{"id":13286,"date":"2020-05-28T09:03:24","date_gmt":"2020-05-28T12:03:24","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13286"},"modified":"2020-05-26T23:05:53","modified_gmt":"2020-05-27T02:05:53","slug":"a-pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-as-proximas-zoonoses-gestadas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/28\/a-pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-as-proximas-zoonoses-gestadas-no-brasil\/","title":{"rendered":"A pandemia incide no ano mais importante da hist\u00f3ria da humanidade. Ser\u00e3o as pr\u00f3ximas zoonoses gestadas no Brasil?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Marques<\/strong> &#8211; O ano de 2020 ser\u00e1 lembrado como o ano em que a pandemia causada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2 precipitou uma ruptura maior no funcionamento das sociedades contempor\u00e2neas. Ser\u00e1 provavelmente lembrado tamb\u00e9m como o momento de uma ruptura da qual nossas sociedades n\u00e3o mais se recuperaram completamente. Isso porque a atual pandemia interv\u00e9m num momento em que tr\u00eas crises estruturais na rela\u00e7\u00e3o entre as sociedades hegem\u00f4nicas contempor\u00e2neas e o sistema Terra se refor\u00e7am reciprocamente, convergindo em dire\u00e7\u00e3o a uma regress\u00e3o econ\u00f4mica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recupera\u00e7\u00e3o. Essas tr\u00eas crises s\u00e3o, como reiterado pela ci\u00eancia, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, a aniquila\u00e7\u00e3o em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela ind\u00fastria qu\u00edmica.<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote1sym\">i<\/a>\u00a0Os impactos cada vez mais avassaladores decorrentes da sinergia entre essas tr\u00eas crises sist\u00eamicas deixar\u00e3o doravante as sociedades, mesmo as mais ricas, ainda mais desiguais e mais vulner\u00e1veis, menos aptas, portanto, a recuperar seu desempenho anterior. S\u00e3o justamente tais perdas parciais, cada vez mais frequentes, de funcionalidade na rela\u00e7\u00e3o das sociedades com o meio ambiente que caracterizam essencialmente o processo de colapso socioambiental em curso (Homer-Dixon\u00a0<em>et al<\/em>. 2015; Steffen\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>2018; Marques 2015\/2018 e 2020).<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O ano da pandemia \u00e9 o do mais crucial ponto de inflex\u00e3o da hist\u00f3ria humana<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Por sua extens\u00e3o global e pelo rastro de mortes deixadas em sua passagem, superior a 250 mil v\u00edtimas (oficialmente notificadas) em pouco mais de quatro meses, a atual pandemia \u00e9 um fato cuja gravidade seria dif\u00edcil exagerar, tanto mais porque novos surtos podem ainda ocorrer nos pr\u00f3ximos dois anos, segundo um relat\u00f3rio do Center for Infectious Disease Research and Policy (CIDRAP), da Universidade de Minnesota (Moore, Lipsitch, Barry &amp; Osterholm 2020).<\/p>\n<p>Mas ainda mais grave que o saldo imenso de mortes, \u00e9 o momento da incid\u00eancia da pandemia na hist\u00f3ria humana. Outras pandemias, algumas muito mais letais, ocorreram no s\u00e9culo XX, sem afetar profundamente a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o das sociedades. O que singulariza a atual pandemia \u00e9 o fato de se somar a diversas crises sist\u00eamicas que amea\u00e7am a humanidade, e isso justamente no momento em que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel postergar decis\u00f5es que afetar\u00e3o crucialmente, e muito em breve, a habitabilidade do planeta. A ci\u00eancia\u00a0condiciona a possibilidade de estabilizar o aquecimento m\u00e9dio global dentro, ou n\u00e3o muito al\u00e9m, dos limites almejados pelo Acordo de Paris a um fato incontorn\u00e1vel: as emiss\u00f5es de CO2\u00a0devem atingir seu pico em 2020 e come\u00e7ar a declinar fortemente em seguida. O IPCC tra\u00e7ou 196 cen\u00e1rios atrav\u00e9s dos quais podemos limitar o aquecimento m\u00e9dio global a cerca de 0,5oC acima do aquecimento m\u00e9dio atual em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial (1,2oC em 2019). Nenhum deles, lembram Tom Rivett-Carnac e Christiana Figueres, admite que o pico de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) seja protelado para al\u00e9m de 2020 (Hooper 2020). Ningu\u00e9m exprime o significado dessa data-limite de modo mais perempt\u00f3rio que Thomas Stocker, co-diretor do IPCC entre 2008 e 2015:<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote2sym\">ii<\/a><\/p>\n<p>\u201cMitiga\u00e7\u00e3o retardada ou insuficiente impossibilita limitar o aquecimento global\u00a0permanentemente. O ano de 2020 \u00e9 crucial para a defini\u00e7\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es globais sobre a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. Se as emiss\u00f5es de CO2\u00a0continuarem a aumentar al\u00e9m dessa data, as metas mais ambiciosas de mitiga\u00e7\u00e3o tornar-se-\u00e3o inating\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2017, Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, advertia que \u201cpara manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2oC \u00e9 necess\u00e1rio que o pico das emiss\u00f5es seja atingido no mais tardar em 2020\u201d (Le Hir 2017). Em outubro do ano seguinte, comentando o lan\u00e7amento do relat\u00f3rio especial do IPCC, intitulado\u00a0<em>Global Warming 1.5<\/em><em>o<\/em><em>C<\/em>, Debra Roberts, co-diretora do Grupo de Trabalho 2 desse relat\u00f3rio, refor\u00e7ava essa percep\u00e7\u00e3o: \u201cOs pr\u00f3ximos poucos anos ser\u00e3o provavelmente os mais importantes de nossa hist\u00f3ria\u201d. E Amjad Abdulla, representante dos\u00a0Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento\u00a0(SIDS)\u00a0nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, acrescentava: \u201cN\u00e3o tenho d\u00favidas de que os historiadores olhar\u00e3o retrospectivamente para esses resultados [do relat\u00f3rio especial do IPCC de 2018] como um dos momentos definidores no curso da hist\u00f3ria humana\u201d (Mathiesen &amp; Sauer 2018). Em\u00a0<em>The Second Warning: A Documentary Film<\/em>\u00a0(2018), divulga\u00e7\u00e3o do manifesto\u00a0<em>The Scientist\u2019s Warning to Humanity: A Second Notice<\/em>, lan\u00e7ado por William Ripple e colegas em 2017 e endossado por cerca de 20 mil cientistas, a fil\u00f3sofa Kathleen Dean Moore faz suas as declara\u00e7\u00f5es acima mencionadas: \u201cEstamos vivendo um ponto de inflex\u00e3o. Os pr\u00f3ximos poucos anos ser\u00e3o os mais importantes da hist\u00f3ria da humanidade\u201d.