{"id":12519,"date":"2020-02-10T16:16:13","date_gmt":"2020-02-10T19:16:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12519"},"modified":"2020-02-09T11:18:49","modified_gmt":"2020-02-09T14:18:49","slug":"o-animo-em-davos-pessimismo-e-melancolia-a-medida-em-que-a-crise-se-agiganta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/02\/10\/o-animo-em-davos-pessimismo-e-melancolia-a-medida-em-que-a-crise-se-agiganta\/","title":{"rendered":"O \u00e2nimo em Davos: pessimismo e melancolia \u00e0 medida em que a crise se agiganta"},"content":{"rendered":"<p><strong>Adam Booth<\/strong> &#8211; A elite desconectada com a realidade est\u00e1 se encontrando em Davos para o seu arrasta-p\u00e9 anual exclusivo. Mas o estado de \u00e2nimo dos super-ricos e seus representantes ser\u00e1 melanc\u00f3lico e sombrio, com sua ordem mundial liberal enfrentando amea\u00e7as por todos os lados.<\/p>\n<p>Os t\u00f3picos deste ano da reuni\u00e3o do Foro Mundial Econ\u00f4mico nos Alpes su\u00ed\u00e7os mostram a ansiedade que aflige a classe dominante. Os temas oficiais do evento do establishment incluem quest\u00f5es como: \u201ceconomias mais justas\u201d, \u201ccomo salvar o planeta\u201d, \u201ctecnologias para o bem\u201d, \u201co futuro do trabalho\u201d e \u201cal\u00e9m da geopol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Eliminando os eufemismos, esses temas se traduzem em portugu\u00eas claro como: explos\u00f5es sociais sobre a desigualdade; a crise clim\u00e1tica; o arrogante dom\u00ednio dos monop\u00f3lios da tecnologia do Big Brother; a contradi\u00e7\u00e3o da automa\u00e7\u00e3o sob o capitalismo; o confronto de imperialismo rivais e o colapso do status quo.<\/p>\n<p><strong>Pessimismo<\/strong><br \/>\nNo ano passado, em julho, os capitalistas comemoraram o fato de que a economia estadunidense registrou oficialmente sua mais longa expans\u00e3o na hist\u00f3ria, uma vez que superou o recorde anterior de 121 meses (mais de dez anos) de crescimento cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>Mas, apesar de todo o otimismo ocasional em torno dos \u201cbrotos verdes\u201d da recupera\u00e7\u00e3o, o fato \u00e9 que n\u00e3o houve uma recupera\u00e7\u00e3o real \u2013 particularmente n\u00e3o para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Para se ter uma no\u00e7\u00e3o da realidade, n\u00e3o se precisa mais do que procurar os \u00faltimos n\u00fameros do Banco Mundial. Em suas \u00faltimas previs\u00f5es para o crescimento global, o banco rebaixou suas previs\u00f5es para os pr\u00f3ximos anos, prevendo uma \u201cdesacelera\u00e7\u00e3o sincronizada\u201d internacional.<\/p>\n<p>H\u00e1 seis meses, as perspectivas eram de um crescimento econ\u00f4mico global de 2,6% em 2019 e de 2,7% para o ano seguinte. Mas suas estimativas mais recentes colocam os n\u00fameros rec\u00edprocos em 0,2 pontos percentuais mais baixos.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, as perspectivas s\u00e3o ainda mais sombrias. Prognostica-se que os EUA desacelerar\u00e3o do crescimento de 2,3% em 2019 a 1,8% em 2020. A zona do euro, enquanto isso, crescer\u00e1 um d\u00e9bil 1% em 2020.<\/p>\n<p>O mesmo relat\u00f3rio do Banco Mundial destaca v\u00e1rios outros problemas de longo prazo que a economia mundial enfrenta \u2013 desde o aumento das d\u00edvidas \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento da produtividade.<\/p>\n<p>Martin Wolf, editor s\u00eanior de economia do Financial Times, levantou as mesmas ansiedades em um par de ensaios abrangentes sobre o \u201ccapitalismo fraudulento\u201d do ano passado, chamando a aten\u00e7\u00e3o para \u201cuma trindade profana de crescimento lento da produtividade, desigualdade crescente e enormes choques financeiros\u201d que dominaram o capitalismo nas d\u00e9cadas recentes.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos de uma economia capitalista din\u00e2mica\u201d, exorta Wolf. \u201cEm vez disso, parece que temos cada vez mais um capitalismo rentista inst\u00e1vel, concorr\u00eancia enfraquecida, crescimento d\u00e9bil da produtividade, desigualdade alta e, n\u00e3o por coincid\u00eancia, uma democracia crescentemente degradada\u201d.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o tem nada de novo. N\u00e3o h\u00e1 um capitalismo \u201cmais agrad\u00e1vel\u201d para o qual retornar, como Wolf e outros liberais e keynesianos como ele imaginam. As leis e a l\u00f3gica do sistema capitalista sempre concentrar\u00e3o a riqueza nas m\u00e3os de poucos, \u00e0 custa dos muitos.