{"id":13224,"date":"2020-05-26T17:21:24","date_gmt":"2020-05-26T20:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13224"},"modified":"2020-05-23T17:26:20","modified_gmt":"2020-05-23T20:26:20","slug":"e-se-as-maquinas-pudessem-nos-libertar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/26\/e-se-as-maquinas-pudessem-nos-libertar\/","title":{"rendered":"E se as m\u00e1quinas pudessem nos libertar?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Neder<\/strong> &#8211;\u00a0Desde Arist\u00f3teles, persiste o sonho de que a tecnologia erradicar\u00e1 a escravid\u00e3o. Mas, no capitalismo, foi tomada para fins econ\u00f4micos e militares, sujeitando corpos e mentes. \u00c9 hora de resgat\u00e1-la, pelo direito \u00e0 frui\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>\u00c0s quartas-feiras, <em>Outras Palavra\u00a0<\/em>publica uma s\u00e9rie de artigos de Ricardo Neder, intitulada\u00a0<em>A Gambiarra e o Pan\u00f3ptico\u00a0<\/em>(fruto de livro hom\u00f4nimo, publicado pelo Observat\u00f3rio do Movimento pela Tecnologia Social na Am\u00e9rica Latina, da UnB, e editora Lutas Anticapital) que, por meio dos Estudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologia, visa compreender a sociedade de controle e vigil\u00e2ncia \u2013 e se \u00e9 poss\u00edvel super\u00e1-la e reconstruir o Socialismo e as Democracias.\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/a-gambiarra-e-o-panoptico\/\">Leia a apresenta\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0da s\u00e9rie.\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/a-gambiarra-e-o-panoptico\/\">Aqui<\/a>, todos os textos j\u00e1 publicados. O t\u00edtulo original do texto abaixo \u00e9:\u00a0<em>Escravid\u00e3o e Tecnologia<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Os bens s\u00e3o um instrumento para assegurar a vida, a riqueza \u00e9 um conjunto de tais instrumentos, o escravo \u00e9 um bem vivo\u2026, e cada auxiliar \u00e9 por assim dizer, um instrumento que aciona outros instrumentos. Na verdade se cada instrumento pudesse obedecer sua miss\u00e3o obedecendo a ordens ou percebendo antecipadamente o que lhe cumpre fazer, como se diz das est\u00e1tuas de D\u00e9dalos, ou dos tr\u00edpodes de Vulcano, que entram como aut\u00f4matos nas reuni\u00f5es dos deuses, se ent\u00e3o as lan\u00e7adeiras tecessem e as palhetas tocassem c\u00edtaras por si mesmas, os construtores n\u00e3o teriam necessidade de auxiliares, e os senhores n\u00e3o necessitariam de escravos.<br \/>\n(Arist\u00f3teles. Pol\u00edtica)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Um escravo fugido que retorna a casa, \u00e9 o tema da hist\u00f3ria que ficou registrada na B\u00edblia sobre o escravo fugido, On\u00e9simo. Quem j\u00e1 leu h\u00e1 de se lembrar, e os que n\u00e3o o leram certamente gostar\u00e3o de conhecer. Ele retorna \u00e0 casa do seu ex-propriet\u00e1rio, com uma carta (conta Paulo, na Ep\u00edstola aos Romanos). O escravo tinha se refugiado em Roma, e de l\u00e1 retorna para sua cidade natal, com a carta a tiracolo que ficou conhecida como <em>Carta a Filemon\u00a0<\/em>(nome do dono do escravo fugido).<\/p>\n<p>Ele foi confrontado pela exorta\u00e7\u00e3o de Paulo, o ex-centuri\u00e3o romano, como reza a lenda. Diz na carta:<em>\u201ctens de volta n\u00e3o um servo, mas um irm\u00e3o car\u00edssimo!\u201d\u00a0<\/em>(Em outras palavras, aceita que existe uma alma individualizada e os crist\u00e3os s\u00e3o int\u00e9rpretes desta verdade, quis dizer para Filemon). Ora, deve ter sido uma decep\u00e7\u00e3o. Perder um escravo? Aceitar On\u00e9simo crist\u00e3o?! Nem servo ele se considera mais. Vou perder a paz que me assegurava praticar a melhor filosofia e pol\u00edtica!