{"id":12670,"date":"2020-03-26T11:25:50","date_gmt":"2020-03-26T14:25:50","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12670"},"modified":"2020-03-24T20:29:20","modified_gmt":"2020-03-24T23:29:20","slug":"norte-americanos-no-oriente-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/26\/norte-americanos-no-oriente-medio\/","title":{"rendered":"Norte-americanos no Oriente M\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Musse &#8211;\u00a0<\/strong>A obra de Tariq Ali adiciona \u00e0 compreens\u00e3o do Imp\u00e9rio norte-americano a quest\u00e3o do fundamentalismo religioso como fator complementar ao militarismo, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o cultural e ao racismo.<\/p>\n<p><strong>Bush na Babil\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>Em 21 de mar\u00e7o de 2003, uma coaliz\u00e3o liderada pelos Estados Unidos invadiu o Iraque. Foi o desfecho de uma guerra anunciada e da pol\u00eamica acerca de sua necessidade \u2013 cujo f\u00f3rum privilegiado foi a ONU, mas tamb\u00e9m as ruas, palco de um protesto mundial, em 15 de fevereiro, que mobilizou cerca de oito milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito norte-americano, efetivamente posta em pr\u00e1tica, de permanecer no Iraque depois do fim da guerra e da deposi\u00e7\u00e3o de Saddam Hussein causou perplexidade geral. As pot\u00eancias do Ocidente estariam retornando \u00e0 \u201cEra dos Imp\u00e9rios\u201d e aos m\u00e9todos neocoloniais de ocupa\u00e7\u00e3o territorial? O s\u00e9culo XX n\u00e3o havia consolidado, em todo o mundo, a pol\u00edtica de \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o\u201d? Os Estados Unidos n\u00e3o haviam obtido sua hegemonia incontest\u00e1vel, em parte devido ao seu discurso e \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o em favor da autonomia e independ\u00eancias nacionais? As guerras pontuais, ap\u00f3s 1945, n\u00e3o foram apenas escaramu\u00e7as em fronteiras de um mundo dividido pela Guerra Fria e que, com o fim desta, estavam destinadas a desaparecer?<\/p>\n<p>Da perplexidade inicial brotou uma torrente de explica\u00e7\u00f5es. As justificativas de George W. Bush e Tony Blair transitaram rapidamente da \u201camea\u00e7a das armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d, supostamente em poder de Saddam Hussein, \u00e0 necessidade de implantar a \u201cdemocracia\u201d no Oriente M\u00e9dio, numa invers\u00e3o que buscou transformar a \u201cocupa\u00e7\u00e3o\u201d em uma guerra de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d. Os liberais que discordaram da oportunidade e da forma com que foi conduzido o conflito atribu\u00edram essa reca\u00edda nos m\u00e9todos do passado ao \u201cneoconservadorismo\u201d de um c\u00edrculo dotado de consider\u00e1vel influ\u00eancia sobre George W. Bush. Alguns marxistas \u2013 entre os quais se destaca David Harvey \u2013 procuraram reativar a teoria do \u201cimperialismo\u201d, desenvolvida no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O livro de Tariq Ali escrito na ocasi\u00e3o,<em>\u00a0Bush na Babil\u00f4nia<\/em>\u00a0(Record, 20030 fornece uma resposta surpreendente a essas quest\u00f5es, capaz de sustentar-se em si mesma como o \u201covo de Colombo\u201d. Nascido no Paquist\u00e3o, formado em Oxford, editor da prestigiosa revista\u00a0<em>New Left Review<\/em>, Tariq Ali narra a hist\u00f3ria do Iraque de um ponto de vista interno. Esse simples giro de perspectiva traz ao primeiro plano os percal\u00e7os da luta anticolonial no Oriente M\u00e9dio e as dificuldades de implementa\u00e7\u00e3o da forma pol\u00edtica do Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de uma hist\u00f3ria pouco conhecida no Ocidente, mesmo depois de toda a aten\u00e7\u00e3o que a opini\u00e3o p\u00fablica concedeu ao Iraque. Tariq Ali reconstitui, nunca de forma linear, os