{"id":13307,"date":"2020-05-30T09:45:31","date_gmt":"2020-05-30T12:45:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13307"},"modified":"2020-05-28T18:48:06","modified_gmt":"2020-05-28T21:48:06","slug":"o-coronavirus-nosso-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/30\/o-coronavirus-nosso-contemporaneo\/","title":{"rendered":"O coronav\u00edrus, nosso contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Boaventura de Sousa Santos<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Nosso modo de viver gestou e difundiu o v\u00edrus. Agora, um muro civilizat\u00f3rio divide o tempo em antes e depois da pandemia. E entre os resignados, que creem na volta \u00e0 \u201cnormalidade\u201d, e os que apostam em reconstruir o mundo.<\/span><\/p>\n<p>O coronav\u00edrus \u00e9 nosso contempor\u00e2neo no sentido mais profundo do termo. N\u00e3o o \u00e9 apenas por ocorrer no mesmo tempo linear em que ocorrem as nossas vidas (simultaneidade). \u00c9 nosso contempor\u00e2neo porque partilha conosco as contradi\u00e7\u00f5es do nosso tempo, os passados que n\u00e3o passaram e os futuros que vir\u00e3o ou n\u00e3o. Isto n\u00e3o significa que viva o tempo presente do mesmo modo que n\u00f3s. H\u00e1 diferentes formas de ser contempor\u00e2neo. O campon\u00eas africano \u00e9 contempor\u00e2neo do executivo do Banco Mundial que foi avaliar as condi\u00e7\u00f5es de investimento internacional no seu territ\u00f3rio. Nos \u00faltimos cinquenta anos acumulou-se um repert\u00f3rio extremamente diverso de problematiza\u00e7\u00f5es da no\u00e7\u00e3o de contemporaneidade. Muito diferentes entre si, todas essas no\u00e7\u00f5es t\u00eam vindo a questionar as concep\u00e7\u00f5es dominantes de progresso e de tempo linear herdadas do Iluminismo Europeu dos s\u00e9culos XXVIII e XIX. Essas concep\u00e7\u00f5es buscavam reduzir a contemporaneidade ao que coincidia com o modo de pensar e de viver das classes dominantes europeias, tudo o resto sendo considerado res\u00edduo ou lixo hist\u00f3rico. O processo hist\u00f3rico que levou a p\u00f4r em causa esta concep\u00e7\u00e3o estreita de contemporaneidade foi simultaneamente muito dram\u00e1tico e muito esperan\u00e7oso. Incluiu, por um lado, o colonialismo hist\u00f3rico e a partilha de \u00c1frica, duas guerras mundiais e a bomba at\u00f4mica e, por outro lado, as lutas de liberta\u00e7\u00e3o anticolonial, o socialismo como alternativa ao capitalismo, os movimentos sociais, a consolida\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas como sujeito hist\u00f3rico, a expans\u00e3o do imagin\u00e1rio democr\u00e1tico e as lutas pela diversidade sexual e etnorracial etc. De tudo isso, resultou uma constela\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es de contemporaneidade que, apesar de muito diferentes entre si, convergiam em superar a concep\u00e7\u00e3o estreita de contemporaneidade.<\/p>\n<p>Para a constru\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o ampla de contemporaneidade contribu\u00edram tanto o pensamento Norte-c\u00eantrico e ocidental como o pensamento Sul-c\u00eantrico e oriental. Um tanto arbitrariamente saliento, no primeiro, os trabalhos de Rosa Luxemburgo, Walter Benjamin, Theodor Adorno, Ernst Bloch, Michel Foucault, Reinhart Koselleck, Giorgio Agamben, Bruno Latour, Johannes Fabian, Marx Aug\u00e9. No segundo grupo, saliento os trabalhos de Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, Leopold Senghor, Mahatma Gandhi, Aim\u00e9 Cesaire, Franz Fanon, Amilcar Cabral, Joseph Ki Zerbo, Ngugi Wa Thiongo, Dipesh Chakrabarty, Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u00e8w\u00f9m\u00ed, Silvia Rivera Cusicanqui, Enrique Dussel. Este segundo grupo tem a virtualidade de incluir conhecimentos orais, an\u00f4nimos, africanos, indianos, ind\u00edgenas, camponesas, feministas, populares, etc. \u00c9 uma constela\u00e7\u00e3o imensa de concep\u00e7\u00f5es entre as quais ainda est\u00e1 por fazer uma tradu\u00e7\u00e3o intercultural e di\u00e1logos ou ecologias de saberes e de temporalidades.