<\/p>\n<p>A nova ordem teol\u00f3gico-civil crist\u00e3 combateu a religiosidade dos antigos que tinham a possibilidade de mergulhar a imagina\u00e7\u00e3o ativa tanto na adora\u00e7\u00e3o de um deus-imperador, quanto fazer a imers\u00e3o hipn\u00f3tica do adepto no tratamento psicossom\u00e1tico em uma jornada de cura de sua doen\u00e7a pelos templos com base na interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos e mitos. Ao individualizar a alma e apelar para a sua salva\u00e7\u00e3o por meio de um esp\u00edrito tornado<em>logos<\/em>divino, o cristianismo passou a condenar que um imperador, por exemplo, pudesse ser adorado como deus.<\/p>\n<p>Para o cristianismo nascente era uma forma de escraviza\u00e7\u00e3o da alma, ou perda da autonomia, em outras palavras \u2013 heteronomia. E, assim, condenaram tamb\u00e9m, de rold\u00e3o, aquela forma antiga (n\u00e3o a adora\u00e7\u00e3o de imperadores), hoje, dir\u00edamos, quase psicanaliticamente, que o adepto mergulha na imagina\u00e7\u00e3o e vive uma cura ps\u00edquica que o poderia levar a um estado de libera\u00e7\u00e3o e autonomia diante do sofrimento.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 lhe dado um conforto \u00e0 altura da cura inici\u00e1tica dos antigos que julgavam ser a alma uma entidade coletiva? De qualquer forma, os tempos eram outros, e o fim do imp\u00e9rio se avizinhava. O cristianismo abriu caminho futuro para individualizar a alma do trabalhador e do pobre na cidade e no campo, da mulher e da crian\u00e7a \u2013 t\u00e3o id\u00eantica quanto \u00e0 do senhor e do imperador (unindo-os contra os pag\u00e3os).<\/p>\n<p>Uma ideia subversiva que atravessou s\u00e9culos sendo contestada pelos poderosos (laicos e religiosos) levou esta discuss\u00e3o muito al\u00e9m dos s\u00e9culos ind\u00edgenas nos quais portugueses e espanh\u00f3is dos Descobrimentos, se depararam com os nossos povos sul-americanos. Foram tomados supostamente sem alma, ao serem escravizados e massacrados impiedosamente. Ela persistir\u00e1, na verdade, pelo menos at\u00e9 final do S\u00e9culo XIX, em um dos \u00faltimos pa\u00edses a tolerar a escravid\u00e3o, o Brasil. Na \u00e9poca de On\u00e9simo este adquire autonomia intelectual e pode pensar por conta pr\u00f3pria, como aconteceu nesta hist\u00f3ria. Tal liberdade custou caro aos senhores. (O ent\u00e3o proletariado sob o imp\u00e9rio romano no dia a dia desempenhava uma s\u00e9rie de servi\u00e7os dom\u00e9sticos, ajudava na administra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e colocava em dia os servi\u00e7os p\u00fablicos).<\/p>\n<p>Perder um escravo tinha algo que podemos comparar hoje a ter uma casa ou um carro roubado. (Ele era, de certa forma, um ser m\u00e1quina). Uma tecnologia viva, naquela \u00e9poca. Hoje quando abrimos a geladeira querendo \u00e1gua ou cerveja fria, e a encontramos com certeza no interior do aparelho, se estabelece uma funcionalidade que \u00e9 ao mesmo tempo\u00a0<em>familiaridade e estranheza<\/em>, entre o sujeito e a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Dependo da m\u00e1quina para esta pequena satisfa\u00e7\u00e3o e s\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es aparentemente banais como estas que se desenvolvem as formas de heteronomia ou depend\u00eancia. A tecnologia era vista como saber aplicado e capaz de alterar as condi\u00e7\u00f5es da vida do homem.