{"id":12302,"date":"2019-12-31T10:52:48","date_gmt":"2019-12-31T13:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12302"},"modified":"2019-12-29T17:55:57","modified_gmt":"2019-12-29T20:55:57","slug":"sobre-iphone11-tecnologia-e-fim-do-trabalho-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/12\/31\/sobre-iphone11-tecnologia-e-fim-do-trabalho-2\/","title":{"rendered":"Sobre iPhone11, tecnologia e \u201cfim do trabalho\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vijay Prashad<\/strong> &#8211; Relat\u00f3rio da OIT joga novas luzes sobre a automa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o trabalho que declina, mas extra\u00e7\u00e3o de mais valia e desigualdade que disparam. Subcontratados da Apple s\u00e3o 25 vezes mais explorados que tecel\u00f5es ingleses do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ilo.org\/global\/research\/global-reports\/weso\/2019\/WCMS_670542\/lang--en\/index.htm?\">relat\u00f3rio<\/a>\u00a0recente da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) mostra: h\u00e1 agora 3,5 bilh\u00f5es de trabalhadores no mundo. Nunca o n\u00famero foi t\u00e3o vasto. A conversa sobre \u201co fim dos trabalhadores\u201d \u00e9 prematura, quando confrontada com o peso desses dados.<\/p>\n<p>A OIT reporta que a maior parte desses 3,5 bilh\u00f5es de trabalhadores \u201cenfrentam aus\u00eancia de bem-estar material, seguran\u00e7a econ\u00f4mica, igualdade de oportunidades ou possibilidade de desenvolvimento humano. Estar empregado nem sempre garante uma vida decente. Muitos trabalhadores precisam aceitar trabalhos pouco atraentes, normalmente informais (\u00e9 o chamado trabalho flex\u00edvel) e caracterizados por baixa remunera\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da acesso escasso ou inexistente a prote\u00e7\u00e3o social e direitos trabalhistas\u201d. Embora metade da for\u00e7a de trabalho mundial seja composta por empregados assalariados, dois milh\u00f5es de trabalhadores (61% do total) est\u00e3o no setor informal.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da OIT mostra que o n\u00famero de trabalhadores pobres diminuiu, em grande parte gra\u00e7as ao abrangente impacto da China. H\u00e1 controv\u00e9rsias nos dados relacionados \u00e0 pobreza, j\u00e1 que se desconfia da honestidade das estat\u00edsticas apresentadas por muitos governos. Ainda assim, os dados comprovam que mesmo com os rendimentos dos pobres aumentando, estes ainda n\u00e3o cresceram o suficiente para tir\u00e1-los de fato da pobreza. Jason Hickel e Huzaifa Zoomkawala\u00a0<a href=\"http:\/\/www.huzaifazoom.com\/hickel\/wid\/\">exp\u00f5em<\/a>\u00a0como houve poucos ganhos para a parte mais pobre da humanidade nas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cNo interior do 60% mais pobre da humanidade, o cidad\u00e3o comum viu sua renda\u00a0<em>anual<\/em>\u00a0crescer somente 1.200 d\u00f3lares\u2026 ao longo de 36 anos\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.jasonhickel.org\/blog\/2019\/3\/1\/global-inequality-from-1980-to-2016?\">escreve<\/a> Hickel. Est\u00e1 longe de ser digno de celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo com os dados evidenciando que os trabalhadores dentro da for\u00e7a de trabalho global n\u00e3o conseguem encontrar \u201ctrabalho decente\u201d, as taxas de produtividade est\u00e3o muito mais altas do que antes. Como o relat\u00f3rio da OIT indica, \u201cespera-se que o crescimento da produtividade entre 2019 e 2021 alcance o seu pico mais elevado desde 2010, superando a m\u00e9dia hist\u00f3rica de 2,1% para o per\u00edodo de 1992-2018\u201d. A OIT refere-se \u00e0 m\u00e9dia mundial, visto que em muitos pa\u00edses \u2014 incluindo os EUA \u2014 o aumento da