{"id":12512,"date":"2020-02-09T12:55:13","date_gmt":"2020-02-09T15:55:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12512"},"modified":"2020-02-08T12:08:29","modified_gmt":"2020-02-08T15:08:29","slug":"nao-a-economia-brasileira-nao-se-recuperou-da-crise-de-2014-2016-e-talvez-nunca-se-recupere","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/02\/09\/nao-a-economia-brasileira-nao-se-recuperou-da-crise-de-2014-2016-e-talvez-nunca-se-recupere\/","title":{"rendered":"N\u00e3o, a economia brasileira n\u00e3o se recuperou da crise de 2014-2016; e talvez nunca se recupere\u2026"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Luis Oreiro<\/strong> &#8211;\u00a0A redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento de longo prazo \u00e9 um fen\u00f4meno que vem ocorrendo desde meados da d\u00e9cada passada, em fun\u00e7\u00e3o da desindustrializa\u00e7\u00e3o crescente da economia brasileira.<\/p>\n<p>Entre 1980 e 2014 a economia brasileira cresceu a um ritmo m\u00e9dio de 2,81% a.a, segundo dados do IPEADATA (s\u00e9rie PIB \u2013 pre\u00e7os de mercado \u2013 var. real anual \u2013 (% a.a.) \u2013 Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Sistema de Contas Nacionais (IBGE\/SCN Anual) \u2013 SCN10_PIBG10). A Grande recess\u00e3o iniciada no segundo semestre de 2014 (a respeito das causas da grande recess\u00e3o brasileira ver\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142017000100075\">aqui<\/a>) produziu uma queda acumulada de 6,70% no per\u00edodo 2014-2016. Formalmente a economia brasileira sai da recess\u00e3o em 2017, ano que apresentou um crescimento de 1,32% do PIB, valor 53% inferior \u00e0 tend\u00eancia de longo prazo para o per\u00edodo 1980-2014. Em 2018 o crescimento foi de 1,31%, repetindo assim o desempenho de 2017, e ficando novamente abaixo da tend\u00eancia de longo prazo.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 o comportamento esperado para economias que saem de um processo recessivo. A teoria econ\u00f4mica convencional exposta na imensa maioria dos livros texto de macroeconomia v\u00ea as recess\u00f5es como per\u00edodos nos quais a economia opera abaixo da sua tend\u00eancia de longo-prazo. Nesse contexto, as flutua\u00e7\u00f5es c\u00edclicas s\u00e3o vistas como movimentos de amplitude e periodicidade vari\u00e1vel (flutua\u00e7\u00f5es irregulares) em torno de uma tend\u00eancia de longo prazo que \u00e9 independente desse movimento oscilat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Dessa forma, as recess\u00f5es t\u00eam um efeito apenas tempor\u00e1rio sobre o n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica, pois uma vez terminada a recess\u00e3o a economia dever\u00e1 crescer, por algum tempo, acima da tend\u00eancia de longo prazo de maneira a retornar ao n\u00edvel que estaria caso a recess\u00e3o n\u00e3o tivesse ocorrido (Ver figura 1). Isso significa que os efeitos de uma recess\u00e3o sobre o n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica s\u00e3o inteiramente dissipados no m\u00e9dio prazo, n\u00e3o restando nenhum vest\u00edgio dos efeitos da mesma no sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7473\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 568px) 100vw, 568px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg?w=568 568w, https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg?resize=300%2C251 300w\" alt=\"\" width=\"460\" height=\"385\" data-attachment-id=\"7473\" data-permalink=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg?fit=568%2C475\" data-orig-size=\"568,475\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"figura1-oreiro\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg?fit=300%2C251\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura1-oreiro.jpg?fit=568%2C475\" \/><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, no caso brasileiro, mesmo ap\u00f3s o fim da grande recess\u00e3o, a economia se encontra crescendo muito abaixo de sua tend\u00eancia de longo prazo, fazendo com que o n\u00edvel de atividade no final de 2018 fosse quase 20% menor do que o prevalecente caso a economia tivesse retornado \u2013 como seria de se esperar \u2013 \u00e0 sua trajet\u00f3ria de longo prazo, uma vez terminados os efeitos da grande recess\u00e3o (Ver figura 2).