{"id":12667,"date":"2020-03-24T20:25:22","date_gmt":"2020-03-24T23:25:22","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12667"},"modified":"2020-03-24T20:25:22","modified_gmt":"2020-03-24T23:25:22","slug":"hebert-s-klein-nas-sociedades-que-foram-escravistas-continua-existindo-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/24\/hebert-s-klein-nas-sociedades-que-foram-escravistas-continua-existindo-racismo\/","title":{"rendered":"Hebert S. Klein: \u201cNas sociedades que foram escravistas continua existindo racismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>DAVID MARCIAL P\u00c9REZ<\/strong> &#8211; O historiador e antrop\u00f3logo norte-americano recebe no M\u00e9xico o pr\u00eamio Alfonso Reyes por suas pesquisas sobre a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<div class=\"article | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<section class=\"article_body | color_gray_dark\">Herbert S. Klein\u00a0(Nova York, 1936) \u00e9 o acad\u00eamico vivo que mais teses de doutorado orientou nos Estados Unidos. Das universidades mais prestigiosas de seu pa\u00eds \u2013 Chicago, Columbia e Stanford \u2013, este historiador e antrop\u00f3logo apadrinhou dezenas de estudantes na f\u00e9rtil tradi\u00e7\u00e3o dos EUA em estudos latino-americanos. O Col\u00e9gio do M\u00e9xico acaba de lhe conceder o pr\u00eamio Alfonso Reyes por suas vastas pesquisas sobre a\u00a0escravid\u00e3o, as finan\u00e7as e a demografia coloniais, assim como a hist\u00f3ria comparada da regi\u00e3o durante o s\u00e9culo XX. Em seus livros \u2013\u00a0A Escravid\u00e3o Africana na Am\u00e9rica Latina e Caribe\u00a0(Editora UnB) e\u00a0Hist\u00f3ria M\u00ednima de Bolivia\u00a0\u2013, ele desfaz lugares-comuns como o suposto papel subalterno da comunidade aimar\u00e1. Tamb\u00e9m ilumina fatos pouco conhecidos, como a colabora\u00e7\u00e3o das elites africanas no com\u00e9rcio de escravos.<\/p>\n<p class=\"\"><b>Pergunta<\/b>. Qual \u00e9 o papel dos povos africanos no desenvolvimento da escravid\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"\"><b>Resposta<\/b>. Apesar das ideias muito difundidas de que os europeus chegaram e roubaram os africanos, o tr\u00e1fico foi controlado dos povos e reinos africanos at\u00e9 as col\u00f4nias americanas. Os europeus tinham uma ideia muito limitada da costa africana. Para eles era muito dif\u00edcil chegar \u00e0 Nig\u00e9ria, ao Congo ou a Angola. Al\u00e9m disso, era um mercado muito especializado, caro e lento. Encher um barco de 300\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573835859_935779.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">escravos<\/a>\u00a0levava tr\u00eas meses. E os mercadores africanos exigiam tecidos da \u00c1sia ou produtos especiais, como armas.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Outro mito \u00e9 que o com\u00e9rcio de escravos era barato.<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Era car\u00edssimo. O poderoso povo Ashanti, no norte de Gana, pedia diretamente ouro. Os atores africanos fomentavam a competi\u00e7\u00e3o entre os europeus. De fato, durante a primeira \u00e9poca, os colonos portugueses n\u00e3o podiam ter acesso \u00e0s zonas de Benin e Biafra, duas das mais apreciadas. Enquanto n\u00e3o veio o\u00a0<i>boom<\/i>\u00a0no Brasil dos minerais, incluindo o ouro, os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/29\/cultura\/1553848854_810812.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">portugueses<\/a>\u00a0n\u00e3o puderam ter acesso a essas regi\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Os portugueses foram os que estiveram mais perto de controlar o neg\u00f3cio na origem.<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Sim, em Angola e Mo\u00e7ambique surgiu uma classe mercante afro-portuguesa, mesti\u00e7os livres, que conseguiram n\u00e3o depender tanto dos mercadores. Foram capazes de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/16\/cultura\/1534447105_529381.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">acumular escravos<\/a>\u00a0e mand\u00e1-los ao exterior. Os portugueses chegaram inclusive a entrar em guerras em solo africano para apoiar seus s\u00f3cios escravistas contra outros povos que respaldavam ingleses e holandeses. Foram os \u00fanicos que entraram diretamente na \u00c1frica.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Que diferen\u00e7as havia entre as expedi\u00e7\u00f5es espanholas e portuguesas, por um lado, e as holandesas, ingleses e francesas?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. A Coroa espanhola e portuguesa controlou o fluxo at\u00e9 quase o s\u00e9culo XIX. J\u00e1 os holandeses,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/25\/cultura\/1529917947_118147.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ingleses<\/a>\u00a0e inclusive franceses foram os primeiros a montar suas expedi\u00e7\u00f5es privadas \u00e0 margem da Coroa. Liverpool e Nantes foram grandes portos de barcos negreiros.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Como era a rela\u00e7\u00e3o entre escravos ind\u00edgenas e africanos?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. As\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/politica\/1573824412_841710.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">leis que aboliram a escravid\u00e3o ind\u00edgena<\/a>\u00a0foram mais tardias no Brasil, o que provocou muitas rebeli\u00f5es e fugas por uma fronteira que, al\u00e9m disso, era muito aberta e dif\u00edcil de controlar. J\u00e1 os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/26\/internacional\/1561563872_895042.