{"id":12999,"date":"2020-05-10T09:43:00","date_gmt":"2020-05-10T12:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=12999"},"modified":"2020-05-07T15:48:36","modified_gmt":"2020-05-07T18:48:36","slug":"a-visao-futurista-de-um-comunismo-automatizado-de-luxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/10\/a-visao-futurista-de-um-comunismo-automatizado-de-luxo\/","title":{"rendered":"A vis\u00e3o futurista de um &#8216;Comunismo Automatizado de Luxo&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lidia Zuin<\/strong> &#8211; A chamada &#8220;economia p\u00f3s-escassez&#8221; \u00e9 um cen\u00e1rio hipot\u00e9tico da teoria econ\u00f4mica em que h\u00e1 abund\u00e2ncia de recursos sendo produzidos por uma quantidade m\u00ednima de m\u00e3o de obra humana, o que possibilita sua comercializa\u00e7\u00e3o a pre\u00e7os baixos ou, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a disponibiliza\u00e7\u00e3o gratuita.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o especulativa teve seus primeiros esbo\u00e7os feitos por Karl Marx, em um trecho de seu livro &#8220;Grundrisse&#8221; (1858)\u00a0intitulado &#8220;Fragmento das M\u00e1quinas&#8221;, em que fala sobre a transi\u00e7\u00e3o\u00a0para uma sociedade p\u00f3s-capitalista na qual os avan\u00e7os na automa\u00e7\u00e3o possibilitariam esse cen\u00e1rio de redu\u00e7\u00e3o de trabalho humano, abund\u00e2ncia de recursos e maior tempo livre para o lazer e para os estudos.<\/p>\n<p>Esse discurso talvez n\u00e3o pare\u00e7a novidade \u00e0queles que v\u00eam acompanhando conte\u00fados produzidos por futuristas como o americano Peter Diamandis, um dos fundadores da Singularity University. Co-autor do livro &#8220;Abund\u00e2ncia&#8221;, Diamandis afirma que a humanidade est\u00e1 entrando em um per\u00edodo de transforma\u00e7\u00e3o radical, no qual a tecnologia carrega o potencial de elevar os padr\u00f5es de vida b\u00e1sicos de todas as pessoas no planeta. Eles cravam que essa cena\u00a0aconteceria\u00a0por volta de 2040, quando servi\u00e7os outrora restritos \u00e0 minoria rica ser\u00e3o disponibilizados a todos que precisarem e desejarem.<\/p>\n<p>Em tempos de Covid-19, crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica, fica dif\u00edcil acreditar em tal desdobramento para nosso futuro interrompido por uma pandemia. Mas, para futuristas como Diamandis, mais do que exercitar o otimismo \u00e9 preciso ver como, apesar de tudo, o mundo industrializado nunca esteve t\u00e3o seguro e nunca vivemos por tantos anos.\u00a0A expectativa de vida das pessoas, em 2000, j\u00e1 era 60% maior do que em 1900\u00a0e,\u00a0al\u00e9m disso, cada vez mais somos surpreendidos por inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que prometem revolucionar todos os aspectos de nossas vidas: da penicilina \u00e0s chamadas tecnologias exponenciais, assim intituladas devido \u00e0 exponencialidade de seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Tecnologias como a realidade virtual, blockchain, intelig\u00eancia artificial, fontes de energia sustent\u00e1vel, internet das coisas, big data, rob\u00f3tica, bioengenharia ou mesmo a minera\u00e7\u00e3o espacial\u00a0prometem mudar o mundo e nos levar a uma poss\u00edvel Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ou Terceira Disrup\u00e7\u00e3o, como nomeia Aaron Bastani, autor do livro &#8220;Fully Automated Luxury Communism&#8221;, de 2019.