{"id":12905,"date":"2020-04-14T09:30:18","date_gmt":"2020-04-14T12:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=12905"},"modified":"2020-04-12T16:32:34","modified_gmt":"2020-04-12T19:32:34","slug":"a-esquerda-volta-a-pensar-alem-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/04\/14\/a-esquerda-volta-a-pensar-alem-do-capital\/","title":{"rendered":"A esquerda volta a pensar al\u00e9m do capital"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andy Beckett<\/strong> &#8211;\u00a0Surpresa: nos EUA e Inglaterra, uma nova gera\u00e7\u00e3o de economistas rejeita a ideia de adaptar-se ao sistema e formula projetos opostos \u00e0 ditadura das corpora\u00e7\u00f5es e das finan\u00e7as. Quem s\u00e3o eles? Que ambiente pol\u00edtico favorece esta ousadia?<\/p>\n<p>Por quase meio s\u00e9culo, algo vital tem faltado na pol\u00edtica do campo da esquerda em pa\u00edses ocidentais. Desde os anos 1970, a esquerda mudou o modo de pensar de muitas pessoas sobre preconceito, identidade pessoal e liberdade. Ela exp\u00f4s as crueldades do capitalismo. Algumas vezes ganhou elei\u00e7\u00f5es e \u00e0s vezes governou de forma eficaz. Mas n\u00e3o tem sido capaz de mudar, em ess\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es de riqueza e o trabalho em nossas sociedades \u2013 nem de oferecer uma vis\u00e3o convincente sobre como isso pode ser feito. A esquerda, em resumo, n\u00e3o teve uma pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A direita tem. Privatiza\u00e7\u00e3o, desregulamenta\u00e7\u00e3o, impostos menores para as empresas e e os ricos, mais poder para empregadores e acionistas, menos poder aos trabalhadores. Articuladas, estas pol\u00edticas recrudesceram o capitalismo e o tornaram mais onipresente que nunca. Imensos esfor\u00e7os foram feitos para tornar o capitalismo inevit\u00e1vel e para retratar como imposs\u00edvel qualquer alternativa.<\/p>\n<p>Neste ambiente cada vez mais hostil, a abordagem econ\u00f4mica da esquerda tem sido reativa. Ela resiste a estas enormes mudan\u00e7as, frequentemente em v\u00e3o e muitas vezes voltando-se ao passado, nost\u00e1lgica. Por muitas d\u00e9cadas os mesmos dois analistas cr\u00edticos do capitalismo, Karl Marx e John Maynard Keynes, continuaram a dominar a imagina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da esquerda. Marx morreu em 1883, Keynes em 1946. A \u00faltima vez que suas ideias tiveram uma influ\u00eancia significativa em governos ocidentais ou eleitores foi h\u00e1 40 anos, durante os turbulentos dias finais da social democracia p\u00f3s-guerra. Desde ent\u00e3o, direitistas e centristas rotulam qualquer argumento em favor de superar o capitalismo \u2013 ou mesmo de fre\u00e1-lo, como um desejo de fazer o mundo \u201cretroceder aos anos 70\u201d. Alterar nosso sistema econ\u00f4mico tem sido apresentado como uma fantasia \u2014 t\u00e3o poss\u00edvel quanto viagens no tempo.<\/p>\n<p>No entando, h\u00e1 anos o sistema come\u00e7ou a falhar. Em vez de uma prosperidade sustent\u00e1vel e compartilhada, produziu estagna\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, cada vez mais trabalhadores na pobreza, desigualdade crescente, crises banc\u00e1rias, convuls\u00f5es de ultra-direita e iminente cat\u00e1strofe clim\u00e1tica. At\u00e9 mesmo pol\u00edticos da direita reconhecem, por vezes, a seriedade da crise. Na confer\u00eancia do Partido Conservador brit\u00e2nico do ano passado, o chanceler, Philip Hammond, admitiu que \u201cuma lacuna se abriu\u201d no Ocidente \u201centre o que uma economia de mercado proporciona, em teoria \u2026e a realidade\u201d. Ele continua: \u201cMuitas pessoas sentem isso\u2026o sistema n\u00e3o est\u00e1 funcionando para elas.\u201d<\/p>\n<p>Come\u00e7a a surgir a no\u00e7\u00e3o de que um nova forma de economia \u00e9 necess\u00e1ria: mais justa, mais inclusiva, menos exploradora, menos destruidora da sociedade e do planeta. \u201cEstamos num momento em que as pessoas est\u00e3o muito mais abertas \u00e0 ideias econ\u00f4micas radicais,\u201d admite Michael Jacobs, um ex assessor do primeiro-ministro ingl\u00eas Gordon Brown. \u201cOs eleitores revoltaram-se contra o neoliberalismo.\u201d A crise financeira de 2008 e as antes impens\u00e1veis interven\u00e7\u00f5es dos governos que a detiveram desacreditaram duas ortodoxias centrais do neoliberalismo: a de que o capitalismo n\u00e3o tem como fracassar e a de que o governo n\u00e3o deve intervir para mudar o funcionamento da economia.<\/p>\n<p>Um gigantesco espa\u00e7o pol\u00edtico se abriu. Uma rede emergente de intelectuais, ativistas e pol\u00edticos come\u00e7ou a aproveitar a oportunidade. Eles est\u00e3o tentando construir um novo tipo de economia de esquerda: que se reporte \u00e0s falhas da economia do s\u00e9culo XXI, mas que tamb\u00e9m explique, de forma pr\u00e1tica, como futuros governos de esquerda podem criar um sistema melhor.<\/p>\n<p>Christine Berry, uma jovem acad\u00eamica brit\u00e2nica freelancer, \u00e9 uma das figuras centrais da rede. \u201cEstamos destrinchando a economia de volta ao b\u00e1sico,\u201d ela diz. \u201cQueremos que a economia pergunte: \u2018Quem \u00e9 dono dos recursos? Quem tem o poder nas empresas?\u2019 O discurso convencional econ\u00f4mico ofusca estas quest\u00f5es, para beneficiar os poderosos.\u201d<\/p>\n<p>A nova economia de esquerda quer ver a redistribui\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico, para que todos o detenham \u2014 assim como o poder pol\u00edtico \u00e9 de todos, em uma democracia saud\u00e1vel. A redistribui\u00e7\u00e3o do poder poderia incluir a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no controle das empresas, a reorganiza\u00e7\u00e3o das economias locais para favorecer arranjos \u00e9ticos (em vez de grandes corpora\u00e7\u00f5es), ou a cooperativas tornando-se normas.