{"id":12997,"date":"2020-05-09T09:40:48","date_gmt":"2020-05-09T12:40:48","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=12997"},"modified":"2020-05-07T15:42:32","modified_gmt":"2020-05-07T18:42:32","slug":"com-coronavirus-mundo-vive-em-nevoeiro-diz-guilherme-wisnik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/05\/09\/com-coronavirus-mundo-vive-em-nevoeiro-diz-guilherme-wisnik\/","title":{"rendered":"Com coronav\u00edrus, mundo vive em nevoeiro, diz Guilherme Wisnik"},"content":{"rendered":"<p><strong>Guilherme Wisnik<\/strong> &#8211; Ao contr\u00e1rio do que imaginavam os profetas do fim da hist\u00f3ria, o mundo \u00e9 dominado por sentimentos de paranoia e ang\u00fastia.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/03\/internet-e-capital-financeiro-embacaram-o-mundo-diz-guilherme-wisnik.shtml\">Imersos em nevoeiro<\/a>, na era em que\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/02\/brumadinho-evidencia-estado-submisso-a-interesses-de-empresas-diz-autor.shtml\">esgotamos os recursos do planeta<\/a>, fabricamos a pandemia de nossa pr\u00f3pria vulnerabilidade, sem poder culpar um \u2018outro\u2019.<\/p>\n<p>Quando o vulc\u00e3o Eyjafjallajokull \u200bentrou em erup\u00e7\u00e3o, na Isl\u00e2ndia, entre mar\u00e7o e abril de 2010, sua imensa nuvem de cinzas, rapidamente espalhada pelo vento nos c\u00e9us do Atl\u00e2ntico Norte, paralisou os voos entre a Europa e os Estados Unidos por mais de uma semana.<\/p>\n<p>Economistas e analistas pol\u00edticos, na \u00e9poca, avaliaram os preju\u00edzos na casa dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Hoje, exatos dez anos depois, o mundo assiste \u2014em tempo real e impotente\u2014 a\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/03\/coronavirus-anuncia-revolucao-no-modo-de-vida-que-conhecemos.shtml\">expans\u00e3o de um v\u00edrus invis\u00edvel por todo o territ\u00f3rio do planeta<\/a>, n\u00e3o apenas paralisando voos, mas confinando as pessoas em suas casas, produzindo mortes em quantidades crescentes e derrubando as economias num strike global.<\/p>\n<p>Como se sabe, grande parte do exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na Am\u00e9rica, e em outras partes do planeta, se deveu \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/03\/como-epidemias-moldaram-o-brasil-e-legaram-marcas-profundas-a-sociedade.shtml\">falta de resist\u00eancia imunol\u00f3gica<\/a>\u00a0daqueles povos contra as doen\u00e7as que os conquistadores ocidentais traziam, tais como gripes, sarampo e var\u00edola.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 toda a popula\u00e7\u00e3o do mundo, predominantemente urbanizado, e globalmente conectado, que se v\u00ea vulner\u00e1vel a um conjunto de v\u00edrus que at\u00e9 tempos atr\u00e1s seriam apenas zoonoses, mas que se produzem e se alastram vertiginosamente dada a hibrida\u00e7\u00e3o acelerada e irrevers\u00edvel, existente hoje, entre ci\u00eancia e natureza.<\/p>\n<p>Isto \u00e9: animais de corte s\u00e3o criados em condi\u00e7\u00f5es industriais, expostos a medicamentos e altera\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, sendo depois, muitas vezes, vendidos em mercados densamente povoados por outros animais e por pessoas (sobretudo na \u00c1sia), que se tornam hospedeiros para a propaga\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es sui generis dessa era que se convencionou chamar de Antropoceno, em que vamos esgotando os recursos do planeta e aumentando progressivamente a sua temperatura, fabricamos a nossa pr\u00f3pria vulnerabilidade, tornando-nos os predadores de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>No momento em que o mundo se torna de fato uma \u201caldeia global\u201d, parece que caminhamos na dire\u00e7\u00e3o de realizar a profecia ianom\u00e2mi de que o\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/03\/coronavirus-e-fascismo-de-bolsonaro-nos-fazem-esperar-por-nova-era-diz-sidarta.shtml\">c\u00e9u vai cair sobre as nossas cabe\u00e7as<\/a>.