{"id":13063,"date":"2020-05-18T10:22:42","date_gmt":"2020-05-18T13:22:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=13063"},"modified":"2020-05-16T10:25:03","modified_gmt":"2020-05-16T13:25:03","slug":"quando-a-economia-se-torna-o-berro-agonizante-dos-eugenistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/18\/quando-a-economia-se-torna-o-berro-agonizante-dos-eugenistas\/","title":{"rendered":"Quando a economia se torna o berro agonizante dos eugenistas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juan Dominguez e Rafael Zen &#8211; <\/strong>Em entrevista, a fil\u00f3sofa estadunidense Judith Butler afirma que vivemos um tempo de cuidado ao outro, ideal para elaborarmos redes de apoio, e que o afeto \u00e9 um dos desafios do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cCorpos em Alian\u00e7a e a Pol\u00edtica das Ruas\u201d de 2015, a fil\u00f3sofa estadunidense Judith Butler afirma que as discuss\u00f5es acerca da express\u00e3o \u201cn\u00f3s, o povo\u201d deveriam compreender a complexidade cultural e ideol\u00f3gica do tecido social que comp\u00f5e uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na publica\u00e7\u00e3o ela faz apontamentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da precariedade populacional \u2013 quando corpos em situa\u00e7\u00f5es interseccionais entre g\u00eanero, ra\u00e7a e classe vivenciam o aumento da sensa\u00e7\u00e3o de serem descart\u00e1veis. Butler debate que a divis\u00e3o dessa sensa\u00e7\u00e3o de precariedade n\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda de maneira igualit\u00e1ria dentro de nossas sociedades. Alguns corpos nitidamente parecem valer mais do que outros aos olhos da \u00f3tica neoliberal.<\/p>\n<p>Voltando-se para manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o livro defende a aglomera\u00e7\u00e3o de corpos nas ruas como um grito democr\u00e1tico onde \u201cn\u00f3s, o povo\u201d ganhamos forma para a reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas n\u00e3o-violentas, por\u00e9m performativas.<\/p>\n<p>Em fevereiro deste ano, em meio \u00e0 crise pand\u00eamica, Butler lan\u00e7ou sua \u00faltima produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, \u201cA For\u00e7a da N\u00e3o-Viol\u00eancia\u201d, na qual imagina um novo m\u00e9todo para o conv\u00edvio social, que chama de \u201cigualdade radical\u201d, onde nenhuma vida possa valer mais do que outra.<\/p>\n<p>Butler \u00e9 uma fil\u00f3sofa p\u00f3s-estruturalista, uma das principais te\u00f3ricas da quest\u00e3o contempor\u00e2nea do feminismo, teoria queer, filosofia pol\u00edtica e \u00e9tica. Ela \u00e9 professora do departamento de ret\u00f3rica e literatura comparada da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley. Desde 2006, Butler tamb\u00e9m \u00e9 professora de Filosofia no European Graduate School (EGS), na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"300\" width=\"300\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/JUDITH02-300x300.jpg?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em>Judith Butler \u2013 Arte de Luciana Siebert<\/em><\/p>\n<p><b>Seu livro mais recente, A For\u00e7a da N\u00e3o-Viol\u00eancia (2020), traz o conceito de interdepend\u00eancia como a base da igualdade social e pol\u00edtica. Ou seja, temos obriga\u00e7\u00f5es com o outro independente da forma como esse outro se apresente. O livro evoca fantasmas culturais, tradi\u00e7\u00f5es que justificariam existir uma hierarquia de pr\u00e1ticas violentas exercidas contra vidas marginais. Voc\u00ea j\u00e1 escrevia sobre vidas marginalizadas em \u201cCorpos em Alian\u00e7a e a Pol\u00edtica das Ruas\u201d (2015), no qual manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas asseguravam a import\u00e2ncia de que corpos se reunissem nas ruas para protestar em favor de seus direitos, colocando o discurso pol\u00edtico em a\u00e7\u00e3o. Agora, quando todos esses corpos s\u00e3o for\u00e7ados a ficarem em casa, seria o momento ideal para repensarmos pr\u00e1ticas n\u00e3o-violentas de comunica\u00e7\u00e3o nas plataformas digitais?