{"id":12776,"date":"2020-03-31T09:32:13","date_gmt":"2020-03-31T12:32:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12776"},"modified":"2020-03-29T19:34:42","modified_gmt":"2020-03-29T22:34:42","slug":"o-negacionismo-no-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/31\/o-negacionismo-no-poder\/","title":{"rendered":"O NEGACIONISMO NO PODER"},"content":{"rendered":"<p><strong>TATIANA ROQUE<\/strong> &#8211; Como fazer frente ao ceticismo que atinge a ci\u00eancia e a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cQue aquecimento global \u00e9 esse?\u201d, questionou o deputado federal Eduardo Bolsonaro num v\u00eddeo que gravou para o YouTube em 2018, durante o inverno nos Estados Unidos. Vestindo um gorro de l\u00e3 e diante de um cen\u00e1rio tomado pela neve, o filho Zero Tr\u00eas do presidente da Rep\u00fablica manifestou seu espanto com o frio, que lhe parecia desmentir a mudan\u00e7a clim\u00e1tica alardeada pelos cientistas e pela imprensa. Concluiu com um conselho para seus seguidores: \u201cN\u00e3o deixe que o discurso, principalmente dos globalistas, mat\u00e9ria em cima de mat\u00e9ria, jogando essa mentira para voc\u00eas, que ela reste sedimentada como verdade [<em>sic<\/em>].\u201d<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio ignorou que a ocorr\u00eancia de invernos rigorosos em algumas localidades n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com o aumento da temperatura m\u00e9dia da superf\u00edcie do planeta \u2013 que est\u00e1 cerca de 1\u00baC mais alta do que era antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. A suposta \u201cmentira\u201d denunciada por Eduardo Bolsonaro \u00e9 endossada por praticamente todos os pesquisadores que se dedicam \u00e0 an\u00e1lise do clima global. Um estudo do ge\u00f3logo americano James Powell publicado no final do ano passado concluiu que, dentre os mais de 11 mil artigos cient\u00edficos publicados sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica entre janeiro e julho de 2019, n\u00e3o havia um \u00fanico sequer que contestasse que o planeta est\u00e1 ficando mais quente por causa dos gases de efeito estufa lan\u00e7ados na atmosfera por atividades humanas.<\/p>\n<p>A atitude do deputado reflete a descren\u00e7a com que o conhecimento cient\u00edfico vem sendo tratado por alguns setores do governo e da sociedade. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, quando quer\u00edamos sustentar uma afirma\u00e7\u00e3o sem argumentar demais, bastava dizer: \u201c\u00c9 comprovado cientificamente.\u201d Mas essa t\u00e1tica j\u00e1 n\u00e3o tem mais a mesma efic\u00e1cia, pois a confian\u00e7a na ci\u00eancia est\u00e1 diminuindo. Vivemos hoje um clima de ceticismo generalizado, uma descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es que favorece a dissemina\u00e7\u00e3o de negacionismos, encampados por governos com pol\u00edticas escancaradamente anticient\u00edficas. \u00c9 o caso de Donald Trump, que est\u00e1 tirando os Estados Unidos do Acordo de Paris, pelo qual quase duzentos pa\u00edses haviam se comprometido em 2015 a tentar conter os preju\u00edzos causados pelo aquecimento global; e de Jair Bolsonaro, que tamb\u00e9m comanda um governo contr\u00e1rio \u00e0s a\u00e7\u00f5es para combater a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Algumas pesquisas confirmam a crise de confian\u00e7a que atinge, ao mesmo tempo, a ci\u00eancia e a pol\u00edtica. O fen\u00f4meno da p\u00f3s-verdade \u2013 esse momento que atravessamos no qual fatos objetivos t\u00eam menos influ\u00eancia na opini\u00e3o p\u00fablica do que cren\u00e7as pessoais \u2013 \u00e9 um sintoma extremo dessa crise. Muita gente n\u00e3o enxerga que a ci\u00eancia, assim como a pol\u00edtica, existe para beneficiar a sociedade. E esse desencanto produz um terreno f\u00e9rtil para movimentos antici\u00eancia e teorias da conspira\u00e7\u00e3o (al\u00e9m de fomentar extremismos). A p\u00f3s-verdade, assim, n\u00e3o designa apenas o uso oportunista da mentira (embora ele seja frequente). O termo sinaliza, acima de tudo, um ceticismo quanto aos benef\u00edcios das verdades que costumavam compor um repert\u00f3rio comum, o que explica certo desprezo por evid\u00eancias factuais usadas na argumenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Diante disso, contradizer argumentos falsos exibindo fatos reais pode ter pouca relev\u00e2ncia em uma discuss\u00e3o. Evid\u00eancias e consensos cient\u00edficos t\u00eam sido facilmente contestados com base em convic\u00e7\u00f5es pessoais ou experi\u00eancias vividas \u2013 como se viu no v\u00eddeo de Eduardo Bolsonaro e como se percebe todos os dias nas redes sociais.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>o mundo todo, as pessoas v\u00eam manifestando uma confian\u00e7a apenas moderada na ci\u00eancia, mesmo nas na\u00e7\u00f5es mais ricas. Nos pa\u00edses com renda de m\u00e9dia para alta \u2013 grupo em que o Brasil se enquadra \u2013, 54% dos habitantes confiam medianamente na ci\u00eancia. O resultado foi obtido pelo Wellcome Global Monitor, um levantamento brit\u00e2nico de 2018 que investigou como a popula\u00e7\u00e3o de mais de 140 pa\u00edses se posiciona em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de ci\u00eancia e sa\u00fade.