{"id":12959,"date":"2020-04-28T09:43:18","date_gmt":"2020-04-28T12:43:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=12959"},"modified":"2020-04-26T09:45:23","modified_gmt":"2020-04-26T12:45:23","slug":"duas-revolucoes-russia-e-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/04\/28\/duas-revolucoes-russia-e-china\/","title":{"rendered":"Duas Revolu\u00e7\u00f5es: R\u00fassia e China"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro Ramos de Toledo<\/strong> &#8211; Coment\u00e1rio sobre o livro de Perry Anderson<\/p>\n<p>Publicado em 2010 na revista\u00a0<em>New Left Review<\/em>, importante peri\u00f3dico de teoria e an\u00e1lise marxista,\u00a0<em>Duas Revolu\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0apresentou um esfor\u00e7o comparativo de Perry Anderson para compreender os d\u00edspares destinos que esperavam as Revolu\u00e7\u00f5es Russa e Chinesa no final do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Em suas anota\u00e7\u00f5es \u2013 brev\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o que abre sua reflex\u00e3o \u2013 Anderson salienta o contraste dos percal\u00e7os dos Estados ali surgidos: enquanto a URSS, cujo nascimento e trajet\u00f3ria marcou todo o s\u00e9culo XX, \u201c(\u2026) desintegrou-se ap\u00f3s sete d\u00e9cadas, quase sem um tiro,\u00a0 t\u00e3o rapidamente como surgira\u201d, a Rep\u00fablica Popular da China (RPC) \u201c(\u2026) \u00e9 uma for\u00e7a motriz da economia mundial; o l\u00edder em exporta\u00e7\u00f5es seja para a Uni\u00e3o Europeia, seja para o Jap\u00e3o, seja para os Estados Unidos; o maior detentor de reservas cambiais do mundo.\u201d (p. 23).<\/p>\n<p>Em seu esfor\u00e7o para explicar tal contraste\u00a0 Anderson elaborou quatro planos diversos, nos quais encontra-se dividido seu artigo: \u201cMatrizes\u201d, em que buscou identificar similitudes entre as estrat\u00e9gias e pol\u00edticas implementadas pelos agentes vitoriosos de ambas as revolu\u00e7\u00f5es; \u201cMuta\u00e7\u00f5es\u201d<em>,<\/em>\u00a0que versa sobre as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que determinaram os programas de reformas levados a cabo pelos Partidos Comunistas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e China; \u201cPontos de Ruptura\u201d, em que Anderson analisa as consequ\u00eancias dessas reformas; e \u201cO Novum\u201d, se\u00e7\u00e3o final em que Anderson debate o legado de longa dura\u00e7\u00e3o dessas revolu\u00e7\u00f5es e em que medida atuaram como fatores determinantes para o desfecho de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do artigo de Anderson que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra foram incorporados nessa edi\u00e7\u00e3o tr\u00eas textos que se encontram em direto di\u00e1logo com o documento principal:\u00a0 uma introdu\u00e7\u00e3o escrita por Luiz Gonzaga Belluzzo; uma r\u00e9plica ao artigo de Anderson, elaborada por Wang Chauhua e publicada na\u00a0<em>New Left Review<\/em>\u00a0em 2015; e o posf\u00e1cio assinado por Rosana Pinheiro-Machado. Como veremos, essas adi\u00e7\u00f5es enriquecem sobremaneira a leitura do texto central de Anderson sem no entanto se reduzirem a meras anota\u00e7\u00f5es de suas qualidades e fraquezas.<\/p>\n<p>Em sua introdu\u00e7\u00e3o, Beluzzo nos apresenta um panorama contrastante acerca do desenvolvimento econ\u00f4mico dos Estados sovi\u00e9tico e chin\u00eas. As condi\u00e7\u00f5es em que se encontra a R\u00fassia na vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 s\u00e3o profundamente restritivas: uma violenta guerra civil que op\u00f4s ao nascente Estado sovi\u00e9tico as for\u00e7as combinadas das principais pot\u00eancias imperialistas e de um ex\u00e9rcito contra-revolucion\u00e1rio; a oferta agr\u00edcola deprimida, resultante da desintegra\u00e7\u00e3o da vida campesina decorrente dos esfor\u00e7os de guerra e das enormes fatalidades impostas ao ex\u00e9rcito russo (composto em sua quase totalidade por conscritos camponeses) durante a Primeira Guerra Mundial; e um complexo industrial fr\u00e1gil acabaram por tornar urgente a reconstru\u00e7\u00e3o da economia sovi\u00e9tica, abrindo caminho para a Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica (<em>Novaya Economiskaya Politika<\/em>\u00a0\u2013 NEP), na qual, sob o controle do Estado, atuariam como for\u00e7as motrizes do desenvolvimento a pequena propriedade privada e empresas estatais orientadas para o lucro. Sem atentar para o per\u00edodo de estaliniza\u00e7\u00e3o dos anos 30, caracterizado pela implementa\u00e7\u00e3o dos planos quinquenais, Beluzzo passa a demonstrar os impactos da Segunda Guerra Mundial sobre a estrutura pol\u00edtica e econ\u00f4mica da URSS. O brutal esfor\u00e7o de guerra empreendido pela