{"id":12334,"date":"2020-01-07T12:50:05","date_gmt":"2020-01-07T15:50:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12334"},"modified":"2020-01-02T15:54:01","modified_gmt":"2020-01-02T18:54:01","slug":"quem-tem-medo-de-marx-e-de-seus-amigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/01\/07\/quem-tem-medo-de-marx-e-de-seus-amigos\/","title":{"rendered":"Quem tem medo de Marx e de seus amigos?"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-wrapper-content my_post_content\">\n<div class=\"post-header row\">\n<div class=\"post_title_area col-lg-6 col-md-12\">\n<p class=\"jac-author\"><strong>Lincoln Secco<\/strong> &#8211; Se voc\u00ea n\u00e3o deve \u00e0 classe trabalhadora, n\u00e3o h\u00e1 o que temer.<\/p>\n<p class=\"jac-author\">Um fantasma ronda o planeta. Contra ele se unem todas as pot\u00eancias numa sagrada alian\u00e7a para esconjur\u00e1-lo: um \u201cbispo\u201d evang\u00e9lico e o czar da economia, Bannon e Olavo, neoliberais e milicianos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-wrapper-content single_content row\">\n<div class=\"post_content col-lg-8 col-md-12\">\n<div class=\"section the_content has_content\">\n<div class=\"section_wrapper\">\n<div class=\"the_content_wrapper\">\n<p>Para essa alian\u00e7a, qualquer coisa que n\u00e3o se assemelha a um projeto conservador de direita deve ser marxismo. Desde 2013 n\u00e3o houve partido de oposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tivesse sido acusado pelo governo de \u201cmarxista\u201d. Feministas e o movimento LGBTQ+, ecologistas e militantes de direitos humanos, curadorias de museus e performances art\u00edsticas, pesquisas acad\u00eamicas e religi\u00f5es afro-brasileiras aparecem como homog\u00eaneos aos olhos de sua oposi\u00e7\u00e3o. O marxismo volta a ser reconhecido por todos os poderes como um poder, mas n\u00e3o qualquer poder: uma conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto uma par\u00e1frase do\u00a0<em>Manifesto comunista<\/em>. Os ide\u00f3logos da luta contra o \u201cgramscismo\u201d e o \u201cmarxismo cultural\u201d atacam algo muito diferente daquilo que pertence ao arcabou\u00e7o te\u00f3rico de Marx e Engels.<\/p>\n<p><strong>Ber\u00e7o revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Karl Marx n\u00e3o se considerava marxiano ou marxista. Esses termos adentraram o vocabul\u00e1rio pol\u00edtico por obra de seus advers\u00e1rios na Alemanha em torno de 1850, e na Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores depois de 1864. Quando partid\u00e1rios de suas ideias adotaram o termo \u201cmarxismo\u201d em 1882, Marx o recusou terminantemente. Mais tarde Engels admitiu o uso na Inglaterra desde que fosse impresso como \u201c<em>the so called marxism<\/em>\u201d ou \u201co tal marxismo\u201d.<\/p>\n<p>A palavra se fixou durante a vig\u00eancia da Segunda Internacional, criada em 1889 como doutrina dos partidos sociais democratas e trabalhistas rec\u00e9m-fundados. Desde ent\u00e3o, o termo foi reivindicado por pessoas que aderiram \u00e0s mais diferentes correntes pol\u00edticas. Mas haveria um n\u00facleo comum ou um \u201cm\u00ednimo marxista\u201d?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode responder a isso fora da hist\u00f3ria. Karl Marx nasceu numa era de revolu\u00e7\u00f5es, como a chamou Eric Hobsbawm. O s\u00e9culo 18 foi marcado pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas v\u00e1rias outras erup\u00e7\u00f5es se sucederam.<\/p>\n<p>Uma onda revolucion\u00e1ria se iniciou dois anos depois do nascimento de Marx. A partir de 1820, as agita\u00e7\u00f5es atravessaram Portugal, Espanha, Gr\u00e9cia, Pol\u00f4nia, B\u00e9lgica e a Am\u00e9rica Latina. Depois dos intentos absolutistas de Carlos X, na Fran\u00e7a, tamb\u00e9m este pa\u00eds retomou o m\u00e9todo revolucion\u00e1rio em julho de 1830, quando a B\u00e9lgica se estabeleceu como pa\u00eds independente.<\/p>\n<p>Finalmente, uma nova onda chegou com a Primavera dos Povos (1848): Roma, Paris, Viena, Praga, Budapeste, Frankfurt e outras cidades foram sacudidas por uma combina\u00e7\u00e3o de estudantes, oper\u00e1rios, artes\u00e3os e intelectuais socialistas.<\/p>\n<p>Aquela era uma etapa de revolu\u00e7\u00f5es liberais e burguesas, mas que sacramentaram duas ideias centrais que seriam incorporadas ao arcabou\u00e7o marxista: a\u00a0<em>revolu\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>luta de classes<\/em>. Aquelas revolu\u00e7\u00f5es foram burguesas pela sua dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por seus limites te\u00f3ricos e por suas realiza\u00e7\u00f5es. Ficaram circunscritas a uma igualdade simplesmente jur\u00eddica e a uma liberdade abstrata. Esqueceram tamb\u00e9m, e convenientemente, a fraternidade.