<\/p>\n<p>\u201cA acumula\u00e7\u00e3o da riqueza em um polo \u00e9, portanto\u201d, como explicou Marx em sua obra magna, O Capital, \u201cao mesmo tempo, acumula\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, da agonia do trabalho escravo, da ignor\u00e2ncia, da brutalidade, da degrada\u00e7\u00e3o mental, no polo oposto\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe as coisas continuarem como est\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que o desempenho econ\u00f4mico e pol\u00edtico piore, at\u00e9 que nosso sistema de capitalismo democr\u00e1tico entre em colapso, no todo ou parcialmente\u201d, conclui Wolf, um comentarista burgu\u00eas astuto. \u201cA forma como nossos sistemas econ\u00f4mico e pol\u00edtico funcionam deve mudar, ou perecer\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essas previs\u00f5es pessimistas dizem mais sobre o futuro do sistema do que os n\u00fameros \u201csobe-e-desce\u201d das bolsas de valores, que nada mais s\u00e3o do que a espuma das turbul\u00eancias e corredeiras da economia real.<\/p>\n<p><strong>Material combust\u00edvel<\/strong><br \/>\nA economia mundial, enquanto isso, est\u00e1 longe de deixar as coisas mais claras. Os representantes mais s\u00f3brios do capitalismo podem ver os riscos se agigantarem em horizonte n\u00e3o muito distante. Como observa The Economist \u2013 um porta-voz s\u00e9rio da classe dominante \u2013 ao discutir a expans\u00e3o hist\u00f3rica dos EUA:<\/p>\n<p>\u201cAs recess\u00f5es costumavam ser provocadas por bolhas no setor da habita\u00e7\u00e3o, por aumentos de pre\u00e7os e quebras industriais. Agora, voc\u00ea deve se preocupar com empresas globalmente interconectadas, com um sistema financeiro viciado em dinheiro barato e com um sistema pol\u00edtico que brinca com pol\u00edticas extremas porque os padr\u00f5es de vida n\u00e3o est\u00e3o subindo r\u00e1pido o suficiente\u201d.<\/p>\n<p>Em 2008, o gatilho imediato da recess\u00e3o foi o esc\u00e2ndalo das hipotecas subprime, que desencadeou uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia da crise financeira. Esse foi um sintoma das d\u00edvidas podres que se acumularam depois de d\u00e9cadas em que os capitalistas se aferraram ao cr\u00e9dito para ampliar artificialmente o mercado.<\/p>\n<p>Isso, por sua vez, foi um reflexo da real causa subjacente da crise: a contradi\u00e7\u00e3o da superprodu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, uma vez que a constante necessidade de expans\u00e3o e busca de lucros entra em conflito com os limites do mercado.<\/p>\n<p>Hoje, existem todos os tipos de fa\u00edscas potenciais, prontas para acender a enorme quantidade de material combust\u00edvel na economia global. Do conflito comercial EUA-China ao Brexit, \u00e0s tens\u00f5es no Oriente M\u00e9dio, \u00e0 crise da d\u00edvida italiana, \u00e0 cat\u00e1strofe clim\u00e1tica e muito mais: qualquer um desses fatores poderia desencadear a pr\u00f3xima crise mundial. Fa\u00e7a sua escolha!<\/p>\n<p>Essa pletora de catalisadores para a crise demonstra dois pontos importantes. Por um lado, o fato de que qualquer n\u00famero de incidentes ou eventos podem precipitar a pr\u00f3xima recess\u00e3o demonstra a fragilidade do sistema capitalista neste momento.<\/p>\n<p>Como Hegel observou, a necessidade se expressa atrav\u00e9s do acidente. E quando existem tantos \u201cacidentes\u201d potenciais que poderiam derrubar toda a estrutura da sociedade, isso revela o apodrecimento total de todo o edif\u00edcio do capitalismo.<\/p>\n<p>Por outro lado, nota-se que muitos desses poss\u00edveis gatilhos s\u00e3o de natureza profundamente pol\u00edtica. Isso demonstra como o sistema foi pego em uma espiral descendente viciosa, \u00e0 medida em que crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas se alimentam mutuamente.<\/p>\n<p>No momento do \u00faltimo crash os pol\u00edticos dispunham de armas econ\u00f4micas em seus arsenais que poderiam utilizar para salvar o sistema. Bancos e empresas de seguros foram escorados pelos contribuintes; as taxas de juros foram reduzidas; o Estado interveio para sanear os balan\u00e7os de Wall Street e da City de Londres.<\/p>\n<p>Como resultado dessas medidas, o equil\u00edbrio econ\u00f4mico foi restaurado (temporariamente) \u2013 mas somente \u00e0 custa da cria\u00e7\u00e3o de uma enorme instabilidade social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em nenhum lugar isso \u00e9 mais evidente do que na onda de revolu\u00e7\u00f5es que varreu o mundo no ano passado: da Arg\u00e9lia e do Sud\u00e3o ao Iraque e ao L\u00edbano, ao Chile e ao Equador. E isso antes mesmo de mencionar a acentuada polariza\u00e7\u00e3o que ocorreu na Europa e nos EUA com o colapso do chamado \u201ccentro\u201d pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Sem muni\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nAo mesmo tempo, o problema que a classe dominante agora enfrenta \u00e9 que ficou sem muni\u00e7\u00e3o para enfrentar a pr\u00f3xima crise.