sociedade sovi\u00e9tica, somado \u00e0s perdas irrepar\u00e1veis ocorridas no conflito, acabou por militarizar n\u00e3o somente a sociedade como a pr\u00f3pria economia. O fortalecimento da Economia de Comando e o investimento priorit\u00e1rio no complexo industrial-militar impediu \u2013 naqueles que Perry Anderson denomina \u201canos de estagna\u00e7\u00e3o\u201d \u2013\u00a0 que a economia sovi\u00e9tica acompanhasse as transforma\u00e7\u00f5es produtivas e informacionais pelas quais passava o mundo capitalista. As crescentes distor\u00e7\u00f5es no c\u00e1lculo econ\u00f4mico deprimiam a produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo e aumentavam as dificuldades de crescimento intensivo da economia sovi\u00e9tica. J\u00e1 no final dos anos 80, a aus\u00eancia de oferta transfigurava-se por um lado em excesso de dinheiro acumulado, e por outro em um crescente d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio. A reforma de pre\u00e7os imposta pela\u00a0<em>Perestroika\u00a0<\/em>acabou por gerar efeitos hiperinflacion\u00e1rios e produziu efeitos desastrosos sobre a produ\u00e7\u00e3o e o emprego.\u00a0 O \u201cchoque de mercado\u201d, como explica Belluzzo ao citar Peter Nolan, foi uma tentativa desastrada de saltar \u201c\u2026do stalinismo puro e duro para as cren\u00e7as igualmente dogm\u00e1ticas do livre-mercado\u201d (Beluzzo, 2018: p. 13).<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Popular da China, por outro lado, escolheu para suas reformas uma rota diversa, cujos resultados contrastam com a cat\u00e1strofe da\u00a0<em>Perestroika<\/em>. Estabelecendo-se como uma nova fronteira para o capitalismo mundial, a RPC embarcou no final dos anos 70 em uma ampla reforma de sua economia, que permitiu ao pa\u00eds saltar de 1% de participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio mundial em 1980 para 10,4% em 2010. Belluzzo nos apresenta de forma sint\u00e9tica um panorama daquilo que Deng Xiao Ping definiu como \u201csocialismo \u00e0 moda chinesa\u201d: a atra\u00e7\u00e3o de investimentos diretos; a absor\u00e7\u00e3o de tecnologia; fixa\u00e7\u00e3o de metas de exporta\u00e7\u00e3o; balan\u00e7a comercial avit\u00e1ria; controle do movimento de capitais; taxa de c\u00e2mbio fixa; e pol\u00edticas industriais que privilegiam as empresas nacionais. Tais medidas sustentam-se na rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica existente entre o Partido Comunista Chin\u00eas (PCC), o Estado e o mercado. A partir de um sistema de consulta \u00e0s bases o PCC estabelece, com razo\u00e1vel independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos interesses dos agentes econ\u00f4micos, o conjunto de diretrizes de longo prazo, cabendo ao Estado e suas esferas executivas a devida implementa\u00e7\u00e3o. \u00c0 iniciativa privada cabe atuar como for\u00e7a motriz da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u00a0 e garantir um ambiente competitivo entre os agentes econ\u00f4micos. Soma-se a isso um r\u00edgido controle do mercado de capitais, que torna o ambiente econ\u00f4mico da RPC um espa\u00e7o hostil para a pr\u00e1tica do rentismo, garantindo assim o investimento direto nos setores produtivos. A RPC alia assim o m\u00e1ximo de competi\u00e7\u00e3o ao m\u00e1ximo de controle atrav\u00e9s de um sistema econ\u00f4mico indicativo que conta com o papel ativo do Estado no desenvolvimento da economia.<\/p>\n<p>Em \u201cAnota\u00e7\u00f5es\u201d, introdu\u00e7\u00e3o de Anderson ao pr\u00f3prio artigo, o historiador brit\u00e2nico apresenta brevemente seus objetivos: compreender, a partir dos destinos contrastantes que aguardavam as Rep\u00fablicas Chinesa e Sovi\u00e9tica no final dos anos 80, as condi\u00e7\u00f5es objetivas e diferen\u00e7as estrat\u00e9gicas dos sujeitos pol\u00edticos envolvidos que colaboraram com o desvio de rumos tomados por Estados nascidos na mesma tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo de seu op\u00fasculo, \u201cMatrizes\u201d, Anderson discorre sobre as condi\u00e7\u00f5es historicamente recebidas por ambos os movimentos revolucion\u00e1rios que levaram a cabo as revolu\u00e7\u00f5es russa e chinesa e de que forma tais condi\u00e7\u00f5es fornecem pontos de contato e rupturas entre as duas experi\u00eancias. Ao analisar inicialmente o processo revolucion\u00e1rio russo, o autor apresenta como seus fatores caracter\u00edsticos o car\u00e1ter insurreicional majoritariamente urbano; a ex\u00edgua base social desse movimento, composta pelo jovem proletariado russo; a guerra civil que se seguiu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e que fora respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o quase completa do parque industrial do pa\u00eds; o car\u00e1ter