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que mobilizaram o \u201cTerceiro Estado\u201d (em sua maioria, o povo) e difundiram uma mensagem universal. Seus limites, no entanto, fizeram-nas refluir ao espa\u00e7o nacional e a regimes sem participa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Como notou o historiador franc\u00eas Albert Soboul, a multid\u00e3o parisiense que fazia aquelas revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o constitu\u00eda uma classe. Eram artes\u00e3os, pequenos comerciantes, ambulantes, desempregados e, excepcionalmente, oper\u00e1rios. Enfim, eram\u00a0<em>sans culottes<\/em>, ou seja, n\u00e3o vestiam o cal\u00e7\u00e3o e as meias da aristocrata, e sim cal\u00e7a, camisa e uma jaqueta curta, a carmanhola. Sua linguagem era radical, contra<br \/>\nos grandes (nobres eram todos os ricos). Mas n\u00e3o questionava a propriedade, n\u00e3o tinha um programa e usava uma viol\u00eancia nem sempre vertical, de baixo para cima. \u00c0s vezes seu \u00f3dio se movia para os lados.<\/p>\n<p>At\u00e9 o conservador Fran\u00e7ois Furet arguiu que aquelas pessoas estavam unidas menos por uma forma comum de inser\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o do que por uma mentalidade, no sentido mais amplo que os historiadores franceses deram \u00e0 palavra. \u00c9 a mentalidade do exclu\u00eddo que substitui a luta por reformas dentro da ordem, n\u00e3o pela revolu\u00e7\u00e3o, mas pela vingan\u00e7a. O socialismo precisa da organiza\u00e7\u00e3o, do partido, do programa, enfim, da classe. E aqui, Karl Marx comparece \u00e0 nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edtica da cr\u00edtica cr\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ao contr\u00e1rio do que imaginam nossos \u201cantimarxistas culturais\u201d, a leitora e o leitor j\u00e1 perceberam que as ideias herdadas pelos socialistas se originaram do mesmo contexto que mobilizava os revolucion\u00e1rios liberais e os nacionalistas (nem sempre unidos): a luta de uma classe trabalhadora, a conquista do poder de Estado e n\u00e3o a conquista de consci\u00eancias ou de pequenos poderes dispersos e, a partir do s\u00e9culo 20, tudo isso dentro de Estados Nacionais.<\/p>\n<p>O cerne da cr\u00edtica de Marx n\u00e3o dizia respeito \u00e0 cultura, mas \u00e0 economia pol\u00edtica. Embora se preocupasse com as diversas formas de domina\u00e7\u00e3o, seu pressuposto fundamental foi a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica pela derrubada da ordem burguesa.<\/p>\n<p>Marx iniciou sua obra combatendo fil\u00f3sofos metaf\u00edsicos que separavam o sujeito e o objeto, assim como a teoria e a pr\u00e1tica. Ele criticou os chamados socialistas ut\u00f3picos que, embora erguessem doutrinas e fantasias igualit\u00e1rias e generosas, restringiam-se \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de experimentos coletivistas sem a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de derrubar toda a estrutura de domina\u00e7\u00e3o da burguesia.<\/p>\n<p>Contra os socialistas ut\u00f3picos, Marx se aproximou de uma outra linhagem socialista que procurava meios pr\u00e1ticos de derrubar a ordem existente, mesmo que fosse pela conspira\u00e7\u00e3o e por tentativas revolucion\u00e1rias vanguardistas. Marx n\u00e3o gostava do anarquista Pierre-Joseph Proudhon, preferia o \u201ccomunista\u201d pr\u00e1tico Louis-Auguste Blanqui. Este era muito mais um herdeiro do jacobinismo, embora na Fran\u00e7a o termo\u00a0<em>communisme<\/em>\u00a0tenha aparecido por volta de 1840.<\/p>\n<p>Para avan\u00e7ar em sua perspectiva, era necess\u00e1rio conhecer os fundadores da economia pol\u00edtica. Assim, Marx iniciou seus estudos com os cl\u00e1ssicos Adam Smith e David Ricardo e apreendeu a teoria do valor trabalho. Tamb\u00e9m deveu muito ao fisiocrata franc\u00eas Fran\u00e7ois Quesnay, que elaborou o\u00a0<em>tableau \u00e9conomique<\/em>, um esquema de reprodu\u00e7\u00e3o da economia; ou seja, um modelo de fluxos de riqueza entre as classes sociais. O desenvolvimento do marxismo passa ent\u00e3o, necessariamente, pela compreens\u00e3o e pela cr\u00edtica ao pensamento liberal do seu tempo.<\/p>\n<p>Karl Kautsky e Vladimir Lenin escreveram que o marxismo teria tr\u00eas fontes: a economia pol\u00edtica inglesa, a filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3 e o socialismo ut\u00f3pico franc\u00eas. No entanto, Marx tamb\u00e9m foi conhecedor dos fisiocratas franceses, como Fran\u00e7ois Quesnay e Vincent de Gournay, o propositor do lema\u00a0<em>laissez-faire, laissez-passer, le monde va de lui-m\u00eame<\/em>\u00a0[deixai fazer, deixai passar; o mundo vai\u00a0por si mesmo].<\/p>\n<p>O esquema, ao navegar na hist\u00f3ria, precisa ser complementado. Entre aquelas fontes, destacam-se: 1) ao lado da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3, um modelo de Revolu\u00e7\u00e3o e a ideia de luta de classes que Marx retirou de historiadores liberais como Guizot, Mignet e a not\u00e1vel Madame de Sta\u00ebl; 2) ao lado da economia pol\u00edtica inglesa, a contribui\u00e7\u00e3o dos fisiocratas que permitiu tratar das classes como temas tamb\u00e9m econ\u00f4micos; e 3) al\u00e9m do socialismo ut\u00f3pico, que Marx e Engels criticam no\u00a0<em>Manifesto comunista<\/em>, a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do comunismo franc\u00eas de \u201cBlanqui e seus camaradas\u201d foi essencial para a solidifica\u00e7\u00e3o do marxismo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica que interessou a Marx n\u00e3o foi a de comunidades alternativas. Ele n\u00e3o deixou um modelo de planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que pudesse orientar sociedades socialistas, embora tivesse escrito alguns excertos a respeito tanto em\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0como em sua\u00a0<em>Cr\u00edtica do programa de gotha\u00a0<\/em>(1875). Este \u00faltimo \u00e9 o que chega mais perto de uma ideia de sociedade emancipada do capital dentro da obra marxiana.