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muito menos muni\u00e7\u00e3o para todos os principais bancos centrais do que tinham anteriormente\u201d, explicou o governador do Banco da Inglaterra (BoE), Mark Carney, em entrevista recente ao Financial Times. \u201cE sou da opini\u00e3o de que essa situa\u00e7\u00e3o persistir\u00e1 por algum tempo\u201d.<\/p>\n<p>Como observa Carney com tanta tristeza, a pol\u00edtica monet\u00e1ria est\u00e1 alcan\u00e7ando os seus limites, com as taxas de juros pr\u00f3ximas a zero \u2013 ou mesmo negativas, em alguns pa\u00edses. A Flexibiliza\u00e7\u00e3o Quantitativa (FQ), longe de estabilizar a situa\u00e7\u00e3o, aumentou a volatilidade do mercado e ajudou a inflar as bolhas de ativos, particularmente nas chamadas economias \u201cemergentes\u201d. E a inje\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito no sistema se tornou um caso de retornos decrescentes, como um usu\u00e1rio de droga que exige uma dose sempre maior para sentir o mesmo \u201cbarato\u201d.<\/p>\n<p>Por isso que Carney e sua nova contrapartida no Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, est\u00e3o agora entre os que defendem um maior uso da \u201cpol\u00edtica fiscal\u201d \u2013 isto \u00e9, est\u00edmulos keynesianos e gastos governamentais.<\/p>\n<p>O problema que esses formuladores de pol\u00edtica enfrentam \u00e9 a enorme montanha de d\u00edvidas que existe como resultado da \u00faltima crise. Com as empresas e fam\u00edlias ainda pagando essas d\u00edvidas e com os mercados j\u00e1 saturados, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esperan\u00e7a de \u201cestimular a demanda\u201d em termos de aumento do investimento ou do consumo no futuro.<\/p>\n<p>De acordo com as estimativas recentes do Instituto de Finan\u00e7as Internacionais (IIF), a d\u00edvida total global alcan\u00e7ou uma altura recorde de 225 trilh\u00f5es de d\u00f3lares no final de 2019. Compare-se \u00e0 cifra de menos de 190 trilh\u00f5es de d\u00f3lares h\u00e1 uma d\u00e9cada. E, o que \u00e9 mais importante, como observa o IIF, h\u00e1 \u201cpoucos sinais de desacelera\u00e7\u00e3o no ritmo de acumula\u00e7\u00e3o da d\u00edvida\u201d.<\/p>\n<p>Essa montanha de d\u00edvidas equivale a mais de 300% da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica anual do mundo (PIB), e inclui mais de 70 trilh\u00f5es em d\u00edvidas do governo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 120 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em d\u00edvidas das empresas e dom\u00e9sticas (o equivalente a em torno de 150% do PIB global), com os 65 trilh\u00f5es de d\u00f3lares restantes oriundos das d\u00edvidas do setor financeiro.<\/p>\n<p>Outra estimativa recente de S&amp;P Global Ratings pinta o mesmo quadro, mostrando que a d\u00edvida total mundial \u2013 corporativa, governamental e familiar \u2013 aumentou em 50% nos 10 anos que se seguiram \u00e0 crise financeira.<\/p>\n<p>Esse aumento \u00e9 particularmente acentuado em termos de d\u00edvidas governamentais, que foram 77% maiores em 2018 do que uma d\u00e9cada antes. Em outras palavras, apesar de uma d\u00e9cada de cortes brutais nos servi\u00e7os p\u00fablicos, nas pens\u00f5es e empregos, as d\u00edvidas p\u00fablicas aumentaram massivamente.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que afeta apenas aos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados \u2013 como o Jap\u00e3o (com uma rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida\/PIB de 238%, acima dos 201% de uma d\u00e9cada antes, depois do crash de 2008), a Gr\u00e9cia (180% acima dos 126%) e It\u00e1lia (135% acima dos 112%).<\/p>\n<p>No mesmo recente informe, o Banco Mundial tamb\u00e9m alerta para uma crise da d\u00edvida das economias \u201cemergentes\u201d e \u201cem desenvolvimento\u201d. De acordo com o banco, houve uma explos\u00e3o da d\u00edvida nos pa\u00edses ex-coloniais nos anos recentes. A \u00faltima cifra, para 2018, \u00e9 de 165% do PIB \u2013 um aumento de 54% desde 2010. Como assinala o Banco Mundial, essa \u00e9 uma onda de d\u00edvida muito maior do que qualquer outra j\u00e1 vista no chamado Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o da d\u00edvida, a esse respeito, n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o de n\u00fameros. Essas d\u00edvidas representam dinheiro que deve ser reposto \u2013 e com juros. Portanto, em \u00faltima an\u00e1lise, essa \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica; uma quest\u00e3o de luta de classes: quem paga?