{"id":12342,"date":"2020-01-09T12:03:13","date_gmt":"2020-01-09T15:03:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12342"},"modified":"2020-01-02T16:08:36","modified_gmt":"2020-01-02T19:08:36","slug":"o-sujeito-moderno-e-o-mal-ser-na-sociedade-do-desamparo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/01\/09\/o-sujeito-moderno-e-o-mal-ser-na-sociedade-do-desamparo\/","title":{"rendered":"O sujeito moderno e o mal-ser na sociedade do desamparo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fl\u00e1via Andrade Almeida &#8211; <\/strong>O capitalismo se radicalizou de tal modo que n\u00e3o se utiliza mais somente as pot\u00eancias do corpo, mas implica-se a subjetividade em ideais competitivos.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da subjetividade humana \u00e9 atravessada pelos valores \u00e9ticos, morais, culturais e pela racionalidade pol\u00edtica de cada \u00e9poca. E para diversos pensadores, como Michel Foucault, o sujeito moderno (n\u00f3s em boa parte do Ocidente) vive e \u00e9 atravessado pelos mecanismos espec\u00edficos da racionalidade competitiva, individualista, de um\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0que ele procurou investigar nos seus \u00faltimos escritos.<\/p>\n<p>Para Foucault, n\u00e3o se trata mais meramente de manter-se produtivo em termos econ\u00f4micos de trabalho. O capitalismo se radicalizou de tal modo que n\u00e3o se utiliza mais somente as pot\u00eancias do corpo, mas implica-se a subjetividade em ideais competitivos. Assim, de acordo com este pensador, a subjetividade moderna est\u00e1 profundamente relacionada e se constitui num\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0social de competi\u00e7\u00e3o, praticamente onipresente. A ideia de sermos n\u00e3o apenas profissionais competentes, mas sermos em todas as inst\u00e2ncias de nossas vidas empresas, empres\u00e1rios de n\u00f3s mesmos, generaliza a obriga\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, da felicidade e da efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>Esses modos de rela\u00e7\u00f5es modificam desde nossas constitui\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, ps\u00edquicas e os modos como nos relacionamos em sociedade. Podemos inferir, de pronto, o quanto isto implica na rarefa\u00e7\u00e3o do senso do que \u00e9 coletivo, do bem comum e das ideias semelhantes ao sentimento de solidariedade ao pr\u00f3ximo. Produz rarefa\u00e7\u00e3o ainda da sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar, de amparo. O sujeito moderno \u00e9 sobretudo, um sujeito solit\u00e1rio, abandonado, est\u00e1 em desamparo.<\/p>\n<p><strong>24 horas por dia<\/strong><\/p>\n<p>Tais modos de rela\u00e7\u00f5es implicam na forma como percebemos o tempo, individual e o coletivo. N\u00e3o basta estarmos ativos e dispon\u00edveis nos hor\u00e1rios \u00fateis, em dias de trabalho, a efic\u00e1cia e a disponibilidade s\u00e3o os imperativos 24 horas por dia. E se antes entend\u00edamos que o trabalhador, por exemplo, precisava se adaptar e procurar seguir ordens, o sujeito moderno, ou o\u00a0<em>neossujeito<\/em>\u00a0(o sujeito constitu\u00eddo na racionalidade neoliberal), empresa de si, \u00e9 ao mesmo tempo o pr\u00f3prio chefe e empregado. Trata-se de um sujeito que tem liberdade para fazer seu pr\u00f3prio hor\u00e1rio, mas mant\u00e9m assim a disponibilidade total. Responde a e-mails de madrugada e a mensagens no celular nas f\u00e9rias, no fim de semana, etc.