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica sobre o programa do Partido Social-Democrata da Alemanha realizado em Gotha era de 1875. Ali, Marx distinguiu uma \u201cprimeira fase da sociedade comunista, tal como brota da sociedade capitalista depois de um longo e doloroso parto\u201d, e uma fase superior, quando \u201ca sociedade poder\u00e1 inscrever em suas bandeiras: de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo a sua necessidade\u201d. A frase foi muito usada pelos anarquistas e tinha uma origem crist\u00e3 (Atos 4:35). Marx o sabia muito bem.<\/p>\n<p>Um Marx j\u00e1 maduro rendia homenagens \u00e0queles que primeiro difundiram ideais socialistas nos anos 1830 e 1840, entre eles, Louis Blanc e \u00c9tienne Cabet, que usaram aquela frase antes. Ressoava numa organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios emigrados alem\u00e3es: alfaiates, relojoeiros e artes\u00e3os que militaram com Friedrich Engels na Liga dos Justos. Quando Marx ingressou naquela organiza\u00e7\u00e3o, concorreu para a troca do lema \u201ctodos os homens s\u00e3o irm\u00e3os\u201d para \u201cprolet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos\u201d; e do nome, passaria a ser Liga dos Comunistas.<\/p>\n<p>Os esbo\u00e7os que Marx escreveu antes da reda\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0e que ficaram conhecidos como\u00a0<em>Grundrisse<\/em>, entre os alem\u00e3es, e\u00a0<em>Borrador<\/em>, na Am\u00e9rica Latina, foram finalizados no in\u00edcio de 1858. Neles, o autor atacava com ironia as ideias de bancos cooperativos e de troca de produtos pela quantidade de horas de trabalho envolvidas em sua produ\u00e7\u00e3o sem que houvesse planos para abolir as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas. N\u00e3o se tratava de retornar a um mundo de produtores isolados que fariam um interc\u00e2mbio simples de mercadorias, sem a presen\u00e7a do dinheiro como mediador. A aboli\u00e7\u00e3o do dinheiro s\u00f3 poderia ser realmente efetivada com a aboli\u00e7\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Como Marx demonstrou, a mais valia n\u00e3o \u00e9 extra\u00edda de trabalhadores porque os empres\u00e1rios pagam a eles menos do que seria \u201cjusto\u201d. Muitas vezes pagam abaixo do valor por decorr\u00eancia das lutas entre as classes. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que importa aqui. A troca entre o capital e o trabalho est\u00e1 baseada no valor que realmente a mercadoria for\u00e7a de trabalho tem, ou seja, o conjunto dos meios de subsist\u00eancia que permite a sobreviv\u00eancia do trabalhador. A explora\u00e7\u00e3o ocorre no interior da produ\u00e7\u00e3o e nada tem a ver com o momento da troca. Al\u00e9m disso, os valores das mercadorias raramente condizem com os seus pre\u00e7os de mercado porque s\u00f3 no longo prazo e no conjunto da produ\u00e7\u00e3o os pre\u00e7os e os valores se equilibrariam.<\/p>\n<p>Ainda assim, Marx e Engels tiveram muito respeito por alguns dos socialistas ut\u00f3picos. O mais eminente deles foi o gal\u00eas Robert Owen, propriet\u00e1rio de ind\u00fastrias na Esc\u00f3cia. Owen tentou diminuir a jornada de trabalho, criou jardins de inf\u00e2ncia, uma comunidade socialista nos Estados Unidos (Nova Harmonia) e inventou o b\u00f4nus por hora de trabalho para substituir o dinheiro. Atrav\u00e9s dele, o socialismo ganhava ares de uma nova proposta de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Owen era o grande cr\u00edtico do malthusianismo. Ele mesmo constatou, em 1818, que, ao contr\u00e1rio do que Thomas Malthus pregava, n\u00e3o havia um crescimento geom\u00e9trico da popula\u00e7\u00e3o contra um crescimento aritm\u00e9tico dos alimentos. O que havia de fato era a superprodu\u00e7\u00e3o, pois a popula\u00e7\u00e3o aumentara 20% e a produ\u00e7\u00e3o 1.500%.<\/p>\n<p>Foi vivendo entre socialistas reformadores como Fourier, Cabbet e Lammenais, que Marx p\u00f4de aprimorar sua pr\u00f3pria teoria. Em alguns pontos, eles eram mais avan\u00e7ados que Marx. Fourier, por exemplo, criticava o casamento monog\u00e2mico. Proudhon nutriu uma saud\u00e1vel descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao Estado. Acrescente-se a eles o nome de Sismondi, na Su\u00ed\u00e7a, e teremos outros autores que contribu\u00edram muito para a cr\u00edtica do capitalismo. Marx at\u00e9 mesmo admitiu, mais tarde, o papel das cooperativas como uma tentativa de aboli\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas no interior do pr\u00f3prio capitalismo. Mas parou por a\u00ed. Ele n\u00e3o era um seguidor daqueles socialistas. Jamais acreditou que o comunismo fosse uma ideia a ser proposta por pessoas generosas e nem que consci\u00eancias seriam disputadas por estudantes ou professores de marxismo.