<\/p>\n<p>Em abril de 2017, um grupo de cientistas, coordenados por Stephan Rahmstorf, lan\u00e7ava\u00a0<em>The Climate Turning Point<\/em>, em cujo Pref\u00e1cio se reafirma a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris (\u201cmanter o aumento da temperatura m\u00e9dia global bem abaixo de 2oC em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial\u201d), esclarecendo que: \u201cessa meta \u00e9 considerada necess\u00e1ria para evitar riscos incalcul\u00e1veis \u00e0 humanidade, e \u00e9 fact\u00edvel \u2013 mas, realisticamente, apenas se as emiss\u00f5es globais atingirem um pico at\u00e9 o ano de 2020, no mais tardar\u201d. Esse documento norteou ent\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o, por diversas lideran\u00e7as cient\u00edficas e diplom\u00e1ticas, da\u00a0<em>Miss\u00e3o 2020<\/em>\u00a0(<a href=\"https:\/\/mission2020.global\/\">https:\/\/mission2020.global\/<\/a>). Ela definia metas b\u00e1sicas em energia, transporte, uso da terra, ind\u00fastria, infraestrutura e finan\u00e7as, de modo a tornar declinante, a partir de 2020, a curva das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e colocar o planeta numa trajet\u00f3ria consistente com o Acordo de Paris. \u201cCom radical colabora\u00e7\u00e3o e teimoso otimismo\u201d, escreve Christiana Figueres e colegas da Miss\u00e3o 2020, \u201cdobraremos a curva das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa at\u00e9 2020, possibilitando \u00e0 humanidade florescer.\u201d De seu lado, Ant\u00f3nio Guterres, cumprindo sua miss\u00e3o de incentivar e coordenar os esfor\u00e7os de governan\u00e7a global, alertava em setembro de 2018: \u201cSe n\u00e3o mudarmos nossa rota\u00a0at\u00e9 2020, corremos o risco de deixar passar o momento em que \u00e9 ainda poss\u00edvel evitar uma\u00a0mudan\u00e7a clim\u00e1tica desenfreada (<em>a<\/em>\u00a0<em>runaway climate change<\/em>), com consequ\u00eancias desastrosas para a humanidade e para os sistemas naturais que nos sustentam\u201d.<\/p>\n<p>Pois bem, 2020, enfim, chegou. Fazendo em 2019 um balan\u00e7o dos progressos realizados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s metas da\u00a0<em>Miss\u00e3o 2020<\/em>, o World Resources Institute (Ge\u00a0<em>et al.<\/em>, 2019) escreve que \u201cna maioria dos casos, a a\u00e7\u00e3o foi insuficiente ou o progresso foi nulo\u201d (<em>in most cases action is insufficient or progress is off track<\/em>).\u00a0Nenhuma das metas, em suma, foi alcan\u00e7ada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Jap\u00e3o, Austr\u00e1lia e Brasil (Irfan 2019), as \u00faltimas esperan\u00e7as de uma diminui\u00e7\u00e3o iminente das emiss\u00f5es globais de GEE.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>A pandemia entra em cena<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Mas eis que a Covid-19 irrompe, deslocando, paralisando e adiando tudo, inclusive a COP26. E em pouco mais de tr\u00eas meses resolveu pelo caos e pelo sofrimento o que mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de fatos, de ci\u00eancia, de campanhas e de esfor\u00e7os diplom\u00e1ticos para diminuir as emiss\u00f5es de GEE mostraram-se incapazes de realizar (j\u00e1 a Confer\u00eancia de Toronto, de 1988, recomendava \u201ca\u00e7\u00f5es espec\u00edficas\u201d nesse sentido). Ao inv\u00e9s de um decrescimento econ\u00f4mico racional, gradual e democraticamente planejado, o decrescimento econ\u00f4mico abrupto imposto pela pandemia afigura-se j\u00e1, segundo\u00a0Kenneth S. Rogoff, como\u00a0\u201ca mais profunda queda da economia global em 100 anos\u201d (Goodman 2020). Em 15 de abril, o Carbon Brief estimou que a crise econ\u00f4mica deve provocar uma diminui\u00e7\u00e3o estimada em cerca de 5,5% nas emiss\u00f5es globais de CO2\u00a0em 2020. Em 30 de abril, a\u00a0<em>Global Energy Review 2020 &#8211;\u00a0<\/em><em>The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO<\/em><em>2<\/em><em>\u00a0emissions<\/em>,\u00a0da Ag\u00eancia Internacional de Energia (AIE), vai mais longe e estima que \u201cas emiss\u00f5es globais de CO2\u00a0devem cair ainda mais rapidamente ao longo dos nove meses restantes do ano, atingindo 30,6 Gt [bilh\u00f5es de toneladas] em 2020, quase 8% mais baixas que em 2019. Este seria o n\u00edvel mais baixo desde 2010. Tal redu\u00e7\u00e3o seria a maior de todos os tempos, seis vezes maior que a redu\u00e7\u00e3o precedente de 0,4 Gt em 2009, devido \u00e0 crise financeira e duas vezes maior que todas as redu\u00e7\u00f5es anteriores desde o fim da Segunda Guerra Mundial\u201d.\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/global-energy-review-2020\/global-energy-and-co2-emissions-in-2020\">https:\/\/www.iea.org\/reports\/global-energy-review-2020\/global-energy-and-co2-emissions-in-2020<\/a>).\u00a0A Figura 1 indica como essa redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es globais de CO2\u00a0reflete a queda na demanda de consumo global de energia prim\u00e1ria, comparada com as quedas anteriores.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/cie_20200505_rep_01.jpg?resize=640%2C432&#038;ssl=1\" alt=\"##\" width=\"640\" height=\"432\" data-entity-type=\"file\" data-entity-uuid=\"e4fd76c1-49df-4a35-82ba-f1c8b2880610\" \/><\/p>\n<p><strong>Figura 1 &#8211; Taxas de mudan\u00e7a (%) na demanda global de energia prim\u00e1ria, 1900 \u2013 2020<\/strong><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">Fonte: AIE,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Global Energy Review 2020\u00a0<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>\u00a0emissions<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, Abril 2020, p. 11<\/span><\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es globais de CO2\u00a0projetada pela AIE para 2020 equivale ou \u00e9 at\u00e9 pouco maior que os 7,6% de redu\u00e7\u00e3o anual at\u00e9 2030 que o IPCC considera imprescind\u00edvel para conter o aquecimento aqu\u00e9m de n\u00edveis catastr\u00f3ficos (Evans 2020). O relat\u00f3rio da AIE apressa-se, contudo, em advertir que, \u201ctal como nas crises precedentes, (&#8230;) o repique das emiss\u00f5es pode ser maior que o decl\u00ednio, a menos que a onda de investimentos para retomar a economia seja dirigido a uma infraestrutura energ\u00e9tica mais limpa e resiliente\u201d. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, os fatos at\u00e9 agora n\u00e3o autorizam a expectativa de uma ruptura com os paradigmas energ\u00e9ticos e socioecon\u00f4micos anteriores. Malgrado o colapso do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, ou justamente por isso, as petroleiras est\u00e3o se movendo com vertiginosa velocidade para tirar partido desse momento, obtendo, por exemplo, investimentos de USD 1,1 bilh\u00e3o para financiar a conclus\u00e3o do famigerado oleoduto Keystone XL, que ligar\u00e1 o petr\u00f3leo canadense ao Golfo do M\u00e9xico (McKibben 2020). Os exemplos desse tipo de oportunismo s\u00e3o in\u00fameros, inclusive no Brasil, onde os ruralistas se aproveitam da situa\u00e7\u00e3o para fazer aprovar da Medida Provis\u00f3ria 910, que anistia a grilagem e eleva ainda mais as amea\u00e7as aos ind\u00edgenas. Como bem afirma Laurent Joffrin, em sua\u00a0<em>Lettre politique\u00a0<\/em>de 30 de abril para o jornal\u00a0<em>Lib\u00e9ration\u00a0<\/em>(<em>Le monde d\u2019avant, en pire?<\/em>), o mundo p\u00f3s-pandemia \u201ccorre o risco de parecer furiosamente, a curto prazo ao menos, com o mundo de antes, mas em vers\u00e3o piorada\u201d. E Joffrin emenda: \u201co \u2018mundo de ap\u00f3s\u2019 n\u00e3o mudar\u00e1 sozinho. Como para o \u2018mundo de antes\u2019, seu futuro depender\u00e1 de um combate pol\u00edtico, paciente e \u00e1rduo\u201d. Pol\u00edtico e \u00e1rduo, sem d\u00favida, mas definitivamente n\u00e3o h\u00e1 mais tempo para paci\u00eancia.<\/p>\n<p>De qualquer modo, uma redu\u00e7\u00e3o de quase 8% nas emiss\u00f5es globais de CO2\u00a0num ano apenas n\u00e3o abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentra\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas desse g\u00e1s, medidas em Mauna Loa (Hava\u00ed). Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milh\u00e3o (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o in\u00edcio de suas mensura\u00e7\u00f5es em 1958. N\u00e3o se trata apenas de um n\u00famero a mais na selva de indicadores clim\u00e1ticos convergentes. \u00c9 o n\u00famero decisivo.\u00a0Como lembra Petteri Taalas, Secret\u00e1rio-Geral da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial: \u201cA \u00faltima vez que a Terra apresentou concentra\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas de CO2\u00a0compar\u00e1veis \u00e0s atuais foi h\u00e1 3 a 5 milh\u00f5es de anos. Nessa \u00e9poca, a temperatura estava 2oC a 3oC [acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial] e o n\u00edvel do mar estava 10 a 20 metros mais alto que hoje\u201d (McGrath 2019). Faltam\u00a0agora menos de 35 ppm para atingir 450 ppm, um n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica de CO2\u00a0largamente associado a um aquecimento m\u00e9dio global de 2oC acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial, n\u00edvel que pode ser atingido, mantida a trajet\u00f3ria atual, em pouco mais de 10 anos. O que nos aguarda por volta de 2030, mantida a engrenagem do sistema econ\u00f4mico capitalista globalizado e existencialmente dependente de sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o ampliada, \u00e9 nada menos que um desastre para a humanidade como um todo, bem como para in\u00fameras outras esp\u00e9cies. A palavra desastre n\u00e3o \u00e9 uma hip\u00e9rbole. O j\u00e1 mencionado Relat\u00f3rio do IPCC de 2018 (<em>Global Warming 1.5<\/em><em>o<\/em><em>C<\/em>) projeta que o mundo a 2oC em m\u00e9dia acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial ter\u00e1 quase 6 bilh\u00f5es de pessoas expostas a ondas de calor extremo e mais de 3,5 bilh\u00f5es de pessoas sujeitas \u00e0 escassez h\u00eddrica, entre outras muitas adversidades. Desastre \u00e9 a palavra que melhor define o mundo para o qual rumamos no horizonte dos pr\u00f3ximos 10 anos (ou 20, pouco importa), e \u00e9 exatamente o voc\u00e1bulo empregado por Sir Brian Hoskins, diretor do Grantham Institute for Climate Change, do Imperial College em Londres: \u201cN\u00e3o temos evid\u00eancia de que um aquecimento de 1,9oC \u00e9 algo com que se possa lidar facilmente, e 2,1oC \u00e9 um desastre\u201d (Simms 2017).<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia dessas alt\u00edssimas concentra\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas de CO2, o ano passado j\u00e1 foi o mais quente dos registros hist\u00f3ricos na Europa (1,2oC acima do per\u00edodo 1981 \u2013 2010!) e, mesmo sem El Ni\u00f1o, h\u00e1 agora, segundo o NOAA, 74,67% de chances de que 2020 venha a ser o ano mais quente em um s\u00e9culo e meio de registros hist\u00f3ricos na m\u00e9dia global,<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote3sym\">iii<\/a>\u00a0batendo o recorde precedente de 2016 (1,24oC acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial, segundo a NASA). N\u00e3o \u00e9 no espa\u00e7o deste artigo que se podem elencar os muitos ind\u00edcios de que 2020 ser\u00e1 o primeiro ou segundo (ap\u00f3s 2016) ano mais quente entre os sete mais quentes (2014-2020) da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o humana desde a \u00faltima deglacia\u00e7\u00e3o, cerca de 11.700 anos antes do presente. Baste aqui ter em mente que, se mar\u00e7o de 2020 for representativo do ano, j\u00e1 perdemos a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, pois a temperatura m\u00e9dia desse m\u00eas cravou globalmente 1,51oC acima do per\u00edodo 1880-1920, conforme mostra a Figura 2.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/cie_20200505_rep_02.jpg?resize=640%2C432&#038;ssl=1\" alt=\"##\" width=\"640\" height=\"432\" data-entity-type=\"file\" data-entity-uuid=\"491c522e-41bf-43e5-9179-b4042efb498b\" \/><\/p>\n<p><strong>Figura 2 \u2013 Anomalias de temperatura em mar\u00e7o de 2020 (1,51<\/strong><strong>C na m\u00e9dia global), em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo 1880-1920.\u00a0<\/strong>Fonte: GISS Surface Temperature Analysis (v4), NASA.\u00a0&lt;<a href=\"https:\/\/data.giss.nasa.gov\/gistemp\/maps\/index_v4.html\">https:\/\/data.giss.nasa.gov\/gistemp\/maps\/index_v4.html<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>O aquecimento global \u00e9 uma arma apontada contra a sa\u00fade global. Como mostra Sara Goudarzi (2020), temperaturas mais elevadas favorecem a adapta\u00e7\u00e3o de micro-organismos a um mundo mais quente, diminuindo a efic\u00e1cia de duas defesas b\u00e1sicas dos mam\u00edferos contra os pat\u00f3genos: (1) muitos micro-organismos n\u00e3o sobrevivem ainda a temperaturas superiores a 37oC, mas podem vir a se adaptar rapidamente a elas; (2) o sistema imune dos mam\u00edferos, pois este perde efici\u00eancia em temperaturas mais elevadas.