<\/p>\n<p>Essa \u201ceconomia democr\u00e1tica\u201d n\u00e3o \u00e9 uma fantasia idealista: partes dela j\u00e1 est\u00e3o sendo constru\u00eddas. Sem esta transforma\u00e7\u00e3o, argumentam os novos economistas, a crescente desigualdade de poder econ\u00f4mico ir\u00e1 em breve tornar a democracia impratic\u00e1vel. \u201cSe queremos viver em sociedades democr\u00e1ticas, ent\u00e3o precisamos\u2026permitir que as comunidades modelem suas economias locais,\u201d escrevem Joe Guinan e Martin O\u2019Neill, ambos prol\u00edficos defensores da nova economia, em artigo recente para o\u00a0<em>Institute for Public Policy Research<\/em>\u00a0(IPPR). \u201cJ\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o suficiente ver a economia como uma esp\u00e9cie de dom\u00ednio tecnocr\u00e1tico \u00e0 parte, no qual os valores centrais de uma sociedade democr\u00e1tica, de alguma forma, n\u00e3o se aplicam.\u201d Al\u00e9m disso, Guinan e O\u2019Neill afirmam, tornar a economia mais democr\u00e1tica ajudar\u00e1 a revitalizar a democracia: as pessoas s\u00e3o menos propensas a sentir raiva ou apatia quando inclu\u00eddas em decis\u00f5es econ\u00f4micas que afetam fundamentalmente suas vidas.<\/p>\n<p>O projeto ambicioso dos novos economistas significa transformar a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo e o Estado, entre trabalhadores e patr\u00f5es, entre economia local e global, entre aqueles com ativos econ\u00f4micos e aqueles sem. \u201cPoder e controle econ\u00f4mico devem ser mais igualit\u00e1rios\u201d, sustenta um relat\u00f3rio do ano passado da\u00a0<a href=\"https:\/\/neweconomics.org\/\"><em>New Economics Foundation (<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/neweconomics.org\/\">NEF)<\/a>\u00a0\u2013 um thinkthank radical de Londres que age como incubadora para muitas das novas id\u00e9ias do novo movimento.<\/p>\n<p>No passado, governos brit\u00e2nicos de centro-esquerda tentaram remodelar a economia por meio de impostos \u2014 geralmente focados em rendimentos em vez de outras formas de poder econ\u00f4micos \u2014 e por nacionaliza\u00e7\u00e3o, o que significava substituir a elite do setor privado por outra, designada pelo Estado. Em vez de tais interven\u00e7\u00f5es t\u00e3o limitadas, os novos economistas querem ver mudan\u00e7as muito mais sist\u00eamicas e permanentes. Eles querem \u2014 no m\u00ednimo \u2014 mudar como o capitalismo funciona. Mas, crucialmente, querem que esta mudan\u00e7a seja apenas parcialmente iniciada e supervisionada pelo Estado, e n\u00e3o controlada por ele. Eles visualizam uma transforma\u00e7\u00e3o que acontece de forma quase org\u00e2nica, dirigida por trabalhadores e consumidores \u2013 uma esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o-violenta em c\u00e2mera lenta.<\/p>\n<p>O resultado, alegam os novos economistas, ser\u00e1 uma economia adequada \u00e0 sociedade, em vez de, como atualmente, uma sociedade subordinada \u00e0 economia. A nova economia, sugere Berry, na verdade n\u00e3o \u00e9 economia. \u00c9 \u201cuma nova vis\u00e3o de mundo\u201d.<\/p>\n<p>A chegada de um novo conjunto significativo de ideias tende a gerar certas rea\u00e7\u00f5es. O tema lota eventos. Jovens pesquisadores gravitam em sua dire\u00e7\u00e3o. Intelectuais mais velhos, por\u00e9m inquietos, est\u00e3o intrigados. Novas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o criadas ao seu redor. Jornalistas convencionais inicialmente o descartam.<\/p>\n<p>Como todos novos economistas que conhe\u00e7o, Michael Jacobs fala bem r\u00e1pido, em frases curtas, como se houvesse muito o que explicar no tempo dispon\u00edvel. Um ambientalista de longa data, ele descreve a rede emergente de novos economistas como \u201cum ecossistema\u201d. H\u00e1 um contagiante senso de tabus pol\u00edticos e econ\u00f4micos sendo quebrados e de um poss\u00edvel novo consenso nascendo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 sites brit\u00e2nicos e norte-americanos que publicam muito de nossas coisas, como o OpenDemocracy, a Jacobin e a Novara. H\u00e1 pessoas produzindo coisas enquanto trabalham para\u00a0<em>thinkthanks<\/em>\u00a0\u2014 ou montando novos\u00a0<em>thinkthanks<\/em>. E pelas redes sociais as ideias se espalham, colabora\u00e7\u00f5es acontecem, muito mais r\u00e1pido do que quando a economia de esquerda era sobre reuni\u00f5es e panfletos,\u201d diz Jacob. \u201c\u00c9 um pouco incestuoso, mas bastante empolgante.\u201d<\/p>\n<p>Este fermento est\u00e1 come\u00e7ando a se solidificar em um movimento.\u00a0<a href=\"https:\/\/neweconomyorganisers.org\/\">A\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/neweconomyorganisers.org\/\"><em>New Economy Organizers Network\u00a0<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/neweconomyorganisers.org\/\">(Neon)<\/a>, uma cis\u00e3o da NEF, localizada em Londres, oferece oficinas para ativistas de esquerda, para aprender como \u201cconstruir apoio para uma nova economia\u201d \u2014 por exemplo, construir narrativas efetivas a respeito na imprensa tradicional.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.stirtoaction.com\/\"><em>Stir to Action<\/em><\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o militante localizada em Dorset, publica uma \u201crevista para a nova economia\u201d quadrimestral e organiza sess\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o em cidades que tendem \u00e0 esquerda, como Bristol e Oxford:\u00a0<em>Cooperativas de trabalhadores: como come\u00e7ar<\/em>, ou\u00a0<em>Propriedade Comunit\u00e1ria: e se n\u00f3s mesmo administrarmos?