<\/p>\n<p>O resultado mais interessante \u00e9 a correla\u00e7\u00e3o entre a desconfian\u00e7a na ci\u00eancia e o descr\u00e9dito de outras institui\u00e7\u00f5es: quem duvida do conhecimento cient\u00edfico geralmente desconfia tamb\u00e9m dos governos, das For\u00e7as Armadas ou da Justi\u00e7a. Al\u00e9m disso, pesa bastante o modo como a popula\u00e7\u00e3o percebe o impacto dos resultados cient\u00edficos em sua vida cotidiana: pessoas que afirmam ter uma exist\u00eancia confort\u00e1vel confiam mais na ci\u00eancia do que aquelas que se dizem em dificuldades. Obviamente, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia durante o percurso escolar e o acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o determinantes para gerar confian\u00e7a no conhecimento cient\u00edfico. Mas fatores como a distribui\u00e7\u00e3o de renda tamb\u00e9m entram na equa\u00e7\u00e3o: sociedades mais desiguais tendem a desconfiar mais da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha que a ci\u00eancia o beneficia pessoalmente ou beneficia a maioria da sociedade? Quem respondeu \u201cn\u00e3o\u201d foi classificado como \u201cc\u00e9tico\u201d. No Brasil, esse grupo representa 23% da popula\u00e7\u00e3o. Um resultado alarmante, em sintonia com a m\u00e9dia da Am\u00e9rica do Sul, onde dois em cada cinco habitantes percebem uma desconex\u00e3o entre ci\u00eancia e sociedade \u2013 e isso independentemente de sua faixa de renda. Em nosso continente, a taxa de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 bem menor do que em outras partes do mundo, o que se reflete num maior descr\u00e9dito na ci\u00eancia, em hospitais e cl\u00ednicas m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Mesmo em pa\u00edses de renda alta, pessoas que dizem ter uma vida dif\u00edcil t\u00eam probabilidade tr\u00eas vezes maior de serem c\u00e9ticas do que aquelas que alegam viver em condi\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis. Ou seja, a atitude das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia parece estar ligada aos benef\u00edcios tang\u00edveis em suas vidas cotidianas. E o ceticismo \u00e9 estimulado pela percep\u00e7\u00e3o de uma dist\u00e2ncia entre os resultados da ci\u00eancia e os problemas enfrentados no dia a dia. Esse \u00e9 o alerta mais importante, tanto para cientistas quanto para pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia e a tecnologia v\u00e3o aumentar o n\u00famero de empregos na sua localidade? \u201cN\u00e3o, de jeito nenhum\u201d foi a resposta de 42% dos mil brasileiros pessoalmente entrevistados durante a pesquisa, resultado que ajuda a explicar a desconfian\u00e7a. Mesmo que uma parcela de igual tamanho tenha dito que a ci\u00eancia e a tecnologia podem criar empregos, \u00e9 significativa a descren\u00e7a de que trar\u00e3o solu\u00e7\u00f5es para demandas urgentes.<\/p>\n<p>O fundamentalismo religioso tem inquietado o meio intelectual. Com raz\u00e3o, pois 75% dos entrevistados dizem que, quando a ci\u00eancia discorda de sua religi\u00e3o, seguem a orienta\u00e7\u00e3o religiosa. Essa tend\u00eancia \u00e9 influenciada pela import\u00e2ncia crescente da religi\u00e3o na vida cotidiana de muitas pessoas. O pertencimento \u00e0 comunidade religiosa gera confian\u00e7a, fazendo com que pastores, padres ou irm\u00e3os de f\u00e9 sejam mais ouvidos do que figuras p\u00fablicas, pol\u00edticos ou cientistas.<\/p>\n<p>A pesquisa mostrou ainda que um ter\u00e7o dos brasileiros n\u00e3o confia muito nos funcion\u00e1rios das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, sendo que quase metade da popula\u00e7\u00e3o confia apenas em alguns deles. Nos \u00faltimos meses, o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros atacaram frontalmente as ONGs, principalmente as que atuam na \u00e1rea ambiental, insinuando que poderiam estar por tr\u00e1s das queimadas na Amaz\u00f4nia ou do derramamento de \u00f3leo que atingiu as praias do Nordeste. A desconfian\u00e7a nas ONGs ajuda a entender por que essas alega\u00e7\u00f5es sem fundamento n\u00e3o motivaram grande indigna\u00e7\u00e3o junto \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>No meio de tantas not\u00edcias ruins, um resultado positivo: 80% dos brasileiros acham que as vacinas s\u00e3o seguras. Uma explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 o sucesso das pol\u00edticas p\u00fablicas de vacina\u00e7\u00e3o, ao menos at\u00e9 2018. \u00c9 apenas um palpite, mas a\u00e7\u00f5es governamentais bem-sucedidas podem estar conseguindo convencer a popula\u00e7\u00e3o de que institui\u00e7\u00f5es, governos e cientistas, nesse caso, trabalham em prol do bem-estar da sociedade. Ainda assim, n\u00e3o podemos baixar a guarda: nos \u00faltimos anos, o \u00edndice de cobertura vacinal contra v\u00e1rias doen\u00e7as vem caindo, e o sarampo, que havia sido erradicado do Brasil no passado, voltou em 2019. Ainda falta compreender melhor os fatores por tr\u00e1s desse fen\u00f4meno, mas ele talvez indique que movimentos antivacina estejam, neste exato momento, conquistando mais adeptos.