{"id":13779,"date":"2020-07-13T15:20:34","date_gmt":"2020-07-13T18:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13779"},"modified":"2020-07-12T16:05:13","modified_gmt":"2020-07-12T19:05:13","slug":"por-que-revoltas-antirracistas-espalham-se-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/07\/13\/por-que-revoltas-antirracistas-espalham-se-pelo-mundo\/","title":{"rendered":"Por que revoltas antirracistas espalham-se pelo mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Italo Jardim<\/strong> &#8211; Nem na morte de Luther King protestos foram t\u00e3o imensos e globais. Agora, h\u00e1 dois caminhos. Entregar movimento a uma \u201cvanguarda\u201d, o que agradaria Trump; ou lan\u00e7ar, na esteira dos Panteras Negras, um programa de reformas estruturais.<\/p>\n<p>Foram oito minutos e 46 segundos. Um epis\u00f3dio de tortura seguido do assassinato de George Floyd, de 46 anos, que trabalhava como seguran\u00e7a em um restaurante em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos EUA. Ele foi abordado por policiais que responderam a uma chamada de suspeita de uso de c\u00e9dulas de dinheiro falso na noite do \u00faltimo dia 25 de maio. Em seguida, um v\u00eddeo de 10 minutos, filmado por uma testemunha, mostra Floyd suplicando e dizendo repetidamente: \u201cn\u00e3o consigo respirar\u201d, para um policial branco. Ao ver as imagens da trucul\u00eancia e de abuso policial, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se indignar. A trag\u00e9dia se soma a um rastro de sangue negro, derramado no decorrer da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O assassinato de Floyd foi o ponto de ebuli\u00e7\u00e3o para uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es civis, marcadas por intensos e violentos confrontos entre revoltosos e a pol\u00edcia americana, numa cidade que tem os maiores \u00edndices de disparidade socioecon\u00f4mica entre negros e brancos nos EUA. S\u00e3o mais de 18 dias de protestos, mas nada disso come\u00e7ou agora. O hist\u00f3rico recente nos d\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia 29 abril de 1992, um j\u00fari absolveu oficiais do\u00a0Departamento de Pol\u00edcia de Los Angeles, tr\u00eas brancos e um hisp\u00e2nico, acusados\u200b\u200bde agress\u00e3o contra o motorista\u00a0negro\u00a0Rodney King,\u00a0ap\u00f3s uma persegui\u00e7\u00e3o em alta velocidade. A agress\u00e3o dos policiais foi filmada. Milhares de pessoas na \u00e1rea de\u00a0Los Angeles\u00a0se revoltaram ao longo dos seis dias, ap\u00f3s o veredito.<\/p>\n<p>Entre agosto e novembro de 2014, houve uma crise decorrente da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/disturbios_ferguson_2014\">viol\u00eancia racial.\u00a0<\/a>O policial que em agosto\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/08\/18\/internacional\/1408393124_372696.html\">matou o jovem afro-americano desarmado Michael Brown<\/a>, em Ferguson (Missouri), n\u00e3o enfrentou processo judicial. A decis\u00e3o desencadeou uma nova onda de turbul\u00eancia na cidade, inc\u00eandios, lan\u00e7amentos de pedras e depreda\u00e7\u00f5es de ve\u00edculos. Michael Brown morreu no hor\u00e1rio de almo\u00e7o de um s\u00e1bado, atingido por, pelo menos, seis disparos de Wilson, quando andava numa rua residencial com um amigo. A pol\u00edcia afirma que houve uma luta entre os dois para pegar a arma, mas o amigo que acompanhava Brown diz que este ergueu os bra\u00e7os em sinal de rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 19 de abril de 2015,\u00a0o jovem negro Freddie Gray morreu sob cust\u00f3dia policial em Baltimore, Maryland, o que ocasionou um novo clamor contra os preconceitos e abusos da pol\u00edcia dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\/\">Estados Unidos<\/a>\u00a0contra a popula\u00e7\u00e3o negra. As manifesta\u00e7\u00f5es, que haviam come\u00e7ado de maneira pac\u00edfica, acabaram se transformando em fortes dist\u00farbios por parte de um grupo de manifestantes, a sua maioria jovens.