{"id":13221,"date":"2020-05-26T09:18:32","date_gmt":"2020-05-26T12:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13221"},"modified":"2020-05-23T17:21:05","modified_gmt":"2020-05-23T20:21:05","slug":"coronavirus-e-o-alerta-para-a-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/26\/coronavirus-e-o-alerta-para-a-crise-climatica\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus e o alerta para a crise clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maristella Svampa<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">\u00c9 necess\u00e1rio abandonar o discurso da &#8220;guerra contra o v\u00edrus&#8221; e assumir as causas ambientais da pandemia, juntamente com as sanit\u00e1rias, e coloc\u00e1-las na agenda pol\u00edtica. Isso nos ajudaria na prepara\u00e7\u00e3o para o grande desafio \u00e0 humanidade representado pela crise clim\u00e1tica. Precisamos de um grande pacto ecossocial e econ\u00f4mico.<\/span><\/p>\n<p>Houve muitas pandemias na hist\u00f3ria, come\u00e7ando com a peste negra na Idade M\u00e9dia e passando pelas doen\u00e7as que vieram da Europa e devastaram a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena na Am\u00e9rica durante a conquista. Estima-se que entre trinta e noventa milh\u00f5es de pessoas tenham morrido nos surtos de gripe, sarampo e tifo. Mais recentemente, evoca-se a gripe espanhola (1918-1019), a gripe asi\u00e1tica (1957), a gripe de Hong Kong (1968), a aids (a partir da d\u00e9cada de 1980), a gripe su\u00edna AH1N1 (2009), SARS (2002), Ebola (2014), MERS (coronav\u00edrus 2015) e, agora, a Covid-19.<\/p>\n<p>No entanto, nunca vivemos em um estado de quarentena global, nunca pensamos que a instala\u00e7\u00e3o de um Estado de exce\u00e7\u00e3o transit\u00f3rio, um Leviat\u00e3 sanit\u00e1rio, pelos Estados nacionais, seria t\u00e3o r\u00e1pida. Atualmente, quase um ter\u00e7o da humanidade est\u00e1 em confinamento obrigat\u00f3rio. Por um lado, as fronteiras externas s\u00e3o fechadas, os controles internos s\u00e3o instalados, o paradigma de seguran\u00e7a e controle \u00e9 expandido, s\u00e3o necess\u00e1rios isolamento e distanciamento social. Por outro lado, aqueles que at\u00e9 ontem defendiam as pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o do Estado mudam o discurso devido \u00e0 necess\u00e1ria interven\u00e7\u00e3o estatal: os programas de austeridade que atingem a sa\u00fade p\u00fablica, mesmo em pa\u00edses do Norte global, passam a ser amaldi\u00e7oados.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil pensar que o mundo antes da grande pandemia era um mundo \u201cs\u00f3lido\u201d, em termos de sistema econ\u00f4mico e social. O coronav\u00edrus nos lan\u00e7a na arena em que os grandes debates da sociedade s\u00e3o importantes acima de tudo: como pensar sobre a sociedade a partir de agora?, como sair da crise?, que Estado precisamos para isso? Em resumo, trata-se de pensar o futuro da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 beira do colapso sist\u00eamico.<\/p>\n<p>Neste artigo, gostaria de contribuir para esses grandes debates, com uma reflex\u00e3o que prop\u00f5e avan\u00e7ar precariamente em algumas li\u00e7\u00f5es que a grande pandemia nos oferece e esbo\u00e7ar algumas hip\u00f3teses sobre o poss\u00edvel cen\u00e1rio futuro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/as-fronteiras-do-neoextrativismo-na-america-latina\/\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16387 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-300x300.png?