{"id":12431,"date":"2020-01-27T16:43:59","date_gmt":"2020-01-27T19:43:59","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12431"},"modified":"2020-01-26T18:45:51","modified_gmt":"2020-01-26T21:45:51","slug":"quem-ri-do-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/01\/27\/quem-ri-do-racismo\/","title":{"rendered":"Quem ri do racismo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>ADILSON JOS\u00c9 MOREIRA<\/strong> &#8211;\u00a0As pessoas raramente esquecem epis\u00f3dios de discrimina\u00e7\u00e3o, principalmente quando s\u00e3o frequentes. A mem\u00f3ria deles nos acompanha por muito tempo, como se nos lembrasse de que n\u00e3o somos vistos como pessoas que merecem o respeito dispensado a todos os indiv\u00edduos. Esse sentimento \u00e9 ainda mais perturbador quando aqueles que praticam esses atos afirmam n\u00e3o ter a inten\u00e7\u00e3o de ofender. Eu particularmente me lembro de um desses epis\u00f3dios, porque envolvia o humor racista. Estava na s\u00e9tima s\u00e9rie. A professora tinha distribu\u00eddo as provas de ingl\u00eas corrigidas e, mais uma vez, eu tinha recebido a maior nota da sala naquela disciplina. Uma das melhores alunas da turma, que era tamb\u00e9m a mais bonita, veio me cumprimentar. Um aluno branco interrompeu nossa conversa dizendo que n\u00e3o conseguia entender como um negro com cabelo carrapicho podia tirar uma nota t\u00e3o alta. A fala foi seguida de uma imensa gargalhada. Fiquei, obviamente, ofendido com o coment\u00e1rio, mas n\u00e3o retruquei. N\u00e3o foi a primeira vez que presenciei pessoas brancas sendo racistas e depois dizendo que estavam apenas brincando.<\/p>\n<p>Consegui entender esse comportamento muitos anos depois estudando a motiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do humor. A teoria da superioridade foi uma das primeiras an\u00e1lises sistem\u00e1ticas desse tema. Segundo seus propositores, a mal\u00edcia \u00e9 o elemento central do humor. Rimos daqueles que julgamos inferiores; rimos porque pensamos que eles se colocam em situa\u00e7\u00f5es rid\u00edculas em fun\u00e7\u00e3o dessa suposta inferioridade. Essas constru\u00e7\u00f5es afirmam a superioridade que um indiv\u00edduo sente em rela\u00e7\u00e3o a membros de outros grupos. Mais do que isso, elas permitem estabelecer um sentimento de identidade com outros membros do grupo dominante, j\u00e1 que as piadas refor\u00e7am a ideia de que s\u00e3o superiores. Isso significa ent\u00e3o que o humor racista \u00e9 tamb\u00e9m estrat\u00e9gico, pois reproduz estere\u00f3tipos que servem para legitimar estruturas de poder. A fala daquele aluno branco desempenha um papel importante na sua economia ps\u00edquica: ao fazer o coment\u00e1rio racista, ele procura afirmar sua identidade racial como um lugar de poder. Ver uma pessoa negra em uma posi\u00e7\u00e3o de destaque o deixou consternado; ele veio at\u00e9 mim para me lembrar do lugar que a sociedade me destina. O humor racista opera como uma esp\u00e9cie de pedagogia racial: \u00e9 preciso dizer para n\u00f3s, negros, que n\u00e3o podemos demandar o mesmo n\u00edvel de respeitabilidade social dos brancos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante interpretar esse comporta\u00admento de forma ainda mais profunda. Aquele aluno branco da s\u00e9tima s\u00e9rie fez uso do humor racista para que pudesse obter satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, alcan\u00e7ada pela evoca\u00e7\u00e3o de estigmas, de compreens\u00f5es que formam a opini\u00e3o das pessoas sobre os lugares que membros de determinados grupos sociais podem ocupar na sociedade. O humor racista reafirma imediatamente a ideia de que pessoas brancas t\u00eam e sempre ter\u00e3o\u00a0<em>status<\/em>\u00a0cultural privilegiado, produzindo al\u00edvio diante de negros que tenham algum tipo de destaque social. Ridicularizar pessoas negras reafirma que, ainda que algumas delas possam alcan\u00e7ar algum sucesso, as institui\u00e7\u00f5es sociais sempre desvalorizar\u00e3o minorias raciais.<\/p>\n<p>O incidente narrado acima n\u00e3o pode ser visto como apenas um comportamento individual e circunstancial. O aluno branco \u00e9 um agente de reprodu\u00e7\u00e3o de um sistema de domina\u00e7\u00e3o que se manifesta nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas. \u00c9 nesse plano que as pessoas procuram reproduzir as diferencia\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>status<\/em>\u00a0cultural para que elas tamb\u00e9m se traduzam em oportunidades materiais. Aquele aluno branco lan\u00e7ou m\u00e3o do humor racista n\u00e3o s\u00f3 por satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, mas porque percebeu um pequeno sucesso social de uma pessoa negra como amea\u00e7a ao\u00a0<em>status<\/em>\u00a0privilegiado de pessoas brancas; ele interpretou