{"id":12601,"date":"2020-03-02T11:49:06","date_gmt":"2020-03-02T14:49:06","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12601"},"modified":"2020-03-01T11:51:43","modified_gmt":"2020-03-01T14:51:43","slug":"a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/03\/02\/a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange\/","title":{"rendered":"A \u00faltima chance de salvar Julian Assange"},"content":{"rendered":"<p><strong>John Pilger &#8211;\u00a0<\/strong>Neste s\u00e1bado, Londres far\u00e1 manifesta\u00e7\u00e3o em sua defesa. Dois dias depois, um juiz brit\u00e2nico poder\u00e1 despachar, ao canto mais sombrio do inferno prisional norte-americano, o jornalista que exp\u00f4s as mentiras e horrores da \u201cdemocracia\u201d imperial.<\/p>\n<p>Neste s\u00e1bado, em Londres, haver\u00e1 uma marcha da\u00a0<em>Australia House<\/em>\u00a0\u00e0 Pra\u00e7a do Parlamento, o centro da democracia brit\u00e2nica. Os manifestantes levar\u00e3o fotos do editor e jornalista australiano Julian Assange. No pr\u00f3ximo 24 de fevereiro [segunda-feira de Carnaval], ele estar\u00e1 diante de um juiz, que decidir\u00e1. se deve ou n\u00e3o ser extraditado para os Estados Unidos, para morrer em vida.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o bem a\u00a0<em>Australia House<\/em>. Como sou australiano, costumava frequentar o local para ler os jornais da minha terra, na \u00e9poca em que havia acabado de chegar a Londres. Inaugurada pelo rei George V h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, a abund\u00e2ncia de m\u00e1rmores, pedras, lustres e retratos solenes, importados da Austr\u00e1lia enquanto soldados australianos morriam no massacre da Primeira Guerra Mundial, garantiu sua fama de \u201cmarco imperial de monumental servid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sendo uma das \u201cmiss\u00f5es diplom\u00e1ticas\u201d mais antigas no Reino Unido, esta rel\u00edquia do imp\u00e9rio fornece agrad\u00e1veis sinecuras aos pol\u00edticos australianos e neozelandeses. L\u00e1, os \u201ccompanheiros\u201d s\u00e3o recompensados e os encrenqueiros, exilados.<\/p>\n<p>Conhecido como Alto Comiss\u00e1rio, cargo equivalente ao de um embaixador, o atual benefici\u00e1rio \u00e9 George Brandis. Como procurador-geral tentou sabotar a Lei Contra Discrimina\u00e7\u00e3o Racial na Austr\u00e1lia e aprovou ataque aos denunciantes que revelaram a verdade sobre a espionagem ilegal da Austr\u00e1lia em Timor-Leste, durante as negocia\u00e7\u00f5es para apoderar-se do petr\u00f3leo e g\u00e1s daquele prec\u00e1rio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso levou os denunciantes, Bernard Collaery e \u201cTestemunha K\u201d, a serem processados sob acusa\u00e7\u00f5es. Como Julian Assange, eles devem ser silenciados num julgamento kafkiano e, depois, esquecidos. A\u00a0<em>Australia House<\/em>\u00a0\u00e9 o ponto de partida ideal para a marcha de s\u00e1bado.<\/p>\n<p><strong>Servindo o Grande Jogo<\/strong><\/p>\n<p>Lord Curzon, vice-rei da \u00cdndia em 1898, escreveu: \u201cConfesso que os pa\u00edses s\u00e3o pe\u00e7as em um tabuleiro de xadrez, sobre o qual est\u00e1 sendo disputado um grande jogo pela domina\u00e7\u00e3o do mundo\u201d. N\u00f3s, australianos, temos servido o Grande Jogo por muito tempo. Tendo devastado nossos povos ind\u00edgenas, por meio de invas\u00f5es, guerras e atritos que at\u00e9 hoje n\u00e3o cessaram, derramamos sangue por nossos senhores imperiais na China, R\u00fassia, Oriente M\u00e9dio, Europa e \u00c1sia. Nenhuma aventura imperial contra aqueles contra quem n\u00e3o temos nenhuma desaven\u00e7a deixou de ter nossa dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A decep\u00e7\u00e3o tem sido uma caracter\u00edstica. Quando o primeiro-ministro Robert Menzies enviou soldados australianos para o Vietn\u00e3, nos anos 1960, ele os descreveu como uma equipe de treinamento, solicitada por um governo sitiado em Saigon. Era mentira. Um alto funcion\u00e1rio do Departamento de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores escreveu secretamente que, \u201cembora tenhamos enfatizado publicamente que nossa assist\u00eancia foi prestada em resposta a um convite do governo de Vietn\u00e3 do Sul\u201d, a ordem veio de Washington.<\/p>\n<p>Duas vers\u00f5es. A mentira para n\u00f3s, a verdade para eles. Cerca de quatro milh\u00f5es de pessoas morreram na guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Quando a Indon\u00e9sia invadiu Timor-Leste em 1975, o embaixador australiano, Richard Woolcott, encorajou o governo do pa\u00eds a \u201cagir de modo a que que o impacto p\u00fablico na Austr\u00e1lia fosse reduzido, e a demonstrar privadamente, junto \u00e0 Indon\u00e9sia, compreens\u00e3o\u201d. Em outras palavras, a mentir. Ele fez alus\u00e3o \u00e0s jazidas de petr\u00f3leo e g\u00e1s no mar de Timor que, como ostentou Gareth Evans, ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, valiam \u201czilh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>No genoc\u00eddio que se seguiu, pelo menos 200 mil timorenses morreram. A Austr\u00e1lia afirmou, praticamente sozinha, a legitimidade da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o primeiro-ministro John Howard enviou for\u00e7as especiais australianas para invadir o Iraque junto com os EUA e a Gr\u00e3-Bretanha em 2003, ele \u2014 assim como George W. Bush e Tony Blair \u2014 mentiu ao dizer que Saddam Hussein possu\u00eda armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Mais de um milh\u00e3o de pessoas morreu no Iraque. O WikiLeaks n\u00e3o foi o primeiro a chamar a aten\u00e7\u00e3o para o padr\u00e3o de criminalidade das democracias \u2014 que permanece t\u00e3o voraz quanto nos tempos de Lord Curzon. O grande feito da organiza\u00e7\u00e3o editorial fundada por Julian Assange foi oferecer as provas.<\/p>\n<p><strong>Mentiras Verdadeiras Expostas<\/strong><\/p>\n<p>O WikiLeaks nos mostrou como s\u00e3o fabricadas as guerras ilegais, como governos s\u00e3o derrubados com viol\u00eancia usada em nosso nome, como somos espionados atrav\u00e9s de nossos telefones e telas. As mentiras reais de presidentes, embaixadores, candidatos, generais, procuradores e fraudadores pol\u00edticos foram expostas. Um a um, esses pseudo-imperadores foram percebendo que estavam nus.<\/p>\n<p>Foi um servi\u00e7o p\u00fablico sem precedentes; mas, acima de tudo, foi jornalismo aut\u00eantico, cujo valor pode ser julgado pelo n\u00edvel de apoplexia dos corruptos e de seus defensores.<\/p>\n<p>Em 2016, por exemplo, o WikiLeaks publicou os e-mails vazados de John Podesta, diretor da campanha de Hillary Clinton, que revelaram uma liga\u00e7\u00e3o direta entre ela, a funda\u00e7\u00e3o que controla com o marido e o financiamento do jihadismo organizado no Oriente M\u00e9dio \u2014 tamb\u00e9m conhecido como terrorismo.<\/p>\n<p>Um e-mail revelava que o Estado Isl\u00e2mico (ISIS) era financiado pelos governos da Ar\u00e1bia Saudita e do Qatar, de quem Hillary aceitou enormes \u201cdoa\u00e7\u00f5es\u201d. Al\u00e9m disso, como secret\u00e1ria de Estado dos EUA, ela aprovou a maior venda de armas do mundo para seus apoiadores sauditas, no valor de mais de 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Gra\u00e7as \u00e0 Hillary, as vendas de armas dos EUA para o mundo \u2013 usadas para devastar pa\u00edses, como o I\u00eamen \u2014 dobraram.