produtividade tem se mantido estagnado: ou seja, \u00e9 o crescimento da produtividade em pa\u00edses como a China que puxa para cima a m\u00e9dia global. Por\u00e9m, os benef\u00edcios do aumento da produtividade n\u00e3o s\u00e3o satisfatoriamente distribu\u00eddos entre os trabalhadores, em termos de aumento salarial proporcional \u00e0s suas contribui\u00e7\u00f5es. Os benef\u00edcios sobem diretamente para os donos do capital, o que aumenta a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza. O trabalho est\u00e1 produzindo um excedente maci\u00e7o, que poderia muito bem ser usado para melhorar o bem-estar geral da humanidade. Em vez disso, vai parar nos bolsos dos capitalistas.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo ano, o\u00a0<em>Instituto de Pesquisa Social Tricontinental\u00a0<\/em>tentou encontrar formas de explicar alguns conceitos-chave equivocados.<\/p>\n<p><strong>1. O de que a for\u00e7a de trabalho mundial diminuiu<\/strong>. As falas sobre automa\u00e7\u00e3o e precariedade levaram \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de que haveria um decl\u00ednio do trabalho, em plano mundial. N\u00e3o \u00e9 o caso. Hoje h\u00e1 mais pessoas trabalhando do que nunca, muitas delas em f\u00e1bricas \u2014 apesar dos \u201cdesertos fabris\u201d e do processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o no Ocidente<\/p>\n<p><strong>2.\u00a0<\/strong><strong>O de que a pobreza diminuiu<\/strong>. Se houvesse menos gente trabalhando, haveria menos gente ganhando dinheiro \u2014 logo, haveria maiores taxas de pobreza. O fato \u00e9: h\u00e1 mais pessoas trabalhando, por\u00e9m, a pobreza continua sendo um problema s\u00e9rio. As pessoas empregadas aumentaram sua produtividade m\u00e9dia e produzem muito mais hoje do que antigamente. O que as mant\u00e9m na pobreza, apesar de sua produtividade aumentada \u2014 que vem, em parte, das melhorias tecnol\u00f3gicas \u2014 \u00e9 que n\u00e3o conseguem usufruir uma parcela maior dos ganhos de produtividade e da mais-valia total produzida. Mas o que tamb\u00e9m mant\u00e9m a taxa de pobreza constante \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar e de uma s\u00e9rie de provis\u00f5es, desde subs\u00eddios para habita\u00e7\u00e3o at\u00e9 cestas de alimentos, que tem sido tirados de bilh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>H\u00e1, de fato, mais pessoas empregadas, mas elas n\u00e3o s\u00e3o capazes de ganhar a quantia suficiente, do total da mais-valia que produzem, para superar a linha da pobreza.<\/p>\n<p>O legado da an\u00e1lise marxista nos fornece um conceito simples: taxa de explora\u00e7\u00e3o. Marx, em\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0(1867), trata da explora\u00e7\u00e3o em duas formas. No plano moral, ele brada contra a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, particularmente das crian\u00e7as. As terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho desses trabalhadores, enfureceram Marx, assim como qualquer pessoa sens\u00edvel. Al\u00e9m disso, no marco de sua ci\u00eancia, Marx estudou a forma como os donos do capital contratam trabalhadores comprando sua for\u00e7a de trabalho. S\u00e3o estes trabalhadores que produzem a mais-valia, cujos ganhos s\u00e3o expropriados pelos donos do capital gra\u00e7as a seus direitos de propriedade. Explora\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 a extra\u00e7\u00e3o dessa mais-valia pelos donos do capital aos trabalhadores que a produzem. Marx escreveu que a taxa de explora\u00e7\u00e3o pode ser calculada de forma clara, se usarmos seu aparato conceitual.