{"id":12672,"date":"2020-03-27T10:32:34","date_gmt":"2020-03-27T13:32:34","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12672"},"modified":"2020-03-24T20:35:27","modified_gmt":"2020-03-24T23:35:27","slug":"por-que-os-mercados-globais-estao-em-panico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/27\/por-que-os-mercados-globais-estao-em-panico\/","title":{"rendered":"Por que os mercados globais est\u00e3o em p\u00e2nico"},"content":{"rendered":"<p><strong>Antonio Martins<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Coronav\u00edrus foi o estopim. Bancos voltaram aos empr\u00e9stimos irrespons\u00e1veis em massa. D\u00edvidas t\u00f3xicas no mesmo n\u00edvel da crise de 2008. Desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica amea\u00e7a o castelo de cartas. Governos tentar\u00e3o despejar as perdas sobre as maiorias. Mas h\u00e1 um feixe de alternativas p\u00f3s-capitalistas.<\/span><\/p>\n<p><strong>I.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s vezes, a Hist\u00f3ria, caprichosa, se repete como farsa. Mas em outras ocasi\u00f5es, oferece aos derrotados uma segunda oportunidade. Em 2008, quando o capitalismo viveu sua maior crise em oito d\u00e9cadas, n\u00e3o houve for\u00e7a (nem principalmente ideias novas) para convert\u00ea-la em cr\u00edtica e transforma\u00e7\u00e3o. Sem encontrar resist\u00eancia efetiva, o sistema se recomp\u00f4s com mais brutalidade. Os banqueiros foram salvos pelos Estados, com montanhas de dinheiro. Assim que esvaziaram os cofres p\u00fablicos, os super ricos alegaram que havia \u201cdesequil\u00edbrios fiscais\u201d e era preciso ceifar\u2026 os direitos e o gasto social! Doze anos depois, este arranjo entrou em crise novamente. O coronav\u00edrus, como se ver\u00e1, \u00e9 apenas a vibra\u00e7\u00e3o sutil que fez tremer o castelo de cartas do capital financeirizado \u2013 t\u00e3o tem\u00edvel, mas t\u00e3o fr\u00e1gil. Diante da emerg\u00eancia, os donos do mundo j\u00e1 sinalizaram que querem mais do mesmo: novos sacrif\u00edcios das sociedades, impostos sem examinar, debater e muito menos enfrentar as causas dos enormes desequil\u00edbrios. Mas agora, esta \u201csa\u00edda\u201d soar\u00e1 como repeti\u00e7\u00e3o e \u2013 ainda mais importante \u2013 j\u00e1 h\u00e1 esbo\u00e7o de alternativa.<\/p>\n<div id=\"outra-556877196\" class=\"outra-content\">\n<p><strong>+\u00a0<\/strong>Em meio \u00e0 crise civilizat\u00f3ria e \u00e0 amea\u00e7a da extrema-direita,\u00a0<strong>OUTRAS PALAVRAS<\/strong>\u00a0sustenta que o p\u00f3s-capitalismo \u00e9 poss\u00edvel. Queremos sugerir alternativas ainda mais intensamente. Para isso, precisamos de recursos: a partir de 15 reais por m\u00eas voc\u00ea pode fazer parte de nossa rede.<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrosquinhentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Veja como participar &gt;&gt;&gt;<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma semana,\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/o-golpe-do-capitao-e-as-duas-esquerdas-possiveis\/\">abordou pela primeira vez<\/a>\u00a0a rela\u00e7\u00e3o entre a crise sanit\u00e1ria do coronav\u00edrus, os tremores nos mercados financeiros e os riscos de uma grande recess\u00e3o cl\u00e1ssica \u2013 com fechamento de empresas, demiss\u00f5es em massa e quebra de bancos. Nesta quarta-feira (4\/3), um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/27cf0690-5c9d-11ea-b0ab-339c2307bcd4?ftcamp=traffic\/partner\/feed_headline\/us_yahoo\/auddev&amp;yptr=yahoo\">longo artigo<\/a>\u00a0do\u00a0<em>Financial Times,<\/em>\u00a0escrito pelo veterano analista econ\u00f4mico John Plender e<em>\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/mundo\/noticia\/2020\/03\/06\/coronavirus-eleva-o-risco-de-uma-crise-de-credito.ghtml\">reproduzido<\/a>\u00a0dois