{"id":13283,"date":"2020-05-27T15:00:39","date_gmt":"2020-05-27T18:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13283"},"modified":"2020-05-26T23:03:02","modified_gmt":"2020-05-27T02:03:02","slug":"brasil-paralelo-a-maquina-do-neofascismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/27\/brasil-paralelo-a-maquina-do-neofascismo-cultural\/","title":{"rendered":"Brasil Paralelo: a m\u00e1quina do neofascismo cultural"},"content":{"rendered":"<p><strong>Diego Martins D\u00f3ria Paulo &#8211; <\/strong>Com obras de apelo \u00e0 como\u00e7\u00e3o e ao negacionismo, produtora peleja \u201carena cultural\u201d para impor ataque ao Estado \u2013 e ocup\u00e1-lo. Bebem de Olavo de Carvalho para desmontar educa\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 transitam nos corredores do MEC em ataque \u00e0 ci\u00eancia<\/p>\n<p>Nos anos 1950, tornou-se famosa a an\u00e1lise semiol\u00f3gica de uma capa de\u00a0<em>Paris-Match\u00a0<\/em>por Roland Barthes. A edi\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o mostra um soldado negro, vestindo uniforme franc\u00eas, saudando a bandeira tricolor. A conclus\u00e3o do semi\u00f3logo aponta ali a exist\u00eancia de um discurso m\u00edtico: o colonialismo franc\u00eas est\u00e1 presente na cor da pele do militar, mas seu sentido social est\u00e1 deformado, na medida em que a mensagem faz passar por harm\u00f4nico o que era conflituoso<sup>1<\/sup>. \u00c9 essa a fun\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>mito\u00a0<\/em>para Barthes. Sem esconder nada, usaria das propriedades da linguagem para enganar.<\/p>\n<p>Antrop\u00f3logos ent\u00e3o j\u00e1 debatiam o problema sob outra perspectiva. Procurava-se entender o\u00a0<em>real\u00a0<\/em>subjacente ao discurso m\u00edtico. Por trabalhos de autores como Malinowski e Eliade se entrev\u00ea o mito como\u00a0<em>express\u00e3o de uma verdade\u00a0<\/em>cuja defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em si, mas nas rela\u00e7\u00f5es sociais que s\u00e3o sua for\u00e7a criativa efetiva<sup>2<\/sup>. \u00c9 claro que, formalmente, ele se refere fabulosamente a uma hist\u00f3ria ocorrida em tempos primordiais. N\u00e3o importa tanto, por\u00e9m, se o evento narrado ocorreu ou n\u00e3o. Ela \u00e9 real na medida em que ganha for\u00e7a modeladora do presente e do futuro.<\/p>\n<p>Nesse sentido bastante restrito, as interpreta\u00e7\u00f5es acima se aproximam. O mito como discurso mobilizador foi mais propriamente analisado em sua dimens\u00e3o pol\u00edtica por Georges Sorel, um dos respons\u00e1veis por entender a dimens\u00e3o\u00a0<em>irracional\u00a0<\/em>das disputas sociais<sup>3<\/sup>. Ele sabia que o futuro n\u00e3o \u00e9 objeto de conhecimento cient\u00edfico. Ainda que linhas tendenciais possam ser divisadas, o porvir \u00e9 sempre inc\u00f3gnito, posto ser resultante de interesses antag\u00f4nicos. Reside nesses princ\u00edpios a for\u00e7a do\u00a0<em>mito\u00a0<\/em>em sua obra. Ele n\u00e3o finca suas ra\u00edzes no sistema racional, mas nas emo\u00e7\u00f5es que desperta \u2013 instrumento por excel\u00eancia da passagem dos princ\u00edpios \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre a irracionalidade como motor da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 que encontra no mito uma de suas express\u00f5es consagradas \u2013 ganha especial relev\u00e2ncia com o surgimento da produtora de extrema-direita Brasil Paralelo. A empresa do\u00a0<em>olavismo