{"id":12641,"date":"2020-03-18T10:04:37","date_gmt":"2020-03-18T13:04:37","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12641"},"modified":"2020-03-17T16:12:36","modified_gmt":"2020-03-17T19:12:36","slug":"finlandia-a-formula-da-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/18\/finlandia-a-formula-da-felicidade\/","title":{"rendered":"Finl\u00e2ndia, a f\u00f3rmula da felicidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Alfageme<\/strong> &#8211; Aterrisso em <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/helsinki\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Helsinque<\/a>. Quando tento pagar pelo trem para o centro, o frio da plataforma me fisga em cheio. Esqueci minha vida \u2014documento de identidade, celular, carteira\u2014 no banheiro da \u00e1rea de desembarque no aeroporto. N\u00e3o posso voltar a entrar. Corro para um balc\u00e3o. Uma funcion\u00e1ria me escuta, imune ao terror no meu rosto. Telefona. Espero. Volta a ligar. Nada. Me manda para outra janelinha. Ali, a mulher, impass\u00edvel, fu\u00e7a debaixo da prateleira: &#8220;Ana?&#8221;. Ergue o documento. O telefone. A carteira. Na Finl\u00e2ndia voc\u00ea deixa a identidade no banheiro e te devolvem. Uma revista largou 12 carteiras em 16 cidades. Helsinque mostrou ser a mais honesta do mundo. 11 reapareceram; em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/madrid\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Madri<\/a>, 2. Quando chego ao pa\u00eds recordista em tantas coisas \u2014o mais livre e est\u00e1vel do mundo e o que mais contribui para o bem-estar da humanidade\u2014, acabo tendo de vivenciar precisamente esse recorde. Quase choro de al\u00edvio. J\u00e1 posso come\u00e7ar a procurar o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/20\/actualidad\/1553082330_410487.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segredo da felicidade finlandesa<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Na sauna, nem sobrenomes, nem trabalho, nem pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Entre o vapor e a escurid\u00e3o da sauna, mal se consegue ver o rosto de uma dezena de homens e mulheres. Com exce\u00e7\u00e3o de Ana, uma jovem mexicana que acompanha Riikka, tia<strong>&#8211;<\/strong>av\u00f3 de seu filho, todos s\u00e3o de meia-idade. Riikka diz que o ritual de sauna e banho no mar a fazem resistir ao longu\u00edssimo per\u00edodo de escurid\u00e3o. Para Outi, uma m\u00e9dica jovial na casa dos 50 anos, \u00e9 relaxante. Um senhor revela que conheceu aqui a sorridente mulher que se senta a seu lado. Sobre o que todos eles costumam conversar? &#8220;Do tempo. Ou de receitas de comida\u201d, diz Outi. H\u00e1 19 anos ela vem aqui, mas n\u00e3o sabe o sobrenome dos colegas de sauna. Nem a profiss\u00e3o. \u201cH\u00e1 uma regra. N\u00e3o se fala nem de trabalho nem de pol\u00edtica.\u201d Bom lugar para saborear esta sociedade igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Suar em uma sala de madeira \u00e9 o grande passatempo (e inven\u00e7\u00e3o) finland\u00eas. Existem 2,3 milh\u00f5es de saunas neste comprido pa\u00eds incrustado entre a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rusia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">R\u00fassia<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/suecia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Su\u00e9cia<\/a>, com 5,5 milh\u00f5es de habitantes. Quase um para cada dois cidad\u00e3os. Nessas salas aquecidas nasciam crian\u00e7as e as pessoas se despediam dos mortos. Parece um s\u00edmbolo desse n\u00facleo resistente, tremendamente pr\u00e1tico, de uma na\u00e7\u00e3o sujeita a todos os tipos de adversidades \u2014clim\u00e1ticas, econ\u00f4micas, b\u00e9licas\u2014 e que viajou em velocidade supers\u00f4nica da pen\u00faria de uma sociedade rural at\u00e9 o cume do desenvolvimento humano.<\/p>\n<p><a class=\"enlace\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581799158_sumario_normal.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581799158_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581799158_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581799158_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A sauna de um clube de nata\u00e7\u00e3o de invierno no centro da capital finlandesa.\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/a><\/p>\n<p><em><a class=\"enlace\"><span class=\"foto-texto\">A sauna de um clube de nata\u00e7\u00e3o de invierno no centro da capital finlandesa<\/span><\/a><\/em><\/p>\n<p>Neste clube de Helsinque\u2014duas cabanas simples ao lado de um p\u00eder\u2014 as mulheres em frenesi para se despir e correr para o mar a\u00e7oitadas pela chuva perguntam: &#8220;Voc\u00ea acha que somos loucos, n\u00e3o?&#8221;. E felizes? A Finl\u00e2ndia \u00e9 oficialmente o pa\u00eds mais feliz do mundo pelo segundo ano consecutivo, de acordo com um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/14\/internacional\/1521026096_399451.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a>. Uma senhora entra no vesti\u00e1rio com uma toalha min\u00fascula como \u00fanico traje e responde: \u201cSim, os finlandeses. Felizes e nus, isso \u00e9 o que dizem, n\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>E o que diz o ex-primeiro-ministro\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/14\/internacional\/1555255202_531128.