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>A Apple acabou de lan\u00e7ar o iPhone 11. Poucas caracter\u00edsticas o diferenciam do iPhone X, embora a vers\u00e3o mais cara do novo telefone celular tenha tr\u00eas c\u00e2meras. \u00c9 importante destacar que a Apple n\u00e3o fabrica esses aparelhos. Eles s\u00e3o manufaturados em larga escala pela companhia taiwanesa Foxconn, que emprega mais de 1,3 milh\u00e3o de trabalhadores apenas na China. O iPhone \u00e9 obscenamente caro [R$ 8.999 no Brasil], e a maior parte dos recursos de sua venda v\u00e3o parar na Apple, n\u00e3o vai para os trabalhadores nem para a Foxconn. Como a Apple possui a propriedade intelectual sobre o telefone, ela delega a produ\u00e7\u00e3o a companhias como a Foxconn, que fabrica os telefones para o mercado. A Apple devora o grosso dos lucros gra\u00e7as a este processo.<\/p>\n<p>Cinco anos atr\u00e1s, E. Ahmet Tonak realizou um\u00a0<a href=\"http:\/\/siyasihaber4.org\/iphone-6daki-somuru-orani-e-ahmet-tonak?\">estudo<\/a>\u00a0do iPhone 6, analisando-o desde o ponto de vista da an\u00e1lise marxista da taxa de explora\u00e7\u00e3o. Como integrante do\u00a0<em>Instituto de Pesquisa Social Tricontinental<\/em>, Ahmet atualizou suas an\u00e1lises para acompanhar o iPhone X. Aproveitamos a ocasi\u00e3o para produzir o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thetricontinental.org\/the-rate-of-exploitation-the-case-of-the-iphone\/\">Caderno n\u00ba 2<\/a>, que explica alguns dos conceitos centrais da teoria marxista e em seguida utiliza a an\u00e1lise da taxa de explora\u00e7\u00e3o para olhar mais de perto para o iPhone. A taxa de explora\u00e7\u00e3o nos permite demonstrar o quanto o trabalhador agrega valor no processo de produ\u00e7\u00e3o. Ela demonstra que, mesmo se o trabalhador recebesse mais, s\u00f3 pela m\u00e1gica da mecaniza\u00e7\u00e3o e da administra\u00e7\u00e3o eficiente do processo de produ\u00e7\u00e3o a taxa de explora\u00e7\u00e3o aumentaria. Sob o sistema capitalista, \u00e9 imposs\u00edvel haver liberdade para o trabalhador.<\/p>\n<p>A descoberta mais assombrosa da an\u00e1lise \u00e9 que os trabalhadores de nosso tempo, que fabricam iPhones, s\u00e3o 25 vezes mais explorados do que os trabalhadores de f\u00e1bricas t\u00eaxteis dos s\u00e9culo 19, na Inglaterra. A taxa de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do iPhone \u00e9 de 2.458%. Esse n\u00famero nos faz lembrar de que apenas uma parte infinitesimal da jornada de trabalho vai compor o valor do sal\u00e1rio que o trabalhador recebe; na quase totalidade desta jornada, os oper\u00e1rios produzindo para ampliar a riqueza do capitalista. Quanto maior a taxa de explora\u00e7\u00e3o, mais cresce a riqueza do dono do capital, gra\u00e7as ao trabalho assalariado.<\/p>\n<p>O caderno n\u00ba 2 foi criado com enorme cuidado por nossa Tings Chak e Ingrid Neves. N\u00f3s o produzimos com a esperan\u00e7a de que seja amplamente utilizado em diferentes formas de educa\u00e7\u00e3o \u2014 seja em escolas de pol\u00edtica, com fins acad\u00eamicos ou para o estudo independente. O texto foi escrito numa linguagem clara e precisa, o seu desenho foi formulado para melhorar o aprendizado.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>Esta semana, a ONU organizou cinco reuni\u00f5es de c\u00fapula sobre a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica. Antonio Guterres, secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas,\u00a0<a href=\"https:\/\/news.un.org\/en\/story\/2019\/09\/1046712\">diz<\/a>\u00a0que duas palavras resumem estes cinco encontros: ambi\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o. Os protestos mundiais para defender o planeta ocorreram na \u00faltima sexta-feira (20), e h\u00e1 ainda mais atos marcados na sequ\u00eancia. Entretanto, as conversas nos encontros da ONU permanecem