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7474\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 558px) 100vw, 558px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg?w=558 558w, https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg?resize=300%2C218 300w\" alt=\"\" width=\"460\" height=\"334\" data-attachment-id=\"7474\" data-permalink=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg?fit=558%2C405\" data-orig-size=\"558,405\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"figura2-oreiro\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg?fit=300%2C218\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/brasildebate.com.br\/wp-content\/uploads\/figura2-oreiro.jpg?fit=558%2C405\" \/><\/p>\n<p>O PIB brasileiro a pre\u00e7os de mercado no final de 2018 era de R$ 6,88 trilh\u00f5es. Se a economia brasileira tivesse retornado \u00e0 sua trajet\u00f3ria de longo prazo no final de 2018, o PIB a pre\u00e7os de mercado seria de R$ 8,6 trilh\u00f5es, ou seja, um valor R$ 1,72 trilh\u00e3o mais elevado! Esse acr\u00e9scimo no PIB teria gerado um aumento da receita da Uni\u00e3o, Estados e Munic\u00edpios de R$ 550 bilh\u00f5es, valor mais do que suficiente n\u00e3o s\u00f3 para zerar o d\u00e9ficit prim\u00e1rio do setor p\u00fablico, como tamb\u00e9m para gerar um expressivo super\u00e1vit prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que dada a magnitude da recess\u00e3o ocorrida no per\u00edodo 2014-2016 n\u00e3o seria poss\u00edvel recuperar a tend\u00eancia de longo prazo num per\u00edodo de apenas dois anos. Considerando uma taxa de crescimento de 4% a.a. a partir de 2017, o PIB s\u00f3 retornaria ao n\u00edvel da tend\u00eancia de longo prazo em 2033. Se a taxa de crescimento p\u00f3s-crise fosse de 5% a.a. a recupera\u00e7\u00e3o ocorreria em 2026.<\/p>\n<p>Embora o crescimento do PIB em 2019 ainda n\u00e3o tenha sido divulgado, as expectativas do mercado situam o mesmo em torno de 1 a 1,2%, valor ligeiramente abaixo do observado no per\u00edodo 2017-2018. Confirmando-se o terceiro ano consecutivo de crescimento abaixo da tend\u00eancia de longo prazo, n\u00e3o h\u00e1 como escapar da conclus\u00e3o de que a grande recess\u00e3o de 2014 a 2016 produziu uma redu\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia de crescimento da economia brasileira. A quest\u00e3o relevante \u00e9 saber qual o motivo.<\/p>\n<p>Os economistas liberais dir\u00e3o que a redu\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia de crescimento de longo prazo se deveu aos erros da pol\u00edtica econ\u00f4mica do PT e \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da famigerada \u201cnova matriz macroecon\u00f4mica\u201d, seja l\u00e1 o que isso signifique. Outros ainda dir\u00e3o que \u00e9 devido ao excesso de interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, esquecendo, contudo, que o per\u00edodo 1980-2014, usado no c\u00e1lculo da tend\u00eancia de longo prazo, engloba a d\u00e9cada de 1980 \u2013 pr\u00f3diga em interven\u00e7\u00e3o Estatal na economia \u2013 e os anos dourados da administra\u00e7\u00e3o petista, os dois mandatos do Presidente Lula, os quais certamente puxaram a m\u00e9dia para cima.<\/p>\n<p>Para lidar com esse problema da redu\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia de crescimento, os economistas liberais defendem uma agenda aparentemente inesgot\u00e1vel de reformas: teto dos gastos, reforma trabalhista, reforma de previd\u00eancia, nova reforma trabalhista, reforma administrativa, PEC emergencial etc. O fato \u00e9 que estamos no quarto ano da \u201cnova era\u201d da gest\u00e3o liberal (iniciada com o impeachment da Presidente Dilma Rousseff) e o crescimento econ\u00f4mico continua p\u00edfio. A equipe econ\u00f4mica do governo promete acelerar o crescimento em 2020 para incr\u00edveis (modo ironia ligado) 2,5% a.a, querendo fazer parecer para a opini\u00e3o p\u00fablica de que se trata de um grande feito de engenharia econ\u00f4mica. N\u00e3o \u00e9. Mesmo que esse valor seja obtido em 2020, e sobre isso pairam muitas d\u00favidas no ar, ainda assim ser\u00e1 menor do que a m\u00e9dia do per\u00edodo 1980-2014 e, portanto, insuficiente para eliminar o \u201chiato de crescimento\u201d originado a partir de 2014.