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antti Rinne<\/a>\u00a0\u00e9: \u201cEm nossa sociedade h\u00e1 equidade, o Estado de bem-estar significa que cada pessoa tem o mesmo direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0s presta\u00e7\u00f5es sociais. Al\u00e9m disso, \u00e9 um pa\u00eds seguro para todos. Acredito que por causa dessas duas coisas somos t\u00e3o felizes\u201d.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea fizer a pergunta a qualquer pessoa que encontrar, ela levantar\u00e1 as sobrancelhas. Provavelmente far\u00e1 ironia sobre a inclemente penumbra (pouco mais de seis horas de luz) que nos cerca: \u201cBem-vinda \u00e0 Finl\u00e2ndia em novembro!\u201d, dir\u00e1 com um meio sorriso. Depois responder\u00e1 que se sente satisfeito com sua vida. Citar\u00e1 a educa\u00e7\u00e3o com toda a certeza. O Estado de bem-estar. A igualdade. A confian\u00e7a nos outros. Sua cren\u00e7a de que tudo funciona. Algo assim est\u00e1 refletido no Relat\u00f3rio sobre a Felicidade no Mundo. N\u00e3o s\u00e3o os reservados finlandeses, modestos com suas conquistas, os que expressam mais emo\u00e7\u00f5es alegres. Mas se destacam em constatar a escassa corrup\u00e7\u00e3o, a grande liberdade de que disp\u00f5em para tomar decis\u00f5es sobre sua vida e que, em caso de necessidade, sempre podem contar com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>A origem \u00e9 um Estado democr\u00e1tico estabelecido em uma Constitui\u00e7\u00e3o de grande calado depois do fim da sangrenta guerra civil de 1918, diz o professor de Hist\u00f3ria do Direito Jukka Kekkonen. Um momento para a reconcilia\u00e7\u00e3o do jovem pa\u00eds, que havia conseguido a independ\u00eancia da R\u00fassia em 1917. A partir da\u00ed, o que torna a Finl\u00e2ndia \u00fanica \u00e9 \u201ca compreens\u00e3o do significado das coaliz\u00f5es pol\u00edticas, o consenso e os compromissos nas grandes quest\u00f5es, al\u00e9m da justi\u00e7a e da igualdade\u201d. Essas amplas alian\u00e7as de for\u00e7as moderadas foram fundamentais, acredita ele, na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade n\u00e3o isenta de desafios como guerras e dificuldades econ\u00f4micas: o colapso da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/urss_union_republicas_socialistas_sovieticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/a>, que coincidiu com uma grande crise nos anos noventa; a queda da gigante tecnol\u00f3gica Nokia e a Grande Recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando esta reportagem foi feita, no fim de novembro, Rinne era o primeiro governante socialdemocrata em 20 anos, \u00e0 frente de um Executivo de coaliz\u00e3o de centro-esquerda. Havia vencido por pequena margem o ultradireitista e xen\u00f3fobo Partido dos Finlandeses, impulsionado como sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o pelo descontentamento criado pela fratura social e pelos cortes do Executivo anterior. Rinne caiu em 3 de dezembro, acusado de mentir na sede parlamentar sobre a greve dos servi\u00e7os postais.<\/p>\n<p>Sua ren\u00fancia provocou um novo recorde nacional. A sucessora,\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/12\/09\/actualidad\/1575929672_400621.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sanna Marin<\/a>, se tornou, aos 34 anos, a primeira-ministra mais jovem do mundo em meio a uma situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita: os cinco partidos do Governo s\u00e3o liderados por mulheres, quatro delas com menos de 35 anos. \u00c9 uma marca que se entende melhor com um fato. As finlandesas foram as primeiras do mundo a votar e disputar elei\u00e7\u00f5es, em 1907. Sua presen\u00e7a no mercado de trabalho \u00e9 muito elevada, com uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o superior a 70%, ligeiramente inferior \u00e0 masculina.<\/p>\n<p>A Finl\u00e2ndia, uma economia altamente industrializada (com muita for\u00e7a na eletr\u00f4nica) e baseada no setor de servi\u00e7os, \u00e9 uma das mais generosas da OCDE em prote\u00e7\u00e3o social. Gasta 30,9% do PIB, com uma renda per capita (42.340 euros, aproximadamente 197.099 reais) menor do que o resto dos pa\u00edses n\u00f3rdicos. Esse guarda-chuva de seguran\u00e7a, que s\u00f3 foi totalmente implantado em meados dos anos sessenta do s\u00e9culo passado, agora cobre Edvin, um pl\u00e1cido beb\u00ea nos bra\u00e7os do pai no consult\u00f3rio do centro de sa\u00fade. Algo n\u00e3o vai bem. A m\u00e9dica o aproxima de um aparelho que emite um zunido no ouvido esquerdo. Ele n\u00e3o se altera. \u00c9 o momento dos exames que se fazem aos oito meses. A sa\u00fade p\u00fablica finlandesa \u00e9 pressionada pelo ritmo recorde de envelhecimento (durante 10 anos esteve quase na lideran\u00e7a da UE, com 21% das pessoas acima de 65 anos) e pela baixa natalidade. O Executivo pretende rever os cortes do Governo conservador anterior \u2014que caiu ao tentar privatizar parcialmente a sa\u00fade e recentraliz\u00e1-la\u2014 injetando dinheiro, aumentando impostos e gerando mais emprego.<\/p>\n<p><a class=\"posicionador\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep02.