{"id":12217,"date":"2019-12-17T16:44:29","date_gmt":"2019-12-17T19:44:29","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=12217"},"modified":"2019-12-15T12:51:59","modified_gmt":"2019-12-15T15:51:59","slug":"as-metamorfoses-do-conservadorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/12\/17\/as-metamorfoses-do-conservadorismo\/","title":{"rendered":"As metamorfoses do conservadorismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Angela Alonso<\/strong> &#8211; Obra de Roger Scruton mostra as v\u00e1rias facetas do pensamento conservador, mas se exime de discutir a desigualdade social.<\/p>\n<p>Olavo de Carvalho conta que lia Roger Scruton desde o in\u00edcio dos anos 1990, fascinado com sua habilidade de converter \u00edcones intelectuais da esquerda \u201cao estado de m\u00famias\u201d. Disse isso no <em>Di\u00e1rio do Com\u00e9rcio<\/em>, em 21 de setembro de 2011. O fil\u00f3sofo ingl\u00eas j\u00e1 tinha fama e mais de quarenta livros. Ensinara em Oxford antes de ir para a Universidade de Boston e foi um dos fundadores do Conservative Action Group [Grupo de a\u00e7\u00e3o conservadora], que apoiou Margaret Thatcher.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A admira\u00e7\u00e3o levou \u00e0 propaganda. \u201cVoltei a falar de Scruton [em sua coluna], \u00e0 base de uma vez por ano, de 1999 at\u00e9 2008. Em v\u00e3o [&#8230;] a elite esquerdista dominante nos meios universit\u00e1rios e editoriais n\u00e3o s\u00f3 se absteve de ler livros conservadores como tamb\u00e9m tomou todas as provid\u00eancias para que ningu\u00e9m mais os lesse.\u201d O que mudou em 2008? Carvalho explica: \u201cTranscorreu o prazo de uma gera\u00e7\u00e3o\u201d. A nova encontrou o governo petista como o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0e se interessou por seus cr\u00edticos. No primeiro ano da Presid\u00eancia de Dilma Rousseff, havia p\u00fablico farto de redistributivismo, dos direitos de minorias, do politicamente correto, as figurinhas carimbadas do debate p\u00fablico nos anos Lula. Gente \u00e1vida por outra conversa.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A permeabilidade foi aproveitada por organiza\u00e7\u00f5es como o Instituto Mises e\u00a0<em>Veja<\/em>. Os cursos do instituto difundiram ideias liberais e seu \u201cImpost\u00f4metro\u201d denunciava\u00a0 \u201cexcesso\u201d de tributa\u00e7\u00e3o e de Estado no Brasil. Ocupada por antipetistas \u2014 que hoje fazem parte do site de not\u00edcias\u00a0<em>O Antagonista<\/em>\u00a0\u2014, a revista guerreava a esquerda. Seria um dos jovens da\u00a0<em>Veja<\/em>, Felipe Moura, o compilador de ensaios e artigos de Olavo de Carvalho, em 2013, no livro\u00a0<em>O m\u00ednimo que voc\u00ea precisa saber para n\u00e3o ser um idiota<\/em>\u00a0(Record). Nesse universo, a t\u00f3pica das t\u00f3picas era a corrup\u00e7\u00e3o, consubstanciada no neologismo do futuro vira-casaca Reinaldo Azevedo: \u201cPetralhas\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">O artigo de Carvalho em 2011 fora suscitado por entrevista de Scruton \u00e0 revista\u00a0<em>Veja<\/em>. Nela soltara o verbo contra ambientalismo, imigra\u00e7\u00e3o e direitos de minorias. Carvalho torceu para que assim se despertasse \u201ca aten\u00e7\u00e3o dos leitores para os livros desse autor imprescind\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Despertou. Livros de Scruton malhando progressistas e promovendo a maneira conservadora de pensar e agir foram vertidos ao portugu\u00eas na m\u00e9dia de um por ano desde 2010 \u2014 onze pela editora, livraria e espa\u00e7o cultural \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es simultaneamente, entre os quais\u00a0<em>O rosto de Deus<\/em>.