<\/p>\n<p>Esta antiga promessa j\u00e1 tinha sido genialmente intu\u00edda pelos fil\u00f3sofos na Antiguidade. Particularmente Arist\u00f3teles vislumbrou, nas realiza\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas simples, o funcionamento de aut\u00f4matos como substitutos dos escravos para aliviar o fardo da humanidade diante do labor. O maior fil\u00f3sofo da Antiguidade ao comentar sobre as partes componentes da cidade, aborda inicialmente o papel do chefe de fam\u00edlia, e das fam\u00edlias\u2026 assim como a autoridade da\u00ed decorrente sobre a mulher, filhos e a posse de bens inanimados e animados, entre estes \u00faltimos os escravos. Em ep\u00edgrafe mencionamos a passagem na qual ele afirma em\u00a0<em>Pol\u00edtica<\/em>\u00a0que os senhores n\u00e3o necessitariam de escravos, se houvessem aut\u00f4matos.<\/p>\n<p>Notem que Arist\u00f3teles sente a falta de \u201calgo\u201d para que isto se torne realidade. Cerca de 1.700 anos depois, Marx, em plena revolu\u00e7\u00e3o industrial\u2026 cita exatamente esta passagem de Arist\u00f3teles. E menciona que Ant\u00edpatros (um poeta grego do tempo de C\u00edcero s\u00e9c. I d.C)\u2026 \u201csaudou a inven\u00e7\u00e3o do moinho de \u00e1gua para moer o trigo, forma elementar de toda maquinaria produtiva, como a aurora<em>\u00a0libertadora das escravas e restauradora da idade de ouro\u201d;<\/em>da\u00ed Marx conduz a reflex\u00e3o para a atualidade da sua \u00e9poca:\u00a0<em>\u201cAh! Esses pag\u00e3os!. Nada entendiam de economia pol\u00edtica nem de cristianismo (\u2026) entre outras coisas eles n\u00e3o entendiam que a m\u00e1quina fosse o meio mais eficiente de prolongar a jornada de trabalho\u201d. (O Capital, \u201cA m\u00e1quina e a ind\u00fastria moderna).<\/em><\/p>\n<p>Tanto os antigos, quanto n\u00f3s atualmente olhamos para a t\u00e9cnica como um dom\u00ednio sobre a mat\u00e9ria; tal dom\u00ednio inclui agora, uma categoria inteiramente diversa que \u00e9 a das sociedades t\u00e9cnicas; sociedades inteiras existem como tal porque os dispositivos t\u00e9cnicos s\u00e3o parte da heran\u00e7a de conhecimentos fortemente estruturados em bases de transmiss\u00e3o cultural. Mas nunca vimos sociedade humana qualquer transformar a mat\u00e9ria sem dotar esta apropria\u00e7\u00e3o de um sentido ou conte\u00fados espec\u00edficos: as identidades cultural, religiosa, militar, econ\u00f4mica est\u00e3o mescladas nos dispositivos t\u00e9cnicos, e n\u00e3o h\u00e1 como destrinch\u00e1-las. Na antiguidade esta apropria\u00e7\u00e3o estava regida por considera\u00e7\u00f5es de ordem m\u00e1gica ou esot\u00e9rica, pragm\u00e1ticas e ut\u00f3picas ao mesmo tempo, sem dualismos. Talvez a diferen\u00e7a seja esta: adotamos um olhar dualista ao atribuir um sentido de autonomia \u00e0 tecnologia, e elidimos assim, seus v\u00ednculos mais \u00edntimos com o senso comum.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, havia t\u00e9cnicas dominadas diferencialmente por homens e mulheres. A t\u00e9cnica era, antes de tudo, um dom\u00ednio sacralizado sobre a mat\u00e9ria, tratada como \u201calgo\u201d se destitu\u00eddo de vida, ou parte de um ser\u2026 Era neste sentido, conhecimento esot\u00e9rico (dotado de conhecimento religioso reservado a poucos) ou exot\u00e9rico (dotado de sabedoria incomum que depende de uma educa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica laica).<\/p>\n<p>Diante da t\u00e9cnica e da (moderna) tecnologia \u00e9 prudente partir de um duplo olhar: sua suposta neutralidade ou inoc\u00eancia se esfuma\u00e7a quando a concebemos tanto como um conhecimento que estuda a si pr\u00f3prio, e por isto ela mesma \u00e9 um \u201calvo\u201d de conhecimento (enquanto ci\u00eancia da tecnologia), quanto uma opera\u00e7\u00e3o, dispositivo ou conjunto de<em>\u00a0constructos\u00a0<\/em>educacionais e morais, normativos e orientadores do comportamento das massas (no seu consumo material, representa\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o da tecnologia como um dispositivo \u2018neutro\u2019).