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-300x300.png 300w, https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-100x100.png 100w, https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-600x600.png 600w, https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-150x150.png 150w, https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3-768x768.png 768w, https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Fronteirasdoneoextrat_capa_3.png 1000w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>O retorno do Estado e suas ambival\u00eancias:<br \/>\no\u00a0Leviat\u00e3\u00a0sanit\u00e1rio\u00a0e suas duas faces<\/em><\/p>\n<p>Reformulando a ideia do Leviat\u00e3 clim\u00e1tico de Geoff Mann e Joel Wainwright, podemos dizer que estamos enfrentando o surgimento de um Leviat\u00e3 sanit\u00e1rio transit\u00f3rio que tem duas faces. Por um lado, parece haver um retorno do Estado social. Assim, as medidas que est\u00e3o sendo aplicadas no mundo implicam uma interven\u00e7\u00e3o decidida do Estado, que inclui desde governos com Estados fortes \u2014 Alemanha e Fran\u00e7a \u2014 at\u00e9 governos com uma voca\u00e7\u00e3o liberal marcante, como os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Por exemplo, Angela Merkel anunciou um pacote de medidas sanit\u00e1rias e econ\u00f4micas no valor de 156 bilh\u00f5es de euros, parte do qual serve como fundo de resgate para trabalhadores aut\u00f4nomos e empresas com at\u00e9 dez funcion\u00e1rios; na Espanha, as medidas mobilizar\u00e3o at\u00e9 duzentos bilh\u00f5es de euros, 20% do PIB; na Fran\u00e7a, Emmanuel Macron anunciou uma ajuda no valor de 45 bilh\u00f5es de euros e garantias de empr\u00e9stimos de trezentos bilh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9ria, dada a perda de emprego e os milh\u00f5es de desempregados que essa crise gerar\u00e1, que at\u00e9 os economistas mais liberais est\u00e3o pensando em um segundo New Deal no contexto dessa grande crise sist\u00eamica. A m\u00e9dio e longo prazo, a quest\u00e3o \u00e9 sempre quais setores ser\u00e3o beneficiados por essas pol\u00edticas. Por exemplo, Donald Trump j\u00e1 deu um sinal muito claro: a chamada Lei de Ajuda Econ\u00f4mica, Al\u00edvio e Seguran\u00e7a de Coronav\u00edrus (CARES) \u00e9 um pacote de est\u00edmulo de dois trilh\u00f5es para, entre outros objetivos, resgatar setores sens\u00edveis da economia, incluindo a ind\u00fastria de\u00a0<em>fracking<\/em>, uma das atividades mais poluentes e subsidiadas pelo Estado.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Leviat\u00e3 sanit\u00e1rio \u00e9 acompanhado pelo estado de emerg\u00eancia. Muito j\u00e1 foi escrito sobre isso, n\u00e3o serei repetitiva. Basta dizer que maiores controles sociais s\u00e3o vis\u00edveis em diferentes pa\u00edses na forma de viola\u00e7\u00e3o de direitos, militariza\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios e repress\u00e3o dos setores mais vulner\u00e1veis. De fato, nos pa\u00edses do Sul, e n\u00e3o em uma sociedade de vigil\u00e2ncia digital ao estilo asi\u00e1tico, o que encontramos \u00e9 a expans\u00e3o de um modelo de vigil\u00e2ncia menos sofisticado, realizado pelas diferentes for\u00e7as de seguran\u00e7a, que podem atingir ainda mais os setores mais vulner\u00e1veis, em nome da guerra contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Uma pergunta ressoa o tempo todo: at\u00e9 que ponto os Estados t\u00eam apoio para continuar com essa recupera\u00e7\u00e3o social? Isso \u00e9 algo que veremos nos pr\u00f3ximos meses. Nesse futuro pr\u00f3ximo, as lutas sociais n\u00e3o ser\u00e3o incomuns: haver\u00e1 movimentos populares, mas tamb\u00e9m press\u00f5es de setores econ\u00f4micos mais concentrados. Por outro lado, devemos lembrar que os Estados perif\u00e9ricos possuem muito menos recursos. Nenhum pa\u00eds se salvar\u00e1, independentemente das medidas progressivas que implementar.<\/p>\n<p>Tudo parece indicar que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 global e requer uma reformula\u00e7\u00e3o radical das rela\u00e7\u00f5es Norte-Sul, no quadro do multilateralismo democr\u00e1tico, que visa a cria\u00e7\u00e3o de Estados nacionais nos quais os \u00e2mbitos social, ambiental e econ\u00f4mico aparecem interconectados \u2014 e no centro da agenda.<\/p>\n<p><strong>As c<\/strong><strong>rises como aprend<\/strong><strong>izado para n\u00e3o<\/strong><strong>\u00a0cair em falsas solu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia destaca a extens\u00e3o das desigualdades sociais e a enorme tend\u00eancia de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza existente no planeta. Isso n\u00e3o \u00e9 novidade, mas nos leva a refletir sobre as solu\u00e7\u00f5es que outras crises globais tiveram. Nesse sentido, a crise global que aparece como o antecedente mais recente, ainda que com caracter\u00edsticas diferentes, \u00e9 a de 2008.