{"id":12328,"date":"2020-01-02T15:40:04","date_gmt":"2020-01-02T18:40:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12328"},"modified":"2020-01-02T15:40:04","modified_gmt":"2020-01-02T18:40:04","slug":"crescimento-economico-e-custos-ambientais-sempre-uma-relacao-polemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2020\/01\/02\/crescimento-economico-e-custos-ambientais-sempre-uma-relacao-polemica\/","title":{"rendered":"Crescimento econ\u00f4mico e custos ambientais: Sempre uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcus Eduardo de Oliveira<\/strong> &#8211; <span lang=\"pt-PT\">O coment\u00e1rio a seguir feito pelo not\u00e1vel Jos\u00e9 Goldemberg, uma d\u00e9cada e meia atr\u00e1s, al\u00e9m de oferecer uma analogia sugestiva que facilita o entendimento de como chegamos a esse atual modelo de civiliza\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel do ponto de vista ecol\u00f3gico, ainda permite questionar a\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>ideologia do crescimento econ\u00f4mico<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0como um todo: \u201c<\/span>Economias vibrantes significam mais \u00b4progresso`, empregos, melhores sal\u00e1rios e as amenidades que o dinheiro pode comprar. Apesar de centenas de milh\u00f5es de pessoas ao redor do mundo continuarem abaixo da linha de pobreza, outras centenas de milh\u00f5es progrediram, sob muitos pontos de vista, no \u00faltimo s\u00e9culo. Este progresso tem um custo ambiental, porque \u00e0 medida que o consumo aumenta \u00e9 preciso ampliar a \u00e1rea dedicada \u00e0 agricultura, construir novas ind\u00fastrias, estradas e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 imposs\u00edvel ter isso tudo sem interferir no meio ambiente em que vivemos\u201d. (1)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Pois bem, sem tirar os olhos do que se passa na conturbada prov\u00edncia da economia \u2013 notadamente quanto ao fato de o crescimento econ\u00f4mico pautar o estilo de vida dominante nas modernas sociedades industriais \u2013 \u00e9 poss\u00edvel afirmar, sem exagerar na dose de otimismo, que tem diminu\u00eddo o n\u00famero daqueles que colocam em d\u00favida que o alcance de \u201cprogresso\u201d promove s\u00e9rios e impactantes \u201ccustos ambientais\u201d, cabendo citar, entre outros, a exaust\u00e3o crescente dos recursos naturais, a avassaladora perda de biodiversidade, o aumento da polui\u00e7\u00e3o do ar e da \u00e1gua, a degrada\u00e7\u00e3o dos solos, o aumento do desmatamento (desflorestamento) facilitando tanto a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio como a especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e o comprometimento dos ecossistemas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"pt-PT\">Situa\u00e7\u00f5es que aumentam,\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>grosso modo<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">, o peso e as complexidades que cercam o modo de viver da comunidade humana; principalmente das popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, v\u00edtimas em potencial dos \u201ccustos sociais\u201d da sociedade industrial de crescimento.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"pt-PT\">Cabe refor\u00e7ar: esse progresso orientado pelo crescimento econ\u00f4mico definido pelo aumento do PNB\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>per capita<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">, desde h\u00e1 muito tem sido colocado pelas for\u00e7as produtivas como a \u00fanica possibilidade de fazer avan\u00e7ar a vida social moderna, fortalecendo<\/span>\u00a0a ideia-corrente (pe\u00e7a-chave) de que, se a economia global se tornar cada vez maior, a sociedade contempor\u00e2nea estar\u00e1 melhor. Ao consolidar a busca de crescimento econ\u00f4mico ininterrupto como algo extremamente relevante \u2013 n\u00e3o importa o que cres\u00e7a, como cres\u00e7a e para quem cres\u00e7a, desde que cres\u00e7a de forma acelerada, assim opinam seus proponentes \u2013 a economia convencional, de imediato, coloca em curso a l\u00f3gica do mercado, ou seja, \u201ctransforma\u201d a vida social numa experi\u00eancia de duas ordens, a produtivista e a consumista;\u00a0<span lang=\"pt-PT\">como<\/span>\u00a0\u201cse a sociedade n\u00e3o fosse nada al\u00e9m de uma grande linha de produ\u00e7\u00e3o\u201d, como escreve o historiador holand\u00eas Rutger Bregman. (2).