internacionalista do movimento vitorioso, arrefecido j\u00e1 nos anos 20 pelas derrotas revolucion\u00e1rias na Europa ocidental. \u00c9-nos apresentado um cen\u00e1rio que ressalta o isolamento em que se encontravam os sujeitos respons\u00e1veis pela revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917, agora respons\u00e1veis pela consolida\u00e7\u00e3o do nascente estado sovi\u00e9tico em meio \u00e0s ru\u00ednas da R\u00fassia czarista e dependentes exclusivamente de seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>As particularidades constitutivas do processo revolucion\u00e1rio chin\u00eas, por outro lado, s\u00e3o apresentadas por Anderson de forma a contrastar com a descri\u00e7\u00e3o do caso russo. Como frisa o autor: \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, embora inspirada na russa, inverteu praticamente todos os seus termos\u201d (p.26). Fundado em 1921, o PCC protagonizou uma longa guerra de atrito (1926-1949) contra o Kuomintang, os senhores da guerra chineses e, posteriormente, os invasores japoneses, estabelecendo-se enquanto poder dual a partir de sua ampla capilaridade nas regi\u00f5es rurais da China. Tal capilaridade expressava o amplo apoio que o PCC recebia das camadas sociais rurais, resultado das amplas reformas (anula\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas, redistribui\u00e7\u00e3o de terras) que o partido realizava nos territ\u00f3rios que controlava. Tais condi\u00e7\u00f5es \u2013 o controle territorial e a resist\u00eancia ao invasor estrangeiro \u2013 possibilitaram ao PCC \u201c\u2026 um grau de penetra\u00e7\u00e3o social que o partido russo jamais alcan\u00e7ou\u201d (p.29).<\/p>\n<p>Se tais condi\u00e7\u00f5es particulares separam o nascimento e a vit\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es russa e chinesa, Perry Anderson identifica elementos convergentes, notadamente as quest\u00f5es concernentes ao campesinato e aos quadros burocr\u00e1ticos. Do lado russo, o autor salienta o papel desintegrador que a coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das terras, a partir de 1928, exerceu sobre a classe camponesa russa. Esta\u201dguerra contra o campesinato\u201d acabou por produzir milh\u00f5es de v\u00edtimas, entre mortos e degredados, uma cat\u00e1strofe da qual a agricultura sovi\u00e9tica nunca conseguiu se recuperar. No que se refere aos quadros burocr\u00e1ticos, Perry Anderson ressalta a \u201c<em>Iejovshchina\u201d,\u00a0<\/em>\u00e1pice do terror estalinista, quando toda a velha guarda revolucion\u00e1ria de 1917, incluindo importantes nomes militares da Guerra Civil de 1919 e figuras proeminentes do universo cultural e pol\u00edtico dos anos de 1920, foi dizimada pelo aparato burocr\u00e1tico-policial de St\u00e1lin. A liquida\u00e7\u00e3o dos antigos quadros explica-se, para o autor, na impossibilidade que Stalin encontrou em se imp\u00f4r como l\u00edder revolucion\u00e1rio, restando t\u00e3o somente o exterm\u00ednio de qualquer dissid\u00eancia, representada principalmente na gera\u00e7\u00e3o heroica dos anos 20.<\/p>\n<p>A China, por sua vez, acabou por encontrar dificuldades similares. Buscando acelerar o desenvolvimento da economia chinesa, Mao Tse Tung lan\u00e7ou, em 1958, o \u201cGrande Salto para a Frente\u201d (GSF), programa baseado na cria\u00e7\u00e3o de comunas populares e na difus\u00e3o descentralizada de pequenas ind\u00fastrias leves. O desvio de m\u00e3o-de-obra campesina para estas ind\u00fastrias, aliada ao baixo rendimento das safras e a cotas elevadas de produ\u00e7\u00e3o acabaram por produzir enorme carestia de gr\u00e3os e uma subsequente onda de fome, causando mais de 30 milh\u00f5es de mortes. Oito anos ap\u00f3s o fracasso do GSF, coube \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cultural o expurgo sistem\u00e1tico de quadros burocr\u00e1ticos do PCC, em um processo que perdurou at\u00e9 a morte de Mao Tse Tung em 1976.<\/p>\n<p>A despeito do papel central que tais paroxismos exerceram nas futuras reformas pelas quais passaram ambos os estados, Anderson toma o cuidado em ressaltar que suas causas e consequ\u00eancias foram radicalmente diversas. Diferentemente da R\u00fassia, cuja coletiviza\u00e7\u00e3o se realizou atrav\u00e9s de uma guerra declarada ao campesinato e que levou \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o do maior estrato social da URSS, o GSF n\u00e3o buscou a sujei\u00e7\u00e3o ao campesinato. Seu objetivo era integrar as popula\u00e7\u00f5es campesinas a um ambicioso processo de industrializa\u00e7\u00e3o das zonas rurais sem com isso despoj\u00e1-las do trato e cultivo da terra. Seu fracasso se deu principalmente pela car\u00eancia de dados fidedignos sobre o rendimento agr\u00edcola e: \u201c[\u2026] a