<\/p>\n<p>Para Foucault a racionalidade pol\u00edtica atual cria a ilus\u00e3o da maximiza\u00e7\u00e3o das liberdades, para melhor geri-las. Desse modo o sujeito est\u00e1 em uma condi\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o, porque livre, v\u00ea-se obrigado a maximizar seu desempenho em todas as \u00e1reas da vida: ser o mais bonito, o mais feliz, o que viaja mais, o mais culto, o mais bem-sucedido. Precisa colocar-se em vitrines de venda de si: o perfil mais badalado das redes sociais, o curr\u00edculo lattes com mais produ\u00e7\u00f5es, o perfil profissional mais competitivo. A modifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o tempo deixa a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 motivo para descanso. A liberdade tornou-se uma obriga\u00e7\u00e3o de desempenho, uma vez que todos est\u00e3o nessa racionalidade, dando o melhor de si e fortalecendo esse ideal. O sujeito moderno n\u00e3o pode reclamar de hetero-explora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a ideia da livre iniciativa \u00e9 o<em>\u00a0ethos<\/em>\u00a0vigente. Mas o\u00a0<em>neossujeito<\/em>\u00a0acaba por explorar a si mesmo, se rende, reage a demandas externas a si.<\/p>\n<p>A subjetividade moderna \u00e9 implicada nas rea\u00e7\u00f5es disfar\u00e7adas de realiza\u00e7\u00e3o do desejo pr\u00f3prio. O sujeito reage e se adapta a demandas do meio e acredita que isso fortalece o gozo. A fantasia de realiza\u00e7\u00e3o produz sujeitos que podem e, portanto, devem, ser os melhores no trabalho, nas rela\u00e7\u00f5es conjugais, serem o melhor pai, a melhor m\u00e3e, o mais inteligente, etc. \u00c9 preciso viajar mais, gozar mais a vida. Tudo se passa como em um teatro social de felicidade e bem-estar, no qual n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para dores, tristeza e fracasso.<\/p>\n<p><strong>Inf\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>Uma das ideias fundamentais da psican\u00e1lise gira em torno da import\u00e2ncia da inf\u00e2ncia, dos acontecimentos e do suporte da crian\u00e7a, para a constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica saud\u00e1vel. Nesse sentido, o que cada vez mais observamos \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>miniempresas<\/em>\u00a0do que de futuros sujeitos integrados emocionalmente. Isso porque a competi\u00e7\u00e3o se inicia cada vez mais cedo e de forma cada vez mais contundente.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a n\u00e3o possui espa\u00e7o para ser e se integrar; vai sendo cada vez mais invadida por demandas do mundo antes mesmo de desenvolver capacidades m\u00ednimas para lidar com ang\u00fastias. Vemos as crian\u00e7as competindo como adultos, por notas, por atividades, por quem domina mais idiomas, quem tem mais aptid\u00f5es etc. \u00c9 como se os filhos antes de serem sujeitos em desenvolvimento, tenham que se torar \u201cos futuros alguma coisa\u201d baseado no investimento que se faz cada vez mais em curr\u00edculos e menos em integra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e9 claro que h\u00e1 implica\u00e7\u00f5es decorrentes desse\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0social, que produz subjetividades para a efic\u00e1cia e n\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e manejo do desejo. A competi\u00e7\u00e3o generalizada produz rela\u00e7\u00f5es humanas violentas, individualistas. O indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 dado ao amparo do outro porque \u00e9 preciso gastar seu pr\u00f3prio tempo investindo em ser melhor. Assim, os sujeitos tornam-se igualmente cansados, tristes e frustrados, pois fica evidente que em algum momento a conta da ilus\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 chegar. \u00c9 como se a racionalidade pol\u00edtica moderna tivesse nos tomado a alma.