{"id":12250,"date":"2019-12-24T09:34:03","date_gmt":"2019-12-24T12:34:03","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12250"},"modified":"2019-12-23T09:48:31","modified_gmt":"2019-12-23T12:48:31","slug":"a-noite-das-facas-falsas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/12\/24\/a-noite-das-facas-falsas\/","title":{"rendered":"A noite das facas falsas"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-content clearfix\">\n<p><strong>Lincoln Secco &#8211; <\/strong>Circunst\u00e2ncias de vida, ressentimento, fracasso profissional, c\u00edrculos de amizade, profiss\u00e3o e outras esferas da exist\u00eancia predisp\u00f5em uma pessoa a aderir ou n\u00e3o. Todavia, n\u00e3o resta d\u00favida: um militante fascista n\u00e3o pretende mais agir como ser humano.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 outro meio de acabar com o communismo sen\u00e3o acabando de vez com a democracia liberal, terreno prop\u00edcio ao desenvolvimento de todos os micr\u00f3bios virulentos\u201d (Miguel Reale, agosto de 1935)<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn1\">[1]<\/a>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre 11 e 12 de outubro de 2019 a cidade de S\u00e3o Paulo sediou a Confer\u00eancia da A\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Conservadora<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn2\">[2]<\/a>. Tenho ao meu lado o jornal\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>\u00a0impresso. A data \u00e9 14 de outubro de 2019. Numa das fotografias da mat\u00e9ria est\u00e1 o deputado federal Eduardo Bolsonaro abra\u00e7ado a um mastro com uma bandeira do Brasil. Ele sorri, meio curvado, aparentemente simulando uma\u00a0<em>pole dance<\/em>.<\/p>\n<p>Deixemos de lado toda a associa\u00e7\u00e3o do fascismo com a quest\u00e3o sexual segundo Reich; com as marchas militares em seu movimento er\u00f3tico como pensava uma personagem de Sartre no romance\u00a0<em>Com a morte na alma\u00a0<\/em>(Nova Fronteira) ao ver os conquistadores alem\u00e3es em Paris; e mais especificamente a liga\u00e7\u00e3o com o sadomasoquismo lembrada por Susan Sontag.<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p><strong>As fontes<\/strong><\/p>\n<p>A mat\u00e9ria \u00e9 aterrorizante. O deputado \u00e9 apresentado como sucessor do seu pai. Mil pessoas gritam-lhe: \u201cMitinho\u201d. Em dois dias de reuni\u00e3o o deputado fez um show, afinal \u201cfascismo \u00e9 teatro\u201d disse Genet. Num \u00e1timo o deputado atacou mulheres de \u201csovaco cabeludo\u201d e, em seguida, ningu\u00e9m sabe o porqu\u00ea, revelou que seu apelido de inf\u00e2ncia era Buba, em alus\u00e3o a uma personagem hermafrodita de uma telenovela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dele, ministros bolsonaristas fizeram suas exposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A confer\u00eancia, bancada com recursos do fundo p\u00fablico partid\u00e1rio, restringiu-se mais \u00e0 a\u00e7\u00e3o (como consta no nome) do que \u00e0 reflex\u00e3o. Entre os palestrantes houve den\u00fancias contra o \u201cclimatismo\u201d, embora as mat\u00e9rias n\u00e3o tivessem feito refer\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a de Lorenzo Carrasco, autor mexicano de\u00a0<em>M\u00e1fia verde<\/em>, livro de cabeceira de fazendeiros. Feito em nome da classe m\u00e9dia, conforme \u201caula de Hist\u00f3ria\u201d do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, o encontro serviu para denunciar a esquerda totalit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Entre muitas reportagens, a de Rafael Carriello para a revista\u00a0<em>Piau\u00ed<\/em>\u00a0(13out2019) \u00e9 igualmente assustadora, tal o n\u00famero de detalhes que parecem sair diretamente do esgoto da subcultura fascista brasileira. No entanto, depois de abrir a tampa da fossa, o jornalista se apressa em dizer que \u201cnem de longe a intoler\u00e2ncia pol\u00edtica no Brasil foi inventada pelos bolsonaristas\u201d. As \u201cprovas\u201d seriam um v\u00eddeo de Marilena Chau\u00ed em que afirma que a classe m\u00e9dia \u00e9 uma \u201caberra\u00e7\u00e3o\u201d e a campanha de Dilma Roussef contra Marina Silva em 2014.<\/p>\n<p>Ou seja, o jornalista, sem o saber, talvez sem o querer, corroborou a afirma\u00e7\u00e3o do encontro conservador: a esquerda (sim, aquela representada pelo PT que jamais sonhou com qualquer Revolu\u00e7\u00e3o) seria de fato \u201ctotalit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p><strong>Confer\u00eancias e noites<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto a confer\u00eancia transcorria, a noite das facadas (falsas) acontecia. No interior do partido\u00a0<em>fascio lumpem<\/em>\u00a0evang\u00e9lico que apoiava o presidente a luta era pelo controle da sigla e do seu fundo financeiro. As frases dos expoentes n\u00e3o mereceriam registro hist\u00f3rico se o acaso ou a conjuntura n\u00e3o os tivessem al\u00e7ado ao poder. Para o Delegado Valdir \u201cEu sou o cara mais fiel a esse vagabundo\u201d. Para Felipe Francischini: \u201cele come\u00e7ou a fazer a putaria\u201d. J\u00e1 o filho Carlos Bolsonaro, o chefe da SS digital do mito, postou as imagens de um porco, um rato, uma cobra, uma galinha e uma lula para atacar a ex-aliada Joyce Hasselmann que respondeu com tr\u00eas veados e tr\u00eas ratos.