vida nas aldeias, mesmo nas regi\u00f5es mais gravemente afetadas, normalizou-se com surpreendente rapidez\u201d (p.33). Quanto aos quadros burocr\u00e1ticos, as causalidades s\u00e3o ainda mais contrastantes. Ainda que parida nas disputas internas do PCC, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural n\u00e3o objetivou eliminar os grupos dissidentes, mas impedir que a burocracia do PCC\u00a0 caminhasse para a forma\u00e7\u00e3o de um casta burocr\u00e1tica semelhante \u00e0quela que se consolidou no poder da URSS ap\u00f3s os anos de expurgo. Sem se utilizar diretamente do aparato militar-policial, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural encontrou na juventude chinesa a novidade pol\u00edtica que, por dez anos, balan\u00e7ou as estruturas burocr\u00e1ticas do estado chin\u00eas. Como ressalta Anderson: \u201cMao tinha conduzido a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa para a vit\u00f3ria, e n\u00e3o houve massacre da velha guarda que combatera ao seu lado.\u201d (p. 35)<\/p>\n<p>No segundo cap\u00edtulo, \u201cMuta\u00e7\u00f5es\u201d, Perry Anderson trata dos projetos de reformas empreendidos pelos Estados Sovi\u00e9tico e Chin\u00eas, que acabaram justapostos nos anos 1980. A despeito das tr\u00eas d\u00e9cadas que separam os movimentos revolucion\u00e1rios da China e URSS, a simultaneidade de tais processos se explica pelas particularidades trilhadas por cada Estado, que Anderson descreve como \u201co fracasso dos esfor\u00e7os precedentes de reconstru\u00e7\u00e3o\u201d (p. 37). Fiel ao seu m\u00e9todo, isto \u00e9, utilizar o fracasso sovi\u00e9tico enquanto espelho negativo para o sucesso chin\u00eas, Anderson apresenta para o leitor uma hist\u00f3ria das reformas empreendidas pela URSS, desde as condi\u00e7\u00f5es historicamente dadas que as ensejaram at\u00e9 o papel que suas condu\u00e7\u00f5es tiveram na desintegra\u00e7\u00e3o do Estado sovi\u00e9tico, em 1991. Por um lado o historiador ressalta o longo per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o entre os anos 60 e 80, que compreendeu os regimes de Krushchev e Brejnev, causados pela incapacidade que o estado sovi\u00e9tico demonstrou em compreender as transforma\u00e7\u00f5es produtivas pelas quais passava o capitalismo no p\u00f3s-guerra, conservando como base de seu desenvolvimento uma economia de comando fortemente centralizada e concentrada na ind\u00fastria pesada e no complexto b\u00e9lico-militar; por outro, a cristaliza\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<em>nomenklatura<\/em>\u00a0gerontocr\u00e1tica, j\u00e1 h\u00e1 muito afastada dos princ\u00edpios e virtudes da gera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dos anos 1920.<\/p>\n<p>A China\u00a0 em contrapartida encontrava-se, no final dos anos 1970, vivendo a ressaca da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, que paralisou por dez anos a vida intelectual do pa\u00eds e produziu feridas profundas no quadro burocr\u00e1tico do PCC. O\u00a0<em>boom<\/em>\u00a0econ\u00f4mico dos tigres asi\u00e1ticos \u2013 notadamente Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan e Jap\u00e3o \u2013 colocavam em cheque o modelo socialista chin\u00eas, que via o abismo econ\u00f4mico que a separava do capitalismo asi\u00e1tico se alargar. Foi esta condi\u00e7\u00e3o \u2013 o crescimento do hiato social-econ\u00f4mico que os separavam das pot\u00eancias capitalistas\u00a0 \u2013 que encontrou ambos os estados no final dos anos 70 e que tornou a necessidade de reformas uma agenda priorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No caso da URSS, as condi\u00e7\u00f5es iniciais eram elusivamente melhores: uma sociedade industrializada que contava com \u00edndices plenos de alfabetiza\u00e7\u00e3o al\u00e9m de uma ampla comunidade cient\u00edfica. Essas vantagens, por outro lado, acabavam anuladas por uma gigantesca economia de comando que contava com mais de 60.000 produtos tabelados, cuja in\u00e9rcia exigia um gigantesco esfor\u00e7o para mudar de rumos. As tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, centrais para a reelabora\u00e7\u00e3o dos setores planificados da economia, n\u00e3o foram assimiladas; e os bens de capital eram obsoletos, impactando na rela\u00e7\u00e3o capital\/produto. Soma-se a isso o papel da Guerra Fria nesse cen\u00e1rio de estagna\u00e7\u00e3o, ao embargar recursos para a moderniza\u00e7\u00e3o da economia em favor da eleva\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos gastos militares e em detrimento dos setores de produ\u00e7\u00e3o de bens de capital e consumo (Anderson, 2018 [2010]: p. 39). Ao ascender ao poder em\u00a0 1985, Mikhail Gorbachev encontrou uma economia estagnada: taxa de crescimento quase nula e