<\/em><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um impulso totalmente novo para ativismo relacionado a economia,\u201d diz o editor da revista, Jonny Gordon-Farleigh, que anteriormente esteve envolvido em protestos anticapitalistas e ambientalistas. \u201cO movimento passou do\u00a0<em>opor-se<\/em>\u00a0ao\u00a0<em>propor<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O que aparece com essa movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade, pela primeira vez em d\u00e9cadas, de um governo do Partido Trabalhista receptivo \u00e0s novas ideias econ\u00f4micas de esquerda. John MaDonnell, ministro do governo paralelo [<em>shadow cabinet<\/em>] de Jeremy Corbyn parece entender isso,\u201d diz Gordon-Farleigh, cautelosamente. \u201cEle tem um pouco de hist\u00f3ria compartilhada com alguns de nossos movimentos. Fez coment\u00e1rios interessantes\u2026sobre introduzir uma cooperativa propriet\u00e1ria das ferrovias, por exemplo.\u201d<\/p>\n<p>Outros no movimento s\u00e3o mais otimistas. No outono [n\u00f3rdico] passado, um artigo com boa repercuss\u00e3o de Guinan e O\u2019Neil no jornal de esquerda\u00a0<em>Renewal<\/em>, alegou que McDonnell poderia estar planejando nada menos que uma \u201ctransforma\u00e7\u00e3o da economia brit\u00e2nica\u2026um programa radical para desmantelar e afastar o poder corporativo e financeiro\u201d, em benef\u00edcio dos menos privilegiados. Guinan me disse: \u201cJohn McDonnell \u00e9 extremamente curioso intelectualmente. N\u00e3o vi outra figura pol\u00edtica nesse n\u00edvel de senioridade cujas portas estejam t\u00e3o abertas a novos pensamentos.\u201d<\/p>\n<p>James Meadway, at\u00e9 recentemente um dos conselheiros chave de McDonnell, est\u00e1 agora escrevendo um livro sobre \u201cuma economia para os muitos\u201d. Entre 2010 e 2015, ele trabalhou no NEF, onde seus relat\u00f3rios e artigos esbo\u00e7aram muitos dos argumentos dos novos economistas. Diversos integrantes do NEF me disseram que desde que McDonnell tornou-se ministro-sombra, as costumeiras rela\u00e7\u00f5es entre\u00a0<em>think-tanks<\/em>\u00a0de esquerda e o Partido Trabalhista foram invertidas: em vez de tentar desesperadamente chamar a aten\u00e7\u00e3o do partido para suas propostas, eles estavam lutando para acompanhar o apetite do partido por elas. \u201cEst\u00e3o basicamente perguntando, \u2018Voc\u00eas tem mais alguma coisa a\u00ed atr\u00e1s do arm\u00e1rio?\u2019\u201d diz um satisfeito, mas levemente perplexo, veterano do NEF. \u201cN\u00f3s rabiscamos algo e damos a eles qualquer coisa que consigamos inventar, o mais r\u00e1pido que pudermos.\u201d<\/p>\n<p>Em julho passado, o NEF publicou um relat\u00f3rio em defesa de um aumento significativo do n\u00famero de cooperativas brit\u00e2nicas. Em uma das p\u00e1ginas finais, quase sem nenhum alarde, o relat\u00f3rio tamb\u00e9m prop\u00f4s que empresas convencionais tenham que dar a\u00e7\u00f5es a seus funcion\u00e1rios, para criar o que NEF chamou de um \u201cfundo inclusivo de posse\u201d. Em setembro, com algumas modifica\u00e7\u00f5es, a proposta tornou-se pol\u00edtica do Partido Trabalhista. \u201cEu nunca vi nada assim, de id\u00e9ia do thinkthank para uma pol\u00edtica adotada!\u201d diz Mathew Lawrence, um dos autores do relat\u00f3rio. Este m\u00eas, uma vers\u00e3o da pol\u00edtica tamb\u00e9m foi adotada pelo candidato presidencial dos EUA, Bernie Sanders.<\/p>\n<p>E ainda assim, fora do c\u00edrculo de McDonnell e da esquerda radical, a nova economia tem passado largamente despercebida \u2013 ou tem sido casualmente ridicularizada. Os buracos negros do Brexit e a disputa de lideran\u00e7a do Partido Conservador s\u00e3o parcialmente respons\u00e1veis, sugando a aten\u00e7\u00e3o de tudo o mais. Mas \u00e9 tamb\u00e9m a natureza radical da pr\u00f3pria nova economia. Transformar ou acabar com o capitalismo tal como o conhecemos \u2014 os novos economistas diferem sobre qual \u00e9 o objetivo \u2014 \u00e9 uma id\u00e9ia dif\u00edcil para a maioria dos pol\u00edticos e jornalistas brit\u00e2nicos. Depois de meio s\u00e9culo aceitando o\u00a0<em>status quo\u00a0<\/em>econ\u00f4mico, eles associaram qualquer alternativa de esquerda ou com a desatualizada social democracia do p\u00f3s-guerra ou com autoritarismo de esquerda, com a atual Venezuela ou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa o qu\u00e3o frequentemente McDonnell diga em entrevistas que ele quer ver uma economia democr\u00e1tica, o adjetivo que mais lhe \u00e9 aplicado ainda \u00e9 \u201cMarxista\u201d. \u201cO novo pensamento econ\u00f4mico \u00e9 quase como uma frequ\u00eancia que n\u00e3o pode ser ouvida,\u201d diz Guinan.<\/p>\n<p>Mas com o neoliberalismo fraquejando, e a direita desprovida de outras ideias econ\u00f4micas, a nova economia da esquerda pode ter um longo futuro \u2013 ainda que o Partido Trabalhista n\u00e3o volte ao governo. Parodiando uma fala de Thatcher, agora h\u00e1 uma alternativa.<\/p>\n<p>O sonho de uma economia democr\u00e1tica oscilou nas margens da pol\u00edtica de esquerda por pelo menos um s\u00e9culo. Durante os anos 1920, os te\u00f3ricos socialistas brit\u00e2nicos GDH Cole e RH Tawney escreveram livros frescos e provocativos, argumentando que trabalhadores deveriam administrar as empresas eles pr\u00f3prios, em vez de se submeterem a patr\u00f5es e acionistas \u2013 ou ao Estado, como te\u00f3ricos mais ortodoxos do Partido Trabalhista previam. Na vida econ\u00f4mica, como na pol\u00edtica, argumentou Tawney em 1921, \u201cos homens n\u00e3o devem ser governados por uma autoridade que n\u00e3o podem controlar\u201d.