<\/p>\n<p>O comunismo \u00e9 um movimento pr\u00e1tico que, em sua autoatividade, em sua pr\u00e1tica aut\u00f4noma, explica a si mesmo o seu papel na hist\u00f3ria. Os fatos precisam ser apropriados n\u00e3o pelo pensamento isolado, e sim pela a\u00e7\u00e3o. Sua teoria \u00e9 da pr\u00e1xis, uma a\u00e7\u00e3o mediada pelo conhecimento coletivo.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria teoria que Marx e Engels desenvolveram foi uma express\u00e3o do momento hist\u00f3rico em que estavam inseridos, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia<br \/>\nque determina a vida, mas esta que determina a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O materialismo hist\u00f3rico \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da qual se compreende a hist\u00f3ria e as a\u00e7\u00f5es humanas a partir da organiza\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o da vida material. Para viver \u00e9 preciso alimentar-se, vestir-se e morar, e essa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel de todo o resto que os seres humanos fazem.<\/p>\n<p>Numa carta de 1846 Marx escreveu que \u201cos seres humanos, ao produzirem as for\u00e7as produtivas, as rela\u00e7\u00f5es sociais, produzem tamb\u00e9m as ideias, as categorias, isto \u00e9, a express\u00e3o abstrata, ideal, precisamente dessas rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d. Marx n\u00e3o reduz a ideia \u00e0 mat\u00e9ria. Elas s\u00e3o opostas, mas existem dentro de uma unidade.<\/p>\n<p>Por conta disso, n\u00e3o h\u00e1 nenhum ideal \u201cmarxista\u201d a ser combatido, mas pr\u00e1ticas reais e muito concretas. O que separa Marx de todos os demais socialistas \u00e9 que o socialismo n\u00e3o seria produto do pensamento ou de uma mera mudan\u00e7a cultural, e sim da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O socialismo precisa ser o resultado historicamente necess\u00e1rio da pr\u00f3pria sociedade capitalista e, ao mesmo tempo, de uma revolu\u00e7\u00e3o social. O prolet\u00e1rio seria um \u201cparteiro\u201d da nova sociedade ou o \u201ccoveiro\u201d da burguesia. N\u00e3o h\u00e1 uma utopia deslocada no socialismo marxista, mas uma utopia concreta que parte da transforma\u00e7\u00e3o material. N\u00e3o por acaso, Engels insistia na \u00eanfase desse socialismo como cient\u00edfico.<\/p>\n<p><strong>Aqueles que se sucederam<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Orepublicano socialista franc\u00eas Louis-Auguste Blanqui viveu muito para um homem do s\u00e9culo 19 que passou 35 anos na pris\u00e3o. Foi eleito\u00a0<em>in absentia<\/em>\u00a0(pois estava preso fora da capital) como o presidente de honra da Comuna de Paris e terminou sua trajet\u00f3ria sendo o revolucion\u00e1rio modelo do s\u00e9culo 19. Lenin seria o da primeira metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Uma maioria prolet\u00e1ria iria se formar em decorr\u00eancia de leis econ\u00f4micas irrefre\u00e1veis e alguns propunham que o socialismo poderia ser resultado de reformas graduais no interior do capitalismo. Recorrendo ora a Kant, ora a Darwin ou Spencer, os socialistas da Segunda Internacional reduziam o marxismo a um imperativo \u00e9tico ou ao seu oposto complementar, uma inevitabilidade mec\u00e2nica da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Contra esse fatalismo, se opuseram Rosa Luxemburgo, Vladimir Lenin, Antonio Gramsci e muitos outros. Era uma nova gera\u00e7\u00e3o que provinha<br \/>\nde \u00e1reas economicamente marginais da Europa continental. Enquanto o l\u00edder oper\u00e1rio da Social-Democracia alem\u00e3, August Bebel, nasceu em 1840, Eduard Bernstein, contra quem Rosa Luxemburgo debateria na pol\u00eamica sobre \u201cReforma ou revolu\u00e7\u00e3o\u201d, nasceu em 1850. O herdeiro ortodoxo dos escritos de Marx e Engels, Karl Kautsky, nasceu seis anos depois. Lenin veio ao mundo em 1870, e Rosa no ano seguinte. Gramsci vinte anos depois. Josef Stalin e Leon Trotsky nasceram em 1878 e 1879, respectivamente.<\/p>\n<p>Trotsky, Lenin e Stalin eram da Social-Democracia russa, Rosa come\u00e7ara sua milit\u00e2ncia na Pol\u00f4nia e Gramsci era da Sardenha. Eles foram a primeira gera\u00e7\u00e3o de marxistas do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Depois da derrota das revolu\u00e7\u00f5es europeias na Alemanha, com o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, e a derrota na Finl\u00e2ndia, It\u00e1lia, Hungria, Let\u00f4nia e Pol\u00f4nia, a nova gera\u00e7\u00e3o de marxistas mudou sua preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Esses se voltaram para os temas culturais, a filosofia e a arte. Afastaram-se da milit\u00e2ncia em partidos e refugiaram-se em institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. Separaram-se do movimento oper\u00e1rio; e, por fim, deixaram em segundo plano abordagens que caracterizaram a gera\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 como se ali estivesse nascendo um \u201cmarxismo cultural\u201d. Esse afastamento possu\u00eda ra\u00edzes pol\u00edticas que transbordaram para a teoria<br \/>\ne n\u00e3o o