<\/p>\n<p>Nunca houve sil\u00eancio sobre os assassinatos e a trucul\u00eancia policial racista, embora essa viol\u00eancia contra negros seja permanente. Mas nunca se viu a propaga\u00e7\u00e3o desses movimentos por todo o pa\u00eds e ao mesmo temp. Por tantos dias e com tend\u00eancia a continuar crescendo.<\/p>\n<p>Algo mudou completamente, o assassinato de Floyd gerou uma insurrei\u00e7\u00e3o que parece n\u00e3o ter hora para acabar. Algo que n\u00e3o se via em n\u00famero, tamanho e express\u00e3o h\u00e1 mais de 50 anos. Ali\u00e1s, muito maior que a manifesta\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte do ativista pol\u00edtico por direitos civis, Martin Luther King em 1969.<\/p>\n<p><strong>Movimento ganha for\u00e7a meio \u00e0 pandemia do novo\u00a0<\/strong><strong>c<\/strong><strong>oronav\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p>A crise social iniciada a partir do brutal assassinato de George Floyd acontece em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, no auge da dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, que j\u00e1 matou milhares de pessoas nos EUA e no mundo. A crise de sa\u00fade se soma \u00e0 crise econ\u00f4mica, de caracter\u00edsticas in\u00e9ditas, que tende a se aprofundar nos pr\u00f3ximos meses, e com toda a tens\u00e3o pol\u00edtica de um ano eleitoral norte-americano. O cen\u00e1rio \u00e9 extremamente imprevis\u00edvel do ponto de vista pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es foram crescendo dia a dia. Na terceira noite de protestos, quinta feira, 28 de maio, eles se concentraram na Terceira Delegacia de Minneapolis, que foi incendiada, espalhando-se por outras \u00e1reas da cidade. A revolta liderada pelos negros nas ruas de Minneapolis \u00e9 alimentada pelo peso hist\u00f3rico de d\u00e9cadas de segrega\u00e7\u00e3o e desigualdade. Apesar de sua reputa\u00e7\u00e3o como um ref\u00fagio para a pol\u00edtica progressista, Minneapolis \u00e9 a \u00e1rea\u00a0<a href=\"https:\/\/www.law.umn.edu\/sites\/law.umn.edu\/files\/metro-files\/msp_trtype10.pdf\">metropolitana mais segregada<\/a>\u00a0dos EUA.<\/p>\n<p>No domingo, 31 de maio, Trump passou pelo menos uma hora em um bunker subterr\u00e2neo durante os confrontos no lado de fora. O Ex\u00e9rcito patrulha as ruas na Calif\u00f3rnia. S\u00e3o mais de 40 cidades mobilizadas, ao menos 30 delas com toque de recolher e guarda nacional<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0acionada (mecanismo utilizado somente durante a 2\u00ba guerra mundial).<\/p>\n<p>Depois de 11 dias seguidos, manifestantes ainda tomavam as ruas de muitas cidades e a Casa Branca tem sido um local de protestos di\u00e1rios. O clima de tens\u00e3o diminuiu por alguns motivos, mas as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez mais numerosas. Em um esfor\u00e7o permanente de combater o vandalismo e tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de postura das for\u00e7as policiais no acompanhamento, que passaram a n\u00e3o intervir nas movimenta\u00e7\u00f5es de forma direta, ao inv\u00e9s disso, policiais \u00e0 paisana acompanham de longe, inclusive foram filmados epis\u00f3dios de solidariedade entre a pol\u00edcia e os manifestantes.<\/p>\n<p><strong>O impacto dos protestos no governo Trump<\/strong><\/p>\n<p>O comportamento de Trump diante dos acontecimentos acirra ainda mais as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e causa a indigna\u00e7\u00e3o de muitos. Em uma de suas declara\u00e7\u00f5es no Twitter, repete uma frase da d\u00e9cada de 60, sugerindo atirar em manifestantes: \u201cestes BANDIDOS est\u00e3o desonrando a mem\u00f3ria de George Floyd, e eu n\u00e3o deixarei que isso aconte\u00e7a. Acabei de conversar com o governador Tim Waltz e disse que o Ex\u00e9rcito est\u00e1 com ele at\u00e9 o fim. Qualquer dificuldade e n\u00f3s assumiremos o controle, mas quando come\u00e7am os saques, come\u00e7am os tiros\u201d. A plataforma Twitter incluiu aviso de exalta\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na mensagem.