<\/p>\n<p>Uma li\u00e7\u00e3o a ser tirada dos dados \u00e9 que precisamos de mais di\u00e1logo, melhores estrat\u00e9gias de convencimento e iniciativas de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica abertas \u00e0 autocr\u00edtica. N\u00e3o basta defender a ci\u00eancia a partir de posi\u00e7\u00f5es de autoridade, calcadas na superioridade ou na neutralidade do saber cient\u00edfico. Sustentar uma verdade afirmando apenas que \u201c\u00e9 comprovada cientificamente\u201d pode refor\u00e7ar a indiferen\u00e7a ou mesmo gerar irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">T<\/span>alvez o efeito mais delet\u00e9rio da crise de confian\u00e7a seja o de abrir espa\u00e7o para o negacionismo clim\u00e1tico. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, a desconfian\u00e7a atinge a ci\u00eancia em um momento cr\u00edtico, quando se torna urgente ampliar a mobiliza\u00e7\u00e3o social em torno da agenda ambiental. Se quisermos cumprir o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5\u00baC ou no m\u00e1ximo 2\u00baC em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial, temos que agir com firmeza desde j\u00e1.<\/p>\n<p>Admitir a verdade cient\u00edfica sobre a causa humana do aquecimento global implica em transforma\u00e7\u00f5es radicais na economia e na pol\u00edtica, o que exige rever atitudes cristalizadas em nossos modos de vida. H\u00e1bitos de consumo e locomo\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es alimentares, perspectivas de futuro para os filhos, tudo isso precisa mudar. Como convencer as pessoas de que algum sacrif\u00edcio vale a pena sem oferecer a elas garantias de que todas essas mudan\u00e7as poder\u00e3o criar um mundo melhor? Sem enxergar benef\u00edcios tang\u00edveis em suas vidas cotidianas, aqui e agora, as pessoas provavelmente continuar\u00e3o desconfiadas. E a nega\u00e7\u00e3o pode se tornar uma alternativa tentadora. Sobretudo porque o negacionismo n\u00e3o se apresenta como tal, e sim travestido de \u201cpol\u00eamica\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, uma a\u00e7\u00e3o concertada de organiza\u00e7\u00f5es negacionistas tenta contestar verdades produzidas pela ci\u00eancia do clima. Em outubro de 2019, a House of Representatives \u2013 o equivalente \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados nos Estados Unidos \u2013 instalou uma comiss\u00e3o para investigar campanhas que visavam desacreditar afirma\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre o aquecimento global, bancadas pela ind\u00fastria do petr\u00f3leo. Por mais expressivos que sejam os recursos investidos nessas campanhas, seu alcance n\u00e3o pode ser explicado exclusivamente pelos interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos dos respons\u00e1veis. Talvez apenas hoje possamos medir os efeitos do novo tipo de propaganda inventado na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Os \u201cmercadores da d\u00favida\u201d come\u00e7aram a agir nos anos 1990, quando se consolidava o consenso sobre o papel do di\u00f3xido de carbono e outros gases de origem humana no agravamento do efeito estufa (o termo vem de\u00a0<em>Merchants of Doubt<\/em>, um livro essencial sobre o negacionismo clim\u00e1tico lan\u00e7ado em 2010 por Naomi Oreskes e Erik M. Conway e sem edi\u00e7\u00e3o brasileira \u2013 a obra inspirou tamb\u00e9m um document\u00e1rio hom\u00f4nimo). Naquela d\u00e9cada, publicavam-se pesquisas confirmando o alarme e reuni\u00f5es mundiais buscavam solu\u00e7\u00f5es comuns (como a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro). Essas iniciativas geraram fatos pol\u00edticos in\u00e9ditos, produzindo converg\u00eancia entre advers\u00e1rios \u2013 incluindo democratas e republicanos, nos Estados Unidos \u2013 em torno da necessidade de combater as causas do aquecimento global.<\/p>\n<p>O consenso incomodava principalmente um setor: as empresas de petr\u00f3leo, maiores respons\u00e1veis pelo efeito estufa. Essas empresas n\u00e3o deixaram barato e adotaram a \u00fanica estrat\u00e9gia poss\u00edvel para frear o consenso cient\u00edfico que se consolidava: semear a d\u00favida. O mesmo tipo de propaganda j\u00e1 tinha sido usado pela ind\u00fastria do cigarro, nos anos 1950, ao tentar disfar\u00e7ar como pol\u00eamica o consenso cient\u00edfico sobre as doen\u00e7as causadas pelo tabaco. Como era imposs\u00edvel negar o aquecimento global antr\u00f3pico, a \u00fanica sa\u00edda era travesti-lo de controv\u00e9rsia. Profissionais treinados para polemizar com cientistas conseguiram espa\u00e7o na m\u00eddia, explorando o condicionamento dos jornalistas a \u201couvir os dois lados\u201d envolvidos em quest\u00f5es contenciosas. De verdade inconveniente, o aquecimento global antr\u00f3pico acabou associado na opini\u00e3o p\u00fablica a uma \u201ccontrov\u00e9rsia\u201d que nunca houve entre os climatologistas.