\u00a0Al\u00e9m disso, o aquecimento global amplia o raio de a\u00e7\u00e3o de vetores de epidemias, como a dengue, zika e\u00a0c<em>hikungunya, e\u00a0<\/em>altera a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das plantas e animais, levando esp\u00e9cies animais terrestres a se deslocarem em dire\u00e7\u00e3o a latitudes mais altas a uma taxa m\u00e9dia de 17 km por d\u00e9cada (Pecl\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>2017).\u00a0Aaron Bernstein, diretor do\u00a0Harvard University&#8217;s Center of Climate, Health and the Global Environment, sintetiza bem a intera\u00e7\u00e3o entre aquecimento global e desmatamento em suas m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es com novos surtos epid\u00eamicos:<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote4sym\">iv<\/a><\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que o planeta se aquece (&#8230;) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais est\u00e3o entrando em contato com animais com os quais eles normalmente n\u00e3o interagiriam, e isso cria uma oportunidade para pat\u00f3genos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas prim\u00e1rias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m aumentam o risco de pandemias. O desmatamento, causado em geral pela agropecu\u00e1ria \u00e9 a causa maior da perda de habitat no mundo todo. E essa perda for\u00e7a os animais a migrarem e potencialmente a entrar em contato com outros animais ou pessoas e compartilhar seus germes. Grandes fazendas de gado tamb\u00e9m servem como uma fonte para a passagem de infec\u00e7\u00f5es de animais para pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Sem perder de vista as rela\u00e7\u00f5es entre a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e essas novas amea\u00e7as sanit\u00e1rias, foquemos em duas quest\u00f5es bem circunscritas e diretamente ligadas \u00e0 pandemia atual.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>A pandemia foi prevista e ser\u00e1, doravante, mais frequente<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A primeira quest\u00e3o refere-se ao car\u00e1ter, por assim dizer, antropog\u00eanico da pandemia. Bem longe de ser advent\u00edcia, ela \u00e9 uma consequ\u00eancia, reiteradamente prevista, de um sistema socioecon\u00f4mico crescentemente disfuncional e destrutivo. Josef Settele, Sandra D\u00edaz, Eduardo Brondizio\u00a0e Peter Daszak escreveram um artigo, a convite do IPBES, de leitura obrigat\u00f3ria e que me permito citar longamente:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma \u00fanica esp\u00e9cie respons\u00e1vel pela pandemia Covid-19: n\u00f3s. Assim como com as crises clim\u00e1ticas e o decl\u00ednio da biodiversidade, as pandemias recentes s\u00e3o uma consequ\u00eancia direta da atividade humana \u2013 particularmente de nosso sistema financeiro e econ\u00f4mico global baseado num paradigma limitado, que preza o crescimento econ\u00f4mico a qualquer custo. (&#8230;) Desmatamento crescente, expans\u00e3o descontrolada da agropecu\u00e1ria, cultivo e cria\u00e7\u00e3o intensivos, minera\u00e7\u00e3o e aumento da infraestrutura, assim como a explora\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies silvestres criaram uma \u2018tempestade perfeita\u2019 para o salto de doen\u00e7as da vida selvagem para as pessoas. (&#8230;) E, contudo, isso pode ser apenas o come\u00e7o. Embora se estime que doen\u00e7as transmitidas de outros animais para humanos j\u00e1 causem 700 mil mortes por ano, \u00e9 vasto o potencial para pandemias futuras. Acredita-se que 1,7 milh\u00e3o de v\u00edrus n\u00e3o identificados, dentre os que sabidamente infectam pessoas, ainda existem em mam\u00edferos e p\u00e1ssaros aqu\u00e1ticos. Qualquer um deles pode ser a \u2018Doen\u00e7a X\u2019 \u2013 potencialmente ainda mais perturbadora e letal que a Covid-19. \u00c9 prov\u00e1vel que pandemias futuras ocorram mais frequentemente, propaguem-se mais rapidamente, tenham maior impacto econ\u00f4mico e matem mais pessoas, se n\u00e3o formos extremamente cuidadosos acerca dos impactos das escolhas que fazemos hoje\u201d (<a href=\"https:\/\/ipbes.net\/covid19stimulus\">https:\/\/ipbes.net\/covid19stimulus<\/a>).<\/p>\n<p>Cada frase dessa cita\u00e7\u00e3o encerra uma li\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e de lucidez pol\u00edtica. A maior frequ\u00eancia recente de epidemias e pandemias tem por causas centrais o desmatamento e a agropecu\u00e1ria, algo bem estabelecido tamb\u00e9m por\u00a0Christian Drosten, atual coordenador do combate \u00e0 Covid-19 na Alemanha, al\u00e9m de diretor do Instituto de Virologia do Hospital Charit\u00e9 de Berlim e um dos cientistas que identificou a pandemia SARS em 2003 (Spinney 2020).<\/p>\n<p>\u201cDesde que tenha oportunidade, o coronav\u00edrus est\u00e1 pronto para mudar de hospedeiro e n\u00f3s criamos essa oportunidade atrav\u00e9s de nosso uso n\u00e3o natural de animais \u2013 a pecu\u00e1ria (<em>livestock<\/em>). Essa exp\u00f5e os animais de cria\u00e7\u00e3o \u00e0 vida silvestre, mant\u00e9m esses animais em grandes grupos que podem amplificar o v\u00edrus, e os humanos t\u00eam intenso contato com eles \u2013 por exemplo, atrav\u00e9s do consumo de carne \u2013, de modo que tais animais certamente representam uma poss\u00edvel trajet\u00f3ria de emerg\u00eancia para o coronav\u00edrus. Camelos s\u00e3o animais de cria\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e s\u00e3o os hospedeiros do v\u00edrus MERS, assim como do coronav\u00edrus 229E \u2013 que \u00e9 uma causa da gripe comum em humanos \u2013, j\u00e1 o gado bovino foi o hospedeiro original do coronav\u00edrus OC43, outra causa de gripe\u201d.