<\/p>\n<p>Trump utiliza com rigor a t\u00e1tica da ultradireita em descrever os manifestantes como inimigos da na\u00e7\u00e3o. Em epis\u00f3dio inusitado, chegou a solicitar a retirada de manifestantes que estavam no entorno da Casa Branca para tirar uma foto na igreja, com a B\u00edblia estendida. Embora esse gesto sirva como performance orientada a sua base eleitoral conservadora, n\u00e3o parece estar surtindo efeito.<\/p>\n<p>Os manifestantes est\u00e3o ganhando apoio popular durante os confrontos, aos gritos de \u201cas ruas s\u00e3o nossas\u201d. A tentativa de criminaliza\u00e7\u00e3o dos protestos, a exemplo de outros epis\u00f3dios da luta racial, desta vez teve dura resposta da sociedade americana. Pesquisas mostram que dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o apoiam as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas vit\u00f3rias v\u00eam ajudando o movimento a ganhar for\u00e7a e levar mais pessoas as ruas. No dia 4 de junho, o governador da cidade de Nova York suspendeu o toque de recolher. Disse que vai decretar um momento de sil\u00eancio em todo o estado, em mem\u00f3ria de Floyd. Ele se mostrou preocupado com o avan\u00e7o da pandemia do novo Coronav\u00edrus e pediu para que todas as pessoas que participam dos protestos fa\u00e7am teste para diagnosticar a Covid-19 e, para isso, ele vai aumentar a capacidade de testes em todo o estado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, Trump enfrenta dificuldades no pr\u00f3prio governo. Seu secret\u00e1rio de Defesa n\u00e3o concorda com a pol\u00edtica de enfrentamento proposta pelo presidente. O chefe do Pent\u00e1gono, Mark Esper, se distancia e rejeita o envio do Ex\u00e9rcito para conter protestos, afirmando que \u201cmedidas como essa devem ser usadas apenas como \u00faltimo recurso e nas situa\u00e7\u00f5es mais urgentes e extremas\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 para al\u00e9m das fronteiras dos EUA<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia e a crise econ\u00f4mica desoladora que passa os EUA, que perdeu 20,5 milh\u00f5es de postos de trabalho em abril e registra um \u00edndice de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/desempleo\">desemprego<\/a>\u00a0de 14,7%, o mais alto em mais de 70 anos, junto a aus\u00eancia de respostas do Estado, geram respectivamente conclus\u00f5es aos negros e os mais pobres, morrer de fome, doente ou pela bala da pol\u00edcia. A partir da internacionaliza\u00e7\u00e3o dos protestos, como vem acontecendo em Paris e em algumas cidades do Brasil, por exemplo, s\u00e3o sintomas desse mesmo referencial de crise generalizada. N\u00e3o s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es somente antirracistas, mas que tamb\u00e9m expressam o descontentamento com a maneira que se organiza a economia e a pol\u00edtica mundialmente.<\/p>\n<p>Houve protesto antirracista, no dia 2, em Paris, na Fran\u00e7a, com confronto entre manifestantes e a pol\u00edcia. O ato levou milhares de pessoas \u00e0s ruas da capital. Outras cidades, como Marselha e Nantes, tamb\u00e9m tiveram protestos nas ruas. Os manifestantes se reuniram por cerca de duas horas em torno do tribunal de Paris em homenagem a George Floyd e a Adama Traor\u00e9, um homem negro franc\u00eas que morreu sob cust\u00f3dia policial em 2016, segundo relato de seu irm\u00e3o, suas \u00faltimas palavras foram as mesmas de George Floyd: \u201cn\u00e3o consigo respirar\u201d.<\/p>\n<p>Os jovens negros que se manifestam em Paris s\u00e3o filhos da imigra\u00e7\u00e3o e do colonialismo franc\u00eas, s\u00e3o tamb\u00e9m os que mais sofrem pela falta de condi\u00e7\u00f5es e a desigualdade social.