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1583764455_sumario_fotograma.jpg?resize=580%2C325&#038;ssl=1\" width=\"580\" height=\"325\" \/><\/a><\/p>\n<p>Durante meia hora, a m\u00e9dica, uma enfermeira e uma residente pesam, medem e auscultam Edvin. Escutam e falam. \u201cEle tem uma infec\u00e7\u00e3o no ouvido. Receitaram antibi\u00f3ticos\u201d, conta o pai, Juhana Tuunanen, diplomata de 37 anos, na frente de um caf\u00e9 ao voltar para casa. \u00c9 um apartamento de um quarto \u2014e sauna, claro\u2014 em uma regi\u00e3o abastada de Helsinque. Chove, mas ele deixa o filho na varanda. \u201cAssim ele dorme melhor a sesta\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 fotos de Juhana com a esposa e a outra filha, de sete anos, na estante da sala de estar. A prote\u00e7\u00e3o do Estado finland\u00eas se espalha sobre todos eles. A enumera\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios parece infinita: por Edvin, recebem 105 euros por m\u00eas at\u00e9 completar 17 anos. Quando ele nasceu, receberam 170, o equivalente ao que custa a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/18\/ciencia\/1460990414_378786.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">famosa caixa de papel\u00e3o<\/a>\u00a0que o Estado envia em cada nascimento, com roupas e alimentos para os dois primeiros meses. Eles j\u00e1 desfrutaram da caixa da filha. A m\u00e3e teve quatro meses de licen\u00e7a-maternidade; ele, nove semanas. Ambos podem dividir mais seis meses. \u00c9 por isso que ele cuida do beb\u00ea, cozinha e faz a limpeza da casa. A menina frequentou uma escola infantil acess\u00edvel (\u201ccusta entre 50 e 300 euros, dependendo da renda familiar\u201d, diz ele) e com cinco anos come\u00e7ou a educa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-escolar gratuita oferecida pela capital. \u201cTer filhos n\u00e3o significa uma mudan\u00e7a dram\u00e1tica\u201d, diz. Para isso influencia que ele e a esposa n\u00e3o trabalham mais de oito horas por dia, algo habitual na Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Edvin acordou. Seu foco de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o microfone que registra as palavras do pai. \u201cBem, os servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o saem de uma caixa m\u00e1gica, temos de pagar uma quantidade bastante alta de impostos, estou muito feliz em pag\u00e1-los\u201d, diz, repetindo algo que voc\u00ea vai se acostumando a ouvir, \u201ceu os recebo mais tarde em servi\u00e7os que s\u00e3o muito importantes para mim.\u201d A press\u00e3o fiscal finlandesa \u00e9 de 42,2% do PIB, menor do que o resto dos pa\u00edses escandinavos, exceto a Noruega.<\/p>\n<p><strong>2<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O equil\u00edbrio dourado<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><a class=\"posicionador\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep02.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1583764566_sumario_fotograma.jpg?resize=580%2C325&#038;ssl=1\" width=\"580\" height=\"325\" \/><\/a><\/p>\n<p>A filha de sete anos de Juhana j\u00e1 come\u00e7ou a ir ao col\u00e9gio. A Educa\u00e7\u00e3o se escreve aqui em letras mai\u00fasculas. P\u00fablica e gratuita at\u00e9 o doutorado,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/22\/internacional\/1574450032_618780.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e9 uma das melhores do mundo<\/a>. Hanna, Evii, Harris e Aarhun guiam com certa condescend\u00eancia a visita ao col\u00e9gio Pukinm\u00e4enkaari, ao norte de Helsinque. Aarhun j\u00e1 fez 16 anos. Alto, moreno, ele se expressa em um \u00f3timo ingl\u00eas. Sua fam\u00edlia se mudou do Azerbaij\u00e3o: \u201cEste col\u00e9gio \u00e9 muito mais divertido\u201d, explica. \u201cOs professores te apoiam. Eles te d\u00e3o as notas que voc\u00ea merece, n\u00e3o te aprovam por trazer presentes para o professor ou por puxar o saco dele. Temos mais recreios e mais longos e voc\u00ea pode fazer um monte de coisas com seus amigos.\u201d O que se v\u00ea no passeio s\u00e3o salas de aula sem livros e com computadores, algumas com almofadas em forma de cone por todo o mobili\u00e1rio e uma ala com crian\u00e7as com defici\u00eancias graves, permanentemente acamadas ou em sofisticadas cadeiras de rodas, sempre com um professor ao lado de cada uma delas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se v\u00ea \u00e9 que todos os professores t\u00eam mestrado na mat\u00e9ria que ensinam e que exercem uma das profiss\u00f5es mais desejadas, que existe um plano contra o ass\u00e9dio copiado em todo o mundo, que as jornadas s\u00e3o curtas, que se trabalha por projetos e que os 960 alunos quase n\u00e3o t\u00eam li\u00e7\u00e3o de casa. Bom lugar para evocar o professor Pasi Sahlberg, especialista no sistema educacional do pa\u00eds: \u201cA Finl\u00e2ndia parece ter encontrado um equil\u00edbrio dourado entre press\u00e3o e liberdade para que seus alunos consigam bons resultados\u201d. Tudo isso, diz ele, \u00e9 resultado de meio s\u00e9culo de evolu\u00e7\u00e3o social em que prevalece a colabora\u00e7\u00e3o entre escolas e a educa\u00e7\u00e3o individualizada. Esse excelente sistema \u00e9 uma das raz\u00f5es da felicidade de seus compatriotas? \u201cAbsolutamente\u201d, responde. A jovem ministra da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, Li Andersson, tamb\u00e9m concorda: \u201cN\u00e3o importa se falamos de emprego, felicidade, igualdade, criatividade ou crescimento. Todas essas coisas t\u00eam origem na forma como o sistema educacional funciona: isso e o conhecimento fornecem ferramentas \u00e0s pessoas para enfrentar o que temos ao redor\u201d.