reverso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que Marx e Engels n\u00e3o tivessem preocupa\u00e7\u00f5es com a arte. Trotsky escreveu\u00a0<em>Literatura e revolu\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(1923) e Lenin deixou seus\u00a0<em>Cadernos filos\u00f3ficos<\/em>\u00a0(1930). Mas o foco da gera\u00e7\u00e3o deles era a transforma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da sociedade atrav\u00e9s da conquista do poder pol\u00edtico. A maioria foi leitora do oficial prussiano Clausewitz, como Rosa Luxemburgo, que tratava, ainda que de passagem, quest\u00f5es militares enquanto seus objetos de estudo eram abordados com recurso \u00e0 economia e \u00e0 hist\u00f3ria. Gramsci tinha como preocupa\u00e7\u00e3o central a hegemonia como um fen\u00f4meno que nasce na f\u00e1brica, ou seja, nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4micas. Algo muito distante da distopia \u201cgramscista\u201d de seus cr\u00edticos.<\/p>\n<p>A nova gera\u00e7\u00e3o de marxistas ocidentais n\u00e3o surgiu de prefer\u00eancias individuais por temas est\u00e9ticos. Theodor Adorno n\u00e3o teorizaria sobre as mudan\u00e7as musicais sem falar na produ\u00e7\u00e3o em massa de r\u00e1dios.<br \/>\nA cr\u00edtica do progresso n\u00e3o teria sentido sem a ascens\u00e3o do nazismo num pa\u00eds industrial como a Alemanha. Foi a f\u00e1brica fordista e a aliena\u00e7\u00e3o do proletariado, tamb\u00e9m no lazer e na cultura de massa, que deslocaram a teoria marxista para a compreens\u00e3o de uma vida fragmentada e da sua recomposi\u00e7\u00e3o sob uma falsa unidade pelo espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>O desemprego, a terceiriza\u00e7\u00e3o e outras mudan\u00e7as no mercado de trabalho levaram os marxistas \u00e0 an\u00e1lise da degrada\u00e7\u00e3o do trabalho (Braverman), assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, as lutas anticoloniais na \u00c1frica e na \u00c1sia e a explos\u00e3o de Maio de 1968 intensificaram os estudos de historiadores marxistas sobre os protestos espont\u00e2neos das multid\u00f5es de marginalizados. Ningu\u00e9m abandonou o apelo \u00e0 classe oper\u00e1ria para favorecer manipula\u00e7\u00f5es. Foi a import\u00e2ncia material da superestrutura que produziu teorias marxistas da cultura. O marxismo jamais foi cultural, econ\u00f4mico ou pol\u00edtico. Ele simplesmente responde ao movimento real da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nas situa\u00e7\u00f5es em que o marxismo n\u00e3o podia se ocupar apenas dos temas filos\u00f3ficos, os revolucion\u00e1rios combinaram na\u00e7\u00e3o e classe, operariado e campesinato e, com isso, geraram uma abordagem nova que envolveu o estudo cient\u00edfico da guerra revolucion\u00e1ria (Mao Ts\u00e9-Tung e o general vietnamita Giap), interpreta\u00e7\u00f5es inovadoras das classes sociais (Mao Ts\u00e9-Tung e o l\u00edder guineense Am\u00edlcar Cabral), da quest\u00e3o ind\u00edgena (o peruano Mari\u00e1tegui) e colonial (Caio Prado J\u00fanior, no Brasil, e o trotskista argentino Milc\u00edades Pe\u00f1a). Obviamente que se trata de predomin\u00e2ncias aqui. Mao Ts\u00e9-Tung legou obras filos\u00f3ficas, por exemplo.<\/p>\n<p>A partir dos anos 1960, depois que o stalinismo entrou em crise, o movimento comunista internacional se dividiu entre a China e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, diversas filosofias se digladiaram na Europa Ocidental e at\u00e9 os leitores da Escola de Frankfurt ou de Georg Luk\u00e1cs se dedicaram a problemas bastante materiais.<\/p>\n<p>Guy Debord, o te\u00f3rico da sociedade do espet\u00e1culo, tinha em alta conta a obra de Clausewitz e se preocupava claramente com uma revolu\u00e7\u00e3o social que abarcasse inclusive as artes e a vida cotidiana. O fil\u00f3sofo franc\u00eas Louis Althusser era militante do Partido Comunista e se dedicou \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>O capital\u00a0<\/em>e dos \u201caparelhos ideol\u00f3gicos de Estado\u201d. Am\u00edlcar Cabral foi simultaneamente um l\u00edder guerrilheiro, estudioso do imperialismo e te\u00f3rico da liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo. Fredric Jameson, ao escrever sobre a l\u00f3gica cultural do p\u00f3s-modernismo, baseou-se em experi\u00eancias reais do mundo do trabalho intelectual na \u00e9poca do capitalismo tardio, numa expl\u00edcita refer\u00eancia a Ernest Mandel, um dirigente trotskista que escreveu seu principal livro de economia logo depois de participar do Maio de 1968. O pr\u00f3prio historiador do \u201cmarxismo ocidental\u201d, Perry Anderson, publicou nos anos 1970 o estudo marxista mais importante sobre o Estado Moderno,\u00a0<em>Linhagens do estado absolutista<\/em>\u00a0(1974).