<\/p>\n<p><strong>A crise do euro<\/strong><br \/>\nApesar de uma d\u00e9cada de cortes, a quest\u00e3o da d\u00edvida ainda \u00e9 o espectro que percorre a Europa. Nos 10 anos que se seguiram ao crash, as d\u00edvidas aumentaram dramaticamente na Gr\u00e9cia e na It\u00e1lia \u2013 a \u00faltima das quais est\u00e1 agora no epicentro da crise do euro. E essas d\u00edvidas n\u00e3o mostram sinais de diminuir.<\/p>\n<p>No mito grego de S\u00edsifo, nosso protagonista foi for\u00e7ado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra pelas encostas de uma montanha. Mas, ao chegar ao topo, a pedra rolaria para baixo, levando S\u00edsifo a uma eternidade de torturas e tormentos. Assim \u00e9 para a classe trabalhadora, que, depois de tolerar anos de austeridade e ataques, nada ganhou por suas dores e sofrimentos.<\/p>\n<p>O problema para a classe dominante \u00e9 que ela n\u00e3o tem, em lugar nenhum, governos \u201cfortes e est\u00e1veis\u201d, capazes de realizar os cortes necess\u00e1rios para domar as d\u00edvidas e d\u00e9ficits e restaurar a competitividade e a confian\u00e7a dos capitalistas.<\/p>\n<p>Os governos da Gr\u00e9cia, It\u00e1lia e Espanha s\u00e3o todos fr\u00e1geis politicamente. Na Fran\u00e7a, Macron enfrentou uma rea\u00e7\u00e3o enorme e militante a suas tentativas de impor a austeridade aos trabalhadores franceses \u2013 tanto nos termos do magn\u00edfico movimento dos gilets jaunes quanto nos termos das recentes greves contra a \u201creforma\u201d da previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, na Alemanha, as coisas se transformaram em seu oposto. At\u00e9 recentemente, a economia alem\u00e3 era frequentemente referida como a \u201ccasa de for\u00e7a\u201d da Europa, baseando-se em suas ind\u00fastrias competitivas, como seus fabricantes de autom\u00f3veis e empresas de mittelstand [pequenas e m\u00e9dias empresas \u2013 NDT]. Mas, agora, o pa\u00eds enfrenta sua pr\u00f3pria e iminente recess\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA maior economia da Europa cresceu somente 0,1% nos tr\u00eas meses at\u00e9 setembro, evitando por pouco uma recess\u00e3o\u201d, observou recentemente o Financial Times. \u201cEspera-se que as cifras do crescimento econ\u00f4mico alem\u00e3o para todo o ano mostrem um crescimento ex\u00edguo de 0,5% em 2019, abaixo dos 1,5% do ano anterior\u201d.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, isso \u00e9 um reflexo da interconectividade do mercado mundial capitalista. Como alpinistas escalando uma pendente, unidos por uma corda, o destino de cada pa\u00eds est\u00e1 conectado ao dos restantes. Quando algu\u00e9m cai, \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de tempo para que os demais o sigam.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 ainda mais o caso dentro da Uni\u00e3o Europeia, e particularmente na zona do euro. Como os marxistas destacaram logo ao in\u00edcio da moeda \u00fanica, o projeto europeu estava \u2013 e ainda est\u00e1 \u2013 fadado ao fracasso numa base capitalista.<\/p>\n<p>Por um tempo, enquanto o capitalismo estivesse em expans\u00e3o e todos estivessem seguindo na mesma dire\u00e7\u00e3o, as tens\u00f5es entre diferentes economias dentro do bloco poderiam ser atenuadas. A Uni\u00e3o Europeia e o euro foram vistos como uma grande vantagem em todos os aspectos, proporcionando acesso ao cr\u00e9dito barato aos pa\u00edses perif\u00e9ricos, e um mercado mais amplo para as commodities dos grandes monop\u00f3lios europeus.<\/p>\n<p>Mas com o in\u00edcio da crise em 2008, tudo mudou. De repente, diferentes economias estavam se movendo em dire\u00e7\u00f5es diferentes. As economias mais fracas e menos competitivas requereram cortes de sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es, exigidos em benef\u00edcio dos capitalistas por tecnocratas e pol\u00edticos em Bruxelas e Berlim.<\/p>\n<p>No entanto, agora, as galinhas est\u00e3o voltando ao poleiro para se abrigarem. Os exportadores alem\u00e3es \u2013 enfrentando uma desacelera\u00e7\u00e3o na China, um mercado cada vez menor na Europa e a amea\u00e7a de tarifas e regula\u00e7\u00f5es ambientais \u2013 est\u00e3o vendo as vendas ca\u00edrem e os lucros secarem.<\/p>\n<p>\u201cNo geral, ainda n\u00e3o h\u00e1 sinais de que chegamos ao fundo do po\u00e7o da ind\u00fastria alem\u00e3\u201d, disse Carsten Brzeski, um economista de ING, falando ao Financial Times. \u201cMas a queda livre continua\u201d.<\/p>\n<p>Iniciando o seu novo emprego no BCE, Christine Lagarde ficou recolhendo os peda\u00e7os da crise do euro, que est\u00e1 longe de ser resolvida. Mas com que ferramentas? E com que apoio pol\u00edtico? E mais uma vez a quest\u00e3o \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a mesma: quem paga?