<\/p>\n<p>Com o\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/07\/qual-o-poder-de-series-como-chernobyl-diante-da-violencia-do-estado.shtml\">desastre nuclear de Tchern\u00f3bil<\/a>, ocorrido em 1986, escreve o soci\u00f3logo alem\u00e3o Ulrich Beck, chegamos ao fim de uma era em que toda a viol\u00eancia que os seres humanos infligiam aos mesmos humanos era reservada \u00e0 categoria dos \u201coutros\u201d: judeus, negros, mulheres, ind\u00edgenas, refugiados, dissidentes, exclu\u00eddos etc.<\/p>\n<p>O acidente radioativo revelou ao mundo a grande vulnerabilidade e o desamparo de uma sociedade que percebeu j\u00e1 n\u00e3o mais poder se esconder atr\u00e1s de muros e cercas de prote\u00e7\u00e3o, tornando-se ref\u00e9m, por exemplo, da a\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria de ventos ou chuvas desfavor\u00e1veis que espalhassem a radia\u00e7\u00e3o por cima dos agora in\u00fateis bloqueios f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Significativamente, apenas tr\u00eas anos depois cairia o mais simb\u00f3lico de todos os muros, em Berlim, e, com ele, toda a chamada Cortina de Ferro.<\/p>\n<p>Assim, aquele desastre nuclear, que entrou para a hist\u00f3ria como o detonador da derrocada sovi\u00e9tica, \u00e9, na verdade, como mostra Beck, o sintoma de uma nova era do mundo. Uma moderna era do perigo, que suprimiu todas as zonas de prote\u00e7\u00e3o. Uma \u201csociedade de risco\u201d, em suas palavras, que vive sob a constante amea\u00e7a de instabilidades ecol\u00f3gicas, financeiras, militares, terroristas, informacionais e bioqu\u00edmicas (epidemias virais e bacteriol\u00f3gicas).<\/p>\n<p>Na passagem dos anos 1980 para os 1990, o fim da\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/04\/capital-norte-coreana-preserva-experimento-social-do-seculo-20.shtml\">Guerra Fria<\/a>\u00a0coincide com o come\u00e7o do uso extensivo dos computadores pessoais e, logo em seguida, com a propaga\u00e7\u00e3o da internet, numa economia j\u00e1 predominantemente financeira, e que ent\u00e3o se tornava verdadeiramente globalizada, aumentando muito o fluxo de capitais e de pessoas pelo globo.<\/p>\n<p>Tudo isso no mesmo momento em que a Aids se disseminava, estigmatizando comunidades e amea\u00e7ando popula\u00e7\u00f5es (sobretudo na \u00c1frica), e se tomava consci\u00eancia da grave crise energ\u00e9tica do planeta e dos impasses ecol\u00f3gicos da civiliza\u00e7\u00e3o industrial, debatidos na confer\u00eancia Eco-92, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Sob o mantra do chamado \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, tal como batizado por\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/04\/bolsonaro-e-uma-ameaca-a-democracia-diz-francis-fukuyama.shtml\">Francis Fukuyama<\/a>, o bloco capitalista, vitorioso na Guerra Fria, dizia conduzir o mundo para uma era de prosperidade e calmaria, na qual toda a ideia de conflito (base da vis\u00e3o marxista de hist\u00f3ria) teria sido extirpada.<\/p>\n<p>Um mundo \u201cprozac\u201d, na express\u00e3o de T. J. Clark. Mas que, no entanto, apenas uma d\u00e9cada depois, com os ataques de 11 de Setembro de 2001, em Nova York, viria a se revelar uma nova era do choque e do terror.<\/p>\n<p>Um mundo acossado por novas formas de antagonismo baseadas sobretudo em diferen\u00e7as \u00e9tnicas e religiosas, resultando em ataques terroristas rand\u00f4micos pelo mundo. Mas, tamb\u00e9m, assolado por tuf\u00f5es e tsunamis (que, no caso de Fukushima, em 2011, desencadeou um desastre nuclear), al\u00e9m de pandemias virais de efeitos devastadores, como a que vivemos agora.