<\/b><\/p>\n<p><b>Judith Butler<\/b>\u00a0Poder\u00edamos analisar pr\u00e1ticas como o\u00a0<i>doxxing<\/i>\u00a0(pesquisar e transmitir dados privados sobre um indiv\u00edduo ou organiza\u00e7\u00e3o) e o\u00a0<i>trolling<\/i>\u00a0(atrapalhar o discurso racional para desestabilizar o racioc\u00ednio l\u00f3gico, muitas vezes atrav\u00e9s de\u00a0<i>cyberbullying<\/i>), afetam, especialmente, as mulheres e outras minorias nesse momento. Por\u00e9m, me pergunto se n\u00e3o seria mais importante considerarmos como as pol\u00edticas sociais s\u00e3o armadas e aplicadas de maneira a se configurar como a morte das popula\u00e7\u00f5es marginalizadas, especialmente, das comunidades ind\u00edgenas e das popula\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias, tamb\u00e9m daqueles que, como resultado de pol\u00edticas p\u00fablicas racistas, nunca tiveram um tratamento de sa\u00fade adequado. Afinal, a taxa de mortes nos Estados Unidos neste momento est\u00e1 diretamente correlacionada \u00e0 pobreza e priva\u00e7\u00e3o de direitos das popula\u00e7\u00f5es negras. Quando nos referimos \u00e0queles com \u201ccomplica\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias de sa\u00fade\u201d estamos geralmente nos referindo \u00e0queles que nunca tiveram a assist\u00eancia e diagn\u00f3stico que precisaram e certamente mereciam. E esse \u00e9 apenas um dos efeitos m\u00f3rbidos do capitalismo de mercado. N\u00f3s dever\u00edamos usar esse momento para pensar em pr\u00e1ticas universais de sistemas de sa\u00fade e sua rela\u00e7\u00e3o com um socialismo global que esclare\u00e7a o jeito como somos todos interdependentes.<\/p>\n<p><b>Pensando sobre manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e vidas prec\u00e1rias, esses novos tempos nos mostraram que para alguns corpos \u00e9 permitido o home-office e a quarentena, enquanto outros corpos precisam continuar a trabalhar para que todos possam tomar seus caf\u00e9s rec\u00e9m passados e comerem bagels. Outros corpos foram desligados de suas empresas imediatamente para que a economia n\u00e3o quebre \u2013 qualquer coisa menos a economia. Voltemos ent\u00e3o a uma pergunta que parece importante ao longo do seu trabalho: quando atingimos esses momentos de pico, quais humanos contam como humanos?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0 Temos que deixar bem claro que todos os humanos possuem igual valor. E ainda assim a maioria de nossas ideias sobre o que \u00e9 ser humano implica em estruturas radicalmente desiguais porque algumas pessoas tornam-se mais \u201chumanas\u201d ou \u201cvaliosas\u201d aos olhos do mercado e do Estado. N\u00f3s ainda n\u00e3o sabemos como seria o humano se nos imagin\u00e1ssemos todos possuindo o mesmo valor. Essa seria uma nova imagem de humano, uma nova ideia e horizonte. Quando ouvimos falar sobre a \u201csa\u00fade\u201d da economia sendo mais importante do que a \u201csa\u00fade\u201d dos trabalhadores, dos idosos e dos mais pobres, somos convidados a desvalorizar o humano para que a economia reine acima dele. Agora se \u201csa\u00fade econ\u00f4mica\u201d significa expor o trabalhador \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 morte, ent\u00e3o nos voltamos \u00e0 produtividade e ao lucro, n\u00e3o \u00e0 \u201ceconomia\u201d. A brutalidade do capitalismo se apresenta \u00e0s claras, sem nenhum pudor: o empregado deve ir trabalhar para conseguir viver, por\u00e9m o local de trabalho \u00e9 onde sua vida \u00e9 colocada em risco. Marx j\u00e1 dizia isso na metade do s\u00e9culo XIX e assustadoramente esse pensamento ainda se aplica \u00e0 nossa realidade.<\/p>\n<p><b>Em fevereiro, voc\u00ea disse ao jornal\u00a0<\/b><b><i>New Yorker<\/i><\/b><b>\u00a0que \u201ca maior parte das pessoas educadas dentro das tradi\u00e7\u00f5es do individualismo liberal realmente se percebem como criaturas radicalmente separadas uns dos outros\u201d. Aqui estamos, tr\u00eas meses depois, completamente \u00e0s cegas sobre esse novo momento ou novo mundo que as pessoas parecem idealizar. N\u00e3o podemos negar que h\u00e1 um burburinho otimista sobre igualdade de classe, a queda do neoliberalismo ou at\u00e9 uma nova consci\u00eancia para as massas \u2013 isso est\u00e1 por toda a m\u00eddia. Esse choque ser\u00e1 suficiente para ultrapassar as barreiras de nosso individualismo? Ele \u00e9 um sentimento verdadeiro ou apenas um sintoma de nossa dorm\u00eancia coletiva?