desequil\u00edbrio cambial decorrente da queda do pre\u00e7o do petr\u00f3leo. Frente a esse quadro, Gorbachev buscou reformar os quadros pol\u00edtico (<em>Glasnost<\/em>) e econ\u00f4mico (<em>Perestroika<\/em>). Perry Anderson atenta para a \u00eanfase que acaba sendo dada por Gorbachev na reforma pol\u00edtica em detrimento das reformas econ\u00f4micas, em cuja atua\u00e7\u00e3o se mostraria desastrado, produzindo d\u00e9ficits seguidos e hiperinfla\u00e7\u00e3o. Ao assumir o poder, Gorbachev passa a atender as reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de uma\u00a0<em>intelligentsia<\/em>\u00a0unificada pela cr\u00edtica ao regime sovi\u00e9tico, que exigia a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es livres, a desativa\u00e7\u00e3o da Guerra Fria e a introdu\u00e7\u00e3o da economia de mercado. A busca por apoio popular e as resist\u00eancias de seus membros \u00e0s reformas liberalizantes implicou na progressiva aliena\u00e7\u00e3o do PCUS, separando neste contexto o Partido dirigente do poder do Estado. Anderson aponta nesta escolha pol\u00edtica o ponto fulcral para a desintegra\u00e7\u00e3o do Estado Sovi\u00e9tico, uma vez que o PCUS era o elemento que garantia a unidade das rep\u00fablicas. Uma tempestade perfeita, derivada da conflu\u00eancia entre apag\u00f5es pol\u00edtico e econ\u00f4mico, acabou por desintegrar a URSS da noite para o dia.<\/p>\n<p>A partir deste momento Anderson se dedica inteiramente aos processos de reforma chineses. Seu ponto de partida \u00e9 determinado por aquilo que considera as \u201cvantagens negativas\u201d da China: um n\u00edvel inferior de industrializa\u00e7\u00e3o que garantia metas de produ\u00e7\u00e3o mais modestas; um sistema de planejamento mais male\u00e1vel, decorrente de tradi\u00e7\u00f5es campesinais mais arraigadas e infraestrutura mais pobre; maior autonoma das prov\u00edncias e munic\u00edpios, garantindo aos poderes locais maior autonomia; e um campesinato que constitu\u00eda \u201ca pedra angular da na\u00e7\u00e3o\u201d, e do qual o PCC usufru\u00eda de grande apoio. No campo internacional, a aproxima\u00e7\u00e3o com os EUA em 1976 e uma pol\u00edtica de n\u00e3o-participa\u00e7\u00e3o direta na Guerra Fria dotaca a RPC de um grau de manobra inimagin\u00e1vel ent\u00e3o para URSS, garantindo ao primeiro ajuda financeira e fortes investimentos estrangeiros aos primeiros sinais de uma abertura de mercado. Como salienta Anderson: \u201c[\u2026] n\u00e3o havia nenhum descontentamento profundo no campo, tampouco havia amea\u00e7a imperialista direta vinda do estrangeiro, pela primeira vez na hist\u00f3ria moderna do pa\u00eds.\u201d (p 45). Esses fatores, aliados \u00e0 alta popularidade de Deng Xiao Ping e os \u201coito imortais\u201d, permitiram que a China iniciasse suas reformas em condi\u00e7\u00f5es bastante diversas daquelas que encontrava a URSS. Anderson ressalta o papel daquilo que considera uma lideran\u00e7a en\u00e9rgica, sens\u00edvel \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passava o capitalismo global\u00a0 e que desfrutou de grande apoio popular decorrente do sucesso econ\u00f4mico, al\u00e9m de conduzir os processos sucess\u00f3rios sem grandes solavancos .<\/p>\n<p>Anderson identifica como ponto de partida das reformas chinesas a transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es fundi\u00e1rias, com uma nova reforma agr\u00e1ria que desativou as antigas comunas e parcelou a terra entre a popula\u00e7\u00e3o, garantindo o usufruto da terra e a comercializa\u00e7\u00e3o dos excedentes de produ\u00e7\u00e3o, desde que atendidas as cotas\u00a0 estabelecidas pelo Estado. No setor industrial ocorreu uma flexibiliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os tabelados, permitindo aos gestores de empresas estatais, agora arrendat\u00e1rios de suas empresas, negociar os excedentes a pre\u00e7os de mercado. Foram criadas tamb\u00e9m as empresas de povoados e aldeias (<em>Township and Village Enterprises<\/em>\u00a0ou TVEs), que se beneficiavam com baixos impostos e cr\u00e9dito facilitado. Este modelo, que transita entre as propriedade privada, coletiva e estatal, se mostrou altamente lucrativo, aproveitando-se da vasta m\u00e3o de obra dispon\u00edvel. O terceiro pilar do programa de reformas chinesa foi a cria\u00e7\u00e3o das Zonas Econ\u00f4micas Especiais (ZEEs), cujo objetivo era repatriar massas de capital a partir do baixo custo manufatureiro al\u00e9m de absorver tecnologias. \u00c9 a partir das ZEEs que a RPC equaciona uma ambiciosa agenda de inova\u00e7\u00e3o, cuja produ\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o se concentraria principalmente em eletrodom\u00e9sticos e produtos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Nos dois \u00faltimos cap\u00edtulos, \u201cPontos de Ruptura\u201d e \u201cNovum\u201d, Perry Anderson apresenta suas conclus\u00f5es sobre as reformas chinesas, tanto pela perspectiva de seus resultados, quando das possibilidades que se abrem no come\u00e7o do s\u00e9culo XXI.