{"id":13622,"date":"2020-06-24T11:24:41","date_gmt":"2020-06-24T14:24:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13622"},"modified":"2020-06-23T18:27:04","modified_gmt":"2020-06-23T21:27:04","slug":"morin-e-as-questoes-sem-resposta-de-nosso-labirinto-outras-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/06\/24\/morin-e-as-questoes-sem-resposta-de-nosso-labirinto-outras-palavras\/","title":{"rendered":"Morin e as quest\u00f5es sem resposta de nosso labirinto &#8211; Outras Palavras"},"content":{"rendered":"<p><strong>Edgar Morin &#8211; <\/strong>Todas as futurologias do s\u00e9culo XX\u00a0que previam o futuro com base nas correntes que atravessavam o presente fracassaram. Contudo, continuamos a prever 2025 e 2050 mesmo que sejamos incapazes de compreender 2020. A experi\u00eancia das irrup\u00e7\u00f5es do inesperado na hist\u00f3ria n\u00e3o penetrou nas consci\u00eancias. A chegada do imprevis\u00edvel era previs\u00edvel, mas n\u00e3o sua natureza. Da\u00ed minha m\u00e1xima permanente: \u201cespere pelo inesperado\u201d.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o parte dessa minoria que previa cat\u00e1strofes em cadeia provocadas pelo desdobramento incontrol\u00e1vel da mundializa\u00e7\u00e3o tecno-econ\u00f4mica, incluindo aquelas que resultam da degrada\u00e7\u00e3o da biosfera e das sociedades. De forma alguma, por\u00e9m, previ uma cat\u00e1strofe viral. Mas ela teve seu profeta: em uma confer\u00eancia de abril de 2012, Bill Gates anunciou que o perigo imediato para a humanidade n\u00e3o era nuclear, mas sim sanit\u00e1rio. Durante a epidemia de Ebola, que por sorte p\u00f4de ser rapidamente controlada, ele viu o pren\u00fancio do perigo mundial de um poss\u00edvel v\u00edrus com forte poder de contamina\u00e7\u00e3o. Falou sobre as medidas de preven\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias, dentre elas equipamento hospitalar adequado. Mas, a despeito desta advert\u00eancia p\u00fablica, nada foi feito nos EUA nem em lugar algum. Isso porque o conforto intelectual e o h\u00e1bito odeiam mensagens inc\u00f4modas.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses, na Fran\u00e7a inclusive, a intensa estrat\u00e9gia econ\u00f4mica dos fluxos, ao substituir a da estocagem, deixou nosso dispositivo sanit\u00e1rio desprovido de m\u00e1scaras, instrumentos de teste e aparelhos respirat\u00f3rios. Acres\u00e7a-se a isso a doutrina liberalizante e comercial com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, que reduz verbas e contribui para o avan\u00e7o catastr\u00f3fico da epidemia.<\/p>\n<p><strong>O desafio da complexidade<\/strong><\/p>\n<p>A presente epidemia produz um festival de incertezas. N\u00e3o estamos seguros da origem do v\u00edrus: se foi o mercado insalubre de Wuhan ou o laborat\u00f3rio vizinho. N\u00e3o sabemos ainda as muta\u00e7\u00f5es que o v\u00edrus sofreu e poder\u00e1 sofrer durante o curso de sua propaga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos quando a epidemia refluir\u00e1 ou se o v\u00edrus permanecer\u00e1 end\u00eamico. N\u00e3o sabemos at\u00e9 quando, nem at\u00e9 que ponto, o confinamento nos submeter\u00e1 a proibi\u00e7\u00f5es, restri\u00e7\u00f5es, racionamentos. N\u00e3o sabemos quais as consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas, nacionais e planet\u00e1rias das restri\u00e7\u00f5es causadas pelos confinamentos. N\u00e3o sabemos se devemos esperar o pior, o melhor, ou uma mistura dos dois: caminhamos na dire\u00e7\u00e3o a novas incertezas. Os conhecimentos multiplicam-se exponencialmente de tal forma que ultrapassam