{"id":1298,"date":"2016-08-01T09:26:12","date_gmt":"2016-08-01T12:26:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1298"},"modified":"2016-07-19T21:30:35","modified_gmt":"2016-07-20T00:30:35","slug":"apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/01\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre a independ\u00eancia intelectual"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o G. Rizek<\/strong> &#8211;\u00a0Quando morreu em 1960, v\u00edtima de um acidente automobil\u00edstico, a reputa\u00e7\u00e3o de Albert Camus, tido outrora como o maior intelectual franc\u00eas, j\u00e1 estava em pleno decl\u00ednio. A recep\u00e7\u00e3o de suas obras e ideias at\u00e9 ent\u00e3o, no entanto, apontava para um destino diferente. Um pouco antes, em 1957, ele havia sido agraciado com o Pr\u00eamio Nobel de Literatura e, cinco anos antes, descrito por Hannah Arendt como \u201co melhor homem neste momento na Fran\u00e7a\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda nos primeiros anos do p\u00f3s-guerra, Camus havia surgido como uma figura capaz de influenciar largas faixas da opini\u00e3o parisiense, incorporando os ideais de engajamento da Resist\u00eancia e a energia de uma nova gera\u00e7\u00e3o \u00e1vida pela cria\u00e7\u00e3o de um futuro palp\u00e1vel. Segundo o historiador Tony Judt, \u201cseu estilo, suas preocupa\u00e7\u00f5es, sua ampla audi\u00eancia e sua aparente onipresen\u00e7a na vida p\u00fablica parisiense pareciam encarnar tudo o que era mais caracteristicamente franc\u00eas na interse\u00e7\u00e3o entre literatura, pensamento e engajamento pol\u00edtico\u201d<a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Seus anos de fama e influ\u00eancia, contudo, ficariam para tr\u00e1s e sua reputa\u00e7\u00e3o s\u00f3 voltaria a crescer quase 30 anos ap\u00f3s a sua morte.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, diante desse quadro, cabe a pergunta: qual foi o desvio imperdo\u00e1vel tomado por Camus, respons\u00e1vel por reneg\u00e1-lo ao quase total ostracismo nas d\u00e9cadas seguintes \u00e0 sua morte? A resposta n\u00e3o \u00e9 simples, mas serve para ilustrar algo da disposi\u00e7\u00e3o dos grandes intelectuais em se manterem fi\u00e9is aos seus valores e ideais.<\/p>\n<p>Surgido como uma das vozes mais confiantes da Resist\u00eancia no p\u00f3s-guerra, Camus, assim como grande parte da sua gera\u00e7\u00e3o, tinha como miss\u00e3o procurar e julgar os colaboracionistas: todos aqueles que haviam mantido algum tipo de rela\u00e7\u00e3o com o inimigo deveriam ser condenados o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Em meio a este processo, levado a cabo de modo pouco refletido, Camus passou a questionar algumas a\u00e7\u00f5es tomadas por seus pares. Presos a uma divis\u00e3o bin\u00e1ria simplificadora \u2013 aquela entre \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cresist\u00eancia\u201d \u2013, eles eram incapazes, segundo Camus, de observar a \u201czona cinzenta\u201d na qual dilemas, interesses e d\u00favidas morais se confrontavam. Da convic\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica Camus passou \u00e0 d\u00favida reflexiva, causando certo desconforto entre seus pares, \u00e1vidos pela necessidade de adotar um lado. Segundo as palavras de Tony Judt: \u201cNas tens\u00f5es provocadas pelas divis\u00f5es da Guerra Fria, ele se viu com duas opini\u00f5es quase desde o in\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>Contribu\u00edram tamb\u00e9m para a perda de credibilidade de Camus suas indisposi\u00e7\u00f5es com Jean-Paul Sartre \u2013 autoridade filos\u00f3fica m\u00e1xima na Fran\u00e7a daqueles anos \u2013, suas posi\u00e7\u00f5es amb\u00edguas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 independ\u00eancia de sua terra natal, a Arg\u00e9lia, e mais uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que clamavam por um posicionamento mais afirmativo do que aquele que o reflexivo intelectual poderia oferecer. Ainda segundo Tony Judt, os termos com que tentavam classificar Camus dificilmente se aplicavam a ele: \u201cfil\u00f3sofo, intelectual engajado, parisiense \u2013 s\u00e3o todas as coisas que Camus n\u00e3o era. Mas ele era, apesar de suas reservas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia, muito seguramente um moralista\u201d.