\u00a0 O sucesso das reformas implementadas nos anos 1980 possibilitou que a RPC intensificasse na d\u00e9cada seguinte a implementa\u00e7\u00e3o de ferramentas de mercado em sua economia, ao mesmo tempo em que possibilitou ao PCC enorme capital pol\u00edtico, ent\u00e3o utilizado para conter demandas democr\u00e1ticas e reprimir vozes dissidentes. Este hiato entre as liberdades econ\u00f4mica e pol\u00edtica se evidenciaram em 1989, com a brutal repress\u00e3o lan\u00e7ada por Deng Xiao Ping sobre os manifestantes da Pra\u00e7a da Paz Celestial, quando ent\u00e3o o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular dissolveu violentamente o movimento. Esse epis\u00f3dio representou a reafirma\u00e7\u00e3o do poder central do PCC, diferentemente da crise de poder que se abateu sobre o Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS) na esteira das reformas de Gorbachev. Durante a d\u00e9cada de 1990, a China experimentou grandes taxas de crescimento, superando a d\u00e9cada anterior. Foi durante este per\u00edodo que a RPC reorganizou sua estrutura industrial, conservando a propriedade estatal de setores estrat\u00e9gicos ao mesmo tempo em que privatizou boa parte das TVEs e permitiu maior autonomia aos gestores provinciais para fazer uso das empresas estatais. Foi neste segundo per\u00edodos de reformas que a RPC fez uso agressivo de tarifas industriais baixas para atrair grandes volumes de capital estrangeiro, maximizando os lucros advindos do com\u00e9rcio exterior e se consolidando como a maior plataforma de exporta\u00e7\u00e3o de manufaturados do planeta. A China chega ao s\u00e9culo XXI com for\u00e7a total.<\/p>\n<p>Em suas considera\u00e7\u00f5es finais, Anderson convoca tr\u00eas das principais correntes interpretativas acerca do sucesso do modelo chin\u00eas: a primeira de cunho historiogr\u00e1fico, que enxerga la\u00e7os entre o despontar da RPC e o passado imperial; a segunda, em voga principalmente entre economistas, que interpreta tal sucesso a partir da integra\u00e7\u00e3o tardia da China ao sistema capitalista global; e, por fim, aquela que atribui o protagonismo da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa e o combate de Mao Tse Tung a uma poss\u00edvel tend\u00eancia de degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica. Ainda admitindo que tal resposta envolve diferentes elementos das tr\u00eas interpreta\u00e7\u00f5es, o autor pende de forma n\u00edtida em favor do papel da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa e de seus l\u00edderes na condu\u00e7\u00e3o da RPC para uma economia de mercado, ressaltando a t\u00edtulo de exemplo o processo de despossess\u00e3o do campesinato a partir do sistema\u00a0<em>Houkou,\u00a0<\/em>institu\u00eddo no Grande Salto pra Frente (GSP), e que garantia a segrega\u00e7\u00e3o do campo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades, fornecendo ao Estado o controle dos fluxos migrat\u00f3rios e, consequentemente, do processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva dele advindo. Anderson finaliza\u00a0 apontando alguns dos desafios que se abrem \u00e0 RPC, como a desigualdade social galopante; a corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica; a brutalidade das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o presentes na ind\u00fastria chinesa; a brutal persegui\u00e7\u00e3o aos dissidentes pol\u00edticos, concentrados \u00e0 esquerda do Partido; e a cont\u00ednua espolia\u00e7\u00e3o\u00a0 do campesinato, alicerce que sustenta a legitimidade do PCC. Seu \u00faltimo par\u00e1grafo \u00e9 dedicado \u00e0 falibilidade que espera qualquer um que intentar fazer predi\u00e7\u00f5es sobre o destino da RPC, dada a natureza complexa de tal processo hist\u00f3rico, que pendula entre a fascina\u00e7\u00e3o pelo ocidente e o chauvinismo do Han, entre um futuro democr\u00e1tico e o paternalismo autorit\u00e1rio in perpetuo: \u201cRumo a que horizontes est\u00e1 se deslocando o gigantesco junco da RPC, isso \u00e9 algo que resiste ao c\u00e1lculo, ao menos quando se utilizam os astrol\u00e1bios ora conhecidos\u201d.