a capacidade de nos apropriarmos deles; lan\u00e7am, sobretudo, um desafio para a complexidade: como confrontar, selecionar, organizar os conhecimentos de forma adequada, ao mesmo tempo religando-os e integrando as incertezas. Para mim, isso revela mais uma vez a insufici\u00eancia do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar o que \u00e9 insepar\u00e1vel e reduzir a um \u00fanico elemento aquilo que \u00e9 ao mesmo tempo uno e diverso. De fato, a importante revela\u00e7\u00e3o dos impactos que sofremos \u00e9 que tudo aquilo que parecia separado est\u00e1 conectado, porque uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria envolve integralmente a totalidade de tudo o que \u00e9 humano.<\/p>\n<p>\u00c9 tr\u00e1gico que o pensamento disjuntor e redutor reine soberano em nossa civiliza\u00e7\u00e3o e detenha o comando tanto na pol\u00edtica e na economia. Essa desastrosa insufici\u00eancia nos conduziu a erros de diagn\u00f3stico, de preven\u00e7\u00e3o, assim como a decis\u00f5es aberrantes. Acrescento que essa obsess\u00e3o dominante pela rentabilidade entre nossos governantes e que conduz nossa economia \u00e9 respons\u00e1vel, repito, pelo abandono dos hospitais bem como da produ\u00e7\u00e3o m\u00e1scaras na Fran\u00e7a. Do meu ponto de vista, as car\u00eancias no nosso modo de pensar, aliadas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel de uma sede desenfreada de lucro, s\u00e3o respons\u00e1veis por in\u00fameros desastres humanos incluindo aqueles que v\u00eam ocorrendo desde fevereiro de 2020<\/p>\n<p><strong>Pot\u00eancia e impot\u00eancia da ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 mais que leg\u00edtimo que a ci\u00eancia seja convocada pelo poder para lutar contra a epidemia. A princ\u00edpio tranquilizados, sobretudo por causa do uso da cloroquina defendido pelo professor Didier Raoult, os cidad\u00e3os se defrontaram depois com opini\u00f5es diferentes e at\u00e9 mesmo contr\u00e1rias. Os cidad\u00e3os mais informados descobriram que alguns renomados cientistas mant\u00eam estreitas rela\u00e7\u00f5es com a ind\u00fastria farmac\u00eautica, que possuem lobistas poderosos junto aos minist\u00e9rios e meios de comunica\u00e7\u00e3o, capazes de inspirar campanhas para ridicularizar ideias inconvenientes. Lembremos do professor Luc Montagnier que, contra pont\u00edfices e mandarins da ci\u00eancia foi, juntamente com alguns outros colegas, o descobridor do HIV, o v\u00edrus da aids.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a ocasi\u00e3o para compreender que a ci\u00eancia, diferente da religi\u00e3o, n\u00e3o tem um repert\u00f3rio de verdades absolutas e que suas teorias s\u00e3o biodegrad\u00e1veis sob efeito de novas descobertas. As teorias aceitas tendem a se tornar dogm\u00e1ticas nas c\u00fapulas acad\u00eamicas, e s\u00e3o os desviantes, de Pasteur a Einstein, passando por Darwin\u00a0e Crick e Watson, os descobridores da dupla h\u00e9lice de DNA, que fazem com que as ci\u00eancias progridam. \u00c9 por isso que as controv\u00e9rsias, longe de serem uma anomalia, s\u00e3o necess\u00e1rias a tal progresso.<\/p>\n<p>Mais uma vez, frente ao desconhecido, tudo progride por tentativa e erro, assim como por inova\u00e7\u00f5es desviantes, a princ\u00edpio incompreendidas e rejeitadas. Esta \u00e9 a aventura terap\u00eautica contra o v\u00edrus. Os rem\u00e9dios podem aparecer aonde ningu\u00e9m esperava. Em decorr\u00eancia disso, seria necess\u00e1rio um verdadeiro debate sobre o antagonismo entre prud\u00eancia e urg\u00eancia, ao inv\u00e9s da velha dicotomia daqueles que se prendem a apenas uma das partes: a prud\u00eancia corre o risco de aumentar o n\u00famero de v\u00edtimas por falta de testes confi\u00e1veis; a urg\u00eancia, por sua vez, pode subestimar os efeitos secund\u00e1rios de um tratamento que tem obtido bons resultados imediatos. Qualquer que seja a decis\u00e3o, trata-se de um desafio na qual cada escolha comporta um perigo de perdas de vidas humanas.