<\/p>\n<p>Moralista, na hist\u00f3ria das ideias francesas, aponta para algo diferente daquilo que o senso comum acredita. \u201cUm \u2018moralista\u2019 na Fran\u00e7a\u201d, explica Judt, \u201ctem sido tipicamente um homem cuja dist\u00e2ncia do mundo da influ\u00eancia ou do poder lhe permite refletir desinteressadamente sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, suas ironias e verdades [\u2026] ser um moralista era levar uma vida inquieta\u201d. Jean-Paul Sartre, no obitu\u00e1rio que escreveu sobre Camus, atestou a g\u00eanese de sua postura intelectual: \u201cele representava neste s\u00e9culo, e contra a Hist\u00f3ria, o herdeiro contempor\u00e2neo dessa longa linhagem de moralistas cuja obra constitui talvez o que \u00e9 mais singular nas letras francesas\u201d.<\/p>\n<p>Avesso aos modismos intelectuais e aos extremismos pol\u00edticos, Camus estabeleceu um lugar na hist\u00f3ria do pensamento do s\u00e9culo XX ao justamente ir contra a corrente dominante, mantendo-se fiel \u00e0quilo que acreditava \u2013 independentemente dos custos e riscos que pudessem acarretar. Mesmo que muito rapidamente, recontar a trajet\u00f3ria de Camus serve, portanto, para defender um ponto: a defesa da independ\u00eancia, mesmo que muito complicada, deve ser a verdadeira miss\u00e3o do intelectual. Outro exemplo talvez ilustre um pouco melhor essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentre esses intelectuais, fi\u00e9is aos seus ideais e inc\u00f3lumes contra o medo, est\u00e1 o palestino Edward Said. Sua carreira seguiu basicamente duas vertentes: como professor de Literatura Inglesa e Literatura Comparada e como principal defensor da causa Palestina, tanto na m\u00eddia ocidental quanto na \u00e1rabe. Sua defesa apaixonada da terra que outrora foi sua e de seu povo custou-lhe, em um epis\u00f3dio, seu escrit\u00f3rio na Universidade Columbia, onde dava aulas, queimado e vandalizado provavelmente por sionistas radicais. Seu apartamento, no Uptown Manhattan, continha um bot\u00e3o de p\u00e2nico com liga\u00e7\u00e3o direta \u00e0 pol\u00edcia nova-iorquina, algo que, para outro inquieto pensador, Noam Chomsky, tratava-se de um caso \u00fanico entre intelectuais.<\/p>\n<p>O caso de Said, contudo, n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido apenas por conta dos riscos a que estava submetido. Para al\u00e9m de suas posi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 quest\u00e3o Palestina, Said se preocupou sistematicamente com o papel p\u00fablico do intelectual.<\/p>\n<p>Em um pequeno ensaio intitulado \u201cSobre a provoca\u00e7\u00e3o e o assumir posi\u00e7\u00f5es\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, Said estipula seis compromissos a que todo intelectual deveria apelar. S\u00e3o eles: 1) O compromisso com o seu corpo espec\u00edfico de estudos; 2) A necessidade de sair da academia para o mundo; 3) Apontar e provocar o consenso e a ortodoxia; 4) Servir como um guardi\u00e3o e divulgador da mem\u00f3ria coletiva; 5) Ter um senso inabal\u00e1vel de independ\u00eancia e 6) N\u00e3o ter medo de assumir posi\u00e7\u00f5es. Pretendo agora, no resto deste texto, delinear um pouco cada uma dessas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o compromisso de todo intelectual deve ser, segundo Said, com o seu campo de estudos. Em suas palavras: \u201cnada substitui o compromisso do professor n\u00e3o somente com os estudantes, mas tamb\u00e9m com os rigores de sua disciplina\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O intelectual deve, antes de tudo, ter um lugar de onde interpretar o mundo. Esse lugar \u00e9 a sua disciplina, seu campo de estudos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o compromisso do intelectual com seu campo de atua\u00e7\u00f5es deve ser levado adiante paralelamente ao cuidado com os perigos da especializa\u00e7\u00e3o. O uso do jarg\u00e3o, os compromissos burocr\u00e1ticos da academia, a aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica das principais doutrinas de um dado campo e mais uma s\u00e9rie de v\u00edcios corporativos acabam por constranger os potenciais de atua\u00e7\u00e3o do intelectual engajado. A academia e o conhecimento viram um fim em si mesmo e tornam-se incapazes de abandonar os muros seguros da academia e submeter-se a uma recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica vinda de fora. Para fugir dessa condi\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso evitar a linguagem cifrada e se aproveitar da ironia, sem buscar ref\u00fagios, assumindo de modo claro aquilo que se quer dizer. \u00c9 s\u00f3 assim que se consegue levar a mensagem adiante, para al\u00e9m dos muros da academia.