<\/p>\n<p>Para apimentar a noite das facas falsas, o mito disse que o presidente de seu partido, Luciano Bivar estava \u201cqueimado\u201d. Por incr\u00edvel coincid\u00eancia o deputado foi alvo de uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal que investigava o lan\u00e7amento de candidaturas laranjas pelo partido no estado de Pernambuco. A mando do Ministro que faz as vezes do diretor do Gabinete Central de Seguran\u00e7a do Reich,\u00a0<em>SS-Obergruppenf\u00fchrer<\/em>\u00a0Reinhard Heydrich.<\/p>\n<p>A Noite das Facas Longas foi um expurgo efetuado na noite de 30 de junho de 1934, quando a fac\u00e7\u00e3o de Adolf Hitler do Partido Nazista eliminou seus advers\u00e1rios como Gregor Strasser e o capit\u00e3o Ernst R\u00f6hm, l\u00edder da SA (<em>Sturmabteilung<\/em>). Depois disso as tropas de assalto nazistas ficaram em segundo plano perante a SS (<em>Schutzstaffel<\/em>).<\/p>\n<p>A Noite dos Cristais foi o ataque aos judeus (pogrom) de 9\/10 de novembro de 1938, promovido pelo governo nazista. J\u00e1 a Confer\u00eancia de Wannsee aconteceu em Berlim, a 20 de janeiro de 1942 para decretar a solu\u00e7\u00e3o final da \u201cquest\u00e3o judaica\u201d.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas noites tem paralelo com o que se passou no Brasil. Uma facada pode ser\u00a0<em>fake\u00a0<\/em>e aqui a \u201cra\u00e7a\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cbiol\u00f3gica\u201d, mas partid\u00e1ria: o PT, sin\u00e9doque de um vasto campo pol\u00edtico e cultural do qual essa sigla faria parte.<\/p>\n<p><strong>Como explicar o inexplic\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1930 August Thalheimer escreveu um artigo em que reconhecia a aus\u00eancia de uma teoriza\u00e7\u00e3o \u201cdefinitiva\u201d do fen\u00f4meno fascista. Naturalmente, Marx e Engels n\u00e3o assistiram a nada parecido. Contudo, a an\u00e1lise que Marx faz em\u00a0<em>O 18 Brum\u00e1rio<\/em>\u00a0poderia servir como ponto de partida. O bonapartismo \u00e9 diferente do fascismo, por\u00e9m expressa o mesmo processo pelo qual a burguesia abandona sua sobreviv\u00eancia pol\u00edtica nas m\u00e3os de um ditador para salvar sua exist\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Sua base de massas \u00e9 fornecida principalmente por uma classe (m\u00e9dia) sem um papel decisivo na produ\u00e7\u00e3o. Essa classe se v\u00ea como a mediadora das classes fundamentais, diz Thalheimer. E exatamente por isso adota o nacionalismo e se considera a representante \u00fanica do interesse nacional e de valores desinteressados contra o mau oper\u00e1rio (\u201cpetista\u201d, em nosso caso), o mau capitalista (os bilion\u00e1rios, os financistas, os que recebem cr\u00e9dito estatal) e poder\u00edamos acrescentar hoje m\u00e1s mulheres, maus ambientalistas etc. H\u00e1 decerto as boas mulheres do lar, os bons capitalistas produtivos e os trabalhadores sem direitos que n\u00e3o reclamam.<\/p>\n<p>Thalheimer diz que \u201co pequeno burgu\u00eas fascista quer um governo forte. Governo forte significa amplia\u00e7\u00e3o do funcionalismo. Mas ele exige ao mesmo tempo uma economia dos gastos p\u00fablicos, isto \u00e9, uma limita\u00e7\u00e3o do funcionalismo (\u2026). \u00c9 preciso acabar com o abuso do dia de oito horas e com o disparate dos direitos do oper\u00e1rio na f\u00e1brica. Ordem na f\u00e1brica! Que se termine com o presente do Estado aos trabalhadores \u00e0 custa do pequeno burgu\u00eas, como o p\u00e3o e os alugu\u00e9is baratos etc\u201d<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Thalheimer parte da defini\u00e7\u00e3o do IV Congresso da Internacional Comunista: a diferen\u00e7a espec\u00edfica do fascismo est\u00e1 no fato de que os fascistas \u201ctratam, mediante uma demagogia social, de criar uma base entre as massas, na classe camponesa e na pequena burguesia e at\u00e9 em certos setores do proletariado, utilizando habilmente para seus objetivos contrarrevolucion\u00e1rios decep\u00e7\u00f5es provocadas pela chamada democracia\u201d.<\/p>\n<p>Ele percebeu aquilo que Gramsci j\u00e1 havia enunciado num artigo chamado \u201cA Crise Italiana\u201d<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn5\">[5]<\/a>: n\u00e3o existe uma ess\u00eancia do fascismo no pr\u00f3prio fascismo. Se procurarmos definir uma n\u00e3o alcan\u00e7aremos uma compreens\u00e3o racional.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma doutrina fascista coerente. Os fascistas agem no senso comum sem jamais al\u00e7ar a esfera da Filosofia. Por isso n\u00e3o pode haver um debate com um fascista na mesma medida em que pode existir um entre socialistas e liberais. Grandes pensadores podiam aderir ao nazismo, mas n\u00e3o concorreram para transform\u00e1-lo em uma filosofia; ao contr\u00e1rio, s\u00f3 conseguiram se revelar pessoas degeneradas e imbecis durante a vig\u00eancia do regime fascista.<\/p>\n<p>Carl Schmitt era um intelectual importante. Criticava os liberais por verem concorrentes no com\u00e9rcio e meros opositores numa discuss\u00e3o, em vez de\u00a0<em>inimigos<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn6\"><strong>[6]<\/strong><\/a>.