<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Obviamente tudo isso \u00e9 feito sem que se leve em conta \u2013 e a\u00ed est\u00e1 um primeiro erro crasso \u2013 um pressuposto b\u00e1sico, a exist\u00eancia de limites dada pela natureza (matriz de tudo) \u00e0 expans\u00e3o da atividade humana. Como a expans\u00e3o econ\u00f4mica, a rigor, n\u00e3o ocorre com a justa finalidade de atender exclusivamente as ilimitadas necessidades da comunidade humana (algo imposs\u00edvel, dada a finitude de recursos), mas sim para continuar \u201calimentando\u201d a l\u00f3gica capitalista \u2013 ac\u00famulo de capital e do consumo, privil\u00e9gio para que poucos acessem \u00e0 riqueza, mais lucros, e muito mais resultados econ\u00f4micos -, a partir da\u00ed se<span lang=\"pt-PT\">\u00a0constr\u00f3i com relativa habilidade a falsa promessa de que a conquista material,\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>per si<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">, cumpre o papel de facilitar a ascens\u00e3o social de cada ind\u00edviduo;\u00a0<\/span>como se a demanda da humanidade por coisas materiais n\u00e3o ultrapassasse a capacidade de reposi\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Ora, aceitar que \u00e9 poss\u00edvel crescer materialmente (de forma ilimitada) sem afetar ou comprometer a base de recursos da natureza \u00e9 ignorar a assertiva de que\u00a0<span lang=\"pt-PT\">a atividade econ\u00f4mica \u2013 observando-se o processo linear, isto \u00e9, extrai-produz-descarta-polui \u2013 \u00e9 apenas um\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>subsistema\u00a0<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">de algo maior, o meio ambiente. Insistir na cren\u00e7a de que \u00e9 plenamente poss\u00edvel um crescimento econ\u00f4mico cont\u00ednuo (ideologia dominante) \u00e9 menosprezar, em partes e no todo, a causa ecol\u00f3gica, principalmente a necessidade cada vez mais premente do equil\u00edbrio planet\u00e1rio e o consequente respeito aos limites ecol\u00f3gicos.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"pt-PT\">Desnecess\u00e1rio dizer que isso dificulta\u00a0<\/span>converter o desenvolvimento (condi\u00e7\u00e3o almejada por todos porque responde pela melhoria dos padr\u00f5es de vida social) em tr\u00eas fundamentais esferas: numa tarefa economicamente eficiente; num padr\u00e3o socialmente includente e, por fim; numa vis\u00e3o ecologicamente equilibrada.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"pt-PT\">Assim, cabe deixar em evid\u00eancia que o problema se agrava um pouco mais porque, uma vez obcecados pela busca de crescimento econ\u00f4mico (ponto medular da macroeconomia convencional), os proponentes do\u00a0<\/span>modelo econ\u00f4mico dominante n\u00e3o hesitam em tratar a Terra (e tudo o que nela cont\u00e9m) de duas maneiras bastante grotescas. Primeiro, como um gigantesco reservat\u00f3rio (esp\u00e9cie de fonte) de recursos naturais para \u201calimentar\u201d a fome voraz de\u00a0<i>mais<\/i>\u00a0crescimento; e, em segundo, como um dep\u00f3sito (esp\u00e9cie de fossa) para descarregar os res\u00edduos t\u00f3xicos do processo de industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Falando \u00e0s claras, \u00e9 dado perceber que tudo acontece como se de fato viv\u00eassemos num Reino da Fantasia, onde o meio ambiente (<i>environment<\/i>) (3) fosse um imenso \u201cbanco\u201d de recursos naturais em que se pode ir l\u00e1 e fazer frequentes e exaustivas retiradas (recursos, energia) para abastecer a industrializa\u00e7\u00e3o gananciosa do mundo atual; como se o processo econ\u00f4mico pudesse mesmo \u201cfuncionar\u201d livre, leve e solto, sem troca cont\u00ednua com o meio ambiente. Note-se que isso pressup\u00f5e ignorar (mais um erro crasso) que as atividades econ\u00f4micas est\u00e3o limitadas pela capacidade de carga dos diferentes ecossistemas da Terra. N\u00e3o considerar os<span lang=\"pt-PT\">\u00a0limitados recursos ecossist\u00eamicos como uma restri\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o econ\u00f4mica, ouso acreditar, equivale a ignorar que a desej\u00e1vel qualidade de vida (o bem viver) depende sobretudo da diminui\u00e7\u00e3o da pegada ecol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Uma