<\/p>\n<p>Causada pela bolha imobili\u00e1ria nos Estados Unidos, a crise teve uma natureza financeira e foi transferida para outras partes do mundo, convertendo-se em um levante econ\u00f4mico de propor\u00e7\u00f5es globais. Tamb\u00e9m persiste como a pior lembran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de uma crise, cujas consequ\u00eancias ainda estamos enfrentando. Com poucas exce\u00e7\u00f5es, os governos organizaram resgates de grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras, incluindo seus executivos, que ficaram mais ricos do que nunca no final da crise.<\/p>\n<p>Assim, em termos sociais e em escala mundial, a reconfigura\u00e7\u00e3o foi regressiva. Dizem que a economia se recuperou novamente, mas 1% dos mais ricos ficou ainda mais rico e a desigualdade aumentou. Lembre-se da ascens\u00e3o do movimento Occupy Wall Street, em 2011, cujo lema era \u201cSomos os 99%\u201d. Milh\u00f5es de pessoas perderam suas casas em todo o mundo e ficaram superendividadas e desempregadas, os planos de ajuste e o desinvestimento em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o se espalharam por muitos pa\u00edses, algo ilustrado drasticamente pela Gr\u00e9cia, mas que se estende a It\u00e1lia, Espanha e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do F\u00f3rum de Davos, em janeiro de 2020, um relat\u00f3rio da Oxfam afirmou que apenas \u201c2.153 bilion\u00e1rios no mundo t\u00eam mais riqueza do que 4,6 bilh\u00f5es de pessoas (60% da popula\u00e7\u00e3o mundial)\u201d. Em termos pol\u00edticos globais, a crise de 2008 produziu enormes movimentos tect\u00f4nicos, ilustrados pelo surgimento de novos partidos e lideran\u00e7as autorit\u00e1rias em todo o mundo: uma direita reacion\u00e1ria, que inclui desde o Tea Party a Donald Trump, de Jair Bolsonaro a Scott Morrison, de Matteo Salvini a Boris Johnson, entre outros.<\/p>\n<p>Por outro lado, se at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s se considerava que a Am\u00e9rica Latina estava contrariando o processo de radicaliza\u00e7\u00e3o direitista pela qual hoje partes da Europa e dos Estados Unidos estavam passando, com suas consequ\u00eancias em termos de crescentes desigualdades, xenofobia e antiglobalismo, novos ventos ideol\u00f3gicos passaram a varrer a regi\u00e3o nos \u00faltimos tempos, especialmente ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Bolsonaro no Brasil e do golpe na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A isso devemos acrescentar que a Am\u00e9rica Latina, embora tenha sobrevivido, na vig\u00eancia plena do \u201cConsenso das\u00a0<em>Commodities<\/em>\u201c, \u00e0 crise econ\u00f4mica e financeira de 2008, gra\u00e7as ao alto pre\u00e7o das mat\u00e9rias-primas e \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es em larga escala, conseguiu preservar pouco desse per\u00edodo de vacas gordas do neoextrativismo.<\/p>\n<p>Continua sendo a regi\u00e3o mais desigual do mundo (20% da popula\u00e7\u00e3o concentra 83% da riqueza), \u00e9 onde h\u00e1 o maior processo de concentra\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o de terras (gra\u00e7as \u00e0 expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola), al\u00e9m de ser o lugar mais perigoso do mundo para ativistas ambientais e defensores de direitos humanos (60% dos assassinatos de defensores ambientais, cometidos em 2016 e 2017, ocorreram na Am\u00e9rica Latina). Como se n\u00e3o bastasse, \u00e9 a regi\u00e3o mais insegura para as mulheres v\u00edtimas de feminic\u00eddio e viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Assim, a resolu\u00e7\u00e3o da crise de 2008 e seus efeitos negativos s\u00e3o claramente sentidos hoje. Essas sa\u00eddas, que acentuaram a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e o neoliberalismo predat\u00f3rio, devem funcionar como um contraexemplo eficaz e convincente para que optemos por propostas inovadoras e democr\u00e1ticas que visem a igualdade e a solidariedade. Ao mesmo tempo, deveriam nos fazer refletir que as solu\u00e7\u00f5es adotadas pelos pa\u00edses do Sul que durante o \u201cConsenso das\u00a0<em>Commodities<\/em>\u201d evitaram a crise e aproveitaram a extraordin\u00e1ria lucratividade atrav\u00e9s da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, usando as receitas do neo-extrativismo, n\u00e3o funcionaram nem podem se apresentar como a personifica\u00e7\u00e3o de um modelo positivo.