cultural\u00a0<\/em>falsifica o debate acad\u00eamico e apela aos instintos mais primitivos do p\u00fablico que tenta alcan\u00e7ar. Nesta quarentena, um turbilh\u00e3o de mensagens publicit\u00e1rias convocava os \u201cpatriotas\u201d a apoiarem a iniciativa em sua cruzada contra a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Consider\u00e1-la como produtora de mitos evidencia n\u00e3o apenas os mecanismos de sua atua\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o que ela cumpre no arco maior de for\u00e7as que s\u00e3o coligidas no pacto bolsonarista-olavista, do qual faz parte.<\/p>\n<p><strong>O mito liberal<\/strong><\/p>\n<p>Em entrevista ao Boletim da Liberdade, Filipe Valerim, \u201crosto\u201d da empresa, constr\u00f3i a narrativa fundante da Brasil Paralelo. Segundo ele, a produtora criada em Porto Alegre seria resultado dos esfor\u00e7os de um grupo de jovens comuns que, na conjuntura da reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, toma emprestado duas c\u00e2meras, algum dinheiro a juros e uma sala de 6 metros quadrados para produzir conte\u00fado em defesa de um novo modo de fazer pol\u00edtica e de uma nova forma de contar a hist\u00f3ria do Brasil. Dois anos e, imagina-se, muito trabalho depois, surgia a produtora que, de acordo com Valerim, viabiliza-se com a venda de cadastro de membros e acesso exclusivo a seus produtos educativos.<\/p>\n<p>Um olhar mais de perto mostra que as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim. Em 2016, ano de seu lan\u00e7amento, o site da produtora anuncia a venda de 68 palestras por R$ 360 \u00e0 vista ou 12x de R$ 36,14. Dentre os luminares da Rep\u00fablica que deveriam fazer o p\u00fablico literalmente pagar para ver estavam o ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o Mendon\u00e7a Filho, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, o cl\u00e3 Bolsonaro, al\u00e9m, claro, de Olavo de Carvalho. Deixando de lado ju\u00edzo de valores sobre o gosto peculiar da audi\u00eancia, h\u00e1 de se reconhecer a capacidade de alcan\u00e7ar figuras importantes, como deputados, senadores e tr\u00eas ministros \u2013 personalidades pouco acess\u00edveis a pessoas comuns.<\/p>\n<p>O lucro resultante da venda de horas de entrevistas com parte significativa da fauna reacion\u00e1ria brasileira teria sido grande o bastante para, um ano depois, com pompa e circunst\u00e2ncia, a produtora ter condi\u00e7\u00f5es de\u00a0<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/felipe-moura-brasil\/pre-estreia-de-impeachment-tera-bate-papo-com-felipe-moura-brasil\/\">l<\/a>an\u00e7ar seu filme sobre o impeachment de Dilma Rousseff no Cinemark de um dos maiores shoppings de Porto Alegre. No que talvez tenha sido o maior\u00a0<em>case\u00a0<\/em>de sucesso da hist\u00f3ria, a produtora dos jovens empreendedores teria alcan\u00e7ado os cinemas \u2013 e n\u00e3o qualquer sala, mas o grande circuito \u2013 em apenas doze meses. N\u00e3o localizei informa\u00e7\u00f5es sobre o or\u00e7amento da empreitada. Para fins de compara\u00e7\u00e3o, o document\u00e1rio sobre a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro produzido por Josias Te\u00f3filo (que colaborou com a Brasil Paralelo) foi autorizado pela Ancine a captar R$ 530 mil da iniciativa privada. Se os valores forem minimamente parecidos, algu\u00e9m achou a galinha dos ovos de ouro.