<\/p>\n<p>Este empoderamento de trabalhadores foi concebido para ser o primeiro passo de uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla. \u201cO real objetivo,\u201d escreveu Cole em 1920, deve ser \u201carrancar o poder econ\u00f4mico das classes propriet\u00e1rias, peda\u00e7o por peda\u00e7o\u201d, para finalmente \u201ctornar poss\u00edvel uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa da renda nacional e uma reorganiza\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel da sociedade como um todo\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, Cole era vago sobre como aconteceria a invers\u00e3o desta ordem tradicional. Ele descartava uma revolu\u00e7\u00e3o, e uma greve geral, baseando-se no fato de que trabalhadores n\u00e3o tinham o acesso necess\u00e1rio a armamentos ou recursos econ\u00f4micos para derrotar seus patr\u00f5es em uma luta industrial prolongada. Um governo trabalhista ousado poderia, teoricamente, aprovar a legisla\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria; mas os governos trabalhistas dos anos 1920\u00a0 e 1930 eram t\u00edmidos e n\u00e3o duraram muito.<\/p>\n<p>Quando o Partido Trabalhista adquiriu a confian\u00e7a e o tempo para reconfigurar a economia, durante os governos dos primeiros-ministros Clemente Attlee, na d\u00e9cada de 1940 e de Harold Wilson, na d\u00e9cada de 60, o partido escolheu faz\u00ea-lo por meio dos planos e burocracias de Whitehall [N.T.: centro administrativo do Reino Unido], tais como o Departamento de Assuntos Econ\u00f4micos (DEA, na sigla em ingl\u00eas) de Wilson, em vez de por meio da democratiza\u00e7\u00e3o da economia. Os resultados foram mistos: o DEA durou apenas cinco anos.<\/p>\n<p>Somente nos anos 1970 um poderoso pol\u00edtico trabalhista interessou-se em democratizar a economia. Tony Benn foi bastante atento ao aumento do individualismo durante a d\u00e9cada. \u201cMais pessoas querem fazer mais para elas mesmas,\u201d escreveu em 1970. \u201cA tecnologia libera for\u00e7as que permitem e encorajam descentraliza\u00e7\u00e3o\u2026 Deve ser um objetivo priorit\u00e1rio dos socialistas trabalhar pela redistribui\u00e7\u00e3o de poder.\u201d<\/p>\n<p>Em 1974, Wilson tornou Benn ministro da Ind\u00fastria. A economia estava em dificuldades. Benn supervisionava e subsidiava cooperativas administradas por trabalhadores em tr\u00eas grandes neg\u00f3cios que estavam padecendo: o\u00a0<em>Scottish Daily News<\/em>, um jornal de Glasgow, a\u00a0<em>Kirkby Manufacturing and Engineering<\/em>, um produtor de radiadores em Liverpool e a\u00a0<em>Meriden<\/em>, produtora de motocicletas em West Midlands. Os desafios que estas cooperativas encaravam \u2014 falta de investimento pr\u00e9vio e fortes rivais dom\u00e9sticos e estrangeiros \u2014 eram agravados por antip\u00e1ticos funcion\u00e1rios, economicamente conservadores, no departamento de Benn. Um relat\u00f3rio imparcial de 1981 sobre as cooperativas, feito pela revista de esquerda\u00a0<em>New Internationalist,<\/em>\u00a0descreveu-as como condenadas desde o in\u00edcio \u2013 elas eram \u201cgigantes incapazes\u201d.<\/p>\n<p>A cooperativa\u00a0<em>Scottish Daily News<\/em>\u00a0durou cinco meses. A cooperativa\u00a0<em>Kirby<\/em>\u00a0foi melhor. Eric Heffer, um ministro que trabalhou para Benn, encontrou l\u00e1 administradores de centrais sindicais \u201ctransformados por suas experi\u00eancias\u201d de ajudar a administrar os neg\u00f3cios. Eles se tornaram \u201cadministradores-trabalhadores reais\u201d. A cooperativa resistiu \u00e0 recess\u00e3o dos anos 70. Mas logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 1979, o governo de Margaret Thatcher terminou o experimento ao cancelar os subs\u00eddios da\u00a0<em>Kirby<\/em>. A\u00a0<em>Meriden\u00a0<\/em>sobreviveu \u00e0 mudan\u00e7a de governo e mais outra recess\u00e3o no in\u00edcio dos anos 1980. Mas declarou fal\u00eancia em 1983.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Benn durou apenas um ano no minist\u00e9rio da Ind\u00fastria, antes de ser removido por Wilson, que nunca aceitou completamente seu radicalismo. Benn nunca mais esteve \u00e0 frente de algum posto econ\u00f4mico central. A saga \u201csolapou a op\u00e7\u00e3o por cooperativas nos c\u00edrculos de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas do Partido Trabalhista nas d\u00e9cadas seguintes\u201d, diz Gordon-Farleigh.<\/p>\n<p>Da demiss\u00e3o de Benn em 1975 \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Jeremy Corbyn como l\u00edder trabalhista, 40 anos depois, a hierarquia do partido aceitou amplamente que a economia deveria ser baseada em lucro, competi\u00e7\u00e3o, e administra\u00e7\u00e3o de cima para-baixo. As tentativas de Benn e outros na esquerda brit\u00e2nica, durante os anos 70, de estabelecer o que eles por vezes chamavam, provocativamente, de \u201ccontrole dos trabalhadores\u201d foram largamente esquecidas, ou lembradas como apenas mais uma das utopias fracassadas de uma d\u00e9cada ridicularizada. A chance de uma economia democr\u00e1tica parecia ter passado.<\/p>\n<p>Ainda assim, durante os anos magros que se seguiram para a esquerda brit\u00e2nica, outro experimento em democratiza\u00e7\u00e3o da economia come\u00e7ou \u2013 do outro lado do Atl\u00e2ntico, em um pa\u00eds menos associado com revoltas contra o capitalismo. Foi mais local, mas tamb\u00e9m mais profundo do que o apoio de Benn a cooperativas vulner\u00e1veis, e buscava mobilizar o poder dos consumidores, em vez dos produtores.<\/p>\n<p>Gar Alperovitz \u00e9 um economista e ativista norte-americano de 83 anos. Desde os anos 1960, tem persistentemente promovido inova\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que colocam objetivos sociais antes de comerciais. Frequentemente, tem sido uma figura perif\u00e9rica, mas atraiu bastante aten\u00e7\u00e3o intermitentemente. Em 1983, apareceu com destaque em uma mat\u00e9ria de capa da\u00a0<em>Time<\/em>\u00a0sobre o futuro da economia. Em 2000, na Universidade de Maryland, co-fundou o\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>, um centro para pesquisa sobre como recuperar a vida pol\u00edtica e econ\u00f4mica de regi\u00f5es em decl\u00ednio nos EUA \u2013 que por sua vez tamb\u00e9m se expandiu gradualmente em um corpo ativista.