{"id":12514,"date":"2020-02-10T10:02:20","date_gmt":"2020-02-10T13:02:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12514"},"modified":"2020-02-09T11:11:24","modified_gmt":"2020-02-09T14:11:24","slug":"a-industria-brasileira-em-espiral-de-abismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/02\/10\/a-industria-brasileira-em-espiral-de-abismo\/","title":{"rendered":"A ind\u00fastria brasileira em espiral de abismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Lima Cardoso<\/strong> &#8211;\u00a0Novos dados do IBGE revelam retrocesso de dez anos. Crise dura tr\u00eas d\u00e9cadas, mas aprofundou-se rapidamente com desmonte do BNDES, ap\u00f3s golpe de 2016. Desindustrializado, pa\u00eds torna-se mais rude e muito mais desigual.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o industrial no Brasil diminuiu 1,1% em 2019, em rela\u00e7\u00e3o a 2018, segundo informa\u00e7\u00f5es do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Das 24 atividades pesquisadas pelo IBGE, 16 apresentaram queda no ano. Nos \u00faltimos dois meses do ano passado a queda acumulada chegou a 2,4%, sendo que o resultado de dezembro (-0,7%) \u00e9 pior no m\u00eas, desde 2015. Segundo os pesquisadores do IBGE, o patamar de produ\u00e7\u00e3o de 2019 \u00e9 semelhante ao de 2009; \u00e9 como se o pa\u00eds tivesse regredido, em termos de produ\u00e7\u00e3o industrial, em dez anos.<\/p>\n<p>No ano passado, metade dos macrossetores industriais n\u00e3o conseguiram crescer, como se verifica abaixo. O caso mais extremo, bens intermedi\u00e1rios, recuou 2,2%. Os bens intermedi\u00e1rios (manufaturados ou mat\u00e9rias-primas empregados na produ\u00e7\u00e3o de outros bens intermedi\u00e1rios ou de produtos finais), s\u00e3o considerados o cerne da produ\u00e7\u00e3o industrial. A sua queda nessa magnitude \u00e9 sintom\u00e1tica de como anda a economia no seu conjunto.<\/p>\n<p>\u2022 Ind\u00fastria geral: -1,1%;<\/p>\n<p>\u2022 Bens de capital: -0,4%;<\/p>\n<p>\u2022 Bens intermedi\u00e1rios: -2,2%;<\/p>\n<p>\u2022 Bens de consumo dur\u00e1veis: 2,0%;<\/p>\n<p>\u2022 Bens de consumo semi e n\u00e3o dur\u00e1veis: 0,9%.<\/p>\n<p>Segundo o IBGE, Bens de capital, recuaram para -0,4% em 2019, sendo que dezembro de 2019, ficou 5,9% abaixo do mesmo m\u00eas no ano anterior. O recuo na produ\u00e7\u00e3o de bens de capital reflete baixo investimento (a taxa de investimento (FBCF\/PIB) estava em meros 15,9% no segundo trimestre de 2019). Esse dado, possivelmente est\u00e1 relacionado com a pol\u00edtica de desmonte do BNDES, que responde pela maior parte do investimento produtivo no Brasil (os indicadores de queda do total dos empr\u00e9stimos do BNDES, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, s\u00e3o impressionantes).<\/p>\n<p>Por outro lado, os segmentos restantes apresentaram quedas, sendo os maiores em: ind\u00fastrias extrativas (-9,7%), manuten\u00e7\u00e3o, repara\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e equipamentos (-9,1%), outros equipamentos de transporte, exceto ve\u00edculos automotores (-9,0%), produtos de madeira (-5,5%), celulose, papel e produtos de papel (-3,9%), produtos farmoqu\u00edmicos e farmac\u00eauticos (-3,7%), perfumaria, sab\u00f5es e produtos de limpeza (-3,7%) e metalurgia (-2,9%) e impress\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de grava\u00e7\u00f5es (-2,2%).<\/p>\n<p>Estes resultados da ind\u00fastria, que atingiram tanto a ind\u00fastria extrativa quanto a de transforma\u00e7\u00e3o, significaram um banho de \u00e1gua fria nas an\u00e1lises de que o setor estaria se recuperando de forma consistente. O IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), afirma em publica\u00e7\u00e3o recente (Destaque IEDI, 04\/02\/20), que a d\u00e9cada que se encerra em 2020, poder\u00e1 ser considerada perdida para ind\u00fastria. O estudo do instituto observa, por exemplo, que o resultado do ano passado n\u00e3o \u00e9 casual. Nos \u00faltimos nove anos (2011 a 2019) quando a ind\u00fastria cresceu, foi em patamares muito baixos. Em nove anos, segundo o citado estudo, a perda acumulada \u00e9 de -15% na ind\u00fastria. \u00c9 um massacre. Ap\u00f3s muito anos, o Brasil caminha para sair do ranking dos 10 maiores pa\u00edses industriais do mundo. Decorr\u00eancia direta de um processo mais profundo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, mas que foi acelerado pelas pol\u00edticas do golpe a partir de 2016. Em 2019 a ind\u00fastria, que j\u00e1 representava apenas cerca de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), possivelmente sofreu novo recuo.