<\/p>\n<p>Apesar de o t\u00edtulo lembrar algum meme ou uma p\u00e1gina de humor ir\u00f4nico no Facebook, o termo traduzido como &#8220;Comunismo Automatizado de Luxo&#8221; e encurtado a partir da sigla FALC, em ingl\u00eas, traz em si a ideia de uma futura economia que supera a l\u00f3gica da escassez, tanto no sentido da disponibilidade de recursos quanto da cria\u00e7\u00e3o artificial de escassez na l\u00f3gica de mercado capitalista. Bastani usa as quase 300 p\u00e1ginas do livro para dar contexto e pondera\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta que, de fato, suscita d\u00favida e ceticismo. Apesar de ser visto como um\u00a0pensador ut\u00f3pico,\u00a0Bastani procura manter suas proposi\u00e7\u00f5es\u00a0as mais objetivas e racionais poss\u00edveis. Para isso, boa parte da obra se dedica a elencar exemplos de tecnologias e empresas que est\u00e3o trabalhando em ferramentas e produtos que possibilitem a automa\u00e7\u00e3o e a conquista de um futuro p\u00f3s-escassez.<\/p>\n<p>https:\/\/twitter.com\/OdeCarvalho\/status\/922079716127006721<\/p>\n<p>Antes de iniciar um longo relat\u00f3rio tecnol\u00f3gico, Bastani primeiro faz a provoca\u00e7\u00e3o sobre como o senso comum tende a pensar que o capitalismo \u00e9 inevit\u00e1vel e insubstitu\u00edvel. Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 ouviu algu\u00e9m dizer algo parecido com esse tu\u00edte de Olavo de Carvalho, mas o que o autor brit\u00e2nico procura defender \u00e9 que esse \u00e9 s\u00f3 mais um sintoma do que Mark Fisher chama de realismo capitalista, resumido na sugest\u00e3o de que &#8220;\u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo&#8221;. Em outras palavras, a percep\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de que o capitalismo n\u00e3o apenas \u00e9 o \u00fanico sistema econ\u00f4mico vi\u00e1vel, como tamb\u00e9m \u00e9 &#8220;imposs\u00edvel de se imaginar uma alternativa coerente&#8221;, afinal, como escreve Bastani, &#8220;como contribuir com uma alternativa \u00e0 pr\u00f3pria realidade?&#8221;. J\u00e1 nas palavras\u00a0do fil\u00f3sofo franc\u00eas Alain Badiou, citado por Bastani,<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00f3s vivemos em uma contradi\u00e7\u00e3o \u2026 na qual toda exist\u00eancia \u2026 nos \u00e9 apresentada como ideal. Para justificar o conservadorismo, os partid\u00e1rios da ordem estabelecida n\u00e3o podem realmente chamar (o modelo) de ideal ou maravilhoso. Ent\u00e3o, em vez disso, eles decidiram dizer que todo o resto \u00e9 horr\u00edvel \u2026 nossa democracia n\u00e3o \u00e9 perfeita. Mas \u00e9 melhor que as malditas ditaduras. O capitalismo \u00e9 injusto. Mas n\u00e3o \u00e9 criminoso como o stalinismo. N\u00f3s deixamos milhares de africanos morrerem de Aids, mas n\u00f3s n\u00e3o fazemos declara\u00e7\u00f5es nacionalistas e racistas como Milosevic&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Se, depois de ler essa cita\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pensou em campanha publicit\u00e1ria exibida por representantes\u00a0de comunidades marginalizadas\u00a0e como essas mesmas pessoas n\u00e3o s\u00e3o empregadas pela mesma marca, voc\u00ea entendeu a ideia. No mundo do realismo capitalista, nada nunca muda; por\u00e9m, como diagnostica Bastani, sofremos uma grande crise em 2008 e hoje vislumbramos novamente um sinal de alerta: no Reino Unido, o suic\u00eddio \u00e9 principal causa de morte de homens com menos de\u00a050 anos\u00a0e a depress\u00e3o pode tomar lideran\u00e7a nos gastos em sa\u00fade por volta de 2030. Fora isso, h\u00e1 ainda a crise migrat\u00f3ria na Europa, o Brexit, a ascens\u00e3o da extrema direita e de l\u00edderes opressivos, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e seus negacionistas e, finalmente, a pandemia que j\u00e1 soma mais de 190 mil mortes e a perspectiva de uma nova crise econ\u00f4mica \u2014 que, ali\u00e1s, vai sair muito mais caro\u00a0para alguns.