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0 Talvez ainda n\u00e3o tenhamos nos decidido entre ficar chocados pela compreens\u00e3o de que existe uma interdepend\u00eancia global como um fato inerente \u00e0 nossa exist\u00eancia no planeta ou se seremos puxados de volta ao relato de nossas fronteiras e identidades, l\u00f3gicas de mercado e individualismo. O que parece claro \u00e9 que essa d\u00favida faz parte do nosso desafio contempor\u00e2neo. Depende de conseguirmos nos enxergar como criaturas porosas, aquelas em constante troca com os ambientes pelos quais transitam, coabitando com todas as outras formas de vida. E mesmo assim as fantasias da autossufici\u00eancia ainda s\u00e3o os resqu\u00edcios de nossa cultura masculina, e as fantasias de autossufici\u00eancia nacional s\u00e3o formas fracas (por\u00e9m atraentes) de ideologia. Faria toda a diferen\u00e7a nos entendermos como seres interpelados (chamados \u00e0 a\u00e7\u00e3o) por um v\u00edrus para conseguirmos nos tornar uma comunidade global, n\u00e3o uma que \u00e9 apenas efeito da globaliza\u00e7\u00e3o. Agora temos a chance de criarmos novas formas de solidariedade baseadas na ideia de que nossa vida \u00e9 uma corrente de rela\u00e7\u00f5es interdependentes. Ambos, indiv\u00edduo e na\u00e7\u00e3o, ter\u00e3o que ser repensados atrav\u00e9s dessa nova \u00f3tica.<\/p>\n<p><b>Esse momento tamb\u00e9m parece ser prop\u00edcio para discutirmos um conceito mais amplo de interseccionalidade. O que ele nos diz a respeito das lacunas entre classe, ra\u00e7a e g\u00eanero?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0A interseccionalidade (categoria te\u00f3rica que focaliza m\u00faltiplos sistemas de opress\u00e3o a um mesmo sujeito, em particular, articulando ra\u00e7a, g\u00eanero e classe) permite que enxerguemos quem \u00e9 desproporcionalmente afetado pelo v\u00edrus, aqueles desproporcionalmente desprotegidos e expostos. Isso porque aqueles cuja morte \u00e9 mais prov\u00e1vel tendem a ser pobres, ind\u00edgenas, pessoas de ra\u00e7as marginalizadas, aqueles que n\u00e3o possuem o privil\u00e9gio de ter seguro de sa\u00fade. Mulheres que antes j\u00e1 eram impedidas de desempenhar certas fun\u00e7\u00f5es, que aceitam o trabalho dom\u00e9stico sem sal\u00e1rio, que sofrem abuso em suas casas \u2013 todas essas comunidades est\u00e3o em grande perigo. Deste modo, o que a interseccionalidade nos permite ver \u00e9 que uma amea\u00e7a de doen\u00e7a e morte aumenta em popula\u00e7\u00f5es que acumulam categorias de discrimina\u00e7\u00e3o, aqueles corpos que n\u00e3o podem escolher a qual minoria pertencem por estarem com mesma intensidade na intersec\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias minorias.<\/p>\n<p><b>Na atual situa\u00e7\u00e3o, a maneira como pessoas se encontram \u00e9 dentro de suas casas por meio do uso de tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o Como a articula\u00e7\u00e3o individual e coletiva para a disputa pol\u00edtica e identit\u00e1ria se comporta nesse cen\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0 As pessoas est\u00e3o mais interessadas do que nunca naquilo que est\u00e1 sendo escrito e postado, ent\u00e3o estamos conectados como escritores e leitores no momento, e o trabalho art\u00edstico que antes era reservado aos espa\u00e7os culturais de repente torna-se acess\u00edvel a diversos p\u00fablicos. Talvez esse seja um momento de reflex\u00e3o. Todo movimento social precisa de tempo para pensar onde esteve e para onde deveria caminhar. Esse \u00e9 tamb\u00e9m um tempo de cuidado, o cuidado do indiv\u00edduo para outro indiv\u00edduo, mas tamb\u00e9m de elaborarmos redes de cuidado que envolvam pessoas ajudando aqueles que precisam de aux\u00edlio m\u00e9dico, comida, abrigo, representa\u00e7\u00e3o legal. Nenhuma dessas necessidades foi coletivamente satisfeita, e todos esses desafios ainda s\u00e3o necess\u00e1rios nas condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Percebo que as pessoas ainda se re\u00fanem em grandes grupos pela internet, e que ainda continuamos formando grupos de ajuda ao pr\u00f3ximo, planejando greves coletivas de aluguel, greves de mensalidades de universidades que realmente resultam em a\u00e7\u00f5es efetivas. Manifesta\u00e7\u00f5es sempre dependeram de conex\u00f5es que se formavam fora das ruas. Ou melhor, manifesta\u00e7\u00f5es acontecem quando pessoas incorporam suas reivindica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podemos simplesmente desarticular o corpo e a rede.<\/p>\n<p><b>Nesse momento, o neofascismo que elegeu Trump e Bolsonaro protesta pelo fim do isolamento social, mesmo sabendo da experi\u00eancia de pa\u00edses como os Estados Unidos, que nos mostra qu\u00e3o letal pode ser a pandemia. Como podemos negar que existe uma vontade de exterminar corpos marginais usando o v\u00edrus como gatilho?