<\/p>\n<p>O debate n\u00e3o era honesto, pois tais campanhas difamavam lideran\u00e7as da causa ambiental e autores de estudos s\u00e9rios sobre o efeito estufa, que chegaram a ter suas vidas devastadas. Nesse contexto, surgiu a alcunha de \u201cmelancia\u201d para acusar ambientalistas de serem \u201cverdes por fora e vermelhos por dentro\u201d. A brincadeira n\u00e3o foi in\u00f3cua: de modo jocoso, disseminou-se a acusa\u00e7\u00e3o de que ecologistas famosos eram, no fundo, comunistas disfar\u00e7ados. A suspeita fez com que alguns cientistas verdadeiros \u2013 especialistas em \u00e1reas distantes da climatologia, mas engajados na miss\u00e3o anticomunista \u2013 aderissem ao negacionismo clim\u00e1tico. Eram poucos, mas ajudaram a legitimar a comunidade dos autodenominados \u201cc\u00e9ticos do clima\u201d. Disseminava-se um argumento similar ao que tem sido defendido por Jair Bolsonaro: sob o disfarce das causas verdes, haveria um compl\u00f4 internacional para diminuir a liberdade de escolha dos cidad\u00e3os e o poder de empresas que os beneficiam, pois produzem riquezas e garantem uma posi\u00e7\u00e3o soberana para o pa\u00eds. No Brasil de hoje, supostos integrantes desse compl\u00f4 ganharam o apelido de \u201cglobalistas\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u00c9<\/span>impressionante o n\u00famero de ingredientes da atual crise da verdade que j\u00e1 estavam presentes na estrat\u00e9gia dos mercadores da d\u00favida: falsa simetria na argumenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (\u201couvir os dois lados\u201d); acusa\u00e7\u00e3o de compl\u00f4 comunista; prolifera\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0para diminuir o poder de universidades e centros cient\u00edficos leg\u00edtimos; teorias conspirat\u00f3rias; forma\u00e7\u00e3o de especialistas por meio do manejo de m\u00eddias alternativas. Nem sempre a atua\u00e7\u00e3o dos negacionistas teve sucesso. Na Wikip\u00e9dia, \u201caquecimento global\u201d e \u201cmudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d alinham-se hoje com os termos estabelecidos pela ci\u00eancia. Ainda assim, na vers\u00e3o em portugu\u00eas houve editores que tentaram apresentar o consenso como controv\u00e9rsia, o que ainda se nota em verbetes menos acessados, conforme mostrou um estudo feito por Bernardo Esteves, rep\u00f3rter da piau\u00ed, e Henrique Cukierman, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Seria exagero dizer que movimentos anticient\u00edficos estejam ganhando o debate. Mas seria autoengano, por outro lado, negligenciar o quanto eles t\u00eam minado consensos sobre agendas e pol\u00edticas p\u00fablicas. Embora venha sendo fomentado h\u00e1 tempos, o negacionismo ganhou espa\u00e7o in\u00e9dito em governos de extrema direita ao redor do mundo. Obviamente, o car\u00e1ter oficial amplifica seu poder de convencimento. S\u00f3 que esses governos contam com um apoio razo\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o, que parece n\u00e3o se incomodar com afirma\u00e7\u00f5es e atitudes flagrantemente anticient\u00edficas de seus l\u00edderes.<\/p>\n<p>O caso do Brasil \u00e9 exemplar. Uma pesquisa do Datafolha divulgada em dezembro passado mostra que Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente que n\u00e3o considera o aquecimento global um problema priorit\u00e1rio para sua pasta, \u00e9 considerado \u00f3timo ou bom por 27% dos entrevistados, e regular por 38%. Os n\u00fameros s\u00e3o altos, principalmente depois das queimadas na Amaz\u00f4nia e do vazamento de \u00f3leo em nossa costa, sem nenhum plano de conten\u00e7\u00e3o \u00e0 altura. No geral, mant\u00e9m-se um patamar razo\u00e1vel de aprova\u00e7\u00e3o a ministros caricatos, que nos surpreendem a cada dia com declara\u00e7\u00f5es absurdas.<\/p>\n<p>A crise de confian\u00e7a pode ajudar a explicar a indiferen\u00e7a dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 veracidade das declara\u00e7\u00f5es de quadros do governo. N\u00e3o \u00e9 que tantas pessoas acreditem no que eles dizem, \u00e9 que boa parte delas n\u00e3o se importa. A fragiliza\u00e7\u00e3o do tecido social e das institui\u00e7\u00f5es abre espa\u00e7o para um ceticismo generalizado, que se traduz em rejei\u00e7\u00e3o ao \u201csistema\u201d como um todo. \u00c9 nesse terreno f\u00e9rtil que atitudes negacionistas podem proliferar e conquistar mais apoio. Lideran\u00e7as conservadoras garantem poder pol\u00edtico dialogando com o sentimento de deboche que acompanha o ceticismo. Mas, al\u00e9m da descren\u00e7a, o c\u00e9tico se caracteriza por uma predisposi\u00e7\u00e3o constante para a d\u00favida. Assim, a estrat\u00e9gia torna-se ainda mais eficaz quando posicionamentos pol\u00edticos aparecem disfar\u00e7ados como \u201ccontrov\u00e9rsias\u201d. H\u00e1 uma ironia nesse fen\u00f4meno, pois o \u201cceticismo\u201d produzido artificialmente, mero eufemismo usado pelos negacionistas, pode se disseminar mais facilmente ao repercutir um ceticismo real. No caso do meio ambiente, as consequ\u00eancias de n\u00e3o interromper desde j\u00e1 a amplia\u00e7\u00e3o da esfera de influ\u00eancia de opini\u00f5es anticient\u00edficas, mesmo quando parecem apenas suscitar d\u00favidas, s\u00e3o especialmente preocupantes, pois ser\u00e3o irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>No Brasil, \u00e9 mais do que \u00f3bvio que a ascens\u00e3o da extrema direita tem