<\/p>\n<p>Claramente, n\u00e3o ser\u00e3o as economias perif\u00e9ricas mais fracas da It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e mesma da p\u00e1tria de Lagarde, a Fran\u00e7a, onde os capitalistas est\u00e3o exigindo austeridade e ataques. Nem ser\u00e3o as economias mais fortes e competitivas da \u201cNova Liga Hanse\u00e1tica\u201d, que s\u00e3o firmemente contra o Norte \u201crespons\u00e1vel\u201d e \u201cprudente\u201d subsidiar os trabalhadores \u201cpregui\u00e7osos\u201d do Sul.<\/p>\n<p>Mas como Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos EUA, observou ao assinar a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia Americana: todos devem permanecer juntos ou, o que \u00e9 mais seguro, ser\u00e3o enforcados separadamente.<\/p>\n<p>Dentro dos limites do sistema capitalista, portanto, a Uni\u00e3o Europeia se dirige a uma ruptura. S\u00f3 a demanda pelos Estados Unidos Socialistas da Europa oferece um caminho a seguir para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong>Am\u00e9rica Primeiro<\/strong><br \/>\nA Europa se encontra atascada no fogo cruzado da guerra comercial em curso entre Donald \u201cAm\u00e9rica Primeiro\u201d Trump e o restante do mundo.<\/p>\n<p>\u201cUni\u00e3o Europeia: muito, muito dif\u00edcil\u201d, disse o presidente estadunidense em uma reuni\u00e3o do Clube Econ\u00f4mico de Nova Iorque em novembro do ano passado. \u201cEssas barreiras que eles levantam s\u00e3o terr\u00edveis, terr\u00edveis. Sob muitos aspectos, piores do que a China\u201d.<\/p>\n<p>Esses sentimentos foram recentemente ecoados pelo principal representante comercial de Washington, Robert Lighthizer, que descreveu o com\u00e9rcio EUA-Europa como uma \u201crela\u00e7\u00e3o muito desequilibrada\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma disputa sobre subs\u00eddios estatais ao fabricante europeu de avi\u00f5es, a Airbus, os estadunidenses impuseram tarifas sobre 7,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em exporta\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia em outubro passado. Agora, a administra\u00e7\u00e3o Trump est\u00e1 amea\u00e7ando aument\u00e1-las e os funcion\u00e1rios da Casa Branca n\u00e3o descartaram outras medidas destinadas a rivais na fabrica\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis na Europa.<\/p>\n<p>\u201cTemos um problema comercial b\u00e1sico com a Europa\u201d, continuou Lighthizer. \u201cTemos de descobrir uma maneira de vender mais na Europa. E acho que vamos fazer isso\u201d.<\/p>\n<p>Isso demonstra o objetivo claro da guerra comercial de Trump: aumentar os lucros da grande empresa estadunidense \u2013 \u00e0 custa de todos os outros.<\/p>\n<p>Mas, embora a Europa tenha sido alvo de cr\u00edticas recentemente, o principal alvo da campanha do presidente \u201cAm\u00e9rica Primeiro\u201d dos EUA \u00e9, claramente, a China.<\/p>\n<p>A disputa entre as duas maiores economias e pot\u00eancias imperialistas do mundo est\u00e1 fervendo h\u00e1 cerca de 18 meses agora.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando com um conjunto de tarifas de 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares sobre bens e servi\u00e7os no Ver\u00e3o de 2018, os EUA rapidamente lan\u00e7aram um peso significativamente maior aos chineses, impondo uma tarifa de 25% sobre os bens no valor de 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em setembro do mesmo ano, seguida de adicionais 25% \u2013 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 em maio de 2019. A China s\u00f3 p\u00f4de responder em cada ocasi\u00e3o com taxas de 25% sobre produtos no valor de 60 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Uma reuni\u00e3o recente entre negociadores levou a um acordo para reduzir algumas das tarifas estadunidenses em troca de mais compras chinesas de produtos dos EUA. Mas as tarifas de 25% sobre as exporta\u00e7\u00f5es chinesas no valor de 250 bilh\u00f5es de d\u00f3lares permanecem em vigor.<\/p>\n<p>Essa tr\u00e9gua tempor\u00e1ria \u00e9 um reflexo da ansiedade das classes dominantes de ambos os lados. A ascens\u00e3o do protecionismo, acima de tudo, tem o potencial de empurrar a economia global a uma depress\u00e3o total.<\/p>\n<p>\u201cOs pol\u00edticos precisam olhar para al\u00e9m de suas lutas nacionais de curto prazo\u201d, implorou um editorial do Financial Times de outubro do ano passado, \u201cna dire\u00e7\u00e3o de um quadro mais amplo de uma economia internacional come\u00e7ando a ceder sob o peso de guerras comerciais em v\u00e1rias frentes\u201d.<\/p>\n<p>Os paralelos com os anos 1930 s\u00e3o claros. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o foi apenas o Crash de Wall Street que lan\u00e7ou o mundo em uma profunda recess\u00e3o, mas as pol\u00edticas \u201cempobrecer o vizinho\u201d que acompanharam o colapso financeiro inicial, visto que cada pa\u00eds buscava exportar a crise para outros lugares.