<\/p>\n<p>Enquanto constructo educacional e moral a tecnologia tem sido desenvolvida para realizar importantes formas de coordena\u00e7\u00e3o de valores na sociedade. Qualquer que seja a extens\u00e3o do apoio da t\u00e9cnica nos procedimentos objetivos das ci\u00eancias, ela forma um sistema independente. A vis\u00e3o sobre sua neutralidade \u00e9 interessante. Eram comuns vis\u00f5es de que a tecnologia sendo um elemento cultural que se distingue pela materialidade, ela s\u00f3 promete o bem ou o mal na medida em que os grupos sociais que a exploram prometem o bem ou o mal. A m\u00e1quina em si n\u00e3o exige e n\u00e3o faz promessas, \u00e9 o esp\u00edrito humano que faz exig\u00eancias e promessas \u2013 afirma esta perspectiva ing\u00eanua (Lewis Munford).<\/p>\n<p>A tecnologia revela o modo de proceder do homem para com a natureza, o processo imediato de produ\u00e7\u00e3o de sua vida material e assim elucida as condi\u00e7\u00f5es de sua vida social e as concep\u00e7\u00f5es mentais que dela decorrem (Marx). Dadas as condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas nas quais a pr\u00e1tica da pesquisa cient\u00edfica colocou o pesquisador sob um falso dualismo \u2013 bin\u00f4mio ci\u00eancia &amp; tecnologia, o somat\u00f3rio chamado tecnocient\u00edfico subordina ou disciplina as pesquisas nas universidades e centros privados \u00e0s demandas de inova\u00e7\u00e3o dos sistemas corporativos e empresariais, que nada tem de livre mercado, pois tem o poder oligop\u00f3lico de comandar o obsoletismo programado dos produtos (embora precisem ser conspirat\u00f3rios o suficiente para assegurar apoios de governos para legisla\u00e7\u00f5es nacionais que co\u00edbam a rebeli\u00e3o contra o sistema de consumo).<\/p>\n<p>Qual a autonomia e neutralidade dos sujeitos produtores de conhecimento, cientistas e pesquisadores neste quadro? Pesquisadores ou coletivos sociais e institui\u00e7\u00f5es diante de pol\u00edticas e gestores governamentais, empres\u00e1rios e poder econ\u00f4mico, como ficaram? \u00c9 significativo que at\u00e9 o s\u00e9culo XVIII os diferentes of\u00edcios e artes, t\u00e9cnicos e artes\u00e3os tivessem a denomina\u00e7\u00e3o de of\u00edcios de mist\u00e9rios (myst\u00e8res) em cujos arcanos s\u00f3 podiam entrar os emp\u00edricos e profissionalmente iniciados.<\/p>\n<p>Segundo Marx,<em>a\u00a0<\/em><em>ind\u00fastria<\/em><em>\u00a0moderna rasgou o v\u00e9u que ocultava ao homem seu pr\u00f3prio processo social de produ\u00e7\u00e3o e que transformava os ramos de produ\u00e7\u00e3o naturalmente diversos em enigmas, mesmo para aqueles que fosse iniciado num deles. Esta concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia da tecnologia (marca) o princ\u00edpio de considerar em si mesmo cada processo de produ\u00e7\u00e3o e de decomp\u00f4-lo sem levar em conta qualquer interven\u00e7\u00e3o da m\u00e3o humana em seus elementos constitutivos\u201d.\u00a0<\/em>(Marx, O capital: 2006:551 23\u00aa ed.).