estagnadas pela recusa dos EUA e de outros pa\u00edses ocidentais em reconhecer sua grande responsabilidade na cat\u00e1strofe, ao terem ultrapassado os limites de suas cotas de emiss\u00e3o de carbono. A esperan\u00e7a de que esses pa\u00edses contribu\u00edssem para o Fundo Global para o Clima desmoronou. A quantia m\u00ednima necess\u00e1ria \u00e9 da ordem de trilh\u00f5es de d\u00f3lares, e n\u00e3o os poucos bilh\u00f5es que foram prometidos. Pouco se fala em mitigar, em transferir tecnologia, em desigualdade de emiss\u00f5es ou tantas outras solu\u00e7\u00f5es substanciais que atacariam a raiz da crise atual.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, a Oxfam lan\u00e7ou um importante\u00a0<a href=\"https:\/\/www-cdn.oxfam.org\/s3fs-public\/file_attachments\/mb-extreme-carbon-inequality-021215-en.pdf\">estudo<\/a>\u00a0que mostrava como a metade mais pobre do planeta era respons\u00e1vel por apenas 10% das emiss\u00f5es globais, enquanto os 10% mais rico respondiam por 50% das emiss\u00f5es de carbono. No entanto, como observa a Oxfam, s\u00e3o as pessoas dos pa\u00edses mais pobres as mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, muitas vezes erroneamente culpadas por caus\u00e1-las. A discuss\u00e3o sobre desenvolvimento n\u00e3o tem ocorrido em paralelo \u00e0 discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Qual o sentido de dizer, para as bilh\u00f5es de pessoas que produzem mais-valia, mas vivem em pobreza, que devem reduzir seu consumo? Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www-cdn.oxfam.org\/s3fs-public\/file_attachments\/mb-extreme-carbon-inequality-021215-en.pdf\">estudo<\/a>\u00a0recente da ONU diz que pelo menos 820 milh\u00f5es de pessoas vivem com fome, e pelo menos outras 2 bilh\u00f5es de pessoas sofrem de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o podemos abordar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sem falar em abolir o sistema que vive da fome e da pobreza da maior parte das pessoas do mundo, e sem reconhecer as sementes para um futuro melhor que est\u00e3o sendo plantadas hoje. A corrente de pensamento cr\u00edtico latino-americano nos lembra da import\u00e2ncia disso. Num relat\u00f3rio feito recentemente, pelos nossos escrit\u00f3rios em Buenos Aires e S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Seoane escreve: \u201cn\u00e3o se trata apenas de imaginar esses futuros de forma te\u00f3rica, baseando-nos em nosso passado; a quest\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m refletir e difundir os projetos populares que est\u00e3o se desenvolvendo atualmente e antecipar o futuro que estamos buscando\u201d. Qual o ponto de salvar o planeta enquanto bilh\u00f5es de trabalhadores morrem de fome?<\/p>\n<p>O sofrimento n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria. N\u00e3o existe mercado prim\u00e1rio ou secund\u00e1rio para ele. \u00c9 terra e pedras no est\u00f4mago de um ser humano faminto. Um ser humano trabalhador da cadeia de produ\u00e7\u00e3o de um iPhone.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"L1OwEofeub\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/sobre-o-iphone11-a-automacao-e-o-fim-do-trabalho\/\">Sobre iPhone11, tecnologia e &#8220;fim do trabalho&#8221;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Sobre iPhone11, tecnologia e &#8220;fim do trabalho&#8221;&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/sobre-o-iphone11-a-automacao-e-o-fim-do-trabalho\/embed\/#?secret=3ha86NQZov#?secret=L1OwEofeub\" data-secret=\"L1OwEofeub\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vijay Prashad &#8211; Relat\u00f3rio da OIT joga novas luzes sobre a automa\u00e7\u00e3o. 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