<\/p>\n<p>Precisamente, o grande trunfo do Executivo para o crescimento econ\u00f4mico passa pela educa\u00e7\u00e3o, sacudida pelos cortes, na qual planeja injetar 2 bilh\u00f5es de euros em quatro anos, e o mais importante: \u201cEm 2022, todos os alunos dever\u00e3o estar no ensino m\u00e9dio (desde os 16 anos) obrigatoriamente\u201d, anuncia enfaticamente o ex-primeiro-ministro Rinne. \u00c9 f\u00e1cil de entender, diz. Quanto mais qualifica\u00e7\u00e3o, mais emprego.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798274_sumario_normal.jpg?resize=640%2C961&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798274_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798274_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798274_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Crian\u00e7as em uma escola de Pukinm\u00e4enkaari, ao norte de Helsinki.\" width=\"640\" height=\"961\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Crian<\/span><\/em><em><span class=\"foto-texto\">\u00e7as em uma escola de Pukinm\u00e4enkaari, ao norte de Helsinki<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>3<\/strong><\/p>\n<p><strong>Afundar na \u00e1gua gelada e brilhar<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Solte o ar. Expire enquanto desce. Assim. Tranquila.<\/p>\n<p>A monitora de nata\u00e7\u00e3o de inverno P\u00e4ivi P\u00e4lvim\u00e4ki se equilibra sobre o gelo que filtra o p\u00eder enquanto d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es. V\u00ea<strong>&#8211;<\/strong>la de mai\u00f4 e usando um gorro de l\u00e3 seria engra\u00e7ado se a sua cabe\u00e7a n\u00e3o estivesse ocupada em sobreviver. Milhares de agulhas se cravam nas pernas. \u00c9 importante se lembrar de respirar com a \u00e1gua a quatro graus.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797776_sumario_normal.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797776_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797776_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797776_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"P\u00e4ivi P\u00e4lvim\u00e4ki, monitora de nata\u00e7\u00e3o de inverno.\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><em>P\u00e4ivi P\u00e4lvim\u00e4ki, monitora de nata\u00e7\u00e3o de inverno<\/em><\/p>\n<p>Uma luz morti\u00e7a descobre os abetos que abra\u00e7am a lagoa. Amanhece no imenso cen\u00e1rio do Parque Nacional de Nuuksio, a apenas meia hora de Helsinque. A floresta, repleta de lagos, \u00e9 a ess\u00eancia da Finl\u00e2ndia. O maior recurso natural, estandarte das exporta\u00e7\u00f5es e lugar ao qual sempre se volta. Ocupa quase tr\u00eas quartos do pa\u00eds. Metade dos cidad\u00e3os diz que o que mais gosta \u00e9 fazer exerc\u00edcios na natureza, como P\u00e4ivi. \u201cNadar no inverno dispara minha energia, \u00e9 uma experi\u00eancia extrema, uma esp\u00e9cie de medita\u00e7\u00e3o\u201d. Para a jornalista Katja Pantzar, afundar na \u00e1gua gelada \u00e9 um s\u00edmbolo de sisu, termo finland\u00eas que descreve uma fortaleza quase sobre<strong>&#8211;<\/strong>humana e que est\u00e1 em seu DNA. A mesma que repeliu a\u00a0<strong>&#8211;<\/strong>40\u00baC o equipad\u00edssimo e superior Ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico em 1939, ou a que mostrou Lasse Vir\u00e9n depois de cair na prova de 10.000 metros nas Olimp\u00edadas de Munique, em 1972, levantar-se e vencer batendo o recorde mundial.<\/p>\n<p>Refugiamo-nos, sozinhas, em uma cabine de sauna. \u00c9 f\u00e1cil se imaginar em uma dessas cabanas de f\u00e9rias para as quais todo mundo escapa. Existe uma para cada 2,5 edif\u00edcios residenciais. \u201cGostamos da vida simples e de contemplar o que acontece nas diferentes esta\u00e7\u00f5es do ano\u201d, diz.<\/p>\n<p>A Finl\u00e2ndia tamb\u00e9m possui o ar de melhor qualidade do mundo e cidades atravessadas pelo verde. Um bom lugar para Liisa Tyrv\u00e4inen, que investiga o efeito das florestas na sa\u00fade. \u201cBasta uma visita de quinze minutos para reduzir os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estres\">marcadores de estresse<\/a>\u201d, comenta. Ela supervisiona um projeto com um bosque terap\u00eautico dentro de um hospital. \u201cEste pa\u00eds \u00e9 \u00fanico em sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza. 96% dos cidad\u00e3os a visitam\u201d, diz. \u201cE est\u00e1 provado que, quando voc\u00ea est\u00e1 em contato com ela, se compromete com a sustentabilidade.\u201d Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos eleitores foi com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\">mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/a>. A Finl\u00e2ndia quer ser neutra em carbono em 2035, um objetivo mais ambicioso do que o europeu. O plano inclui a redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, a produ\u00e7\u00e3o de energia solar e e\u00f3lica e a eletrifica\u00e7\u00e3o da calefa\u00e7\u00e3o e do transporte.