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novidade para a ci\u00eancia. Sabemos que a maioria das pandemias emergentes s\u00e3o zoonoses, isto \u00e9, doen\u00e7as infecciosas causadas por bact\u00e9rias, v\u00edrus, parasitas ou pr\u00edons, que saltaram de hospedeiros n\u00e3o humanos, usualmente vertebrados, para os humanos. Como afirma\u00a0Ana L\u00facia Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o desmatamento \u00e9 uma causa central e uma bomba-rel\u00f3gio em termos de zoonoses: &#8220;quando um v\u00edrus que n\u00e3o fez parte da nossa hist\u00f3ria evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo, \u00e9 o caos\u201d (Pontes 2020). Esse\u00a0risco, repita-se, \u00e9 crescente. Basta ter em mente que \u201cmam\u00edferos domesticados hospedam 50% dos v\u00edrus zoon\u00f3ticos, mas representam apenas 12 esp\u00e9cies\u201d (Johnson\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>2020). Esse grupo inclui porcos, vacas e carneiros. Em resumo, o aquecimento global, o desmatamento, a destrui\u00e7\u00e3o dos habitats selvagens, a domestica\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de aves e mam\u00edferos em escala industrial destroem o equil\u00edbrio evolutivo entre as esp\u00e9cies, facilitando as condi\u00e7\u00f5es para saltos desses v\u00edrus de uma esp\u00e9cie a outra, inclusive a nossa.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong>\u00a0<strong>As pr\u00f3ximas zoonoses ser\u00e3o gestadas no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O segundo ponto, com o qual concluo este artigo, s\u00e3o as consequ\u00eancias especificamente sanit\u00e1rias da destrui\u00e7\u00e3o em curso da Amaz\u00f4nia e do Cerrado. Entre as mais funestas est\u00e1 a crescente probabilidade de que o pa\u00eds se torne o foco das pr\u00f3ximas pandemias zoon\u00f3ticas. Na \u00faltima d\u00e9cada, as megacidades da \u00c1sia do leste, principalmente na China, t\u00eam sido o principal \u201chotspot\u201d de infec\u00e7\u00f5es zoon\u00f3ticas (Zhang et al. 2019). N\u00e3o por acaso. Esses pa\u00edses est\u00e3o entre os que mais perderam cobertura florestal no mundo em benef\u00edcio do sistema alimentar carn\u00edvoro e globalizado. O caso da China \u00e9 exemplar.\u00a0De\u00a02001\u00a0a\u00a02018,\u00a0o pa\u00eds\u00a0perdeu\u00a094,2 mil km2\u00a0de cobertura arb\u00f3rea, equivalente a uma diminui\u00e7\u00e3o de\u00a05,8%\u00a0em sua cobertura arb\u00f3rea no per\u00edodo. \u201cExtra\u00e7\u00e3o de madeira e agropecu\u00e1ria consomem at\u00e9 5 mil km2\u00a0de florestas virgens todo ano. Na China setentrional e central a cobertura florestal foi reduzida pela metade nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas\u201d.<span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote5sym\">v<\/a><\/span>\u00a0Em paralelo com a destrui\u00e7\u00e3o dos habitats selvagens, o crescimento econ\u00f4mico chin\u00eas desencadeou uma demanda por prote\u00ednas animais, incluindo as provenientes de animais ex\u00f3ticos\u00a0(Cheng\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>2007). Entre 1980 e 2015, o consumo de carne na China cresceu sete vezes e 4,7 vezes per capita (de 15 kg para 70 kg per capita por ano ao longo deste per\u00edodo). Com cerca de 18% da popula\u00e7\u00e3o mundial, a China era\u00a0em 2018 respons\u00e1vel por 28% do consumo de carne no planeta (Rossi 2018). Segundo um relat\u00f3rio de 2017 do Rabobank, intitulado\u00a0<em>China\u2019s Animal Protein Outlook to 2020: Growth in Demand, Supply and Trade<\/em>, a demanda adicional por carne a cada ano na China ser\u00e1 de cerca de um milh\u00e3o de toneladas. \u201cA produ\u00e7\u00e3o local de carne bovina n\u00e3o consegue acompanhar o crescimento da demanda. Na realidade, a China tem uma escassez estrutural de oferta de carne bovina, que necessita ser satisfeita por importa\u00e7\u00f5es crescentes\u201d.<\/p>\n<p>A cobertura vegetal dos tr\u00f3picos tem sido destru\u00edda para sustentar essa dieta crescentemente carn\u00edvora, n\u00e3o apenas na China, mas em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo e particularmente entre n\u00f3s.\u00a0No Brasil, a remo\u00e7\u00e3o de mais de 1,8 milh\u00e3o de km2\u00a0da cobertura vegetal da Amaz\u00f4nia e do Cerrado nos \u00faltimos cinquenta anos, para converter suas magn\u00edficas paisagens naturais em zonas fornecedoras de carne e ra\u00e7\u00e3o animal, em escala nacional e global, representa\u00a0o mais fulminante ecoc\u00eddio jamais perpetrado pela esp\u00e9cie humana.\u00a0Nunca, de fato, em nenhuma latitude e em nenhum momento da hist\u00f3ria humana, destruiu-se tanta vida animal e vegetal em t\u00e3o pouco tempo, para a degrada\u00e7\u00e3o de tantos e para o benef\u00edcio econ\u00f4mico de t\u00e3o poucos. E nunca, mesmo para os pouqu\u00edssimos que enriqueceram com a devasta\u00e7\u00e3o, esse enriquecimento ter\u00e1 sido t\u00e3o ef\u00eamero, pois a destrui\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal j\u00e1 come\u00e7a a gerar eros\u00e3o dos solos e secas recorrentes, solapando as bases de qualquer agricultura nessa regi\u00e3o (na realidade, no Brasil, como um todo).<\/p>\n<p>Em decorr\u00eancia dessa guerra de exterm\u00ednio contra a natureza deflagrada pela insanidade dos ditadores militares e continuada pelos civis, atualmente\u00a0o rebanho bovino brasileiro \u00e9 de aproximadamente 215 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, sendo que 80% de seu consumo \u00e9 absorvido pelo mercado interno, que cresceu 14% nos \u00faltimos dez anos (Macedo 2019). Al\u00e9m disso, o Brasil tornou-se l\u00edder das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de carne bovina (20% dessas exporta\u00e7\u00f5es) e de soja (56%), basicamente destinada \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o animal. A maior parte do rebanho bovino brasileiro concentra-se hoje nas regi\u00f5es Norte e Centro-Oeste, com crescente participa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Em 2010, 14% do rebanho brasileiro j\u00e1 se encontrava na regi\u00e3o norte do pa\u00eds. Em 2016, essa participa\u00e7\u00e3o saltou para 22%. Juntas, a regi\u00e3o norte e centro-oeste abrigam 56% do rebanho bovino brasileiro (Zaia 2018). Em 2017, apenas 19,8% da cobertura vegetal remanescente do Cerrado permanecia ainda intocada. A continuar a devasta\u00e7\u00e3o, a pecu\u00e1ria e a agricultura de soja levar\u00e3o em breve \u00e0 extin\u00e7\u00e3o quase 500 esp\u00e9cies de plantas end\u00eamicas \u2013 tr\u00eas vezes mais que todas as extin\u00e7\u00f5es documentadas desde 1500 (Strassburg\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em>2017). A Amaz\u00f4nia, que perdeu cerca de 800 mil km2\u00a0de cobertura florestal em 50 anos e perder\u00e1 outras muitas dezenas de milhares sob a sanha ecocida de Bolsonaro, tornou-se, em sua por\u00e7\u00e3o sul e leste, uma paisagem desolada de pastos em vias de degrada\u00e7\u00e3o. O caos ecol\u00f3gico produzido pelo desmatamento por corte raso de cerca de 20% da \u00e1rea original da floresta, pela degrada\u00e7\u00e3o do tecido florestal de pelo menos outros 20% e pela grande concentra\u00e7\u00e3o de bovinos na regi\u00e3o cria as condi\u00e7\u00f5es para tornar o Brasil um \u201chotspot\u201d das pr\u00f3ximas zoonoses. Em primeiro lugar porque os morcegos s\u00e3o um grande reservat\u00f3rio de v\u00edrus e, entre os morcegos brasileiros, cujo habitat s\u00e3o sobretudo as florestas (ou o que resta delas), circulam\u00a0pelo menos 3.204 tipos de coronav\u00edrus\u00a0(Maxman 2017). Em segundo lugar porque, como mostraram Nardus Mollentze e Daniel Streicker (2020), o grupo taxon\u00f4mico dos Artiodactyla (de casco fendido), ao qual pertencem os bois, hospedam, juntamente com os primatas, mais v\u00edrus, potencialmente zoon\u00f3ticos, do que seria de se esperar entre os grupos de mam\u00edferos, incluindo os morcegos.