<\/p>\n<p>Na cidade canadense de Toronto, o protesto contra o racismo tamb\u00e9m foi em homenagem a Regis Korchinski-Paquet, um homem negro que morreu depois de cair de um pr\u00e9dio durante uma abordagem policial. Em Londres, o protesto pac\u00edfico foi no distrito de Peckham, na capital brit\u00e2nica. Os manifestantes gritavam \u201cJusti\u00e7a por George Floyd\u201d e carregavam faixas e cartazes em sua homenagem. Em Berlim, na Alemanha, milhares de manifestantes se reuniram em frente \u00e0 embaixada americana e espalharam a frase do movimento Black Lives Matter.<\/p>\n<p>No Brasil o efeito foi imediato. Protesto de comunidades e coletivos de favelas no pal\u00e1cio Guanabara no Rio de Janeiro e uma grande manifesta\u00e7\u00e3o de torcidas organizadas pela democracia no MASP em S\u00e3o Paulo. Manifesta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m em Curitiba e outras cidades.<\/p>\n<p>A solidariedade internacional ao movimento, a refer\u00eancia identit\u00e1ria do povo negro que se organiza e se manifesta em v\u00e1rias cidades e o descontentamento com a estrutura pol\u00edtica e organizativa que mant\u00e9m as desigualdades, s\u00e3o partes fundamentais da indigna\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso e come\u00e7a a se espalhar pelo mundo. Seus impactos j\u00e1 s\u00e3o vis\u00edveis em muitos lugares. O debate sobre o racismo e os questionamentos pol\u00edticos a procura de respostas aos antigos e novos problemas sociais ganham for\u00e7a nas ruas.<\/p>\n<p><strong>A di\u00e1spora negra e a omiss\u00e3o de direitos \u00e0 ra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 forma respons\u00e1vel de iniciar uma reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia das vidas negras e a jornada de manifesta\u00e7\u00f5es que acontecem nos \u00faltimos dias nos EUA, sem compreendermos, ainda que brevemente, tr\u00eas elementos fundamentais que contextualizam historicamente a identidade negra em todo o planeta: a di\u00e1spora africana, o distintivo racial da negritude e a condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica decorrente desse hist\u00f3rico de omiss\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora africana, ou negra, como tamb\u00e9m \u00e9 conhecida, se caracteriza pelo fen\u00f4meno de imigra\u00e7\u00e3o de africanos, durante o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de escravizados. Junto com seres humanos, nestes fluxos for\u00e7ados, embarcavam modos de vida, culturas, pr\u00e1ticas religiosas, l\u00ednguas e formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que acabaram por influenciar na constru\u00e7\u00e3o das sociedades \u00e0s quais os africanos escravizados tiveram como destino. Estima-se que, durante todo per\u00edodo do tr\u00e1fico negreiro, aproximadamente 11 milh\u00f5es de africanos foram transportados para as Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica dos negros nas Am\u00e9ricas guarda peculiaridades de acordo com cada pa\u00eds, seu processo de liberta\u00e7\u00e3o dos escravos e a pol\u00edtica posterior aplicada. Nos EUA, por exemplo, como forma de manter a m\u00e3o de obra e de dar um destino econ\u00f4mico \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra \u2013 liberta, mas n\u00e3o socialmente inclu\u00edda \u2013 foi adotada uma estrat\u00e9gia de criminaliza\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a. Isso ocorria tanto por meio da comunica\u00e7\u00e3o \u2013 exibindo v\u00eddeos e propagandas nas quais negros configuravam como animais e estupradores \u2013 como no \u00e2mbito da justi\u00e7a, pelo qual eram presos por motivos insignificantes. Uma vez presos, voltavam a servir como trabalhadores sem custo, praticamente voltando a ser escravos.