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Propagandeou-se essa obra como \u201cresposta \u00e0 cultura ate\u00edsta que cresce hoje \u00e0 nossa volta\u201d. Em setembro de 2014, a\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0voltou a entrevistar Scruton, a prop\u00f3sito de\u00a0<em>As vantagens do pessimismo \u2014 e o perigo da falsa esperan\u00e7a<\/em>, aplaudindo sua cr\u00edtica ao \u201cotimismo inescrupuloso\u201d e a aplicou ao Brasil: \u201cNa tentativa de neutralizar os cr\u00edticos, campanha petista lan\u00e7a cruzada pelo pensamento positivo\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A Record responsabilizou-se por cinco t\u00edtulos, inclu\u00eddo o\u00a0<em>best-seller<\/em>\u00a0<em>Como ser um conservador<\/em>.\u00a0<em>Conservadorismo: um convite \u00e0 grande tradi\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>sai agora, manco do pref\u00e1cio de 2017, que o atava \u00e0 conjuntura, e com um nome diferente para o cap\u00edtulo 2: \u201c<em>philosophical conservatism<\/em>\u201d virou \u201cconservadorismo pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">\u00c9 livro acima do olavismo em todos os quesitos. A prosa acess\u00edvel dribla a armadilha do tom raivoso e empostado. E at\u00e9 evoca ac\u00f3litos ran\u00e7osos para iluminar, por contraste, o flanco classudo. As econ\u00f4micas 154 p\u00e1ginas trafegam por caudal de autores, largando na Antiguidade cl\u00e1ssica com destino \u00e0 \u201cnova direita\u201d. A ambi\u00e7\u00e3o: atestar uma tradi\u00e7\u00e3o conservadora longa, s\u00f3lida e sofisticada, apta a orientar as lideran\u00e7as intelectual e pol\u00edtica do Ocidente. Os seis cap\u00edtulos abrigam tr\u00eas opera\u00e7\u00f5es intelectuais.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\"><strong>Unir contr\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A primeira e escorregadia cerca o substantivo \u201cconservadorismo\u201d. Scruton a\u00ed oscila. Uma abordagem \u00e9 psicol\u00f3gica, como\u00a0<em>temperamento<\/em>: \u201cSer conservador \u00e9 uma maneira distinta de ser humano\u201d, ou \u201cos liberais se rebelam por natureza; os conservadores obedecem por natureza\u201d. Outra \u00e9 como filosofia pol\u00edtica, racionalista e realista, emergente no Iluminismo. E h\u00e1 a acep\u00e7\u00e3o menos evidente de movimento pol\u00edtico \u2014 que Scruton integra \u2014 originado na rea\u00e7\u00e3o \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es Gloriosa, Americana e Francesa, e que zela pela forma \u201cnatural\u201d de vida social, a comunidade e seus pilares, fam\u00edlia e religi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">O segundo passo \u00e9 demarcar a tradi\u00e7\u00e3o intelectual conservadora, contrabandeando mentes liberais para seu per\u00edmetro. No baile conservador, comparecem Montesquieu, Burke, Tocqueville, Adam Smith e que tais, uns em traje de gala, outros em camisa de for\u00e7a. Na ala \u201ccultural\u201d, de verso e prosa, de Coleridge a Robert Musil, brilha Eliot como campe\u00e3o da resist\u00eancia \u00e0 cultura de massa. Em contraponto \u00e0 atomiza\u00e7\u00e3o moderna, sinalizaria um \u201cmodo est\u00e9tico de vida\u201d antiutilitarista, materializado em lugares sagrados e s\u00edmbolos nacionais, a modo de resgate do \u201clegado moral e religioso do Ocidente\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">O terceiro tijolinho argumentativo \u00e9 erigir a categoria \u201cconservadorismo moderno\u201d. O encavalamento das tradi\u00e7\u00f5es liberal e conservadora oitocentistas visa tornar menos contradit\u00f3rio o am\u00e1lgama contempor\u00e2neo, uma cepa superior, resultado de alian\u00e7as for\u00e7osas \u00e0 direita na guerra com a esquerda. Para unir os antes contr\u00e1rios, \u00e9 preciso mostrar as metamorfoses do pr\u00f3prio conservadorismo, forjado e repaginado na peleja com antagonistas. O conservadorismo origin\u00e1rio teve, de um lado, de se insurgir contra o pai, o reacionarismo. O cord\u00e3o umbilical foi cortado por causa do