dias depois pelo\u00a0<em>Valor<\/em>, exp\u00f4s em maior detalhe a dramaticidade do problema. \u00c9 uma esp\u00e9cie de jornalismo de elite e para a elite; informa\u00e7\u00e3o mantida longe das manchetes e dos notici\u00e1rios da TV, produzida e publicada para quem controla o poder e o dinheiro. O ponto central da an\u00e1lise \u00e9: os mercados financeiros globais est\u00e3o t\u00e3o contaminados com d\u00edvidas podres quanto h\u00e1 doze anos. A pandemia jogou um gr\u00e3o de areia numa engrenagem que, para se manter viva, precisa girar incessantemente. \u201cSe o v\u00edrus continuar a se espalhar, as fragilidades do sistema t\u00eam o potencial de desencadear uma nova crise de d\u00edvidas\u201d, adverte o texto<em>.<\/em><\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o eloquentes. A gigantesca pilha das d\u00edvidas globais n\u00e3o para de crescer: ela atingiu 253 trilh\u00f5es de d\u00f3lares no \u00faltimo trimestre de 2019 e equivale agora a 322% do PIB do planeta. Mas, mais que nos n\u00fameros, o perigo est\u00e1 no processo que levou a este recorde, nas pr\u00e1ticas cada vez mais temer\u00e1rias adotadas pelos bancos em busca de maximizar lucros e em como um pequeno trope\u00e7o pode jogar tudo pelos ares.<\/p>\n<p>Plender explica: o sistema financeiro global est\u00e1 encharcado de dinheiro. Depois de salvarem os bancos, entre 2008 e 2009, numa opera\u00e7\u00e3o que envolveu cerca de 30\u00a0<em>trilh\u00f5es\u00a0<\/em>de d\u00f3lares, os Estados continuaram abastecendo-os com dinheiro farto, numa opera\u00e7\u00e3o que se tornou conhecida pelo nome herm\u00e9tico de \u201cquantitative easing\u201d, ou \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa\u201d. T\u00edtulos de d\u00edvida p\u00fablica que s\u00f3 venceriam em anos ou d\u00e9cadas, e estavam em poder dos bancos, s\u00e3o trocados por moeda viva. \u00c9 o\u00a0<em>trickle-down,<\/em>\u00a0ou \u201cescorrer para baixo\u201d uma maneira grotesca de aquecer as economias paralisadas. Alega-se que, se os muito ricos receberem muito dinheiro, algo acabar\u00e1 pingando em toda a economia. O car\u00e1ter ultraelitista da l\u00f3gica est\u00e1 expresso na ilustra\u00e7\u00e3o abaixo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3023521\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-TrickleDown-1.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-TrickleDown-1.jpeg 602w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-TrickleDown-1-300x217.jpeg 300w\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>A inunda\u00e7\u00e3o promovida pelos Estados \u00e9 tanta, prossegue a an\u00e1lise, que os bancos n\u00e3o t\u00eam o que fazer com o dinheiro. Como querem ganhar, emprestam-no praticamente em qualquer condi\u00e7\u00e3o, incorrendo no que se chama de \u201crisco moral\u201d e gerando uma bolha de cr\u00e9dito que pode estourar a qualquer momento. Em 2008, o ponto fr\u00e1gil do sistema era o setor imobili\u00e1rio. Para permitir que a constru\u00e7\u00e3o e venda de im\u00f3veis continuasse indefinidamente, os bancos ofereceram empr\u00e9stimos a fam\u00edlias que n\u00e3o tinham meios para pag\u00e1-los e, com a crise, acabaram perdendo suas casas. Agora, o elo d\u00e9bil s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es globais.