<\/p>\n<p>Alguns dados merecem ser adicionados \u00e0 conta. Em 2019, a Brasil Paralelo lan\u00e7ou\u00a0<em>crowndfunding\u00a0<\/em>para transformar em filme uma de suas s\u00e9ries \u201cdocumentais\u201d, desta feita sobre a Hist\u00f3ria do Brasil. A arrecada\u00e7\u00e3o coletiva em favor de \u201cBrasil: a \u00faltima cruzada\u201d mirava alcan\u00e7ar R$ 2 milh\u00f5es<sup>4<\/sup>, em um plano de a\u00e7\u00e3o cuja meta final era a produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio e distribui\u00e7\u00e3o de assinaturas nas escolas brasileiras. A vaquinha virtual conseguiu pouco mais de R$ 400 mil, como o pr\u00f3prio Filipe Valerim admite em v\u00eddeo no YouTube. Segundo ele, suficiente para a realiza\u00e7\u00e3o da pel\u00edcula, mas n\u00e3o para sua chegada \u00e0s unidades escolares brasileiras. Menos mal para os liberais orgulhosos de \u201cnunca terem recebido dinheiro p\u00fablico\u201d que, em dezembro, a TV Escola, canal financiado pelo MEC, tenha garantido o objetivo de ampliar acesso ao conte\u00fado ao fechar contrato para divulga\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Ainda em 2019, teve in\u00edcio a produ\u00e7\u00e3o de \u201cP\u00e1tria Educadora\u201d \u2013 document\u00e1rio or\u00e7ado em R$ 2 milh\u00f5es. A propaganda maci\u00e7a sugere cifras astron\u00f4micas para uma pequena produtora que vive de membresia. No Facebook, o recorte dos an\u00fancios da nova s\u00e9rie tem um alcance ambicioso. No filtro da publicidade, o p\u00fablico-alvo inclui pessoas com mais de 18 anos cuja localiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o Brasil e tenham demonstrado m\u00ednimo interesse em educa\u00e7\u00e3o ou pol\u00edtica. Parece muita gente. Segundo a rede social, an\u00fancios desta magnitude podem custar at\u00e9 US$ 50 mil por semana, embora os valores variem de acordo com a escolha do anunciante. Dif\u00edcil imaginar, contudo, uma firma com amplo amparo publicit\u00e1rio que n\u00e3o saiba usar a ferramenta de\u00a0<em>target<\/em>, de sorte que a amplitude do p\u00fablico-alvo \u00e9 um ind\u00edcio eloquente do montante investido.<\/p>\n<p>Testemunhamos, assim, a entifica\u00e7\u00e3o da narrativa liberal cl\u00e1ssica. O grupo de jovens comuns, que tem de tomar recursos emprestados para realizar o sonho, triunfa por oferecer ao mercado um produto\u00a0<em>que atenda necessidades dos consumidores.\u00a0<\/em>A encarna\u00e7\u00e3o do mito \u00e9 a pr\u00f3pria empresa, e a mensagem \u00e9 clara: acredite no autofinanciamento, defenda a iniciativa privada contra o Estado \u2013 aquela \u00e9 eficiente em detectar as necessidades dos consumidores; este, estruturalmente ineficiente e corrupto. Pouco importa se o or\u00e7amento sugira suporte financeiro muito maior do que o arrecadado pelo supor de cidad\u00e3os comuns<sup>5<\/sup>. Os empreendedores seguem renovando as apostas, declarando n\u00e3o receber qualquer receita fora do c\u00edrculo de membros.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, durante a reprodu\u00e7\u00e3o de P\u00e1tria Educadora, o espectador \u00e9 bombardeado por in\u00fameros an\u00fancios da import\u00e2ncia de filia\u00e7\u00e3o \u00e0 empresa \u2013 que estaria amea\u00e7ada de fechar as portas caso uma meta (de \u201cnovos\u201d 20 mil membros) n\u00e3o fosse alcan\u00e7ada.