rela\u00e7\u00e3o direta com o negacionismo clim\u00e1tico, al\u00e7ado a pol\u00edtica de Estado por Jair Bolsonaro. N\u00e3o faltam exemplos de a\u00e7\u00f5es que corroboram esse diagn\u00f3stico. Durante a campanha, Bolsonaro prometeu tirar o Brasil do Acordo de Paris, a exemplo do que Trump fizera nos Estados Unidos, com base no temor t\u00e3o antiquado quanto infundado de internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. O presidente voltou atr\u00e1s dessa decis\u00e3o, mas nomeou um ministro do Meio Ambiente que flerta com\u00a0<em>think tanks\u00a0<\/em>negacionistas norte-americanos e um chanceler que considera o aquecimento global (ou \u201cclimatismo\u201d, como ele prefere dizer) um compl\u00f4 de inspira\u00e7\u00e3o marxista. Em agosto, o presidente pediu a cabe\u00e7a de Ricardo Galv\u00e3o, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por divulgar dados corretos sobre a explos\u00e3o do desmatamento na Amaz\u00f4nia \u2013 no fim do ano, o an\u00fancio da taxa anual divulgada pelo pr\u00f3prio Inpe deu raz\u00e3o a Galv\u00e3o, com um aumento de quase 30%, o maior registrado neste s\u00e9culo. O negacionismo n\u00e3o se restringiu \u00e0 Esplanada dos Minist\u00e9rios: em 2019, parlamentares da base de apoio de Bolsonaro convocaram para uma audi\u00eancia no Senado pesquisadores que contestam o aquecimento global antr\u00f3pico, embora n\u00e3o tenham trabalhos relevantes publicados sobre o tema e nem sejam reconhecidos como autoridade por especialistas.<\/p>\n<p>Se em pa\u00edses como Estados Unidos, Austr\u00e1lia e Reino Unido o negacionismo clim\u00e1tico \u00e9 alimentado por agentes financiados pela ind\u00fastria dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, no Brasil \u00e9 principalmente o agroneg\u00f3cio que ajuda a disseminar as contesta\u00e7\u00f5es \u00e0 ci\u00eancia do clima. Trata-se justamente do setor econ\u00f4mico que mais contribui para o aquecimento global em nosso pa\u00eds: juntos, o desmatamento e a agropecu\u00e1ria que se instala nas terras destitu\u00eddas de sua cobertura vegetal respondem por dois ter\u00e7os de todos os gases do efeito estufa emitidos pelo Brasil.<\/p>\n<p>O agr\u00f4nomo Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial, conseguiu espalhar o argumento falso de que a extens\u00e3o da floresta deixa pouco espa\u00e7o para a agropecu\u00e1ria. Unidades de conserva\u00e7\u00e3o, \u00e1reas ind\u00edgenas, assentamentos de reforma agr\u00e1ria e florestas preservadas em im\u00f3veis rurais inviabilizariam o desenvolvimento nacional. Al\u00e9m disso, pitadas conspirat\u00f3rias tornam seu argumento sedutor: a agenda ambiental vigente seria parte de um plano de pa\u00edses desenvolvidos para expandir suas pr\u00f3prias economias agr\u00edcolas, bloqueando o potencial competitivo do Brasil nesse setor. As inverdades na argumenta\u00e7\u00e3o de Miranda j\u00e1 foram amplamente denunciadas (veja, por exemplo, o v\u00eddeo\u00a0<em>Fatos Florestais<\/em>, produzido pelo Observat\u00f3rio do Clima). Ainda assim, o pesquisador da Embrapa tornou-se o bra\u00e7o direito de Jair Bolsonaro e conselheiro intelectual de Ricardo Salles, que aceitou o posto de ministro depois que o pr\u00f3prio Miranda declinou o convite para ocup\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Luiz Carlos Molion, meteorologista aposentado da Universidade Federal de Alagoas e um dos mais conhecidos negacionistas brasileiros, no ano passado fez uma s\u00e9rie de palestras sobre a Amaz\u00f4nia e o clima global promovida pelo senador Marcio Bittar (MDB-AC), que tamb\u00e9m o convidou para falar no Senado. Bittar \u00e9 o mesmo que prop\u00f4s, junto com o senador Flavio Bolsonaro, o filho Zero Um do presidente, um projeto de lei para acabar com a reserva legal prevista no C\u00f3digo Florestal \u2013 a \u00e1rea das propriedades rurais que os produtores s\u00e3o obrigados a manter preservada (o projeto foi retirado pelos proponentes meses depois). Molion se vale de mentiras h\u00e1 muito desacreditadas pela ci\u00eancia do clima \u2013 como a de que o aquecimento \u00e9 provocado por fatores naturais como os ciclos da atividade solar \u2013, que o p\u00fablico leigo n\u00e3o detecta por serem apresentadas com verniz cient\u00edfico, amparadas por gr\u00e1ficos e jarg\u00f5es t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>Outro negacionista conhecido no Brasil, o ge\u00f3grafo Ricardo Felicio, da Universidade de S\u00e3o Paulo, ganhou popularidade com uma entrevista que deu em 2012 a J\u00f4 Soares, que n\u00e3o contestou seus disparates sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Hoje Felicio defende, em diversos ve\u00edculos da imprensa, que o aquecimento global \u00e9 uma discuss\u00e3o meramente ideol\u00f3gica. Em 2018, o professor da USP se candidatou \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados pelo PSL, mas n\u00e3o se elegeu.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro, seus ministros e sua base de apoio no Congresso refor\u00e7am, a cada dia, o poder dessa rede de conselheiros, com papel essencial na conquista de um p\u00fablico amplo que endosse escolhas pol\u00edticas desastrosas.