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, as diferen\u00e7as s\u00e3o gritantes entre negros e brancos, da condi\u00e7\u00e3o salarial ao acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, passando pelos \u00edndices de viol\u00eancia. O privil\u00e9gio branco est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o do negro na sociedade capitalista atual. Aquilo que nos identifica racialmente \u00e9 fundamental para entender como as diferen\u00e7as sociol\u00f3gicas se manifestam na realidade concreta. Por motivos \u00f3bvios, essa distin\u00e7\u00e3o pode ser relativizada por uma s\u00e9rie de quest\u00f5es e negada por segmentos sociais historicamente privilegiados nessa rela\u00e7\u00e3o. No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o considerar que, a cor da pele nos remete imediatamente a alguma conforma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como disse W.E.B. Du Bois o l\u00edder mais importante nos primeiros anos do movimento norte-americano pelos direitos civis, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX: \u201cmesmo as caracter\u00edsticas f\u00edsicas incluindo a cor da pele, s\u00e3o resultados diretos, em medida consider\u00e1vel, do ambiente f\u00edsico e social. Al\u00e9m disso, s\u00e3o indefinidos e fugazes demais\u201d. Baseado nisso, em autobiografia, o autor abandona a defini\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de ra\u00e7a em prol do fato de que ele escreve sobre africanos, e que africanos e afrodescendentes t\u00eam o que chama de ancestralidade racial em comum, porque:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014\u00a0<em>\u00e9 importante not\u00e1-lo \u2014 \u201ct\u00eam uma hist\u00f3ria em comum, sofreram um mesmo desastre e t\u00eam uma \u00fanica e longa mem\u00f3ria de desastre\u201d. Porque a cor, embora pouco significativa em si, \u00e9 importante \u2014 Du Bois afirma \u2014 \u201ccomo distintivo da heran\u00e7a social da escravid\u00e3o, da dissemina\u00e7\u00e3o e do insulto dessa experi\u00eancia.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Um distintivo, uma ins\u00edgnia, uma marca. Aqui est\u00e1 a ideia de que ra\u00e7a \u00e9 um significante, em outras palavras, o significado racial da negritude se encontra na mem\u00f3ria e na realidade vivida da sua hist\u00f3ria, dos acontecimentos e seus resultantes no tempo presente. O mesmo distintivo social que liga George Floyd de Minneapolis a Jo\u00e3o Pedro em S\u00e3o Gon\u00e7alo, \u00e9 a identidade que orienta tamb\u00e9m todo o povo negro das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p><strong>A luta por direitos civis nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960<\/strong><\/p>\n<p>O Movimento pelos Direitos Civis \u00e9 o nome que se d\u00e1 \u00e0 luta dos negros norte-americanos por esses direitos, especialmente nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960.\u00a0Nos\u00a0<a href=\"https:\/\/escola.britannica.com.br\/artigo\/Estados-Unidos\/482749\">Estados Unidos<\/a>, os direitos civis de muitos negros foram negados em sua totalidade por quase cem anos ap\u00f3s o fim da\u00a0<a href=\"https:\/\/escola.britannica.com.br\/artigo\/escravid%C3%A3o\/482519\">escravid\u00e3o<\/a>. Revisitar esse per\u00edodo de destaque do movimento Negro dos EUA, \u00e9 parte da tarefa desafiadora, de compreender a hist\u00f3ria de luta do povo negro e sua trajet\u00f3ria incans\u00e1vel por igualdade racial.<\/p>\n<p>Alguns dos epis\u00f3dios de uma extensa cronologia do Movimento por Direitos Civis nos Estados Unidos nesse per\u00edodo<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>:<\/p>\n<p>1955 \u2013 Rosa Parks lan\u00e7ou a bem-sucedida Campanha de Boicote de \u00f4nibus em Montgomery, Alabama.<\/p>\n<p>1961 \u2013 Um grupo chamado Congresso da Igualdade Racial organizou uma Viagem de Liberdade, transportando 500 brancos e negros do Norte em \u00f4nibus para, simbolicamente, quebrar a segrega\u00e7\u00e3o no transporte p\u00fablico. A pol\u00edcia local e brancos racistas responderam com viol\u00eancia brutal.