\u00a0Na realidade, a Amaz\u00f4nia j\u00e1 \u00e9 um \u201chotspot\u201d de epidemias n\u00e3o virais, como a leishmaniose e a mal\u00e1ria, doen\u00e7as tropicais negligenciadas, mas com alto \u00edndice de letalidade. Como afirma a OMS, \u201ca leishmaniose est\u00e1 associada a mudan\u00e7as ambientais, tais como o desmatamento, o represamento de rios, a esquemas de irriga\u00e7\u00e3o e \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d,<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote6sym\">vi<\/a>\u00a0todos eles fatores que concorrem para a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e para o aumento do risco de pandemias. A rela\u00e7\u00e3o entre desmatamento amaz\u00f4nico e a mal\u00e1ria foi bem estabelecida em 2015 por uma equipe do IPEA:\u00a0para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de mal\u00e1ria aumentam 23% (Pontes 2020).<\/p>\n<p>A curva novamente ascendente desde 2013 da destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e do Cerrado resultou da execr\u00e1vel alian\u00e7a de Dilma Rousseff com o que h\u00e1 de mais retr\u00f3grado na economia brasileira. J\u00e1 para a necropol\u00edtica de Bolsonaro, a destrui\u00e7\u00e3o da vida, do que resta do patrim\u00f4nio natural brasileiro, tornou-se um programa de governo e uma verdadeira obsess\u00e3o. Bolsonaro est\u00e1 levando o pa\u00eds a dar um salto sem retorno no caos ecol\u00f3gico, de onde a necessidade inadi\u00e1vel de neutraliz\u00e1-lo por impeachment ou qualquer outro mecanismo constitucional. N\u00e3o h\u00e1 mais tempo a perder. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento amaz\u00f4nico atingiu 9.762 km2, quase 30% acima dos 12 meses anteriores e o pior resultado dos \u00faltimos dez anos, segundo o INPE. No primeiro trimestre de 2020, que apresenta tipicamente os n\u00edveis mais baixos de desmatamento em cada ano, o sistema Deter, do INPE, detectou um aumento de 51% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019, o n\u00edvel mais alto para esse per\u00edodo desde o in\u00edcio da s\u00e9rie, em 2016. Segundo Tasso Azevedo,\u00a0coordenador-geral do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), \u201co mais preocupante \u00e9 que no acumulado de agosto de 2019 at\u00e9 mar\u00e7o de 2020, o n\u00edvel do desmatamento mais do que dobrou\u201d (Menegassi 2020). Ao monopolizar todas as aten\u00e7\u00f5es, a pandemia oferece a Bolsonaro uma oportunidade inesperada para acelerar sua obra de destrui\u00e7\u00e3o da floresta e de seus povos (Barifouse 2020).<\/p>\n<p>Recapitulemos. O que importa aqui, sobretudo, \u00e9 entender que a pandemia interv\u00e9m no momento em que o aquecimento global e todos os demais processos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e3o em acelera\u00e7\u00e3o. A pandemia pode aceler\u00e1-los ainda mais, na aus\u00eancia de uma rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vigorosa da sociedade. Ela acrescenta, em todo o caso, mais uma dimens\u00e3o a esse feixe convergente de crises socioambientais que imp\u00f5e \u00e0 humanidade uma situa\u00e7\u00e3o radicalmente nova. Pode-se assim formular essa novidade: n\u00e3o \u00e9 mais plaus\u00edvel esperar, passada a pandemia, um novo ciclo de crescimento econ\u00f4mico global e ainda menos nacional. Se algum crescimento voltar a ocorrer, ele ser\u00e1 conjuntural e logo truncado pelo caos clim\u00e1tico, ecol\u00f3gico e sanit\u00e1rio. O pr\u00f3ximo dec\u00eanio evoluir\u00e1 sob o signo de regress\u00f5es socioecon\u00f4micas, pois mesmo a se admitir que a economia globalizada tenha trazido benef\u00edcios sociais, eles foram parcos e v\u00eam sendo de h\u00e1 muito superados por seus malef\u00edcios. A pandemia \u00e9 apenas um entre esses malef\u00edcios, mas certamente n\u00e3o o pior. N\u00e3o s\u00e3o mais atuais, portanto, em 2020, as variadas agendas desenvolvimentistas, t\u00edpicas dos embates ideol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX. \u00c9 claro que a exig\u00eancia de justi\u00e7a social, bandeira hist\u00f3rica da esquerda, permanece mais que nunca atual. Al\u00e9m de ser um valor perene e irrenunci\u00e1vel, a luta pela diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade social significa, antes de mais nada, retirar das corpora\u00e7\u00f5es o poder decis\u00f3rio sobre os investimentos estrat\u00e9gicos (energia, alimenta\u00e7\u00e3o, mobilidade etc.), assumir o controle democr\u00e1tico e sustent\u00e1vel desses investimentos e, assim, atenuar os impactos do colapso socioambiental em curso. \u00c9 do aprofundamento da democracia que depende crucialmente, hoje, a sobreviv\u00eancia de qualquer sociedade organizada num mundo que est\u00e1 se tornando sempre mais quente, mais empobrecido biologicamente, mais polu\u00eddo e, por todas essas raz\u00f5es, mais enfermo. Sobreviver, no contexto de um processo de colapso socioambiental, n\u00e3o \u00e9 um programa m\u00ednimo. Sobreviver requer, hoje, lutar por algo muito mais ambicioso que os programas socialdemocratas ou revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo XX. Sup\u00f5e redefinir o pr\u00f3prio sentido e finalidade da atividade econ\u00f4mica, vale dizer, em \u00faltima inst\u00e2ncia, redefinir nossa posi\u00e7\u00e3o como sociedade e como esp\u00e9cie no \u00e2mbito da biosfera.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BARIFOUSE, Rafael,\u00a0\u201cPandemia vai permitir acelera\u00e7\u00e3o do desmatamento na Amaz\u00f4nia, prev\u00ea consultoria\u201d.\u00a0<span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">BBC Brasil, 26\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">CHENG, Vincent C. C.