<\/p>\n<p>Todo esse plano pode parecer invenc\u00edvel se olharmos apenas para o lado conspirat\u00f3rio. Vale a pena lembrar, por\u00e9m, que estrat\u00e9gias apoiadas no ceticismo frutificam em um tecido social desgastado. N\u00e3o fosse isso, mesmo com dinheiro,\u00a0<em>think tanks<\/em>, falsos cientistas, rob\u00f4s ou influenciadores digitais treinados, a repercuss\u00e3o poderia ser mais restrita. A prova \u00e9 que esses \u201ccientistas\u201d negacionistas j\u00e1 atuam h\u00e1 tempos, mas n\u00e3o causavam tanto estrago. O pulo do gato da extrema direita foi vampirizar a desconfian\u00e7a de parte consider\u00e1vel da opini\u00e3o p\u00fablica para legitimar governantes com posi\u00e7\u00f5es anticient\u00edficas e inserir o negacionismo na m\u00e1quina estatal.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">C<\/span>omo agir diante disso? Antes de tudo, \u00e9 importante notar que o desinteresse \u00e9 o problema principal. N\u00e3o existe \u2013 ainda? \u2013 uma ades\u00e3o maci\u00e7a ao anticientificismo: as pessoas querem ser mais ouvidas e ter suas raz\u00f5es consideradas. Por isso, \u00e9 um p\u00e9ssimo come\u00e7o de conversa apontar a ignor\u00e2ncia ou a cren\u00e7a religiosa como culpadas pela crise da verdade.<\/p>\n<p>Uma pesquisa feita no Brasil em 2019 indica que a ci\u00eancia ainda tem cr\u00e9dito junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mas a desconfian\u00e7a est\u00e1 aumentando. O Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos, \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es, comparou a opini\u00e3o de diferentes estratos sociais, analisando tamb\u00e9m sua evolu\u00e7\u00e3o no tempo.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia e a tecnologia trazem mais malef\u00edcios ou benef\u00edcios para a humanidade? Somando as pessoas que responderam \u201cs\u00f3 benef\u00edcios\u201d com as que disseram \u201cmais benef\u00edcios do que malef\u00edcios\u201d, o total \u00e9 de 72%. E esse percentual n\u00e3o muda significativamente quando focamos nos estratos de rendas mais baixas. No entanto, mesmo que seja importante manter algum otimismo, n\u00e3o podemos relaxar. Entre 2015 e 2019, o percentual de \u201cs\u00f3 benef\u00edcios\u201d caiu muito (de 53% para 30%), ao mesmo tempo em que aumentou o percentual dos que dizem trazer \u201cmais benef\u00edcios do que malef\u00edcios\u201d (de 19% para 41%). H\u00e1 um dado importante que desestabiliza explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis baseadas apenas na renda: na faixa dos que ganham mais de dez sal\u00e1rios m\u00ednimos, a queda do entusiasmo \u00e9 ainda mais percept\u00edvel. A vis\u00e3o positiva ainda \u00e9 expressa por 77% das pessoas nesse estrato, mas o percentual dos que enxergam s\u00f3 benef\u00edcios caiu de 61%, em 2015, para 26%, em 2019. No mesmo per\u00edodo, a d\u00favida \u2013 contida na express\u00e3o \u201cmais benef\u00edcios do que malef\u00edcios\u201d \u2013 aumentou de 24% para 51%. Ou seja, a desconfian\u00e7a n\u00e3o chega a ser majorit\u00e1ria, mas o ceticismo se insinua, independentemente do estrato social dos entrevistados.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que os brasileiros se sentem contemplados pelo modo como s\u00e3o tomadas as decis\u00f5es sobre ci\u00eancia e tecnologia? Parece que nem tanto. \u00c9 praticamente consensual, em todas as faixas de renda, a reivindica\u00e7\u00e3o de que a popula\u00e7\u00e3o seja ouvida quanto aos rumos da ci\u00eancia e da tecnologia. A propor\u00e7\u00e3o dos que concordam totalmente com essa afirma\u00e7\u00e3o, somada a dos que concordam em parte, chega a 83%.<\/p>\n<p>Atender a uma demanda como essa n\u00e3o \u00e9 simples. Nos meios acad\u00eamicos, aumenta a consci\u00eancia de que pesquisadores devem se comunicar melhor e fazer mais divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u00c9 um \u00f3timo come\u00e7o, por\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o parece querer tamb\u00e9m participar das decis\u00f5es. Mas como tornar democr\u00e1ticas escolhas sobre temas complexos abordados na ci\u00eancia? Lidar com evid\u00eancias, manejar dados e experimentos, dominar bibliografias e estabelecer colabora\u00e7\u00f5es s\u00e3o ingredientes da pr\u00e1tica cient\u00edfica que exigem treino, protocolo e dedica\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 dif\u00edcil compartilhar todos esses processos com n\u00e3o iniciados. Simplificando as coisas, o desejo de participa\u00e7\u00e3o, expresso na pesquisa, pode n\u00e3o ser o de opinar em todas as etapas da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Talvez reflita uma demanda por mais informa\u00e7\u00e3o a respeito das consequ\u00eancias das escolhas dos cientistas, permitindo a um p\u00fablico mais amplo interferir na avalia\u00e7\u00e3o de prioridades.<\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o por mais participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es \u00e9 um ind\u00edcio de que a desconfian\u00e7a na ci\u00eancia est\u00e1 ligada \u00e0 crise da democracia. Durante muito tempo, cientistas tiveram uma esp\u00e9cie de carta branca para enunciar verdades a partir de m\u00e9todos aos quais poucos t\u00eam acesso. \u00c9 como se existisse um acordo t\u00e1cito: \u201cAcreditem, pois possu\u00edmos os atributos necess\u00e1rios para a realiza\u00e7\u00e3o de verifica\u00e7\u00f5es consistentes.