\u00a0<\/em>Mas n\u00e3o \u00e9 essa vis\u00e3o te\u00f3rica que explica sua ades\u00e3o ao nazismo. Nem todo anti-liberal compactuou com aquilo. Schmitt o fez porque antes de intelectual era um ser humano como qualquer outro e na raiz de sua decis\u00e3o havia sentimentos mesquinhos e desejos inconfess\u00e1veis, evidentemente adornados por um nacionalismo e pelo inconformismo com o fracasso da Alemanha, com a incompet\u00eancia dos pol\u00edticos de Weimar e o que mais se quiser encontrar.<\/p>\n<p>Quando Martin Heidegger foi convidado pelos estudantes nazistas de Heildeberg a proferir um discurso, os catedr\u00e1ticos conservadores compareceram paramentados em seus trajes oficiais enquanto, para espanto geral, o grande fil\u00f3sofo da Alemanha surgiu com cal\u00e7\u00f5es curtos e colarinho de Schiller, o uniforme da juventude nacional socialista<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Parecia t\u00e3o inexplic\u00e1vel que um de seus bi\u00f3grafos gastou muitas p\u00e1ginas tentando mostrar como em sua filosofia havia elementos para que Heidegger visse na vit\u00f3ria de Hitler em 1933 o momento em que os alem\u00e3es sa\u00edram da caverna plat\u00f4nica. Seria o convite primordial do\u00a0<em>Dasein\u00a0<\/em>e o sinal da revolu\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica inacabada, entre outras tolices.<\/p>\n<p>Benedetto Croce simplesmente resumiu o discurso de Heidegger como \u201ctolo e servil\u201d<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn8\">[8]<\/a>. O fato \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nada em filosofia alguma que possa ser fascista e ao mesmo tempo tudo, retirado de qualquer lugar, pode servir ao fascismo, ao sabor das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p><strong>Como<\/strong><strong>\u00a0\u00e9 o fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>Evidentemente que algumas caracter\u00edsticas estar\u00e3o sempre l\u00e1. Mas estar\u00e3o tamb\u00e9m em muitos outros regimes ou movimentos de direita n\u00e3o fascistas. O fascismo \u00e9 corporativista, mas o corporativismo esteve em ideologias n\u00e3o fascistas. Ele \u00e9 essencialmente mobilizador, como Karl Radek e os primeiros te\u00f3ricos do\u00a0<em>Komintern<\/em>\u00a0o notaram, mas uma vez no poder muitos fascismos procuravam controlar os excessos de mobiliza\u00e7\u00e3o. Foi isso que levou \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es do movimento altamente radicalizadas na Alemanha, Portugal e Rom\u00eania. Ele foi antissemita<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn9\">[9]<\/a>, mas n\u00e3o em todos os pa\u00edses; ele era machista, mas vicejou sempre em sociedades que j\u00e1 o eram.<\/p>\n<p>O fascismo era totalit\u00e1rio? Sem d\u00favida. O pr\u00f3prio Mussolini reivindicava isso. Mas entre a pretens\u00e3o totalit\u00e1ria e a realiza\u00e7\u00e3o havia sobreviv\u00eancias do passado que o obrigaram a conviver com a Monarquia, a Igreja e as For\u00e7as Armadas do Estado; era nacionalista? Sim, mas na maioria dos pa\u00edses fascistas, que eram perif\u00e9ricos ou semiperif\u00e9ricos, aquilo era uma ret\u00f3rica e n\u00e3o significou jamais uma defesa real da soberania nacional; cultivava a viol\u00eancia? Sim, mas herdou de Sorel e de algumas correntes anarquistas esse mesmo culto; defendia uma Economia dirigida? O socialismo tamb\u00e9m. E, em verdade, nos anos 1930 praticamente todos os pa\u00edses porque era a resposta poss\u00edvel \u00e0 crise de 1929<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Mussolini usava mil\u00edcias paralelamente ao Estado? Sim. Mas isso foi mais saliente no per\u00edodo anterior \u00e0 tomada do poder do que depois. E voltou a ser importante nas crises do regime. O fascismo destru\u00eda as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas? Sim, mas tamb\u00e9m convivia com elas como na It\u00e1lia nos anos 1920. Era anti liberal? Sim, mas os liberais aceitaram sua ascens\u00e3o no interior do pr\u00f3prio Estado, como aconteceu com Mussolini, Salazar e Hitler, embora n\u00e3o com Franco.<\/p>\n<p>Dimitrov j\u00e1 sabia que nem sempre o fascismo bania os partidos revolucion\u00e1rios, ou mesmo partidos burgueses competidores. Isso dependia \u201cdas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, sociais e econ\u00f4micas\u201d. Mussolini conviveu nos primeiros anos com o Partido Comunista e debateu com Gramsci no parlamento.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos prosseguir numa infind\u00e1vel lista. Como disse Umberto Eco: \u201cO termo \u201cfascismo\u201d adapta-se a tudo porque \u00e9 poss\u00edvel eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuar\u00e1 sempre a ser reconhecido como fascista\u201d. Por outro lado, n\u00e3o podemos recusar o conceito hoje. O comunismo, a social democracia e o anarquismo s\u00e3o movimentos que ultrapassaram a Segunda Guerra Mundial e adquiriram novas caracter\u00edsticas. Por que o fascismo n\u00e3o poderia fazer o mesmo?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos transform\u00e1-lo numa realidade eterna. Ele s\u00f3 foi poss\u00edvel na crise do entre guerras e na \u00e9poca do imperialismo e do capitalismo monopolista, ainda que encontremos antecipa\u00e7\u00f5es fascistas em autores reacion\u00e1rios desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, como De Maistre.