<\/p>\n<p>O gr\u00e1fico abaixo mostra a evolu\u00e7\u00e3o do endividamento das empresas norte-americanas. Ele sobe de forma cont\u00ednua, enquanto porcentagem do PIB (de 15% para 27%), de meados dos anos 1980 at\u00e9 a crise de 2008. Trope\u00e7a com a recess\u00e3o e se reduz a cerca de 20%. Mas rapidamente recupera-se: j\u00e1 ultrapassou os 30%. Os bancos, diz Plander, est\u00e3o emprestando at\u00e9 para \u201cempresas zumbis\u201d. Enquanto a engenhoca gira, as d\u00edvidas renovam-se. Mas e se ela parar? O artigo cita um relat\u00f3rio recente do FMI sobre instabilidade financeira global. Se advir uma recess\u00e3o, ainda que com apenas metade da pot\u00eancia de 2008, \u201cempresas com d\u00edvidas somadas de US$ 19 trilh\u00f5es [duas vezes o PIB do Brasil] n\u00e3o ter\u00e3o receitas suficientes para pagar o que devem\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3023522\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-D%C3%ADvidaEmpresas.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-D\u00edvidaEmpresas.jpeg 640w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/200306-D\u00edvidaEmpresas-300x188.jpeg 300w\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Recess\u00e3o, ainda n\u00e3o veio. Mas a r\u00e1pida expans\u00e3o do coronav\u00edrus, com seu potencial de esfriar a economia e paralisar setores muito importantes, causa calafrios. A eclos\u00e3o de uma pandemia leva as fam\u00edlias a reduzir gastos \u2013 e isso \u00e9 particularmente grave em tempos de desigualdade crescente. Mesmo nos Estados Unidos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.economist.com\/finance-and-economics\/2020\/03\/05\/a-recession-is-unlikely-but-not-impossible\">mostra<\/a>\u00a0a\u00a0<em>The Economist,<\/em>\u00a0mais de 10% das fam\u00edlias n\u00e3o teriam hoje como enfrentar uma despesa extra de 400 d\u00f3lares (R$ 1,8 mil). Diante do risco, cancelam compras. Em muitos pa\u00edses, as aulas est\u00e3o sendo suspensas, obrigando as m\u00e3es e pais a permanecer mais tempo em casa. Em dezenas de cidades, o pr\u00f3prio com\u00e9rcio est\u00e1 \u00e0s moscas. Atividades como a avia\u00e7\u00e3o sofrem ainda mais. \u201cGrandes jatos chegam vazios a aeroportos desertos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/03\/05\/business\/coronavirus-airline-industry.html?\">lamenta<\/a>\u00a0o\u00a0<em>New York Times.\u00a0<\/em>Foram estas perspectivas sombrias que fizeram os pre\u00e7os do petr\u00f3leo despencar 30%, em 9\/3. Muito mais que a guerra por mercados entre R\u00fassia e Ar\u00e1bia Saudita, pesa a certeza de que a queda do consumo ser\u00e1 abrupta. Ela contaminar\u00e1 outras<em>\u00a0commodities<\/em>\u00a0agr\u00edcolas e minerais e atingir\u00e1 com crueza pa\u00edses como o Brasil, de exporta\u00e7\u00f5es primarizadas.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do capitalismo regulado, os governos socorreriam momentaneamente os setores debilitados e a crise se resolveria com o retrocesso natural da doen\u00e7a. Na fase financeirizada, toda solidariedade econ\u00f4mica se evapora. Os mercados avaliam e precificam a cada dia as d\u00edvidas. Os especuladores farejam as dificuldades das presas. Companhias em dificuldades s\u00e3o obrigadas a pagar juros crescentes para rolar seus d\u00e9bitos e entram numa espiral que pode facilmente lev\u00e1-las \u00e0 inadimpl\u00eancia. E se um grande n\u00famero de empresas importantes quebrar, a v\u00edtima seguinte, na linha de cont\u00e1gio, ser\u00e3o os bancos.<\/p>\n<p>Exuberante como nunca, o capitalismo financeirizado est\u00e1 prestes a expor sua fragilidade tamb\u00e9m in\u00e9dita. Apontar o gr\u00e3o de areia como respons\u00e1vel pelos desajustes da engrenagem seria, \u00e9 claro, insano. Mas como chegamos a este ponto? E como construir, desta vez, uma sa\u00edda diferente da que se imp\u00f4s em 2008?<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, viver sem horizonte alternativo, engolido pela agenda do advers\u00e1rio, \u00e9 sempre grave. Mas em momentos agudos, resulta em desastre. H\u00e1 doze anos, quando uma crise do capitalismo jamais vista desde a Grande Depress\u00e3o p\u00f3s-1929 sobreveio, as for\u00e7as que lutam pela supera\u00e7\u00e3o do sistema perderam a oportunidade de impor-lhe uma grande derrota. Estavam despreparadas.