{"id":12372,"date":"2020-01-16T12:02:50","date_gmt":"2020-01-16T15:02:50","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12372"},"modified":"2020-01-03T17:06:45","modified_gmt":"2020-01-03T20:06:45","slug":"sob-as-lentes-da-cultura-pop-as-contradicoes-e-as-desigualdades-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/01\/16\/sob-as-lentes-da-cultura-pop-as-contradicoes-e-as-desigualdades-sociais\/","title":{"rendered":"Sob as lentes da Cultura Pop, as contradi\u00e7\u00f5es e as desigualdades sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor &#8211; <\/strong>Thiago Soares, interessando em objetos de pesquisa voltados ao consumo popular, percebe as engrenagens das negocia\u00e7\u00f5es culturais entre os centros hegemonizados e as periferias.<\/p>\n<p>Definir de forma sum\u00e1ria a Cultura Pop est\u00e1 longe de ser um exerc\u00edcio simples. Pens\u00e1-la a partir de no\u00e7\u00f5es j\u00e1 estabilizadas no \u00e2mbito dos estudos de Comunica\u00e7\u00e3o, pode oferecer uma maneira mais complexa de compreender o fen\u00f4meno. \u201cComo conceito, Cultura Pop derivaria de uma intensifica\u00e7\u00e3o do que se poderia chamar de Cultura de Massa (como pensaram autores da Escola de Frankfurt) ou de Cultura da M\u00eddia (na leitura de autores dos Estudos Culturais), dentro de vis\u00f5es mais cr\u00edticas (ideias de padroniza\u00e7\u00e3o, homogeneiza\u00e7\u00e3o, mercantiliza\u00e7\u00e3o e fetichismo de mercadoria) ou mais integradas (populariza\u00e7\u00e3o da cultura, revis\u00e3o de c\u00e2nones elitistas, politiza\u00e7\u00e3o das est\u00e9ticas populares)\u201d, pondera o professor e pesquisador Thiago Soares, em entrevista por e-mail \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou totalmente cr\u00edtico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o completamente entusiasta da Cultura Pop. Talvez, a postura de pesquisadores e acad\u00eamicos sobre a Cultura Pop seja sempre de espreita, desconfian\u00e7a e prud\u00eancia. Reconhecendo que se trata de um lugar privilegiado para observar consensos culturais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se furtando a enxergar dissensos e controv\u00e9rsias de artistas, produtos e p\u00fablico f\u00e3\u201d, debate o professor. \u00c9 a partir desse, digamos assim, enfrentamento com os objetos da Cultura Pop, que quest\u00f5es sociais de fundo emergem. \u201cA ideia de colonialidade nos ajuda a reconhecer como a Cultura Pop assenta ideais de modernidade e globaliza\u00e7\u00e3o em pa\u00edses colonizados e como tamb\u00e9m faz real\u00e7ar as desigualdades destes contextos. Um show de m\u00fasica pop com uma estrela internacional no Brasil, por exemplo, ressalta a desigualdade brasileira: quem pode pagar para entrar? Que cor tem as pessoas que est\u00e3o dentro? Que marcadores sociais s\u00e3o acionados a partir destas l\u00f3gicas de consumo? Acho estas perguntas mais potentes e inquietantes\u201d, explica Soares.<\/p>\n<p>Em um processo de constru\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 baseada no consumo, mas tamb\u00e9m em sua dispers\u00e3o, a utopia do fim dos grandes grupos de m\u00eddia nunca se realizou, o que \u00e9 efeito, tamb\u00e9m, da plasticidade do capitalismo. \u201cCom o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o, de desintermedia\u00e7\u00e3o e de liberdade de consumo se sup\u00f4s que os conglomerados midi\u00e1ticos iriam sucumbir. O que vemos \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. A concentra\u00e7\u00e3o do poder em poucos grupos (Google, Facebook, Netflix) e a \u00eanfase em corpora\u00e7\u00f5es que se espraiam e fagocitam outras\u201d, afirma o entrevistado.