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cSevere Acute Respiratory Syndrome Coronavirus as an Agent of Emerging and Reemerging Infection\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Clinical Microbiology Reviews<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, October, 2007, pp. 660-694.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">EVANS, Simon,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cAnalysis: Coronavirus set to cause largest ever annual fall in CO<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">2<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u00a0emissions\u201d, Carbon Brief, 9\/IV\/2020, atualizado em 15 de abril.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">GE, Mengpin.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.\u00a0<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, \u201cTracking Progress of the 2020 Climate Turning Point.\u201d World Resources Institute, Washington D.C. 2019.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">GOODMAN, Peter,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cWhy the Global Recession Could Last a Long Time\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>The New York Times<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 1\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">GOUDARZI, Sara,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cHow a Warming Climate Could Affect the Spread of Diseases Similar to COVID-19\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Scientific American<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 29\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">HOMER-DIXON, Thomas\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cSynchronous failure: the emerging causal architecture of global crisis.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Ecology and Society<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 20, 3, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">HOOPER, Rowan, \u201cTen years to save the world\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>New Scientist,\u00a0<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">14\/III\/2020, pp. 45-47.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">IRFAN, Umair, \u201cThe US, Japan, and Australia let the whole world down at the UN climate talks\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Vox<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 18\/XII\/2019.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">JOHNSON, Christine K.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cGlobal shifts in mammalian population trends reveal key predictors of virus spillover risk\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Proceedings of the<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Royal Society B<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 8\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"fr-FR\" xml:lang=\"fr-FR\">LE HIR, Pierre, \u201cR\u00e9chauffement climatique: la bataille des 2<\/span><span lang=\"fr-FR\" xml:lang=\"fr-FR\">C est presque perdue\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"fr-FR\" xml:lang=\"fr-FR\"><em>Le Monde<\/em><\/span><span lang=\"fr-FR\" xml:lang=\"fr-FR\">, 31\/XII\/2017.<\/span><\/p>\n<p>MACEDO, Fl\u00e1via, \u201cConsumo de carne bovina no Brasil cresceu 14% em 10 anos, diz Cepea\u201d. Canal Rural, 9\/XII\/2019.<\/p>\n<p>MARQUES, Luiz,\u00a0<em>Capitalismo e Colapso Ambiental\u00a0<\/em>(2015)<em>.\u00a0<\/em>Campinas, Editora da Unicamp, 3\u00aa ed. 2018.<\/p>\n<p>MARQUES, Luiz, \u201cO colapso socioambiental n\u00e3o \u00e9 um evento, \u00e9 o processo em curso\u201d.\u00a0<em>Revista Rosa<\/em>, 1, Mar\u00e7o, 2020 &lt;<a href=\"http:\/\/revistarosa.com\/1\/o-colapso-socioambiental-nao-e-um-evento\">http:\/\/revistarosa.com\/1\/o-colapso-socioambiental-nao-e-um-evento<\/a>&gt;<\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">MATHIESEN, Karl &amp; SAUER, Natalie, \u201c<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u2018Most important years in history\u2019: major UN report sounds last-minute climate alarm\u201d. Climate Home News, 8\/X\/2018.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">MAXMAN, Amy, \u201cBats Are Global Reservoir for Deadly Coronaviruses\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Scientific American<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 12\/VI\/2017.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">McGRATH, Matt, \u201cClimate Change. Greenhouse gas concentrations again break records\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>BBC<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 25\/XI\/2019.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">McKibben, Bill, \u201cBig Oi lis using the coronavirus pandemic to push through the Keystone XL pipeline\u201d.\u00a0<\/span><em>The Guardian<\/em>, 5\/IV\/2020.<\/p>\n<p>MENEGASSI, Duda,\u00a0\u201cDesmatamento na Amaz\u00f4nia atinge n\u00edvel recorde no primeiro trimestre de 2020\u201d.\u00a0<span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">((O)) eco, 13\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">MOLLENTZE, Nardus &amp; STREICKER, Daniel G., \u201cViral zoonotic risk is homogenous among taxonomic orders of mammalian and avian reservoir hosts\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>PNAS<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 13\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">MOORE, Kristine A., LIPSITCH, Marc, BARRY, John &amp; OSTERHOLM, Michael,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>COVID-19: The CIDRAP Viewpoint<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">. University of Minnesota, 20\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">MORIYAMA, Miyu &amp; ICHINOHE, Takeshi, \u201cHigh Ambient Temperature Dampens Adaptative Immune Responses to Influnza A Virus Infection\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>PNAS<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 116, 8, 19\/II\/2019, pp. 3118-3125.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">PECL, Gretta\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cBiodiversity redistribution under climate change: Impacts on ecosystems and human well-being\u201d.\u00a0<\/span><em>Science<\/em>, 355, 6332, 31\/III\/2017.<\/p>\n<p>PONTES, N\u00e1dia, \u201cO elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ci\u00eancia\u201d.