\u00a0<em>Spoiler alert<\/em>: as portas n\u00e3o fechar\u00e3o, mesmo que a meta n\u00e3o seja batida. A fun\u00e7\u00e3o do apelo \u00e9 ret\u00f3rica: trata-se de anunciar um objetivo na pr\u00e1tica j\u00e1 alcan\u00e7ado, para depois sua conquista ser usada como\u00a0<em>prova\u00a0<\/em>da viabilidade da alternativa \u00e0 educa\u00e7\u00e3o gerida pelo Estado. J\u00e1 h\u00e1 propostas nesse sentido sendo divulgadas como conte\u00fado \u201cextra\u201d ao P\u00e1tria Educadora, e o carro-chefe do momento parece ser o\u00a0<em>homeschooling.\u00a0<\/em>A empresa seria a evid\u00eancia de que\u00a0<em>podemos fazer diferente,\u00a0<\/em>da\u00ed a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o m\u00edtica de sua hist\u00f3ria \u2013 uma trajet\u00f3ria de cr\u00edtica imanente ao \u201csistema\u201d.<\/p>\n<p><strong>O mito da revolta contra o sistema<\/strong><\/p>\n<p>A s\u00e9rie documental P\u00e1tria Educadora se prop\u00f5e a fazer a \u201cmaior den\u00fancia da hist\u00f3ria\u201d contra a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Dividido em tr\u00eas epis\u00f3dios que somados perduram quase tr\u00eas horas, o material conta, no primeiro, uma vis\u00e3o ficcional da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o e do \u201cOcidente\u201d<sup>6<\/sup>. O argumento da narrativa opera um corte importante entre a educa\u00e7\u00e3o \u201cpara eleva\u00e7\u00e3o do ser\u201d, supostamente vigente na Antiguidade e na Idade M\u00e9dia, e a educa\u00e7\u00e3o para fins terrenos, utilit\u00e1rios, imposta pelo Estado a partir da Reforma Protestante. O modelo de educa\u00e7\u00e3o tocado por preceptores e tutores, de larga vig\u00eancia na Antiguidade, chega a ser elogiado por permitir que os mais ricos \u201cpaguem pelos melhores professores\u201d sem interven\u00e7\u00e3o de qualquer autoridade p\u00fablica. A cr\u00edtica, claro, reside precisamente na regula\u00e7\u00e3o estatal da educa\u00e7\u00e3o \u2013 e as palavras \u201ceduca\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria\u201d chegam a ser ditas, a fim de tornar violento o ato consensualmente entendido como direito.<\/p>\n<p>Na segunda parte, a mix\u00f3rdia narrativa aponta para a import\u00e2ncia de se considerar a obra de Paulo Freire a reverbera\u00e7\u00e3o nacional de transforma\u00e7\u00f5es mundiais ocorridas na d\u00e9cada de 1960, como a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Chinesa, o Maio de 1968 e uma suposta guinada no \u201cmovimento socialista internacional\u201d que, entendendo a \u201ccultura\u201d como a \u201cverdadeira infraestrutura da sociedade\u201d, teria movido suas aten\u00e7\u00f5es para a \u201crevolu\u00e7\u00e3o cultural\u201d. No Brasil, o document\u00e1rio sugere que os militares da ditadura teriam sido esp\u00e9cie de \u201cparteiros paradoxais\u201d porque, ao n\u00e3o expurgarem\u00a0<em>adequadamente<\/em>\u00a0as institui\u00e7\u00f5es de ensino, teriam deixado por l\u00e1 o \u201covo da serpente\u201d que permitiria o retorno da \u201chegemonia da esquerda\u201d a partir dos anos 1970.<\/p>\n<p>Novamente, o que vale \u00e9 a como\u00e7\u00e3o provocada pelo discurso. N\u00e3o importa que a tese da descoberta de uma \u201cverdadeira infraestrutura\u201d flerte com o grotesco, especialmente quando situada em uma conjuntura de franca ascens\u00e3o dos p\u00f3s-estruturalismos. A produ\u00e7\u00e3o da Brasil Paralelo nunca teve qualquer apre\u00e7o pela descri\u00e7\u00e3o do real, haja vista o uso, em outro trabalho, de fotografias de Sebasti\u00e3o Salgado, tiradas em Serra Pelada, como\u00a0<em>evid\u00eancias\u00a0<\/em>da Guerrilha do Araguaia \u2013 em processo que acabou na Justi\u00e7a, vencido pelo fot\u00f3grafo. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 chocar para mobilizar. Sobre isso, o tratamento que a obra freireana recebe no document\u00e1rio \u00e9 particularmente elucidativo.<\/p>\n<p>Escrito na metade final dos anos 1960,\u00a0<em>Pedagogia do oprimido<\/em>\u00a0seria traduzido para mais de quarenta l\u00ednguas, tornando-se um dos grandes documentos do s\u00e9culo XX. Em s\u00edntese, a obra denunciou o que Freire chamava de \u201cordem opressiva\u201d cujos elementos constituintes despertavam nos subalternos o desejo de ser opressor. Como solu\u00e7\u00e3o, o pedagogo prop\u00f5e a uni\u00e3o entre a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o em uma\u00a0<em>pr\u00e1xis\u00a0<\/em>transformadora, respons\u00e1vel por mudar condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas rumo \u00e0 emerg\u00eancia de uma \u201cordem \u00e9tica\u201d. Nela, mesmo os dominantes de outrora sairiam favorecidos, porque se tornariam livres das cadeias c\u00edclicas da domina\u00e7\u00e3o das pessoas sobre as pessoas<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, por conseguinte, ir muito al\u00e9m das primeiras palavras do texto cl\u00e1ssico para constatar que a dicotomia opressor-oprimido de que fala Paulo Freire radica seus sentidos no conjunto da sociabilidade capitalista. Reduzi-la a uma rela\u00e7\u00e3o professor-aluno, insinuando ser o autor cr\u00edtico \u00e0 autoridade do educador, \u00e9 mentira deslavada<sup>8<\/sup>. No entanto, \u00e9 assim que o professor da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, Ricardo da Costa, balbucia sua vis\u00e3o sobre o tema:<\/p>\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o paulo-freireana n\u00e3o aceita que voc\u00ea diga, por exemplo, que o rapaz que fala framengo t\u00e1 errado, n\u00e9. Voc\u00ea n\u00e3o pode porque voc\u00ea t\u00e1 impondo a sua cultura classista. Isso\u2026Isso \u00e9\u2026 a pedagogia do oprimido, n\u00e9\u2026 o oprimido \u00e9\u2026 ora\u2026 ora\u2026 se h\u00e1 um oprimido tem um opressor. Quem \u00e9 o opressor? O professor\u201d<sup>9<\/sup><\/p>\n<p>As reiteradas distor\u00e7\u00f5es seguem com a avalia\u00e7\u00e3o de Olavo de Carvalho. Diz o autointitulado fil\u00f3sofo, contrariando os apontamentos mais elementares da obra do patrono da educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o tem meios de voc\u00ea se desaculturar. Voc\u00ea fica preso. (\u2026) O Paulo Freire cria uma estratifica\u00e7\u00e3o social invenc\u00edvel. Se voc\u00ea nasceu filho de pedreiro \u00e9 para voc\u00ea ficar pedreiro o resto de sua vida. E se inscreve no Partido Comunista e continua pedreiro.\u201d<sup>10<\/sup><\/p>\n<p>Como se, na\u00a0<em>Pedagogia do oprimido<\/em>\u00a0e na pr\u00e1tica em todos outros lugares, Paulo Freire n\u00e3o defendesse o exato oposto. Pode-se, claro, criticar as reflex\u00f5es do pedagogo. H\u00e1 quem as entenda como pendentes para o idealismo; h\u00e1 os que, defendendo uma neutralidade axiol\u00f3gica imposs\u00edvel, nela atacam sua evidente politiza\u00e7\u00e3o \u2013 estes s\u00e3o n\u00e3o surpreendentemente os conservadores, os que sentem arrepio na espinha a qualquer desafio \u00e0 ordem capitalista. Mas chega a ser dif\u00edcil de acreditar que se arremeta contra a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cestratifica\u00e7\u00e3o social invenc\u00edvel\u201d em seus trabalhos. Logo os de Paulo Freire, que dedicou in\u00fameras p\u00e1ginas contra os\u00a0<em>fatalismos\u00a0<\/em>que esterilizavam na vida seu impulso renovador.