principais momentos desse itiner\u00e1rio, desde a subjuga\u00e7\u00e3o, pelo Imp\u00e9rio Otomano, dos \u00e1rabes que ocupavam a regi\u00e3o da antiga Babil\u00f4nia, no s\u00e9culo XVI, \u00e0 atual ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana. O principal m\u00e9rito do relato encontra-se no cuidadoso acompanhamento dos fios que entrela\u00e7am a trajet\u00f3ria iraquiana, a hist\u00f3ria do mundo \u00e1rabe e as vicissitudes da pol\u00edtica mundial. Tudo isso perpassado por uma concep\u00e7\u00e3o n\u00e3odeterminista da hist\u00f3ria, patente em sua preocupa\u00e7\u00e3o em destacar tanto a ocupa\u00e7\u00e3o como a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O Iraque propriamente dito nasce com o decl\u00ednio do Imp\u00e9rio Otomano, durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1917, os brit\u00e2nicos, com o aux\u00edlio das tropas coloniais da ent\u00e3o ocupada \u00cdndia, tomaram uma vasta extens\u00e3o do Oriente M\u00e9dio. Delimitaram as fronteiras do novo Estado por meio de um arranjo pol\u00edtico que congregou as prov\u00edncias otomanas de Bagd\u00e1, Basra e Mossul, deixando de lado o territ\u00f3rio mais ao sul, junto ao Golfo P\u00e9rsico, que veio a se tornar o Kuwait.<\/p>\n<p>Muito mais r\u00edgido que o otomano, o controle brit\u00e2nico, desprovido das identidades religiosas e culturais do dom\u00ednio anterior, n\u00e3o tardou a despertar o nacionalismo local. Uma situa\u00e7\u00e3o intensificada pela imposi\u00e7\u00e3o de uma monarquia trazida de fora, a casa dos hashemitas. A primeira insurrei\u00e7\u00e3o bem sucedida, em 1941, dep\u00f4s o monarca, instaurando um governo popular e favor\u00e1vel ao pan-arabismo. Imediatamente a Inglaterra reocupou o Iraque.<\/p>\n<p>Em 1956, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, retomou o canal de Suez, at\u00e9 ent\u00e3o sob o controle de um cons\u00f3rcio franco-brit\u00e2nico. A onda nacionalista despertada por esse ato no mundo \u00e1rabe atingiu tamb\u00e9m o Iraque. Em 14 de julho de 1958 um grupo de oficiais do ex\u00e9rcito dep\u00f4s a monarquia e proclamou a Rep\u00fablica. As primeiras medidas do novo governo foram a nacionaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de base, inclusive da \u00e1rea petrol\u00edfera, uma reforma agr\u00e1ria radical e a universaliza\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico.<\/p>\n<p>Tariq Ali mostra todas as suas habilidades de historiador, de analista pol\u00edtico e de romancista (alguns de seus romances foram publicados no Brasil) no relato dos dez anos seguintes, uma intricada epop\u00e9ia que se desenvolveu seguindo o encadeamento de uma trag\u00e9dia. S\u00e3o tr\u00eas os personagens principais: os defensores do pan-arabismo proposto por Nasser, o Partido Comunista iraquiano \u2013 o mais forte do mundo \u00e1rabe \u2013, e o Baath \u2013, um partido nacionalista e secular fundado por intelectuais s\u00edrios no ex\u00edlio, mas que logo se tornou um agrupamento militarizado, sustentado pelo poder local dos cl\u00e3s familiares.<\/p>\n<p>Comandante da revolu\u00e7\u00e3o de 1958, o general Quasim manteve-se no poder gra\u00e7as ao apoio decisivo do PC iraquiano que, seguindo as ordens emanadas de Moscou, evitava fortalecer Nasser, um dos l\u00edderes do movimento terceiro-mundista do agrupamento de pa\u00edses conhecidos ent\u00e3o como \u201cn\u00e3oalinhados\u201d.<\/p>\n<p>Uma sucess\u00e3o de desaven\u00e7as e conflitos entre as for\u00e7as nacionalistas \u2013 at\u00e9 entre membros do mesmo partido, como no caso da cis\u00e3o no Baath \u2013 facilitou a desmobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares, gerasndo um clima de desencanto. Isso facilitou o golpe militar que levou, em 1968, o Baath ao poder, j\u00e1 sob o comando de Hassan al-Bakr e de seu de sobrinho, Saddam Hussein.