<\/p>\n<p>\u201cCidades norte-americanas com problemas est\u00e3o em um est\u00e1gio mais avan\u00e7ado de decl\u00ednio de que suas equivalentes brit\u00e2nicas,\u201d diz Guinan, que trabalhou no\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>\u00a0por uma d\u00e9cada. \u201cMas o governo norte-americano local tamb\u00e9m tem maiores poderes. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel criar novos modelos radicais da base para cima.\u201d<\/p>\n<p>Em 2008, o\u00a0\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>\u00a0come\u00e7ou a trabalhar em Cleveland, uma das grandes cidades mais pobres dos EUA, que tem perdido empregos e moradores h\u00e1 d\u00e9cadas. Os ativistas seguiram uma estrat\u00e9gia de Alperovitz chamada \u201cconstru\u00e7\u00e3o de riqueza comunit\u00e1ria\u201d. Ela busca acabar com a depend\u00eancia destas economias locais em dificuldade, de rela\u00e7\u00f5es com corpora\u00e7\u00f5es distantes, extratoras de riqueza \u2013 como as redes de varejistas. Em vez disso, tenta articular estas economias ao redor de neg\u00f3cios locais, mais socialmente conscientes.<\/p>\n<p>Em Cleveland, o\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>\u00a0ajudou a montar uma companhia de energia solar, uma lavanderia industrial, uma horta hidrop\u00f4nica no centro da cidade. Os tr\u00eas empreendimentos eram de propriedade de seus funcion\u00e1rios, e uma parte de seus lucros ia para uma esp\u00e9cie de companhia central, encarregada de estabelecer mais cooperativas na cidade. Os tr\u00eas empreendimentos tiveram sucesso, por enquanto. O objetivo do projeto foi resumido em termos francos, quase populistas, por um dos co-fundadores do D<em>emocracy Collaborative<\/em>, Ted Howard, em 2017: \u201cParem com o vazamento de dinheiro para fora de nossa comunidade.\u201d Mas a \u201cconstru\u00e7\u00e3o de riqueza comunit\u00e1ria\u201d tamb\u00e9m tem um prop\u00f3sito mais sutil: \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o concreta de que decis\u00f5es econ\u00f4micas podem ser baseadas em mais do que os limitados crit\u00e9rios do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Howard estava falando em uma confer\u00eancia de nova economia na Inglaterra, que foi organizada por McDonnell. Os dois t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima. Ano passado, McDonnell introduziu Howard em outro evento do Partido Trabalhista, em Preston: \u201cN\u00f3s o trazemos com alguma regularidade agora, para explicar o trabalho que fez.\u201d<\/p>\n<p>McDonnell interessa-se h\u00e1 muito tempo em descentralizar e democratizar a economia. Ele frequentemente cita Tawney, Cole e Benn em palestras. Durante os anos 80, era o representante l\u00edder e efetivamente o chanceler do Conselho da Grande Londres [GLC, na sigla em ingl\u00eas], que buscava experimentos ao estilo de Benn, de cooperativas com apoio estatal, com resultados similarmente mistos, at\u00e9 que foi abolido por Thatcher em 1986.<\/p>\n<p>Contr\u00e1ria \u00e0 imagem que o retratam, como um monstro estatista, McDonnell acredita que h\u00e1 limites em at\u00e9 que ponto a esquerda consegue aumentar impostos e gastos p\u00fablicos. Em sua perspectiva, muitos eleitores n\u00e3o est\u00e3o dispostos, ou est\u00e3o incapazes, de pagar mais impostos \u2013 especialmente quando os padr\u00f5es de vida est\u00e3o apertados. Ele tamb\u00e9m acredita que governos centrais perderam sua autoridade. S\u00e3o vistos simultaneamente como muito fracos, com pouco dinheiro devido \u00e0 austeridade; e tamb\u00e9m como muito fortes, muito intrusivos e impositivos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seus cidad\u00e3os. Em vez de depender do Estado para criar uma sociedade melhor, um dos aliados pr\u00f3ximos de McDonnell, argumenta que governos de esquerda, em n\u00edvel nacional ou municipal \u201ct\u00eam de ousar mudar o funcionamento da economia\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos recentes, com o est\u00edmulo de McDonnell e Jeremy Corbyn, e a orienta\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>, muitos dos princ\u00edpios do \u201cmodelo de Cleveland\u201d foram adotados pelo Conselho administrado pelo Partido Trabalhista na pequena (e anteriormente industrial) cidade de Preston, em Lancashire. A regenera\u00e7\u00e3o tem sido promovida como o pren\u00fancio da Gr\u00e3-Bretanha sob um governo Corbyn.<\/p>\n<p>A cidade de Preston, um centro urbano que declinou por d\u00e9cadas, agora tem um mercado renovado e movimentado, novos est\u00fadios art\u00edsticos em antigos escrit\u00f3rios do Conselho, e caf\u00e9 e cerveja artesanal sendo vendidas em\u00a0<em>containers\u00a0<\/em>mar\u00edtimos modificados. Todos estes empreendimentos tem sido facilitados pelo Conselho. De forma menos vis\u00edvel, mas provavelmente mais importante, outras institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013 um hospital, uma universidade, uma delegacia policial \u2013 foram persuadidas pelo Conselho a buscar bens e servi\u00e7os locais sempre que poss\u00edvel, tornando-se o que o\u00a0<em>Democracy Collaborative<\/em>\u00a0chama de \u201cinstitui\u00e7\u00f5es \u00e2ncora\u201d. Elas agora gastam quase quatro vezes mais de seus or\u00e7amentos em Preston do que faziam em 2013.<\/p>\n<p>O l\u00edder do Conselho \u00e9 Matthew Brown, um homem intenso, angular, de 46 anos, que foi parcialmente estimulado a entrar na pol\u00edtica ao ver Benn na televis\u00e3o quando era adolescente. \u201cO que estamos fazendo em Preston \u00e9 bom senso, mas \u00e9 tamb\u00e9m ideol\u00f3gico,\u201d me disse Brown, quando nos conhecemos em seu diminuto escrit\u00f3rio. \u201cN\u00f3s estamos vivendo uma crise sist\u00eamica do capitalismo e temos que criar alternativas.