<\/p>\n<p>O sentido desta narrativa finca ra\u00edzes no mito da revolta contra a ordem, ins\u00edgnia que mobiliza a Brasil Paralelo em sua alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o bolsonarismo. Na narrativa em tela, Paulo Freire seria a origem de um \u201csistema educacional\u201d subvertido pelo esquerdismo. Da\u00ed a import\u00e2ncia da viol\u00eancia\u00a0<em>sanit\u00e1ria\u00a0<\/em>expressa na fala do autor do libelo reacion\u00e1rio \u201cDesconstruindo Paulo Freire\u201d.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos um pa\u00eds saud\u00e1vel, eu reitero isso, Paulo Freire n\u00e3o seria debatido. Debater\u00edamos entendimentos sobre sistemas pedag\u00f3gicos, sobre o papel do Estado na educa\u00e7\u00e3o, enfim, debates elevados, sobre temas elevados. Ele \u00e9 debatido porque somos um pa\u00eds socialmente doente<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>A tese da sociedade adoecida tamb\u00e9m por causa da \u201chegemonia cultural esquerdista\u201d \u00e9 lapidada na fala de Abrahan Weintraub, respons\u00e1vel por sintetizar a import\u00e2ncia do ataque \u201cao sistema educacional\u201d brasileiro. Professor da Unifesp aprovado em sele\u00e7\u00e3o suspeita de favorecimento, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o ataca os concursos p\u00fablicos, denunciando um suposto funcionamento sob o prisma do \u201cesquerdismo\u201d, tornando-se mecanismos de aparelhamento do MEC e, posteriormente, arma de subvers\u00e3o moral na guerra cultural desencadeada pela esquerda.<\/p>\n<p>Para que o \u201cNovo Brasil\u201d seja poss\u00edvel, n\u00e3o bastaria reformar o minist\u00e9rio. Embora esta seja uma etapa importante, n\u00e3o bastaria expurgar seus quadros<sup>12<\/sup>. O \u201cesquerdismo\u201d atravessaria a integralidade de suas pr\u00e1ticas, e s\u00f3 uma pol\u00edtica de devasta\u00e7\u00e3o poderia responder adequadamente ao problema. Mas a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m constru\u00e7\u00e3o. Do seio da antiga ordem h\u00e1 de nascer uma nova cultura, na qual uma nova hist\u00f3ria ser\u00e1 narrada. Eduardo Bolsonaro partilhou no Facebook depoimento de Rafael Nogueira, novo presidente da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, sobre a import\u00e2ncia de tomar dos \u201cdoutores em Hist\u00f3ria\u201d a prerrogativa de narrar a Hist\u00f3ria do Brasil, dando a ela um tratamento mais adequado.<\/p>\n<p>\u00c9 por esta din\u00e2mica destrutiva-construtiva que se pode melhor divisar a ofensiva em curso, diferenciando-a, inclusive, dos ataques conservadores mais recentes \u2013 que defendiam um arremedo de pedagogia tecnicista. A discuss\u00e3o contra o Estado recobre o esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem, com a qual a Brasil Paralelo contribui no\u00a0<em>front cultural<\/em>.<\/p>\n<p><strong>O mito fascista<\/strong><\/p>\n<p>Em 2016, Leandro Ruschel, outro dos jovens ligados \u00e0 iniciativa aqui em an\u00e1lise, entrevistou Olavo de Carvalho em sua casa. Ouviu do astr\u00f3logo conjecturas sobre a trama pol\u00edtica nacional e previs\u00f5es sobre como um golpe de Estado poderia triunfar no pa\u00eds<sup>13<\/sup>. A mobiliza\u00e7\u00e3o popular seria a chave do sucesso. Tamb\u00e9m em 2016 surgia a Brasil Paralelo.