<\/p>\n<p><strong>Oculta\u00e7\u00e3o de causas ambientais e hiperpresen\u00e7a do discurso de guerra<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria agora de me debru\u00e7ar um pouco sobre as causas ambientais da pandemia. Hoje lemos em numerosos artigos, corroborados por diferentes estudos cient\u00edficos, que os v\u00edrus que atormentaram a humanidade nos \u00faltimos tempos est\u00e3o diretamente associados \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, desmatamento e tr\u00e1fico de animais silvestres promovidos pelas monoculturas. No entanto, parece que a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria pandemia e as estrat\u00e9gias de controle que est\u00e3o sendo desenvolvidas n\u00e3o incorporaram esse n\u00facleo central em seus discursos. Isso \u00e9 muito preocupante.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m ouviu no discurso de Merkel ou Macron alguma alus\u00e3o ao problema ambiental por tr\u00e1s da Covid-19? Voc\u00ea ouviu o presidente da Argentina, Alberto Fern\u00e1ndez \u2014 que ganhou legitimidade nas \u00faltimas semanas gra\u00e7as \u00e0 forte pol\u00edtica preventiva e seu contato permanente e tomada de decis\u00f5es com um comit\u00ea de especialistas \u2014, falar sobre as causas socioambientais da pandemia?<\/p>\n<p>As causas socioambientais da pandemia mostram que o inimigo n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio v\u00edrus, mas o que o causou. Se existe um inimigo, \u00e9 esse tipo de globaliza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria e a rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre capitalismo e natureza. Embora o tema circule pelas redes sociais e pela m\u00eddia, ele n\u00e3o entra na agenda pol\u00edtica. Essa \u201ccegueira epist\u00eamica\u201d \u2014 seguindo o termo de Horacio Machado Ar\u00e1oz \u2014 tem como oposto a instala\u00e7\u00e3o de um discurso b\u00e9lico sem precedentes.<\/p>\n<p>A prolifera\u00e7\u00e3o de met\u00e1foras b\u00e9licas e a mem\u00f3ria da Segunda Guerra Mundial percorrem os discursos, de Macron e Merkel a Trump e Xi Jinping. Algo que se repete em Alberto Fern\u00e1ndez, que constantemente fala sobre o \u201cinimigo invis\u00edvel\u201d. Na realidade, esse n\u00famero pode promover a coes\u00e3o de uma sociedade contra o medo do cont\u00e1gio e da morte, \u201cengrossando a resist\u00eancia contra o inimigo comum\u201d, mas n\u00e3o ajuda a entender a raiz do problema \u2014 pelo contr\u00e1rio, ajuda a escond\u00ea-la, al\u00e9m de naturalizar e promover o controle social sobre os setores considerados mais problem\u00e1ticos (os pobres, os presos, os que desobedecem o controle social).<\/p>\n<p>O discurso b\u00e9lico, portanto, ataca o sintoma, n\u00e3o as causas, que t\u00eam a ver com o modelo de sociedade estabelecido pelo capitalismo neoliberal, atrav\u00e9s da expans\u00e3o das fronteiras da explora\u00e7\u00e3o e, nesse sentido, pela intensifica\u00e7\u00e3o dos circuitos de interc\u00e2mbio entre humanos e animais silvestres provenientes de ecossistemas devastados.<\/p>\n<p>Por fim, a f\u00f3rmula da guerra est\u00e1 mais associada ao medo do que \u00e0 solidariedade, e levou a uma multiplica\u00e7\u00e3o da vigil\u00e2ncia diante do descumprimento das medidas ditadas pelos governos para impedir o cont\u00e1gio. N\u00e3o s\u00e3o poucas as hist\u00f3rias, na Argentina e em outros pa\u00edses, que mostram a associa\u00e7\u00e3o entre o discurso b\u00e9lico e a figura do \u201d cidad\u00e3o policial\u201d, erguido em vig\u00edlia, pronto para denunciar seu vizinho ao menor deslize durante a quarentena.