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fully Automated Luxury Communism\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PugN3t2QvWs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Bastani cita Francis Fukuyama em seu livro porque o escritor, no in\u00edcio dos anos 1990, declarou que o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m instaurava o fim da hist\u00f3ria. Contudo,\u00a0Bastani refor\u00e7a n\u00e3o apenas o absurdo dessa constata\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m\u00a0afirma que a ideia apenas provou a\u00a0instaura\u00e7\u00e3o do chamado realismo capitalista. Com o insucesso do socialismo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ficou mais \u00f3bvio que apenas o capitalismo pode funcionar. Mas o que o FALC quer\u00a0argumentar \u00e9 justamente o contr\u00e1rio: \u00e9 poss\u00edvel de se pensar alternativas e essa \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>O\u00a0que estamos prestes a assistir \u00e9 o fim do capitalismo por suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Ali\u00e1s, esta \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597314-zizek-sobre-o-coronavirus-um-golpe-letal-no-capitalismo-para-reinventar-a-sociedade\">a perspectiva que Slavoj Zizek vislumbra<\/a>\u00a0frente \u00e0 crise do novo coronav\u00edrus (apesar de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ideas\/2020-03-22\/o-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanha-segundo-o-filosofo-byung-chul-han.html\">Byung-Chul Han defender justamente o oposto<\/a>). Mesmo que n\u00e3o enfrent\u00e1ssemos essa pandemia, Bastani j\u00e1 diagnosticava que o pr\u00f3prio imperativo do capitalismo \u00e9 a competi\u00e7\u00e3o em se achar sempre a forma mais barata e eficiente de se produzir commodities (mesmo que isso signifique substituir humanos por m\u00e1quinas). Em outras palavras, o pr\u00f3prio modus operandi do capitalismo pode ser respons\u00e1vel por criar aquilo que vai torn\u00e1-lo obsoleto.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar pela crise energ\u00e9tica e sua respectiva escassez de recursos naturais, seus fatores pol\u00edticos e econ\u00f4micos, bem como seus efeitos colaterais no meio ambiente. Bastani, ent\u00e3o, comenta como a eletrifica\u00e7\u00e3o e o uso da energia solar j\u00e1 est\u00e3o sendo consideradas mais relevantes e cada vez mais disseminadas ao redor do mundo. No Reino Unido, por exemplo, h\u00e1 a perspectiva de usar apenas fontes de energia renov\u00e1vel at\u00e9 2040. Na China,\u00a0durante os \u00faltimos cinco anos, grandes cidades t\u00eam feito o\u00a0<a href=\"https:\/\/singularityhub.com\/2019\/04\/22\/chinas-electric-buses-save-more-diesel-than-all-electric-cars-combined\/\">processo de eletrifica\u00e7\u00e3o em seus transportes p\u00fablicos<\/a>\u00a0como uma forma de reduzir o problema da polui\u00e7\u00e3o do ar, mas tamb\u00e9m sonora.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso de outros recursos naturais, mat\u00e9rias-primas como ferro n\u00e3o precisar\u00e3o mais ser extra\u00eddas do nosso planeta. Levando em considera\u00e7\u00e3o a perspectiva de crescimento da popula\u00e7\u00e3o para at\u00e9\u00a09,8 bilh\u00f5es de pessoas at\u00e9 2050, fica imposs\u00edvel de se manter a mesma l\u00f3gica de consumo atual e acreditar que a Terra poder\u00e1 dar conta da demanda.\u00a0Na realidade, um estudo de 2015 j\u00e1 demonstrou que se todos no planeta tivessem os mesmos h\u00e1bitos de consumo dos norte-americanos, seriam necess\u00e1rios quatro planetas Terra para sustentar o mercado em termos de recursos naturais. S\u00f3 que o que Bastani argumenta n\u00e3o tem a ver apenas com uma mudan\u00e7a no consumo ou mesmo uma intensifica\u00e7\u00e3o dos processos de reciclagem e cria\u00e7\u00e3o de produtos biodegrad\u00e1veis, por exemplo. O pesquisador brit\u00e2nico entende que a minera\u00e7\u00e3o espacial \u00e9 o caminho para a aquisi\u00e7\u00e3o de recursos minerais