vez alcan\u00e7ado esse ponto, \u00e9 bom que se esclare\u00e7a algo central: o fluxo de benef\u00edcios produzidos por um ecossistema inclui fun\u00e7\u00f5es essenciais para a sobreviv\u00eancia dos humanos e de outras esp\u00e9cies, o que implica dizer, sem delongas, e para contragosto das for\u00e7as dominantes, que o \u201cque\u201d realmente sustenta a vida na Terra s\u00e3o os ecossistemas. Sem os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, isto \u00e9, sem a disponibilidade de \u00e1gua pot\u00e1vel, a regula\u00e7\u00e3o do clima, a biodiversidade, a fertilidade do solo etc, n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de absolutamente nada; tampouco h\u00e1 alguma maneira poss\u00edvel de a vida (como a conhecemos) prosperar com alguma qualidade ou ainda de a economia existir, no que toca \u00e0 sua tarefa principal, crescer transformando recursos em produtos.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">E para que n\u00e3o mais se fira \u00e0 intelig\u00eancia com o tosco argumento corrente de que a melhoria do padr\u00e3o de vida passa indubitavelmente pelo aumento da capacidade de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, insisto num argumento bastante simples de ser entendido: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel (nem mesmo imagin\u00e1vel) conceber uma economia dissociada da natureza, visto que n\u00e3o h\u00e1 (eis outra impossibilidade) atividade econ\u00f4mica e humana sem uso de \u00e1gua, energia, mat\u00e9ria, fotoss\u00edntese ou uso de solos e pradarias, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">De tal modo, n\u00e3o deixa, assim, de ser curioso sen\u00e3o paradoxal, ouvir o argumento em voga dos\u00a0<i>economistas do crescimento<\/i>\u00a0(ap\u00f3stolos do expansionismo industrial e \u00eamulos \u00e0 ideia de\u00a0<i>prosperity without growth<\/i>) de que o principal fundamento da macroeconomia pode sim, a bel-prazer, se esparramar por a\u00ed sem, no entanto, implicar em significativos custos ambientais. Ora, \u00e9 preciso convir que isso violenta de tal maneira a realidade que chega a causar indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar que a ideia de crescimento (verdadeiro dogma da modernidade) n\u00e3o compromete da pior forma poss\u00edvel a natureza, quando se sabe que o ato de produzir, na verdade, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o, como foi dito acima. Assim como \u00e9 igualmente dif\u00edcil imaginar que o crescimento, sozinho, \u00e9 capaz de assegurar tanto a prosperidade quanto a manuten\u00e7\u00e3o do mundo vivo, quando \u201camparado\u201d sob a perspectiva do conhecido e propagado termo\u00a0<i>sustent\u00e1vel<\/i>. Vem da\u00ed uma primeira pergunta b\u00e1sica: como\u00a0<i>sustentar<\/i>\u00a0(no sentido direto de manter o equil\u00edbrio, a resist\u00eancia) um constante crescimento (verdadeiro oximoro, registre-se) da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que ocorre \u201cdentro\u201d de um sistema complexo, a Terra, que, al\u00e9m de ser dotada de recursos limitados, jamais aumentar\u00e1 de tamanho?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Dito isso, \u00e9 oportuno lembrar (desejando ressaltar) que a economia \u00e9 um sistema aberto inserido num sistema finito e materialmente fechado (a Terra) que somente se \u201cabre\u201d para a energia solar. Falando de forma simples, assim \u00e9 a Terra, um \u201ccorpo\u201d finito e n\u00e3o crescente que recebe um fluxo de energia (luz solar) e devolve calor dissipado. Portanto, quero crer que est\u00e1 muito claro que o crescimento ininterrupto de um subsistema (a economia) dentro de um \u201ccorpo finito\u201d \u00e9, pois, uma impossibilidade. E cada vez que se aproxima dos limites planet\u00e1rios, esse \u201ccrescimento\u201d se converte \u2013 vale enfatizar essa passagem \u2013 num fator gerador de desequil\u00edbrio e custo. O custo adv\u00e9m do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metab\u00f3lico, como escrevem Jos\u00e9 Eli da Veiga e Andrei Cechin. (4)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Vale o esfor\u00e7o da explica\u00e7\u00e3o: metabolismo social (ou metabolismo socioambiental) deve ser descrito como a troca energ\u00e9tica e de material entre os seres humanos e seu meio ambiente natural, aproximando-se do n\u00edvel de esgotamento do capital