<\/p>\n<p>Mais uma vez as incertezas. Lembremos que a ci\u00eancia \u00e9 devastada pela hiperespecializa\u00e7\u00e3o, que implica o fechamento e a compartimentaliza\u00e7\u00e3o de saberes especializados, ao inv\u00e9s de promover sua comunica\u00e7\u00e3o. E s\u00e3o sobretudo os pesquisadores independentes que estabeleceram desde o in\u00edcio da epidemia uma coopera\u00e7\u00e3o que agora se amplia entre infectologistas e m\u00e9dicos de todo o planeta. A ci\u00eancia vive de comunica\u00e7\u00f5es, qualquer tipo de censura a bloqueia. Devemos, portanto, conceber as pot\u00eancias e impot\u00eancias da ci\u00eancia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>Incertezas e din\u00e2micas da crise<\/strong><\/p>\n<p>Em meu ensaio Sobre a crise, tentei mostrar que uma crise, para al\u00e9m da desestabiliza\u00e7\u00e3o e da incerteza que acarreta, se manifesta pela insufici\u00eancia das regula\u00e7\u00f5es de um sistema que, para manter sua estabilidade, inibe ou repele os desvios (feedback negativo). Deixando de ser repelidos, os desvios (feedback positivo) transformam-se em tend\u00eancias ativas que, se desenvolvidas, amea\u00e7am cada vez mais desregular e bloquear o sistema em crise. Nos sistemas vivos, sobretudo os sociais, o desenvolvimento vitorioso dos desvios convertidos em tend\u00eancias conduz \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es, regressivas ou progressivas, ou mesmo a uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise em uma sociedade suscita dois processos contradit\u00f3rios. O primeiro estimula a imagina\u00e7\u00e3o e a criatividade em busca de solu\u00e7\u00f5es novas. O segundo se concentra no retorno a uma estabilidade passada, seja a ades\u00e3o a uma salva\u00e7\u00e3o providencial, ou a den\u00fancia ou imola\u00e7\u00e3o de um culpado. O culpado pode ter cometido erros que levaram \u00e0 crise, ou pode ser um culpado imagin\u00e1rio, bode expiat\u00f3rio que precisa ser eliminado. Manifesta-se, efetivamente, um fervilhar de ideias em busca de uma nova Via ou de uma sociedade melhor.<\/p>\n<p>As ideias desviantes e marginalizadas se propagam desordenadamente: retorno \u00e0 soberania, Estado-provid\u00eancia, defesa dos servi\u00e7os p\u00fablicos contra as privatiza\u00e7\u00f5es, realoca\u00e7\u00f5es, desmundializa\u00e7\u00e3o, anti-neoliberalismo, necessidade de uma nova pol\u00edtica. Pessoas e ideologias s\u00e3o designadas como culpadas.<\/p>\n<p>Na car\u00eancia dos poderes p\u00fablicos, identifica-se tamb\u00e9m uma profus\u00e3o de imagina\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias: produ\u00e7\u00e3o alternativa para a falta de m\u00e1scaras por empresas reconvertidas ou por confec\u00e7\u00f5es artesanais, reagrupamento de produ\u00e7\u00f5es locais, entregas gratuitas em domic\u00edlio, ajuda m\u00fatua entre vizinhos, alimenta\u00e7\u00e3o gratuita aos sem-teto, cuidado das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o confinamento estimula as capacidades auto-organizadoras para remediar, por meio de leituras, m\u00fasica se filmes, a perda da liberdade de deslocamento. Desse modo, autonomia e inventividade s\u00e3o estimuladas pela crise.