<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o cr\u00edtica contempor\u00e2nea come\u00e7a a analisar a tecnologia por meio do conceito de ambival\u00eancia: a tecnologia ora se concretiza como alvo de conhecimento, ora \u00e9 operada como inst\u00e2ncia de coordena\u00e7\u00e3o de valores. Marx apontou a ingenuidade dos antigos para quem a tecnologia viria a reduzir os esfor\u00e7os e dores do trabalho pesado. J\u00e1 nos s\u00e9culos XVI\/XVII isto se tornou um potencial ideol\u00f3gico quando Leonardo da Vinci, Galileu e Francis Bacon lan\u00e7aram as bases da ci\u00eancia experimental (o primeiro projetou m\u00e1quinas e artif\u00edcios que propunham a capacidade do homem para voar, ou mergulhar nas profundezas do mar, e o segundo tornou claro que esta amplia\u00e7\u00e3o das capacidades da for\u00e7a humana tinha uma base experimental que geraria a transforma\u00e7\u00e3o do mundo; enquanto o terceiro realizou a defesa de uma moralidade a mais ampla poss\u00edvel ao associar progresso social ao desenvolvimento da ci\u00eancia)<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>A partir da\u00ed estava em quest\u00e3o uma outra finalidade inteiramente diversa da realiza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia experimental para possibilitar a supera\u00e7\u00e3o do labor e aumentar a autonomia do indiv\u00edduo. A preocupa\u00e7\u00e3o de Da Vinci e Galileu era diferente da de Arist\u00f3teles. M\u00e1quinas servem a prop\u00f3sitos da engenharia civil e militar; apresentam resultados decisivos em mat\u00e9ria econ\u00f4mica. Devem ser aplicadas para multiplicar a for\u00e7a do homem na paz e na guerra. Este vertente foi amplamente dominante desde ent\u00e3o. Ap\u00f3s as grandes guerras mundiais no S\u00e9culo XX devemos, de fato, indagar\u00a0<em>onde teria ido parar o antigo sonho de fazer da tecnologia um al\u00edvio das dores do labor (Hannah Arendt).<\/em><\/p>\n<p>As formas de supera\u00e7\u00e3o da escravatura n\u00e3o s\u00e3o ditadas pela ado\u00e7\u00e3o da tecnologia. Ao contr\u00e1rio, os sistemas t\u00e9cnicos ressignificaram as tentativas de subordina\u00e7\u00e3o do\/a trabalhador\/a a tempos e modos de trabalhar. N\u00e3o foi abolida a idolatria do trabalho, e a tecnologia se tornou propulsora de um permanente estado de frustra\u00e7\u00e3o que posterga para o futuro a aboli\u00e7\u00e3o da heteronomia do trabalho. Este desgosto por ter que trabalhar sem gosto. Em luta contra isto, e pelo direito \u00e0 vagabundagem, em suas metamorfoses afrobrasileiras e povos ind\u00edgenas insistem em entrar na modernidade pelo Porta de Galegos (a da tecnologia que liberta, e depois de passar por ela, nunca mais retornamos ao estado ex-ante). A que d\u00e1 acesso \u00e0 modernidade industrialista com o direito \u00e0 vagabundagem? A luta pelo\u00a0<em>direito \u00e0 vagabundagem<\/em>\u00a0permanece como tra\u00e7o de distin\u00e7\u00e3o e express\u00e3o da cultura popular. Da\u00ed outra dimens\u00e3o da gambiarra que preside a luta pelo direito a vagabundagem diante da dial\u00e9ctica da gambiarra e do\u00a0<em>pan\u00f3tico<\/em>\u00a0<em>(hoje em torno do controle cibern\u00e9tico).\u00a0<\/em>Luta agora convertida em um novo Pelourinho das criptolinguagens nas redes: trata-se de superar a condi\u00e7\u00e3o de heteronomia, ao mesmo tempo que nos obriga a ser construtores; desincorporar a pessoa dos sistemas t\u00e9cnicos (sair da Matrix) exige a gambiarra como uma conquista de si pr\u00f3prio. Diversamente do passado, em lugar de escravizar o corpo do(a) trabalhador(a), tornamos servil a rela\u00e7\u00e3o dos corpos com os sistemas t\u00e9cnicos (o que parece desviar a aten\u00e7\u00e3o desta tens\u00e3o e conflito entre senhor e escravo, pois o algoz \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 percebido). A tecnologia torna-se s\u00edmile de libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque todo desenvolvimento tecnol\u00f3gico deve estar associado ao regime de produtividade econ\u00f4mica? Estamos neste ponto, pr\u00f3ximos a uma pergunta mais ampla, diretamente ligada ao fato de que o nosso conhecimento convertido em tecnologia gerar uma segunda natureza (a qual \u00e9 a pr\u00f3pria base da produtividade econ\u00f4mica).