natural e devolvendo ao mundo vivo todas as formas de polui\u00e7\u00e3o, sem que levante preocupa\u00e7\u00f5es acerca da possibilidade de regenerar o ambiente natural. Ocorre que todo esse processo de fluxo metab\u00f3lico se inicia com a utiliza\u00e7\u00e3o e consequente escasseamento dos recursos naturais e, como \u00e9 f\u00e1cil presumir, termina com a devolu\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza de mais polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Mas n\u00e3o estranhe: tudo isso, de certa forma, ainda \u00e9 um assunto nevr\u00e1lgico que permanece quase que ignorado pela economia convencional (neocl\u00e1ssica, no uso rigoroso do termo) que insiste em observar o meio ambiente, a biosfera, apenas como \u201cpartes\u201d da macroeconomia; da\u00ed a relut\u00e2ncia em responder, por exemplo, algumas outras perguntas b\u00e1sicas, tais como: i) que ritmo de crescimento \u00e9 poss\u00edvel?; ii) q<span lang=\"pt-PT\">uanto se pode tirar de recursos da natureza e quanto se pode devolver de res\u00edduos ao ambiente natural\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>via<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0atividade econ\u00f4mico-produtiva, ou seja,\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>mais<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0produ\u00e7\u00e3o,\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>mais\u00a0<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">transforma\u00e7\u00e3o de recursos e muito\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>mais<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0energia dissipada (maior entropia)?; iii) c<\/span>omo conciliar a voracidade da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica num mundo ecol\u00f3gico limitado e como combinar a verdadeira prosperidade (desenvolvimento, e n\u00e3o crescimento) almejada por todos sem destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica provocada justamente pela pol\u00edtica de crescimento?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Detalhe importante: como reconhecidamente estamos num\u00a0<i>sistema de economia\u00a0<\/i>que se especializou em desarranjar os processos naturais essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o da vida no planeta, e dado o claro predom\u00ednio da \u201cditadura do PIB\/PNB\u201d (indicadores associados ao desempenho econ\u00f4mico e ao sucesso das na\u00e7\u00f5es) que at\u00e9 mesmo visa orientar o destino humano, cada vez fica mais dif\u00edcil em nossas rela\u00e7\u00f5es cotidianas assimilar a orienta\u00e7\u00e3o deixada pelo pensador austr\u00edaco Ivan Illich (1926-2002) de que precisamos nos desacostumar ao crescimento.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">De um tipo de crescimento, reitera-se, inclinado a aumentar o tamanho da economia, e nem tanto em melhorar essa economia; por isso a pergunta lan\u00e7ada recentemente pelo vener\u00e1vel Joseph Stiglitz merece todo o destaque poss\u00edvel: de que vale o PIB crescer, se a maior parte dos cidad\u00e3os est\u00e1 pior? (5)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Para aumentar a dose de provoca\u00e7\u00e3o conv\u00e9m levantar outra indaga\u00e7\u00e3o: de que vale estimular o aumento quantitativo (ess\u00eancia do crescimento) quando n\u00e3o raras vezes se secundariza o fator qualitativo (ess\u00eancia do desenvolvimento)? Aos fervorosos devotos da pol\u00edtica de crescimento, conv\u00e9m lembr\u00e1-los, nesse meio-tempo, que foi o pr\u00f3prio Simon Kuznets (1901-1985), criador do PIB, no come\u00e7o dos anos 1960, que taxativamente afirmou que \u00e9 (\u2026) preciso levar em conta distin\u00e7\u00f5es entre quantidade e qualidade de crescimento, entre custos e rendimentos, entre curto e longo prazo. Foi Kuznets que didaticamente assim escreveu: \u201cmetas de crescimento devem especificar o que deve crescer e para qual fim\u201d. (6)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">De certo modo, isso \u00e9 uma agress\u00e3o ao modo de pensar dos arautos do crescimento, haja vista que \u201ca ideia de uma economia que n\u00e3o cres\u00e7a \u00e9 an\u00e1tema para o economista\u201d, como escreve o brit\u00e2nico Tim Jackson; assim como, continua ele escrevendo, \u201cuma economia de crescimento cont\u00ednuo \u00e9 an\u00e1tema para o ecologista\u201d. (7)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Pol\u00eamicas \u00e0 parte, importa dizer que essa tens\u00e3o ret\u00f3rica (tornando v\u00e1lido esse termo) se deve ao fato (ao menos assim se sup\u00f5e) de o crescimento da economia ser visto como a pedra angular da ideia de progresso social, o que ajuda a consolidar o sentimento defendido pelos economistas com vis\u00e3o de mundo utilitarista \u2013 herdeiros de J. Bentham (1748-1832) \u2013 de que n\u00e3o h\u00e1 nada mais al\u00e9m da expectativa do crescimento econ\u00f4mico; como se isso fosse, note-se bem a abrang\u00eancia do assunto, a raz\u00e3o de tudo.