<\/p>\n<p>No breve interregno daquele \u201cmundo prozac\u201d, pensou-se eliminar definitivamente o inimigo, ou a amea\u00e7a, que no imagin\u00e1rio dualizado da Guerra Fria estava localizado no \u201coutro\u201d: no capitalista, para uns, ou no comunista, para outros.<\/p>\n<p>Hoje, contudo, sabemos que a amea\u00e7a est\u00e1 disseminada por toda parte. Ela \u00e9 invis\u00edvel, e de dif\u00edcil detec\u00e7\u00e3o e controle, pois revoltas da natureza podem eclodir em toda parte, e a qualquer momento. O agente terrorista talvez seja o seu vizinho. O mesmo que, eventualmente, pode tamb\u00e9m lhe transmitir a\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/coronavirus\/\">Covid-19<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, ao contr\u00e1rio do que imaginavam os profetas do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, o nosso mundo \u00e9 dominado por sentimentos crescentes de paranoia e de ang\u00fastia. E, na impossibilidade de localizar e de culpar um \u201coutro\u201d, nos vemos obrigados a considerar um \u201cn\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Identificando uma imagem recorrente em muitos dos fen\u00f4menos ic\u00f4nicos do mundo atual, tais como as terr\u00edveis fuma\u00e7as que cobriram Nova York em 2001, as impalp\u00e1veis nuvens digitais nas quais depositamos remotamente todas as nossas informa\u00e7\u00f5es e os enxames de capital financeiro se deslocando pelo planeta, venho usando a met\u00e1fora do nevoeiro para definir o estado de incerteza em que vivemos.<\/p>\n<p>Um mundo ao mesmo tempo tr\u00e1gico e sublime \u2014se tomarmos os exemplos do 11\/9 e das nuvens digitais\u2014, no qual a nossa percep\u00e7\u00e3o das for\u00e7as que comandam as mudan\u00e7as \u00e9, via de regra, emba\u00e7ada ou borrada, pois os fatos s\u00e3o cada vez mais manipulados e distorcidos na forma de fake news e de p\u00f3s-verdades.<\/p>\n<p>Uma vez instalado, o nevoeiro n\u00e3o permite vis\u00f5es de fora. Nele, estamos sempre imersos, sem dist\u00e2ncia perceptiva ou anal\u00edtica, e com dificuldade para enxergar as coisas.<\/p>\n<p>No livro \u201cO Novo Tempo do Mundo\u201d (Boitempo, 2014), Paulo Arantes passa em revista as seguidas mudan\u00e7as hist\u00f3ricas ocorridas nos s\u00e9culos 20 e 21, que vieram a comprimir progressivamente a dist\u00e2ncia entre o espa\u00e7o de experi\u00eancia, como dimens\u00e3o presente, e o horizonte de expectativa, como proje\u00e7\u00e3o futura, nos termos de Reinhart Koselleck.<\/p>\n<p>Hoje, depois do trauma de duas guerras mundiais, da imposi\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica presentista na pol\u00edtica e na economia, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/12\/fundamentalismo-de-mercado-pode-ser-calcanhar-de-aquiles-de-bolsonaro.shtml\">d\u00e9cadas de avan\u00e7o neoliberal<\/a>\u00a0e da irrup\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de amea\u00e7as terroristas, ecol\u00f3gicas e bioqu\u00edmicas, vivemos um regime de urg\u00eancia, uma era de expectativas decrescentes. Da\u00ed o uso de alguns termos comuns hoje, como \u201cguerra\u201d \u00e0s drogas ou ao terror, que normalizam estados de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sociedades antes orientadas para o futuro, tal como no tempo das vanguardas modernas, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, viram seus horizontes de expectativa se turvarem, reduzindo-se drasticamente.<\/p>\n<p>Num mundo em que o globo encolheu, s\u00f3 nos restou o presente comprimido e precarizado. Afinal, a economia financeira se baseia exatamente na venda antecipada do futuro por meio de d\u00edvidas e cr\u00e9ditos. Assim, nessa nossa \u201cmodernidade virulenta\u201d, o futuro foi saqueado em nome do aumento do consumo.