<\/p>\n<p><strong>Um mundo incerto e tr\u00e1gico<\/strong><\/p>\n<p>Espero que a excepcional e mort\u00edfera epidemia que vivenciamos nos d\u00ea a consci\u00eancia n\u00e3o apenas de que somos n\u00e3o apenas parte integrante da inacredit\u00e1vel aventura da Humanidade, mas tamb\u00e9m que vivemos em um mundo ao mesmo tempo incerto e tr\u00e1gico. A convic\u00e7\u00e3o de que a livre concorr\u00eancia e o crescimento econ\u00f4mico s\u00e3o panaceias sociais escamoteia a trag\u00e9dia da hist\u00f3ria humana agravada por essa convic\u00e7\u00e3o. A loucura euf\u00f3rica do transhumanismo leva ao paroxismo o mito da necessidade hist\u00f3rica do progresso e do controle humano n\u00e3o somente na natureza, mas tamb\u00e9m de seu destino, prevendo que o homem aceder\u00e1 \u00e0 imortalidade e controlar\u00e1 tudo pela intelig\u00eancia artificial. Somos jogadores\/joguetes, possuidores\/possu\u00eddos, poderosos\/fracos. Mesmo que possamos retardar a morte por envelhecimento, jamais poderemos eliminar os acidentes mortais nos quais nossos corpos ser\u00e3o esmagados, n\u00e3o poderemos jamais nos livrar das bact\u00e9rias e dos v\u00edrus que sem cessar se transformam para resistir aos medicamentos, antibi\u00f3ticos, antivirais e vacinas.<\/p>\n<p><strong>Da pandemia \u00e0 megracrise generalizada<\/strong><\/p>\n<p>A epidemia mundial do v\u00edrus desencadeou e agravou terrivelmente uma crise sanit\u00e1ria e, no caso da Fran\u00e7a, provocou confinamentos que asfixiaram a economia, transformaram um modo de vida voltado para o exterior, numa introvers\u00e3o voltada para o lar, colocando a mundializa\u00e7\u00e3o numa crise sem precedentes. A mundializa\u00e7\u00e3o criou uma interdepend\u00eancia, mas sem que tal interdepend\u00eancia fosse acompanhada de solidariedade. Pior que isso, ela suscitou, em rea\u00e7\u00e3o, confinamentos \u00e9tnicos, nacionais, religiosos que se agravaram nas primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo. Diante da falta de institui\u00e7\u00f5es internacionais e mesmo europeias capazes de reagir com uma a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, os Estados nacionais se fecharam em si mesmos.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Tcheca at\u00e9 mesmo confiscou o envio de m\u00e1scaras destinadas \u00e0 It\u00e1lia, e aos EUA, desviaram em benef\u00edcio pr\u00f3prio um estoque de mascaras chinesas inicialmente destinadas \u00e0 Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria desencadeou uma engrenagem de crises que s\u00e3o concatenadas. Essa policrise ou megacrise se estende do existencial ao pol\u00edtico, passando pela economia, do individuo ao planet\u00e1rio, passando por fam\u00edlias, regi\u00f5es, Estados. Em suma, um min\u00fasculo v\u00edrus de uma cidade ignorada da China\u00a0desencadeou uma convuls\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Como crise planet\u00e1ria, p\u00f5e em evid\u00eancia a comunidade de destino de todos os humanos e sua liga\u00e7\u00e3o insepar\u00e1vel com o destino bio-ecol\u00f3gico do planeta Terra; intensifica simultaneamente a crise da humanidade que n\u00e3o chega a se constituir enquanto humanidade.<\/p>\n<p>Como crise econ\u00f4mica, abala todos os dogmas que comandam a economia e amea\u00e7a transformar nosso futuro em caos e pen\u00faria.<\/p>\n<p>Como crise nacional, revela as car\u00eancias de uma pol\u00edtica que prioriza o capital em detrimento do trabalho, sacrificando preven\u00e7\u00e3o e precau\u00e7\u00e3o para ampliar a rentabilidade e a competitividade.