virtualmente infinitos e que, portanto, atingir\u00e3o um custo muito baixo devido \u00e0 sua abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E parece que muitos empres\u00e1rios est\u00e3o de olho nesse setor industrial: Jeff Bezos, fundador da Amazon, por exemplo,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.technologyreview.com\/2019\/06\/26\/134510\/asteroid-mining-bubble-burst-history\/\">j\u00e1 se mostrou interessado no mercado<\/a>. O futurista Peter Diamandis\u00a0\u00e9 um dos fundadores da Planetary Resources, empresa de minera\u00e7\u00e3o de asteroides. No caso da PR, o interesse est\u00e1 especialmente focado nos\u00a0NEAs, ou asteroides mais pr\u00f3ximos\u00a0da Terra. Al\u00e9m da vantagem de proximidade ao planeta, tamb\u00e9m h\u00e1 o fato de que suas riquezas minerais s\u00e3o t\u00e3o grandes que chegam a ultrapassar nossa compreens\u00e3o. Bastani afirma em seu livro\u00a0que uma das estimativas sobre o cintur\u00e3o de asteroides \u00e9 algo como 825 quintilh\u00f5es de toneladas de ferro, com 63kg de n\u00edquel para cada tonelada de ferro, o que possibilitaria a gera\u00e7\u00e3o de uma riqueza capaz de prover US$ 100 bilh\u00f5es para cada pessoa no mundo inteiro.\u00a0Para investigar isso, os japoneses colocaram em \u00f3rbia a sonda Hayabusa2 em junho de 2018. Ela deve voltar \u00e0 Terra em algum momento no fim de\u00a02020.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Asteroid Mining Will Change Everything About Our Future In Space\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ydgrFa3_MCs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Por enquanto, os gastos necess\u00e1rios para a explora\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e implementa\u00e7\u00e3o de um sistema robusto de minera\u00e7\u00e3o espacial ainda s\u00e3o muito altos (tanto que Bastani menciona como mesmo as iniciativas privadas na \u00e1rea aeroespacial ainda assim contam com recursos governamentais). Contudo,\u00a0assim como acontece com qualquer tecnologia (pense no computador e em como ele foi barateado e miniaturizado no celular, ent\u00e3o seguindo a chamada Lei de Moore), haver\u00e1 um momento em que a minera\u00e7\u00e3o espacial ser\u00e1 mais barata ao ponto de as commodities por si s\u00f3 passarem a ter pre\u00e7os t\u00e3o irris\u00f3rios devido \u00e0 pr\u00f3pria abund\u00e2ncia. E isso vale para todas as outras tecnologias exponenciais: a intelig\u00eancia artificial, a rob\u00f3tica, a bioengenharia, tudo ficaria mais barato e acess\u00edvel, bem como mais eficiente. Vale lembrar, tamb\u00e9m, que tudo isso aconteceria\u00a0em um cen\u00e1rio em que as pessoas envelhecem cada vez mais, a taxa de natalidade diminui e alcan\u00e7amos um pico de crescimento populacional que Bastani prev\u00ea por volta do fim deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Claro, parece estranho pensar que chegaremos a um ponto em que a popula\u00e7\u00e3o ir\u00e1 parar de crescer quando se conquistam novas tecnologias que facilitam a vida e quando se tem acesso a recursos virtualmente infinitos. J\u00e1 foi observado durante as revolu\u00e7\u00f5es industriais como as taxas de natalidade aumentaram, as de natalidade diminu\u00edram e a longevidade se estende cada vez mais. Com exce\u00e7\u00e3o de um evento catastr\u00f3fico, como uma guerra ou uma epidemia, fica dif\u00edcil imaginar que desaceleraremos o crescimento populacional. Contudo, para este e outros problemas de solu\u00e7\u00e3o ainda dif\u00edcil de ser vislumbrada,\u00a0Bastani traz como exemplo a grande crise do estrume de cavalo na Londres de 1894.