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Arantes, \u201ca revolu\u00e7\u00e3o saiu de cena, mas em seu lugar ficou a Emerg\u00eancia, por assim dizer intransitiva e paradoxalmente com uma energia disruptiva redobrada\u201d. Nesse contexto, o paradigma do novo militante \u00e9 o m\u00e9dico sem fronteira, investido de um pathos mais humanit\u00e1rio do que pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Agora, condenados a um horizonte de futuro ainda mais estreito, diante de um presente angustiante que n\u00e3o sabemos at\u00e9 quando durar\u00e1, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar cen\u00e1rios dist\u00f3picos para os pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 a possibilidade de que a pandemia venha a funcionar como o grande algoz daquilo que ainda resta de liberdade no Ocidente \u2014e que seria, ap\u00f3s a crise, levado de rold\u00e3o pelo modelo asi\u00e1tico de vigil\u00e2ncia total, claramente mais bem-sucedido no controle \u00e0 Covid-19.<\/p>\n<p>Pois enquanto as combalidas democracias ocidentais derrapam em suas malogradas tentativas de combate ao v\u00edrus, muitos dos pa\u00edses orientais conseguem resultados espantosamente positivos por meio de agressivas pol\u00edticas de controle social \u2014ainda que os n\u00fameros divulgados pela China possam estar muito maquiados.<\/p>\n<p>Como relata o fil\u00f3sofo coreano Byung-Chul Han, em artigo recente, o sucesso do combate \u00e0 pandemia na \u00c1sia se deve ao uso extensivo do big data e \u00e0 total aus\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o dos dados individuais. Assim, em pa\u00edses como a China, por exemplo, todas as informa\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os s\u00e3o rastreadas digitalmente, o que faz com que as pessoas sejam avaliadas em fun\u00e7\u00e3o de seus comportamentos cotidianos.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, o mesmo sistema que hoje ranqueia os cidad\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o ao risco de contamina\u00e7\u00e3o j\u00e1 avaliava suas condutas sociais, fornecendo dados decisivos para a aprova\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de cr\u00e9ditos banc\u00e1rios ou vistos de viagens, por exemplo.<\/p>\n<p>Vigil\u00e2ncia total, que opera n\u00e3o apenas por meio de c\u00e2meras de reconhecimento facial, mas tamb\u00e9m pelos pr\u00f3prios smartphones pessoais \u2014o governo pode determinar o envio de dados de temperatura corporal por meio dos aparelhos.<\/p>\n<p>Em \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/02\/como-parasita-industria-americana-dos-obama-expoe-fascinio-dos-eua-com-a-asia.shtml\">Ind\u00fastria Americana<\/a>\u201d (2019), dirigido por Julia Reichert e Steven Bognar, vencedor do Oscar de melhor document\u00e1rio, vemos um retrato s\u00f3brio e preocupante do conflito aparentemente inconcili\u00e1vel entre os modelos ocidental e oriental de trabalho.<\/p>\n<p>O primeiro ainda baseado no respeito a certas formas de liberdade individual e direitos trabalhistas; o segundo inteiramente planificado e opressivo, no qual o indiv\u00edduo parece desaparecer diante da enorme obedi\u00eancia e disciplina, que representa tamb\u00e9m, ao mesmo tempo, um ethos mais coletivista.<\/p>\n<p>Mostrando a implanta\u00e7\u00e3o de uma multinacional chinesa em territ\u00f3rio norte-americano, o filme trata da impossibilidade de tradu\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo entre essas culturas. Ocidente e Oriente, nessa perspectiva, parecem dois mundos aversivos, que s\u00f3 se relacionam pela domina\u00e7\u00e3o de um pelo outro, e nunca pela troca.