<\/p>\n<p>1963 \u2013 Em agosto, CORE, NAACP, SNCC, SCLC e v\u00e1rios sindicatos organizaram a Marcha por Emprego e Liberdade de 200 mil pessoas em Washington em frente ao Memorial a Lincoln.<\/p>\n<p>1964 \u2013 O Congresso e o Senado aprovaram a Lei dos Direitos Civis proibindo segrega\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os p\u00fablicos. Entre 1964-1969 ocorrem 341 rebeli\u00f5es urbanas em 265 cidades deixando 221 mortos, em grande parte, negros. No mesmo ano Luther King ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Paz.<\/p>\n<p>1965 \u2013 O Congresso e Senado aprovaram a Lei do Direito de Voto proibindo discrimina\u00e7\u00e3o no processo eleitoral. Malcolm X foi assassinado em Nova York. O Movimento pela Liberdade em Chicago foi lan\u00e7ado pela SCLC e Luther King para acabar com discrimina\u00e7\u00e3o em habita\u00e7\u00e3o e emprego dos negros nas cidades nortistas. Luther King critica o governo de Lyndon Johnson sobre a guerra no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>1966 \u2013 O Partido dos Panteras Negras foi fundado na Calif\u00f3rnia e o movimento \u201cBlack Power\u201d come\u00e7a eclipsar o convencional movimento por direitos civis liderado por Luther King.<\/p>\n<p>1968 \u2013 Luther King foi assassinado em Memphis.<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo importante da Hist\u00f3ria do Movimento negro americano foi a cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, conhecido como o Partido dos Panteras Negras, fundado em 1966, por Huey Newton e Bobby Seale que criaram essa organiza\u00e7\u00e3o nacional como forma de combater coletivamente a opress\u00e3o dos brancos. A viol\u00eancia policial com os negros era recorrente na revista por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os Panteras Negras sintetizaram seus objetivos em um programa com 10 pontos que inclu\u00edaliberdade, terra, habita\u00e7\u00e3o, emprego e educa\u00e7\u00e3o. Sua contribui\u00e7\u00e3o influenciou enormemente as movimenta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo e foi decisiva para a conforma\u00e7\u00e3o do movimento negro e seu car\u00e1ter est\u00e9tico, pol\u00edtico e cultural at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>O mar da Hist\u00f3ria est\u00e1 agitado<\/strong><\/p>\n<p>A di\u00e1spora negra come\u00e7a a se levantar e est\u00e1 mais viva hoje do que em qualquer dia do passado. George Floyd n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s, mas a mem\u00f3ria de luta do povo negro encontrou um novo ponto humanit\u00e1rio e simb\u00f3lico de unidade, que canaliza a indigna\u00e7\u00e3o social diante de toda essa viol\u00eancia. Este \u00e9 certamente um novo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do movimento negro que pode transbordar as rela\u00e7\u00f5es sociais e \u00e9tnicorraciais por mudan\u00e7as estruturais em todo o globo.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os casos como o de George Floyd pelo mundo, no Brasil o \u00faltimo com visibilidade foi adolescente Jo\u00e3o Pedro, de 14 anos, que teve sua casa crivada com mais de 70 balas de fuzil na cidade de S\u00e3o Gon\u00e7alo, no estado do Rio de Janeiro. O caso Marielle, conhecido mundialmente segue sem justi\u00e7a h\u00e1 mais de 2 anos. Imagens dos EUA mostram uma palavra de ordem nas ruas das capitais:\u00a0<em>No Just, no Peace<\/em>, que em tradu\u00e7\u00e3o livre significa \u201cSem Justi\u00e7a, sem paz\u201d. A luta antirracista precisa ver respostas e, ao que tudo indica, seguir\u00e1 nas ruas enquanto n\u00e3o as conseguir.<\/p>\n<p>Ainda que os poderosos quisessem verdadeiramente ajudar na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais, sobretudo na desigualdade racial, n\u00e3o se trata apenas de uma vontade pol\u00edtica, Trump representa a manuten\u00e7\u00e3o dos resultados pol\u00edticos e econ\u00f4micos, fruto das contradi\u00e7\u00f5es e da desesperan\u00e7a por uma vida melhor. \u00c9 a revolta e o \u00f3dio organizado por um programa conservador, que em nada se preocupa com negros, latinos ou imigrantes. Mas a din\u00e2mica n\u00e3o para por a\u00ed.