aquilo como uma amea\u00e7a pessoal e coletiva. O ambiente escolar \u00e9 frequentemente um espa\u00e7o de desqualifica\u00e7\u00e3o de negros e negras devido a seu papel central no sistema de domina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Vemos que o humor racista tem uma din\u00e2mica psicol\u00f3gica complexa. Aquela fala racista opera dentro de um contexto bem espec\u00edfico: ela foi uma rea\u00e7\u00e3o a um elogio feito por uma mulher branca a um homem negro. Esse fato despertou outro sentimento naquele aluno branco: a inseguran\u00e7a sexual. Uma simples demonstra\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de uma mulher branca por um homem negro significou, portanto, uma amea\u00e7a ao tradicional sentimento de posse que homens brancos possuem em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e \u00e0 mente de mulheres brancas. Ao reproduzirem a ideia de que negros s\u00e3o pessoas sexualmente degradadas, os membros do grupo racial dominante podem afirmar a suposta inferioridade moral de minorias raciais em todas as dimens\u00f5es da vida social. A ridiculariza\u00e7\u00e3o do meu cabelo naquele contexto tinha o prop\u00f3sito de me desqualificar como aluno e como parceiro sexual aceit\u00e1vel. A degrada\u00e7\u00e3o sexual serve ent\u00e3o para convencer a sociedade de que negros n\u00e3o s\u00e3o atores sociais competentes no espa\u00e7o p\u00fablico ou privado. Podem, por isso, ser marginalizados, exclu\u00eddos de oportunidades sociais.<\/p>\n<p>Ainda sobre a quest\u00e3o est\u00e9tica, \u00e9 importante enfatizar a refer\u00eancia ao meu cabelo porque ela desempenha um papel funda\u00ad mental na l\u00f3gica do humor racista. Devemos mencionar neste momento a no\u00e7\u00e3o de incongruidade. As pessoas n\u00e3o riem motivadas apenas por mal\u00edcia. Elas riem de algo que contraria expectativas sociais, quando uma fala desafia a l\u00f3gica do senso comum, quando um fato vai de encontro \u00e0s nossas concep\u00e7\u00f5es de como a sociedade deveria funcionar. A beleza, dentro da nossa cultura, est\u00e1 associada aos tra\u00e7os fenot\u00edpicos de pessoas brancas. A presen\u00e7a quase exclusiva delas em todas as produ\u00e7\u00f5es culturais faz com que se consolidem como refer\u00eancia do nosso senso est\u00e9tico, do que pode ser considerado como agrad\u00e1vel e sexualmente atraente. Nessa l\u00f3gica, tra\u00e7os f\u00edsicos de minorias raciais s\u00e3o vistos como algo desagrad\u00e1vel n\u00e3o apenas por causa da invisibilidade social, mas tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o deles com a inferioridade moral. Aquele aluno branco utilizou essa estrat\u00e9gia com o objetivo de afastar a ideia de que negros possam ter qualquer tipo de respeitabilidade. Seu comportamento procurou afirmar a identidade racial de pessoas brancas como a refer\u00eancia do que pode ser considerado belo, do que pode ser considerado inteligente, do que merece respeito, do que pode ser visto como propriamente humano. O racismo recreativo \u00e9 um tipo de pervers\u00e3o moral porque ridiculariza a premissa de que negros devam ser considerados como pessoas que merecem ser vistas como iguais.<\/p>\n<p>Ridicularizar meu cabelo significa estigmatizar a identidade de todas as pessoas negras, elemento recorrente no humor racista brasileiro. N\u00e3o se trata apenas de uma avalia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica negativa que ocorre, repito, por meio da associa\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os fenot\u00edpicos com a suposta inferioridade moral dos membros desse grupo. Aquele aluno branco estava, por\u00ad tanto, lan\u00e7ando m\u00e3o do humor racista para reproduzir estere\u00f3tipos. Estere\u00f3tipos s\u00e3o falsas generaliza\u00e7\u00f5es sobre membros de um grupo espec\u00edfico; eles t\u00eam uma dimens\u00e3o descritiva e outra prescritiva. A primeira designa supostas caracter\u00edsticas de todos os membros do grupo; a segunda aponta as fun\u00e7\u00f5es que eles devem ocupar dentro de uma sociedade. Um negro que tira a melhor nota da turma est\u00e1 fora do seu lugar. Aquele aluno branco n\u00e3o podia compreender meu sucesso acad\u00eamico em fun\u00e7\u00e3o das ideias sobre a falta de intelig\u00eancia de pessoas negras. Vemos, as\u00ad sim, que aquele epis\u00f3dio revela um aspecto importante das intera\u00e7\u00f5es humanas: os v\u00e1\u00adrios grupos sociais est\u00e3o sempre competindo por estima e reconhecimento. A posse desse bem desempenha uma fun\u00e7\u00e3o fundamental na vida ps\u00edquica das pessoas porque dele de\u00ad pende a constru\u00e7\u00e3o de uma percep\u00e7\u00e3o positiva da identidade individual e coletiva delas. Aquele aluno branco veio competir comigo por apre\u00e7o social, por ter se sentido diminu\u00ed\u00ad do dentro do ambiente escolar e por ter sido supostamente preterido por uma mulher branca. Ao reproduzir o humor racista como um tipo de recrea\u00e7\u00e3o, ele procurava atacar a reputa\u00e7\u00e3o coletiva de pessoas negras, o que ocorre em nosso pa\u00eds cotidianamente.