<\/p>\n<p>Um movimento nascente de cr\u00edtica ao neoliberalismo, que se expressava por exemplo nos F\u00f3runs Sociais Mundiais, tinha em sua agenda a den\u00fancia do car\u00e1ter predat\u00f3rio das finan\u00e7as globais. Mas n\u00e3o soube o que propor, ao conjunto das sociedades, quando em setembro de 2008 o sistema banc\u00e1rio mundial travou e enormes institui\u00e7\u00f5es \u2013 do banco de investimentos Lehman Brothers \u00e0 General Motors \u2013 come\u00e7aram a quebrar.<\/p>\n<p>Os defensores do sistema tiveram espa\u00e7o para liderar a busca de uma sa\u00edda. A que escolheram moldou o mundo desde ent\u00e3o. Resultou num capitalismo muito mais brutal, com vasto ataque aos direitos sociais e \u00e0 democracia. Terminou abrindo espa\u00e7o para algo ent\u00e3o inexistente ou marginal: os grupos e pol\u00edticos de ultradireita que hoje governam parte do mundo. A sa\u00edda conservadora deu-se em duas etapas.<\/p>\n<p>Numa primeira, deflagrada ainda em 2008, montanhas de dinheiro p\u00fablico foram deslocadas para salvar os bancos. O argumento para faz\u00ea-lo era s\u00f3lido: as crises banc\u00e1rias resultam, de fato, em p\u00e2nico e devasta\u00e7\u00e3o. Os depositantes dos bancos perdem suas economias. O travamento do cr\u00e9dito quebra as empresas e provoca demiss\u00f5es em massa \u2013 o que por sua vez faz desabar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo, multiplicando as v\u00edtimas, numa r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o em cadeia. As opera\u00e7\u00f5es de salvamento foram realizadas com rapidez e espanto \u2013 mas sem protestos.<\/p>\n<p>A segunda etapa come\u00e7ou em abril de 2009 e expressou a volta por cima do capital. Construiu-se, na opini\u00e3o p\u00fablica, um consenso falso, segundo o qual os Estados estavam quebrados e era necess\u00e1rio \u201capertar os cintos\u201d. Ocultou-se que a causa das dificuldades fiscais dos governos era precisamente o enorme esfor\u00e7o que haviam feito para salvar os bancos. Atribuiu-se a responsabilidade \u00e0 suposta \u201cinefici\u00eancia\u201d do servi\u00e7o p\u00fablico e \u00e0 propens\u00e3o dos pol\u00edticos \u00e0 \u201cgastan\u00e7a\u201d. Foi uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de enormes propor\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel examinar neste texto.<\/p>\n<p>O que importa, aqui, s\u00e3o seus resultados. Em todo o Ocidente, foram lan\u00e7adas pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d. Os tempos variaram: a Europa, onde o Estado de Bem-Estar Social \u00e9 vasto e generoso, adotou-as ainda em 2009; o Brasil, que era governado pela esquerda e se aproveitava de uma situa\u00e7\u00e3o internacional mais favor\u00e1vel, s\u00f3 o fez em 2015, no in\u00edcio do segundo mandato de Dilma. Mas o sentido foi sempre o mesmo: reduzir direitos sociais; rebaixar o poder de barganha dos assalariados; criar formas mais selvagens de explora\u00e7\u00e3o do trabalho; rebaixar ao m\u00e1ximo os dos Estados com pol\u00edticas p\u00fablicas redistributivas.