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que pa\u00edses que apenas tinham pretens\u00f5es a desenvolver um capitalismo monopolista de Estado foram fascistas; e os Estados Unidos n\u00e3o precisaram adotar tal regime porque tinham uma posi\u00e7\u00e3o \u00fanica de lideran\u00e7a econ\u00f4mica e militar, protegidos por dois oceanos. Mas o que explica isso \u00e9 a hist\u00f3ria concreta e n\u00e3o uma adapta\u00e7\u00e3o da realidade com um conceito preestabelecido. Houve pa\u00edses fascistas que podiam ser mais ou menos imperialistas, mais ou menos nacionalistas. Da mesma forma o fascismo pode ser mais ou menos estatista.<\/p>\n<p>Continuam imprescind\u00edveis os debates sobre a incipiente caracteriza\u00e7\u00e3o de Stalin na XIII Assembleia Plen\u00e1ria da Internacional Comunista; a defesa da frente contra o fascismo por Dimitrov no VII Congresso de 1935; as advert\u00eancias de Trotsky ou de Simone Weill sobre a Alemanha<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn11\">[11]<\/a>; as excelentes li\u00e7\u00f5es de Togliatti<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn12\">[12]<\/a>\u00a0sobre as institui\u00e7\u00f5es fascistas que controlavam o lazer, o esporte e outras atividades fora do trabalho e muitos outros. Encontraremos em todos eles elementos para compreender tamb\u00e9m a nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Uma t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p>Diante da dificuldade de encontrar uma defini\u00e7\u00e3o precisa e consensual, alguns autores preferiram escolher outro m\u00e9todo nos \u00faltimos vinte ou trinta anos, ainda que n\u00e3o deixassem de procurar uma defini\u00e7\u00e3o abrangente. Procuraram as fronteiras imprecisas dos regimes, os contornos dos movimentos, as fases que ele pode ou n\u00e3o percorrer e se \u201ccompletar\u201d como proposta, como movimento ou regime. Paxton procurou mostrar as etapas dos fascismos<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn13\">[13]<\/a>; o portugu\u00eas Jo\u00e3o Bernardo encontrou os eixos interno e externo<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn14\">[14]<\/a>\u00a0em torno dos quais as diferentes experi\u00eancias fascistas se organizaram; e Umberto Eco mostrou por meio de uma \u201csemelhan\u00e7a de fam\u00edlia\u201d um fascismo\u00a0<em>fuzzy<\/em><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas que o fascismo pode mobilizar s\u00e3o muitas, mas n\u00e3o infinitas. O fascismo n\u00e3o pode substituir o capitalismo por uma economia socialista, por exemplo, embora Mussolini fosse um filho de anarquista com passado socialista e Gregor Strasser se declarasse inimigo do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>No Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Depois da vit\u00f3ria eleitoral de Bolsonaro muitos jornalistas se prestaram ao papel de muito normalizar o momento. Apoios entusiasmados existiram de forma marginal nas elites intelectuais. No entanto, jamais o saber foi imune ao fascismo. Se ele maneja o irracional, ningu\u00e9m est\u00e1 imune. Da\u00ed a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Circunst\u00e2ncias de vida, ressentimento, fracasso profissional, c\u00edrculos de amizade, profiss\u00e3o e outras esferas da exist\u00eancia predisp\u00f5em mais ou menos uma pessoa a aderir ou n\u00e3o. Todavia, n\u00e3o resta d\u00favida que um militante fascista n\u00e3o pretende mais agir como ser humano.<\/p>\n<p>Um fascismo pode ser religioso ou ateu, mas n\u00e3o pode haver uma religi\u00e3o fascista dotada de qualquer profundidade teol\u00f3gica. Por tudo isso, o debate sobre quais caracter\u00edsticas este ou aquele regime fascista mobilizou vai continuar. \u00c9 verdade que Hitler era um pintor med\u00edocre e frustrado e que v\u00e1rios nazistas tiveram pretens\u00f5es art\u00edsticas. Se na express\u00e3o de Eric Hobsbawm a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa foi a \u201ccarreira aberta ao talento\u201d o fascismo abre a carreira aos ressentidos.<\/p>\n<p>Bolsonaro n\u00e3o tem pretens\u00e3o intelectual alguma e o \u201cfil\u00f3sofo\u201d de seu movimento n\u00e3o merecer\u00e1 futuramente nenhuma an\u00e1lise salvo como um documento de barb\u00e1rie. Um gramsciano poder\u00e1 tentar compreend\u00ea-lo a partir de uma rubrica dos\u00a0<em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em>: o lorianismo. O bolsonarismo \u00e9 produto das redes sociais e n\u00e3o de com\u00edcios de rua. Hitler discursava, Bolsonaro faz lives. Hitler tinha algum conhecimento militar, Bolsonaro nenhum, apesar da profiss\u00e3o; Mussolini era h\u00e1bil debatedor, Bolsonaro fugiu de debates; Salazar conhecia profundamente economia, Bolsonaro confessou nada saber; Bolsonaro mal sabe falar, os fascistas dos anos 1930 eram oradores.