\u201d Ao faz\u00ea-lo \u2013 especialmente num momento em que Conselhos locais est\u00e3o sendo altamente enfraquecidos pelos cortes governamentais \u2013 Preston est\u00e1, de forma pequena mas vis\u00edvel, minando a autoridade do neoliberalismo, que depende do dogma segundo o qual outras op\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O Conselho, continuou Brown orgulhosamente, estava \u201capoiando pequenos neg\u00f3cios locais em vez de grandes capitalistas\u201d. Ele estava usando isso como alavanca para fazer as empresas se comportarem de forma mais \u00e9tica: pagamento de sal\u00e1rio m\u00ednimo, recrutamento de equipes mais diversas. E estava buscando tornar a cidade um lugar onde cooperativas s\u00e3o o\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0e n\u00e3o nichos: \u201cMinha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 lev\u00e1-las a dirigir 30% ou 40% de nossa economia.<\/p>\n<p>Perguntei se ele tinha d\u00favidas sobre a possibilidade de uma cidade com menos de 150 mil habitantes servir de modelo para reformular a toda a economia brit\u00e2nica \u2013 e por consequ\u00eancia, outras economias. \u201cN\u00e3o,\u201d ele disse. \u201cEu sou bem determinado.\u201d<\/p>\n<p>Sente-se uma confian\u00e7a nos novos economistas, o que surpreende depois de todas as derrotas da esquerda durante os anos 80 e 90. Mas com o capitalismo menos potente e popular do que antes, os novos economistas acreditam que agora est\u00e3o engajados no que o te\u00f3rico pol\u00edtico Antonio Gramsci \u2014 uma grande refer\u00eancia para eles e McDonnell \u2014 chamou de \u201cguerra de posi\u00e7\u00e3o\u201d. Trata-se da acumula\u00e7\u00e3o est\u00e1vel de alian\u00e7as, ideias e credibilidade p\u00fablica. Berry descreveu este processo como uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d que pode levar a uma economia diferente. McDonnell me disse em 2017 que ele queria \u201cuma transforma\u00e7\u00e3o progressiva de nosso sistema econ\u00f4mico\u201d.<\/p>\n<p>Algumas horas depois de encontrar Brown em Preston, falei com McDonnell novamente sobre a nova vitalidade intelectual da esquerda. \u201cN\u00f3s estamos come\u00e7ando a reconstruir o que t\u00ednhamos com Tony Benn nos anos 70,\u201d ele disse. \u201cUm conjunto de grupos de pesquisa \u2014 NEF e\u00a0<a href=\"http:\/\/classonline.org.uk\/\"><em>Class<\/em><\/a>\u00a0[outro thinkthank de esquerda em economia] \u2013 tem sido revitalizados. Michael Jacobs est\u00e1 cheio de id\u00e9ias. N\u00f3s estamos argumentando efetivamente por uma economia mais democr\u00e1tica. Dobrar o n\u00famero de cooperativas no Reino Unido\u201d \u2013 algo que a NEF defendeu ano passado \u2013 \u201c\u00e9 relativamente t\u00edmido. N\u00f3s queremos ir al\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o deu mais detalhes. Mas a pol\u00edtica do \u201cfundo inclusivo de posse\u201d adotada pelo Partido Trabalhista mostra o potencial das id\u00e9ias da nova economia. A inten\u00e7\u00e3o dos fundos \u00e9 que sejam cavalos de Tr\u00f3ia. Ou seja, inserirna estrutura de propriedade de uma companhia um grupo de acionistas \u2013 seus funcion\u00e1rios \u2013 que tendem a favorecer maiores sal\u00e1rios e investimentos de longo-prazo. \u201cOs fundos s\u00e3o para fazer pender a balan\u00e7a rumo a um tipo diferente de cultura corporativa, diz Lawrence.\u201d Ou, como afirma a escritora e ativista Hilary Wainwright, uma das intelectuais mais perspicazes da esquerda do Partido Trabalhista desde os anos 70: \u201cTransforma\u00e7\u00f5es radicais, quando desestabilizam o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0do jeito certo, cria outras oportunidades para mudan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Mas tornar a nova economia em pol\u00edtica nacional ser\u00e1 dif\u00edcil, mesmo que o Partido Trabalhista conquiste poder. \u00daltimo ver\u00e3o, a diretora do NEF, Miatta Fahnbulleh, foi convidada para uma conversa com servidores do Tesouro Civil, sobre a nova economia. \u201cQuando cheguei l\u00e1,\u201d ela me contou, \u201ceu rapidamente me dei conta que, para o Tesouro, a nova economia significa apenas tecnologia. Quando eu comecei a falar, em vez disso, sobre como a economia poderia operar diferente, eles compraram minha premissa de que o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0tem problemas. Eles s\u00e3o o Tesouro, t\u00eam os dados. Acharam que a nova economia era interessante, mas somente como uma esp\u00e9cie de plataforma de debate.\u201d<\/p>\n<p>Antes da NEF, Fahnbulleh trabalhou para o gabinete do governo e para a estrat\u00e9gia institucional do governo. Ela prev\u00ea que haver\u00e1 resist\u00eancia em \u00e0 nova economia: \u201cWhitehall odeia grandes mudan\u00e7as \u2014 todas as vezes.\u201d Jacobs, que tem uma experi\u00eancia mais longa de governo, \u00e9 levemente mais otimista. \u201cAlguns jovens do Tesouro provavelmente ir\u00e3o ficar bem empolgados com uma nova abordagem econ\u00f4mica. Alguns dos mais velhos v\u00e3o achar que est\u00e1 tudo errado. E outros ir\u00e3o apenas implementar qualquer coisa que o governo pedir.\u201d<\/p>\n<p>E h\u00e1 o\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0corporativo. Desde Margareth Thatcher, ele se habituou com governos d\u00f3ceis, com ser capaz de se sobrepor a outros grupos de interesse e com os lucro e pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es superando outras medidas de valor econ\u00f4mico ou social de uma empresa. A inten\u00e7\u00e3o dos novos economistas em encerrar este desequil\u00edbrio n\u00e3o foi bem aceita. \u201cA Confedera\u00e7\u00e3o da Ind\u00fastria Brit\u00e2nica (CBI, na sigla em ingl\u00eas) realmente odeia propriedade inclusiva,\u201d diz um aliado de McDonnell. \u201cVoc\u00ea consegue sentir os arrepios sempre que suscitamos o assunto.