<\/p>\n<p>A lei permite entrar e acampar em qualquer bosque particular. E colher cogumelos ou frutas vermelhas. Existem restaurantes de \u201ccomida selvagem\u201d que oferecem pratos com bagas, cogumelos e plantas silvestres. Um deles \u00e9 o Gron, um pequeno estabelecimento de Helsinque que exibe sua\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/guia_michelin\">estrela Michelin<\/a>\u00a0no banheiro. \u201cColhemos 800 quilos de vegetais que preservamos\u201d, informa com ar solene o gar\u00e7om ao servir um card\u00e1pio no qual a cebola \u00e9 combinada com flores de alho e a sobremesa \u00e9 feita com estame de pinheiro e brotos de abeto.<\/p>\n<p>P\u00e4ivi nada no sil\u00eancio do amanhecer. Ao emergir, parece outra. A visitante entende o porqu\u00ea. Afundar na \u00e1gua gelada e brilhar, met\u00e1fora da Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p><strong>4<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma tarde na cidade mais feliz do mundo<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Dizem que a \u00fanica coisa que falta em Kauniainen \u00e9 um campo de golfe porque n\u00e3o cabe.<\/p>\n<p>Quem conta isso \u00e9 Christoffer Masar, prefeito desta cidade de 9.700 habitantes de apenas seis quil\u00f4metros quadrados, ao volante de seu carro. A chuva borra as luzes do congestionamento das quatro da tarde. J\u00e1 \u00e9 noite. A maioria dos moradores trabalha em Helsinque, a 15 quil\u00f4metros dali, ou na vizinha Espoo. Em Kauniainen n\u00e3o haver\u00e1 campo de golfe, mas tem at\u00e9 uma escada que n\u00e3o leva a lugar algum porque foi constru\u00edda apenas para fazer exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Se a Finl\u00e2ndia \u00e9 o pa\u00eds mais feliz do mundo, este punhado de casas espalhadas entre as \u00e1rvores, quase indistingu\u00edveis na eterna escurid\u00e3o de novembro, \u00e9 a comunidade mais feliz, de acordo com uma pesquisa de 2017. A raz\u00e3o? \u201c\u00c9 uma comunidade de moradores ricos, com \u00f3tima forma\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 importante\u201d, explica o minucioso prefeito, de 38 anos. \u00c9 um funcion\u00e1rio, como todos os prefeitos finlandeses, \u00e0s ordens dos pol\u00edticos eleitos. Para saber mais raz\u00f5es dessa felicidade \u00e9 preciso se enterrar. Literalmente.<\/p>\n<p>Um port\u00e3o franqueia a entrada de um bunker escavado em uma colina. A\u00ed come\u00e7a a vida. H\u00e1 crian\u00e7as correndo por um t\u00fanel que parece n\u00e3o ter fim, handebol juvenil em uma quadra coberta por rocha, acrobacias de ginastas adolescentes e a excita\u00e7\u00e3o de subir por uma parede de escalada subterr\u00e2nea. Os primeiros abrigos civis foram constru\u00eddos em 1938, antes da guerra contra a vizinha Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Desde os anos cinquenta as cidades e os edif\u00edcios t\u00eam abrigos antib\u00e9licos. Existem 45.000 em todo o pa\u00eds, um formigueiro de quadras esportivas, estacionamentos ou dep\u00f3sitos que em 72 horas devem estar prontos para acolher a popula\u00e7\u00e3o. Kauniainen abriga 100 clubes e associa\u00e7\u00f5es de todo tipo, parcialmente financiados pela prefeitura. Muitos deles treinam nessas curiosas instala\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio gasta cerca de 300 euros por ano por habitante em atividades esportivas, o triplo da m\u00e9dia de outras cidades. Tamb\u00e9m investe o triplo na educa\u00e7\u00e3o de adultos e mais do que outros em educa\u00e7\u00e3o infantil. E isso que os impostos municipais s\u00e3o os mais baixos do pa\u00eds. Mas ter uma grande quantidade de contribuintes ricos significa arrecadar muito.<\/p>\n<p>A trepidante atividade intramuros se repete nos tr\u00eas andares do centro de educa\u00e7\u00e3o de adultos, que recebe 4.000 alunos por ano. Atte Saari, de 80 anos, grande, compacto, sai da aula de estoniano. Diz ter pregui\u00e7a de pedalar os 100 quil\u00f4metros por dia que costumava e s\u00f3 sai para caminhar. \u201cN\u00e3o tenho do que reclamar.\u201d Paga um ter\u00e7o do valor da aula. O restante \u00e9 custeado pelo Governo (24%) e pela prefeitura (43%), explica satisfeito o diretor da escola, Roger Renman. \u00c9 poss\u00edvel estudar quase qualquer coisa, inclusive sugeri<strong>&#8211;<\/strong>la.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798104_sumario_normal.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798104_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798104_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798104_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Pessoas usam uma parede de escalada nas intala\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas de Kauniainen.\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Pessoas usam uma parede de escalada nas intala\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas de Kauniainen<\/span><\/em><\/p>\n<p>Duas mulheres jovens, vestidas de branco, se preparam para entrar na aula de yoga kundalini, enquanto Lars Chvister Johans, um espigado consultor aposentado de 76 anos, e Tarja Liljavista, de 63, terapeuta de uma casa de repouso, saem da gin\u00e1stica da parte superior do corpo! S\u00e3o felizes? \u201cEste \u00e9 o lugar onde, quando voc\u00ea tem um problema e telefona para a prefeitura, eles transferem a liga\u00e7\u00e3o para a pessoa que resolve o problema\u201d, diz, \u201cpodem at\u00e9 transferir a chamada para o prefeito. Tudo funciona\u201d. Ela aprova os col\u00e9gios e a natureza. Ele fala sobre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/impuestos\">impostos<\/a>: \u201cMe d\u00e3o muito pelo que pago\u201d.