<\/p>\n<p>A atitude da esquerda \u2013 tanto a tradicional quanto a \u201caltermundista\u201d, que surgia \u2013 foi essencialmente reativa. Diante dos cortes de gastos, eclodiram enormes manifesta\u00e7\u00f5es em pa\u00edses como Portugal, Espanha, Irlanda, It\u00e1lia. Em 2011, veio a Primavera \u00c1rabe. Movimentos como o dos<em>\u00a0Indignados,<\/em>\u00a0na Espanha, ou o\u00a0<em>Occupy,\u00a0<\/em>nos Estados Unidos, espalharam-se pelo mundo \u2013 ramificando mais tarde em explos\u00f5es como a de 2013, no Brasil. Mas em nenhum caso surgiu uma\u00a0<em>alternativa<\/em>\u00a0capaz de mobilizar as multid\u00f5es; de avan\u00e7ar al\u00e9m da nega\u00e7\u00e3o. O desastre mais emblem\u00e1tico ocorreu na Gr\u00e9cia. As pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d devastaram o pa\u00eds a ponto de quebrar o sistema pol\u00edtico e abrir caminho para um partido de esquerda, o Syriza. Ao chegar ao poder, o novo primeiro-ministro, Alexis Tsipras consultou a sociedade, em referendo popular, sobre a manuten\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas que sufocavam as maiorias. Venceu o\u00a0<em>n\u00e3o!\u00a0<\/em>A Uni\u00e3o Europeia aplicou todo seu poder econ\u00f4mico e financeiro para estrangular o pa\u00eds, at\u00e9 faz\u00ea-lo capitular. A democracia precisava ser submetida aos\u00a0<em>diktats\u00a0<\/em>dos mercados.<\/p>\n<p>Houve duas consequ\u00eancias principais. A aus\u00eancia de um horizonte, num ambiente marcado por desigualdade e esvaziamento da democracia, abriu espa\u00e7o in\u00e9dito para pol\u00edticos que defendem o autoritarismo dos \u201chomens fortes\u201d, diante da suposta inefic\u00e1cia das decis\u00f5es coletivas. Em 2008, Jair Bolsonaro era um deputado inexpressivo do \u201cbaix\u00edssimo clero\u201d no Brasil; Donald Trump, um bilion\u00e1rio de h\u00e1bitos deplor\u00e1veis conhecido por apresentar<em>\u00a0The Apprentice;<\/em>\u00a0Rodrigo Duterte, o prefeito de uma cidade m\u00e9dia nas Filipinas. No per\u00edodo seguinte, todos eles viveram ascens\u00f5es mete\u00f3ricas. As legi\u00f5es que cultivaram ressentem-se com a piora das condi\u00e7\u00f5es de vida e o descaso de seus \u201crepresentantes\u201d; e iludem-se com a ideia de que os problemas do mundo ser\u00e3o resolvidos se cada qual contentar-se com o \u201clugar que lhe cabe\u201d na ordem social.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, a vit\u00f3ria do capital em 2008 inaugurou uma s\u00e9rie de triunfos das finan\u00e7as. Do salvamento dos bancos, passou-se ao \u201cquantitive easing\u201d. As t\u00edmidas medidas que, no imediato p\u00f3s-crise, haviam estabelecido limites para a atividade banc\u00e1ria, foram rapidamente eliminadas. A desigualdade explodiu a ponto de os 500 bilion\u00e1rios mais ricos do planeta auferirem, a cada ano, um aumento de patrim\u00f4nio equivalente a\u00a0<em>545 vezes\u00a0<\/em>o or\u00e7amento da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade \u2013 a quem caberia enfrentar uma pandemia como a do Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Mas foi precisamente esta ilus\u00e3o de pot\u00eancia infinita que abriu espa\u00e7o para a grande lamban\u00e7a de d\u00edvidas. Agora, ela amea\u00e7a todo sistema.<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Como agir\u00e3o os donos do poder e do dinheiro diante da nova amea\u00e7a a seu reinado? Os primeiros sinais sugerem mais do mesmo. Os bancos centrais reduziram as taxas de juros ao longo desta semana. Em todo o mundo, a m\u00e9dia \u00e9 agora 1% ao ano. Fala-se em proteger bancos em dificuldades e comprar a\u00e7\u00f5es com dinheiro p\u00fablico, para proteger especuladores em risco. A l\u00f3gica do\u00a0<em>trickle-down\u00a0<\/em>atinge exuber\u00e2ncia m\u00e1xima. A ultradireita incomoda-se: mais desigualdade pode desencadear revolta popular \u2013 o que \u00e9 fatal para seu projeto. Por\u00e9m, pol\u00edticos como Bolsonaro e Trump n\u00e3o t\u00eam a menor ideia de como liderar uma sa\u00edda, diante de uma situa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo complexa e perigosa.