<\/p>\n<p>Revelados pelo WikiLeaks e publicados no\u00a0<em>New York Times<\/em>, os e-mails de Podesta desencadearam uma campanha de censura desprovida de evid\u00eancias contra o editor-chefe Julian Assange. Ele seria um \u201cagente russo trabalhando na elei\u00e7\u00e3o de Trump\u201d; a isso se seguiu o estapaf\u00fardio \u201cRussiagate\u201d. O fato do WikiLeaks tamb\u00e9m ter publicado mais de 800 mil documentos, que frequentemente condenavam a R\u00fassia, foi completamente ignorado.<\/p>\n<p>Em 2017, num programa da<em>\u00a0Australian Broadcasting Corporation<\/em>, chamado \u201cFour Corners\u201d, Hillary foi entrevistada por Sarah Ferguson, que come\u00e7ou: \u201cNingu\u00e9m poderia deixar de se emocionar com a dor no seu rosto [no momento da posse de Donald Trump]\u2026 Voc\u00ea se lembra de qu\u00e3o visceral isso foi para voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>Tendo estabelecido o sofrimento visceral de Hillary, a bajuladora Ferguson descreveu o \u201cpapel da R\u00fassia\u201d e o \u201cdano causado pessoalmente a voc\u00ea\u201d por Julian Assange. Hillary respondeu, \u201cele [Assange] \u00e9 claramente uma ferramenta da intelig\u00eancia russa. E ele cumpriu as ordens deles\u201d.<\/p>\n<p>Ferguson disse a Hillary, \u201cmuitas pessoas, inclusive na Austr\u00e1lia, pensam em Assange como um m\u00e1rtir da liberdade de express\u00e3o e da informa\u00e7\u00e3o livre. Como voc\u00ea o descreveria?\u201d Novamente, a ex-secret\u00e1ria de Estado teve a oportunidade de difamar Assange como \u201cum niilista a servi\u00e7o de ditadores\u201d, enquanto Ferguson garantia \u00e0 entrevistada que ela era \u201cum \u00edcone da sua gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Nem se mencionou outro documento vazado, revelado pelo WikiLeaks, cujo nome era\u00a0<em>Libya Tick Tock<\/em>. Preparado para Hillary Clinton, o documento a descrevia como a l\u00edder central na destrui\u00e7\u00e3o do Estado l\u00edbio, em 2011 \u2014 que resultou em 40 mil mortes, na chegada do ISIS \u00e0 \u00c1frica do Norte e na crise europeia de refugiados e imigrantes.<\/p>\n<p><strong>O \u00fanico crime em julgamento<\/strong><\/p>\n<p>A meu ver, o epis\u00f3dio da entrevista a Hillary (assim como muitos outros exemplos), ilustra fielmente a diferen\u00e7a entre o jornalismo falso e o verdadeiro. No dia 24 de fevereiro, quando Julian Assange pisar na Corte de Woolwich Crown, o \u00fanico crime a ser julgado ser\u00e1 o do jornalismo verdadeiro.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes me perguntam o porqu\u00ea de eu defender o Assange. Por um motivo: eu gosto dele e o admiro. Ele \u00e9 um amigo com uma coragem estonteante, e tem um senso de humor sofisticadamente agu\u00e7ado e perverso. Ele \u00e9 o extremo oposto do personagem inventado, e depois assassinado, por seus inimigos.<\/p>\n<p>Como rep\u00f3rter de diversos lugares do mundo em turbul\u00eancia, aprendi a cotejar as evid\u00eancias do que eu testemunhava com as palavras e a\u00e7\u00f5es daqueles que det\u00eam o poder. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel ter uma no\u00e7\u00e3o de como nosso mundo \u00e9 controlado, dividido e manipulado, como nossa linguagem e os debates s\u00e3o distorcidos para gerar propaganda e falsa consci\u00eancia. Quando nos referimos a ditaduras, chamamos este processo de lavagem cerebral: a conquista das mentes. \u00c9 uma verdade que raramente aplicamos \u00e0s nossas pr\u00f3prias sociedades, apesar do rastro de sangue que aponta de volta para n\u00f3s mesmos e que nunca seca.