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio abandonar o discurso b\u00e9lico e assumir as causas ambientais da pandemia, juntamente com as sanit\u00e1rias, e coloc\u00e1-las na agenda p\u00fablica, o que nos ajudaria a nos preparar positivamente para responder ao grande desafio da humanidade: a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Poss\u00edveis horizontes<\/strong><strong>: <\/strong><strong>d<\/strong><strong>o paradigma do cuidado ao grande pacto eco<\/strong><strong>ss<\/strong><strong>ocial e econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p>O ano da grande pandemia nos coloca em uma encruzilhada civilizadora. Diante de novos dilemas pol\u00edticos e \u00e9ticos, permite repensar a crise econ\u00f4mica e clim\u00e1tica sob um novo \u00e2ngulo, tanto em termos de escala m\u00faltipla (global\/nacional\/local) quanto geopol\u00edtico (rela\u00e7\u00e3o Norte\/Sul sob um novo multilateralismo). Poder\u00edamos formular o dilema da seguinte maneira.<\/p>\n<p>Ou estamos caminhando para uma globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal mais autorit\u00e1ria, mais um passo em dire\u00e7\u00e3o ao triunfo do paradigma de seguran\u00e7a e vigil\u00e2ncia digital instalado pelo modelo asi\u00e1tico, t\u00e3o bem descrito pelo fil\u00f3sofo Byung-Chul Han, embora menos sofisticado no caso de nossa sociedades perif\u00e9ricas do Sul global, no quadro de um \u201ccapitalismo do caos\u201d, como afirma o analista boliviano Pablo Sol\u00f3n.<\/p>\n<p>Ou, sem cair em uma vis\u00e3o ing\u00eanua, a crise pode abrir o caminho para a possibilidade de construir uma globaliza\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica, ligada ao paradigma do cuidado, por meio da implementa\u00e7\u00e3o e reconhecimento da solidariedade e interdepend\u00eancia como v\u00ednculos sociais e internacionais; de pol\u00edticas p\u00fablicas orientadas para um \u201cnovo pacto ecossocial e econ\u00f4mico\u201d, que aborda conjuntamente a justi\u00e7a social e ambiental.<\/p>\n<p>As crises, n\u00e3o se deve esquecer, tamb\u00e9m geram processos de \u201cliberta\u00e7\u00e3o cognitiva\u201d, como diz a literatura sobre a\u00e7\u00e3o coletiva \u2014 e, em particular, Doug McAdam \u2014, o que possibilita a transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia dos potenciais afetados; isto \u00e9, torna poss\u00edvel superar o fatalismo ou a ina\u00e7\u00e3o e viabiliza e possibilita o que at\u00e9 recentemente era inimagin\u00e1vel. Isso significa entender que o dado ainda n\u00e3o foi lan\u00e7ado, que existem oportunidades de a\u00e7\u00e3o transformadora no meio do desastre.<\/p>\n<p>O pior que poderia acontecer \u00e9 ficarmos em casa convencidos de que as cartas est\u00e3o marcadas e que isso leva \u00e0 ina\u00e7\u00e3o ou paralisia, pensando que n\u00e3o h\u00e1 sentido em tentar influenciar os processos sociais e pol\u00edticos que est\u00e3o se abrindo, bem como as agendas p\u00fablicas que est\u00e3o sendo instaladas. O pior que poderia acontecer \u00e9 que, como uma sa\u00edda da crise sist\u00eamica produzida pela emerg\u00eancia da sa\u00fade, \u201co desastre dentro do desastre\u201d se aprofunda, como afirma a feminista afro-americana Keeanga-Yamahtta Taylor, recuperando o conceito de \u201ccapitalismo do desastre\u201d de Naomi Klein. Devemos come\u00e7ar com a ideia de que estamos em uma situa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, de crise sist\u00eamica, e que o horizonte civilizat\u00f3rio n\u00e3o est\u00e1 fechado e ainda est\u00e1 em disputa.