d\u00e9ficit de realismo do antepassado, apegado ao direito divino dos reis e a formas de vida social em decad\u00eancia irrevers\u00edvel. Pai \u201cpr\u00e9-moderno\u201d, rom\u00e2ntico incorrig\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A outra luta do conservadorismo foi contra um companheiro geracional, o liberalismo. Dele dissentiu quanto ao fundamento da ordem pol\u00edtica, preferindo o costume inscrito na\u00a0<em>common law<\/em>\u00a0ao contratualismo. Tamb\u00e9m n\u00e3o acatou a irrestrita liberdade de mercado, assentindo com interven\u00e7\u00f5es governamentais pontuais em economia e sociedade. E trocou o individualismo extremo pela aposta na \u201csociedade civil\u201d. Nesse ponto \u2014 o mais interessante do livro \u2014 Scruton mostra como o termo queridinho da esquerda vive bem na casa advers\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A diferen\u00e7a \u00e9 que a \u201csociedade civil\u201d dos conservadores dilata seu contorno: abriga formas associativas laicas e religiosas, e seu cerne, em vez da autonomia, \u00e9 o mercado livre. Mas suas virtudes s\u00e3o as mesmas dos habermasianos:\u00a0 associativismo, voluntariado e o anteparo ao avan\u00e7o estatal sobre a gest\u00e3o da vida coletiva: \u201cA liberdade dos cidad\u00e3os, garantida pelo Estado, tamb\u00e9m \u00e9 amea\u00e7ada pelo Estado. O Estado s\u00f3 pode garantir a liberdade ao se retirar da sociedade civil\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Na juventude, o conservadorismo, portanto, competia com o liberalismo. Mas a roda da hist\u00f3ria gira. A tradi\u00e7\u00e3o, medula conservadora, viva e pl\u00e1stica, andaria em \u201cprocesso de cont\u00ednua adapta\u00e7\u00e3o do velho para o novo e do novo para o velho\u201d. Metamorfoses requisitadas por experi\u00eancias sociais concretas, das quais brotaram tr\u00eas inimigos sequenciais: o socialismo, o islamismo e a nova esquerda.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A amea\u00e7a vermelha do \u201cEstado gerencial\u201d, no fim do s\u00e9culo 19, teria aproximado os conservadores dos liberais, dos quais encamparam teses. \u00c9 o caso da contesta\u00e7\u00e3o de Hayek \u00e0 \u201cjusti\u00e7a social\u201d, nuclear na ret\u00f3rica socialista: \u201ca sorrateira palavra \u2018social\u2019 suga o significado de \u2018justi\u00e7a\u2019. A justi\u00e7a social n\u00e3o \u00e9 de modo algum uma forma de justi\u00e7a, mas sim de corrup\u00e7\u00e3o moral. Significa recompensar as pessoas por comportamentos ineficazes\u201d. A \u201cteoria marxista da revolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um lado do tri\u00e2ngulo de \u201cideologias autorit\u00e1rias\u201d. Nos outros v\u00e9rtices est\u00e3o \u201ca ideia fascista de Estado corporativo\u201d e a \u201cfilosofia nazista das ra\u00e7as\u201d. O \u201cconservadorismo moderno\u201d incorporaria do liberalismo a aposta em governo representativo, separa\u00e7\u00e3o de poderes e direitos individuais, sem a sanha neoliberal por competi\u00e7\u00e3o e mercado sem peias, nem as fantasias ditatoriais reacion\u00e1rias. Afasta-se, assim, do autoritarismo \u2014 embora muitos leitores brasileiros de Scruton n\u00e3o o percebam.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\"><strong>Anglocentrismo<\/strong><\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Assim recauchutado, o conservadorismo transpira para ser \u201co verdadeiro defensor da liberdade\u201d. \u00c9 que nunca tem sossego. Teve que se virar ante advers\u00e1rios sempre se replasmando. Nos anos 1960, a erup\u00e7\u00e3o da \u201cnova esquerda\u201d, com agenda identit\u00e1ria e de costumes, abriu a guerra em torno de valores. O conservadorismo se reapresentou ent\u00e3o como \u201cnova direita\u201d. Processo acentuado com o Onze de Setembro, lido como ensaio de destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Nessas