<\/p>\n<p>H\u00e1 na economia uma rela\u00e7\u00e3o direta entre produ\u00e7\u00e3o industrial e o perfil de distribui\u00e7\u00e3o de renda. Como se sabe, o Brasil passa por um aprofundamento do processo de desigualdade social a partir do golpe de 2016. Desde quando, em 1960, o IBGE passou a coletar informa\u00e7\u00f5es sobre o rendimento da popula\u00e7\u00e3o nos censos demogr\u00e1ficos, nunca se havia observado um crescimento da desigualdade t\u00e3o elevado em t\u00e3o pouco tempo. Verifica-se tamb\u00e9m uma redu\u00e7\u00e3o significativa do mercado consumidor interno, com achatamento da renda e manuten\u00e7\u00e3o das alt\u00edssimas taxas de desemprego. O pa\u00eds tem 12,6 milh\u00f5es de pessoas desocupadas e a popula\u00e7\u00e3o subutilizada na for\u00e7a de trabalho (trabalhadores desocupados e subocupados por insufici\u00eancia de horas trabalhadas) atingiu o maior n\u00famero da s\u00e9rie hist\u00f3rica da PNAD, 27,6 milh\u00f5es de pessoas em 2019. Segundo o IBGE, o n\u00famero de subocupados, ou seja, os desocupados e os que n\u00e3o conseguem trabalhar um m\u00ednimo de horas semanais, est\u00e1 quase 80% acima do indicador verificado em 2014, ocasi\u00e3o em que foi registrado o menor n\u00famero da s\u00e9rie hist\u00f3rica (15,4 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>Neste quadro de explos\u00e3o do desemprego e da informalidade a sa\u00edda poderia ser o mercado externo, como j\u00e1 ocorreu em outras crises brasileiras. Mas o mercado externo anda extremamente arisco. Al\u00e9m da grave crise na Argentina, que abalou um importante mercado para o Brasil, h\u00e1 uma encarni\u00e7ada guerra comercial entre EUA e China, que escalou no ano passado, abalando a j\u00e1 combalida economia mundial.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o precisaria de crise internacional, os pr\u00f3prios eixos de pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo s\u00e3o fontes de enorme inseguran\u00e7a tanto para a popula\u00e7\u00e3o em geral, quanto para os investidores (e especuladores). Prestemos aten\u00e7\u00e3o no fato de que a sa\u00edda l\u00edquida de d\u00f3lares da economia brasileira no ano passado (entradas menos sa\u00eddas) foi de US$ 44,77 bilh\u00f5es. Esta \u00e9 a maior evas\u00e3o de divisas do Brasil em toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica, iniciada em 1982. Os grandes \u201cinvestidores\u201d (que foram os que fugiram do Brasil no ano passado) t\u00eam grande sede de lucros e pernas longas. T\u00eam tamb\u00e9m informa\u00e7\u00f5es privilegiadas, as quais n\u00f3s, meros vendedores da for\u00e7a de trabalho, n\u00e3o temos acesso.<\/p>\n<p>O recorde anterior de fuga de capitais tinha sido registrado em 1999, quando o saldo cambial (diferen\u00e7a entre as entradas e sa\u00eddas de d\u00f3lares) ficou negativo em US$ 16,18 bilh\u00f5es. N\u00e3o por acaso o fen\u00f4meno ocorreu em 1999, no governo FHC, num ano em que o Brasil, monitorado pelo FMI (grande credor brasileiro \u00e0 \u00e9poca), tinha adotado uma pol\u00edtica de livre flutua\u00e7\u00e3o cambial. Nessa ocasi\u00e3o a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar ultrapassou pela primeira vez a barreira dos R$ 2. De qualquer forma, o n\u00famero de 2019, \u00e9 quase tr\u00eas vezes superior \u00e0 fuga de 1999. Na segunda maior fuga de capitais registradas no Brasil, no governo FHC, o que vigorava era tamb\u00e9m o entreguismo e grandes ataques aos trabalhadores. Talvez, \u00e9 verdade, numa escala menor que a verificada no governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 certa. Subservi\u00eancia aos pa\u00edses imperialistas no mundo (com devo\u00e7\u00e3o especial aos EUA), combinada com extrema inaptid\u00e3o t\u00e9cnica por parte da c\u00fapula do governo, n\u00e3o sinalizam confian\u00e7a a ningu\u00e9m. A destrui\u00e7\u00e3o de instrumentos p\u00fablicos de interven\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Estado e a desmontagem das estruturas de atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, ao afetar a estabilidade social do pa\u00eds, impactam tamb\u00e9m o humor dos investidores. Estes, que buscam a redu\u00e7\u00e3o dos riscos para o emprego do seu capital, sabem que loucura tem limites.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Zed1IptzEp\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/a-industria-brasileira-em-espiral-de-abismo\/\">A ind\u00fastria brasileira em espiral de abismo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A ind\u00fastria brasileira em espiral de abismo&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/a-industria-brasileira-em-espiral-de-abismo\/embed\/#?secret=S8z0rxk9IQ#?secret=Zed1IptzEp\" data-secret=\"Zed1IptzEp\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Lima Cardoso &#8211;\u00a0Novos dados do IBGE revelam retrocesso de dez anos. 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