<\/p>\n<p>A atual crise comercial mundial se sintetiza na paralisia da OMC. A institui\u00e7\u00e3o de Bretton Woods se tornou uma casca vazia, incapaz de julgar disputas comerciais internacionais porque a administra\u00e7\u00e3o Trump se recusou a nomear os ju\u00edzes necess\u00e1rios para supervisionar os casos apresentados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse impasse, por sua vez, reflete o colapso da velha ordem mundial, constru\u00edda em torno do imperialismo estadunidense no p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p><strong>Soja e semicondutores<\/strong><br \/>\nDurante as negocia\u00e7\u00f5es comerciais em outubro do ano passado, os negociadores de Washington tentaram vincular suas tarifas \u00e0 quest\u00e3o dos abusos dos direitos humanos pelo estado chin\u00eas em Xinjiang. Por outro lado, os l\u00edderes europeus pediram que fossem impostas tarifas relacionadas ao carbono sobre produtos estadunidenses.<\/p>\n<p>No entanto, em ambos os casos, tais conversas s\u00e3o pura hipocrisia. Os imperialistas em todos os lugares sempre priorizaram os lucros e o acesso a mercados acima da democracia, dos direitos humanos e da prote\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Em nenhum lugar isso \u00e9 mais \u00f3bvio do que na China, onde empresas ocidentais est\u00e3o desesperadas para ter acesso ao enorme mercado chin\u00eas a qualquer custo. Empresas sedentas de lucros, como Disney (entre muitas outras), demonstraram que est\u00e3o mais do que dispostas a se prostrar diante de Pequim para manter seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Mas embora as corpora\u00e7\u00f5es ocidentais estejam desesperadas para vender seus produtos no mercado em r\u00e1pida expans\u00e3o da China, as grandes empresas estadunidenses (em particular) tamb\u00e9m se preocupam com a crescente amea\u00e7a de concorr\u00eancia vinda de seus rivais chineses, particularmente no mundo da tecnologia.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a raz\u00e3o por tr\u00e1s da principal teimosia vinda dos negociadores estadunidenses com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra comercial EUA-China: que Pequim retire o seu apoio aos setores mais avan\u00e7ados, como a intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Em suma, esse conflito comercial \u00e9 menos sobre soja e a\u00e7o e mais sobre semicondutores e supercomputadores: meios de produ\u00e7\u00e3o que amea\u00e7ariam a posi\u00e7\u00e3o dominante da ind\u00fastria estadunidense (e europeia) no longo prazo.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 s\u00f3 aqui onde os l\u00edderes chineses est\u00e3o dispostos a chegar t\u00e3o longe em seus compromissos com os EUA. Eles podem aceitar a exig\u00eancia de comprar mais produtos estadunidenses (dentro de limites). Mas n\u00e3o podem se permitir serem prejudicados quando se trata de sua miss\u00e3o de \u201ctornar a China grande de novo\u201d.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que o atual acordo comercial \u00e9 mais um cessar-fogo tempor\u00e1rio e menos uma aproxima\u00e7\u00e3o permanente \u2013 algo que nunca ser\u00e1 poss\u00edvel entre duas pot\u00eancias imperialistas rivais, uma declinante e outra em ascens\u00e3o; e menos ainda em um momento em que o mercado mundial est\u00e1 saturado e, muito provavelmente, em breve estar\u00e1 encolhendo mais uma vez.<\/p>\n<p><strong>Quando os EUA espirram\u2026<\/strong><br \/>\nComo resultado de sua posi\u00e7\u00e3o dominante na economia global, quando os EUA espirram, o resto do mundo fica resfriado. A import\u00e2ncia internacional do capitalismo dos EUA se reflete no poder incompar\u00e1vel do d\u00f3lar, que, de fato, atua como a moeda mundial. Isso, por sua vez, torna o d\u00f3lar e o tesouro dos EUA um porto seguro para investidores nervosos. As decis\u00f5es tomadas na Reserva Federal dos EUA (o FED), portanto, t\u00eam um not\u00e1vel impacto em todo o mundo.<\/p>\n<p>Para se ver isso, n\u00e3o se necessita de mais do que um par de exemplos no quintal do imperialismo estadunidense \u2013 a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Por um lado, na Venezuela e em outros lugares, vemos como a administra\u00e7\u00e3o Trump mobilizou o d\u00f3lar como mais uma arma em seu arsenal, com san\u00e7\u00f5es dos EUA projetadas para paralisar as economias daqueles pa\u00edses que ca\u00edrem em desgra\u00e7a perante o imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p>Por outro lado, na Argentina, junto a outros pa\u00edses \u201cemergentes\u201d, vemos como as economias se viram em queda como resultado da decis\u00e3o do FED de reduzir a FQ [Flexibiliza\u00e7\u00e3o Quantitativa] \u2013 isto \u00e9, de reduzir gradualmente essa inje\u00e7\u00e3o de dinheiro barato no sistema global.