detalhada sobre a ado\u00e7\u00e3o deste termo foi inclu\u00edda na Tese 15, adiante neste volume.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote9anc\">9<\/a>\u00a0N. da T.: A redund\u00e2ncia aqui \u00e9 intencional e faz refer\u00eancia a Lewis Carroll, em\u00a0<em>Aventuras de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em>: \u201cO Coelho Branco p\u00f4s os \u00f3culos. \u2018Por onde devo come\u00e7ar, por favor, Majestade?\u201d perguntou. \u2018Comece pelo come\u00e7o,\u2019 disse o Rei gravemente, \u2018e prossiga at\u00e9 chegar ao fim; ent\u00e3o pare.\u2019\u201d, citado aqui na tradu\u00e7\u00e3o de Maria Luiza X. de A. Borges (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2002), p. 118.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote10anc\">10<\/a>\u00a0Lena LAVINAS,\u00a0<em>The Takeover of Social Policy by Financialization: The Brazilian Paradox<\/em>\u00a0(New York, Palgrave-Macmillan, 2017). Cocco\/Cava (ver nota 5) apresentam argumentos confluentes, a partir de uma perspectiva pol\u00edtica e filos\u00f3fica diferente. (Para uma vers\u00e3o do argumento de Lavinas em portugu\u00eas, ver Lena LAVINAS e Denise GENTIL, \u201cBrasil anos 2000 \u2013 A pol\u00edtica social sob reg\u00eancia da financeiriza\u00e7\u00e3o\u201d, em\u00a0<em>Novos Estudos CEBRAP<\/em>, n. 111, vol. 37\/2, 2018, p. 191-211.)<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote11anc\">11<\/a>\u00a0O \u00cdndice de Gini, o coeficiente padr\u00e3o para medir a desigualdade de renda, de fato apresentou decl\u00ednio durante as gest\u00f5es de Lula. Mas o \u00edndice \u00e9 considerado um indicador enganoso por economistas cr\u00edticos: \u201cAutores como Marcelo Medeiros et al. j\u00e1 haviam advertido que as verdadeiras din\u00e2micas da desigualdade n\u00e3o estavam sendo adequadamente capturadas pelas pesquisas domiciliares que s\u00e3o geralmente usadas para medir sal\u00e1rios e renda familiar. Comparando dados de impostos de renda individuais com os n\u00fameros das pesquisas domiciliares, os autores conclu\u00edram que \u2018a concentra\u00e7\u00e3o de renda entre os mais ricos \u00e9, de acordo com dados do imposto de renda, substancialmente maior do que havia sido estimado pelas pesquisas domiciliares, sem qualquer tend\u00eancia de decl\u00ednio nos anos recentes\u2019.\u201d Cf. Lena LAVINAS,\u00a0<em>The Takeover<\/em><em>\u00a0of Social<\/em>\u2026, op. cit., p. 22. Ver tamb\u00e9m Perry ANDERSON,\u00a0<em>Brazil Apart:<\/em>\u00a0<em>1964-2019\u00a0<\/em>(London, Verso, 2019), pp. 76-77; ed. bras.:\u00a0<em>Brasil \u00e0 parte<\/em>\u00a0<em>(1964-2019)<\/em>, trad. Alexandre Souza e outros (S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote12anc\">12<\/a>\u00a0Maurizio LAZZARATO,\u00a0<em>The Making of Indebted Man: An Essay on the Neoliberal Condition<\/em>\u00a0(New York, Semiotext(e), 2012).<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=171&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2F99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista%2F#sdfootnote13anc\">13<\/a>\u00a0Maurizio LAZZARATO,\u00a0<em>Le capital d\u00e9teste tout le monde: fascisme ou r\u00e9volution<\/em>\u00a0(Paris: \u00c9d. Amsterdam, 2019).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"O7R7kz7pf9\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista\/\">99 Teses para uma economia p\u00f3s-capitalista<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;99 Teses para uma economia p\u00f3s-capitalista&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/99-teses-para-uma-economia-pos-capitalista\/embed\/#?secret=0qvecXPgqh#?secret=O7R7kz7pf9\" data-secret=\"O7R7kz7pf9\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brian Massumi &#8211; Este texto \u00e9 o pref\u00e1cio de 99 teses para uma revalora\u00e7\u00e3o do valor: um manifesto p\u00f3s-capitalista. 99 Teses para uma Revalora\u00e7\u00e3o do Valor\u00a0n\u00e3o foi escrito para ter a \u00faltima palavra. 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