<\/p>\n<p>Do lado da cr\u00edtica ao capitalismo, e da tentativa de super\u00e1-lo, o cen\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo de 2008. A experi\u00eancia demonstrou que salvar o sistema financeiro com dinheiro p\u00fablico conduz a rebaixar direitos e pol\u00edticas p\u00fablicas. E foi se desenvolvendo, ao longo do tempo, uma alternativa concreta \u00e0s pol\u00edticas de \u201cresgate\u201d. \u00c9 embrion\u00e1ria. Conquista multid\u00f5es e forma maiorias, onde apresentada. Expressa um caminho claramente mais promissor que o apego aos programas dos s\u00e9culos passados a mera reatividade. Requer, para tornar-se resposta efetiva, mais articula\u00e7\u00e3o. A esquerda institucional estar\u00e1 disposta a faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>O esbo\u00e7o de novo programa, que est\u00e1 se gestando pouco a pouco, come\u00e7a com uma proposta nascida muito antes da crise atual: a\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/precariado-rebeldia-e-renda-cidada\/\">Renda B\u00e1sica da Cidadania<\/a>.\u00a0<\/strong>Se os Estados podem transferir montanhas de dinheiro aos mercados financeiros, por que n\u00e3o poderiam faz\u00ea-lo diretamente aos cidad\u00e3os, driblando as perversidades do\u00a0<em>trickle-down<\/em>? Numa \u00e9poca em que o desemprego tecnol\u00f3gico \u00e9 uma amea\u00e7a t\u00e3o evidente, oferecer a cada ser humano, independentemente de trabalho, as condi\u00e7\u00f5es para uma vida digna, n\u00e3o seria um enorme passo adiante?<\/p>\n<p>Mas embora distribuir dinheiro \u00e0s pessoas possa ser, nestas condi\u00e7\u00f5es, um enorme passo adiante, trata-se ainda de uma solu\u00e7\u00e3o no plano individual. Um avan\u00e7o muito mais efetivo seria construir sistemas p\u00fablicos que\u00a0<em>ultrapassam a pr\u00f3pria necessidade da moeda.\u00a0<\/em>Num certo sentido, o\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/videos\/comuns-a-essencia-do-pos-capitalismo\/\">Comum<\/a><\/strong>. Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Habita\u00e7\u00e3o e Transportes expressam hoje parte destacada das necessidades contempor\u00e2neas. Foram fortemente mercantilizadas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O capital conhece sua centralidade \u2013 por isso quer captur\u00e1-las. Por\u00e9m, por sua pr\u00f3pria natureza, fogem \u00e0 fria l\u00f3gica do lucro. Um bom servi\u00e7o m\u00e9dico, ou uma boa escola, n\u00e3o s\u00e3o os que geram mais ganhos aos acionistas, mas os que atendem, com humanidade e sem desperd\u00edcio, \u00e0s necessidades das popula\u00e7\u00f5es. Por isso, estes quatro itens: Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o, Transportes e Habita\u00e7\u00e3o deveriam ser oferecidos publicamente \u2013 em condi\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia, gr\u00e1tis ou a pre\u00e7os muito m\u00f3dicos. \u00c9 imposs\u00edvel? Por que, se se pode transferir<em>\u00a0dezenas de trilh\u00f5es<\/em>\u00a0aos bilion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Jeremy Corbyn, que deixar\u00e1 em breve a lideran\u00e7a do Partido Trabalhista brit\u00e2nico, foi o primeiro pol\u00edtico relevante internacionalmente a propor a invers\u00e3o do\u00a0<em>quantitative easing.\u00a0<\/em>Se os Estados podem oferecer tanto dinheiro \u00e0 aristocracia financeira, perguntou ele em 2017, quanto se prop\u00f4s a sacudir a burocracia partid\u00e1ria, por que n\u00e3o lan\u00e7ar um\u00a0<em>social quantitative easing,\u00a0<\/em>em favor da Sa\u00fade e da Educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas. Desde ent\u00e3o, a proposta se ampliou.