<\/p>\n<p><strong>5<\/strong><\/p>\n<p><strong>A casa primeiro<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sexta-feira \u00e0 tarde e um neon gigante vermelho ilumina com cinco letras \u2014sauna\u2014 quatro homens seminus sentados em uma mureta na rua. Eles s\u00e3o a imagem da felicidade, acolhedores e imunes ao \u00edmpeto da neve que cai fracamente. \u201cPassei dois dias sem dormir por causa de um encontro de programadores\u201d, diz Claudio, um jovem italiano de ampla ossatura, tremendo um pouco, \u201ce aguentei porque vim \u00e0 sauna\u201d. Seu veterano colega finland\u00eas \u2014eles trabalham juntos em uma empresa de software (o setor tecnol\u00f3gico \u00e9 grande no pa\u00eds onde os\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/tag\/angry_birds\/a\">Angry Birds<\/a>\u00a0nasceram)\u2013 diz divertido: \u201cSe diz que se algo n\u00e3o se cura com sauna ou \u00e1lcool, com certeza \u00e9 mortal\u201d.<\/p>\n<p>Carlos cruza os bra\u00e7os sobre as tatuagens e fuma um cigarro com um sorriso de fim de semana. Nasceu em El Salvador e \u00e9 professor. Na penumbra quente se fala. Existe at\u00e9 um Dia da Sauna: \u201cVoc\u00ea vai a um lugar com pessoas que nunca viu, fica nu e voc\u00eas transpiram juntos\u201d, ri Jaakko Blomberg, o inventor da celebra\u00e7\u00e3o, em que saunas particulares se abrem a todos. L\u00e1, diz, se interrompe a proverbial dificuldade finlandesa de falar com estranhos. E a festa, afirma, se entronca com uma divertida tradi\u00e7\u00e3o: \u201cJogar em campos de futebol enlameados, carregar as esposas ou o lan\u00e7amento de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nokia\">Nokias<\/a>\u00a0[a emblem\u00e1tica marca finlandesa de celulares, cuja abrupta queda prejudicou a economia nacional]\u201d. \u00c9 um homem alto que se desloca de bicicleta e tem um ar de eterno adolescente. Organizou o Cleaning Day, no qual todos s\u00e3o convidados a vender o que n\u00e3o usam, al\u00e9m de exposi\u00e7\u00f5es de arte em casas. \u201cEm outro lugar isso seria um problema, aqui n\u00e3o. As pessoas confiam nas outras.\u201d<\/p>\n<p>Kotiharjun, em cujas portas os quatro homens est\u00e3o sentados, \u00e9 uma das poucas saunas p\u00fablicas a lenha que restam em Helsinque. Foi inaugurada em 1929, quando Kallio, este bairro hoje bo\u00eamio, era um enclave de oper\u00e1rios e o banho de vapor era o lugar para se lavar. Ali nasceu, h\u00e1 63 anos, Martti, olhos azuis permanentemente lacrimejantes. Evasivos. Ao abrir a porta de casa, surpreendem o cheiro de tabaco e a limpeza do humilde espa\u00e7o quadrado, com uma cama de solteiro, uma cole\u00e7\u00e3o de garrafas vazias e coisas importantes penduradas na parede. Um recorte de jornal que mostra a igreja onde seus pais se casaram. Dois barrac\u00f5es de madeira juntos. Como aqueles em que pescava em uma ilha quando crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Isto n\u00e3o \u00e9 um quarto. Isto \u00e9 uma casa, a melhor que tive.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797895_sumario_normal.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797895_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797895_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581797895_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Um parque de Helsinki ao amanhecer.\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"foto-texto\">Um parque de Helsinki ao amanhecer<\/span><\/em><\/p>\n<p>O que ele diz parece n\u00e3o extinguir-lhe o gesto amargo, a inclina\u00e7\u00e3o esquiva da cabe\u00e7a. Morava na casa da tia e teve de sair quando ela morreu. Percorreu os albergues de Helsinque bebendo \u00e1lcool. Em outro lugar do mundo ele certamente estaria morto.<\/p>\n<p>N\u00e3o na Finl\u00e2ndia, o \u00fanico pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia que proporciona uma casa para aqueles que n\u00e3o a t\u00eam como o primeiro passo para recuperar suas vidas, dando-lhes tamb\u00e9m apoio com a engrenagem p\u00fablica de assist\u00eancia. O sistema\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/08\/30\/internacional\/1567183974_693033.html\">Housing First<\/a>\u00a0(a casa primeiro), adotado como estrat\u00e9gia nacional, conseguiu reduzir o n\u00famero de pessoas sem-teto em 35% entre 2008 e 2013. De 18.000 em 1987 para 5.500 agora.<\/p>\n<p>Assim, enquanto nos pa\u00edses vizinhos cresce o n\u00famero de outros Marttis, jogados na periferia do sistema, o castigado eletricista j\u00e1 incapacitado para trabalhar mora neste apartamento h\u00e1 tr\u00eas anos e fez um teste para o jornal da associa\u00e7\u00e3o Vva Ry, que gerencia a casa. No mesmo pr\u00e9dio de tijolo e vidro, 28 moradias iguais a esta acolhem homens mais velhos e sozinhos. Pagam 900 euros por m\u00eas. Sempre h\u00e1 um assistente social de plant\u00e3o. Eles os ajudam no que precisam.<\/p>\n<p>Um homem de rosto avermelhado cambaleia e grita. Acabou de chegar da rua, segurando uma lata de cerveja. \u00c9 um dos residentes. O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alcoholismo\">alcoolismo<\/a>\u00a0est\u00e1 em decl\u00ednio na Finl\u00e2ndia, mas entre os homens \u00e9 o dobro da m\u00e9dia europeia. Apesar das duras estrat\u00e9gias nacionais \u2014beber \u00e9 mais caro aqui do que em qualquer pa\u00eds da UE\u2014 metade dos finlandeses do sexo masculino (44,7%) declara consumir \u00e1lcool em grandes quantidades pelo menos uma vez no \u00faltimo m\u00eas. Tampouco o vociferante perder\u00e1 a casa por seu estado.