<\/p>\n<p>Nesse sentido, certas portas devem ser fechadas (por exemplo, n\u00e3o podemos aceitar uma solu\u00e7\u00e3o como a de 2008, que beneficia os setores mais concentrados e poluentes, nem podemos mais tolerar o neoextrativismo), e outras devem ser mais abertas e capacitadas (um Estado que valorize o paradigma do cuidado e da vida), tanto para pensar sa\u00eddas da crise quanto para imaginar outros mundos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Trata-se de propor solu\u00e7\u00f5es para a globaliza\u00e7\u00e3o, que questiona a destrui\u00e7\u00e3o da natureza e dos ecossistemas, que questiona uma ideia de sociedade e la\u00e7os sociais marcados pelo interesse individual, que questiona a mercantiliza\u00e7\u00e3o e a falsa no\u00e7\u00e3o de \u201cautonomia\u201d. Na minha opini\u00e3o, as bases dessa nova linguagem devem ser tanto a instala\u00e7\u00e3o do paradigma do cuidado como uma estrutura sociocognitiva quanto a implementa\u00e7\u00e3o de um grande pacto ecossocial e econ\u00f4mico, em escala nacional e global.<\/p>\n<p>Antes de tudo, e mais do que nunca, trata-se de valorizar o paradigma do cuidado, como t\u00eam insistido o ecofeminismo e os feminismos populares na Am\u00e9rica Latina, bem como na economia feminista; um paradigma relacional que implica o reconhecimento e o respeito do outro, a consci\u00eancia de que a sobreviv\u00eancia \u00e9 um problema que nos preocupa como humanidade e nos envolve como seres sociais. Essas contribui\u00e7\u00f5es podem nos ajudar a repensar os v\u00ednculos entre o humano e o n\u00e3o humano, a questionar a no\u00e7\u00e3o de \u201cautonomia\u201d que gerou nossa concep\u00e7\u00e3o moderna do mundo e da ci\u00eancia, al\u00e9m de colocar no centro no\u00e7\u00f5es como interdepend\u00eancia, reciprocidade e complementaridade.<\/p>\n<p>Isso significa afirmar que as tarefas di\u00e1rias ligadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida e \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o, historicamente negligenciadas no \u00e2mbito do capitalismo patriarcal, s\u00e3o tarefas centrais e, mais ainda, configuram a quest\u00e3o ecol\u00f3gica por excel\u00eancia. Longe da ideia da falsa autonomia \u00e0 qual o individualismo liberal conduz, devemos entender que somos seres interdependentes e abandonar as vis\u00f5es antropoc\u00eantricas e instrumentais para retornar \u00e0 ideia de que somos parte de um todo, com outros, com a natureza. Na perspectiva de uma crise civilizat\u00f3ria, a interdepend\u00eancia \u00e9 cada vez mais compreendida em termos de ecodepend\u00eancia, pois amplia a no\u00e7\u00e3o de cuidado e reciprocidade para com outros seres vivos, para com a natureza.<\/p>\n<p>Nesse contexto de trag\u00e9dia humanit\u00e1ria em escala global, n\u00e3o apenas os cuidados dom\u00e9sticos, mas tamb\u00e9m os sanit\u00e1rios, como base da sustentabilidade da vida, adquirem maior significado. Por um lado, isso implica uma reavalia\u00e7\u00e3o do trabalho do pessoal de sa\u00fade, mulheres e homens, m\u00e9dicos infectologistas, epidemiologistas, intensivistas e cl\u00ednicos gerais, enfermeiros, enfim, todos os profissionais que enfrentam o dia a dia da pandemia, com as restri\u00e7\u00f5es e d\u00e9ficits de cada pa\u00eds, ao mesmo tempo que exige um abandono da l\u00f3gica mercantilista e um redirecionamento dos investimentos estatais nas tarefas de cuidado e assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Por outro lado, as vozes e a experi\u00eancia dos profissionais de sa\u00fade ser\u00e3o cada vez mais necess\u00e1rias para colocar na agenda p\u00fablica a rela\u00e7\u00e3o inextric\u00e1vel que existe entre sa\u00fade e meio ambiente, diante do colapso clim\u00e1tico. N\u00e3o apenas outras pandemias nos esperam, mas a multiplica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as ligadas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o e ao agravamento da crise clim\u00e1tica. Devemos pensar que a medicina, apesar da profunda mercantiliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade que testemunhamos nas \u00faltimas d\u00e9cadas, n\u00e3o perdeu sua dimens\u00e3o social e sanit\u00e1ria, como podemos ver hoje, e que a partir de agora ser\u00e1 diretamente envolvida nos grandes debates da sociedade e, portanto, nas grandes mudan\u00e7as que nos aguardam e nas a\u00e7\u00f5es de controle das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, junto aos setores ambiental, feminista, jovens e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, essa crise poderia muito bem ser a oportunidade de discutir solu\u00e7\u00f5es mais