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o crescimento da cidade levou \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de cavalos nas ruas e a concentra\u00e7\u00e3o de dejetos que n\u00e3o conseguiam ser removidos, a ponto que publica\u00e7\u00f5es como o The Times acreditavam que &#8220;em 50 anos, cada rua de Londres estaria coberta por tr\u00eas metros de esterco&#8221;. Essa passagem hist\u00f3rica que transformou os dejetos equinos de recursos a serem vendidos em um problema de limpeza acabou se tornando uma analogia para momentos que parecem insuper\u00e1veis, at\u00e9 que uma nova tecnologia (como foi o caso dos carros, nesse contexto) muda completamente o cen\u00e1rio.\u00a0\u00c9 a\u00ed onde entram as tecnologias exponenciais.<\/p>\n<p>Mas mesmo que Bastani gaste p\u00e1ginas e p\u00e1ginas elencando como a eletrifica\u00e7\u00e3o eliminar\u00e1 os combust\u00edveis f\u00f3sseis da equa\u00e7\u00e3o, como a minera\u00e7\u00e3o espacial trar\u00e1 recursos infinitos e como a biotecnologia pode curar doen\u00e7as e criar carne em laborat\u00f3rio capazes de tornar a pecu\u00e1ria uma ind\u00fastria obsoleta, fica dif\u00edcil acreditar que chegaremos a um ponto em que, de fato, todos ter\u00e3o acesso a isso \u2013 afinal, n\u00e3o \u00e9 isso que o comunismo prop\u00f5e? O autor sabe e, por isso, traz como exemplo o filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8220;Elysium&#8221;, no qual, apesar de existirem tecnologias de ponta, elas s\u00f3 s\u00e3o acess\u00edveis a uma classe mais privilegiada. Isto porque, como o brit\u00e2nico explica, essa sociedade futurista ainda vive sob um regime capitalista, o qual mesmo diante da abund\u00e2ncia cria escassez artificial para manter a concorr\u00eancia e a lucratividade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que por mais que as tecnologias continuem evoluindo, elas nunca ser\u00e3o acessadas por todos se n\u00e3o houver uma mudan\u00e7a pol\u00edtica acima da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Nas palavras de Bastani,<\/p>\n<p>&#8220;\u2026 na aus\u00eancia de uma pol\u00edtica apropriada, isso s\u00f3 ser\u00e1 uma nova forma de gerar lucro. Marx expressou isso perfeitamente quando escreveu que &#8216;a mais avan\u00e7ada m\u00e1quina ent\u00e3o for\u00e7a o trabalhador a trabalhar por mais horas do que um selvagem, ou do que ele pr\u00f3prio trabalhava quando usava as ferramentas mais simples e rudimentares.&#8217; Em resposta a essa admiss\u00e3o, uma afirma\u00e7\u00e3o: qualquer pol\u00edtica de sucesso que procure\u00a0direcionar as possibilidades da Terceira Disrup\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0s necessidades das pessoas em vez da lucratividade deve ser populista. Sen\u00e3o, \u00e9 certo que ir\u00e1 falhar. O realismo capitalista \u00e9 simplesmente muito adapt\u00e1vel para as pol\u00edticas radicais de administra\u00e7\u00e3o e tecnocracia, o que significa que qualquer ruptura precisa ser compreens\u00edvel \u00e0 maioria das pessoas, em uma linguagem capaz de ser rapidamente entendida.&#8221;<\/p>\n<p>Ou seja, o que Bastani argumenta \u00e9 que n\u00e3o adianta manter essas ideias em um n\u00edvel acad\u00eamico e elitista. Quando o autor fala de populismo, ele sugere uma abordagem de ret\u00f3rica pol\u00edtica que seja simples e atraente para que n\u00e3o afaste ou confunda as pessoas. Acontece que, no nosso caso latinoamericano, fica dif\u00edcil ler essa palavra e n\u00e3o trazer em mente as mem\u00f3rias de pol\u00edticos populistas que n\u00e3o se apropriaram de uma comunica\u00e7\u00e3o acess\u00edvel para beneficiar as pessoas, sen\u00e3o para se fazer eleito e ent\u00e3o tomar decis\u00f5es ao seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Fora isso, quando Bastani sugere a implementa\u00e7\u00e3o do comunismo, ele n\u00e3o traz em si a perspectiva do que foi o comunismo no s\u00e9culo 20, mesmo porque o que o mundo vivenciou at\u00e9 ent\u00e3o foi um socialismo ainda definido pela escassez e pela exist\u00eancia de empregos. Na Terceira Disrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 haver\u00e1 abund\u00e2ncia de recursos e riquezas como o trabalho tamb\u00e9m deixar\u00e1 de existir como necessidade \u00e0 sobreviv\u00eancia para se tornar um lazer \u2014 afinal, &#8220;produtividade \u00e9 para rob\u00f4s&#8221;, como j\u00e1 disse o futurista Kevin Kelly. E \u00e9 nesse ponto em que entra o luxo proposto pelo pesquisador.