<\/p>\n<p>Como crise social, evidencia as desigualdades entre os que vivem em pequenas moradias populares com crian\u00e7as e parentes, e aqueles que puderam fugir para uma segunda resid\u00eancia no campo.<\/p>\n<p>Como crise civilizacional, a crise nos leva a perceber as car\u00eancias de solidariedade e a intoxica\u00e7\u00e3o do consumismo desenfreado de nossa civiliza\u00e7\u00e3o, e nos obriga a refletir sobre uma pol\u00edtica de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como crise intelectual, deveria nos revelar o enorme buraco negro que existe em nossa intelig\u00eancia, fato este que torna invis\u00edveis as evidentes complexidades do real.<\/p>\n<p>Como crise existencial, nos obriga a questionar nosso modo de vida, nossas verdadeiras necessidades, nossas verdadeiras aspira\u00e7\u00f5es encobertas pela aliena\u00e7\u00e3o da vida cotidiana, a saber diferenciar o entretenimento pascaliano, que nos desvia de nossas verdades, da felicidade que encontramos na leitura de um livro, na escuta ou na contempla\u00e7\u00e3o das obras-primas que nos fazem encarar nosso destino humano.<\/p>\n<p>A crise deveria, sobretudo, abrir nossas mentes, h\u00e1 bastante tempo reduzidas ao imediato, ao secund\u00e1rio e ao fr\u00edvolo, para o essencial: a import\u00e2ncia do amor e da amizade para nosso florescimento pessoal, para a comunidade e para a solidariedade de nossos \u201ceus\u201d nos \u201cnossos\u201d, para o destino da Humanidade, dentro da qual cada um de n\u00f3s \u00e9 uma mera part\u00edcula. Em suma, o confinamento f\u00edsico deveria favorecer o desconfinamento mental.<\/p>\n<p><strong>A experi\u00eancia do confinamento<\/strong><\/p>\n<p>A experi\u00eancia do confinamento domiciliar por tempo indeterminado imposto por uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia surpreendente. O confinamento do gueto de Vars\u00f3via permitia que seus habitantes circulassem pela cidade. Mas o confinamento do gueto preparava a morte, e nosso confinamento \u00e9 uma defesa da vida. Eu o vivencio em condi\u00e7\u00f5es privilegiadas, em um apartamento t\u00e9rreo com jardim, onde posso tomar sol e me alegrar com a chegada da primavera, bastante protegido por Sabah, minha esposa, cercado por am\u00e1veis vizinhos que fazem nossas compras, me comunicando com meus pr\u00f3ximos, meus amores, meus amigos, atendendo a pedidos da imprensa, r\u00e1dio ou televis\u00e3o, para oferecer meu diagn\u00f3stico, o que posso fazer por Skype. Sei, por\u00e9m, que desde o come\u00e7o, muita gente que vive em habita\u00e7\u00f5es ex\u00edguas n\u00e3o suporta a superlota\u00e7\u00e3o , que os solit\u00e1rios e sobretudo os sem-teto\u00a0s\u00e3o as v\u00edtimas do confinamento.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que um confinamento duradouro ser\u00e1 cada vez mais vivido como um impedimento. Os v\u00eddeos n\u00e3o v\u00e3o substituir por muito tempo a ida ao cinema, os tablets n\u00e3o podem substituir indefinidamente a ida \u00e0 livraria. O Skype e o Zoom n\u00e3o substituem o contato f\u00edsico, o tilintar do copo que brindamos. Mesmo que seja excelente, a comida caseira n\u00e3o elimina o desejo de ir a um restaurante. Os filmes document\u00e1rios n\u00e3o suprir\u00e3o a vontade de viajar para ver paisagens, cidades e museus, n\u00e3o acabar\u00e3o com meu desejo de rever a It\u00e1lia e a Espanha. A redu\u00e7\u00e3o ao indispens\u00e1vel tamb\u00e9m propicia a sede pelo sup\u00e9rfluo.