<\/p>\n<p>No passado, o integralismo brasileiro n\u00e3o pode ter um Heidegger, mas Plinio Salgado era um reconhecido jornalista e entres seus primeiros romances houve um ou outro aceito por cr\u00edticos liter\u00e1rios. O seu movimento recrutou Vinicius de Morais, Miguel Reale, Gustavo Barroso, Helder C\u00e2mara, Abdias do Nascimento e Ernani Silva Bruno, autor da bela\u00a0<em>Hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00f5es da cidade de S\u00e3o Paulo<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn16\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/em>. Cada fascismo tem os intelectuais condizentes com seu solo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1logo?<\/strong><\/p>\n<p>Em excelente artigo no site\u00a0<em>A Terra \u00e9 Redonda<\/em>\u00a0(<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/tag\/thelma-lessa-da-fonseca\/\">https:\/\/aterraeredonda.com.br\/tag\/thelma-lessa-da-fonseca\/<\/a>) Thelma Lessa da Fonseca cita Adorno para quem \u201cos agitadores fascistas s\u00e3o tomados a s\u00e9rio porque se arriscam a passar por tolos\u201d. Eles recorrem ao baixo cal\u00e3o, imagens s\u00e1dicas, a atos histri\u00f4nicos, ao culto da viol\u00eancia, a discursos sem coer\u00eancia l\u00f3gica exatamente porque, assim, podem romper tabus de sua envergonhada e contida classe (m\u00e9dia). A crise de valores permite que defendam a B\u00edblia com palavr\u00f5es e sexo, mentiras e maldade; que promovam privil\u00e9gios e censura em nome da igualdade e da Democracia; e que defendam a Ordem e o Brasil em nome da Revolu\u00e7\u00e3o e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O nazi Wilhelm Stapel, citado por Wilhelm Reich, avisou que, sendo o seu movimento de natureza elementar, n\u00e3o deveria ser abordado com argumentos. E o pr\u00f3prio Hitler insistia que se deve dirigir \u00e0s massas n\u00e3o com argumentos, provas e conhecimentos, mas com sentimentos e profiss\u00f5es de f\u00e9. Para Mussolini, que tinha um preparo pol\u00edtico superior ao de Hitler, doutrinas n\u00e3o passavam de expedientes t\u00e1ticos<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, a propaganda podia ser contradit\u00f3ria e diferente conforme a camada da popula\u00e7\u00e3o a que se dirigia. Segundo Reich, que se voltou ao conte\u00fado afetivo e irracional da ades\u00e3o ao fascismo, haveria uma coer\u00eancia na manipula\u00e7\u00e3o das sensibilidades dos aderentes. Por isso seria aconselh\u00e1vel escutar com aten\u00e7\u00e3o o que os l\u00edderes fascistas diziam<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>Tratava-se de um discurso em que as palavras mantinham rela\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria com as supostas realidades \u00e0s quais se referiam. Por isso, n\u00e3o havia coer\u00eancia nos significados ou na sequ\u00eancia daquilo que era enunciado, apenas na sua manipula\u00e7\u00e3o oportunista. O objetivo da manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas perenizar a pr\u00f3pria manipula\u00e7\u00e3o. A forma n\u00e3o importa, o estilo \u00e9 rude.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Behemoth<\/em>\u00a0Franz Neumann dizia que a ideologia nacional socialista estava fundida com o terror e que toda declara\u00e7\u00e3o nazista carecia de consist\u00eancia. Era um oportunismo absoluto onde cada afirma\u00e7\u00e3o procedia da situa\u00e7\u00e3o imediata e era abandonada quando a situa\u00e7\u00e3o mudava<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Defini\u00e7\u00e3o sempre provis\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o dentro da Ordem como disse Jo\u00e3o Bernardo. Mas a ordem \u00e9 fundamento a ser conservado por uma forma radical. O que significa que ele \u00e9 uma t\u00e9cnica pol\u00edtica e uma ret\u00f3rica antes de qualquer coisa. Sua forma, mesmo grosseira, \u00e9 mais importante que o conte\u00fado. Afinal, Bolsonaro n\u00e3o tem um programa econ\u00f4mico muito diferente do partido Democratas ou mesmo dos tucanos; ele prosseguiu e radicalizou medidas liberais anteriores; mas todos sabem que seu governo \u00e9 outra coisa. N\u00e3o \u00e9 fascista, mas \u00e9 ocupado por neofascistas.<\/p>\n<p>Num momento em que as classes dominantes, na crise de seu modo tradicional de domina\u00e7\u00e3o, sacrificam sua exist\u00eancia pol\u00edtica em favor da econ\u00f4mica, o Fascismo pode (ou n\u00e3o) surgir como a manipula\u00e7\u00e3o \u201cracional\u201d daquilo que h\u00e1 de irracional nas camadas m\u00e9dias, as quais traduzem seu medo da desclassifica\u00e7\u00e3o social num transe ideol\u00f3gico. Uma classe em tr\u00e2nsito \u00e9 uma classe em transe.E isso se alastra para outros setores sociais como a Internacional Comunista j\u00e1 havia detectado, envolvendo mesmo franjas do proletariado.<\/p>\n<p>As formas que o transe assume s\u00e3o muitas. Os conte\u00fados tamb\u00e9m. Assim como a burguesia alem\u00e3 mobilizou o fascismo para tentar derrotar os Estados Unidos e a Inglaterra e dirigir a economia mundial, a burguesia brasileira mobilizou o bolsonarismo para manter-se como exportadora de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0perif\u00e9rica e subordinada; mas acima de tudo como exploradora de mais valia excessiva de uma for\u00e7a de trabalho sem direitos.