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor compreende o conceito de Cultura Pop e, em que medida, essa perspectiva se articula em oposi\u00e7\u00e3o a ideia de \u201cexperi\u00eancia aut\u00eantica\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0Acho interessante esta pergunta porque sugere a Cultura Pop como conceito, algo que, em tese, ela n\u00e3o \u00e9. A Cultura Pop poderia ser definida como a produ\u00e7\u00e3o de bens simb\u00f3licos e materiais ligados a ind\u00fastrias do entretenimento, dentro de uma l\u00f3gica global e cosmopolita, que se constr\u00f3i a partir de padr\u00f5es est\u00e9ticos do mainstream. Em linhas gerais, a Cultura Pop deriva da forma\u00e7\u00e3o de sistemas industriais da cultura, ou seja, est\u00fadios de cinema e televis\u00e3o, gravadoras, editoras, entre outras inst\u00e2ncias, que promovem o encontro entre a cultura e a economia voltada a p\u00fablicos amplos e claramente definidos.<\/p>\n<p>Como conceito, Cultura Pop derivaria de uma intensifica\u00e7\u00e3o do que se poderia chamar de Cultura de Massa (como pensaram autores da Escola de Frankfurt) ou de Cultura da M\u00eddia (na leitura de autores dos Estudos Culturais), dentro de vis\u00f5es mais cr\u00edticas (ideias de padroniza\u00e7\u00e3o, homogeneiza\u00e7\u00e3o, mercantiliza\u00e7\u00e3o e fetichismo de mercadoria) ou mais integradas (populariza\u00e7\u00e3o da cultura, revis\u00e3o de c\u00e2nones elitistas, politiza\u00e7\u00e3o das est\u00e9ticas populares).<\/p>\n<p>O termo \u00e9 bastante desafiador na medida em que aparece muito conectado a uma perspectiva angl\u00f3fila (o termo ingl\u00eas \u201cpop\u201d) e tamb\u00e9m pelo legado da Pop Art, que embora tecesse cr\u00edticas ao capitalismo, desenvolvia uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com os produtos oriundos do capital. O fato \u00e9 que a Cultura Pop serve conceitualmente para pensarmos as encruzilhadas do capitalismo no campo da cultura: o que o agenciamento das ind\u00fastrias do entretenimento fizeram com nossas sensibilidades est\u00e9ticas? N\u00e3o sou totalmente cr\u00edtico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o completamente entusiasta da Cultura Pop. Talvez, a postura de pesquisadores e acad\u00eamicos sobre a Cultura Pop seja sempre de espreita, desconfian\u00e7a e prud\u00eancia. Reconhecendo que se trata de um lugar privilegiado para observar consensos culturais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se furtando a enxergar dissensos e controv\u00e9rsias de artistas, produtos e p\u00fablico f\u00e3.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A Cultura Pop pode ser, em alguma medida, um mecanismo de descoloniza\u00e7\u00e3o? Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0O \u201clugar de fala\u201d (para usar um termo bastante usual atualmente) da Cultura Pop \u00e9 a cultura global, centrada na anglofilia e na produ\u00e7\u00e3o cultural dos Estados Unidos. No entanto, acho pouco instigante a tese de observar os produtos da cultura pop pela lente do \u201cimperialismo\u201d pura e simplesmente. De fato h\u00e1 um jogo de poder que se imp\u00f5e, mas tamb\u00e9m h\u00e1 formas de ressignifica\u00e7\u00e3o nos contextos de frui\u00e7\u00e3o que podem trazer leituras \u201cbastardas\u201d de produtos pop, como a maneira com que sujeitos nas Filipinas reinterpretam as divas pop norte-americanas com vestidos feitos de bananeiras e saltos de tijolos prec\u00e1rios ou indianos que fazem a coreografia do videoclipe \u201cThriller\u201d de Michael Jackson misturando com passos de dan\u00e7a de filmes musicais de Bollywood (a ind\u00fastria de cinema de Mumbai, na \u00cdndia).<\/p>\n<p>Essas ressignifica\u00e7\u00f5es ocorrem e nos ajudam a mostrar a for\u00e7a das culturas e dos hibridismos. No entanto, mais recentemente tenho lido um autor peruano chamado Anibal Quijano , que fala sobre \u201ccolonialidade\u201d, ou seja, sobre o sistema de pensamento, saberes e condutas que se formam nas din\u00e2micas coloniais. A ideia de colonialidade nos ajuda a reconhecer como a Cultura Pop assenta ideais de modernidade e globaliza\u00e7\u00e3o em pa\u00edses colonizados e como tamb\u00e9m faz real\u00e7ar as desigualdades destes contextos. Um show de m\u00fasica pop com uma estrela internacional no Brasil, por exemplo, ressalta a desigualdade brasileira: quem pode pagar para entrar? Que cor tem as pessoas que est\u00e3o dentro? Que marcadores sociais s\u00e3o acionados a partir destas l\u00f3gicas de consumo? Acho estas perguntas mais potentes e