<\/p>\n<p>Recriamos um mundo artificial (tecnol\u00f3gico) que abarca esta produtividade; ela n\u00e3o existe fora dele. Mas, ao mesmo tempo, ao sermos recriados por esta segunda natureza externa e objetiva, estamos diante de um movimento que n\u00e3o \u00e9 rigorosamente da sociedade \u201csobre si mesma\u201d (t\u00edpico problema do s\u00e9culo XX) mas dos desdobramentos de como a sociedade estabelece o \u201ccontrole sobre o controle\u201d da segunda natureza sobre as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o da nossa autonomia. Esta subordina\u00e7\u00e3o tornou-se condi\u00e7\u00e3o para os incrementos de produtividade em todos os setores econ\u00f4micos, e ao mesmo tempo inviabilizou a aboli\u00e7\u00e3o da heteronomia.<\/p>\n<p>Herbert Marcuse (em meados no s\u00e9culo XX) aprofundou esta reflex\u00e3o durante seu ex\u00edlio nos Estados Unidos, longe da Alemanha nazista. Quando escreve\u00a0<em>Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Ideologia da Sociedade Industrial<\/em>, j\u00e1 tinha consolidado a an\u00e1lise de filosofia pol\u00edtica sobre duas dimens\u00f5es-chaves de qualquer tecnologia: enquanto express\u00e3o est\u00e9tica com a qual as sociedades capitalistas contempor\u00e2neas (p\u00f3s anos 1960) plasmam ou articulam a liga\u00e7\u00e3o do sujeito com a realidade.<\/p>\n<p>Em segundo, \u00e9 tamb\u00e9m componente fundamental de produtividade do aparelho econ\u00f4mico-produtivo de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em dupla chave: torna-se um poder em si; e contrap\u00f5e-se como enxame s\u00facia, bandos contrabandos do poder industrial-militar dos pa\u00edses do centro capitalista sobre o mundo.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples, mas polim\u00f3rfica: a tecnologia al\u00e9m de ser uma forma de conhecimento, \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de coordena\u00e7\u00e3o e de regula\u00e7\u00e3o (social, cultural, pol\u00edtica, est\u00e9tica e militar) de interesses. Marcuse foi um dos primeiros a perceber isto, j\u00e1 nos anos 1940 como uma dimens\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o social e cultural mediada pelas tecnologias como est\u00e9tica, ao lado da dimens\u00e3o mais antiga anotada por Marx, de que a tecnologia \u00e9 parte das rela\u00e7\u00f5es sociais do trabalho e quem det\u00e9m o poder econ\u00f4mico a utiliza com o objetivo de incrementar a produtividade do trabalho. A tecnologia gera maiores lucros enquanto parte da l\u00f3gica do capital.<\/p>\n<p>Mais do que aumentar a produtividade do trabalho, Marcuse em fins dos anos 1940 \u2013 em\u00a0<em>Eros &amp; Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0\u2013 dir\u00e1 que a tecnologia tornou-se elemento gerador de heteronomia; sendo seu desenvolvimento pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia do regime de assalariamento este, ao dar origem \u00e0 moderna classe trabalhadora, ao mesmo tempo gerou as condi\u00e7\u00f5es de sua heteronomia, ou perda de autonomia.<\/p>\n<p>Na verdade, On\u00e9simo e Filemon s\u00e3o personagens do in\u00edcio da era da acumula\u00e7\u00e3o primitiva crist\u00e3, \u00e9poca que os reformadores viviam um problema \u00e9tico. Como superar o regime de heteronomia da escravid\u00e3o, sem destruir a sociedade? O cristianismo afirmava que n\u00e3o bastava abolir formalmente a escravid\u00e3o; tornava-se necess\u00e1rio liberar a consci\u00eancia do sujeito dos grilh\u00f5es da escravid\u00e3o. Isto levou pelo menos dezoito s\u00e9culos (porque n\u00e3o foi o cristianismo que aboliu a escravid\u00e3o, mas o surgimento de um regime econ\u00f4mico que elevou tanto a produtividade do trabalho no S\u00e9c. XIX, com base tecnocient\u00edfica eletromec\u00e2nica que acabar com a escravid\u00e3o tornou-se subproduto humanit\u00e1rio e cultural in\/conveniente).