<\/p>\n<p>Um dos inventores do sistema finland\u00eas \u00e9 Juha Kaakinen, CEO da ONG Funda\u00e7\u00e3o Y, a principal propriet\u00e1ria desta rede, que compra casas para alugar a baixo pre\u00e7o com o dinheiro que o Estado arrecada com jogos de azar. \u201cSe o Housing First fosse um medicamento\u201d, diz, \u201cdeveria ser prescrito como tratamento b\u00e1sico para essa doen\u00e7a chamada falta de moradia\u201d. Uma receita que exigiu mais moradias p\u00fablicas, transformar albergues em complexos de apartamentos e n\u00e3o deixar ningu\u00e9m sozinho. Uma f\u00f3rmula magistral que visa fazer a doen\u00e7a desaparecer em 2027. Esse sistema \u00e9 \u00e9tico, diz ele, e at\u00e9 vantajoso. \u201cA economia anual por pessoa \u00e9 de ao menos 15.000 euros\u201d, comenta, \u201cporque s\u00e3o usados menos servi\u00e7os sociais, de emerg\u00eancia, da pol\u00edcia e da Justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Este medicamento \u00e9 prescrito para sociedades diferentes e mais populosas? \u201c\u00c9 claro\u201d, responde, \u201cmas \u00e9 preciso ter o Governo, as prefeituras e as ONGs trabalhando com o mesmo objetivo e aportando recursos. E depois voc\u00ea precisa de casas, claro\u201d.<\/p>\n<p>Por extens\u00e3o, e chegamos a uma pergunta recorrente, o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estado_bienestar\">Estado de bem-estar<\/a>\u00a0finland\u00eas \u00e9 aplic\u00e1vel a outros pa\u00edses? \u201cOs Estados de bem-estar s\u00e3o conjuntos complexos em que pol\u00edticas, regula\u00e7\u00f5es, presta\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os s\u00e3o combinados em \u00e2mbitos diferentes (rela\u00e7\u00f5es de trabalho, sa\u00fade, velhice). Portanto, n\u00e3o podem ser exportados como exportamos azeite de oliva da Espanha\u201d, explica o professor de Economia da Universidade de Le\u00f3n Luis Buend\u00eda, autor do livro \u00bfEs Exportable el Modelo N\u00f3rdico? Assim como voc\u00ea n\u00e3o constr\u00f3i uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/democracia\">democracia<\/a>, diz, somente convocando elei\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso estabelecer liberdades e separa\u00e7\u00e3o de poderes. Mas o professor acredita que se pode aprender e muito.<\/p>\n<p>A suposi\u00e7\u00e3o de que os Estados de bem-estar s\u00f3 s\u00e3o vi\u00e1veis em pa\u00edses pouco povoados n\u00e3o \u00e9 correta: \u201cN\u00e3o se trata da quantidade de popula\u00e7\u00e3o. Trata-se da vontade de se comprometer, que as institui\u00e7\u00f5es funcionem bem e, acima de tudo, de igualdade de oportunidades para todas as crian\u00e7as\u201d, diz o professor finland\u00eas Jukka Kekkonen. \u201cA Su\u00e9cia tem aproximadamente os mesmos habitantes que a Gr\u00e9cia ou Portugal. Os Estados de bem-estar destes s\u00e3o muito diferentes, parecidos com o da Espanha, que tem muito mais popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz Buend\u00eda. \u201cO que aponta para uma hist\u00f3ria compartilhada: os tr\u00eas viveram ditaduras com repress\u00e3o aos movimentos oper\u00e1rios e de esquerda quando o resto da Europa consolidava e ampliava seus Estados de bem-estar\u201d.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea diz que vai viajar para a Finl\u00e2ndia, \u00e9 comum ouvir uma frase semelhante a esta:<\/p>\n<p>\u2013 Eles n\u00e3o devem ser t\u00e3o felizes se s\u00e3o os que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/23\/estilo\/1490299523_475804.html\">mais se suicidam<\/a>, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Os finlandeses t\u00eam uma taxa de suic\u00eddio tr\u00eas pontos superior \u00e0 m\u00e9dia europeia (14 por 100.000 habitantes) e \u00e9 enorme entre os homens, mas ela foi reduzida \u00e0 metade desde 1990. O professor de Psiquiatria da Universidade de Helsinque, Erkki T. Isomets\u00e4, explica como: \u201cFomos o primeiro pa\u00eds do mundo a desenvolver um plano de preven\u00e7\u00e3o, todos os suic\u00eddios foram estudados durante um ano e depois a disponibilidade e a qualidade do tratamento de doen\u00e7as mentais foram promovidas\u201d. Outra demonstra\u00e7\u00e3o da per\u00edcia finlandesa: um portal, o Mental Health Hub, oferece orienta\u00e7\u00e3o e tratamentos virtuais em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798923_sumario_normal.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798923_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798923_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420_1581798923_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Martti, um dos residentes do programa Housing First, em sua casa da capital finlandesa.