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0 Pensando como ambos, Trump e Bolsonaro, s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 abertura da economia mesmo que isso signifique o aumento de mortes de popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, entendemos que esses l\u00edderes pol\u00edticos percebem que essas \u201ccomunidades vulner\u00e1veis\u201d s\u00e3o mais propensas a sofrerem as consequ\u00eancias do colapso da sa\u00fade, e n\u00e3o veem problema algum nisso. Eles n\u00e3o imaginam que seus oper\u00e1rios mais jovens e produtivos morrer\u00e3o. Mas muitos deles podem contrair o v\u00edrus e se tornarem focos de transmiss\u00e3o quando voltam para suas casas. Pode ser que eles n\u00e3o compreendam a seriedade da situa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser o caso de estarem dispostos a deixarem corpos morrerem em favor da economia. Bolsonaro parece acreditar no darwinismo social onde apenas os mais fortes sobreviver\u00e3o, e que apenas os fortes merecem sobreviver. Ele at\u00e9 se imagina imune ao v\u00edrus \u2013 sua \u00faltima forma de fantasia narcisista. O narcisismo de Trump difere do de Bolsonaro, pois seu \u00fanico feito \u00e9 contabilizar votos em sua mente. E ele n\u00e3o vencer\u00e1 a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o se a economia estiver fraca. \u201c\u00c9 a economia!\u201d se torna agora o grito agonizante dos novos eugenistas.<\/p>\n<p><b>Como a posi\u00e7\u00e3o da extrema direita de pedir o retorno ao trabalho, negligenciando a participa\u00e7\u00e3o do estado durante a crise, pode ser ligada \u00e0 ideia de uma identidade, ou at\u00e9 mesmo de uma divis\u00e3o entre masculinidade e feminilidade? \u00c9 poss\u00edvel pensar que o neoliberalismo ainda desdobra-se em rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero estruturais?<\/b><\/p>\n<p><b>JB:<\/b>\u00a0 N\u00e3o me vejo como uma te\u00f3rica do neoliberalismo e tenho consci\u00eancia da complexidade desse debate. Eu diria que neste momento h\u00e1 uma estrutura econ\u00f4mica em que n\u00fameros crescentes de pessoas est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es lim\u00edtrofes de vida, expostos \u00e0 morte, acumulando precariedades. Tamb\u00e9m h\u00e1 poucas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias que acumulam riquezas, superando o poder econ\u00f4mico da maior parte dos pa\u00edses. N\u00f3s deixamos que essa desigualdade econ\u00f4mica ganhasse forma e agora estamos vendo atrav\u00e9s de gr\u00e1ficos o qu\u00e3o facilmente a vida dos mais vulner\u00e1veis \u00e9 abandonada e destru\u00edda. Minha aposta \u00e9 de que as vers\u00f5es inalter\u00e1veis de masculinidade e feminilidade ser\u00e3o reencenadas dentro de novas formas no liberalismo, mas que o neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir novas formas de g\u00eanero radicalmente diferentes. Ao pedir que pessoas fiquem em casa, os governantes presumem que as casas possuem uma estrutura de cuidado, que a divis\u00e3o de g\u00eanero do trabalho funciona, que mulheres \u2013 mesmo quando ainda empregadas e trabalhando de casa \u2013 tamb\u00e9m assumir\u00e3o os afazeres dom\u00e9sticos e os cuidados com os filhos. Algumas casas n\u00e3o s\u00e3o constitu\u00eddas por fam\u00edlias tradicionais, algumas pessoas vivem sozinhas, outras em abrigos com desconhecidos. E mulheres s\u00e3o profundamente atingidas pela viol\u00eancia de g\u00eanero quando ficam impedidas de procurar ajuda externa. Ent\u00e3o devemos ter em mente que o g\u00eanero est\u00e1 sendo redefinido pelo confinamento, para ent\u00e3o fazermos o poss\u00edvel para manter vivas as correntes de afeto, comunidades, alian\u00e7as queer e solidariedade online at\u00e9 podermos, mais uma vez, demonstrar nossos n\u00fameros nas ruas.<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/quando-a-economia-se-torna-o-berro-agonizante-dos-eugenistas\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juan Dominguez e Rafael Zen &#8211; Em entrevista, a fil\u00f3sofa estadunidense Judith Butler afirma que vivemos um tempo de cuidado ao outro, ideal para elaborarmos redes de apoio, e que o afeto \u00e9 um dos desafios do s\u00e9culo XXI. 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