<\/p>\n<div id=\"attachment_412\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/blogs\/270\/files\/2020\/04\/DOM_Architectural_robots.jpeg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>No futuro, rob\u00f4s trabalhar\u00e3o por n\u00f3s para que possamos ter lazer e trabalhar com aquilo que nos d\u00ea prazer, n\u00e3o para sobreviver. \/ Ilustra\u00e7\u00e3o de Andrew Rae.<\/p>\n<\/div>\n<p>Ao se aproximar dos partidos verdes com suas preocupa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente e ao bem estar animal, o FALC tamb\u00e9m se aproxima dos partidos de esquerda at\u00e9 divergir de suas narrativas que glorificam a simplicidade ou at\u00e9 mesmo uma perspectiva id\u00edlica de fuga da cidade e da modernidade. O FALC n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 contra esse chamado de volta \u00e0 natureza como tamb\u00e9m\u00a0os h\u00e1bitos de consumo sob o capitalismo pautado por combust\u00edveis f\u00f3sseis, com sua l\u00f3gica de comuta\u00e7\u00e3o, publicidade onipresente, trabalhos sem sentido e obsolesc\u00eancia programada. Para viver uma boa vida em um cen\u00e1rio de abund\u00e2ncia de recursos, \u00e9 poss\u00edvel que vivamos uma vida parecida com a dos bilion\u00e1rios de hoje, caso quisermos. &#8220;O luxo estar\u00e1 em tudo conforme a sociedade baseada em trabalho assalariado se tornar uma rel\u00edquia hist\u00f3rica do mesmo modo que o campon\u00eas feudal e o cavaleiro medieval&#8221;, escreve Bastani.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, portanto, de emular os costumes niilistas dos bilion\u00e1rios da contemporaneidade, mesmo porque suas pr\u00e1ticas se baseiam, justamente, na l\u00f3gica da escassez. Enviar um carro da Tesla ao espa\u00e7o n\u00e3o faz sentido nenhum sen\u00e3o demonstrar que Elon Musk pode faz\u00ea-lo porque tem dinheiro. Do mesmo modo tamb\u00e9m n\u00e3o significa que o FALC defende discursos de &#8220;consumo \u00e9tico&#8221; ou mesmo a narrativa de que &#8220;o local&#8221; \u00e9 mais virtuoso. Em um cen\u00e1rio no qual tudo \u00e9 acess\u00edvel, barato e poss\u00edvel, narrativas que ainda mant\u00eam contrastes n\u00e3o fazem sentido. E isso s\u00f3 pode ser conquistado n\u00e3o atrav\u00e9s de uma renda b\u00e1sica universal, como muitas vezes ouvimos dizer, mas sim atrav\u00e9s de um sistema b\u00e1sico de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>No Brasil, j\u00e1 desfrutamos de um sistema de sa\u00fade p\u00fablico, bem como institui\u00e7\u00f5es de ensino p\u00fablicas. O que Bastani prop\u00f5e \u00e9 estender isso a todos os pa\u00edses do mundo, tornando educa\u00e7\u00e3o, moradia, transporte, sa\u00fade e informa\u00e7\u00e3o direitos garantidos e gratuitos a todos. Diferente de distribuir uma renda m\u00ednima para as pessoas, a qual poderia gerar infla\u00e7\u00e3o aos governos e manter a l\u00f3gica desses servi\u00e7os como se fossem commodities capazes de terem seus pre\u00e7os manipulados pelo mercado, possibilitar o acesso generalizado e gratuito garante uma maior conquista de bem estar social e de independ\u00eancia dos cidad\u00e3os \u2014 afinal, como escreve Bastani, &#8220;pessoas necessitadas n\u00e3o s\u00e3o pessoas livres e um sistema de servi\u00e7os b\u00e1sicos universais acaba com essa necessidade.