<\/p>\n<p>O resto da hist\u00f3ria \u00e9 bastante conhecido. O PC iraquiano apoiou o governo baathista quando este ensaiou uma coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e militar com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, apesar de nesse mesmo per\u00edodo seus quadros pol\u00edticos estarem sendo dizimados pela pol\u00edcia secreta iraquiana. Em 1979, Saddam Hussein autonomeia-se general e presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Em 22 de setembro de 1980, o Iraque declara guerra ao Ir\u00e3 \u2013 supostamente enfraquecido militarmente pela Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica \u2013, agora j\u00e1 por instiga\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. Depois de oito anos e milhares de mortos de ambos os lados, a guerra termina sem vencedores. Em seguida, Saddam ocupa o Kuwait e \u00e9 for\u00e7ado a recuar (Primeira Guerra do Golfo, agosto de 1990 \u2013 fevereiro de 1991), mas consegue manter-se no poder mesmo com o embargo econ\u00f4mico e o conjunto de san\u00e7\u00f5es impostas pelo Conselho de Seguran\u00e7a da ONU.<\/p>\n<p>O relato da \u201cera Saddam\u201d n\u00e3o \u00e9 desprovido de interesse. Al\u00e9m de relembrar com fidelidade os principais acontecimentos, Tariq Ali destaca informa\u00e7\u00f5es relevantes, que tendem a ficar em segundo plano, e esbo\u00e7a, aqui e ali, interpreta\u00e7\u00f5es ousadas sobre o significado da hist\u00f3ria recente. Sustenta, por exemplo, que o objetivo do \u201cImp\u00e9rio Americano \u00e9 utilizar seu imenso arsenal militar para ensinar ao Sul uma li\u00e7\u00e3o sobre o poder do Norte de intimidar e controlar\u201d.<\/p>\n<p>Um sen\u00e3o que se pode fazer ao livro reside em sua caracteriza\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia. Militante e partid\u00e1rio de uma linhagem secular, Tariq Ali ressalta o potencial de for\u00e7as alheias \u00e0 racionaliza\u00e7\u00e3o, como as crian\u00e7as e a poesia, mas ignora a tradi\u00e7\u00e3o religiosa, hoje o principal baluarte da resist\u00eancia numa \u00e9poca em que, adverte o pr\u00f3prio Ali, a oposi\u00e7\u00e3o secular cada vez mais se submete \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Confronto de fundamentalismos<\/strong><\/p>\n<p>O livro anterior de Tariq Ali,\u00a0<em>Confronto de fundamentalismos<\/em>\u00a0(Record, 2002) \u2013 escrito no calor do ataque \u00e0s Torres G\u00eameas, ocorrido em 11 de Setembro de 2001 \u2013 insere-se numa s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es que visavam suprir a opini\u00e3o p\u00fablica ocidental de informa\u00e7\u00f5es sobre a civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica. Interesse intensificado pelas guerras de vingan\u00e7a norte-americanas, em especial as invas\u00f5es e as ocupa\u00e7\u00f5es do Afeganist\u00e3o e do Iraque.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o tardio para compreender uma regi\u00e3o do mundo at\u00e9 ent\u00e3o praticamente ignorada gerou, como seria de se esperar, as mais diversas e antag\u00f4nicas interpreta\u00e7\u00f5es, desde a tese neoconservadora de conflito civilizacional defendida por Samuel P. Huntington no livro\u00a0<em>O choque das civiliza\u00e7\u00f5es e a recomposi\u00e7\u00e3o da ordem mundial<\/em>\u00a0(Objetiva, 1997), \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o da teoria marxista do imperialismo, proposta por David Harvey em\u00a0<em>O novo imperialismo<\/em>\u00a0(Loyola, 2003).