inquietantes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel apreender identidades locais a partir da Cultura Pop? De que forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0A Cultura Pop pode ser um interessante mecanismo para real\u00e7ar as desigualdades regionais em pa\u00edses colonizados. Por exemplo, no Brasil, lembro do contexto de apari\u00e7\u00e3o da cantora paraense Gaby Amarantos , que ficou famosa pela can\u00e7\u00e3o \u201cEx-Mai Love\u201d e por representar a cena musical do tecnobrega do Par\u00e1 no Brasil. Gaby era uma cantora de relativo sucesso no contexto paraense, mas desconhecida no Brasil. O gesto dela em dire\u00e7\u00e3o a uma forma mais global e moderna de se colocar no mercado foi acionar a sua semelhan\u00e7a com a cantora norte-americana Beyonc\u00e9.<\/p>\n<p>Gaby Amarantos gravou uma vers\u00e3o do hit \u201cSingle Ladies\u201d que levou o nome \u201cHoje eu T\u00f4 Solteira\u201d e ganhou ampla divulga\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica inclusive chegando a se apresentar no programa Doming\u00e3o do Faust\u00e3o, da Rede Globo, sob a alcunha de \u201cA Beyonc\u00e9 do Par\u00e1\u201d. Parece-me sintom\u00e1tico que a cantora tenha recorrido a imagem de Beyonc\u00e9 para se afirmar como paraense e tamb\u00e9m como \u201cnacional\u201d ou \u201cglobal\u201d. Olhar este eposi\u00f3dio pela lente da Cultura Pop mostra as diferen\u00e7as e desigualdades do Brasil: como uma artista paraense faz para n\u00e3o ser lida apenas pela \u201cchave\u201d da figura folcl\u00f3rica ou ex\u00f3tica? Neste caso, Beyonc\u00e9 funciona como uma forma de Gaby Amarantos negociar com as inst\u00e2ncias midi\u00e1ticas localizadas no Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, ou seja, as ideias de centro e margem s\u00e3o repensadas n\u00e3o apenas no tocante aos Estados Unidos, mas aos \u201ccentros\u201d que existem no pr\u00f3prio contextos brasileiro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que maneira a constitui\u00e7\u00e3o da m\u00fasica na Cultura Pop pode contribuir para o entendimento de din\u00e2micas culturais de nosso cotidiano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0A m\u00fasica na Cultura Pop \u00e9 o lugar mais sintom\u00e1tico para entender as din\u00e2micas e inger\u00eancias da digitaliza\u00e7\u00e3o no consumo cultural. Foi na m\u00fasica que primeiro se baixou can\u00e7\u00f5es e \u00e1lbuns inteiros, que se mostrou os impasses de uma produ\u00e7\u00e3o cultural desintermediada, em que os modelos de neg\u00f3cio da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica foram primeiro questionados. A youtubiza\u00e7\u00e3o da cultura, por exemplo, come\u00e7ou com a m\u00fasica e a dissemina\u00e7\u00e3o de videoclipes em plataformas de compartilhamento audiovisuais. \u00c9 portanto no campo da produ\u00e7\u00e3o musical que se desenvolveram os primeiros testes sobre consumo streaming que viria culminar com o nascimento de novos conglomerados de entretenimento ligados ao streaming como a Netflix, o Amazon Prime e a GloboPlay.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 No seu atual projeto de pesquisa, o senhor trabalha a m\u00fasica brega do Brasil e a cumbia villera da Argentina e, entre suas hip\u00f3teses, h\u00e1 a de que moradores das periferias de metr\u00f3poles latino-americana reivindicam cidadanias. Gostaria que o senhor detalhasse essa perspectiva e explicasse como se d\u00e1 essa busca por uma cidadania atrav\u00e9s de manifesta\u00e7\u00f5es da cultura pop.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 imposs\u00edvel desvincular o consumo de Cultura Pop na Am\u00e9rica Latina e as din\u00e2micas culturais das periferias das metr\u00f3poles. Foi atrav\u00e9s da minha pesquisa sobre Cultura Pop que cheguei no consumo da m\u00fasica brega em Pernambuco primeiro porque v\u00e1rios artistas de m\u00fasica brega faziam vers\u00f5es (sem pagar direitos autorais) de m\u00fasicas pop internacionais. Por exemplo, \u201cDespacito\u201d, sucesso de Luis Fonsi, virou \u201cNecessito\u201d, na voz da banda de brega Sedutora. \u201cLet it Go\u201d, can\u00e7\u00e3o da trilha do filme \u201cFrozen \u2013 Uma Aventura Congelante\u201d, virou \u201cNada Sou\u201d. Os exemplos s\u00e3o muitos. Mas me parece que h\u00e1 uma tentativa de falar de quest\u00f5es locais com um \u201cacento\u201d global.