<\/p>\n<p>No caso brasileiro isso se deu assim porque a ascens\u00e3o regional do pa\u00eds s\u00f3 poderia continuar com a retomada da industrializa\u00e7\u00e3o e a competi\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, o que implicaria internamente a ultrapassagem da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes de Lula e o risco de a classe trabalhadora radicalizar suas conquistas. Transformar o Brasil numa pot\u00eancia soberana implicaria elevar a classe trabalhadora a um n\u00edvel \u00e9tico e pol\u00edtico inaceit\u00e1vel para a cultura dominante no Brasil e assumir conflitos na arena externa que exigiria mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Lula e o PT tinham um \u201cpecado de origem\u201d (um partido que nasceu oper\u00e1rio e socialista antes de se moderar politicamente). N\u00e3o era uma agremia\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel para refrear as classes trabalhadoras, embora o tentasse. As elites preferem se aliar \u00e0 ral\u00e9 de milicianos do que a trabalhadores organizados especialmente quando o pleno emprego aumenta o poder de barganha destes e a interven\u00e7\u00e3o do Estado parece subordinar as iniciativas privadas de investimento.<\/p>\n<p>Em 1930, por exemplo, a burguesia e as For\u00e7as Armadas defenderam o desenvolvimento industrial em acordo com a oligarquia agr\u00e1ria. A situa\u00e7\u00e3o de conflito entre as pot\u00eancias e o autoritarismo de Vargas ofereciam a oportunidade de um jogo de soma m\u00faltipla em que todos pareciam ganhar. O integralismo permaneceu na oposi\u00e7\u00e3o porque seu anticomunismo n\u00e3o era industrialista e n\u00e3o oferecia uma v\u00e1lvula de escape para a quest\u00e3o social.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter agr\u00e1rio do integralismo n\u00e3o significava que ele n\u00e3o era fascista, assim como a natureza industrial do nazismo n\u00e3o implicava que o fosse<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn20\">[20]<\/a>. No Brasil a burguesia n\u00e3o precisou dos fascistas nos anos 1930<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_edn21\">[21]<\/a>\u00a0porque Get\u00falio Vargas conduziu um grande acordo de classes oferecendo viol\u00eancia e consenso, anticomunismo e direitos trabalhistas.<\/p>\n<p><strong>Exemplos<\/strong><\/p>\n<p>Na Confer\u00eancia conservadora brasileira o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o se dedicou a combater o nazismo, atribu\u00eddo \u00e0 fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed. Ele iniciou sua palestra falando da classe m\u00e9dia oprimida pelos oligarcas na Gr\u00e9cia antiga (sic). Em seguida apresentou uma inusitada estratifica\u00e7\u00e3o das classes sociais no Brasil onde o papel fundamental seria de empres\u00e1rios comunistas. De repente mudou o rumo e mostrou imagens de curva de oferta e demanda, conceitos b\u00e1sicos como monop\u00f3lio e monops\u00f4nio e terminou na associa\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios com o nazismo. O mais impressionante foi a compara\u00e7\u00e3o dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula com doen\u00e7as mortais, t\u00edpica das met\u00e1foras biol\u00f3gicas dos nazistas, algo que se repete no programa da Alian\u00e7a para o Brasil, o novo partido fascista brasileiro, que ataca uma nova chaga: a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>A incoer\u00eancia formal n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o. No discurso proferido na cerim\u00f4nia de Recebimento da Faixa Presidencial no Pal\u00e1cio do Planalto, em 01 de janeiro de 2018, Jair Bolsonaro disse: \u201co povo come\u00e7ou a se libertar do socialismo\u201d. O discurso terminou com um\u00a0<em>nonsense<\/em>: \u201cessa \u00e9 a nossa bandeira, que jamais ser\u00e1 vermelha. S\u00f3 ser\u00e1 vermelha se for preciso o nosso sangue para mant\u00ea-la verde e amarela\u201d (sic).<\/p>\n<p>H\u00e1 um exemplo de uma formula\u00e7\u00e3o mais elaborada e alude ao supracitado programa da Alian\u00e7a pelo Brasil. Ele tem uma narrativa linear, aparentemente l\u00f3gica: o povo come\u00e7ou a se proteger contra os socialistas ao defenderem a posse de suas armas mediante um plebiscito em 2005; em 2013 saiu \u00e0s ruas, ainda sem \u201cmuita clareza\u201d e esse foi o seu segundo despertar. Finalmente, nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 surgiu a oportunidade de se livrar do garantismo jur\u00eddico socialista, da erotiza\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, do socialismo e do aborto atrav\u00e9s do controle popular contra o estamento burocr\u00e1tico e o ativismo judicial.<\/p>\n<p>Todas as express\u00f5es anteriores constam do documento. Como faziam os fascistas originais, os seus autores incorporaram parte da linguagem de esquerda, atribu\u00edram coisas bizarras aos socialistas e alargaram o conjunto dos advers\u00e1rios para incluir juristas \u201cgarantistas\u201d, mulheres \u201cabortistas\u201d, professores etc.<\/p>\n<p>O controle popular \u00e9 uma express\u00e3o logo esvaziada no texto. Na linha seguinte ela se redefine numa palavra estrangeira:\u00a0<em>accountability.