\u201d Esse acordo n\u00e3o est\u00e1 mais funcionando, ao menos n\u00e3o como antes.<\/p>\n<p>Ocorre algo similar com diferentes\u00a0<em>profissionais da verdade<\/em>, cujas afirma\u00e7\u00f5es costumavam ser legitimadas\u00a0<em>a priori<\/em>, com base na autoridade para lidar com informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o acess\u00edveis a todos. Al\u00e9m de cientistas, jornalistas, intelectuais, professores e experts t\u00eam sido questionados, dificultando sua atua\u00e7\u00e3o como mediadores entre o poder pol\u00edtico e o p\u00fablico em geral. Intermedi\u00e1rios sempre tiveram um papel importante no sistema de pesos e contrapesos que faz com que a democracia funcione, o que vai al\u00e9m dos momentos eleitorais.<\/p>\n<p>Atualmente, lideran\u00e7as desprovidas de qualquer credencial t\u00e9cnica ou acad\u00eamica reivindicam autoridade para enunciar verdades, pois o contato direto com o p\u00fablico, favorecido pelas redes sociais, dispensa media\u00e7\u00f5es. \u00c9 assim que novos formadores de opini\u00e3o conquistam seguidores e disputam a prerrogativa de influenciar o poder p\u00fablico. No Brasil, como vimos, chegam a participar ativamente do governo.<\/p>\n<p>Disputar espa\u00e7o com esses novos atores usando diplomas ou reconhecimento acad\u00eamico n\u00e3o parece a melhor estrat\u00e9gia. A fragiliza\u00e7\u00e3o da democracia decorre tamb\u00e9m da descren\u00e7a em solu\u00e7\u00f5es tecnocr\u00e1ticas, vistas como elitistas e pouco perme\u00e1veis \u00e0 opini\u00e3o das pessoas comuns. Portanto, reafirmar verdades cient\u00edficas a partir de posi\u00e7\u00f5es de autoridade pode ser um tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p>O desafio de fazer mais e melhor divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ganha relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica em tempos de emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Entender que h\u00e1 uma desconfian\u00e7a leg\u00edtima \u2013 que atinge boa parte da popula\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 essencial para acolher as d\u00favidas e iniciar uma conversa com quem ainda n\u00e3o se mobiliza pela quest\u00e3o ambiental. O diagn\u00f3stico da crise mundial de confian\u00e7a na ci\u00eancia, discutido no in\u00edcio deste artigo a partir da pesquisa Wellcome Global Monitor, n\u00e3o menciona as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Contudo, os resultados fornecem pistas valiosas sobre os caminhos a seguir. Insistir apenas na reafirma\u00e7\u00e3o do consenso cient\u00edfico sobre o aquecimento global antr\u00f3pico \u00e9 insuficiente. Ao fragilizar a imagem da ci\u00eancia \u2013 vista como pouco dedicada a obter benef\u00edcios para os problemas cotidianos dos cidad\u00e3os \u2013, a desconfian\u00e7a gera dificuldades para a agenda clim\u00e1tica.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">D<\/span>epois de d\u00e9cadas realizando encontros e participando ativamente da costura de acordos internacionais pelo clima, \u00e9 preocupante que a causa ambiental n\u00e3o seja popular no Brasil. Culpar os atuais governantes n\u00e3o basta. O desinteresse de governos, mesmo progressistas, em rela\u00e7\u00e3o ao tema reflete a indiferen\u00e7a da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, confirmada pela aus\u00eancia desse debate nas campanhas eleitorais. N\u00e3o \u00e9 por falta de conhecimento cient\u00edfico que a agenda ambiental n\u00e3o mobiliza os brasileiros. Mesmo entre as organiza\u00e7\u00f5es que lutam h\u00e1 tempos pela preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, nota-se uma dificuldade de tornar essa pauta mais abrangente.<\/p>\n<p>Medidas para evitar o colapso clim\u00e1tico precisam ser vinculadas a valores mais amplos do que a preserva\u00e7\u00e3o da vida no planeta. \u00c9 essencial que essa agenda consiga apontar sa\u00eddas para as afli\u00e7\u00f5es do presente: s\u00f3 assim poder\u00e1 ser vista como uma aposta interessante. O papa Francisco, cujo pontificado tem sido marcado pela preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, tem um diagn\u00f3stico elucidativo sobre a anestesia que envolve o tema: \u201cEste comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produ\u00e7\u00e3o e consumo\u201d, escreveu Francisco em\u00a0<em>Laudato Si\u2019<\/em>, sua enc\u00edclica de 2015 dedicada \u00e0 causa ambiental. \u201c\u00c9 a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os v\u00edcios autodestrutivos: tenta n\u00e3o os ver, luta para n\u00e3o os reconhecer, adia as decis\u00f5es importantes, age como se nada tivesse acontecido.