<\/p>\n<p>O terceiro ensaio que comp\u00f5e a obra \u00e9 escrito por Wang Chaohua, intelectual chinesa que figurou entre as principais lideran\u00e7as dos protestos da Pra\u00e7a da Paz Celestial. Intitulado \u201cO Partido e sua hist\u00f3ria de sucesso: uma resposta a duas \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d, Chaohua buscou prover um contraponto ao trabalho comparativo proposto por Anderson, por entend\u00ea-lo assim\u00e9trico na forma como tratou as revolu\u00e7\u00f5es russa e chinesa, cabendo \u201c[\u2026] ao caso russo ajudar a lan\u00e7ar luz sobre o caso chin\u00eas\u201d. (Chaochua, p. 73).ParaChaohua, a tentativa comparativa de Anderson resvala em tr\u00eas problemas fundamentais: o tratamento assim\u00e9trico em desfavor do caso russo; a inadequa\u00e7\u00e3o da forma ensaio quando se precisa comparar processos de longa dura\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexos como as duas revolu\u00e7\u00f5es; e o problema de periodiza\u00e7\u00e3o, causado pelo esfor\u00e7o em comparar processos de reforma deflagrados sincronicamente, mas cujas causas est\u00e3o separadas por mais de 30 anos. Tal discrep\u00e2ncia, de acordo com a autora \u201c[\u2026] inevitavelmente gera simplifica\u00e7\u00e3o e m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o do processo na China\u201d (Chaochua, p. 74). Em seu ensaio, Wang Chaohua tenta equalizar tais discrep\u00e2ncias em dois movimentos: no primeiro, ela fornece positividade ao espelho russo, ressaltando elementos qualitativos daquela em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o chinesa, tais como o car\u00e1ter mais sofisticado da utopia revolucion\u00e1ria russa e o amplo apoio da URSS a movimentos comunistas internacionais. O segundo movimento \u00e9 um olhar mais aprofundado sobre o per\u00edodo de reformas p\u00f3s-Mao, cujo desenvolvimento acabou, de acordo com a autora, por desenraizar o PCC de suas tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, sujeitando todas as estrat\u00e9gias \u00e0\u00a0<em>Realpolitik<\/em>\u00a0em favor do desenvolvimento a qualquer custo. O avan\u00e7o da economia acabou por ocultar as contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas internas, expressadas por problemas de car\u00e1ter sucess\u00f3rio; pela concentra\u00e7\u00e3o de poder na figura do presidente; pelo potente aparator repressor; a forma\u00e7\u00e3o de um subproletariado em escala in\u00e9dita na hist\u00f3ria mundial; e esvaziamento do discurso socialista, cujas promessas garantiram a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o em primeiro lugar. Para Chaochua, o \u201csocialismo de caracter\u00edsticas chinesas\u201d serve somente para mascarar o oposto dos pr\u00edncipios que supostamente defende.<\/p>\n<p>O posf\u00e1cio da obra \u2013 \u201cRumo e Repress\u00e3o\u201d \u2013 ficou ao encargo da antrop\u00f3loga Rosana Pinheiro-Machado. A autora nos apresenta um conjunto de perman\u00eancias hist\u00f3ricas milenares presentes nas estruturas de poder chinesas e a forma como tais estruturas s\u00e3o convocadas com o objetivo de dar legitimidade \u00e0s autoridades. Respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es e a cren\u00e7a no equil\u00edbrio do universo s\u00e3o alguns dos elementos trazidos \u00e0s pr\u00e1ticas do poder pelo legado de sistemas filos\u00f3ficos, como o confucionismo, o tao\u00edsmo e o legalismo, cuja ativa\u00e7\u00e3o fornece o alicerce para a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Xiaokang<\/em>\u00a0(conforto econ\u00f4mico), conceito central para o desenvolvimento desse posf\u00e1cio. Como afirma Pinheiro Machado: \u201c[\u2026] \u2018a grande harmonia\u2019 confuciana entre o mandato celestial dos governantes e a popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe com xiaokang\u201d (Pinheiro-Machado, 2018: p. 117). Atrav\u00e9s da percep\u00e7\u00e3o de conforto e rumo, as insatisfa\u00e7\u00f5es populares tendem a se voltar contra poderes locais, poupando por isso os poderes centrais.\u00a0 A autora demonstra que o\u00a0<em>Xiaokang<\/em>\u00a0configura formas particulares de a\u00e7\u00e3o coletiva dos chineses, cujo direito de rebeli\u00e3o n\u00e3o deve interfirir na estabilidade. Seu trabalho ajuda a corroer o falso mito da passividade chinesa frente a um estado autorit\u00e1rio: ocorrem a cada ano mais de 3000 greves e 200.000 protestos na China. Esses n\u00fameros mostram uma pungente vida coletiva e que vai ao encontro da caracter\u00edstica en\u00e9rgica que Perry Anderson imputa ao povo chin\u00eas, sem no entanto colocar em risco o aparato governamental do PCC chin\u00eas, que traz a China para a vanguarda da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de \u201cdesenvolvimentismo de sobreviv\u00eancia\u201d, conceito que Pinheiro-Machado utiliza para explicar um modelo de exporta\u00e7\u00e3o baseado na produ\u00e7\u00e3o de manufaturas baratas, trabalho intensivo e manipula\u00e7\u00e3o da moeda. A despeito da viol\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que caracterizavam essa fase, o padr\u00e3o de vida da cidade e do campo melhorou.