<\/p>\n<p>Dando prosseguimento, em terceiro lugar, Said defende que \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver aquilo que chama de voca\u00e7\u00e3o intelectual. Trata-se de cultivar um papel que n\u00e3o \u00e9 meramente o do escritor ou o da autoridade, mas algo a mais, algo como \u201cum oponente do consenso e da ortodoxia\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Assim, \u201co papel do intelectual n\u00e3o \u00e9 consolidar a autoridade, mas compreend\u00ea-la, interpret\u00e1-la e question\u00e1-la\u201d. Dando prosseguimento \u00e0 quest\u00e3o, conclui: \u201ca voca\u00e7\u00e3o do intelectual \u00e9 essencialmente aliviar de alguma forma o sofrimento humano e n\u00e3o celebrar o que, na verdade, n\u00e3o precisa de comemora\u00e7\u00e3o, seja o Estado, a p\u00e1tria ou qualquer desses agentes triunfalistas de nossas sociedades\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Diante de entidades dotadas de capacidade imensur\u00e1veis de autopromo\u00e7\u00e3o, o dever do intelectual \u00e9 critic\u00e1-las, oferecendo outros pontos de vista para as narrativas oficiais. O poder, portanto, seja de qual lado estiver, merece ser criticado, pois sua propaganda, sabemos, estar\u00e1 sempre em circula\u00e7\u00e3o. O intelectual, por sua vez, n\u00e3o deve endoss\u00e1-la, mas apontar suas falhas, mentiras e excessos. Seguramente, governo algum precisa de mais um marqueteiro.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, outro papel que cabe aos intelectuais que frequentam a esfera p\u00fablica \u00e9, nas palavras de Said, \u201cfuncionar como uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria coletiva\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Ao intelectual resta \u201cfazer rela\u00e7\u00f5es que de outro modo permaneceriam escondidas, oferecer alternativas \u00e0s pol\u00edticas erradas e lembrar o p\u00fablico\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Lan\u00e7ando m\u00e3o da hist\u00f3ria, o intelectual \u00e9 capaz de relativizar certos acontecimentos e chamar aten\u00e7\u00e3o para outros tantos, enriquecendo o debate e mostrando o quanto ele \u00e9, por vezes, enviesado, pobre ou, at\u00e9 mesmo, equivocado.<\/p>\n<p>Recentemente, na esteira dos atentados ao jornal sat\u00edrico Charlie Hebdo, Noam Chomsky questionou a hipocrisia do Ocidente e sua vis\u00e3o estreita daquilo que considera sua \u201cmem\u00f3ria viva\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Ao mesmo tempo em que condenamos os acontecimentos em Paris, deixamos de lado um sem-n\u00famero de atentados brutais ocorridos no mundo inteiro, que apesar da gravidade n\u00e3o figuram na lista daquilo que consideramos nossa \u201cmem\u00f3ria viva\u201d. As causas para tanto t\u00eam raiz ideol\u00f3gica e tornam-se, facilmente, discursos oficiais. Cabe ao intelectual, ent\u00e3o, complexificar a quest\u00e3o, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a hipocrisia, para as ra\u00edzes dos acontecimentos e para as rea\u00e7\u00f5es que o causam e assim por diante.<\/p>\n<p>Por fim, Said exp\u00f5e o \u00faltimo ponto da seguinte maneira: \u201c\u00e9 preciso tentar ser de alguma forma marginal, em vez de se entregar a uma pol\u00edtica que acene para a possibilidade de obten\u00e7\u00e3o de cargos\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. O lugar do intelectual \u00e9 \u00e0 margem, adotando um ponto de vista que preserve sua independ\u00eancia e seu f\u00f4lego. Obviamente, como afirma Said, n\u00e3o \u00e9 \u201cposs\u00edvel fazer muitos amigos dessa maneira\u201d, mas \u201ca atitude de provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais importante do que ganhar mais uma distin\u00e7\u00e3o ou um pr\u00eamio\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. E assim deveria ser para todos aqueles que se consideram intelectuais, cujo compromisso deve ser com a verdade e n\u00e3o com a vaidade. Cabe agora, marchando para o final, sugerir algo da atividade intelectual brasileira.