<\/p>\n<p>O que \u00e9 caracter\u00edstico da nova concep\u00e7\u00e3o de contemporaneidade \u00e9 uma vis\u00e3o holista sem ser unit\u00e1ria, diversa sem ser ca\u00f3tica, que aponta em geral para a co-presen\u00e7a do antin\u00f4mico e do contradit\u00f3rio, do belo e do monstro, do desejado e do indesejado, do imanente e do transcendente, do amea\u00e7ador e do auspicioso, do medo e da esperan\u00e7a, do indiv\u00edduo e da comunidade, do diferente e do indiferente, e da luta constante para procurar novas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a entre os diferentes componentes do todo. Da contemporaneidade passou a fazer parte a reinven\u00e7\u00e3o permanente do passado e a aspira\u00e7\u00e3o sempre incompleta do futuro de que s\u00e3o feitas as tarefas que concebemos como \u201co presente\u201d. Agentes sociais t\u00e3o diversos como os artistas e os povos ind\u00edgenas foram mostrando que o presente \u00e9 um palimpsesto, que o passado nunca passa ou nunca passa totalmente e que olhar para tr\u00e1s e refletir a partir das experi\u00eancias acumuladas pode ser uma forma eficaz de encarar o futuro.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que durante muito tempo as epistemologias do Norte procuraram suprimir, desvalorizar ou invisibilizar essa imensa riqueza, mas progressivamente e \u00e0 medida que as epistemologias do Sul foram fazendo o seu caminho, foi-se tornando mais f\u00e1cil adotar uma concep\u00e7\u00e3o ampla de contemporaneidade. Como se deduz do anterior, esta concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem consciente das ideologias dominantes que a alimentam e dos modos modernos de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica, sobretudo capitalismo, colonialismo e patriarcado. Ser contempor\u00e2neo \u00e9 estar consciente de que a grande parte da popula\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 contempor\u00e2nea da nossa contemporaneidade pelo modo como tem de a sofrer ou suportar.<\/p>\n<p>Nesta ampla constela\u00e7\u00e3o de contemporaneidades o novo coronav\u00edrus assume atualmente um valor hiper-contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Sermos contempor\u00e2neos do v\u00edrus significa que n\u00e3o podemos entender o que somos sem entender o v\u00edrus. O modo como o v\u00edrus emerge, se difunde, nos amea\u00e7a e condiciona as nossas vidas \u00e9 bem fruto do mesmo tempo que nos faz ser o que somos. S\u00e3o as nossas intera\u00e7\u00f5es com animais e sobretudo com animais selvagens que o tornam poss\u00edvel. Espalha-se no mundo \u00e0 velocidade da globaliza\u00e7\u00e3o. Sabe monopolizar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia como o melhor perito de comunica\u00e7\u00e3o social. Descobriu os nossos h\u00e1bitos e a proximidade social em que vivemos uns com os outros para melhor nos atingir. Gosta do ar polu\u00eddo com que fomos infestando as nossas cidades. Aprendeu conosco a t\u00e9cnica dos drones e, tal como estes, \u00e9 insidioso e imprevis\u00edvel onde e quando ataca. Comporta-se como o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o mundial, um senhor todo poderoso que n\u00e3o depende dos Estados, n\u00e3o conhece fronteiras, nem limites \u00e9ticos. Deixa as leis e as conven\u00e7\u00f5es para os mortais humanos, hoje mais mortais que antes precisamente devido \u00e0 sua indesejada presen\u00e7a. \u00c9 t\u00e3o pouco democr\u00e1tico quanto a sociedade que permite tal concentra\u00e7\u00e3o de riqueza. Ao contr\u00e1rio do que parece, n\u00e3o ataca indiscriminadamente. Prefere as popula\u00e7\u00f5es empobrecidas, v\u00edtimas de fome, de falta de cuidados m\u00e9dicos, de condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade, de prote\u00e7\u00e3o no trabalho, de discrimina\u00e7\u00e3o sexual ou etnorracial.<\/p>\n<p>Ser indesejado n\u00e3o o torna menos contempor\u00e2neo. A monstruosidade do que repudiamos e o medo que ela nos causa \u00e9 t\u00e3o nossa contempor\u00e2nea quanto a utopia com que nos confortamos e a esperan\u00e7a que ela nos d\u00e1. A contemporaneidade \u00e9 uma totalidade heterog\u00eanea, internamente desigual e combinada. Considerar o v\u00edrus como parte da nossa contemporaneidade implica ter presente que, se nos quisermos ver livres do v\u00edrus, teremos de abandonar parte do que mais nos seduz no modo como vivemos. Teremos de alterar muitas das pr\u00e1ticas, dos h\u00e1bitos, das lealdades e das frui\u00e7\u00f5es a que estamos acostumados e que est\u00e3o diretamente vinculados \u00e0 recorrente emerg\u00eancia e crescente letalidade do v\u00edrus. Ou seja, teremos de alterar a matriz da contemporaneidade, sendo certo que desta fazem parte as popula\u00e7\u00f5es que mais sofrem com as formas dominantes da contemporaneidade.<\/p>\n<p>A hiper-contemporaneidade do novo v\u00edrus assenta em algumas caracter\u00edsticas particularmente instigantes. Primeiro, o novo v\u00edrus interpela t\u00e3o profundamente a nossa contemporaneidade que \u00e9 leg\u00edtimo ver nele uma megafratura abissal, um novo Muro de Berlim. Um muro que desta vez n\u00e3o separa dois sistemas sociais e pol\u00edticos, mas antes dois tempos: o antes e o depois do coronav\u00edrus. Saber se as mudan\u00e7as ser\u00e3o para melhor ou para pior \u00e9 quest\u00e3o em aberto. Mas ser\u00e3o certamente significativas. O curto per\u00edodo do fim da hist\u00f3ria parece ter chegado ao fim.