<\/p>\n<p>Esta trajet\u00f3ria talvez mais espetacular e complexa do conhecimento por que passou a humanidade tem como vis\u00e3o complementar: n\u00e3o existe ci\u00eancia sem tecnologia, e vice-versa. A ci\u00eancia experimental (que conduz \u00e0 tecnologia) \u00e9 a forma universalizada da t\u00e9cnica; em contraste com as experi\u00eancias hist\u00f3ricas das t\u00e9cnicas entre os chineses antigos, mesopot\u00e2micos, gregos e romanos, \u00e1rabes e persas que expandiram as t\u00e9cnicas at\u00e9 um certo ponto, estas experi\u00eancias civilizacionais n\u00e3o puderam ultrapassar o limiar a partir do qual se tornaria tecnologia.<\/p>\n<p>Tardiamente, a ci\u00eancia experimental, a tecnologia e os sistemas t\u00e9cnicos passaram a ser entrela\u00e7ados na sociedade. Algo pr\u00f3ximo da no\u00e7\u00e3o de que ao laborat\u00f3rio de pesquisa &amp; desenvolvimento, se associa uma esfera de instrumentaliza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria da tecnologia (Feenberg) na sociedade, reflexo de uma est\u00e9tica da ind\u00fastria de m\u00e1quinas (gen\u00e9rica). Base da forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora moderna, deu origem ao operariado industrial. Algo como uma des-antropomorfiza\u00e7\u00e3o da base material? Estar\u00edamos diante de uma evolu\u00e7\u00e3o ilimitada da ci\u00eancia e da produ\u00e7\u00e3o (Luk\u00e1cs)? Assim, os processos que conduzem este enraizamento s\u00e3o mais importantes, ou superiores, aos da pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico que viabiliza a tecnologia. Embora ambos estejam inextricavelmente ligados somos hoje obrigados a rever o olhar unitarista da ci\u00eancia experimental. At\u00e9 meados do s\u00e9c. XIX a vis\u00e3o de que a ci\u00eancia era \u00fanica em todo planeta (unitarista) n\u00e3o encontrava contesta\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o unitarista afirma que os achados da Ci\u00eancia s\u00e3o v\u00e1lidos para explicarmos os fen\u00f4menos f\u00edsicos e a partir disto construir tecnologias espec\u00edficas. A uma ci\u00eancia unit\u00e1ria, corresponderia tamb\u00e9m a um monismo metodol\u00f3gico no desenvolvimento da tecnologia.<\/p>\n<p>Para os adeptos do unitarismo cient\u00edfico cl\u00e1ssico (que nada tem a ver com o que chamamos de unitarismo tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo do p\u00f3s-II guerra mundial) sucedeu uma transforma\u00e7\u00e3o \u2013 se quiserem, um enorme conflito na medida em que as rela\u00e7\u00f5es entre Ci\u00eancia &amp; Poder avan\u00e7aram t\u00e3o celeremente desde o final do s\u00e9culo XIX que a distin\u00e7\u00e3o entre fazer por exemplo, ci\u00eancia qu\u00edmica para a ind\u00fastria civil, e para a ind\u00fastria militar perdeu toda e qualquer possibilidade de ser defens\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pergunta mais ampla est\u00e1 diretamente ligada ao conhecimento convertido em tecnologia que gera uma segunda natureza, \u00e9 certo, relacionada \u00e0quelas duas dimens\u00f5es de toda tecnologia a que se refere Marcuse. Na sua vis\u00e3o a tecnologia se converteu em uma segunda natureza porque recriamos um mundo artificial, mas ao mesmo tempo, estabelecemos rela\u00e7\u00f5es sociais que s\u00e3o alimentadas tendo como eixo esta segunda natureza externa e objetiva!