batalhas culturais sucessivas, resgatou identidades e tradi\u00e7\u00f5es nacionais, em resposta ao multiculturalismo e ao politicamente correto (com sua \u201cpol\u00edtica do pensamento\u201d), e \u00e0s \u201camea\u00e7as\u201d isl\u00e2mica e imigrantista ao Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">O aliado tamb\u00e9m n\u00e3o deixa a nova direita dormir tranquila. O casamento conservadorismo-liberalismo fez \u00e1gua. \u00c9 que o parceiro tamb\u00e9m se transformou, virou neoliberalismo. Foi demais para os conservadores a mercantiliza\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o tem pre\u00e7o: \u201cfam\u00edlia, arte, f\u00e9 e na\u00e7\u00e3o\u201d. Em contraponto, insistiram no \u201clegado crist\u00e3o\u201d do Ocidente. Esse movimento antisseculariza\u00e7\u00e3o resgataria a tradi\u00e7\u00e3o cultural anglo-protestante, nos Estados Unidos, e a cat\u00f3lica, dentre os franceses. Seu horizonte \u00e9 a \u201crefunda\u00e7\u00e3o nacional\u201d: reinstituir lealdades territoriais, rever\u00eancia intergeracional, idolatria \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Na reconfigura\u00e7\u00e3o, o conservadorismo ultrapassou o falat\u00f3rio para honrar sua acep\u00e7\u00e3o de movimento pol\u00edtico. Espalhou-se por imprensa e academia, multiplicou publica\u00e7\u00f5es e\u00a0<em>think tanks\u00a0<\/em>e passou a linha auxiliar de governos antiesquerda, desde Thatcher e Reagan. Na Inglaterra, enraizou-se em universidades de prest\u00edgio, caso da London School of Economics, sob a lideran\u00e7a de Michael Oakeshott (cuja colet\u00e2nea C<em>onservadorismo<\/em>\u00a0saiu pela Biblioteca Antagonista, da editora Ay\u00een\u00e9, em 2016), e da Peterhouse de Cambridge, onde o grupo de Maurice Cowling deu \u00e0 luz o pr\u00f3prio Scruton. E adentrou a imprensa, via\u00a0<em>Spectator<\/em>,\u00a0<em>Daily Telegraph<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Salisbury Review<\/em>, que Scruton editou.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Nos Estados Unidos, os tent\u00e1culos alcan\u00e7aram o espa\u00e7o p\u00fablico. Na m\u00eddia, a\u00a0<em>National Review<\/em>, longevo baluarte anticomunista de William Buckley Jr; nas cortes judiciais, Robert Bork, o guardi\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es impressas na Constitui\u00e7\u00e3o federal \u2014 Reagan tentou, sem sucesso, nome\u00e1-lo \u00e0 Suprema Corte \u2014; e nas letras, Ayn Rand, cuja distopia antissocialista\u00a0<em>A revolta de Atlas\u00a0<\/em>(Arqueiro, 2017), vendeu 11 milh\u00f5es de c\u00f3pias. Nesse apanhado, Scruton negligencia debates intrauniversit\u00e1rios em torno de racismo, xenofobia, identidades de g\u00eanero e o bra\u00e7o midi\u00e1tico crucial para o conservadorismo nos \u00faltimos tempos, a Fox News.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">\u00c9 que o pr\u00f3prio Scruton \u00e9 general na guerra cultural, para a qual convoca guerreiros de peso: Samuel Huntington, com seu choque de civiliza\u00e7\u00f5es, e Pierre Manent, da \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales, um defensor do catolicismo. Ambos s\u00e3o convocados como soldados da autodefesa da cultura ocidental, urgente p\u00f3s-atentados do Onze de Setembro e ao\u00a0<em>Charlie Hebdo<\/em>. Todos recha\u00e7am a toler\u00e2ncia liberal. Preferem a luta.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A p\u00e1tria de Scruton, a Inglaterra, e o pa\u00eds onde vive, os Estados Unidos, quase monopolizam seu olho. Fran\u00e7a, Alemanha e Espanha ganham mirada r\u00e1pida. J\u00e1 Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia, nem uma piscadela. Assim \u2014 a esquerda poderia tascar \u2014, peca por anglocentrismo.