\u00a0<span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>DW<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 15\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">ROSSI, Marcello, \u201cThe Chinese Are Eating More Meat Than Ever Before and the Planet Can\u2019t Keep Up\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Mother Jones<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 21\/VII\/2018.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">SETTELE,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">J., DIAZ, S., BRONDIZIO, E. &amp; DASZAK, Peter,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cCOVID-19 Stimulus Measures Must Save Lives, Protect Livelihoods, and Safeguard Nature to Reduce the Risk of Future Pandemics\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">IPBES Expert Guest Article, 27\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">SIMMS,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">Andrew, \u201cA cat in hell\u2019s chance \u2013 why we\u2019re losing the battle to keep global warming below 2C\u201d,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>The Guardian<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 19\/I\/2017.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">SPINNEY, Laura, \u201cGermany\u2019s Covid-19 expert: \u2018For many, I\u2019m the evil guy crippling the economy\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>The Guardian<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 26\/IV\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">STEFFEN, Will\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, \u201cTrajectories of the Earth System in the Anthropocene\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>PNAS<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 9\/VIII\/2018.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">STRASSBURG, Bernardo B.N.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, \u201cMoment of truth for the Cerrado hotspot\u201d.\u00a0<\/span><em>Nature Ecology &amp;\u00a0Evolution,<\/em>\u00a02017.<\/p>\n<p>ZAIA,\u00a0Marina, \u201cRebanho Brasileiro por Regi\u00e3o\u201d. Scot Consultoria, 16\/IV\/2018.<\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">ZHANG, Juanjuan\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>et al.<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, \u201c<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">Patterns of human social contact and contact with animals in Shanghai, China\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Scientific Reports<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 9, 2019.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote1anc\">i<\/a>\u00a0Segundo a Chemical Data Reporting (CDR) da EPA, nos EUA, em 2016 havia 8.707 subst\u00e2ncias ou compostos qu\u00edmicos largamente comercializados, aos quais somos cotidianamente expostos, ignorando na maior parte dos casos seus efeitos e os de suas intera\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00fade humana e demais esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"https:\/\/www.chemicalsafetyfacts.org\/chemistry-context\/debunking-myth-chemicals-testing-safety\/\">https:\/\/www.chemicalsafetyfacts.org\/chemistry-context\/debunking-myth-chemicals-testing-safety\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote2anc\">ii<\/a>\u00a0&lt;<a href=\"https:\/\/mission2020.global\/testimonial\/stocker\/\">https:\/\/mission2020.global\/testimonial\/stocker\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote3anc\">iii<\/a><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u00a0Cf. NOAA,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">Global Annual Temperature Rankings Outlook.\u00a0<\/span>Mar\u00e7o, 2020<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"https:\/\/www.ncdc.noaa.gov\/sotc\/global\/202003\/supplemental\/page-2\">https:\/\/www.ncdc.noaa.gov\/sotc\/global\/202003\/supplemental\/page-2<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote4anc\">iv<\/a><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u00a0Cf.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u201cCoronavirus, climate change, and the environment\u201d.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><em>Environmental Health News<\/em><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">, 20\/III\/2020.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">&lt;<\/span><a href=\"https:\/\/www.ehn.org\/coronavirus-environment-2645553060.html\"><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">https:\/\/www.ehn.org\/coronavirus-environment-2645553060.html<\/span><\/a><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote5anc\">v<\/a><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">\u00a0Cf. \u201cDeforestation and Desertification in China\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">&lt;<\/span><a href=\"http:\/\/factsanddetails.com\/china\/cat10\/sub66\/item389.html\"><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">http:\/\/factsanddetails.com\/china\/cat10\/sub66\/item389.html<\/span><\/a><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">&gt;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas#sdendnote6anc\">vi<\/a>\u00a0Leishmaniosis, OMS, 2\/III\/2020\u00a0<a href=\"https:\/\/www.who.int\/en\/news-room\/fact-sheets\/detail\/leishmaniasis\">https:\/\/www.who.int\/en\/news-room\/fact-sheets\/detail\/leishmaniasis<\/a>.<\/p>\n<p>https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2020\/05\/05\/pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-proximas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Marques &#8211; O ano de 2020 ser\u00e1 lembrado como o ano em que a pandemia causada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2 precipitou uma ruptura maior no funcionamento das sociedades contempor\u00e2neas. 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Ser\u00e3o as pr\u00f3ximas zoonoses gestadas no Brasil? - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/28\/a-pandemia-incide-no-ano-mais-importante-da-historia-da-humanidade-serao-as-proximas-zoonoses-gestadas-no-brasil\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A pandemia incide no ano mais importante da hist\u00f3ria da humanidade. Ser\u00e3o as pr\u00f3ximas zoonoses gestadas no Brasil? - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Luiz Marques &#8211; O ano de 2020 ser\u00e1 lembrado como o ano em que a pandemia causada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2 precipitou uma ruptura maior no funcionamento das sociedades contempor\u00e2neas. 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