<\/p>\n<p><strong>Materialidade da cultura<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Estudar uma corrente de pensamento interessa mais se ela teve alguma efetividade mensur\u00e1vel na vida social. O n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto comunista<\/em>\u00a0na R\u00fassia antes de 1917 ou da B\u00edblia no per\u00edodo cl\u00e1ssico do imperialismo s\u00e3o \u00edndices dessa import\u00e2ncia, mas isoladamente n\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros definidores de uma transforma\u00e7\u00e3o cultural. Nesse caso, a tiragem deve estar a servi\u00e7o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por outro lado, a cultura, para os marxistas, n\u00e3o se define apenas como um conjunto de valores, prefer\u00eancias, h\u00e1bitos, sentimentos e ideias compartilhadas. H\u00e1 uma organicidade e reciprocidade da economia e da cultura que as tornam insepar\u00e1veis, exceto para fins anal\u00edticos.<\/p>\n<p>Um grupo social toma consci\u00eancia da contradi\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as materiais da produ\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o no campo das superestruturas. Mas a forma n\u00e3o \u00e9 a do conhecimento de uma imposi\u00e7\u00e3o de uma esfera aut\u00f4noma chamada economia. Ao contr\u00e1rio: \u00e9 uma exig\u00eancia de renova\u00e7\u00e3o cultural, se for realista e correspondente a um grupo social fundamental, que provoca aquela necessidade \u201cecon\u00f4mica\u201d como uma for\u00e7a consciente, organizada, institucional. Se a consci\u00eancia for apenas a cr\u00edtica de grupos que n\u00e3o representam nenhuma classe hist\u00f3rica, ela ser\u00e1 arbitr\u00e1ria.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o insepar\u00e1veis das ideias que as constituem, e essa \u00e9 a vis\u00e3o do marxismo acerca da materialidade das ideologias. N\u00e3o h\u00e1 forma sem conte\u00fado e vice-versa. Por isso, a Sociedade Civil n\u00e3o \u00e9 a sede das ideologias, como o social liberal italiano Norberto Bobbio afirmava. Estas nascem tanto na f\u00e1brica quanto nas cabe\u00e7as de fil\u00f3sofos. O que as torna algo al\u00e9m de uma extravag\u00e2ncia individual \u00e9 o seu sentido cultural, sua penetra\u00e7\u00e3o nas massas. N\u00e3o se trata, portanto, de meros valores, mas da for\u00e7a material que emerge quando esses grupos se movimentam ao redor de ideias.<\/p>\n<p>As classes sociais s\u00e3o organizadas ideologicamente, mas essa organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 material. Nos limites de uma dada estrutura social e econ\u00f4mica, os grupos sociais lutam pelo poder ou para conserv\u00e1-lo. Assim, criam a concep\u00e7\u00e3o de mundo adequada aos seus interesses.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria e a manuten\u00e7\u00e3o do poder dependem tamb\u00e9m da difus\u00e3o da ideologia. E essa difus\u00e3o, por sua vez, depende de instrumentos materiais (seja a tipografia, o r\u00e1dio ou a inform\u00e1tica). Dependem, em suma, de um suporte material no interior da superestrutura. Como analisar o processo de massifica\u00e7\u00e3o cultural de um pa\u00eds nos anos 1970 sem citar o n\u00famero de televisores, a estrutura da propriedade, o oligop\u00f3lio das emissoras? Ou como estudar o s\u00e9culo 21 sem observar o n\u00famero de\u00a0<em>smartphones<\/em>, os acessos a sites e blogs, os milh\u00f5es de usu\u00e1rios de grupos de WhatsApp<br \/>\nou o mundo subterr\u00e2neo da\u00a0<em>deep web<\/em>?<\/p>\n<p>De diferentes maneiras, os autores marxistas ofereceram os princ\u00edpios para uma an\u00e1lise da cultura como fen\u00f4meno reprodut\u00edvel em escala industrial. Isso n\u00e3o significa um abandono do materialismo hist\u00f3rico e da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, mas a necessidade de compreender a rela\u00e7\u00e3o cultural no interior da reprodu\u00e7\u00e3o material das estruturas<br \/>\nda sociedade capitalista. Ernst Mandel era leitor de romances policiais e, depois do reconhecimento que seu livro\u00a0<em>O capitalismo tardio<\/em>\u00a0(1972) teve, acabou por escrever uma verdadeira hist\u00f3ria social daquele g\u00eanero:\u00a0<em>Del\u00edcias do crime.<\/em><\/p>\n<p>A natureza bem-sucedida do romance policial sob a sociedade capitalista, para Mandel, n\u00e3o est\u00e1 no reflexo dos interesses burgueses, mas na capacidade de critic\u00e1-los sem extrapolar os limites estruturais do capital. Poder\u00edamos acrescentar que \u00e9 uma literatura que exibe problemas sem verdadeiras sa\u00eddas; em que os crimes n\u00e3o t\u00eam explica\u00e7\u00e3o nas contradi\u00e7\u00f5es sociais, mas nos indiv\u00edduos. Assim, a solu\u00e7\u00e3o dos crimes conduz quase sempre \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o com o mundo burgu\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que toda cr\u00edtica logo se transforma numa mercadoria e seus impulsos negativos se integram a uma rebeldia aceit\u00e1vel. A pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o de 1968 pode ser incorporada pela produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, quando l\u00edderes foram iconizados e pr\u00e1ticas horizontais e rebeldes foram incorporadas pela propaganda e, depois, interiorizadas nas empresas.<br \/>\nDe maneira distorcida, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Ainda assim marxistas se aventuraram na escrita de romances. Nos anos 1960, o comunista Per Wahl\u00f6o abandonou suas fracassadas tentativas de emplacar livros pol\u00edticos depois que se associou a sua companheira Maj Sj\u00f6wall. Programaram e escreveram dez romances policiais. A estreia foi\u00a0<em>Roseanna<\/em>\u00a0(1965) com a tem\u00e1tica da viol\u00eancia contra a mulher, tem\u00e1tica usada tamb\u00e9m pelo escritor sueco Stieg Larsson.