<\/p>\n<p>Um sistema de domina\u00e7\u00e3o social como o racismo n\u00e3o pode ser mantido sem algum tipo de a\u00e7\u00e3o coletiva. Percebi desde a minha inf\u00e2ncia que muitas pessoas brancas e muitas institui\u00e7\u00f5es controladas por pessoas brancas sempre se articulam para proteger brancos acusados de racismo. N\u00e3o permiti que aquela ofensa fosse interpretada como um ato sem consequ\u00eancias. Relatei o ocorrido ao coordenador e ao diretor da escola. A resposta deles foi de total indiferen\u00e7a; disseram que aquilo n\u00e3o era algo que eu deveria levar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o deles porque tinham quest\u00f5es mais s\u00e9rias para resolver. \u00c9 claro. A dignidade de pessoas negras n\u00e3o \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o na nossa sociedade. Como eu poderia ser t\u00e3o tolo a ponto de pensar que mere\u00e7o respeito, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Comportamentos como esses encorajam pessoas brancas a ofender e a humilhar negros na hora que quiserem e como quiserem porque sabem que nada ocorrer\u00e1 com elas. Vivemos em uma sociedade que cultiva uma \u00e9tica do desrespeito \u2013 ent\u00e3o por que aquelas autoridades se preocupariam com isso?<\/p>\n<p>Alguns dias depois, aquele aluno branco veio mais uma vez fazer coment\u00e1rios racistas, dessa vez se vangloriando pelo fato de que minhas reclama\u00e7\u00f5es n\u00e3o resultaram em nenhum tipo de puni\u00e7\u00e3o. Mas dessa vez eu respondi a seus coment\u00e1rios racistas de outra forma. Olhei para ele com muita calma e perguntei como ele conseguia dormir sabendo que um negro perif\u00e9rico era muito mais inteligente do que ele. Disse que a consci\u00eancia daquilo devia doer fisicamente e que nenhum rem\u00e9dio resolveria a quest\u00e3o porque eu sempre seria melhor do que ele em todas as situa\u00e7\u00f5es. Diagnosticar a din\u00e2mica psicol\u00f3gica do seu comportamento teve um efeito emocional profundo naquele indiv\u00edduo. Ele tentou me agredir, eu me desviei; ele come\u00e7ou a me xingar, eu tirei outra vez a nota m\u00e1xima em uma prova e lhe mostrei sem dizer nada. Ele foi tomado por uma f\u00faria sem tamanho e ent\u00e3o eu comecei a rir.<\/p>\n<p>Muitas pessoas brancas afirmam que o humor n\u00e3o pode ser considerado racista porque almeja produzir a descontra\u00e7\u00e3o das pessoas. Essa afirma\u00e7\u00e3o tem grandes implica\u00e7\u00f5es para o sistema democr\u00e1tico. A narrativa que desenvolvi at\u00e9 aqui demonstra de forma clara que o humor racista \u00e9 um meio pelo qual pessoas brancas expressam desprezo e \u00f3dio por minorias raciais. Mas a cultura democr\u00e1tica est\u00e1 baseada na premissa de que os membros de uma comunidade pol\u00edtica devem reconhecer a igualdade de\u00a0<em>status<\/em>\u00a0moral entre todas as pessoas, requisito para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que tem como objetivo principal a promo\u00e7\u00e3o do bem comum. A constante circula\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos desumanizadores impede a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura p\u00fablica democr\u00e1tica, raz\u00e3o pela qual a viol\u00eancia racial \u00e9 naturalizada no Brasil. Uma piada se torna racista todas as vezes que ela afronta a expectativa legalmente garantida de que as pessoas devem ser respeitadas. Ela se torna racista porque dissemina estigmas culturais que impedem o gozo do bem p\u00fablico da respeitabilidade social ao comprometer a reputa\u00e7\u00e3o coletiva dos membros de minorias raciais. Quem ri do racismo est\u00e1 moralmente doente. Quem ri do racismo faz parte de uma sociedade moralmente decadente.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"N6jrX2pzKv\"><p><a href=\"https:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2019\/11\/quem-ri-do-racismo-por-adilson-jose-moreira\/\">Quem ri do racismo? &#8211; por Adilson Jos\u00e9 Moreira<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Quem ri do racismo? &#8211; por Adilson Jos\u00e9 Moreira&#8221; &#8212; revista serrote\" src=\"https:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2019\/11\/quem-ri-do-racismo-por-adilson-jose-moreira\/embed\/#?secret=N6jrX2pzKv\" data-secret=\"N6jrX2pzKv\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ADILSON JOS\u00c9 MOREIRA &#8211;\u00a0As pessoas raramente esquecem epis\u00f3dios de discrimina\u00e7\u00e3o, principalmente quando s\u00e3o frequentes. 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