\u201d<\/p>\n<p>Quando indaquei \u00e0 CBI suas perspectivas sobre a nova economia, houve um sil\u00eancio por uma semana. Ent\u00e3o, depois que os persegui, uma sucinta declara\u00e7\u00e3o: \u201cO Partido Trabalhista parece estar determinado em impor regras que demonstram uma deliberada falta de entendimento de neg\u00f3cios.\u201d<\/p>\n<p>Os novos economistas dizem n\u00e3o estar intimidados. \u201cN\u00f3s precisamos ser absolutamente francos sobre isso,\u201d diz Guinan. \u201cUma economia democr\u00e1tica e outra exploradora s\u00e3o fundamentalmente incompat\u00edveis. Devemos montar um ataque direto, de esquerda populista, a estes interesses corporativos. Devemos dizer a eles: \u2018Que v\u00e3o para Singapura!\u2019 A esquerda n\u00e3o deve temer um pouco de destrui\u00e7\u00e3o criadora\u201d, ele diz tomando emprestada, de modo atrevido, uma frase geralmente usada pelos defensores do \u201clivre\u201d mercado. Jacob concorda: \u201cQue as corpora\u00e7\u00f5es exploradoras v\u00e3o \u00e0 fal\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Isso pode parecer uma imprudente fantasia de esquerda. Mas os novos economistas argumentam de forma convincente que transforma\u00e7\u00f5es altamente disruptivas ocorrer\u00e3o na economia brit\u00e2nica, de qualquer forma \u2013 devido ao Brexit, \u00e0 automa\u00e7\u00e3o e \u00e0 crise clim\u00e1tica. \u201cO Brexit por si s\u00f3 ir\u00e1 requerer um Estado bem intervencionista\u201d para ajudar a economia a se adaptar, diz Lawrence. \u201cEle ir\u00e1 tornar muito mais dif\u00edcil para um servidor p\u00fablico dizer, \u2018Voc\u00ea simplesmente n\u00e3o pode fazer isso.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Mas o que os novos economistas querem que venha depois do capitalismo neoliberal? Em Preston, depois que Brown me falou missionariamente acerca das virtudes de \u201cneg\u00f3cios locais\u201d e \u201cempregos locais\u201d, perguntei se seu conselho n\u00e3o estava, na verdade, salvando o capitalismo na cidade \u2013 ao torn\u00e1-lo mais socialmente sens\u00edvel \u2013 em vez de suplant\u00e1-lo. Pela primeira vez, ele pausou. \u201cN\u00f3s temos que ser pragm\u00e1ticos,\u201d ele disse. \u201cAinda estamos em um ambiente de \u201clivre\u201d mercado. E de qualquer forma eu n\u00e3o vejo neg\u00f3cios locais como grandes capitalistas. A vasta maioria possui apenas um ou dois empregados. Quase n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para explorar. N\u00e3o h\u00e1 acionistas est\u00e3o envolvidos.\u201d Nem todo mundo na esquerda veria pequenos empreendimentos \u2014 frequentemente grandes apoiadores de partidos de direita e de pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d sociais e econ\u00f4micas \u2014 em termos t\u00e3o ben\u00e9volos.<\/p>\n<p>Posteriormente, perguntei tamb\u00e9m a McDonnell se sua abordagem n\u00e3o corria o risco de salvar \u2013 em vez de substituir \u2013 o capitalismo. Ele sorriu e acionou seu modo proverbial, que adota quando fala de quest\u00f5es complexas. \u201cQuem incorpora quem\u2026\u201d ele disse. \u201cEsse \u00e9 o debate!\u201d Ent\u00e3o, seu sorriso ficou mais malicioso. Um governo Corbyn, ele disse, iria \u201creceber\u201d os neg\u00f3cios \u201cem nosso terno abra\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>O aliado de McDonnell com quem falei disse: sempre que a quest\u00e3o da trajet\u00f3ria de longo prazo da economia surgia, nas discuss\u00f5es do Partido Trabalhista, \u201cn\u00f3s evitamos esta conversa. N\u00e3o h\u00e1 consenso no partido.\u201d E adicionou: \u201cPessoalmente, eu ficaria bem feliz se a Gr\u00e3-Bretanha terminasse como a Dinamarca.\u201d<\/p>\n<p>McDonnell frequentemente cita a Alemanha como outro pa\u00eds onde o capitalismo \u00e9 mais benigno. Wainwright, que conhece McDonnell h\u00e1 d\u00e9cadas, tem uma previs\u00e3o \u00fatil e flex\u00edvel sobre o que deve acontecer com a cultura econ\u00f4mica brit\u00e2nica, se ele se tornar ministro. \u201cEm rota rumo a uma sociedade socialista,\u201d ela diz, \u201cpode haver momentos em que um capitalismo diferente emerge\u201d. Em outras palavras, um sistema menos selvagem.<\/p>\n<p>Ainda assim, o problema da esquerda em se contentar com \u201cum capitalismo diferente\u201d (n\u00e3o importa se tempor\u00e1rio) \u00e9 que isso pode possibilitar que o capitalismo se reagrupe e ent\u00e3o retome seu progresso darwiniano. Indiscutivelmente, isso \u00e9 exatamente o que aconteceu na Gr\u00e3-Bretanha durante o \u00faltimo s\u00e9culo. Depois da recess\u00e3o econ\u00f4mica politicamente explosiva nos anos 1930 \u2013 a precursora da crise atual do capitalismo \u2013 durante os anos p\u00f3s-guerra muitas lideran\u00e7as corporativas pareceram aceitar a necessidade de uma economia mais igualit\u00e1ria, e desenvolveram rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com pol\u00edticos trabalhistas. Mas assim que a economia e a sociedade se estabilizaram, e direitistas como Thatcher come\u00e7aram a advogar sedutoramente por um retorno ao capitalismo tradicional, os empres\u00e1rios mudaram de lado.<\/p>\n<p>Outra dificuldade dos novos economistas e de seus aliados pol\u00edticos \u00e9 persuadir eleitores \u2013 criados sob a ideia de que lucro e crescimento s\u00e3o os \u00fanicos crit\u00e9rios econ\u00f4micos que importam \u2013 de que outros valores devem importar mais, daqui pra frente. Mesmo salvar o meio ambiente \u00e9 dif\u00edcil de vender. \u201cO efeito do crescimento econ\u00f4mico no planeta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o discutida suficientemente pela esquerda,\u201d admite Berry. \u201cSobre decrescimento\u201d \u2013 o atual termo ecol\u00f3gico para abandonar o crescimento como um objetivo econ\u00f4mico \u2013 \u201co Partido Trabalhista n\u00e3o quer chegar perto.\u201d concorda o aliado de McDonnell. \u201cDecrescimento,\u201d ele disse, \u201c\u00e9 uma terr\u00edvel rotula\u00e7\u00e3o.