<\/p>\n<p>A ideia de \u201cp\u00f4r o povo na rua\u201d n\u00e3o representa, em si mesma, filia\u00e7\u00e3o a nenhuma corrente pol\u00edtica. Se compreendermos a Brasil Paralelo como um componente da alian\u00e7a olavista-bolsonarista vigente, teremos de avaliar seu papel \u00e0 luz da divis\u00e3o de tarefas de uma frente que se lan\u00e7a ao ataque em diversas \u00e1reas. A produtora seduz os militares, com uma vis\u00e3o revisionista de 1964. Em suas redes sociais, o guru da extrema-direita e, como vimos, presen\u00e7a cativa nos produtos da Brasil Paralelo, lan\u00e7a apoio \u00e0 baixa oficialidade e \u00e0 tropa das For\u00e7as Armadas. O bra\u00e7o armado da alian\u00e7a, claro, conta ainda com setores das pol\u00edcias, tornadas\u00a0<em>freikorps\u00a0<\/em>pela pr\u00e1tica miliciana, cuja apari\u00e7\u00e3o na greve do Cear\u00e1, em fevereiro \u00faltimo, foi singular demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a mesmo fora do Rio de Janeiro, seu principal covil. Eis o cerne mesmo do bolsonarismo.<\/p>\n<p>Aos pe\u00f5es olavistas, como a produtora ga\u00facha, conv\u00e9m pelejar na \u201carena cultural\u201d. Para tanto, conv\u00e9m ocupar postos de Estado para implodi-los por dentro, conferindo-lhes novo sentido social. J\u00e1 temos um negacionista do racismo na Funda\u00e7\u00e3o Palmares; uma trupe de palha\u00e7os no MEC; e agora a molecada ligada \u00e0 Brasil Paralelo chega \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, armando suas tendas na presid\u00eancia e em outros cargos da institui\u00e7\u00e3o. Por meio desses espa\u00e7os, gesta-se a nova cultura de que falou certa feita Roberto Alvim, ex-secret\u00e1rio especial da Cultura, acusado de apologia ao nazismo.<\/p>\n<p>Os movimentos fascistas se caracterizaram historicamente por esta preocupa\u00e7\u00e3o. A mobiliza\u00e7\u00e3o constante de setores de apoio, especialmente das camadas m\u00e9dias urbanas, \u00e9 o que o diferencia de outras correntes de direita. Na empreitada, \u201cmitos\u201d que comovam cumprem um papel importante, n\u00e3o apenas de definir alvos a serem atacados \u2013 os petistas e comunistas hoje, sabe-se l\u00e1 quem mais amanh\u00e3, como ensinou Brecht. Os mitos tamb\u00e9m mobilizam em dire\u00e7\u00e3o a objetivos a serem conquistados, rumo a uma\u00a0<em>nova era\u00a0<\/em>em prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>1\u00a0\u00a0BARTHES, Roland.\u00a0<em>O mito, hoje<\/em>. In: Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p 142-148.<\/p>\n<p>2 Ver, dentre outros: ELIADE, Mircea. Mito e realidade. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1972; MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, Ci\u00eancia e Religi\u00e3o. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<\/p>\n<p>3\u00a0 SOREL, Georges. Reflex\u00f5es sobre a viol\u00eancia. 1\u00aa ed. b. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1992.<\/p>\n<p>4 O valor \u00e9 anunciado nas introdu\u00e7\u00f5es aos epis\u00f3dios da s\u00e9rie, dispon\u00edveis gratuitamente no YouTube. Tamb\u00e9m h\u00e1 esta informa\u00e7\u00e3o aqui: https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2020\/04\/trilogia-sobre-educacao-mostra-nova-trincheira-do-bolsonarismo-contra-esquerda.shtml.