<\/p>\n<p>A ci\u00eancia desde o s\u00e9culo XVIII \u00e9 a sistematiza\u00e7\u00e3o talvez mais espetacular e complexa por que passou a humanidade, e deste conhecimento resultou duas interpreta\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas sobre o fazer cient\u00edfico. Afirma-se que quem faz ci\u00eancia n\u00e3o faz tecnologia. \u00c9 o olhar do cientista. Chamemos este de olhar unitarista da ci\u00eancia. A ci\u00eancia e os cientistas t\u00eam sido unitaristas. N\u00e3o s\u00f3 seus achados s\u00e3o supostamente v\u00e1lidos em qualquer recanto da terra. Mas trata-se da maneira como explicam os fen\u00f4menos f\u00edsicos: n\u00e3o porque ela pretende ser a mesma, mas s\u00e3o unitaristas porque permitem a partir dela construir tecnologias espec\u00edficas que tem a pretens\u00e3o de se tornarem intermedi\u00e1rios no nosso cotidiano. Algo como uma amea\u00e7a \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia no cotidiano (vista como\u00a0<em>categoria idealista da atividade livre do sujeito \u2013 Adorno<\/em>).<\/p>\n<p>A uma ci\u00eancia unit\u00e1ria, corresponderia tamb\u00e9m a um unitarismo no desenvolvimento da tecnologia. A nova escravid\u00e3o como sabemos, revela o potencial desta tecnologia impl\u00edcita na base epistemol\u00f3gica, ou seja, numa base sistem\u00e1tica de conhecimento sobre o mundo, seu funcionamento com leis e regras. Esta perspectiva nos d\u00e1 um novo sentido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do conhecimento (ci\u00eancia) com a tecnologia. Ela \u00e9 unitarista \u2013 ou seja, s\u00f3 admitimos uma maneira de fazer ci\u00eancia e tecnologia. \u00c9 claro que esta equa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi formulada historicamente de forma negativa, mas apenas como um sinal positivo e o determinante disto \u00e9 a forma como a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e9 adotada como um fato econ\u00f4mico, e ao mesmo tempo, sociocultural.<\/p>\n<p>Aqui retomamos as duas dimens\u00f5es definidas por Marcuse h\u00e1 60 anos: ela \u00e9 um fato econ\u00f4mico e um fato sociocultural total, que (des)vincula o cotidiano da ci\u00eancia. Da\u00ed o problema: como absorver a tecnologia n\u00e3o em sua formula\u00e7\u00e3o negativa\u2026 (para os trabalhadores \u00e9 claro) ou positiva (para os empres\u00e1rios que aumentar\u00e3o seus lucros com ela, sendo ou n\u00e3o sustent\u00e1vel para a natureza e a sociedade), mas em sua dial\u00e9tica negativa. Isto \u00e9, soma-se arte e frui\u00e7\u00e3o para converter a tecnologia em inst\u00e2ncia ou locus de liberta\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho, do labor e base para uma autentica vida boa (em seu lugar trata-se de perseguir as classes perigosas como uma enorme imposi\u00e7\u00e3o mediante o aparelhamento das pol\u00edcias com armamentos cada vez mais caros).<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"RWOGwi8RMz\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/e-se-as-maquinas-pudessem-nos-libertar\/\">E se as m\u00e1quinas pudessem nos libertar?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;E se as m\u00e1quinas pudessem nos libertar?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/e-se-as-maquinas-pudessem-nos-libertar\/embed\/#?secret=43mdRY4Yio#?secret=RWOGwi8RMz\" data-secret=\"RWOGwi8RMz\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Neder &#8211;\u00a0Desde Arist\u00f3teles, persiste o sonho de que a tecnologia erradicar\u00e1 a escravid\u00e3o. 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