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Dado o que j\u00e1 foi colocado aqui, \u00e0 luz de razo\u00e1vel bom senso parece mesmo que o jornalista econ\u00f4mico David Pilling tem toda a raz\u00e3o quando provocativamente afirma que \u201cs\u00f3 na economia a expans\u00e3o intermin\u00e1vel \u00e9 vista como virtude. Em biologia, isso se chama c\u00e2ncer\u201d. (8)<b><\/b><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">No entanto, o problema e a tens\u00e3o persistem. Como tudo \u00e9 mercantiliz\u00e1vel (por isso o PIB mede somente a parte da economia que \u00e9 mercantilizada), e enquanto se avan\u00e7a no erro de confiar ao mercado o cuidado da sociedade e da vida das popula\u00e7\u00f5es, um tanto mais se consolida o erro (outro) acintoso de sempre exigir crescimento infinito num planeta finito, como se realmente isso fosse poss\u00edvel e realiz\u00e1vel. Objetivamente falando, acreditar nessa possibilidade (que n\u00e3o faz sentido) \u00e9 cair na estupidez de conjecturar que a economia acontece no vazio, sem fazer uso de mat\u00e9ria e energia vindas da natureza. E mais: \u00e9 ignorar a possibilidade de que, em alguns casos, pode ocorrer aquilo que Herman Daly chama de \u201ccrescimento antiecon\u00f4mico\u201d; isto \u00e9, quando os custos costumam ser maiores que os benef\u00edcios.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Assim, para o bom entendimento, \u00e9 v\u00e1lido ter em conta que o\u00a0crescimento econ\u00f4mico vai s\u00f3 at\u00e9 certo \u201cponto\u201d (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse \u201cponto\u201d n\u00e3o h\u00e1 melhorias, mas sim perdas significativas, come\u00e7ando pela qualidade do ar que respiramos e pela devasta\u00e7\u00e3o ambiental, afetando sobretudo a qualidade de vida nas cidades.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Se h\u00e1 ent\u00e3o algum edificante conselho a ser seguido, esse certamente deve ser o de parar (dar um\u00a0<i>stop<\/i>) a atividade econ\u00f4mica no momento exato em que os custos novos se igualam aos novos benef\u00edcios; nesse caso, abusando do \u201ceconom\u00eas\u201d, se diz que o custo marginal \u00e9 igual ao benef\u00edcio marginal.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Exposto isso, a conclus\u00e3o de imediato soa assim: crescimento al\u00e9m dos limites do planeta \u00e9 sin\u00f4nimo de desequil\u00edbrio imposto ao meio ambiente.\u00a0<i>Mais<\/i>\u00a0economia (produ\u00e7\u00e3o de qualquer coisa) significa\u00a0<i>menos<\/i>\u00a0meio ambiente;\u00a0<i>mais<\/i>\u00a0crescimento implica em\u00a0<i>menos<\/i>\u00a0natureza, uma vez que, goste-se ou n\u00e3o, \u201ctodo crescimento sempre \u00e9 uma deple\u00e7\u00e3o\u201d, nos ensina Jos\u00e9 Eli da Veiga.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Ali\u00e1s, \u00e9 bom que se diga que qualquer\u00a0<i>crescimento<\/i>\u00a0que ultrapassa \u201climites\u201d (seja qual for a delimita\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o) tende a gerar problemas. Isso acontece at\u00e9 mesmo com o corpo humano (a acromegalia \u00e9 um exemplo disso, principalmente quando ocorre na inf\u00e2ncia ou na adolesc\u00eancia). Na economia n\u00e3o \u00e9 diferente; na natureza tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9. A prop\u00f3sito, escreveu Nicholas Georgescu-Rogen (1906-1994): n\u00e3o h\u00e1 nada na natureza que cres\u00e7a continuamente de forma saud\u00e1vel. (9)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Por fim, fica aqui o prof\u00edcuo recado deixado tempos atr\u00e1s por dois dos nomes mais representativos da milit\u00e2ncia ecol\u00f3gica brasileira, Antonio Lago e Jos\u00e9 Augusto P\u00e1dua. Escreveram eles: \u201cA ecologia nos mostra a dimens\u00e3o dos riscos que estamos correndo, cabe a n\u00f3s construir as oportunidades\u201d (10).