<\/p>\n<p>Mas o pr\u00f3prio marxismo n\u00e3o poderia se tornar um objeto cultural mercantilizado? \u00c9 claro que pode, e isso deve ser confrontado por vias marxistas. Decerto, muitas obras feitas para chocar a burguesia s\u00f3 abalam a moral vigente na primeira vez. Na segunda, s\u00e3o expostas em galerias de arte. Toda viola\u00e7\u00e3o inofensiva da padroniza\u00e7\u00e3o da vida s\u00f3 \u00e9 realizada por um produto padronizado. Da\u00ed que o significado do ataque a uma performance parece funcionar como uma velha t\u00e9cnica diversionista, ainda que atinja a liberdade de express\u00e3o. O fato de seus executores serem inconscientes \u00e9 algo perfeitamente cab\u00edvel numa guerra, j\u00e1 que os soldados jamais conhecem o lugar de seu pelot\u00e3o na estrat\u00e9gia global.<\/p>\n<p>No entanto, tamb\u00e9m se deve perguntar: por que o marxismo ainda incomoda? Veja-se o que dizia Mandel, em torno da tormenta de 1968 em seu livro\u00a0<em>Os estudantes, os intelectuais e as lutas de classes<\/em>: \u201cPoder\u00edamos comentar o papel dos livros de bolso [\u2026] na transforma\u00e7\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria em objeto de consumo. Esta teoria adquire agora um valor de troca [\u2026]. Mas o valor de uso desta mercadoria particular \u00e9 difundir a teoria, [\u2026] incentivar a paix\u00e3o anticapitalista\u201d.<\/p>\n<p>Os chefes daqueles que combatem o suposto marxismo cultural n\u00e3o s\u00e3o desprovidos de ideologia e de projeto pol\u00edtico e econ\u00f4mico. N\u00e3o por acaso,\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0e ve\u00edculos midi\u00e1ticos propagam o mesmo discurso de alerta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Eles sabem que a disputa pela hegemonia n\u00e3o se reduz a uma noite de aut\u00f3grafos ou \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o de arte conceitual (de resto importantes por si mesmas, \u00e9 \u00f3bvio). N\u00e3o hesitam em se aliar a procuradores, ju\u00edzes, militares e milicianos para exercer coer\u00e7\u00e3o sobre rebeldes e indesejados. Disputam e ganham governos, e, quando necess\u00e1rio para produzir p\u00e2nico e garantir consentimento, perturbam artistas, acad\u00eamicos e ativistas com teorias bizarras e contraperformances duvidosas.<\/p>\n<p>Por que se teme tanto Marx? Ao descobrir o porqu\u00ea, a leitora e o leitor podem identificar os sujeitos reais que o temem. Afinal, o medo s\u00f3 poder\u00e1 ser produzido e mobilizado por aqueles que n\u00e3o querem que o marxismo seja instrumento da emancipa\u00e7\u00e3o de uma outra classe de pessoas.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que a maioria dos focos da \u201cguerra cultural\u201d da nova direita n\u00e3o \u00e9 propriamente o que Marx, Lenin ou Gramsci escreveram. Fic\u00e7\u00f5es como a de um suposto \u201cDec\u00e1logo de Lenin\u201d eram concebidas antes das\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0virarem moda. Tampouco miram as propostas reais que comunistas ou trabalhistas fazem. Essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 terceirizada para os pol\u00edticos profissionais, que frequentemente o fazem alegando a exist\u00eancia de uma conspira\u00e7\u00e3o. No entanto, a influ\u00eancia de sua propaganda antimarxista \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Quando algum incauto se aventura a redigir uma cr\u00edtica ao suposto \u201cgramscismo\u201d, os resultados s\u00e3o p\u00edfios. No entanto, a influ\u00eancia \u00e9 desproporcional.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe \u201cgramscismo\u201d em Gramsci, \u00e9 \u00f3bvio. Nem marxismo cultural elaborado por qualquer marxista, como j\u00e1 vimos aqui. Esses termos integram uma opera\u00e7\u00e3o de marketing tanto quanto as not\u00edcias falsas que permitiram a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em 2018. O marxismo cultural \u00e9 a autodescri\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios criadores. A caricatura do pensamento do outro existe porque as teorias conspirat\u00f3rias s\u00e3o basicamente fetichistas. Agarram-se a not\u00edcias falsas e a indiv\u00edduos que personificariam uma conspira\u00e7\u00e3o. Assim, uma mulher n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, e sim a encarna\u00e7\u00e3o da ideologia de g\u00eanero. Al\u00e9m dos poderosos meios de difus\u00e3o do capitalismo informacional, n\u00e3o h\u00e1 novidade nenhuma aqui para quem conhece a difus\u00e3o dos falsos \u201cProtocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o\u201d e a \u201cden\u00fancia\u201d do compl\u00f4 judaico-bolchevique.<\/p>\n<p>Muito do que \u00e9 apontado como exemplar do marxismo cultural n\u00e3o possui a m\u00ednima rela\u00e7\u00e3o com o pensamento marxista. N\u00e3o estamos, sinto dizer, numa realidade p\u00f3s-moderna, sujeitos a grupos de poder divididos de forma infinitesimal num mundo p\u00f3s-industrial. Nem a autorreferencialidade da arte, a escrita intertextual, as sopas Campbell de Andy Warhol e o pastiche substitu\u00edram a luta pelo controle do Estado. Ao menos para um marxista, qualquer que seja sua corrente.