<\/p>\n<p>Esse dinheiro FQ atuou amplamente como dinheiro \u201cquente\u201d, entrando e saindo de pa\u00edses; especulando sobre recompra de im\u00f3veis e a\u00e7\u00f5es; inflando bolhas de ativos mais do que sendo reinvestido na produ\u00e7\u00e3o real. Mais uma vez, isso demonstra como a FQ, longe de estabilizar a economia mundial, aumentou a volatilidade do capitalismo internacionalmente.<\/p>\n<p>Essa especula\u00e7\u00e3o fica clara no espumoso mercado de a\u00e7\u00f5es e nos pre\u00e7os de commodities como o ouro. Tamb\u00e9m \u00e9 vista na \u201cmania das criptomoedas\u201d e na fren\u00e9tica busca dos investidores por encontrar o pr\u00f3ximo \u201cunic\u00f3rnio\u201d tecnol\u00f3gico, bem como no dinheiro agora despejado nos mercados da arte e dos vinhos finos.<\/p>\n<p>Os t\u00edtulos do governo tamb\u00e9m est\u00e3o em alta demanda \u2013 proporcionando um ref\u00fagio aos investidores preocupados, que n\u00e3o conseguem encontrar outras vias lucrativas para o seu dinheiro. Essa \u00e9 a raz\u00e3o por tr\u00e1s da \u201ccurva invertida de rendimentos\u201d, na qual os empr\u00e9stimos de longo-prazo t\u00eam taxas de juros mais baixas do que os empr\u00e9stimos de curto-prazo, sinalizando que os capitalistas est\u00e3o perdendo a f\u00e9 em seu pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p><strong>Problemas na China<\/strong><br \/>\nEnquanto isso, na China, o crescimento est\u00e1 desacelerando a n\u00edveis perigosos. O Banco Mundial agora prev\u00ea que a China \u2013 pela primeira vez desde 1990 \u2013 cair\u00e1 abaixo dos 6% de crescimento anual. Essa cifra \u00e9 amplamente considerada pelas autoridades como um limite, abaixo do qual a economia n\u00e3o consegue manter a demanda por empregos, enquanto milh\u00f5es de pessoas inundam as cidades vindas das \u00e1reas rurais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o regime de Pequim encontra-se caminhando na corda bamba econ\u00f4mica, equilibrando-se entre uma expans\u00e3o impulsionada por d\u00edvidas e uma contra\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito que induz uma depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas \u2013 particularmente entre os governos locais, ao despejar dinheiro em projetos keynesianos de investimento p\u00fablico \u2013 certamente tocou o alarme no topo. A d\u00edvida total chinesa (corporativa, familiar e governamental) agora equivale a 40 trilh\u00f5es de d\u00f3lares ou 300% do PIB, de acordo com as estimativas do IIF do ano passado. Isso representa 15% de toda a d\u00edvida global.<\/p>\n<p>Mas tirar o doce do prato nessa etapa \u00e9 igualmente perigoso. De forma semelhante aos do Ocidente, os capitalistas chineses ficaram viciados em dinheiro barato. O \u201cCapitalismo Zumbi\u201d \u2013 corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o-competitivas que se mant\u00eam vivas pelo gotejamento de baixas taxas de juros e pelos subs\u00eddios do governo \u2013 espreita a terra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, esse mesmo apoio estatal exacerba a crise global de superprodu\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida em que os mercados mundiais se encontram inundados de a\u00e7o, navios e smartphones.<\/p>\n<p>O impacto disso pode ser visto do outro lado do mundo, no fechamento de plantas e f\u00e1bricas na Gr\u00e3-Bretanha, gerando perdas de empregos nas sider\u00fargicas galesas ou no Estaleiro Harland and Woolf, na Irlanda do Norte. Mas se reflete tamb\u00e9m nos informes de lucros de grandes empresas de tecnologia, como a Apple, que est\u00e3o lutando para vender suas enormes quantidades de produtos em um mercado global saturado.<\/p>\n<p>Isso, mais uma vez, explica a ascens\u00e3o do protecionismo, demonstrando, por sua vez, como as for\u00e7as produtivas ultrapassaram globalmente os estreitos limites do estado-na\u00e7\u00e3o e do mercado capitalista. \u00c9 uma acusa\u00e7\u00e3o contundente do sistema de lucros, como Marx e Engels descreveram com tanta precis\u00e3o em O Manifesto Comunista:<\/p>\n<p>\u201cA sociedade v\u00ea-se subitamente reconduzida a um estado de barb\u00e1rie moment\u00e2nea, como se a fome ou uma guerra de exterm\u00ednio houvessem lhe cortado todos os meios de subsist\u00eancia; o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria parecem aniquilados. E por qu\u00ea? Porque a sociedade possui civiliza\u00e7\u00e3o em excesso, meios de subsist\u00eancia em excesso, ind\u00fastria em excesso, com\u00e9rcio em excesso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Colapso<\/strong><br \/>\nNas p\u00e1ginas anteriores, Marx e Engels explicam como: \u201cA necessidade de um mercado em constante expans\u00e3o para seus produtos persegue a burguesia por toda a superf\u00edcie do globo. Ela deve se aninhar em todos os lugares, se estabelecer em todos os cantos, estabelecer conex\u00f5es em todos os lugares\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cGlobaliza\u00e7\u00e3o\u201d j\u00e1 foi uma fonte de for\u00e7a para os capitalistas, ajudando-os a acessar m\u00e3o-de-obra e mat\u00e9rias-primas mais baratas (al\u00e9m de maiores mercados), obtendo assim lucros mais suculentos. Por essa raz\u00e3o, CEOs e investidores lamberam os bei\u00e7os diante das perspectivas que se abriram com a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e com o movimento ao capitalismo na China.