<\/p>\n<p>Estas can\u00e7\u00f5es parecem narrar a maneira prec\u00e1ria e imperfeita como cidad\u00e3os das margens do mundo interpretam os c\u00e2nones do pop. \u00c9 destas imperfei\u00e7\u00f5es que percebemos as desigualdades do mundo e tamb\u00e9m como as formas de cidadania tamb\u00e9m s\u00e3o desiguais e prec\u00e1rias. Tanto no brega, no Brasil, quanto na cumbia villera, na Argentina, h\u00e1 uma forte presen\u00e7a da ostenta\u00e7\u00e3o e de artistas se apresentarem perto a \u00edcones do consumo, mostro v\u00e1rios exemplos no livro Ningu\u00e9m \u00e9 Perfeito e a Vida \u00e9 Assim: A M\u00fasica Brega em Pernambuco (Recife: Editora Carlos Gomes de Oliveira Filho, 2017). S\u00e3o ind\u00edcios de uma cidadania que se faz no consumo e n\u00e3o nas bases da pol\u00edtica formal, cidadanias parciais e prec\u00e1rias que colocam em risco e em crise as bases do entendimento do que \u00e9 ser cidad\u00e3o diante de crises econ\u00f4micas promovendo a perigosa ideia de que tudo se resolve atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o com o capital, com a iniciativa privada e com o empreendedorismo e que o Estado formal n\u00e3o importa.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como, a partir da sua experi\u00eancia de pesquisa da realidade cubana, a m\u00fasica pop pode se perfilar como um front para enfrentamentos pol\u00edticos e midi\u00e1ticos? E, especificamente no caso de Cuba, o que est\u00e1 em disputa e em que campos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0Entre os anos de 2015 e 2017, fiz pesquisa de consumo de m\u00fasica pop em Cuba, que resultou no livro M\u00fasica Pop en Cuba: Globalizaci\u00f3n, Territorios y Solidariedad Digital (Barcelona: Editora UOC, 2018), em que debato como se d\u00e3o as formas de escuta e com\u00e9rcio de m\u00fasica pop na ilha socialista que durante anos n\u00e3o permitiu o consumo destes produtos por serem \u201cfalados em ingl\u00eas\u201d. A minha premissa de pesquisa era compreender que, mesmo no lugar mais \u201cfechado\u201d aos produtos da Cultura Pop na Am\u00e9rica Latina, ainda assim havia vest\u00edgios e marcas desta produ\u00e7\u00e3o na ilha. Seja atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o de bens (discos, filmes, etc) atrav\u00e9s de pessoas que viajavam e voltavam para a ilha, atrav\u00e9s da pirataria e tamb\u00e9m pelas redes digitais.<\/p>\n<p>Ainda que haja todo este amplo consumo de produtos ligados \u00e0 Cultura Pop em Cuba, h\u00e1 tamb\u00e9m a consci\u00eancia formada em anos de socialismo que entende a import\u00e2ncia do lugar do bem estar social no cotidiano da ilha. Minha pesquisa mostra que h\u00e1 uma disputa geracional em Cuba (jovens \u00e1vidos pelo consumo global, adultos e idosos conectados com os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana) em constante atrito que aponta para impasses no processo de moderniza\u00e7\u00e3o da ilha socialista. A Cultura Pop me ajuda a entender estas negocia\u00e7\u00f5es e impasses geopol\u00edticos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Al\u00e9m da m\u00fasica, que outros produtos da Cultura Pop da atualidade t\u00eam se mostrado potentes para promo\u00e7\u00e3o de resist\u00eancias e reivindica\u00e7\u00f5es de uma identidade e direitos (ou cidadanias) locais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0A cultura dos seriados \u00e9 atualmente a mais potente forma de gera\u00e7\u00e3o de empatia e de sociabilidades na cultura contempor\u00e2nea entre jovens. Amplas discuss\u00f5es sobre quest\u00f5es raciais, de g\u00eanero, da macropol\u00edtica e da micropol\u00edtica passam pelos seriados, que foram amplificados pela cultura streaming e pelo consumo audiovisual em m\u00eddias m\u00f3veis. Os seriados pautam estilos de vida e colocam no cotidiano debates sobre suic\u00eddio e sa\u00fade mental (13 Reasons Why), sobre a presen\u00e7a da igreja e do Estado religioso na vida das mulheres (Handsmaid&#8217;s Tale), sobre a pol\u00edtica em sentido amplo (Years and Years), sobre os impasses raciais na sociabilidade jovem (Cara Gente Branca), entre outros temas. Os seriados formam redes de debates online e offline constituindo maneiras de se enxergar e enxergar o Outro atrav\u00e9s de uma lente que passa pela Cultura Pop.