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">escravos africanos<\/a>, desarraigados, eram f\u00e1ceis de controlar, mas eram caros. At\u00e9 1600, a maioria eram escravos ind\u00edgenas. Uma vez que o Brasil entrou plenamente no mercado europeu do a\u00e7\u00facar, p\u00f4de conseguir o dinheiro para comprar escravos africanos. E, a partir da\u00ed, os \u00edndios praticamente desapareceram. Os portugueses n\u00e3o foram t\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 quest\u00e3o dos direitos humanos como os espanh\u00f3is.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Qual foi a diferen\u00e7a?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R.\u00a0<\/b>Em Portugal n\u00e3o houve debates profundos sobre os \u00edndios. Na Espanha, sim. Isso tem a ver com o fato de que os portugueses n\u00e3o tinham tanto controle sobre o Brasil como os espanh\u00f3is sobre as suas col\u00f4nias. N\u00e3o havia uma implanta\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte da Igreja. Al\u00e9m disso, a Espanha conquistou civiliza\u00e7\u00f5es desenvolvidas \u2013 incas, mexicas \u2013, com estruturas sociais e econ\u00f4micas estabelecidas, com camponeses produzindo em sua pr\u00f3pria terra. No Brasil eram fundamentalmente ca\u00e7adores-coletores, n\u00f4mades, menos desenvolvidos e mais dif\u00edceis de controlar. A Espanha tentou absorver essa estrutura pr\u00e9via de nobreza e, sobretudo, de campesinato que pagava impostos. Simplesmente eliminou a elite local para colocar um vice-rei.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Qual \u00e9 o legado no presente desse passado colonial escravista?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Em todas as sociedades que foram escravistas,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/19\/politica\/1574203693_074968.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">continua existindo racismo<\/a>. A quest\u00e3o \u00e9 a intensidade e como funciona. No Brasil, por exemplo, h\u00e1 menos guetos negros que nos EUA. \u00c9 uma sociedade mais integrada. Tamb\u00e9m vem mudando a autoidentifica\u00e7\u00e3o racial. At\u00e9 os anos 1950, o Brasil se considerava um pa\u00eds branco. Agora o brasileiro m\u00e9dio j\u00e1 se aceita como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/26\/internacional\/1561563872_895042.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">mesti\u00e7o<\/a>. Mas h\u00e1 outros dados significativos. As fam\u00edlias negras de classe m\u00e9dia-alta t\u00eam problemas para assegurar a mesma posi\u00e7\u00e3o de classe para seus filhos, o que n\u00e3o acontece com as fam\u00edlias ricas brancas.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. Ainda estamos longe de romper essa identifica\u00e7\u00e3o do branco como o positivo, o rico?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Na Bol\u00edvia , por exemplo, tamb\u00e9m existe um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/internacional\/1573840662_862744.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">alto n\u00edvel de autoidentifica\u00e7\u00e3o<\/a>. Um ter\u00e7o dos \u00edndios n\u00e3o falam um idioma ind\u00edgena, falam espanhol, mas se identificam como ind\u00edgenas. Isso se deve a uma mobiliza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria das classes populares aimar\u00e1s, que, embora sem o elemento da l\u00edngua, n\u00e3o querem se identificar como brancos. Eles foram o catalisador, ainda que na d\u00e9cada de cinquenta todo mundo pensasse que os qu\u00e9chuas eram a comunidade predominante na Bol\u00edvia e que os aimar\u00e1s eram muito passivos.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. O senhor fala em seu livro que a Bol\u00edvia \u00e9 \u201ca mais ind\u00edgena das nossas rep\u00fablicas\u201d.<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. Em porcentagem da popula\u00e7\u00e3o, a mais ind\u00edgena \u00e9 a Guatemala, mas a mais autoidentificada \u00e9 a Bol\u00edvia. Isso se deve a esse orgulho das comunidades e sobretudo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Desde os anos 1940, h\u00e1 uma rede de educa\u00e7\u00e3o rural para os camponeses. Antes inclusive da chegada de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/28\/opinion\/1574952319_840849.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Evo Morales<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\"><b>P<\/b>. O que acha que acontecer\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de maio?<\/p>\n<p class=\"\"><b>R<\/b>. O Movimento ao Socialismo (MAS) vai ganhar de novo. N\u00e3o h\u00e1 outro pa\u00eds na Am\u00e9rica Latina onde a comunidade ind\u00edgena tenha se expressado t\u00e3o poderosamente.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-02-24\/hebert-s-klein-nas-sociedades-que-foram-escravistas-continua-existindo-racismo.html<\/p>\n<\/section>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAVID MARCIAL P\u00c9REZ &#8211; O historiador e antrop\u00f3logo norte-americano recebe no M\u00e9xico o pr\u00eamio Alfonso Reyes por suas pesquisas sobre a Am\u00e9rica Latina. Herbert S. Klein\u00a0(Nova York, 1936) \u00e9 o acad\u00eamico vivo que mais teses de doutorado orientou nos Estados Unidos. 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