globais, em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas. Alguns dias atr\u00e1s, a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD) prop\u00f4s um novo Plano Marshall que libera 2,5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda a pa\u00edses emergentes, envolvendo perd\u00e3o de d\u00edvidas e um plano de emerg\u00eancia nos servi\u00e7os de sa\u00fade, al\u00e9m de programas sociais. A necessidade de reconstruir a ordem econ\u00f4mica mundial que impulsione o perd\u00e3o da d\u00edvida parece hoje poss\u00edvel. Tamb\u00e9m parece poss\u00edvel promover a renda b\u00e1sica de cidadania, um debate que foi reativado no calor de uma pandemia que destr\u00f3i milh\u00f5es de empregos, al\u00e9m de aprofundar a inseguran\u00e7a no trabalho, por meio de esquemas de trabalho remoto que prolongam a jornada.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio pensar sobre esse novo New Deal, n\u00e3o apenas do ponto de vista econ\u00f4mico e social, mas tamb\u00e9m ecol\u00f3gico. O pior seria legislar contra o meio ambiente para reativar a economia, acentuando a crise ambiental e clim\u00e1tica e as desigualdades Norte\/Sul. Existem v\u00e1rias vozes que destacam a necessidade de um novo acordo verde, como o lan\u00e7ado pela deputada democrata estadunidense Alexandria Ocasio-Cortez em 2019. De Naomi Klein a Jeremy Rifkin, v\u00e1rias vozes abordaram a quest\u00e3o na perspectiva da articula\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a social, justi\u00e7a justi\u00e7a ambiental e justi\u00e7a racial.<\/p>\n<p>No contexto da atual pandemia, houve alguns sinais. Por exemplo, Chris Stark, executivo-chefe do comit\u00ea brit\u00e2nico de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, argumentou que a inje\u00e7\u00e3o de recursos que os governos devem infundir na economia para superar a crise de Covid-19 deve levar em conta os compromissos sobre o mudan\u00e7a clim\u00e1tica, isto \u00e9, o desenho de pol\u00edticas e estrat\u00e9gias que n\u00e3o s\u00e3o apenas econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m um \u201cest\u00edmulo verde\u201d. Nos Estados Unidos, um grupo de economistas, acad\u00eamicos e financiadores reunidos sob o lema do \u201cest\u00edmulo verde\u201d (<em>green stimulus<\/em>) enviou uma carta pedindo ao Congresso que pressionasse ainda mais para garantir que os trabalhadores estivessem protegidos e que as empresas pudessem funcionar maneira sustent\u00e1vel e evitar as cat\u00e1strofes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, especialmente em uma economia marcada pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Com Enrique Viale, em nosso \u00faltimo livro\u00a0<em>Una br\u00fajula en tiempos de crisis clim\u00e1tica<\/em>\u00a0(no prelo), apontamos nessa dire\u00e7\u00e3o e, portanto, propomos pensar em termos de um grande pacto ecossocial e econ\u00f4mico. Sabemos que, em nossas latitudes, o debate sobre o Green New Deal \u00e9 pouco compreendido, por v\u00e1rias raz\u00f5es, desde as urg\u00eancias econ\u00f4micas at\u00e9 a falta de uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o conceito, j\u00e1 que na Am\u00e9rica Latina nunca tivemos um New Deal, nem \u00e9 um Plano Marshall. Na Argentina, o mais pr\u00f3ximo disso foi o Plano Quinquenal do primeiro governo peronista, que tinha um objetivo nacionalista e redistributivo.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 imagin\u00e1rio de reconstru\u00e7\u00e3o vinculado a essas medidas \u2014 tomadas na Europa e nos Estados Unidos. O que existe \u00e9 um imagin\u00e1rio de acordo social, no qual a demanda por repara\u00e7\u00e3o (justi\u00e7a social) continua associada a uma ideia hegem\u00f4nica de crescimento econ\u00f4mico, que hoje pode apelar para um ideal industrializante, mas sempre de m\u00e3os dadas com o modelo exportador extrativista, pela via\u00a0<em>e<\/em><em>ldoradista<\/em>\u00a0do agroneg\u00f3cio e, em menor grau, da minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a desse imagin\u00e1rio extrativista\/desenvolvimentista pouco ajuda a pensar nos caminhos de uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o justa\u201d ou a empreender um debate nacional de maneira global do grande pacto ecossocial e econ\u00f4mico. Pelo contr\u00e1rio, distorce-o e torna-o decididamente perigoso, no contexto de uma crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o haja narrativas emancipat\u00f3rias dispon\u00edveis ou utopias concretas na Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o se deve esquecer que na regi\u00e3o existem novas gram\u00e1ticas pol\u00edticas, emergidas no calor da resist\u00eancia local e dos movimentos ecoterritoriais (rurais e urbanos, ind\u00edgenas, camponeses e multiculturais, as recentes mobiliza\u00e7\u00f5es dos mais jovens pela justi\u00e7a clim\u00e1tica), que prop\u00f5em um novo relacionamento entre os seres humanos, bem como entre a sociedade e a natureza, entre humanos e n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias prefigurativas e antissist\u00eamicas se multiplicam no n\u00edvel local, como a agroecologia, que teve uma grande expans\u00e3o, por exemplo, mesmo em um pa\u00eds t\u00e3o transg\u00eanico como a Argentina. Esses processos de reterritorializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o acompanhados por uma narrativa pol\u00edtico-ambiental, associada ao Bem Viver, ao p\u00f3s-desenvolvimento, ao p\u00f3s-extrativismo, aos direitos da natureza, aos comuns, \u00e0 \u00e9tica do cuidado e \u00e0 justa transi\u00e7\u00e3o socioecol\u00f3gica, cujos pontos-chave s\u00e3o a defesa do comum e a recria\u00e7\u00e3o de outro v\u00ednculo com a natureza.<\/p>\n<p>Trata-se de construir uma verdadeira agenda nacional e global, com uma s\u00e9rie de pol\u00edticas p\u00fablicas orientadas a uma transi\u00e7\u00e3o justa. Isso sem d\u00favida requer n\u00e3o apenas um aprofundamento no debate sobre essas quest\u00f5es, mas tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo Norte\/Sul com aqueles que pensam em um Green New Deal baseado em uma nova redefini\u00e7\u00e3o do multilateralismo em termos de solidariedade e igualdade.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m est\u00e1 dizendo que ser\u00e1 f\u00e1cil, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Precisamos nos reconciliar com a natureza, reconstruir com ela e conosco um v\u00ednculo de vida e n\u00e3o destrui\u00e7\u00e3o. O debate e a instala\u00e7\u00e3o de uma agenda de transi\u00e7\u00e3o justa podem se tornar uma bandeira para combater n\u00e3o apenas o pensamento liberal dominante, mas tamb\u00e9m a narrativa de colapso e distopia que prevalece em certos partidos de esquerda e a persistente cegueira epist\u00eamica de tantos progressismos desenvolvimentistas.<\/p>\n<p>A pandemia de coronav\u00edrus e a imin\u00eancia do colapso abrem um processo de libera\u00e7\u00e3o cognitiva, atrav\u00e9s do qual n\u00e3o apenas a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode ser ativada ap\u00f3s a necessidade de sobreviv\u00eancia e de cuidado com a vida, mas tamb\u00e9m pelo despertar \u00e0 interseccionalidade entre lutas novas e antigas (sociais, \u00e9tnicas, feministas e ecologistas). Isso pode nos levar \u00e0s portas de um pensamento hol\u00edstico, abrangente e transformador, at\u00e9 agora negado.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"oDUn9ybT8e\"><p><a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/reflexoes-para-um-mundo-pos-coronavirus\/\">Coronav\u00edrus e o alerta para a crise clim\u00e1tica<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Coronav\u00edrus e o alerta para a crise clim\u00e1tica&#8221; &#8212; Editora Elefante\" src=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/reflexoes-para-um-mundo-pos-coronavirus\/embed\/#?secret=vpFnjA5IAi#?secret=oDUn9ybT8e\" data-secret=\"oDUn9ybT8e\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maristella Svampa &#8211;\u00a0\u00c9 necess\u00e1rio abandonar o discurso da &#8220;guerra contra o v\u00edrus&#8221; e assumir as causas ambientais da pandemia, juntamente com as sanit\u00e1rias, e coloc\u00e1-las na agenda pol\u00edtica. 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