\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><em>Martti, um dos residentes do programa Housing First, em sua casa da capital finlandesa<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio invocar como origem dos suic\u00eddios o clima extremo, dizem os especialistas, j\u00e1 que s\u00e3o mais numerosos neste pa\u00eds do que no resto dos n\u00f3rdicos. As causas, sempre complexas, teriam mais a ver com o alcoolismo, a emigra\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica para a cidade e o grande n\u00famero de armas de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 um pa\u00eds bastante brutal\u201d. Kjell West\u00f6 pronuncia estas palavras no Teatro Nacional, onde se ensaia a adapta\u00e7\u00e3o de um de seus romances. \u201cHouve quatro guerras em 27 anos em um pa\u00eds com t\u00e3o poucos habitantes. Isso deixou marcas em v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de homens. Quando eu era crian\u00e7a, \u00e9ramos todos filhos ou netos de soldados, o que traz consigo certa dureza na vida e nas atitudes. Essa foi uma parte sombria da nossa sociedade, mas, por outro lado, existe solidariedade, uma percep\u00e7\u00e3o de que somos bastante iguais\u201d. Acredita que isso tem a ver com um passado rural e pobre, quase sem aristocracia, \u201cque nos tornou igualit\u00e1rios em nossas atitudes\u201d. West\u00f6 aprendeu espanhol aos 35 anos para ler Cort\u00e1zar, Borges e S\u00e1bato. Depois ouviu obsessivamente Joaqu\u00edn Sabina. \u201cEu falo muito\u201d, ri, \u201ce aqui se suspeita daqueles que falam muito\u201d.<\/p>\n<p>Guardar sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 estranho neste pa\u00eds em que se faz mais do que se fala, mas cujos cidad\u00e3os s\u00e3o os europeus que mais confiam uns nos outros e em suas institui\u00e7\u00f5es. Esperam o bonde ou o \u00f4nibus muito distantes entre si (existe at\u00e9 um emoji alusivo), ciosos de seu espa\u00e7o pessoal. E nos trens, buscam a maior solid\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>6<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arde o design<\/strong><\/p>\n<p>Niklas Mahlberg parece um capit\u00e3o na ponte de um navio inabarc\u00e1vel. A seus p\u00e9s, crian\u00e7as que engatinham, mesas de caf\u00e9, silhuetas curvadas sobre notebooks, grupos variados conversando e estantes brancas cheias de livros. Observa o panorama como quem olha o filho brincar. \u201cEsta \u00e9 a grande sala de estar da cidade.\u201d Mahlberg, da empresa ALA, \u00e9 um dos arquitetos da Oodi, a nova biblioteca central de Helsinque. Estamos no C\u00e9u dos Livros. Assim chamam este espa\u00e7o di\u00e1fano, cujas claraboias absorvem o ru\u00eddo no telhado ondulado, como todo o edif\u00edcio, uma esp\u00e9cie de navio de formas esculturais que navega entre o Parlamento e o Museu de Arte Contempor\u00e2nea. Um andar abaixo h\u00e1 impressoras 3D, m\u00e1quinas de costura, est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o e salas para videogames. Tudo gratuito. Em seu primeiro ano, recebeu 10.000 visitantes por dia.<\/p>\n<p>No pa\u00eds mais alfabetizado do mundo, cinzelado em sua identidade pela alta cultura, a Oodi conquistou a cidade, envolta em madeira. As l\u00e2minas de pinheiro tamb\u00e9m sobem pela fachada da sauna L\u00f6yly, um emblema arquitet\u00f4nico \u2013mais um\u2013 de Helsinque. O lend\u00e1rio design finland\u00eas espalha o alento da floresta em suas \u00faltimas ins\u00edgnias.<\/p>\n<p>A jornalista Katja Pantzar entra na biblioteca. Cresceu no Canad\u00e1 e, quando se mudou, engoliu a Finl\u00e2ndia como um rem\u00e9dio. Subiu na bicicleta e nada em um buraco no gelo. Viu seus compatriotas enfrentarem os problemas \u201cem vez de escond\u00ea-los debaixo do tapete\u201d e encontrarem solu\u00e7\u00f5es. Como com os suic\u00eddios ou os sem-teto. Mais uma vez o sisu, essa fortaleza. Queria saber mais e escreveu Sisu,O Segredo Finland\u00eas para Um Estilo de Vida Feliz. Olha para o filho de nove anos e diz: \u201cSe voc\u00ea tem talento musical, poder\u00e1 ir \u00e0 Academia Sibelius, uma das nossas institui\u00e7\u00f5es de maior prest\u00edgio, n\u00e3o porque seus pais conhecem algu\u00e9m ou t\u00eam dinheiro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ep\u00edlogo.<\/strong><\/p>\n<p>Port\u00e3o 31 do aeroporto de Helsinque. Olhares impacientes que saltam dos celulares para o painel, que anuncia o voo para Estocolmo. A ruidosa paisagem habitual. Do outro lado da parede se ouvem p\u00e1ssaros. \u00c9 uma grava\u00e7\u00e3o. Uma mulher l\u00ea diante da grande vidra\u00e7a, as malas e o casaco colocados ao seu lado. Ela se senta em uma cadeira fabricada por um artista a partir de uma \u00e1rvore ca\u00edda. Na sala, h\u00e1 uma estante cheia de livros deixados pelos viajantes e que qualquer pessoa pode tomar emprestados. A jovem representante de uma ONG, a caminho da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2019-12-15\/cupula-do-clima-fracassa-em-seu-objetivo-de-regular-os-mercados-de-carbono.html\">C\u00fapula do Clima em Madri<\/a>, consulta o telefone em uma esp\u00e9cie de chaise longue acarpetada que cresceu no ch\u00e3o. Quando olha para o teto, v\u00ea o que veria se estivesse deitada na floresta. \u00c9 apenas uma fotografia, mas \u00e9 assim que a Finl\u00e2ndia se despede.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/02\/15\/eps\/1581787076_373420.html?utm_campaign=oqel&#038;utm_source=Newsletter<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Alfageme &#8211; Aterrisso em Helsinque. Quando tento pagar pelo trem para o centro, o frio da plataforma me fisga em cheio. Esqueci minha vida \u2014documento de identidade, celular, carteira\u2014 no banheiro da \u00e1rea de desembarque no aeroporto. N\u00e3o posso voltar a entrar. Corro para um balc\u00e3o. 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