<\/p>\n<p>O WikiLeaks revelou isso. \u00c9 por isso que Assange encontra-se hoje numa pris\u00e3o de seguran\u00e7a m\u00e1xima em Londres, enfrentando acusa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas inventadas nos Estados Unidos, e por que ele envergonhou tantos daqueles que s\u00e3o pagos para manter a narrativa. Repare nesses jornalistas que agora procuram cobertura, quando come\u00e7am a perceber que os fascistas norte americanos que perseguiram Assange podem ir atr\u00e1s deles tamb\u00e9m. Inclusive aqueles jornalistas do\u00a0<em>The Guardian<\/em>\u00a0que colaboraram com o WikiLeaks e que ganharam pr\u00eamios e se garantiram com livros e contratos lucrativos com Hollywood antes de se voltarem contra Assange.<\/p>\n<p>Em 2011, David Leigh, \u201ceditor de investiga\u00e7\u00f5es\u201d do\u00a0<em>Guardian<\/em>, declarou aos estudantes de jornalismo da City University de Londres que Assange estava \u201cbastante demente\u201d. Quando um estudante intrigado perguntou por qu\u00ea, Leigh disse: \u201cporque ele n\u00e3o compreende os par\u00e2metros do jornalismo convencional\u201d.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 precisamente por ele ter entendido que os \u201cpar\u00e2metros\u201d da m\u00eddia frequentemente protegiam interesses pol\u00edticos ocultos, e n\u00e3o tinham nada a ver com transpar\u00eancia, \u00e9 que a ideia do WikiLeaks foi t\u00e3o atraente para tantas pessoas \u2014 especialmente para os jovens, legitimamente c\u00e9ticos com rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>mainstream<\/em>.<\/p>\n<p>Leigh ainda zombou da pr\u00f3pria ideia de que, se extraditado, Assange acabaria \u201cusando um macac\u00e3o laranja\u201d (roupa usada pelos presos, nos EUA). Ele disse que essas eram coisas \u201cque ele e seu advogado falam para alimentar sua paran\u00f3ia\u201d.<\/p>\n<p>As acusa\u00e7\u00f5es atuais dos EUA sobre Assange centram-se nas revela\u00e7\u00f5es sobre o Afeganist\u00e3o e o Iraque, que foram publicados pelo\u00a0<em>Guardian<\/em>\u00a0e trabalhados por Leigh; e no v\u00eddeo\u00a0<em>Collateral Murder\u00a0<\/em>(\u201cAssassinato Colateral\u201d), que mostrava a tripula\u00e7\u00e3o norte-americana de um helic\u00f3ptero, atirando em civis e celebrando o crime. Por este jornalismo, Assange enfrenta 17 acusa\u00e7\u00f5es de \u201cespionagem\u201d que podem resultar em senten\u00e7as de pris\u00e3o totalizando 175 anos<\/p>\n<p>Independentemente de o uniforme da pris\u00e3o ser ou n\u00e3o um \u201cmacac\u00e3o laranja\u201d, os arquivos judiciais dos EUA verificados pelos advogados de Assange revelam que, uma vez extraditado, ele estar\u00e1 sujeito a medidas administrativas especiais, conhecidas como SAMS. Um relat\u00f3rio feito em 2017 pela Faculdade de Direito da Universidade de Yale e pelo Centro de Direitos Constitucionais, descrevia o SAMS como \u201co rinc\u00e3o mais sombrio do sistema penitenci\u00e1rio federal dos EUA\u201d, combinando \u201ca brutalidade e o isolamento das unidades de seguran\u00e7a m\u00e1xima com restri\u00e7\u00f5es adicionais que negam aos indiv\u00edduos quase qualquer conex\u00e3o com o mundo humano\u2026 O objetivo final \u00e9 ocultar essa forma de tortura de qualquer verifica\u00e7\u00e3o p\u00fablica real\u201d.