<\/p>\n<p>Tariq Ali se destacou nesse debate. Seus livros foram traduzidos em mais de uma dezena de idiomas e suas teses adquiriram repercuss\u00e3o mundial, transformando-o quase que instantaneamente em um superstar do mundo intelectual. Um dos motivos desse \u00eaxito decorre, sem d\u00favida, de sua forma\u00e7\u00e3o multicultural. Tariq Ali nasceu (e viveu at\u00e9 a adolesc\u00eancia) no Paquist\u00e3o, educou-se na Inglaterra (em Oxford), onde posteriormente tornou-se editor da\u00a0<em>New Left Review<\/em>, um dos \u00edcones da esquerda mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do conv\u00edvio e inser\u00e7\u00e3o em diferentes culturas, construiu um perfil insubmisso \u00e0 divis\u00e3o intelectual do trabalho: jornalista independente (isto \u00e9, sem v\u00ednculo com empresas de comunica\u00e7\u00e3o) e militante pol\u00edtico, Tariq Ali tamb\u00e9m \u00e9 igualmente reconhecido como historiador, romancista e dramaturgo.<\/p>\n<p><strong>Imp\u00e9rio e resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Em 2005, Tariq Ali retoma e desdobra suas contribui\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o das m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es entre o isl\u00e3, o mundo \u00e1rabe e o Ocidente no livro\u00a0<em>Speaking of Empire and Resistance: Conversations with Tariq Ali\u00a0<\/em>\u2013 editado no Brasil sob o t\u00edtulo\u00a0<em>A nova face do imp\u00e9rio<\/em>\u00a0(Ediouro, 2006). Trata-se da reuni\u00e3o de uma s\u00e9rie de entrevistas concedidas a David Barsamian entre novembro de 2001 e abril de 2004.<\/p>\n<p>O profundo conhecimento da obra de Tariq demonstrado pelo entrevistador; a liberdade caracter\u00edstica do g\u00eanero, possibilitando a modula\u00e7\u00e3o e a conflu\u00eancia de registros, do pessoal ao pol\u00edtico; o prop\u00f3sito sistem\u00e1tico do empreendimento que adota como fio condutor os desdobramentos da situa\u00e7\u00e3o mundial; tudo isso torna o livro uma esp\u00e9cie de s\u00famula das opini\u00f5es e das obras de Tariq Ali.<\/p>\n<p>O livro debru\u00e7a-se sobre aspectos pouco destacados da hist\u00f3ria pol\u00edtica dos pa\u00edses isl\u00e2micos. Aborda as causas da divis\u00e3o e antagonismo entre \u00cdndia e Paquist\u00e3o; o papel do ex\u00e9rcito paquistan\u00eas na cria\u00e7\u00e3o do Talib\u00e3; o surgimento do fundamentalismo isl\u00e2mico por instiga\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos durante a Guerra Fria; a a\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio ingl\u00eas na g\u00eanese do Estado de Israel e da expans\u00e3o colonial de suas fronteiras; as vicissitudes do nacionalismo \u00e1rabe etc.<\/p>\n<p>A originalidade da contribui\u00e7\u00e3o de Tariq Ali pode ser apreendida com mais precis\u00e3o em sua an\u00e1lise dos Estados Unidos, ponto decisivo, ali\u00e1s, para a avalia\u00e7\u00e3o de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo. Ele examina a matriz do Imp\u00e9rio a partir do ponto de vista do cidad\u00e3o do mundo isl\u00e2mico ou do habitante do Terceiro Mundo. Ao adotar a perspectiva da v\u00edtima da viol\u00eancia e da opress\u00e3o norte-americanas, n\u00e3o s\u00f3 desmascara as racionaliza\u00e7\u00f5es do discurso oficial (como a tese de que sua a\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio seria uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d destinada a libertar o povo da tirania), como detecta tamb\u00e9m aspectos insuspeitos da sociedade americana.<\/p>\n<p>O islamismo, em particular sua vertente fundamentalista, substituiu, no imagin\u00e1rio norte-americano, o lugar antes ocupado durante a Guerra Fria pela extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como for\u00e7a oposicionista e amea\u00e7a permanente \u2013 antes \u201cImp\u00e9rio do mal\u201d, agora \u201cEixo do mal\u201d. Mas, como ensina a psican\u00e1lise, em geral, na delimita\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d costuma-se projetar, como em um espelho invertido, tra\u00e7os de sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Herbert Marcuse j\u00e1 havia chamado a aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter totalit\u00e1rio, unidimensional da sociedade americana. Tariq Ali complementa essa