<\/p>\n<p>Agora, no entanto, cadeias de suprimento interconectadas globalmente criaram uma dor de cabe\u00e7a para os patr\u00f5es. Com as tarifas e as barreiras comerciais aumentando em todos os lugares, as grandes empresas multinacionais est\u00e3o lutando para lidar com a poss\u00edvel necessidade de encontrar novos fornecedores mais locais. Todo esse deslocamento tem o efeito de aumentar os custos, criando um choque no \u201clado da oferta\u201d que eleva os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>A instabilidade no Oriente M\u00e9dio, com o barulho de sabres entre os EUA e o Ir\u00e3, tem o mesmo efeito, fazendo com que os pre\u00e7os do petr\u00f3leo subam, o que, por sua vez, gera maiores custos de energia e, portanto, um aumento generalizado no pre\u00e7o das commodities. Isso explica em parte a relut\u00e2ncia de Washington em escalar o conflito com Teer\u00e3.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, para muitos formuladores de pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 a amea\u00e7a de infla\u00e7\u00e3o, mas a falta dela, que representa uma preocupa\u00e7\u00e3o maior. Com os mercados inundados e com \u201cexcesso de capacidade\u201d generalizada, h\u00e1 uma grande press\u00e3o \u00e0 baixa sobre os pre\u00e7os que levou a uma infla\u00e7\u00e3o moderada e at\u00e9 a preocupa\u00e7\u00f5es de \u201cdefla\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O inst\u00e1vel ato de equil\u00edbrio que os chefes dos bancos centrais s\u00e3o for\u00e7ados a realizar para evitar uma infla\u00e7\u00e3o vertiginosa ou para estancar a defla\u00e7\u00e3o reflete a instabilidade geral do sistema capitalista, que oscila de uma crise para outra.<\/p>\n<p>Seus modelos econ\u00f4micos est\u00e3o entrando em colapso. A \u201cCurva de Phillips\u201d que antes vinculava infla\u00e7\u00e3o e desemprego \u00e9 agora amplamente redundante. E, de volta ao mundo real, se os choques de oferta ocorrerem ao mesmo tempo da pr\u00f3xima recess\u00e3o, ent\u00e3o os capitalistas enfrentar\u00e3o uma tormenta perfeita de \u201cestagfla\u00e7\u00e3o\u201d, como se viu pela \u00faltima vez durante a crise global dos anos 1970: pre\u00e7os espiralando ao lado de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e depress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A nova normalidade<\/strong><br \/>\nTudo isso \u00e9 uma receita pronta e acabada para aumentar a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a instabilidade social e agu\u00e7ar a luta de classes. E essa, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 a import\u00e2ncia de se analisar os processos que ocorrem na economia global \u2013 n\u00e3o para prever eventos com uma bola de cristal, mas para entender o impacto das crises do capitalismo sobre a consci\u00eancia e o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que n\u00e3o haver\u00e1 nenhum retorno ao passado. O status quo est\u00e1 bem e verdadeiramente rompido. N\u00e3o h\u00e1 como voltar \u00e0 \u201cnormalidade\u201d. Como testemunha a \u00faltima d\u00e9cada de tempestade e estresse \u2013 de luta e conflito \u2013 entramos em uma nova \u00e9poca, em uma \u201cnova normalidade\u201d.<\/p>\n<p>Isso significa que a quest\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista estar\u00e1 firmemente na agenda no pr\u00f3ximo per\u00edodo. A tarefa que temos pela frente \u00e9 a de derrubar esse sistema apodrecido e enviar o capitalismo para a lata de lixo da hist\u00f3ria, onde ele pertence.<\/p>\n<p>http:\/\/www.marxist.com\/o-animo-em-davos-pessimismo-e-melancolia-a-medida-em-que-a-crise-se-agiganta.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adam Booth &#8211; A elite desconectada com a realidade est\u00e1 se encontrando em Davos para o seu arrasta-p\u00e9 anual exclusivo. Mas o estado de \u00e2nimo dos super-ricos e seus representantes ser\u00e1 melanc\u00f3lico e sombrio, com sua ordem mundial liberal enfrentando amea\u00e7as por todos os lados. 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