<\/p>\n<p>Finalmente, est\u00e1 come\u00e7ando a ficar claro para todos aqueles que engoliram os boatos que buscavam difamar Assange, que, na verdade, ele sempre esteve certo \u2014 e que o plano dos EUA de lev\u00e1-lo para a Su\u00e9cia n\u00e3o passou de uma fraude para destru\u00ed-lo. Nils Melzer, Relator de Tortura da ONU, afirmou recentemente: \u201cFalo sueco fluentemente e tive a oportunidade de ler os documentos originais inteiros. Eu n\u00e3o conseguia acreditar no que os meus olhos viam. De acordo com o depoimento da mulher em quest\u00e3o, jamais houve estupro. E n\u00e3o s\u00f3 isso, como tamb\u00e9m: o depoimento da mulher foi posteriormente alterado pela pol\u00edcia de Estocolmo, sem o envolvimento dela, para que de alguma forma parecesse um poss\u00edvel estupro. Tenho todos esses documentos em meu poder, os e-mails, as mensagens de texto\u201d.<\/p>\n<p>Keir Starmer concorre atualmente \u00e0 elei\u00e7\u00e3o para l\u00edder do Partido Trabalhista brit\u00e2nico. Entre 2008 e 2013, foi Diretor do Minist\u00e9rio P\u00fablico e respons\u00e1vel pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico da Coroa. De acordo com a pesquisa da jornalista italiana Stefania Maurizi sobre liberdade de informa\u00e7\u00e3o, a Su\u00e9cia tentou suspender o caso de Assange em 2011, mas um oficial do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Coroa, em Londres, pediu \u00e0 promotora sueca que n\u00e3o tratasse o caso como \u201capenas outra extradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em 2012, ela recebeu um e-mail do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Coroa dizendo: \u201cN\u00e3o ouse voltar atr\u00e1s!!!\u201d. Outros e-mails do mesmo minist\u00e9rio foram eliminados ou editados. Por que? Keir Starmer precisa responder.<\/p>\n<p>Na linha de frente da marcha deste s\u00e1bado, estar\u00e1 John Shipton, pai de Julian, cujo incans\u00e1vel apoio ao seu filho \u00e9 a ant\u00edtese da conspira\u00e7\u00e3o e da crueldade do governo australiano.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o da vergonha come\u00e7a pelo nome de Julia Gillard, a primeira-ministra do Partido Trabalhista Australiano que em 2010 quis criminalizar o WikiLeaks, prender Assange e cancelar o seu passaporte \u2014 at\u00e9 a Pol\u00edcia Federal australiana apontar que nenhuma lei permitia isso e que Assange n\u00e3o havia cometido crime algum.<\/p>\n<p>Embora afirmasse falsamente dar a Assange assist\u00eancia consular em Londres, foi o revoltante abandono do governo de Gillard que levou o Equador a conceder asilo pol\u00edtico ao jornalista em sua embaixada em Londres.<\/p>\n<p>Posteriormente, em um discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, Gillard, uma das favoritas da embaixada dos EUA em Canberra, quebrou recordes de bajula\u00e7\u00e3o (de acordo com o site\u00a0<em>Honest History<\/em>) ao falar repetidamente da fidelidade dos \u201ccompanheiros estadunidenses \u00e0 Austr\u00e1lia e \u00e0 Nova Zel\u00e2ndia\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, enquanto Assange espera em sua cela, Gillard viaja pelo mundo, promovendo-se como uma \u201cfeminista\u201d engajada com os \u201cdireitos humanos\u201d, muitas vezes fazendo dupla com aquela outra \u201cfeminista\u201d em voga, Hillary Clinton.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a Austr\u00e1lia poderia ter resgatado Julian Assange e ainda pode faz\u00ea-lo. Em 2010, consegui me reunir com Malcolm Turnbull, um importante membro Liberal (Conservador) do Parlamento. Na d\u00e9cada de 1980, quando era um jovem advogado, Turnbull lutou com sucesso contra as tentativas do governo brit\u00e2nico de impedir a publica\u00e7\u00e3o do livro\u00a0<em>Spycatcher<\/em>, de Peter Wright, um espi\u00e3o que exp\u00f4s as redes secretas e ocultas do poder \u2014 tamb\u00e9m conhecidas como \u201cestado profundo\u201d \u2014 da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Conversamos sobre sua famosa vit\u00f3ria pela liberdade de express\u00e3o e de publica\u00e7\u00e3o. Eu descrevi o erro judici\u00e1rio do caso de Assange \u2014 a fraude de sua pris\u00e3o na Su\u00e9cia e sua conex\u00e3o com uma acusa\u00e7\u00e3o americana que rasgou a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA e o Estado de Direito Internacional.