&#8221;<\/p>\n<p>Agora, se seu problema est\u00e1 no fato de Bastani se inspirar em Marx ou mesmo propor o comunismo como o sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico a ser seguido com a chegada da Terceira Disrup\u00e7\u00e3o, saiba que tamb\u00e9m os economistas Keynes e Drucker pensaram algo semelhante, uma sociedade na qual a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pode nos levar \u00e0 abund\u00e2ncia e na qual a informa\u00e7\u00e3o se tornaria a nova moeda. Contudo, o capitalismo n\u00e3o tem como funcionar nesse cen\u00e1rio de automa\u00e7\u00e3o e abund\u00e2ncia de recursos. Bastani comenta que os n\u00edveis de automa\u00e7\u00e3o diminu\u00edram nos \u00faltimos anos, o que poderia significar um maior pessimismo para a chegada da Terceira Disrup\u00e7\u00e3o, mas o motivo n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia, mas sim o fato de os sal\u00e1rios estarem cada vez t\u00e3o baixos que substituir trabalhadores por m\u00e1quinas n\u00e3o \u00e9 lucrativo. Fora isso, o autor ainda conta uma anedota na qual Ford teria dito que n\u00e3o poderia automatizar completamente sua linha de montagem ou ent\u00e3o baixar demais os sal\u00e1rios de seus funcion\u00e1rios porque, no fim das contas, eles pr\u00f3prios seriam os compradores dos seus produtos.<\/p>\n<p>Afinal, muitas das tecnologias que prometem vir com a Terceira Disrup\u00e7\u00e3o, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o novas: elas s\u00f3 moveram das &#8220;bordas&#8221; da sociedade para tomarem seu centro (como explora a futurista Amy Webb em seu livro &#8220;Amazon The Signals Are Talking&#8221;). Se elas j\u00e1 estavam entre n\u00f3s e n\u00e3o se desenvolveram t\u00e3o rapidamente quanto poderiam \u00e9 porque o motivo pelo qual vivemos no mundo de hoje n\u00e3o \u00e9 tecnol\u00f3gico, mas pol\u00edtico. O mesmo vale para esse novo mundo ao qual podemos nos dirigir. Para Bastani, de fato, n\u00e3o h\u00e1 nenhum motivo real pelo qual as empresas e os mais ricos desejem liberar as pessoas ou manter os ecossistemas do nosso planeta \u2014 na verdade, faz mais sentido continuar intensificando a desigualdade econ\u00f4mica e o colapso generalizado para que algum novo algoritmo preditivo ou uma startup unic\u00f3rnio venham com a solu\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, a mudan\u00e7a n\u00e3o vir\u00e1 atrav\u00e9s desses, mas sim da pol\u00edtica a ser feita coletivamente.<\/p>\n<p>Apesar de\u00a0promover algo t\u00e3o rompante, Bastani provoca, afirmando que\u00a0&#8220;Fully Automated Luxury Communism&#8221; n\u00e3o \u00e9 um livro sobre o futuro, mas sim sobre um presente que n\u00e3o est\u00e1 vis\u00edvel (ou n\u00e3o quer ser visto) pelas pessoas.\u00a0\u00c9\u00a0uma isca que nos possibilita fugir da caverna de Plat\u00e3o do realismo capitalista e, no m\u00ednimo, questionar se, de fato, faz sentido acreditar que \u00e9 mais f\u00e1cil o mundo acabar do que o capitalismo deixar de existir. Mesmo que n\u00e3o adotemos o FALC, mesmo que sequer adotemos o comunismo, h\u00e1 de haver algo al\u00e9m dos espectros do capitalismo que habitam nossa caverna.<\/p>\n<p>https:\/\/lidiazuin.blogosfera.uol.com.br\/2020\/04\/28\/a-visao-futurista-de-um-comunismo-automatizado-de-luxo\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lidia Zuin &#8211; A chamada &#8220;economia p\u00f3s-escassez&#8221; \u00e9 um cen\u00e1rio hipot\u00e9tico da teoria econ\u00f4mica em que h\u00e1 abund\u00e2ncia de recursos sendo produzidos por uma quantidade m\u00ednima de m\u00e3o de obra humana, o que possibilita sua comercializa\u00e7\u00e3o a pre\u00e7os baixos ou, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a disponibiliza\u00e7\u00e3o gratuita. 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