<\/p>\n<p>Em livro lan\u00e7ado recentemente, o soci\u00f3logo Bol\u00edvar Lamounier sugere uma tipologia para classificar os intelectuais que se apresentam na esfera p\u00fablica. Seriam eles: tribunos, profetas e sacerdotes. Segundo Lamounier, \u201co tribuno engaja-se na defesa de pessoas, grupos sociais ou valores institucionais de uma forma incidental, ou seja, em situa\u00e7\u00f5es dadas. O profeta \u00e9 o portador da boa-nova: a chegada de um novo mundo, ao qual ele promete conduzir aqueles que compartilham sua receita de salva\u00e7\u00e3o. O sacerdote \u00e9 o int\u00e9rprete autorizado dos livros; \u00e9 aquele que invoca os c\u00e2nones sagrados a fim de separar os campos do bem e do mal, do permiss\u00edvel e do n\u00e3o permiss\u00edvel\u201d <a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>O Brasil, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es que n\u00e3o cabe esmiu\u00e7ar aqui, sempre cultivou muitos profetas. Animados pela certeza de possu\u00edrem o caminho para um novo mundo, esses intelectuais buscaram se ligar a plataformas que projetassem seus discursos e profecias. Nesse sentido, lembremos dos v\u00e1rios acad\u00eamicos que se juntaram ao poder no pa\u00eds, ocupando sindicatos, secretarias, minist\u00e9rios, prefeituras e at\u00e9 a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de um intelectual no poder, \u00e9 evidente, n\u00e3o \u00e9 em si algo conden\u00e1vel. O que \u00e9 conden\u00e1vel, isso sim, \u00e9 a coopta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia pelo poder; a perda do senso cr\u00edtico frente o consenso e a propaganda pol\u00edtica. Generalizo, mas a amea\u00e7a \u00e9 sens\u00edvel: existe uma liga\u00e7\u00e3o estreita entre o poder pol\u00edtico e uma parcela representativa da comunidade intelectual, o que acaba por paralisar a cr\u00edtica e bloquear o debate.<\/p>\n<p>Camus, Said, Chomsky: exemplos de intelectuais marginais, fi\u00e9is apenas aos seus princ\u00edpios e valores. Caso queiramos, aqui no Brasil, adicionar alguns nomes ao pante\u00e3o formado por estes e tantos outros pensadores, \u00e9 preciso, mais uma vez, declarar nossa independ\u00eancia. Desta vez, ela ser\u00e1 declarada frente aos grilh\u00f5es do poder, da pol\u00edtica e da vaidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> JUDT, Tony. <em>O peso da responsabilidade: Blum, Camus, Aron e o s\u00e9culo XX franc\u00eas<\/em>. Rio de janeiro: Objetiva, 2014. P\u00e1g. 125.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> SAID, Edward. <em>Sobre a provoca\u00e7\u00e3o e o assumir posi\u00e7\u00f5es<\/em>. In: Reflex\u00f5es sobre o ex\u00edlio e outros ensaios. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 248.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, p. 250.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Idem, ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 251.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem, ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Link para a entrevista: http:\/\/edition.cnn.com\/2015\/01\/19\/opinion\/charlie-hebdo-noam-chomsky\/<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem, p. 252.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Idem, p. 253.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LAMOUNIER, Bol\u00edvar. <em>Tribunos, profetas e sacerdotes<\/em>: Intelectuais e ideologias no s\u00e9culo XX. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014. P\u00e1g. 15.<\/p>\n<p>http:\/\/www.culturacritica.cc\/2015\/02\/apontamentos-sobre-a-independencia-intelectual\/?lang=pt-br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o G. Rizek &#8211;\u00a0Quando morreu em 1960, v\u00edtima de um acidente automobil\u00edstico, a reputa\u00e7\u00e3o de Albert Camus, tido outrora como o maior intelectual franc\u00eas, j\u00e1 estava em pleno decl\u00ednio. A recep\u00e7\u00e3o de suas obras e ideias at\u00e9 ent\u00e3o, no entanto, apontava para um destino diferente. 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