<\/p>\n<p>Espero que a experi\u00eancia do confinamento possa moderar nosso impulso consumista, a fuga para Bangkok para trazer presentes e lembran\u00e7as para contar aos amigos, espero tamb\u00e9m que o confinamento contribua para diminuir o consumismo, ou seja, a intoxica\u00e7\u00e3o consumista e a obedi\u00eancia aos apelos publicit\u00e1rios, em prol dos alimentos saud\u00e1veis e saborosos, de produtos dur\u00e1veis e n\u00e3o descart\u00e1veis. Ser\u00e1 preciso, por\u00e9m, outros est\u00edmulos e novas tomadas de consci\u00eancia para que uma revolu\u00e7\u00e3o social venha a ocorrer. De qualquer forma, resta a esperan\u00e7a de que a lenta evolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 iniciada se acelere.<\/p>\n<p><strong>Rumo a um humanismo regenerado?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de tudo, o que os cidad\u00e3os e os poderes p\u00fablicos conservar\u00e3o da experi\u00eancia do confinamento? Somente uma parte? Tudo ser\u00e1 esquecido, cloroformizado ou folclorizado? O que parece mais prov\u00e1vel \u00e9 que a propaga\u00e7\u00e3o do digital, amplificada pelo confinamento (teletrabalho, teleconfer\u00eancias, Skype, uso intensivo da Internet), continuar\u00e1 com seus aspectos positivos e negativos, que n\u00e3o \u00e9 o caso de expor aqui. Vamos ao essencial.<\/p>\n<p>A sa\u00edda do confinamento ser\u00e1 o come\u00e7o da sa\u00edda da megacrise ou seu agravamento? Boom ou depress\u00e3o? Uma enorme crise econ\u00f4mica? Uma crise alimentar mundial?<\/p>\n<p>Continua\u00e7\u00e3o da mundializa\u00e7\u00e3o ou isolamento aut\u00e1rquico? Qual ser\u00e1 o futuro da mundializa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O neoliberalismo\u00a0amea\u00e7ado retomar\u00e1 o comando? As na\u00e7\u00f5es gigantes v\u00e3o se opor mais que no passado? Os conflitos armados, mais ou menos atenuados pela crise, se aprofundar\u00e3o?<\/p>\n<p>Haver\u00e1 um dinamismo internacional capaz de salvar a coopera\u00e7\u00e3o? Haver\u00e1 algum progresso pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social, como houve logo ap\u00f3s a segunda guerra mundial?<\/p>\n<p>Se prolongar\u00e1 ou se intensificar\u00e1 o despertar da solidariedade provocada durante o confinamento, n\u00e3o somente pelos m\u00e9dicos e m\u00e9dicas, pelos enfermeiros e enfermeiras mas tamb\u00e9m pelos garis, pelos encarregados de manuten\u00e7\u00e3o, entregadores, caixas, sem os quais n\u00e3o poder\u00edamos sobreviver, mesmo que tenhamos prescindido do Medef \u2013 Movimento das empresas da Fran\u00e7a \u2013 ou do CAC 40 \u2013 \u00edndice da bolsa de valores que re\u00fane as quarenta maiores empresas da Fran\u00e7a-?<\/p>\n<p>As inumer\u00e1veis e dispersas pr\u00e1ticas solid\u00e1rias de antes da epidemia ser\u00e3o amplificadas?<\/p>\n<p>Os desconfinados retomar\u00e3o o ciclo cronometrado, acelerado, ego\u00edsta, consumista? Ou haver\u00e1 um novo renascimento da vida convivial e amorosa rumo a uma civiliza\u00e7\u00e3o na qual se desenvolve a poesia da vida, onde o \u201ceu\u201d floresce em um \u201cn\u00f3s\u201d?<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos saber se ap\u00f3s o confinamento novos caminhos e ideias v\u00e3o desabrochar, ou mesmo revolucionar a pol\u00edtica e a economia, ou se a ordem abalada se restabelecer\u00e1. Podemos temer fortemente a regress\u00e3o generalizada observada j\u00e1 durante o curso dos vinte primeiros anos deste s\u00e9culo (crise da democracia, corrup\u00e7\u00e3o e demagogia triunfantes, regimes neo-autorit\u00e1rios, retomadas nacionalistas, xen\u00f3fobas, racistas).