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Scruton, \u00f3bvio, nem liga para a opini\u00e3o da esquerda. Mas \u00e9 capaz de liberais tamb\u00e9m n\u00e3o apreciarem a leitura, dada a posi\u00e7\u00e3o subordinada que ganham no \u201cconservadorismo moderno\u201d. Neoliberais, nem se fala. E a extrema direita se decepcionar\u00e1 com a falta de advocacia assertiva de seus valores reacion\u00e1rios. Periga n\u00e3o agradar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\"><em>Conservadorismo\u00a0<\/em>tem pontos altos e pontos cegos. Sua leitura obriga admitir que o conservadorismo \u00e9 mais complexo, multifacetado e elaborado do que a esquerda costuma supor. Os conservadores n\u00e3o s\u00e3o tontos; tontos s\u00e3o os que os ignoram. Contudo, salta aos olhos o torneio ret\u00f3rico de Scruton ao definir \u201cconservadorismo\u201d, que ora inclui (quando minimiza pol\u00edticas p\u00fablicas), ora exclui (quando enfatiza os valores tradicionalistas) teses liberais.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\"><strong>Calcanhar de aquiles<\/strong><\/p>\n<p class=\"ng-scope\">E, como Aquiles, o livro tem calcanhar exposto a flechadas: suas evasivas sobre a desigualdade social. A t\u00f3pica pouco aparece. Numa men\u00e7\u00e3o obl\u00edqua, admite a escravid\u00e3o como \u201cfalha moral\u201d, ao falar de Thomas Jefferson, mas enfatiza o par liberdade-propriedade, esquecido de que os propriet\u00e1rios de ent\u00e3o\u00a0 \u2014 Jefferson inclu\u00eddo \u2014 compravam pessoas. Noutra passagem, decreta, sem discuss\u00e3o, que a desigualdade \u00e9 natural.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A\u00ed est\u00e1 a \u00e2ncora funda do conservadorismo, patente em suas vers\u00f5es antiga e moderna, cultural e pol\u00edtica e em suas variedades nacionais: a cren\u00e7a na desigualdade como um dado da natureza. A sociologia inteira prova o contr\u00e1rio. A desigualdade \u00e9 socialmente constru\u00edda, intergeracionalmente transmitida, chancelada por institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, jur\u00eddicas e escolares e legitimada por c\u00e9rebros ora reluzentes, como o de Scruton, ora opacos, como o de Olavo de Carvalho.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">Scruton desdenharia dessa cr\u00edtica, calejado pelo \u201cfardo da desaprova\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0 aos conservadores e sua \u201cposi\u00e7\u00e3o rica em demandas, mas pobre em promessas\u201d. De fato, n\u00e3o promete sociedade justa ou tolerante. Na entrevista \u00e0\u00a0<em>Veja<\/em>, que Carvalho apreciou, jogou soda c\u00e1ustica nas pol\u00edticas sociais \u201cassistencialistas\u201d, adubo para \u201ca prolifera\u00e7\u00e3o de uma classe baixa ressentida, raivosa e dependente\u201d.<\/p>\n<p class=\"ng-scope\">A pompa dos livros sucumbe em seu textos de imprensa \u2014 j\u00e1 definiu homossexualidade como pervers\u00e3o, op\u00f5e-se ao feminismo e aos direitos dos animais. \u00c9 c\u00e9tico quanto ao progresso coletivo, j\u00e1 que a \u201cnatureza humana\u201d seria sempre a mesma e nunca foi l\u00e1 essas coisas. Mas, como ela est\u00e1 tamb\u00e9m em Scruton, a ele se aplica o pr\u00f3prio diagn\u00f3stico: \u201cPor debaixo do verniz civilizat\u00f3rio, todo homem tem dentro de si um animal \u00e0 espreita. Infelizmente, se esse verniz for arrancado, o animal vai mostrar a sua cara\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/www.quatrocincoum.com.br\/br\/resenhas\/p\/as-metamorfoses-do-conservadorismo?utm_campaign=oqel&#038;utm_source=Newsletter<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Angela Alonso &#8211; Obra de Roger Scruton mostra as v\u00e1rias facetas do pensamento conservador, mas se exime de discutir a desigualdade social. Olavo de Carvalho conta que lia Roger Scruton desde o in\u00edcio dos anos 1990, fascinado com sua habilidade de converter \u00edcones intelectuais da esquerda \u201cao estado de m\u00famias\u201d. 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