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais os desafios para se falar de resist\u00eancia e ativismo pol\u00edtico a partir de personagens da cultura pop, como a cantora Madona? Como apreender o que est\u00e1 por tr\u00e1s da performance e dos movimentos da ind\u00fastria cultural?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0Todo modelo de corpo, de comportamento e de estilo de vida que \u00e9 ancorado pela Cultura Pop exclui uma s\u00e9rie de outras express\u00f5es. No caso de Madonna , quando ela apareceu, nos anos 1980, com a pauta da libera\u00e7\u00e3o feminina e da sexualidade das adolescentes, certamente falava de seu lugar de mulher branca, loira e do norte dos Estados Unidos. Embora tenha posturas extremamente progressistas, como a defesa da liberdade da mulher, do aborto, a cr\u00edtica aos governos republicanos nos EUA (de Reagan a Trump ), Madonna tamb\u00e9m reitera uma narrativa de vigil\u00e2ncia sobre o corpo, de modelos de magreza e de empreendedora de si que se conecta com a cultura do consumo glorificada pelos Estados Unidos. Ou seja, como todos n\u00f3s somos contradit\u00f3rios, Madonna e os produtos da Cultura Pop tamb\u00e9m s\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel olh\u00e1-los apenas como dispositivos conservadores ou progressistas. Eles s\u00e3o \u2013 muitas vezes \u2013 ambos. Porque querem negociar com amplas plateias e com contextos mais globais. Gosto de olhar as contradi\u00e7\u00f5es destes produtos. \u00c9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio e fascinante.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ainda hoje, num mundo global e hiperconectado, ainda faz sentido falar em ind\u00fastria cultural? E essa ind\u00fastria pode representar alguma amea\u00e7a \u00e0s identidades locais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thiago Soares \u2013<\/strong>\u00a0Faz muito sentido falar em ind\u00fastrias culturais sim. No plural. Ind\u00fastrias que se conectam e formam redes de consumo e de neg\u00f3cios. Com o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o, de desintermedia\u00e7\u00e3o e de liberdade de consumo se sup\u00f4s que os conglomerados midi\u00e1ticos iriam sucumbir. O que vemos \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. A concentra\u00e7\u00e3o do poder em poucos grupos (Google, Facebook, Netflix) e a \u00eanfase em corpora\u00e7\u00f5es que se espraiam e fagocitam outras.<\/p>\n<p>As disputas globais, no entanto, agora apresentam um novo cen\u00e1rio em que o Oriente aparece como uma for\u00e7a cultural e est\u00e9tica tamb\u00e9m impressionante na Cultura Pop. Seja na economia chinesa e na racionalidade japonesa, \u00e9 a Coreia do Sul que parece dominar a cartilha cultural da Cultura Pop e se infiltra no cotidiano digital de sujeitos de todo mundo com a m\u00fasica Kpop, os seriados doramas e a cultura dos idols. A proposta da Cultura Pop ser uma plataforma do Estado sul coreano (que financia estudos e pesquisas nesta \u00e1rea, bem como tem pol\u00edticas econ\u00f4micas para a cultura) nos faz enxergar um protagonismo da cultura pop coreana e da economia chinesa no que est\u00e1 se chamando de um \u201cMundo P\u00f3s-Ocidental\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7719-sob-as-lentes-da-cultura-pop-as-contradicoes-e-as-desigualdades-sociais<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor &#8211; Thiago Soares, interessando em objetos de pesquisa voltados ao consumo popular, percebe as engrenagens das negocia\u00e7\u00f5es culturais entre os centros hegemonizados e as periferias. Definir de forma sum\u00e1ria a Cultura Pop est\u00e1 longe de ser um exerc\u00edcio simples. 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