<\/p>\n<p>Todas essas regress\u00f5es (e na melhor das hip\u00f3teses estagna\u00e7\u00f5es) s\u00e3o prov\u00e1veis enquanto n\u00e3o emergir uma nova via pol\u00edtica-ecol\u00f3gica-econ\u00f4mica-social guiada por um humanismo regenerado. Tal humanismo multiplicaria as verdadeiras reformas, que n\u00e3o redu\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias, mas reformas da civiliza\u00e7\u00e3o, da sociedade, ligadas \u00e0s reformas de vida. Ela associaria, como indiquei em A Via, termos contradit\u00f3rios: \u201cmundializa\u00e7\u00e3o\u201d (para tudo que \u00e9 coopera\u00e7\u00e3o) e \u201cdesmundializa\u00e7\u00e3o\u201d (para garantir uma autossufici\u00eancia alimentar e preservar seus territ\u00f3rios da desertifica\u00e7\u00e3o); \u201ccrescimento\u201d (da economia de necessidades essenciais, sustent\u00e1veis, da agricultura familiar ou org\u00e2nica) e \u201cdecrescimento\u201d (da agropecu\u00e1ria industrial, da economia do sup\u00e9rfluo, do fr\u00edvolo, do descart\u00e1vel); \u201cdesenvolvimento\u201d (de tudo que produz bem-estar, sa\u00fade, liberdade) e \u201cenvolvimento\u201d (nas solidariedades comunit\u00e1rias).<\/p>\n<p>A p\u00f3s-epidemia ser\u00e1 uma aventura incerta na qual se desenvolver\u00e3o as for\u00e7as do pior e do melhor, estas \u00faltimas estando ainda debilitadas e dispersas. Saibamos enfim que o pior n\u00e3o \u00e9 certo, que o improv\u00e1vel pode irromper, e que, no tit\u00e2nico e inextingu\u00edvel combate entre inimigos insepar\u00e1veis s\u00e3o Eros e T\u00e2natos, \u00e9 sensato e revigorante tomar parte de Eros.<\/p>\n<p>A gripe espanhola deixou em minha m\u00e3e, Luna, uma les\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o e a recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de n\u00e3o ter filhos. Ela tentou dois abortos, o segundo fracassou, mas a crian\u00e7a nasceu quase morta asfixiada, estrangulada pelo cord\u00e3o umbilical. Talvez eu tenha adquirido ainda no \u00fatero as for\u00e7as de resist\u00eancia que me acompanharam por toda minha vida, mas eu n\u00e3o teria sobrevivido sem a ajuda do outro, o ginecologista, que me estapeou durante meia-hora at\u00e9 que eu pudesse soltar meu primeiro grito, em seguida a sorte durante a Resist\u00eancia, o hospital (hepatite, tuberculose), o amor que alimentou minha vida e minha obra, Sabah, minha companheira e esposa. \u00c9 verdade que o \u201cel\u00e3 vital\u201d jamais me abandonou; ele at\u00e9 cresceu durante a crise mundial. Toda crise me estimula, e esta, de imensas propor\u00e7\u00f5es, pela qual passamos agora, me estimula enormemente.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[<strong>1<\/strong>]\u00a0<em>Sur la crise<\/em>. Paris: Flammarion, mars 2020, \u00ab Champs Essais \u00bb.<\/p>\n<p>[<strong>2<\/strong>]\u00a0<em>Une politique de civilisation<\/em>. Avec Sami Na\u00efr. Paris: Arl\u00e9a, 1997.<\/p>\n<p>[<strong>3<\/strong>]\u00a0<em>La Voie. Pour le futur de l\u2019humanit\u00e9<\/em>. Paris: Fayard 2012.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"joUvDbzqdl\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/edgar-morin-e-as-perguntas-sem-resposta-de-nosso-labirinto\/\">Morin e as quest\u00f5es  sem resposta de nosso labirinto<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Morin e as quest\u00f5es  sem resposta de nosso labirinto&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/edgar-morin-e-as-perguntas-sem-resposta-de-nosso-labirinto\/embed\/#?secret=ROZWLKYTzd#?secret=joUvDbzqdl\" data-secret=\"joUvDbzqdl\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edgar Morin &#8211; Todas as futurologias do s\u00e9culo XX\u00a0que previam o futuro com base nas correntes que atravessavam o presente fracassaram. 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