\u00a0<em>Xiaokang<\/em>. (Pinheiro-Machado, 2018: p.125)<\/p>\n<p>\u00c9 por meio do\u00a0<em>Xiaokang<\/em>\u00a0que a China mant\u00e9m a concilia\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00e3o coletiva e repress\u00e3o. Pinheiro-Machado demonstra como tal conceito permeia mesmo os momentos mais explosivos de contesta\u00e7\u00e3o dos poderes estabelecidos, como a RCP. A autora nos mostra que a China \u201c\u2026tem demasiada hist\u00f3ria e demasiado sentido hist\u00f3rico para abandonar seus tiques milenares de governar\u201d (p 125) e ajuda a olharmos para o \u201cImp\u00e9rio do Meio\u201d de forma menos estranhada, e talvez por isso, com mais assombro.<\/p>\n<p>Perry Anderson realiza um s\u00f3lido trabalho de s\u00edntese em seu ensaio\u00a0<em>Duas Revolu\u00e7\u00f5es<\/em>, apresentando ao leitor, em 44 p\u00e1ginas, um panorama do desenvolvimento do modelo socialista chin\u00eas a partir dos pontos de contato e ruptura entre os estados nascidos a partir das duas mais importantes revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, a russa e a chinesa. No entanto, \u00e9 for\u00e7oso dizer que as cr\u00edticas de Wang Chaohua ao trabalho de Anderson fazem eco. A assimetria de tratamento que Anderson presta \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es em desfavor da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, servindo t\u00e3o somente para real\u00e7ar o sucesso da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, coloca em xeque o objetivo comparativo que se espera ao ler o t\u00edtulo da obra. Nesse sentido, a r\u00e9plica de Chaohua, antes de negar, complementa o esfor\u00e7o comparativo de Anderson ao delinear aspectos pol\u00edtico-sociais da Revolu\u00e7\u00e3o Russa que acabam por passar despercebidos ou pouco tratados pelo historiador brit\u00e2nico e apresenta de forma mais pormenorizada contradi\u00e7\u00f5es internas presentes no modelo chin\u00eas que problematizam algumas simplifica\u00e7\u00f5es presentes no ensaio de Perry Anderson. Talvez em decorr\u00eancia do modelo metodol\u00f3gico escolhido pelo autor \u2013 uma compara\u00e7\u00e3o em reflexo das duas revolu\u00e7\u00f5es a partir de seus pontos de contato e ruptura \u2013 tamb\u00e9m sentimos falta de um \u201cponto de invers\u00e3o\u201d: similaridades poss\u00edveis entre as reformas chinesas nos anos 80 e a Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica (NEP) de Lenin e Bukharin, datada dos anos heroicos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Em que medida a introdu\u00e7\u00e3o da economia de mercado, o direito \u00e0 propriedade do excedente de produ\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo \u00e0 competi\u00e7\u00e3o entre empresas estatais em torno da possibilidade de lucro n\u00e3o refletem a influ\u00eancia e o apre\u00e7o que Deng Xiao Ping nutria pelo NEP (HUI, 2017: pp.\u00a0 705), inclusive como resposta \u00e0 economia de comando gessificada dos anos brejnevistas? Perry Anderson dedica pouco espa\u00e7o para o NEP, ressaltando unicamente seu car\u00e1ter limitado. Esta \u00e9 uma abordagem que a obra deixa em aberto e que faz coro \u00e0 forma assim\u00e9trica com que Anderson trata os Estados sovi\u00e9tico e Chin\u00eas. Resta em aberto a inc\u00f3gnita acerca do destino que espera o desenlace do \u201csocialismo \u00e0 moda chinesa\u201d, uma charada que nem os mais usados futur\u00f3logos ousam apontar. Perry Anderson nos possibilita a partir de sua leitura um vislumbre das tramas que acobertam tal destino.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Perry Anderson.\u00a0<em>Duas revolu\u00e7\u00f5es: R\u00fassia e China.\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo, Boitempo, 126 p\u00e1gs.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"0bk4k5I6V4\"><p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/duas-revolucoes-russia-e-china\/\">Duas Revolu\u00e7\u00f5es: R\u00fassia e China<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Duas Revolu\u00e7\u00f5es: R\u00fassia e China&#8221; &#8212; A Terra \u00e9 Redonda\" src=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/duas-revolucoes-russia-e-china\/embed\/#?secret=XB8BMyjBu3#?secret=0bk4k5I6V4\" data-secret=\"0bk4k5I6V4\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Ramos de Toledo &#8211; Coment\u00e1rio sobre o livro de Perry Anderson Publicado em 2010 na revista\u00a0New Left Review, importante peri\u00f3dico de teoria e an\u00e1lise marxista,\u00a0Duas Revolu\u00e7\u00f5es\u00a0apresentou um esfor\u00e7o comparativo de Perry Anderson para compreender os d\u00edspares destinos que esperavam as Revolu\u00e7\u00f5es Russa e Chinesa no final do s\u00e9culo XX. 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