\u201d<\/p>\n<p>Talvez a ofensiva da extrema direita abra caminho para a\u00e7\u00f5es mais efetivas tamb\u00e9m dos setores da sociedade que n\u00e3o se alinham com o governo. Estrat\u00e9gias de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, especialmente no caso da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, precisam partir de novas premissas e abordagens, abertas \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma imagem da ci\u00eancia distinta daquela que habitou nosso imagin\u00e1rio durante as \u00faltimas d\u00e9cadas. Em outros momentos hist\u00f3ricos, a ci\u00eancia n\u00e3o adquiriu legitimidade de modo autom\u00e1tico. A percep\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos ajudou a moldar a rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com os cientistas. O s\u00e9culo XX, por exemplo, com suas bombas at\u00f4micas e naves espaciais, associou \u00e0 ci\u00eancia uma imagem de for\u00e7a e poder \u2013 inicialmente destrutivo, mas logo associado \u00e0 promessa de um futuro melhor. J\u00e1 a climatologia tem uma natureza bem distinta, pois lida com simula\u00e7\u00f5es de cen\u00e1rios pessimistas para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, constru\u00eddas por modelos diversos e dependentes de muitas vari\u00e1veis. Al\u00e9m de ser uma \u00e1rea recente.<\/p>\n<p>O climatologista franc\u00eas Herv\u00e9 Le Treut admite que o negacionismo clim\u00e1tico desenvolveu-se a partir de fragilidades reais da ci\u00eancia do clima. \u201cDigamos que a ci\u00eancia, porque segue uma \u00e9tica \u2013 o que tamb\u00e9m \u00e9 sua for\u00e7a \u2013, \u00e9 f\u00e1cil de contestar\u201d, afirmou o pesquisador em setembro passado ao jornal franc\u00eas\u00a0<em>Le 1<\/em>. Ou seja, a ci\u00eancia s\u00f3 afirma algo quando tem certeza absoluta, e a climatologia levou alguns anos para obter resultados seguros. Enquanto havia apenas\u00a0<em>presun\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antr\u00f3picas, os cientistas foram cautelosos em suas afirma\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 correto, mas tal atitude abriu espa\u00e7o para a a\u00e7\u00e3o dos negacionistas. Mais tarde, entre o final dos anos 1990 e in\u00edcio dos 2000, quando as provas j\u00e1 eram robustas, n\u00e3o foram suficientes para \u201cconvencer atores que n\u00e3o queriam ser convencidos\u201d.<\/p>\n<p>A maior riqueza da ci\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o as certezas produzidas ao fim do processo de investiga\u00e7\u00e3o, e sim o modo qualificado de tratar as d\u00favidas durante esse processo. Ser c\u00e9tico \u00e9 o que se exige de todo cientista. Por isso, \u201cceticismo\u201d \u00e9 um termo desvirtuado para designar os negacionistas, e a ci\u00eancia precisa reivindic\u00e1-lo. Incertezas, perguntas, problemas e quest\u00f5es em aberto s\u00e3o mat\u00e9rias-primas da ci\u00eancia e podem ser usadas para valorizar o ceticismo. Faz falta, contudo, explicitar melhor os processos que permitem \u00e0 ci\u00eancia extrair, das d\u00favidas iniciais, algumas certezas.<\/p>\n<p>Em novo livro publicado no final de 2019,\u00a0<em>Why Trust Science?\u00a0<\/em>(Por que confiar na ci\u00eancia?), sem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, Naomi Oreskes sugere que a confian\u00e7a na ci\u00eancia deve ser reconquistada por seu car\u00e1ter consensual, mais do que por sua autoridade. O m\u00e9todo cient\u00edfico e as evid\u00eancias emp\u00edricas s\u00e3o insuficientes: cientistas se autocriticam e criticam uns aos outros antes de tirar conclus\u00f5es. Por isso, o grau de diversidade e de abertura de uma comunidade \u00e9 essencial para garantir a confiabilidade do conhecimento obtido. A capacidade de se autocorrigir depende do trabalho coletivo e da possibilidade de desenvolver experi\u00eancias e simula\u00e7\u00f5es reprodut\u00edveis em culturas e contextos diversos. Esses atributos diminuem o peso da autoridade e podem ajudar a mobilizar mais pessoas para apreciar a ci\u00eancia do clima, para al\u00e9m da comunidade de iniciados.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ser\u00e1 necess\u00e1rio refor\u00e7ar os desdobramentos pol\u00edticos ligados \u00e0 agenda ambiental. No fim das contas, \u00e9 preciso que as pessoas efetivamente se importem com o colapso clim\u00e1tico para que considerem modificar seus modos de vida, mas tamb\u00e9m para que vislumbrem desde j\u00e1 algum ganho que compense o esfor\u00e7o. Como a vida n\u00e3o est\u00e1 nada boa para a maioria das pessoas, n\u00e3o parece imposs\u00edvel convenc\u00ea-las de que vale a pena uma aposta inovadora. Momentos de crise podem suscitar novos arranjos pol\u00edticos que tenham impacto no presente e ajudem a lidar com os desafios que temos diante de n\u00f3s. A\u00e7\u00f5es coletivas podem ser mais eficazes do que certezas e verdades contra o negacionismo. Por isso, estrat\u00e9gias cient\u00edficas e pol\u00edticas precisam andar de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-negacionismo-no-poder\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TATIANA ROQUE &#8211; Como fazer frente ao ceticismo que atinge a ci\u00eancia e a pol\u00edtica. \u201cQue aquecimento global \u00e9 esse?\u201d, questionou o deputado federal Eduardo Bolsonaro num v\u00eddeo que gravou para o YouTube em 2018, durante o inverno nos Estados Unidos. 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