<\/p>\n<p>Na minha vis\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento de longo prazo \u00e9 um fen\u00f4meno que vem ocorrendo desde meados da d\u00e9cada passada \u2013 e, portanto, dentro do intervalo temporal das administra\u00e7\u00f5es petistas \u2013 em fun\u00e7\u00e3o da desindustrializa\u00e7\u00e3o crescente da economia brasileira; fen\u00f4meno esse que foi tardiamente percebido pelas administra\u00e7\u00f5es petistas e enfrentado de forma t\u00edbia e inconsistente no primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff (a esse respeito ver\u00a0<a href=\"https:\/\/jlcoreiro.wordpress.com\/2013\/06\/18\/desenvolvimentismo-sem-consistencia-valor-economico-18062013\/\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>A crise de 2014-2016 piorou esse quadro pois (i) fez com que as empresas brasileiras suspendessem seus planos de amplia\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva, o que aumentou a defasagem tecnol\u00f3gica da ind\u00fastria brasileira; (ii) propiciou a ado\u00e7\u00e3o de uma agenda de consolida\u00e7\u00e3o fiscal baseada na contra\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico e do cr\u00e9dito do BNDES, amplificando assim os efeitos da queda do investimento privado em 2014 sobre a demanda agregada, com efeitos negativos tamb\u00e9m no lado da oferta da economia devido aos efeitos de transbordamento positivos do investimento p\u00fablico sobre a rentabilidade das empresas do setor privado.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento fica comprovada quando olhamos para a situa\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit em conta corrente do balan\u00e7o de pagamentos. Em 2019, o d\u00e9ficit em conta corrente fechou em 2,76% do PIB apesar de a economia brasileira estar crescendo a um ritmo pouco maior do que 1% a.a desde 2017. Esses n\u00fameros mostram claramente que uma acelera\u00e7\u00e3o significativa do crescimento da economia brasileira \u2013 por exemplo, para a sua tend\u00eancia de longo prazo de 2,88% \u2013 dever\u00e1 produzir um aumento insustent\u00e1vel no d\u00e9ficit em conta corrente, o qual poder\u00e1 facilmente passar de 4% do PIB. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a restri\u00e7\u00e3o externa (ver\u00a0<a href=\"https:\/\/jlcoreiro.wordpress.com\/2019\/12\/06\/sobre-a-tal-da-restricao-externa\/\">aqui<\/a>)\u00a0 ir\u00e1 impor um crescimento med\u00edocre para a economia brasileira nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Se o crescimento da economia brasileira permanecer num patamar med\u00edocre, ent\u00e3o nenhum ajuste fiscal ser\u00e1 capaz de \u201carrumar as contas do governo\u201d. O Brasil ir\u00e1 entrar num jogo perde-perde no qual o Minist\u00e9rio da Economia ir\u00e1 lan\u00e7ar propostas atr\u00e1s de propostas de emenda constitucional com o objetivo de (sic) acabar com os \u201cprivil\u00e9gios do funcionalismo p\u00fablico\u201d; haja vista que se trata do \u00fanico segmento da sociedade ainda protegido contra o empobrecimento geral do pa\u00eds, resultante dos efeitos de longo prazo da crise de 2014-2016.\u00a0 J\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aumentar a renda dos que trabalham no setor privado \u2013 devido \u00e0 crescente uberiza\u00e7\u00e3o da economia, filha bastarda da desindustrializa\u00e7\u00e3o \u2013 a solu\u00e7\u00e3o dos economistas liberais \u00e9 empobrecer os servidores p\u00fablicos para assim (sic) diminuir a desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda no Brasil. E assim nosso pa\u00eds caminha a passos largos para sair da \u201cArmadilha da Renda M\u00e9dia\u201d para cair, talvez para sempre, na \u201cArmadilha da Pobreza\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/brasildebate.com.br\/nao-a-economia-brasileira-nao-se-recuperou-da-crise-de-2014-2016-e-talvez-nunca-se-recupere\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Luis Oreiro &#8211;\u00a0A redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento de longo prazo \u00e9 um fen\u00f4meno que vem ocorrendo desde meados da d\u00e9cada passada, em fun\u00e7\u00e3o da desindustrializa\u00e7\u00e3o crescente da economia brasileira. 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