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es t\u00eam um limite at\u00e9 mesmo na perspectiva de atender as demandas antirracistas, pois comprometeria a estrutura capitalista do Estado, que se alimenta e mant\u00e9m essa desigualdade porque lucra com isso. H\u00e1 um embate inevit\u00e1vel com o comit\u00ea gestor do capitalismo e a ess\u00eancia excludente do sistema.<\/p>\n<p>Uma chave parece estar virando, ao menos dentro do cora\u00e7\u00e3o do imperialismo. Abre-se um novo tempo de possibilidades e lutas pelo mundo. O car\u00e1ter antirracista, combinado a indigna\u00e7\u00e3o do povo com questionamentos sobre as formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica come\u00e7am a tomar conta dos debates cotidianos, ganhando forma e potencial de transforma\u00e7\u00e3o. Na medida em que a crise econ\u00f4mica se aprofunda, diante de tanta desigualdade potencializada pela situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que passa o mundo, somente a organiza\u00e7\u00e3o do povo poder\u00e1 arrancar vit\u00f3rias expressivas e salvar vidas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois caminhos para a rebeli\u00e3o negra norte-americana. Perder for\u00e7a social para os substitucionistas \u2013 os que tentam substituir as maiorias por suas supostas vanguardas \u2013, transformando as ruas em um campo de guerra. Isso justificaria a j\u00e1 anunciada pol\u00edtica de Donald Trump em fazer um combate aberto, criminalizando os protestos e tratando os manifestantes como bandidos. Esse cen\u00e1rio poderia fortalecer Trump repetindo, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, o ano de 1969, no qual, ap\u00f3s o assassinato de Martin Luther King, foi acionada a Lei de Insurrei\u00e7\u00e3o \u2013 criada em 1807 e que prev\u00ea o recurso ao Ex\u00e9rcito em casos de extrema gravidade e amea\u00e7a de ordem p\u00fablica. Ap\u00f3s esse acontecimento hist\u00f3rico, os EUA elegeram Richard Nixon como presidente sob o lema \u201clei e ordem\u201d.<\/p>\n<p>A outra via \u00e9 apostar na organiza\u00e7\u00e3o do povo e no di\u00e1logo com as massas. Ampliar as manifesta\u00e7\u00f5es de rua, vencer a tentativa de substitucionismo da pauta, combatendo os infiltrados, como v\u00eam fazendo, para atingir maioria social capaz de emparedar o governo. E a partir da constru\u00e7\u00e3o de um programa de exig\u00eancias, como deixou de legado o Partido dos Panteras Negras e seus 10 pontos, arrancar reformas estruturais, elevando o n\u00edvel de consci\u00eancia, enviando uma mensagem a toda di\u00e1spora negra e ao povo explorado e oprimido pelo mundo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0A guarda nacional possui 13 mil soldados (Uma for\u00e7a convocada em situa\u00e7\u00f5es excepcionais) Minnesota foi ativada com a justificativa de conter os \u201canfifas\u201d infiltrados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/anphlac.fflch.usp.br\/direitos-civis-eua-cronologia\">http:\/\/anphlac.fflch.usp.br\/direitos-civis-eua-cronologia<\/a><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"ni4r7bUIaO\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/\">Por que revoltas antirracistas espalham-se pelo mundo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Por que revoltas antirracistas espalham-se pelo mundo&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/por-que-as-revoltas-antirracistas-espalharam-se-pelo-mundo\/embed\/#?secret=FiYUkSJtnP#?secret=ni4r7bUIaO\" data-secret=\"ni4r7bUIaO\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Italo Jardim &#8211; Nem na morte de Luther King protestos foram t\u00e3o imensos e globais. 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