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 outros elementos dignos de nota tais como: a seguran\u00e7a jur\u00eddica para que soldados possam matar em servi\u00e7o; a defesa do cristianismo; da l\u00edngua portuguesa; e, ainda que de forma sub-rept\u00edcia, de uma Hist\u00f3ria que ensine o valor de \u201cgrandes homens e mulheres do passado\u201d. Repudiando a luta de classes e a planifica\u00e7\u00e3o o programa termina com a exalta\u00e7\u00e3o do liberalismo econ\u00f4mico e da grandeza da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que importa o que foi dito nos par\u00e1grafos acima? Certamente interessa como s\u00e3o articulados os falsos argumentos. Eles dialogaram com a consci\u00eancia fragmentada dos seus aderentes. Sua falsidade \u00e9 verdadeira para eles? Acreditavam os bolsonaristas de 2018 na \u201cmamadeira de piroca\u201d? O riso que n\u00f3s dedicamos a essas bobagens os torna rid\u00edculos ou, pelo contr\u00e1rio, refor\u00e7a nossa condi\u00e7\u00e3o de esnobes, petistas, ambientalistas, artistas, oper\u00e1rios, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, empres\u00e1rios, parasitas etc?<\/p>\n<p>Essa consci\u00eancia fragmentada \u00e9 um tra\u00e7o constitutivo da vida sob o capital. Por que s\u00f3 agora encontraria uma falsa unidade num proselitismo desconjuntado? Estaria a resposta, como pensava Gramsci nos anos 1930, nas novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que nos submetem? \u00c9 dali que devemos partir?<\/p>\n<p>A teologia da prosperidade, o trabalho \u201cuberizado\u201d, a desclassifica\u00e7\u00e3o das profiss\u00f5es liberais (medicina, engenharia), a desindustrializa\u00e7\u00e3o e o cotidiano das redes sociais mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o com o triunfo dos neofascistas?<\/p>\n<p>A realidade em que vicejou o bolsonarismo n\u00e3o \u00e9 um movimento isento de contradi\u00e7\u00f5es. Ele sobrevive numa economia de baixo crescimento e sem dinamismo industrial. Por\u00e9m, a mais flagrante delas est\u00e1 em altera\u00e7\u00f5es que ocorreram nos fundamentos da vida social. O bolsonarismo n\u00e3o aderiu \u00e0 viv\u00eancia da maioria das pessoas. As mulheres n\u00e3o voltaram recatadas ao lar e nem os jovens renunciaram \u00e0 sua cultura, salvo provisoriamente pelo terror. E \u00e9 para o terror que o bolsonarismo apela no dia a dia. Enquanto encenava a noite das facas falsas ou a confer\u00eancia da solu\u00e7\u00e3o final da \u201cquest\u00e3o petista\u201d, ele se fortalecia a cada crise que o tornava v\u00edtima de uma conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acredito que nossa compreens\u00e3o e que, portanto, a elabora\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia deve come\u00e7ar com essas perguntas. Indaga\u00e7\u00f5es que s\u00f3 movimentos coletivos vinculados \u00e0 pr\u00e1tica poder\u00e3o responder.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos iludamos: desde sua ascens\u00e3o Bolsonaro n\u00e3o perdeu poder, ele se fortaleceu e at\u00e9 intentou sua noite das facas falsas. O seu\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0n\u00e3o consiste em defender alguma pauta espec\u00edfica, mas em produzir crise permanente. Em conduzir a esquerda a jogar o seu jogo, a dialogar com o mito que representaria o povo e n\u00e3o com o pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 um blefe permanente. Em situa\u00e7\u00f5es \u201cnormais\u201d ningu\u00e9m o leva a s\u00e9rio. Nas crises todos fingem que n\u00e3o o levam a s\u00e9rio. Se est\u00e1 no poder todos fingem que ele n\u00e3o \u00e9 fascismo. A marcha sobre Roma foi um blefe do ponto de vista militar. Uma \u00fanica ordem e o Ex\u00e9rcito teria dizimado os fascistas. Mas quem se arriscaria a d\u00e1-la? Seria obedecida? O temor coletivo nos leva a normalizar cada bravata, cada amea\u00e7a. Quando nos levantamos indignados, eles recuam. Depois retornam mais audazes.<\/p>\n<p>Quando Luiz Bonaparte se via confrontado com a Revolu\u00e7\u00e3o, segundo o relato de Marx, o que fazia? Pedia perd\u00e3o de maneira pusil\u00e2nime e rendia tributo ao partido da ordem.<\/p>\n<p>*<strong>Lincoln Secco<\/strong>\u00a0\u00e9 professor do Departamento de Hist\u00f3ria da USP.<\/p>\n<p>Vers\u00e3o modificada de artigo publicado no blog\u00a0<em>marxismo21<\/em><\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Reale, M.\u00a0<em>ABC do Integralismo<\/em>. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1935, p. 105.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref2\">[2]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 O nome oficial \u00e9 em ingl\u00eas: Cpac \u2013 (<em>Conservative Political Action Conference<\/em>). Agrade\u00e7o as leituras de Fernando Sarti, Carlos Quadros e Luiz Franco.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Sontag, S.\u00a0<em>Sob o signo de Saturno<\/em>. Porto Alegre, LPM, 1980, p.81.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref4\">[4]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Thalheimer, August.\u00a0<em>Sobre o Fascismo<\/em>. Salvador: CVM, 2009, p. 35.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Gramsci, A.\u00a0<em>Escritos Pol\u00edticos.\u00a0<\/em>V. II. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, p. 269.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref6\">[6]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Schmitt, C.\u00a0<em>O Conceito do Pol\u00edtico<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2018, p.54.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref7\">[7]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Safranski, R.