<\/p>\n<p><strong>Mal-ser, mal-estar<\/strong><\/p>\n<p>A subjetividade do\u00a0<em>neossujeito<\/em>\u00a0\u00e9, podemos dizer, uma subjetividade constru\u00edda no reagir e responder \u00e0s demandas do mundo e n\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o de si, seguida da transforma\u00e7\u00e3o de si e do mundo. Uma subjetividade que em termos lacanianos (psicanalista franc\u00eas, Jacques Lacan) n\u00e3o opera no mundo conforme o desejo individual, mas adapta o pr\u00f3prio desejo de forma t\u00e3o incisiva que pode nem mesmo chegar a conhecer o pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p>Uma subjetividade que em termos winnicottianos (nos referimos a Donald Woods Winnicott, psicanalista ingl\u00eas contempor\u00e2neo de Lacan) n\u00e3o se constr\u00f3i para culminar num ser integrado e estruturado para a autenticidade, n\u00e3o chega a SER. O mal-ser \u00e9 o eu que n\u00e3o chega mesmo a constituir-se e j\u00e1 desde cedo responde ao mal-estar social. A subjetividade moderna, entendo, se relaciona mais ao winnicottiano mal-ser, do que ao freudiano conhecido mal-estar.<\/p>\n<p>O sujeito reage ao mundo cada vez mais cedo. E cada vez mais cedo as crian\u00e7as deixam a inf\u00e2ncia suja de areia para a inf\u00e2ncia do tempo controlado por mil e uma atividades que estimulam a cogni\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o contribuem para a elabora\u00e7\u00e3o e da constitui\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel do l\u00fadico, do brincar, da criatividade, em suma, da psique. E \u00e9 na adolesc\u00eancia que explodem as consequ\u00eancias do mal-ser infantil. O jovem \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da sociedade do desamparo. Fr\u00e1gil psiquicamente, impossibilitado de ser quem \u00e9, muitas vezes n\u00e3o chega mesmo a constituir-se no que \u00e9. Impossibilitado de recorrer a algu\u00e9m para exteriorizar a ang\u00fastia, j\u00e1 que o sujeito neoliberal n\u00e3o chora, apenas sorri, o jovem se v\u00ea quase obrigado a engolir sua tristeza ou a marcar o que n\u00e3o conhece na forma da imagem da pr\u00f3pria pele cortada, mutilada. O sangue e a dor f\u00edsica tornam real a dor ps\u00edquica que n\u00e3o foram ensinados a lidar, n\u00e3o aprenderam a nomear.<\/p>\n<p>O dano da fantasia de realiza\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade mental \u00e9 dif\u00edcil de ser mensurado. Mas sem d\u00favida, uma sociedade que constitui subjetividades para a disputa pelo melhor sorriso e n\u00e3o abre espa\u00e7o para a exterioriza\u00e7\u00e3o do choro vai produzir sujeitos cada vez mais iletrados para o sofrimento. E quando se pro\u00edbe a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es menos desejadas (como a tristeza, o medo e a ang\u00fastia) se pro\u00edbe por consequ\u00eancia a aprendizagem, a capacidade para lidar com elas. A quest\u00e3o \u00e9 que essas emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixar\u00e3o de existir mesmo que o sujeito moderno perca a capacidade para cr\u00edtica em fun\u00e7\u00e3o do imperativo do gozo. Se h\u00e1 algo desobediente, esse algo \u00e9 a tristeza. A constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para as ang\u00fastias nesse contexto, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para a reconstru\u00e7\u00e3o do coletivo, para a capacita\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica e para posicionamentos no mundo que nos possibilitem nos enxergar em n\u00f3s e no outro, sem precisar recorrer ao grito, ou aos extremos.<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/o-sujeito-moderno-e-o-mal-ser-na-sociedade-do-desamparo\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1via Andrade Almeida &#8211; O capitalismo se radicalizou de tal modo que n\u00e3o se utiliza mais somente as pot\u00eancias do corpo, mas implica-se a subjetividade em ideais competitivos. A constru\u00e7\u00e3o da subjetividade humana \u00e9 atravessada pelos valores \u00e9ticos, morais, culturais e pela racionalidade pol\u00edtica de cada \u00e9poca. 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