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que se tornou mais complexa a domina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma mir\u00edade de rela\u00e7\u00f5es de poder moleculares que se corporificam em institui\u00e7\u00f5es disciplinares. Mas a cr\u00edtica de uma moral universalmente aceita sequer \u00e9 t\u00edpica de nosso tempo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve muitas mudan\u00e7as, mas nenhuma ruptura com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. A financeiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o aboliu a import\u00e2ncia do valor no processo produtivo. Sim, a luta de classes n\u00e3o parece mais t\u00e3o simples. Mas quando o foi?<\/p>\n<p>Gramsci criou outra categoria ao lado do prolet\u00e1rio para dar conta de novas formas de domina\u00e7\u00e3o. Para ele, o\u00a0<em>subalterno<\/em>\u00a0tem como\u00a0<em>locus<\/em>\u00a0da subordina\u00e7\u00e3o algo exterior ao processo produtivo, diferentemente do operariado. Mas, como marxista que era, ele n\u00e3o abandonou a natureza econ\u00f4mica da subalternidade, apenas ampliou sua dimens\u00e3o cultural. As diferentes demandas dos subalternizados outrora marginalizadas pelos pr\u00f3prios marxistas t\u00eam forte rela\u00e7\u00e3o com o recorte de classe. O que alguns soci\u00f3logos caracterizaram como as pautas de novos movimentos sociais, destinadas a superar em relev\u00e2ncia a pauta de classe, se demonstram compat\u00edveis com o desenvolvimento da an\u00e1lise e pr\u00e1xis marxista.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se espantar que muitas feministas se situaram no campo do marxismo ou persistiram no seu entorno. Angela Davis manteve-se vinculada ao Partido Comunista dos Estados Unidos; a te\u00f3rica alem\u00e3 do \u201cvalor dissociado\u201d Roswitha Scholz participou da leitura iconoclasta do marxismo junto ao grupo\u00a0<em>Krisis<\/em>; e Silvia Federici construiu uma an\u00e1lise econ\u00f4mica e social sobre um tema cl\u00e1ssico de Marx: a acumula\u00e7\u00e3o primitiva, agora sob a perspectiva de suas v\u00edtimas, as bruxas e os povos escravizados.<\/p>\n<p>H\u00e1 sim quem busque outras vias para a emancipa\u00e7\u00e3o ou ataque \u00e0s \u201cgrandes narrativas opressoras\u201d, dentre as quais o marxismo seria mais uma, intrinsecamente euroc\u00eantrica, machista, racista ou algo semelhante. Mas assim como sempre houve lideran\u00e7as oper\u00e1rias que encontraram subterf\u00fagios para aderir ao capitalismo, por que pessoas submetidas a outras dimens\u00f5es da opress\u00e3o capitalista n\u00e3o teriam espa\u00e7o para tamb\u00e9m faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>H\u00e1 dimens\u00f5es inescap\u00e1veis da opress\u00e3o que n\u00e3o podem ser atingidas por quem n\u00e3o as viveu. E h\u00e1 a necess\u00e1ria etapa da apreens\u00e3o conceitual e generalizante sem a qual qualquer di\u00e1logo, qualquer organiza\u00e7\u00e3o e qualquer luta coletiva se tornam imposs\u00edveis. A maioria dos l\u00edderes bolcheviques ou socialistas revolucion\u00e1rios da R\u00fassia nunca tinha trabalhado numa fazenda ou numa f\u00e1brica, mas liderou uma revolu\u00e7\u00e3o social. Da mesma forma, jamais poderiam t\u00ea-lo feito sem integrar partidos<br \/>\nde ampla participa\u00e7\u00e3o das classes oprimidas. Naquela fase de universaliza\u00e7\u00e3o das diversas lutas contra a classe dominante, n\u00e3o se encontrou uma for\u00e7a te\u00f3rica e pol\u00edtica melhor que o marxismo.<\/p>\n<p>O marxismo p\u00f5e a nu a barb\u00e1rie de cada monumento de cultura e o \u00f3cio de classe que cada obra de arte pressup\u00f5e. Tudo o que se revela para<br \/>\nn\u00f3s segundo sua \u00f3tica n\u00e3o pode se apresentar sen\u00e3o mostrando atr\u00e1s de si as origens sociais materiais de sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cmarxismo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma teoria exterior ao mundo e que o contempla para expor os seus erros num cat\u00e1logo universal. N\u00e3o \u00e9 produto de uma cabe\u00e7a individual, mas o autoconhecimento que o movimento real elabora sobre si mesmo. O pensamento n\u00e3o espelha um mundo exterior, mas integra uma pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O marxismo se nega a si mesmo como mercadoria porque nos revela que tudo o que conhecemos, em breve estar\u00e1 transformado. Ou como o pr\u00f3prio Marx afirma em\u00a0<em>O capital<\/em>, a dial\u00e9tica \u201c\u00e9 um inc\u00f4modo para a burguesia porque n\u00e3o se deixa impressionar por nada\u201d.<\/p>\n<p>Raz\u00f5es n\u00e3o faltam para se temer tanto Karl Marx como sua turma.<\/p>\n<p>https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/11\/quem-tem-medo-de-marx-e-de-seus-amigos\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lincoln Secco &#8211; Se voc\u00ea n\u00e3o deve \u00e0 classe trabalhadora, n\u00e3o h\u00e1 o que temer. Um fantasma ronda o planeta. 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