<\/p>\n<p>Portanto, levando-se em conta esses fatores, podemos imaginar, em um prazo n\u00e3o muito longo, um Ocidente periclitante, sucumbindo tanto \u00e0 ascens\u00e3o econ\u00f4mica chinesa quanto ao seu estado policial digital. H\u00edbrida combina\u00e7\u00e3o entre autoritarismo e capitalismo selvagem.<\/p>\n<p>Tomando uma conhecida formula\u00e7\u00e3o de Fredric Jameson, boa parte do p\u00e2nico imobilista que sentimos hoje se deve a uma dupla consci\u00eancia: nossa capacidade cient\u00edfica para imaginar o fim do mundo, por um lado, e nossa incapacidade pol\u00edtica para imaginar o fim do capitalismo, por outro.<\/p>\n<p>A pandemia do coronav\u00edrus, no entanto, traz novos elementos para esse jogo. Em dire\u00e7\u00e3o divergente dessa que descrevi acima, n\u00e3o s\u00e3o poucos os pensadores progressistas que est\u00e3o vendo nesta crise de sa\u00fade mundial, que se desdobra em grave crise econ\u00f4mica e social, uma possibilidade de freio, numa escala antes impens\u00e1vel, ao consumo excessivo e irracional.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, uma contesta\u00e7\u00e3o ao dogma da acumula\u00e7\u00e3o infinita que sustenta o capitalismo. Afinal o cont\u00e1gio, como j\u00e1 havia percebido Ulrich Beck ap\u00f3s Tchern\u00f3bil, \u00e9 um fen\u00f4meno democr\u00e1tico e igualit\u00e1rio por excel\u00eancia, apesar de haver regimes de vulnerabilidade a ele muito diversos pelo mundo, como percebemos no caso da pandemia atual.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/01\/roma-esta-sendo-aplaudido-pelos-motivos-errados-escreve-slavoj-zizek.shtml\">Slavoj Zizek<\/a>, por exemplo, considera que a forte queda das Bolsas de Valores e a quase paralisa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria automobil\u00edstica, por exemplo, podem sinalizar transforma\u00e7\u00f5es importantes no capitalismo, dando-nos a possibilidade de nos deixarmos infectar por um v\u00edrus ben\u00e9fico: a capacidade de pensar em uma sociedade diferente, menos voltada ao lucro individual e mais guiada por formas de solidariedade e coopera\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Outro efeito colateral positivo da pandemia, segundo Zizek, \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas de preven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade e de prote\u00e7\u00e3o aos cidad\u00e3os, tornando flagrantes valores contr\u00e1rios aos que t\u00eam dominado a pol\u00edtica mundial nos \u00faltimos tempos, na qual o subs\u00eddio aos bancos \u00e9 feito por meio de austeridade econ\u00f4mica, com cortes nos servi\u00e7os p\u00fablicos e nos benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<p>J\u00e1 para\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2014\/11\/1541895-prioridade-de-dilma-deveria-ser-melhoria-das-cidades-diz-geografo.shtml\">David Harvey<\/a>, de forma complementar, a pandemia representa um \u201ccolapso onipotente no cora\u00e7\u00e3o da forma de consumo que predomina nos pa\u00edses mais ricos\u201d. Depois da crise financeira de 2008, estancada pelo socorro dos Estados aos bancos e pelo papel estabilizador da China no mercado global, a economia mundial se reorganizou, impulsionando ainda mais as formas de consumo de alta rotatividade.<\/p>\n<p>Assim, de 2010 a 2018, como mostra Harvey, o total de viagens internacionais no planeta quase dobrou, passando de 800 milh\u00f5es para 1,4 bilh\u00e3o. Com um expressivo investimento em aeroportos, companhias a\u00e9reas, hot\u00e9is, restaurantes, parques tem\u00e1ticos e eventos culturais e de entretenimento, os pa\u00edses centrais sustentaram quase 80% de suas economias.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o capital que est\u00e1 em quarentena no momento, bloqueado e agonizante, embora outras formas de reprodu\u00e7\u00e3o do capital, como os setores de tecnologia, n\u00e3o estejam t\u00e3o afetadas.