<\/p>\n<p>Em 2019, Alejandria Ocasio-Cortez, parlamentar latina nos Estados Unidos, prop\u00f4s o\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/green-new-deal-inesperada-invencao-politica\/\">Green New Deal<\/a>,\u00a0<\/strong>que ao mesmo tempo resgata e d\u00e1 sentido popular \u00e0 pauta ambiental. Sim, os Estados precisam deixar a sonol\u00eancia e agir decisivamente contra o aquecimento global e a devasta\u00e7\u00e3o da natureza. Mas este movimento\u00a0<em>n\u00e3o\u00a0<\/em>deve resultar em menos a\u00e7\u00e3o p\u00fablica e oferta de ocupa\u00e7\u00f5es\u2013 e, sim, em\u00a0<em>mais.\u00a0<\/em>\u00c9 preciso um enorme investimento em infraestrutura para, por exemplo, substituir o petr\u00f3leo por energias solar e e\u00f3lica; garantir que os trabalhadores das ind\u00fastrias declinante migrem para as pr\u00f3ximas; construir redes ferrovi\u00e1rias em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s rodovias; dotar as cidades de redes de transporte p\u00fablico t\u00e3o eficientes que permitam adotar pol\u00edticas ativas contra a ditadura do autom\u00f3vel. Este investimento requerer\u00e1 o esfor\u00e7o de dezenas de milh\u00f5es de trabalhadores. Por isso, os Estados devem lan\u00e7ar pol\u00edticas de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/a-revolucao-do-emprego-garantido\/\">Emprego Digno Garantido.<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Como desdobramento natural do Green New Deal, retomou-se a\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/a-teoria-monetaria-moderna-contra-a-ditadura-financeira\/\">Teoria Monet\u00e1ria Moderna.<\/a>\u00a0<\/strong>Proposta j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, ela foi atualizada. Expressa uma nega\u00e7\u00e3o radical das pol\u00edticas de \u201causteridade\u201d. Sustenta que os Estados podem criar moeda nova, a partir de decis\u00f5es coletivas. Provoca, na verdade, uma nova vis\u00e3o sobre a pr\u00f3pria moeda. Esta n\u00e3o \u00e9 uma\u00a0<em>mercadoria,\u00a0<\/em>mas a express\u00e3o de uma\u00a0<em>rela\u00e7\u00e3o social\u00a0<\/em>baseada essencialmente em\u00a0<em>confian\u00e7a.\u00a0<\/em>Se as sociedades constroem projetos comuns, ent\u00e3o elas podem ser tamb\u00e9m capazes de usar suas moedas com instrumento para mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos em favor destas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Diz um prov\u00e9rbio \u00e1rabe que tr\u00eas coisas v\u00e3o e n\u00e3o voltam: a \u00e1gua que passa, a flecha atirada e a oportunidade perdida. A crise financeira agora aberta contraria e confirma, ao mesmo tempo, o ad\u00e1gio. \u00c9 como se, em 2008, tiv\u00e9ssemos vivido apenas um ensaio. As pol\u00edticas adotadas em seguida apenas aprofundaram os desajustes do capitalismo financeirizado. O repique oferece, portanto \u2013 para usar met\u00e1fora datada \u2013 uma esp\u00e9cie de rebobinagem. \u00c9 como se pud\u00e9ssemos voltar o filme, para retorn\u00e1-lo a 2008: \u00e0 mesma posi\u00e7\u00e3o em que as pol\u00edticas atuais foram lan\u00e7adas, para repens\u00e1-las antes que sejam reaplicadas com for\u00e7a redobrada.<\/p>\n<p>Tudo depender\u00e1 de duas condi\u00e7\u00f5es. A esquerda atual saber\u00e1 reinventar-se? Se n\u00e3o o fizer, surgir\u00e3o sujeitos sociais e pol\u00edticos para ocupar o seu lugar?<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"o6WLD7xVOL\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/por-que-os-mercados-globais-estao-em-panico\/\">Por que os mercados globais est\u00e3o em p\u00e2nico<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Por que os mercados globais est\u00e3o em p\u00e2nico&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/por-que-os-mercados-globais-estao-em-panico\/embed\/#?secret=z0VILKoDeu#?secret=o6WLD7xVOL\" data-secret=\"o6WLD7xVOL\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Martins &#8211;\u00a0Coronav\u00edrus foi o estopim. 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