<br \/>\n5 Ao contr\u00e1rio, o or\u00e7amento sugere apoio empresarial, que \u00e9 vis\u00edvel, pelo menos, em apoio e publicidade nas redes sociais. Alguns dos apoiadores s\u00e3o conhecidos: Luciano Hang, o novo bilion\u00e1rio do peda\u00e7o, Winston Ling e Fl\u00e1vio Rocha, este publicando artigos laudat\u00f3rios \u00e0 Brasil Paralelo em seu site oficial, como pode ser visto aqui: http:\/\/www.flaviorocha.com.br\/brasil-paralelo-ideia-da-mudanca\/.<\/p>\n<p>6 Em um dos falseamentos mais aviltantes aos olhos do historiador, h\u00e1 a sugest\u00e3o de que, ap\u00f3s Bo\u00e9cio, o aristotelismo teria encontrado em S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino apogeu de seu tratamento na Idade M\u00e9dia Ocidental, constituindo, assim, um dos pilares do Ocidente ent\u00e3o gestado. Para al\u00e9m do anacronismo com a ideia de \u201cOcidente\u201d, o paneg\u00edrico oculta que, entre um e outro, a saber, Bo\u00e9cio e Tom\u00e1s de Aquino, passam-se quase sete s\u00e9culos, durante os quais o aristotelismo, se sobreviveu na Europa, conseguiu faz\u00ea-lo apenas marginalmente, tendo sido os mu\u00e7ulmanos que habitavam a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica os respons\u00e1veis pela sua segunda grande difus\u00e3o pelo continente. Fatos que n\u00e3o podem ser narrados sem preju\u00edzo \u00e0 imagem id\u00edlica e delirante que os seguidores de Olavo de Carvalho t\u00eam do Ocidente \u2013 imagem que une \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ccultura\u201d de uma forma que causaria orgulho e vergonha em Spengler: o primeiro pelo tributo \u00e0s ideias mais gerais, a segunda pela qualidade medonha do produto final.<\/p>\n<p>7 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2018.<\/p>\n<p>8 Quanto mais por ser Paulo Freire autor de reflex\u00f5es sobre a import\u00e2ncia da autoridade contra a licenciosidade na sala de aula. Ver. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 105.<\/p>\n<p>9 A fala ocorre, mais ou menos, aos 46min30seg do document\u00e1rio dispon\u00edvel aqui: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UPDjFGGN2w0<br \/>\n10 Ver aproximadamente aos 46min50seg do mesmo link: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UPDjFGGN2w0<\/p>\n<p>11 A fala \u00e9 de Thomas Giulliano e ocorre aproximadamente 1h07min do document\u00e1rio dispon\u00edvel aqui: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UPDjFGGN2w0<\/p>\n<p>12 A bandeira chegou a dar origem a um projeto de \u201cLava-jato da Educa\u00e7\u00e3o\u201d, posteriormente formalmente abandonado pelo governo. Ver: https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2019-02\/mec-instala-lava-jato-da-educacao-diz-bolsonaro<\/p>\n<p>13 A partir de 13min30seg do v\u00eddeo dispon\u00edvel aqui: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AcEoTtTel0g<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"edFzEShpOT\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/brasil-paralelo-a-maquina-do-neofascismo-cultural\/\">Brasil Paralelo: a m\u00e1quina do neofascismo cultural<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;&lt;i&gt;Brasil Paralelo&lt;\/i&gt;: a m\u00e1quina do neofascismo cultural&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/brasil-paralelo-a-maquina-do-neofascismo-cultural\/embed\/#?secret=LgrG2uFIh2#?secret=edFzEShpOT\" data-secret=\"edFzEShpOT\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Martins D\u00f3ria Paulo &#8211; Com obras de apelo \u00e0 como\u00e7\u00e3o e ao negacionismo, produtora peleja \u201carena cultural\u201d para impor ataque ao Estado \u2013 e ocup\u00e1-lo. 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