<\/p>\n<p>Turnbull mostrou-se genuinamente interessado e um assessor fez anota\u00e7\u00f5es extensas. Pedi a ele que entregasse ao governo australiano uma carta de Gareth Peirce, o renomado advogado brit\u00e2nico de direitos humanos que representa Assange.<\/p>\n<p>Na carta, Peirce escreveu:<\/p>\n<p>\u201cDada a extens\u00e3o da discuss\u00e3o p\u00fablica, frequentemente baseada em suposi\u00e7\u00f5es inteiramente falsas\u2026 \u00e9 muito dif\u00edcil tentar preservar para [Julian Assange] qualquer presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia. Sobre o Sr. Assange agora pairam duas espadas de D\u00e2mocles: da potencial extradi\u00e7\u00e3o para duas jurisdi\u00e7\u00f5es diferentes \u2014 por sua vez, por dois supostos crimes diferentes, que n\u00e3o representam crimes em seu pr\u00f3prio pa\u00eds \u2014 e da sua seguran\u00e7a pessoal estar sob risco, em circunst\u00e2ncias altamente carregadas de vi\u00e9s pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>Turnbull prometeu entregar a carta, fazer o acompanhamento e me manter informado. J\u00e1 escrevi v\u00e1rias vezes para ele, esperei e n\u00e3o obtive nenhuma resposta.<\/p>\n<p>Em 2018, John Shipton escreveu uma carta profundamente comovente para o ent\u00e3o primeiro-ministro da Austr\u00e1lia, pedindo-lhe para exercer o poder diplom\u00e1tico de que disp\u00f5e seu governo e levar Julian de volta a casa. Ele escreveu temer que, se Assange n\u00e3o fosse resgatado, ocorreria uma trag\u00e9dia e seu filho morreria na pris\u00e3o. N\u00e3o obteve resposta. O primeiro-ministro era Malcolm Turnbull.<\/p>\n<p>No ano passado, quando Scott Morrison, primeiro-ministro atual e antigo Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas, foi questionado sobre Assange, ele respondeu de seu jeito corriqueiro \u201cele deveria encarar a m\u00fasica!\u201d.<\/p>\n<p>Quando a marcha de s\u00e1bado chegar \u00e0s casas do Parlamento brit\u00e2nico, conhecido como a \u201cM\u00e3e dos Parlamentos\u201d, Morrison, Gillard, Turnbull e todos aqueles que tra\u00edram Julian Assange ser\u00e3o chamados; a hist\u00f3ria e a dec\u00eancia n\u00e3o se esquecer\u00e3o deles, nem daqueles que permanecem calados.<\/p>\n<p>E se ainda resta algum senso de justi\u00e7a no reino da\u00a0<em>Magna Carta<\/em>, a farsa que \u00e9 o caso contra esse heroico australiano deve ser descartada. Ou tenhamos cuidado, todos n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"kYCbhH1nJc\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange\/\">A \u00faltima chance de salvar Julian Assange<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A \u00faltima chance de salvar Julian Assange&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange\/embed\/#?secret=vy2kwUPgJZ#?secret=kYCbhH1nJc\" data-secret=\"kYCbhH1nJc\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John Pilger &#8211;\u00a0Neste s\u00e1bado, Londres far\u00e1 manifesta\u00e7\u00e3o em sua defesa. Dois dias depois, um juiz brit\u00e2nico poder\u00e1 despachar, ao canto mais sombrio do inferno prisional norte-americano, o jornalista que exp\u00f4s as mentiras e horrores da \u201cdemocracia\u201d imperial. Neste s\u00e1bado, em Londres, haver\u00e1 uma marcha da\u00a0Australia House\u00a0\u00e0 Pra\u00e7a do Parlamento, o centro da democracia brit\u00e2nica. 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