<\/p>\n<p>E enquanto a paralisa\u00e7\u00e3o da economia mundial tem efeitos colaterais not\u00e1veis na melhora das condi\u00e7\u00f5es ambientais em diversas partes do planeta \u2014como no caso da dr\u00e1stica diminui\u00e7\u00e3o na emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, no sens\u00edvel decl\u00ednio da polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica na China ou do aparecimento de peixes nas \u00e1guas (agora claras) de Veneza\u2014, o Estado norte-americano aprova um\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/03\/senado-dos-eua-aprova-ajuda-de-us-2-tri-para-combater-crise-do-coronavirus.shtml\">pacote de US$ 2,2 trilh\u00f5es<\/a>\u00a0para subsidiar todos os cidad\u00e3os do pa\u00eds durante a crise.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o deixa de ser, ainda segundo Harvey, uma forma de se socializar a economia do pa\u00eds mais rico do mundo durante seu governo mais conservador.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, seja qual for o \u00e2ngulo pelo qual se olhe para essa pandemia, o v\u00edrus, essa entidade invis\u00edvel e onipresente, nos aparece como um emiss\u00e1rio do nevoeiro.<\/p>\n<p>Nossos v\u00edrus n\u00e3o matam mais apenas o \u201coutro\u201d, imunologicamente mais vulner\u00e1vel. Essa categoria do \u201coutro\u201d, ali\u00e1s, nem existe mais. De nada adianta fechar fronteiras e restaurar velhos ressentimentos nacionais. Quem est\u00e1 sob ataque somos todos n\u00f3s, juntos.<\/p>\n<p>O nevoeiro, afinal de contas, n\u00e3o \u00e9 nem bom nem mau em si mesmo. Ali\u00e1s, ele talvez represente, de certa forma, a grande chance hist\u00f3rica que temos de viver em um mundo mais complexo do que aquele do \u201cn\u00f3s contra os outros\u201d, que imperava obsessivamente nos tempos da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Um mundo em que s\u00e3o reconhecidos diversos matizes de g\u00eanero entre homens e mulheres, por exemplo, assim como m\u00faltiplas orienta\u00e7\u00f5es sexuais. Nesse sentido, Steve Bannon, Boris Johnson, Donald Trump,\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2020\/03\/veja-o-que-bolsonaro-ja-disse-sobre-coronavirus-de-certa-histeria-a-fantasia-e-nerouse.shtml\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0e tantos outros representam a recusa violenta dessa complexidade.<\/p>\n<p>Surgidos de dentro do nevoeiro, eles, no entanto, pretendem restaurar, de forma regressiva, o mundo dual dos puros contra os impuros, e tantas outras fal\u00e1cias simpl\u00f3rias que inventam para sustentar seus discursos racistas e xen\u00f3fobos.<\/p>\n<p>Desorganizando o clima anticient\u00edfico de p\u00f3s-verdades que ganhou protagonismo com a generaliza\u00e7\u00e3o do ciberespa\u00e7o, o coronav\u00edrus surge como um antagonista paradoxalmente palp\u00e1vel, obrigando-nos a encarar o mundo real, e de forma \u00e9tica e coletiva. Desse ponto de vista, ele pode ser um surpreendente agente civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p><a id=\"reader-domain\" href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/04\/com-coronavirus-mundo-vive-em-nevoeiro-diz-guilherme-wisnik.shtml\">www1.folha.uol.com.br \/ilustrissima\/2020\/04\/com-coronavirus-mundo-vive-em-nevoeiro-diz-guilherme-wisnik.shtml<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Wisnik &#8211; Ao contr\u00e1rio do que imaginavam os profetas do fim da hist\u00f3ria, o mundo \u00e9 dominado por sentimentos de paranoia e ang\u00fastia.\u00a0Imersos em nevoeiro, na era em que\u00a0esgotamos os recursos do planeta, fabricamos a pandemia de nossa pr\u00f3pria vulnerabilidade, sem poder culpar um \u2018outro\u2019. 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