\u00a0<em>Heidegger: Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal<\/em>. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2013,\u00a0 p. 299.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref8\">[8]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Id. Ibid., p. 298.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref9\">[9]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Ali\u00e1s, o bolsonarismo se afirma pr\u00f3 Israel e evang\u00e9lico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref10\">[10]<\/a>\u00a0 O fascismo latinoamericano pode ser liberal hoje porque corresponde \u00e0 necessidade da burguesia perif\u00e9rica retomar um (ilus\u00f3rio?) crescimento econ\u00f4mico sem romper com a depend\u00eancia externa. Ele n\u00e3o dirige um avan\u00e7o das for\u00e7as produtivas, mas resolve provisoriamente entraves ao crescimento via fim do sal\u00e1rio indireto e destrui\u00e7\u00e3o de direitos sociais. Que isso seja irracional no m\u00e9dio prazo, n\u00e3o seria uma novidade. O nazismo chegou ao limite da irracionalidade ao reprimir aliados na invas\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (vide o relato sobre a campanha na Russia feito pelo coronel Hellmuth Gunther Dahms) e ao colocar a \u201crevolu\u00e7\u00e3o r\u00e1cica\u201d acima das necessidades econ\u00f4micas (Jo\u00e3o Bernardo,\u00a0<em>Labirintos do Fascismo<\/em>, op. cit, pp. 266 e ss). Isso se repetiu na pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o da economia de guerra das \u00e1reas ocupadas como o historiador brit\u00e2nico Arnold Toynbee reportou. Nos anos 1930 havia espa\u00e7o para uma industrializa\u00e7\u00e3o relativa da Am\u00e9rica Latina, embora jamais se alcan\u00e7asse a internaliza\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o do Departamento I; sob o regime de financeiriza\u00e7\u00e3o globalizado parece mais dif\u00edcil e conflituoso um projeto de autonomia nacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref11\">[11]<\/a>\u00a0 Weill, S.\u00a0<em>A Condi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria e outros Estudos sobre a Opress\u00e3o<\/em>.\u00a0 Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref12\">[12]<\/a>\u00a0 Togliatti, P.\u00a0<em>Li\u00e7\u00f5es sobre o Fascismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Lech, 1978.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref13\">[13]<\/a>\u00a0 Paxton, R.\u00a0<em>Anatomia do Fascismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz &amp; Terra, 2008.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref14\">[14]<\/a>\u00a0 Bernardo, J.<em>\u00a0Labirintos do Fascismo<\/em>. Porto: Afrontamento, 2003, p. 51. A originalidade e a extens\u00e3o da pesquisa n\u00e3o eliminam in\u00fameros erros de avalia\u00e7\u00e3o feitos nessa obra.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref15\">[15]<\/a>\u00a0 Usado atualmente em l\u00f3gica para designar conjuntos \u201cesfumados\u201d, de contornos imprecisos. In: Eco, Umberto. O Fascismo Eterno, in:\u00a0<em>Cinco Escritos Morais<\/em>, Tradu\u00e7\u00e3o: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref16\">[16]<\/a>\u00a0 Embora em seu Almanaque de Mem\u00f3rias ele convenientemente n\u00e3o se lembrasse de seu envolvimento integralista.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref17\">[17]<\/a>\u00a0 Chabod, F.\u00a0<em>Hist\u00f3ria do Fascismo Italiano<\/em>. Lisboa: Arc\u00e1dia, s\/d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref18\">[18]<\/a>\u00a0 Reich, Wilhelm.\u00a0<em>Psicologia de Massa do Fascismo<\/em>. Lisboa: Escorpi\u00e3o, 1974, pp. 35, 79, 93 e 95.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref19\">[19]<\/a><a>\u00a0 Neumann, F.\u00a0<em>Behemoth<\/em>. Mexico: FCE, 2005<\/a>, p. 57.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref20\">[20]<\/a>\u00a0 Como disse Fernando Sarti em reuni\u00e3o do GMarx \u2013 USP quando l\u00edamos o manuscrito intitulado \u201c1937\u201d de Caio Prado Junior (IEB-USP).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/#_ednref21\">[21]<\/a>\u00a0 Como argumentou Valerio Arcary o \u201cneofascismo em um pa\u00eds perif\u00e9rico como o Brasil n\u00e3o pode ser igual ao fascismo de sociedades europeias dos anos trinta\u201d. Para ele Bolsonaro respondeu n\u00e3o \u00e0 amea\u00e7a de uma Revolu\u00e7\u00e3o, mas a governos moderadamente reformistas. (https:\/\/revistaforum.com.br\/colunistas\/bolsonaro-e-ou-nao-um-neofascista\/)<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"4LJEFNnSWP\"><p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/\">A noite das facas falsas<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A noite das facas falsas&#8221; &#8212; A Terra \u00e9 Redonda\" src=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-noite-das-facas-falsas\/embed\/#?secret=447FIvLgV2#?secret=4LJEFNnSWP\" data-secret=\"4LJEFNnSWP\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lincoln Secco &#8211; Circunst\u00e2ncias de vida, ressentimento, fracasso profissional, c\u00edrculos de amizade, profiss\u00e3o e outras esferas da exist\u00eancia predisp\u00f5em uma pessoa a aderir ou n\u00e3o. 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