<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Construir as oportunidades, ouso opinar, implica imaginar meios de reorientar os rumos do planeta, procurando construir o quanto antes uma nova economia devidamente combinada \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Talvez assim consigamos preparar as bases de uma civiliza\u00e7\u00e3o verdadeiramente humana.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">Notas:<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(1) J. GOLDEMBERG.\u00a0<i>\u201cProgresso e meio ambiente\u201d<\/i>, artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 18 de abril de 2006<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(2)\u00a0R. BREGMAN. \u201c<i>Utopia para realistas \u2013 Como construir um mundo melhor<\/i>\u201d. S\u00e3o Paulo: Sextante, 2018, (p.101)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(3) Usando a defini\u00e7\u00e3o empregada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, MEIO AMBIENTE \u00e9 o conjunto de componentes f\u00edsicos, qu\u00edmicos, biol\u00f3gicos e sociais capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e as atividades humanas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"en-US\">(4) A. CECHIN &amp; J. E. VEIGA.\u00a0<\/span>\u201c<i>O fundamento central da Economia Ecol\u00f3gica<\/i>\u201d, in PETER H. MAY (Org.), \u201cEconomia do Meio Ambiente: Teoria e Pr\u00e1tica\u201d, 2\u00b0 edi\u00e7\u00e3o, Ed.\u00a0<span lang=\"en-US\">Elsevier, 2010<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"en-US\">(5) J. STIGLITZ. \u201c<\/span><strong><span lang=\"en-US\"><i>People, Power and Profits \u2013 Progressive Capitalism for an Age of Discontent<\/i><\/span><\/strong><strong><span lang=\"en-US\">\u201d<\/span><\/strong><span lang=\"en-US\">. Nova York: W. W. Norton &amp; Company, 2019<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><span lang=\"en-US\">(6)\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\">S. KUZNETS. \u201c<\/span><span lang=\"en-US\"><i>How to Judge Quality<\/i><\/span><span lang=\"en-US\">\u201d, The New Republic, (October 1962)<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(7) T. JACKSON.\u00a0<i>\u201cProsperity without growth: economics for a finite planet\u201d<\/i>. London: Earthscan, 2009, (p.4)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(8)\u00a0D. PILLING. \u201c<i>A ilus\u00e3o do crescimento<\/i>\u201d, S\u00e3o Paulo: Alta Books Editora, 2019, (p.14)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(9) N. GEORGESCU-ROGEN.\u00a0<i>\u201cThe entropy law and the economic process\u201d<\/i>. Cambridge: Harvard Univesity Press, 1971<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\">(10) A. LAGO &amp; J. A. P\u00c1DUA.\u00a0<i>\u201cO que \u00e9 ecologia\u201d<\/i>. Cole\u00e7\u00e3o Primeiros Passos, ed. Brasiliense, 18\u00b0 reimpress\u00e3o, 2017, (p. 43)<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"left\"><em>Marcus Eduardo de Oliveira \u00e9 economista e ativista ambiental. Mestre em Integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Autor de \u201cEconomia Destrutiva\u201d (ed. CRV) e \u201cCiviliza\u00e7\u00e3o em desajuste com os limites planet\u00e1rios\u201d (ed. CRV), entre outros.<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2020\/01\/02\/crescimento-economico-e-custos-ambientais-sempre-uma-relacao-polemica-artigo-de-marcus-eduardo-de-oliveira\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Eduardo de Oliveira &#8211; O coment\u00e1rio a seguir feito pelo not\u00e1vel Jos\u00e9 Goldemberg, uma d\u00e9cada e meia atr\u00e1s, al\u00e9m de oferecer uma analogia sugestiva que facilita o entendimento de como chegamos a esse atual modelo de civiliza\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel do ponto de vista ecol\u00f3gico, ainda permite questionar a\u00a0ideologia do crescimento econ\u00f4mico\u00a0como um todo: \u201cEconomias vibrantes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7181,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[10],"tags":[37,73],"class_list":["post-12328","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","tag-desmatamento","tag-poluicao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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