descri\u00e7\u00e3o, destacando outro aspecto: o seu \u201cfundamentalismo\u201d. Ele lembra que os Estados Unidos s\u00e3o a na\u00e7\u00e3o mais religiosa do mundo e \u201cum dos exemplos mais impressionantes de que a difus\u00e3o da tecnologia e da ci\u00eancia moderna n\u00e3o precisa ser acompanhada da propaga\u00e7\u00e3o do secularismo. Num pa\u00eds onde 60% da popula\u00e7\u00e3o acreditam em Sat\u00e3, e 89% em divindades, o triunfo eleitoral de Bush acentuou as principais diferen\u00e7as entre a Europa Ocidental e os Estados Unidos \u2013 n\u00e3o em termos de economia e pol\u00edtica, mas de guerra e religi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas, se o fundamentalismo religioso \u2013 marca da gest\u00e3o de George W. Bush \u2013 determina \u201ca nova face do imp\u00e9rio\u201d, este n\u00e3o deixa de se assentar no mesmo\u00a0<em>corpus<\/em>\u00a0de sempre: no militarismo, arma principal de quem pretende \u201cgovernar\u201d o mundo; na domina\u00e7\u00e3o cultural, pela cria\u00e7\u00e3o de uma rede de colaboradores entre os intelectuais da elite dos pa\u00edses dominados, muitas deles formados nas universidades norte-americanas; na propaganda da \u201csuperioridade branca, ocidental\u201d, denegrindo o outro na chave, muitas vezes racista, do \u201corientalismo\u201d.<\/p>\n<p>Em suma, apesar de sua nova face, o imp\u00e9rio norte-americano segue os mesmos passos do antigo imp\u00e9rio ingl\u00eas. Deriva sua raz\u00e3o de ser da necessidade que tem o capital de se expandir e encontrar novos mercados. Escolhe seus inimigos (e n\u00e3o hesita em ir \u00e0 guerra contra eles) conforme seus interesses econ\u00f4micos, pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos. Nesse sentido, o isl\u00e3 tornou-se o alvo principal por conta de um acidente da hist\u00f3ria e da geografia \u2013 ter ocupado a regi\u00e3o que concentra as maiores reservas de petr\u00f3leo do mundo.<\/p>\n<p>Esse diagn\u00f3stico fornece as premissas das modalidades de luta contra o Imp\u00e9rio que Tariq Ali defende. A resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o territorial, no Afeganist\u00e3o, no Iraque etc. n\u00e3o pode prescindir do apoio da oposi\u00e7\u00e3o interna nos pa\u00edses do Ocidente, principalmente nos Estados Unidos. Tariq Ali sugere uma retomada da Liga Anti-imperialista, organizada, no final do s\u00e9culo XIX, por Mark Twain.<\/p>\n<p>A evoca\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia de um escritor n\u00e3o \u00e9 casual. Tariq prop\u00f5e como fulcro da resist\u00eancia uma intera\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e cultura, cujo germe estaria na audi\u00eancia e repercuss\u00e3o dos poetas e romancistas no mundo \u00e1rabe (semelhante \u00e0 da m\u00fasica popular no Brasil durante a ditadura militar). Trata-se de propor fontes de resist\u00eancia seculares, alternativas aos fundamentalismos \u2013 religiosos, mas tamb\u00e9m dos mercados \u2013 que, l\u00e1 e c\u00e1, dominam o mundo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Kt1poxb6s9\"><p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/norte-americanos-no-oriente-medio\/\">Norte-americanos no Oriente M\u00e9dio<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Norte-americanos no Oriente M\u00e9dio&#8221; &#8212; A Terra \u00e9 Redonda\" src=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/norte-americanos-no-oriente-medio\/embed\/#?secret=cKNMcdOj7X#?secret=Kt1poxb6s9\" data-secret=\"Kt1poxb6s9\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Musse &#8211;\u00a0A obra de Tariq Ali adiciona \u00e0 compreens\u00e3o do Imp\u00e9rio norte-americano a quest\u00e3o do fundamentalismo religioso como fator complementar ao militarismo, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o cultural e ao racismo. 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