\u201d Guinan diz que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas de apresenta\u00e7\u00e3o: \u201cainda n\u00e3o foi inventada uma pol\u00edtica de decrescimento que conven\u00e7a o p\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p>Em vez disso, o Partido Trabalhista recentemente come\u00e7ou a construir uma vers\u00e3o do\u00a0<em>Green New Deal<\/em>: um sedutor esquema, mas ainda muito te\u00f3rico, defendido mais constantemente por esquerdistas e ambientalistas na Gr\u00e3-Bretanha e nos EUA na \u00faltima d\u00e9cada. Ele tem o objetivo de abordar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e alguns dos problemas da economia de forma simult\u00e2nea, por meio de um grande apoio governamental ao uso de tecnologias verdes e aos trabalhos qualificados e bem remunerados necess\u00e1rios. Em uma palestra esta semana, McDonnell disse que este precisaria ser o maior projeto em tempos de paz em muitas d\u00e9cadas. Em abril, a ministra paralela de Neg\u00f3cios, Rebecca Long-Bailey, uma parceira de McDonnell, escreveu um artigo no\u00a0<em>The Guardian<\/em>, defendendo uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica industrial\u201d, incluindo \u201cturbinas em \u00e1guas profundas no Mar do Norte\u201d, que \u201cpoderiam fornecer quatro vezes a demanda de energia de toda a Europa. Era uma vis\u00e3o bem empolgante, mas as turbinas eram a \u00fanica nova tecnologia potencial que o artigo mencionava.<\/p>\n<p>Outra grande quest\u00e3o que os novos economistas frequentemente contornam \u00e9 se muitos dos trabalhadores atuais de fato querem ter mais voz em seus espa\u00e7os de trabalho. Quando a \u201cdemocracia industrial\u201d foi a \u00faltima id\u00e9ia popular \u00e0 esquerda, nos anos 70, o trabalho era indiscutivelmente mais satisfat\u00f3rio e central na vida das pessoas. Empregos em escrit\u00f3rios estavam substituindo os empregos nas f\u00e1bricas, o trabalho era um forte motor de mobilidade social, e a associa\u00e7\u00e3o a sindicatos poderosos acostumara a maioria dos trabalhadores a ser consultados, a ter alguma ag\u00eancia em suas vidas profissionais. Mas em 2019, experi\u00eancias de empoderamento no trabalho s\u00e3o menos comuns. Para cada vez mais pessoas, n\u00e3o importa qu\u00e3o qualificadas, emprego \u00e9 de curto-prazo, de baixo status, ingrato \u2013 algo que mal faz parte de sua identidade.<\/p>\n<p>Gordon-Farleigh passou anos tentando estimular as pessoas a formar cooperativas \u2013 e nem sempre teve sucesso. \u201cO capitalismo contempor\u00e2neo produziu uma for\u00e7a de trabalho passiva,\u201d ele diz. \u201cMuitas pessoas at\u00e9 gostam de se sentir um pouco alienadas pelo capitalismo \u2013 e n\u00e3o realmente entender como ele funciona. Eles precisam ser requalificados, politicamente. Temos que olhar quais poderes econ\u00f4micos eles de fato querem.\u201d<\/p>\n<p>Em abril, depois de esperar uma pausa no aparentemente infinito inverno de pol\u00eamicas sobre o Brexit, Mathew Lawrence lan\u00e7ou um think-thank da nova economia,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.commonwealthfoundation.org\/\"><em>Common Wealth<\/em><\/a>, que busca delinear os eixos do movimento, em conjunto com um evento vespertino em Londres. Ap\u00f3s um filme animador, mas levemente escorregadio sobre a miss\u00e3o do\u00a0<em>Common Wealth<\/em>, ser exibido em uma grande tela \u2013 similar em tom e conte\u00fado a um recente canal pol\u00edtico do Partido Trabalhista chamado\u00a0<em>Our Town<\/em>\u00a0\u2013 Lawrence foi introduzido para a audi\u00eancia por Guinan. Na palestra que se seguiu, Lawrence avan\u00e7ou tanto que sua voz tornou-se um resmungo, r\u00e1pido demais para qualquer um que n\u00e3o esteja familiarizado com a nova economia acompanhar. Durante este momento formal da tarde, o\u00a0<em>Common Wealth<\/em>\u00a0correu o risco de parecer um projeto para quem j\u00e1 \u00e9 de dentro \u2014 apenas mais um\u00a0<em>think-tank<\/em>\u00a0londrino, com o ex l\u00edder do Trabalhista, Ed Miliband, na diretoria.<\/p>\n<p>Mas o restante do lan\u00e7amento pareceu diferente. O local alugado era em\u00a0<em>East End<\/em>, longe do usual cintur\u00e3o de\u00a0<em>think-tanks<\/em>\u00a0em Manchester. Estava lotado, o sotaque da regi\u00e3o se ouvia alto. Quase todo mundo tinha entre 20 e 30 anos, muitos com sapatos desgastados e cortes de cabelos austeros e modernos \u2013 a agora familiar vis\u00e3o de\u00a0<em>millennials<\/em>\u00a0brit\u00e2nicos reunindo-se para discutir mudar o mundo. Duas horas depois do in\u00edcio do evento, as pessoas ainda chegavam e quase ningu\u00e9m havia ido embora. Quando eu fui, pouco antes das 23h, as luzes nos pr\u00e9dios corporativos de Londres ainda estavam acesas. Mas ao me afastar da sala barulhenta, especialmente depois de uma garrafa de cerveja artesanal da\u00a0<em>Common Wealth<\/em>, feita para a ocasi\u00e3o, foi poss\u00edvel acreditar que os grandes dias dos banqueiros podem estar contados, e que a nova economia ir\u00e1 nos dizer como.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"7Onm0XNP9N\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/a-esquerda-volta-a-pensar-alem-do-capital\/\">A esquerda volta a pensar al\u00e9m do capital<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A esquerda volta a pensar al\u00e9m do capital&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/a-esquerda-volta-a-pensar-alem-do-capital\/embed\/#?secret=DuntnIJWx8#?secret=7Onm0XNP9N\" data-secret=\"7Onm0XNP9N\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andy Beckett &#8211;\u00a0Surpresa: nos EUA e Inglaterra, uma nova gera\u00e7\u00e3o de economistas rejeita a ideia de adaptar-se ao sistema e formula projetos opostos \u00e0 ditadura das corpora\u00e7\u00f5es e das finan\u00e7as. 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