<\/p>\n<p>Segundo, o v\u00edrus converte o presente num alvo m\u00f3vel, constitu\u00eddo n\u00e3o apenas pelo que podemos fazer ou planear agora, mas tamb\u00e9m pelo que de imprevis\u00edvel nos pode acontecer. O presente-abismo interpela, por exemplo, de modo radical as empresas seguradoras na \u00e1rea da sa\u00fade. Se caminhamos para uma sociedade onde haver\u00e1 cada vez mais riscos insegur\u00e1veis, por que \u00e9 que a prote\u00e7\u00e3o contra os riscos segur\u00e1veis n\u00e3o est\u00e1 a cargo de quem nos protege quando os riscos insegur\u00e1veis se concretizam, isto \u00e9, o Estado? N\u00e3o ser\u00e1 mais eficiente e mais justo pagar impostos do que pagar pr\u00eamios de seguro?<\/p>\n<p>Terceiro, o novo v\u00edrus dramatiza a medida em que o passado arcaico faz parte do nosso presente, tal como defendeu Pier Paolo Pasolini e, na esteira dele, defende Giorgio Agamben. Esse passado presente reside na atra\u00e7\u00e3o pelos animais selvagens enquanto s\u00edmbolo do desconhecido, pela apropria\u00e7\u00e3o e consumo ou domestica\u00e7\u00e3o do que nos \u00e9 totalmente estranho e, por isso, t\u00e3o amea\u00e7ador quanto sedutor. O presente surge como hist\u00f3ria anacr\u00f4nica do tempo em que os animais eram, por defini\u00e7\u00e3o, selvagens, e constitu\u00edam tanto amea\u00e7as imprevis\u00edveis, como trof\u00e9us apetecidos. O v\u00edrus \u00e9 um reciclador que liga o presente a passados remotos.<\/p>\n<p>Finalmente, o coronav\u00edrus exacerba a puls\u00e3o apocal\u00edptica (o presente como fim dos tempos) que tem vindo a ganhar terreno, nomeadamente com a expans\u00e3o das religi\u00f5es fundamentalistas, tanto judaico-crist\u00e3s como isl\u00e2micas. O apocalipticismo assenta na ideia de que mais tarde ou mais cedo um acontecimento catastr\u00f3fico global por\u00e1 fim \u00e0 vida terrena tal como a conhecemos. No caso das religi\u00f5es, o conhecimento esot\u00e9rico em que tal previs\u00e3o se baseia \u00e9 um conhecimento revelado pelos mensageiros da divindade. Em algumas vers\u00f5es haver\u00e1 uma luta entre o bem e o mal, e s\u00f3 os fi\u00e9is eleitos se salvar\u00e3o. Mas o apocaliticismo tamb\u00e9m tem uma vers\u00e3o secular. Trata-se de um pessimismo hist\u00f3rico, por vezes moralista, por vezes nost\u00e1lgico de um passado \u00edntegro, um pessimismo politicamente amb\u00edguo, j\u00e1 que tanto pode ser vertido em registro de extrema esquerda (algum anarquismo) como em registro de extrema direita (mais comum nos \u00faltimos tempos). Pode ser lido em Dostoi\u00e9vski, Nietzsche, Artaud ou Pasolini.<\/p>\n<p>O coronav\u00edrus presta-se \u00e0 ideia de um apocalipse latente, que n\u00e3o decorre de um saber revelado, mas de sintomas que fazem prever acontecimentos cada vez mais extremos, a que se junta a convic\u00e7\u00e3o de que a sociedade, por mais que se proponha corrigir o curso das coisas, acaba sempre por seguir o caminho inelut\u00e1vel da decad\u00eancia. A devasta\u00e7\u00e3o causada pelo coronav\u00edrus como que aponta para um apocalipse em c\u00e2mara lenta. O coronav\u00edrus alimenta a vertente pessimista da contemporaneidade e isso deve ser tomado em conta no per\u00edodo imediatamente p\u00f3s-pand\u00eamico. Muita gente n\u00e3o vai querer pensar em alternativas de um mundo mais livre de v\u00edrus. Vai querer o regresso ao normal a todo o custo por estar convencido que qualquer mudan\u00e7a ser\u00e1 para pior. \u00c0 narrativa do medo haver\u00e1 que contrapor a narrativa da esperan\u00e7a. A disputa entre as duas narrativas vai ser decisiva.<\/p>\n<p>Como for decidida determinar\u00e1 se queremos ou n\u00e3o continuar a ter direito a um futuro melhor.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"itFjsqIrV1\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/o-coronavirus-nosso-contemporaneo\/\">O coronav\u00edrus, nosso contempor\u00e2neo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O coronav\u00edrus, nosso contempor\u00e2neo&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/o-coronavirus-nosso-contemporaneo\/embed\/#?secret=mtMHJaFNz8#?secret=itFjsqIrV1\" data-secret=\"itFjsqIrV1\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boaventura de Sousa Santos &#8211;\u00a0Nosso modo de viver gestou e difundiu o v\u00edrus. 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